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vicio da poesia

Category Archives: Poetas e Poemas

Mimosa boca errante – poema de Carlos Drummond de Andrade

21 Quarta-feira Set 2011

Posted by viciodapoesia in Erótica, Poetas e Poemas

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Carlos Drummond de Andrade

No mundo da poesia e nos acasos da leitura, leio em sequência dois poetas rigorosamente contemporâneos, Miguel Torga (1907-1995) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), poetas em que a poesia e o humor não podiam estar mais afastados.

Não aproveitou Miguel Torga, do Brasil, apesar de para lá ter partido criança e regressado jovem adulto, aquela ligeireza com que se dizem coisas graves e sérias, como Drummond amplamente praticou. E de certeza escondeu dos olhos do público as pulsões que o sexo lhe inspirou e apenas timidamente afloram em alguma da sua poesia, caso das Odes que semanas atrás transcrevi aqui no blog.

Foi diferente com Carlos Drummond de Andrade. Reuniu para publicação póstuma (O amor natural, 1992) um vasto acervo de belíssima poesia erótica onde os tabus estão ausentes.

É desse surpreendente e atordoador livro de poesia que transcrevo um dos poemas que sobre o assunto do soneto Beija-me, minha alma, doce espelho e guia,  o génio de Carlos Drummond de Andrade concebeu, talvez mais de quinhentos anos depois dele ter sido escrito, dando conta das continuidades que fazem com que a poesia seja um universal comum à humanidade.

 

Mimosa boca errante

Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delicias
que fruto e boca se permitem, dádiva.

Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereçes
a seu volume e jato apaixonados,
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?

Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a liquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh, chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

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Câmara Ardente de Miguel Torga

20 Terça-feira Set 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Miguel Torga

Uma turbada emoção surpreendeu-me hoje ao ler Câmara Ardente de Miguel Torga (1907-1995).
O poeta estava na curva dos cinquenta, idade de balanço em que a esperança na vida por vir teima em permanecer.

Olhar para trás, olhar em volta, é inevitável. O encontro com a nossa circunstância nem sempre é fácil.

E o cavalo do tempo a galopar…
Ninguém pode detê-lo.
Vê-lo,
É ver, a sonhar,
Um relâmpago a rasgar
O céu dum pesadelo
…


Transcrevo quase ao acaso alguns poemas. Dão conta da interrogação perante si e o mundo, num falar poético repleto de contida emoção.

Lastro

Depois da noite, o dia, a claridade!
A benção de acordar
E de ter vida!
Olhar
E descobrir a eternidade
Em cada contingência renascida.

A música concreta dos ruídos…
A frescura dos frutos orvalhados…
O perfume da brisa que perpassa…
E os sentidos
Felizes, excitados
Como podengos que farejam caça.

Assim dentro de nós o sol nascesse
E apagasse
Nessa madrugada,
A teimosa e penosa consciência
Da existência
Passada!

Calendário

Pregados na parede da memória,
Os dias do passado
Amarelecem.
Folhas mortas dum bloco de emoções,
Solto-as ao vento da melancolia.
Seis de Outubro, um de Abril,
Ano tal, ano tal, e a mais bela manhã primaveril
Desfeita numa pústula outonal!

A inútil persistência de viver!
O erro de lutar
Por qualquer duração!
Mesmo antes do
Letes
conhecido,
Todo o sonho,
Ou gemido,
Ou alegria,
É uma data vazia
No sepulcro do tempo decorrido.

Colóquio

Duvida das palavras…
Nunca disseram nada.
Palmeiras no deserto
Da expressão,
O mais que dão
É sombra aos sentimentos,
Nos momentos
Em que o sol é uma cruz de expiação.


Ouve o silêncio – a voz universal.
Só ele é o verdadeiro confidente
Do coração de tudo.
Poeta angustiado
E penitente,
Mudo
A teu lado
É que eu sou transparente…

Encontro

Rasgo todos os véus da minha vida,
Como quem despe a noiva em pensamento.
Eterno adolescente, desatento
Aos adultos conselhos da razão,
Violento
O pudor que lhe vela a imperfeição.

Quero a sua nudez desencantada,
Bosque sem folhas, onde a claridade
Desça à raiz das sombras e as desfaça.
Quero ver a pureza
Da impureza,
A intima brancura da desgraça.

E descubro o que sou no que ela é:
O triste dia a dia
Deste absurdo humano:
Erguida pelo vento da loucura,
Uma onda à procura
De oceano.

