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Quem parte leva saudades, quem fica saudades tem, é um provérbio adequado a estes dias de despedidas de fim de verão.
Oportunidade de reencontros afectivos, as férias de verão são, para alguns, ainda uma forma de gozar este tempo na repetição  das rotinas de vilegiatura que durante longos anos fizeram tradição.

Desde sempre, com pontuais excepções, passei as férias de verão na praia, e chegado Setembro, começam as despedidas entre quem talvez se reencontre no próximo ano. E é nesta perspectiva que as saudades surgem, trazidas pelos afastamentos ditados pelas responsabilidades da vida, a que o despreocupado tempo de verão deu folga. Dessas saudades fala o poema-carta de Bulhão Pato (1828-1912) que a seguir transcrevo.

É uma carta saudosa de quem viu partir os que ama, e recorda as irrelevâncias afectivas que nos enchem a alma, com o desejo final que o afastamento não traga consigo o esquecimento: Y nó te olvides de mi!
Na sua simplicidade tocante, o poema dá conta de sentimentos límpidos, do afecto dos pequenos acontecimentos, e da emoção dos nadas do quotidiano vivido na companhia de quem se ama.

CARTA

Quando partiste ainda havia
Um sol como de verão.
Partiste, e logo a invernia
— Triste do meu coração —
Rompeu de cara sombria.

Mar que vias da janela,
Tão sereno e tão azul,
Torvo ao largo se encapela
Com as lufadas do sul,
Dando núncios da procela.

Uma avesita arribada,
Que à tarde poisou aqui,
Soltou um pio magoada;
Como eu as tenho de ti
Teve saudades, coitada!

Saudades… se breve espero
Ver-te, que estás a dois passos?
Sempre a um pai é desespero
Não ter a filha nos braços,
E eu como a filha te quero.

De passagem te direi
Que ontem, descendo o valado,
Com a casa defrontei,
E, vendo tudo fechado,
Por vergonha não chorei.

Quando do alto do casal
Me avistavam da janela,
Que alegria triunfal! …
Eras tu, e a Filomela,
E os lenços num vendaval!

— «Depressa, que o tio espera,
Jantar na mesa, são horas.»
E a tentar cara severa,
E rindo como as auroras
Dos dias da primavera!

Agora vêm da invernia
As cordas d’água puxadas
Na força da ventania,
E essas janelas cerradas,
E eu sem a vossa alegria!…

Já nem sei o que escrevi…
Vou fechar a carta. Adeus!
Guarda um beijo para ti,
Dá-me um abraço nos teus,
Y nó te olvides de mi!

1899.

 

in Faíscas de fogo morto, Tipografia da Academia Real das Ciências, Lisboa, 1908.

Acompanham o artigo imagens de pinturas de Joaquín Sorolla (1863-1923).

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