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O mais singular livro dos livros
É o Livro do Amor;
Li-o com toda a atenção:
Poucas folhas de alegrias,
De dores cadernos inteiros;
Apartamento faz uma secção,
Reencontro! um breve capítulo,
Fragmentário. Volumes de mágoas
Alongados de comentários,
Infinitos, sem medida.
Ó Nisami ! – mas no fim
Achaste o justo caminho;
O insolúvel, quem o resolve?
Os amantes que tornam a encontrar-se.

De Divan Ocidental-Oriental (West-Östlichen Divan (1814-1836)) de J. W. Goethe (1749-1832) vem esta síntese dos efeitos do amor na vida de cada um, retomando as admiráveis lições de Rumi e Omar Khayyam, de condensar supremos ensinamentos nos versos de um pequeno poema.

Reflexão de maturidade sobre o amor, este Divan de Goethe dá conta de como viver o amor nos muda o mundo:

Que maravilha é ver
Que maravilha é ver todo este mundo!
Mais belo que nenhum é o mundo dos poetas:
Variegados, claros ou prateados, ao fundo,
Os campos, dia e noite, têm luzes a brilhar.
Tudo me é belo, hoje; pudesse assim ficar!
Para ver hoje assim, o Amor me deu lunetas.

Remetendo directamente para a poesia de Omar Khayyam, vem este

Se estou sozinho

Se estou sozinho,
Que melhor cantinho?
O meu vinho
Bebo-o sozinho,
Ninguém me põe impedimentos,
E  tenho os meus próprios pensamentos.

Ao falar em Omar Khayyam a propósito deste poema de Goethe, poderia recordar tantos dos seus ruba’iyat, mas retenho este ruba’i em especial:

Dizem-me: “Não bebas mais, Kayam!”
Eu respondo: “Ao beber
ouço o que me dizem as rosas   as tulipas e os jasmins
escuto mesmo aquilo que a minha amada não me pode dizer”

Não sei se seria o caso com Goethe e Marianne von Willemer, que, quando afastado dela lhe aconteceria:
escuto mesmo aquilo que a minha amada não me pode dizer

Foi para esta Marianne von Willemer que o poeta escreveu em 15 de Setembro de 1815 a metáfora da fusão de dois amantes simbolizada na folha de Gingko Biloba:
Será um ser vivo apenas / Em si mesmo em dois partido?
Serão dois que se elegeram / E nós julgamos num unidos?

Gingko Biloba

A folha desta árvore que de Leste
Ao meu jardim se veio afeiçoar,
Dá-nos o gosto de um sentido oculto
Capaz de um sábio edificar.

Será um ser vivo apenas
Em si mesmo em dois partido?
Serão dois que se elegeram
E nós julgamos num unidos?

Para responder às perguntas
tenho o sentido real:
Não vês por meus cantos como
Sou uno e duplo, afinal?

Deixo-vos com o que suponho ser o fac-simile do poema:

Noticia bibliográfica
As traduções dos poemas de Goethe são de Paulo Quintela, e constam da 2ªedição corrigida de Poemas publicada em 1958 Por Ordem da Universidade de Coimbra.

A poesia de Omar Khayyam consta da antologia O vinho e as Rosas – Antologia de poemas sobre a embriaguês organizada por Jorge Sousa Braga e luxuosamente editada por Assírio & Alvim em 1995.

Para o nome deste poeta não encontrei grafia normalizada, e surge nas edições em livro tanto Omar Kayam ou Khayyam, como Umar-i Kahayyam, ou em espanhol, Omar Jayyam.

 

Nota Final

Este artigo foi antes publicado no blog em Junho de 2012.

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