Viagem

Aparelhei o barco da ilusão
E reforçei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

E os poemas surgem-nos ordenados no livro como um olhar de balanço numa simbólica:

Câmara Ardente

Serve-se no presente
Dum símbolo futuro…
Um frio prematuro
De mortalha
Coalha
A inspiração
Que animava o seu canto.
Não morreu. Mas enquanto
A vida lhe negar um novo sol,
Mais quente e mais fecundo,
Não vislumbra outra imagem
Da intima paisagem
Deste mundo…

CÂMARA ARDENTE foi publicado em 1962, em Coimbra.

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A EROS e outras odes de Miguel Torga (1907-1995)

04 Domingo Set 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Miguel Torga

A EROS (versão de 1946)

Eros é o Pai, o Adão!

A terra onde começa o paraíso!

O delírio pagão

Pedido pela seiva em seu juízo!

Eros é o sangue, o lume!

O principio da vida!

A impunidade que se ri do gume

Da lança da pureza, erguida!

E cobrem-no de folhas e vergonha!

E apaga-se com medo a sua chama!

Único Deus que sonha

Na nossa própria cama!

Pela primeira vez transcrevo no blog poesia de Miguel Torga (1907-1995). É um poeta mal amado hoje, se é que alguma vez foi um poeta amado.

A produção é irregular e muitos dos versos são duros, à maneira da dureza de um Filinto Elísio, e acusam o esforço de produzir poesia a partir de uma ideia de poema, ao invés de esperar a visita da inspiração.

No entanto, a sua obra contém alguns belos poemas que vale a pena procurar sobretudo nas páginas dos primeiros volumes do Diário ou no conjunto dos Poemas Ibéricos.

Transcrevo agora outra ode, desta vez ao fogo:

AO FOGO (versão de 1946)

Abre o teu riso mais ainda,

Fogo da vida, lume da alegria!

Queima a tristeza toda, finda

À penumbra vazia!

Arde com mais calor em cada hora,

Chama da inspiração!

Sobe da terra ao céu, devora

A lenha que secou de solidão!

Bebe, bebe de um trago

A líquida prudência que te apaga!

Com ágil mão de mago,

 Transforma água de poços numa vaga!

Fogueira aberta! Rosa

Nem mística, nem pálida, nem branca!

Deusa que apenas goza

A mortalha que arranca!

Na edição original as odes são constituidas por quartetos de versos que a formatação do wordpress não me permitiu respeitar, prejudicando, com isso a leitura dos poemas.

Estas odes foram publicadas pela primeira vez em ODES, em 1946, edição Coimbra Editora, na 1ªedição do livro. Posteriormente, quando da 3ªedição revista de ODES, o poeta procedeu a substanciais alterações: desapareceu a ODE À NATUREZA, e chegaram de novo uma ode A ORFEU e uma ode À TERRA.

A ode AO FOGO desapareceu, tal como a transcrevi acima e reapareceu um outro poema com o mesmo título, que a seguir transcrevo. Perdeu-se assim aquele belissimo … devora /  A lenha que secou de solidão!

 

AO FOGO (versão de 1956)

Chama da inspiração, que me devoras,

Alarga o teu abraço ao mundo inteiro!

Reduz o pesadelo destas horas

A um braseiro

De amor!

Funde no teu calor

A montanha de gelo e de tristeza

Que nos oprime o corpo e o coração.

E que a grande fogueira da beleza

Seja o sol duma nova redenção!

 

A ode A EROS teve alteração menos radical, pois apenas foi substituido o segundo quarteto e onde havia:

Eros é o sangue, o lume!

passámos a ter:

Eros é puro amor.

 

A EROS  (versão de 1956)

Eros é o Pai, o Adão!

A terra onde começa o paraíso!

O delírio pagão

Pedido pela seiva em seu juizo!

 

Eros é puro amor.

O desejo despido

O ímpeto de sangue e de calor

Que resgata o instinto adormecido.

 

E cobrem-no de folhas e vergonha!

E apaga-se com medo a sua chama!

Único Deus que sonha

Na nossa própria cama!

 

Estamos pois, de uma edição para outra, perante quatro belissimos poemas sobre as leis da matéria, na linguagem transparente e críptica cara ao poeta.

 

Termino esta digressão pelas ODES de Miguel Torga com a ode A VÉNUS, que sofreu entre as duas edições que agora comparamos, uma pequena modificação nos versos 16 e 17.

Entremos então neste canto a Vénus, Deusa nua e perfeita / Que incendeias a carne e a ressuscitas,/ … / Quem se pode salvar sem te sentir / Quente e marmórea no seu leito?

