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D. João d’Azevedo, poeta, prosador, jornalista, etc, activo em meados do século XIX, está hoje completamente esquecido. É um epigrama de afiada verve publicado em O Trovador que me faz recordá-lo.


Sendo virtualmente impossível encontrar informação on-line sobre o homem, socorro-me de Camilo Castelo-Branco para deixar aos leitores um retrato do autor, e simultaneamente fruir a fina ironia da escrita de Camilo.


O fragmento que a seguir transcrevo encontra-se no livro No Bom Jesus do Monte, volume que além de ser todo ele de leitura apetecível para quem tiver curiosidade sobre a vida na província minhota por essa época, descreve outras peripécias com o nosso autor de hoje, além das citadas a seguir:

 

 

Em Braga, naquele tempo [1850], entre os sujeitos de nascimento ilustre e dotes de alta inteligência primava D. João de Azevedo, poeta e prosador, jornalista, romancista e dramaturgo. Eu tinha-o visto no Porto, hospedado em casa de Rodrigo Nogueira Soares, embrulhado na coberta da cama, de cócoras entre os cobertores, às duas horas da tarde, falando das delícias bucólicas duma madrugada. D. João adivinhava admiravelmente a formosura duma aurora de Julho, que ele nunca tinha visto. As suas alvoradas não lhas anunciava o regorgeio dos passarinhos: era o tilintar dos talheres na mesa de jantar.
Desmentia ele triunfantemente os que dizem que as cabeças dos dorminhocos, cerradas de vapores, carecem da lucidez da ideia e fluência da palavra. D. João d’Azevedo, com as pálpebras ainda quebradas do langor do sono, e a preguiça a estirar-lhe a inércia dos músculos, encadeava frases com suma elegância, elegância de ironia, de sátira,
descaridosa com as fragilidades humanas; mas, de fora parte a maledicência, perdoável a ouvidos de rapazes, que lhe desculpavam os seus bons quarenta anos, era  sedutor!

 

in Camilo Castelo-Branco, No Bom Jesus do Monte, 1864, pg. 26-27.
Modernizei a ortografia.

 

 

 

Epigrama

O homem chora mal nasce,
Adulto chora também;
Curvado já sobre a campa,
Mais dor no peito inda tem

 

Aos vinte chora porque ama,
Aos trinta ver-se iludido;
E quando desce ao sepulcro,
Até por ter existido.

 

 

in O Trovador,  colecção de poesias contemporâneas redigidas por uma sociedade d’académicos, Coimbra, 1848, pg. 303.

 

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Paul Cézanne (1839-1906), Homem fumando cachimbo de 1892.

Pareceu-me adequado ao espírito do poema o ar meditativo do homem pintado por Cézanne.

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