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De entre os poemas que Jorge de Sena (1919-1978) escreveu ouvindo música, e publicou em Arte de Musica, poucos em meu entender penetram no essencial do ouvido como o poema dedicado à música para piano de Erik Satie (1866-1925), e não a uma peça particular como acontece com a generalidade dos poemas do livro.

Enquanto ouço alguma musica de Satie aproveito e transcrevo o poema

ERIK SATIE PARA PIANO

As notas vêm sós por harmonias

como de escalas que se cruzam

em sequências descontínuas de figuras

singelamente acorde surpreendido

de se encontrar num instante pensativo.

São como vagas vindo no perlado

tão diminutas, solitárias mas ligadas

de pura sucessão ocasional

que se rebusca em cálculos descaso

contrário ao hábito de estarem escritas,

ou juntas ou seguidas. Mas é como

se desde sempre este hesitante fluido

houvera de estar pronto a ser pensado

e a soar tranquilo em espaço diminuto

não por ser breve mas por ser silêncio

de uma memória em que a surpresa ecoa

lembranças perpassantes de quanto não foi,

não existiu, não foi vivido e entanto

pungente fere as águas espelhadas

onde de imagens passam vultos claros

em túnicas voando transparentes

e muito curtas sobre membros duros

que dançam devagar a dança juvenil

num salpicar de pés do tempo antigo.

9 Janeiro 72

Podeis aqui ouvir de Erik Satie com Reinbert de Leeuw ao piano: Petite ouverture à danser; Air de l’Ordre; Gnossiennes nº2; e uma das famosas  Gymnopédies, a nº2,

Petite ouverture à danser

Air de l’Ordre

 Gnossiennes nº2

Gymnopédies nº2

O poema foi transcrito de Poesia II publicado por Moraes Editores em 1978, onde se reedita Arte de Musica, sendo que o poema com outros nove não consta da primeira edição de Arte de Musica.

Segundo a nota do poeta: o poema não se reporta especialmente a peça alguma, a não ser, talvez às Gymnopédies e às Gnossiennes. Mas depende fortemente das belissimas gravações do pianista Aldo Ciccolini, da obra completa de Satie para piano.

Para continuada vergonha da edição portuguesa, a obra poética completa de Jorge de Sena continua ausente das livrarias.

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