 

 

A VÉNUS

Deusa nua e perfeita

Que incendeias a carne e a ressuscitas,

Que tornas viva, activa, insatisfeita,

No final da colheita,

A matriz corroída que visitas:

 

Vem outra vez ao triste acampamento

Destes pobres mortais!

Vem, nesse primaveril deslumbramento,

Trazida pela bruma e pelo vento

Da morada das fontes naturais!

 

Molhada pelo mar salgado e frio,

Sai da concha e passeia

A regar de frescura, amor e cio,

O deserto vazio

Desta areia!

 

Porque és tu o mito redentor!

És a flor

Que há-de chegar a fruto!

És a poesia, o sol, o fogo eterno

A aquecer cada inverno

Que fecha o céu da vida no seu luto.

 

Deusa!

Mulher e aparição num corpo só!

Seios, umbigo, coxas e cabelos

Que são fios abertos de novelos

Onde se aperta a seiva como um  nó.

 

Presença virginal e fecundada,

Quem se pode salvar sem te sentir

Quente e marmórea no seu leito?

Senhora, concubina e namorada,

Ver-te despida é já de si despir

O sarro morto que se tem no peito!

 

Da penumbra do tempo vem teu nome

Cinzelado na pedra da verdade;

Da raiz desse tempo vem a fome

Dum beijo submisso que nos dome

À sua maternal humanidade.

 

Lodo e ternura, lume e arte.

Um seio que dê sonho e alimente!

O desejo a buscar-te,

A condição a dar-te,

E toda a lama do prazer ausente!

 

Na própria chama acesa

Arde a lenha do mal.

Arde, e fica a certeza

Do haloque circunda a realeza

Que toca cada coisa natural.

 

Vem, grega sabedoria dos sentidos!

Sem pecado e sem vício, mostra erguidos

Os instintos, a forma e a paixão!

Filha de artistas e da natureza,

Só te pede a beleza

Quem a traz a bater no coração!

 

Os versos 16 e 17 na edição original de 1946 eram:

Porque és tu a terra do renovo!

És o ovo

 

E concluo com estes versos extraídos da ode À BELEZA:

Um milagre, uma luz, uma harmonia, / Uma linha sem traço… / Mas sem corpo, sem pátria e  / em familia, / Tudo repousa em paz no teu regaço!

Acompanha o artigo um desenho de Dubois feito quando da campanha Napoleónica no Egipto e representa o deus MIN, deus pré-dinástico que em tempos primitivos foi conhecido como “Chefe do Paraíso”.

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Elegia da Minha Infância de José Maria Valverde (1926-1996)

03 Sábado Set 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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José Maria Valverde

Sabe bem trazer em nós a sensação de que continuamos o menino que fomos. Significa  que julgamos ainda ter ao nosso alcance a possibilidade da despreocupada harmonia dum mundo que nos surge perfeito na distância a que o vemos. Por isso percebo o apelo de José Maria Valverde(1926-1996):

 Oh, Senhor, aquele menino que era eu, /suplica-te, morto,/que o deixes viver no meu presente um pouco!


Escreve isto José Maria Valverde no seu poema Elegia da Minha Infância, e, noutro passo, dá-nos a sua visão da plenitude de ser quando escreve:

Só vivo por completo quando volto a menino.

 acrescentando depois:

 Que continue em mim, Deus meu – como tu nos dizias -,/ e viverei completamente,/ e sentirei plenamente a vida,/ e serás o meu assombro virginal cada manhã…/

Elegia da Minha Infância


Eis a minha fotografia de criança
a cravar em mim meus olhos, mais profundos que nunca,
com uma coisa vaga
pousada entre as mãos, distraídas e leves.
É o banco de pedra
– os pés não chegando ao chão ainda –
do parque de meus sonhos infantis
onde o sol era amigo
e a areia tomava
um tacto de mãe velha e conhecida.


… Guardo a imagem turva
de um menino que, de repente, se distrai
no meio dos jogos
e ao poente fica pensativo
a escutar o rumor distante das ruas…


O mundo ia nascendo pouco a pouco
para mim unicamente.
A terra era uma alegre maçã de merenda,
um balão de cores inesperado.
Os pássaros cantavam porque eu estava a ouvi-los,
as árvores nasciam quando eu abria os olhos…


E os medos, depois…
Tudo podia ser no escuro do quarto.
Ao fundo do corredor
pulsava todo o negro deste mundo,
todas as vagas forças inimigas,
todas as negações…


Alma da minha infância!
Só vivo por completo quando volto a menino.
Que outra revelação maior do que essa
do mundo e da vida em minhas mãos?
(… quando todas as coisas eram como palavras…)
Que sonho como aquele
de pressentir do limiar da alma
os dias a esperar-me?


