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É talvez chegado o tempo para a poesia de Manuel da Fonseca (1911-1993), afastadas que estão as circunstâncias do combate ideológico e politico de que ela foi bandeira.

As teses académicas, a fortuna e o desprezo, fizeram o seu caminho. É tempo de a ler despidos os preconceitos ideológicos, e seguir, nesta poesia descritiva, a encantatória melodia das palavras.

Escolho o poema MALTÊS, que abriu o livro Planície publicado na colecção neo-realista Novo Cancioneiro, julgo que em 1941.

Nesta história de vida de um Maltês, (será que ainda há quem sabe quem eram?) passa, no pudor de uma forma contida, a dimensão da tragédia de um homem, indomável, em luta para existir, quando nada tem de seu.

Segui-mo-lo na busca pelo caminho – esses outros caminhos que só eu sei (al andar se hace el camino, escreveu por estas alturas António Machado), no confronto com o poder e na rendição ao mais forte:

 E enquanto eles redobravam / sobre o meu corpo tombado, / adormecido  / eu descansava  / de tão longa caminhada!…

No percurso surge o amor entrevisto num olhar, e  poucas vezes teremos tido em português a paixão pelo olhar, tão cara à poesia portuguesa desde o século XVI, como nestes versos:

Que nunca mulher alguma / se rendeu mais a um homem / que a moça do rosto claro /ao cruzar os olhos pretos / com o meu olhar de rei!

MALTÊS

I

Em Cerromaior nasci.

 

Depois, quando as forças deram

para andar, desci ao largo.

Depois, tomei os caminhos

que havia e mais outros que

depois desses eu sabia.

 

E tanto já me afastei

dos caminhos que fizeram,

que de vós todos perdido

vou descobrindo esses outros

caminhos que só eu sei.

II

Veio a guarda com a lei

no cano das carabinas.

 

Cercaram-me num montado;

puseram joelho em terra;

gritaram que me rendesse

à lei dos caminho feitos.

Mas eu olhei-os de longe,

 o rosto apenas virado,

que só vi em meu redor

dez pobres ajoelhados

perante mim, seu senhor.

III

Gente chegou às janelas,

saíram homens à rua:

 – as mães chamaram os filhos,

bateram portas fechadas!

 

E eu, o desconhecido,

o vagabundo rasgado,

entrei o largo da vila

entre dez guardas armados;

– mais temido e mais amado

que o deus a que todos rezam.

– Que nunca mulher alguma

se rendeu mais a um homem

que a moça do rosto claro

ao cruzar os olhos pretos

com o meu olhar de rei!

IV

…E vendo que eu lhes fugia

assim de altiva maneira

à sua lei decorada,

lá,

longe do sol e da vida,

no fundo duma cadeia,

cheios de raiva me bateram.

 

Inanimado,

tombei por fim a um canto.

 

E enquanto eles redobravam

sobre o meu corpo tombado,

adormecido

eu descansava

de tão longa caminhada!…

Quando da morte do escritor, Baptista-Bastos evocou o amigo no jornal Público. Refere a dado passo um episódio que, pela exemplaridade, nos dá uma medida do homem por detrás do poeta, e que aqui transcrevo:

Em outra ocasião, meados dos anos 50, as aflições de dinheiro levaram-no a tentar um emprego que lhe garantisse o arredondar da conta no final do mês. Falou com Aquilino Ribeiro, editorialista de “O Século” e da intimidade de João Pereira da Rosa. “Um lugarzito até como telefonista, na redacção do matutino”, foi a modesta solicitação. O encontro entre o todo-poderoso patrão de “O Século” e Manuel da Fonseca foi aprazado. E Manuel compareceu.

O gabinete de Pereira da Rosa era enorme, grave e intimidante, a condizer com o temperamento e o carácter do director do jornal. Pereira da Rosa recebeu-o com manifesta melancolia: “Sabe, senhor… como disse que se chamava? Manuel Fernandes? Luis da Fonseca? Sabe? A imprensa portuguesa está a atravessar uma crise medonha, terrível…” Manuel da Fonseca sentia-se muito pouco à vontade, mas escutava, atento e paciente, o estendal de misérias preocupantes. Dizia Pereira da Rosa: “Quando vou a Paris, e vou a Paris com frequência, coloco-me junto das saídas do metro, e que vejo? Vejo os franceses a comprar dois ou três jornais, duas ou três revistas, que lêem e atiram, depois, para o caixote do lixo. Em Madrid, em Barcelona, em Roma, a mesma coisa. Aqui é uma desgraça. Uma grande e dolorosa desgraça. As pessoas  compram um jornal, por exemplo, à porta dos cafés, pagam metade do preço aos ardinas e, depois devolvem o exemplar, que vai para devoluções, claro, empobrecendo, cada vez mais, as empresas. Uma desgraça sem solução aparente, senhor Luís Fonseca ou Manuel, desculpe-me, não tenho boa memória para nomes…”

Lentamente, muito lentamente, Manuel da Fonseca ergeu-se da cadeira onde, discreto, estivera sentado. Meteu a mão no bolso, extraiu de lá a última nota de vinte escudos que possuía, estendeu-a a João Pereira da Rosa e disse: “Desculpe a modéstia da oferta, senhor Roseira da Prosa, mas é a esmola que lhe posso dar para acudir aos seus infortúnios.”

As histórias, os episódios, os acontecimentos que protagonizou ou de que foi testemunha activa são numerosos. Manuel da Fonseca encarnou uma época, representou um estilo e criou uma personagem tão lendária e tão fabulosa quanto aqueles que amava e que transfigurou, sem desfigurar, em páginas e páginas admiráveis.

Em ano do centenário aqui fica, parcialmente, este texto notável, arquivado entre as páginas de um jornal diário e esquecido na voragem da edição seguinte.

O texto saiu no Público de 12 de Março de 1993.

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