Oh, Senhor, aquele menino que era eu,
suplica-te, morto,
que o deixes viver no meu presente um pouco!
Que continue em mim, Deus meu – como tu nos dizias -,
e viverei completamente,
e sentirei plenamente a vida,
e serás o meu assombro virginal cada manhã…


A tradução a partir do castelhano é de José Bento, e foi incluida na já aqui diversas vezes citada Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea publicada por Assírio & Alvim.

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Lembrar a poesia de Manuel da Fonseca no ano do centenário

02 Sexta-feira Set 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Baptista-bastos, Manuel da Fonseca

É talvez chegado o tempo para a poesia de Manuel da Fonseca (1911-1993), afastadas que estão as circunstâncias do combate ideológico e politico de que ela foi bandeira.

As teses académicas, a fortuna e o desprezo, fizeram o seu caminho. É tempo de a ler despidos os preconceitos ideológicos, e seguir, nesta poesia descritiva, a encantatória melodia das palavras.

Escolho o poema MALTÊS, que abriu o livro Planície publicado na colecção neo-realista Novo Cancioneiro, julgo que em 1941.

Nesta história de vida de um Maltês, (será que ainda há quem sabe quem eram?) passa, no pudor de uma forma contida, a dimensão da tragédia de um homem, indomável, em luta para existir, quando nada tem de seu.

Segui-mo-lo na busca pelo caminho – esses outros caminhos que só eu sei – (al andar se hace el camino, escreveu por estas alturas António Machado), no confronto com o poder e na rendição ao mais forte:

 – E enquanto eles redobravam / sobre o meu corpo tombado, / adormecido  / eu descansava  / de tão longa caminhada!…

No percurso surge o amor entrevisto num olhar, e  poucas vezes teremos tido em português a paixão pelo olhar, tão cara à poesia portuguesa desde o século XVI, como nestes versos:

– Que nunca mulher alguma / se rendeu mais a um homem / que a moça do rosto claro /ao cruzar os olhos pretos / com o meu olhar de rei!

MALTÊS

I

Em Cerromaior nasci.

 

Depois, quando as forças deram

para andar, desci ao largo.

Depois, tomei os caminhos

que havia e mais outros que

depois desses eu sabia.

 

E tanto já me afastei

dos caminhos que fizeram,

que de vós todos perdido

vou descobrindo esses outros

caminhos que só eu sei.

II

Veio a guarda com a lei

no cano das carabinas.

 

Cercaram-me num montado;

puseram joelho em terra;

gritaram que me rendesse

à lei dos caminho feitos.

Mas eu olhei-os de longe,

 o rosto apenas virado,

que só vi em meu redor

dez pobres ajoelhados

perante mim, seu senhor.

III

Gente chegou às janelas,

saíram homens à rua:

 – as mães chamaram os filhos,

bateram portas fechadas!

 

E eu, o desconhecido,

o vagabundo rasgado,

entrei o largo da vila

entre dez guardas armados;

– mais temido e mais amado

que o deus a que todos rezam.

– Que nunca mulher alguma

se rendeu mais a um homem

que a moça do rosto claro

ao cruzar os olhos pretos

com o meu olhar de rei!

IV

…E vendo que eu lhes fugia

assim de altiva maneira

à sua lei decorada,

lá,

longe do sol e da vida,

no fundo duma cadeia,

cheios de raiva me bateram.

 

Inanimado,

tombei por fim a um canto.

 

E enquanto eles redobravam

sobre o meu corpo tombado,

adormecido

eu descansava

de tão longa caminhada!…

Quando da morte do escritor, Baptista-Bastos evocou o amigo no jornal Público. Refere a dado passo um episódio que, pela exemplaridade, nos dá uma medida do homem por detrás do poeta, e que aqui transcrevo:

Em outra ocasião, meados dos anos 50, as aflições de dinheiro levaram-no a tentar um emprego que lhe garantisse o arredondar da conta no final do mês. Falou com Aquilino Ribeiro, editorialista de “O Século” e da intimidade de João Pereira da Rosa. “Um lugarzito até como telefonista, na redacção do matutino”, foi a modesta solicitação. O encontro entre o todo-poderoso patrão de “O Século” e Manuel da Fonseca foi aprazado. E Manuel compareceu.

O gabinete de Pereira da Rosa era enorme, grave e intimidante, a condizer com o temperamento e o carácter do director do jornal. Pereira da Rosa recebeu-o com manifesta melancolia: “Sabe, senhor… como disse que se chamava? Manuel Fernandes? Luis da Fonseca? Sabe? A imprensa portuguesa está a atravessar uma crise medonha, terrível…” Manuel da Fonseca sentia-se muito pouco à vontade, mas escutava, atento e paciente, o estendal de misérias preocupantes. Dizia Pereira da Rosa: “Quando vou a Paris, e vou a Paris com frequência, coloco-me junto das saídas do metro, e que vejo? Vejo os franceses a comprar dois ou três jornais, duas ou três revistas, que lêem e atiram, depois, para o caixote do lixo. Em Madrid, em Barcelona, em Roma, a mesma coisa. Aqui é uma desgraça. Uma grande e dolorosa desgraça. As pessoas  compram um jornal, por exemplo, à porta dos cafés, pagam metade do preço aos ardinas e, depois devolvem o exemplar, que vai para devoluções, claro, empobrecendo, cada vez mais, as empresas. Uma desgraça sem solução aparente, senhor Luís Fonseca ou Manuel, desculpe-me, não tenho boa memória para nomes…”

Lentamente, muito lentamente, Manuel da Fonseca ergeu-se da cadeira onde, discreto, estivera sentado. Meteu a mão no bolso, extraiu de lá a última nota de vinte escudos que possuía, estendeu-a a João Pereira da Rosa e disse: “Desculpe a modéstia da oferta, senhor Roseira da Prosa, mas é a esmola que lhe posso dar para acudir aos seus infortúnios.”

As histórias, os episódios, os acontecimentos que protagonizou ou de que foi testemunha activa são numerosos. Manuel da Fonseca encarnou uma época, representou um estilo e criou uma personagem tão lendária e tão fabulosa quanto aqueles que amava e que transfigurou, sem desfigurar, em páginas e páginas admiráveis.

Em ano do centenário aqui fica, parcialmente, este texto notável, arquivado entre as páginas de um jornal diário e esquecido na voragem da edição seguinte.

O texto saiu no Público de 12 de Março de 1993.

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Alguns gostam de poesia – um poema de Wislawa Szymborska

28 Domingo Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Wislawa Szymborska

A aventura polaca que há dias aqui contei fez-me ir à poesia de Wislawa Szymborska (1923) poetisa de Cracóvia e Prémio Nobel da Literatura em 1996, para com ela referir o que permanece uma surpresa de todos os dias:

 Alguns gostam de poesia

Alguns –

quer dizer nem todos.

Nem a maioria de todos, mas a minoria.

Excluindo escolas, onde se deve

e os próprios poetas,

serão talvez dois em mil.


Gostam –

mas também se gosta de canja de massa,

gosta-se da lisonja e da cor azul,

gosta-se de um velho cachecol,

gosta-se de levar a sua avante,

gosta-se de fazer festas a um cão.


De poesia –

mas o que é a poesia?

Algumas respostas vagas

já foram dadas,

mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro

como a um corrimão providencial.


A tradução é assinada por Elizbieta Milewska e Sérgio das Neves e foi publicada na Antologia Alguns gostam de poesia em edição da Cavalo de Ferro, 2004.

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María la portuguesa: Carlos Cano, Amália e um poema de Manuel Machado

28 Domingo Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à música, Poetas e Poemas

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Amália, Carlos cano, Manuel Machado

Enquanto nas terras do sul, embalo-me no espirito e memória do lugar. Vai mar, vai comida, vai paisagem. E poesia em castelhano.

Aproveito para discretear um pouco e partilhar com os leitores o que em Portugal é provavelmente segredo conhecido apenas de alguns: as canções de Carlos Cano (1946 – 2000).

Passaram em Dezembro último 10 anos sobre a morte deste Filho Predilecto de Andaluzia, Carlos Cano, cantautor como dizem os espanhóis, e poeta. Voltou a dar vida a géneros populares se não esquecidos, pelo menos desprezados, tal a copla andaluza.

Da copla escrevia Manuel Machado a Jorge Guillen:

Procura tú que tus coplas / vayan al pueblo a parar e também: y cuando las canta el pueblo, / ya nadie sabe el autor.

Cantou Carlos Cano em El rey Al-Mutamid le dice adiós a Sevilla, o poeta-rei de Sevilha Al-Mutamid, nascido em Beja e governador em Silves, e de quem já aqui deixei poesia. Musicou os poemas de Lorca de Diván del Tamarit, entre uma vasta colecção de fandangos, tangos, boleros, rumbas e outros géneros populares.

María la portuguesa, canção de homenagem a Amália, é uma comovente simbiose do canto andaluz com o fado que aqui podereis ouvir por Carlos Cano sozinho e em dueto com Amália Rodrigues.

Carlos Cano – Maria La Portuguesa

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/01+-+Carlos+Cano+-+Maria+La+Portuguesa.mp3

 

Carlos Cano – María la portuguesa – com Amália

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/12+Carlos+Cano+-+Mar%C3%ADa+la+portuguesa+-+com+Am%C3%A1lia.mp3

 

Para não perder o gosto deixo um poema de Manuel Machado (1874-1947), irmão de António Machado, de cuja poesia já me aproximei aqui no blog.

 O poema, singelo, apenas recomenda a humildade da Poesia perante o povo e as suas tradições:

Que, al fundir el corazón /en el alma popular, / lo que se pierde de nombre / se gana de eternidad.

Agora o poema:

La Copla

Hasta que el pueblo las canta,
las coplas, coplas no son,
y cuando las canta el pueblo,
ya nadie sabe el autor.

Tal es la gloria, Guillén,
de los que escriben cantares:
oír decir a la gente
que no los ha escrito nadie.

Procura tú que tus coplas
vayan al pueblo a parar,
aunque dejen de ser tuyas
para ser de los demás.

Que, al fundir el corazón
en el alma popular,
lo que se pierde de nombre
se gana de eternidad.

Enjoy enquanto a poesia não regressa ao blog com a erudição do costume. Tempo de férias é tempo de preguiçar.

Aí fica esta mão cheia de cancões de Carlos Cano.

El Rey Al-Mutamid dice adios a Sevilla

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/05+El+Rey+Al-Mutamid+dice+adios+a+Sevilla.mp3

La rumba del pai pai

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/01+La+rumba+del+pai+pai.mp3

Habaneras de la Habana

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/02+Habaneras+de+la+Habana.mp3

Cueca de los querubines

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/03+Cueca+de+los+querubines.mp3

Sevillanas de Chamberi

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/04+Sevillanas+de+Chamberi.mp3

Me llaman sudaca

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/05+Me+llaman+sudaca.mp3

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As Caricias e Separação – 2 poemas de Manuel Altolaguirre

27 Sábado Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Manuel Altolaguirre

Num remanso de nadar e ler entretenho estes dias de sol e mar.  O tempo sobra e a vontade de escrever recrudesce com consequência directa aqui. Surgem em catadupa os artigos e muito mais fica pelo caminho, pois a reserva de poesia que trouxe comigo não cobre a variedade do que me acorre ao espirito.

Fruto do que me propus ler neste tempo, têm sido sobretudo os poetas espanhóis do século XX os contemplados nas escolhas. Não sendo conhecedor profundo da obra de todos eles, dispenso-me do enquadramento dos poemas no conjunto do que produziram, e que outros referem talvez com propriedade, e associo-os apenas aos acidentes de quotidiano que me levam a considerá-los, tal os dois poemas de Manuel Altolaguirre (1905-1959) que hoje escolho.

São poemas que referem o calendário de uma afeição:

Quando no tempo de sedução e paixão, lê-se em Las Caricias:

Qué música del tacto / Las caricias contigo!

Que música do tacto / As caricias contigo

Vejamos o inicio da coisa pelos caminhos do corpo:

Las Caricias

Qué música del tacto

Las caricias contigo!

Qué acordes tan profundos!

Qué escalas de ternuras,

De durezas, de goces!

Nuestro amor silencioso

y oscuro nos eleva

a las eternas boches

que separam altíssimas

los astros más distantes.

Qué música del tacto

las caricias contigo!

Chegada a Separação encontramos:

 

Minhas venturas de outrora / com a dor de hoje ali contrastam.

Allí mis pasadas dichas / con mi pena de hoy contrastan.

 

Que juntos os dois estávamos! / Quem o corpo?Quem a alma?

Qué juntos los dos estábamos! / Quién el cuerpo? Quién el alma?

 

Numa linguagem de pudor somos levados do calor da paixão à desolação do afastamento:

 

Nossa ultima despedida, / que morte foi tão amarga!

Nuestra separación última, / qué muerte fue tan amarga!

 

Leiamos o poema completo:

 

SEPARACIÓN

Mi soleded llevo dentro,

torre de ciegas ventanas.

Cuando mis brazos extiendo

abro sus puertas de entrada

e doy camino alfombrado

al que quiera visitarla.

Pintó el recuerdo los cuadros

que decoran sus estancias.

Allí mis pasadas dichas

con mi pena de hoy contrastan.

Qué juntos los dos estábamos!

Quién el cuerpo? Quién el alma?

Nuestra separación última,

qué muerte fue tan amarga!

Ahora dentro de mí llevo

mi alta soledad delgada.

E agora a sua tradução por José Bento

 

Separação

Levo em mim a solidão,

torre de cegas janelas.

Quando meus braços estendo

abro suas portas de entrada

e dou caminho macio

a quem quiser visitá-la.

Pintou a lembrança os quadros

que enfeitam as suas salas.

Minhas venturas de outrora

com a dor de hoje ali contrastam.

Que juntos os dois estávamos!

Quem o corpo?Quem a alma?

Nossa ultima despedida,

que morte foi tão amarga!

Dentro de mim levo agora

a solidão alta e delgada.

Manuel Altolaguirre, poeta integrado pela critica no grupo da geração de 27, foi editor, argumentista do filme de Luis Bunuel, Subida al Cielo, e realizador do que chamou cine-poema sobre El Cantar de los Cantares na versão de Frei Luis de Leon.

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Pandémica e Celeste – um poema de Jaime Gil de Biedma

25 Quinta-feira Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Jaime Gil de Biedma

Neste balanço ligeiro e grave com que vou preenchendo o blog, procuro seguir uma verdade interior acompanhando as oscilações do quotidiano, pois todos os dias comemos, todos os dias defecamos, nem todos os dias fodemos, mas todos os dias alguém ou alguma coisa nos fode o juízo.
No lidar com os dias há  uma tentativa sempre renovada de recriar uma espécie de harmonia do mundo primordial, onde a presença da mulher, real ou imaginada, é uma constante.
A vida levou-me a acreditar que o melhor que pode acontecer a um homem é a presença de uma mulher sexualmente satisfeita. Tê-la assim a nosso lado traz uma beleza ao universo para além de quaisquer considerações de cultura, fazendo de cada um de nós um príncipe sem rival. Acreditem ou não, vale a pena procurá-lá e conservá-lá.

Ocorreu-me tudo isto ontem quando, estendido na espreguiçadeira na praia, um pouco afastado, um casal a caminho dos setenta anos, muito provavelmente, repousava, lendo. A certa altura a senhora pousou a revista e num gesto de impulso estendeu a mão e acaricou a cabeça e o pescoço do homem que ao lado lia na intimidade do silencio de ambos.

Pensei de novo como a morte não é senão o fim do sonho de envelhecer juntos.

É de alguma forma do mesmo que fala Jaime Gil de Biedma (1929-1990) no poema Pandémica e Celeste que aqui deixo na versão de José Bento.

Imagina agora que eu e tu
muito tarde na noite
falamos de homem para homem, finalmente.
Imagina-o,
numa dessas noites memoráveis
de rara comunhão, com a garrafa
meio vazia, os cinzeiros sujos,
e depois de esgotado o tema da vida.
Que te vou mostrar um coração,
um coração infiel,
nu da cintura para baixo,
leitor hipócrita – mon semblable, – mon frère!


Porque não é a impaciência do buscador de orgasmo
quem me atira do corpo para outros corpos
jovens, se possível:
procuro também o doce amor,
o terno amor que adormeça a meu lado
e que alegre a minha cama ao despertar,
próximo como um pássaro.
Se jamais posso despir-me,
se nunca pude penetrar nuns braços
sem sentir – ainda que só por um momento –
igual deslumbramento que aos vinte anos!


Para saber de amor, para aprendê-ló,
ter estado sozinho é necessário.
E é necessário em quatrocentas noites
– com quatrocentos corpos diferentes –
ter feito amor. Que os seus mistérios,
como disse o poeta, são da alma,
Mas um corpo é o livro onde se lêem.


E por isso me alegro de me ter rebolado
sobre a areia espessa, os dois meio vestidos,
enquanto buscava esse tendão do ombro.
Comove-me a lembrança de tantas ocasiões…
Aquela estrada de montanha
e os bem empregados abraços furtivos
e o instante indefeso, de pé, após a travagem,
colados contra o muro, ofuscados pelas luzes.


Ou aquele entardecer perto do rio
nus e a rir-nos, coroados de hera.
Ou aquele portal em Roma – em via del Babuíno.
E lembranças de caras e cidades
quase desconhecidas, de corpos entrevistos,
de escadas sem luz, de camarotes,
de bares, de passagens desertas, de prostíbulos,
e de infinitas barracas de praia,
de fossos de um castelo.
Lembranças vossas, sobretudo,
oh noites de hotéis de uma só noite,
definitivas noites em sórdidas pensões,
em quartos recém-frios,
noites que devolveis aos vossos hóspedes
um esquecido sabor a si próprios!
A história em corpo e alma, como uma imagem destruída,
de la languer goutée à cê mal d’être deux.
Sem desprezar
– alegres como festa a meio da semana –
as experiências de promiscuidade.


Embora saiba que nada me valeriam
trabalhos de amor disperso
se não houvesse o verdadeiro amor.
Meu amor,
íntegra imagem da minha vida,
sol das próprias noites que lhe roubo.


Sua juventude, a minha,
– música de meu fundo –
sorri ainda na imprecisa graça
de cada corpo jovem,
em cada encontro anónimo,
iluminando-o. Dando-lhe uma alma.
E não há coxas formosas
que não me façam pensar em suas formosas coxas
quando nos conhecemos, antes de ir para a cama.


Nem paixão de uma noite de dormida
que possa comparar-se
com a paixão que dá o conhecimento
os anos de experiência
do nosso amor.
Porque em amor também
é importante o tempo,
e doce, de algum modo,
verificar com mão melancólica
sua perceptível passagem por um corpo
– enquanto basta uma expressão familiar
nos lábios,
ou a ligeira palpitação de um membro,
para me fazer sentir a maravilha
daquela graça antiga,
fugaz como um reflexo.


Sobre sua pele esvaída,
quando passem mais anos e estejamos no fim,
quero esmagar os lábios invocando
a imagem do seu corpo
e de todos os corpos que uma vez amei
ainda que um só instante, desfeitos pelo tempo.
Para pedir a força de poder viver
sem beleza, beleza, sem força e sem desejo,
enquanto continuamos juntos
até morrer em paz, os dois,
como dizem que morrem os que amaram muito.

A tradução foi publicada na Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, em 1985, em edição de Assírio & Alvim, com organização e tradução de José Bento.

Ainda que a tradução pouco se afaste do original, transcreveria o original em castelhano não fora a sua extensão, tornando o artigo de proporções ilegíveis no blog.

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Inventário de lugares propicios ao amor – poema de Ángel González (1925-2008)

24 Quarta-feira Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Angél Gonzalez

Com os cenários das descobertas eróticas da adolescência por perto, ocorre-me o poema de Ángel González, Itinerário de lugares propícios ao amor, na certeza de que alguns lugares sonhados são de todo inadequados. Por exemplo fazer amor na praia à beira-mar é tudo menos recomendável, mesmo dispondo de larga toalha. As voltas e reviravoltas da coisa acabam por trazer a areia para onde não deve e pode deitar tudo a perder quando o entusiasmo quer fazer esquecer tudo o resto. Pode ainda suceder um qualquer barco de pesca de beira-costa, andar por perto e ainda que estejamos numa praia deserta, surge súbito do mar para observar os inusitados movimentos entrevistos ao longe, como certa vez me aconteceu.

Há também em todos nós, julgo, ou pelo menos entre os que já experimentaram o prazer sublime de nadar nu no mar, o desejo de cópula marinha. Esqueçam. Ainda que o desejo exista e a erecção se mantenha, a lavagem constante da água do mar põe fim a qualquer lubrificação natural ou artificial tornando a expectativa de prazer em algo inalcansável, a menos que tenhais entrado no mar com considerável fornecimento de manteiga, o que nunca experimentei.

Feita esta pequena digressão deixo-vos com o poema Inventário de lugares propicios ao amor de Ángel González (1925-2008) na tradução de José Bento.

INVENTARIO DE LUGARES PROPÍCIOS AO AMOR

São poucos.

A primavera tem muito prestígio, mas

é melhor o verão.

E também essas fendas que o outono

forma ao interceder com os domingos

em algumas cidades

amarelas já por si como bananas.

O inverno elimina muitos sítios

gonzos de portas voltadas para o norte,

margens de rios,

bancos públicos.

Os contrafortes exteriores

das antigas igrejas

deixam às vezes vãos

utilizáveis, mesmo se cai neve.

Mas desenganemo-nos: as baixas

 temperaturas e os ventos húmidos

dificultam tudo.

As leis, além disso, proíbem

a carícia (com isenções

para determinadas zonas epidérmicas

– sem interesse nenhum –

em crianças, cães e outros animais)

e o “não tocar, perigo de ignomínia”

pode ler-se em milhares de olhares.

Então, para onde fugir?

Por toda a parte olhos vesgos,

córneas torturadas,

pupilas implacáveis,

retinas reticentes,

vigiam, desconfiam , ameaçam.

Resta talvez o recurso de andar só,

de esvaziar a alma de ternura

e enchê-la de tédio e indiferença,

neste tempo hostil, propício ao ódio.



O poema foi publicado na Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea editada por Assírio & Alvim em 1985.

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