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vicio da poesia

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A cadeira em dois poemas de Pedro Tamen

29 Domingo Jan 2012

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Pedro Tamen

Devo ao labor de tradutor de Pedro Tamen (1934), longas horas de prazer de leitura, mas é à sua poesia que hoje venho.
É vasta a  obra poética de Pedro Tamen (1934) e sobre ela não tive ainda a oportunidade de uma visão de conjunto. Encantam-me alguns poemas, mas um livro há que me toca de forma especial: Memória Indiscritível. Percorre-o uma atmosfera de despedida e peregrinação. Reflexivo na maior parte dos poemas, pareceria trazer um ponto final à obra poética que afinal, sabemos, não aconteceu.
A cadeira como pretexto e objecto poético não é muito frequente. De Memória Indescritível escolho 2 poemas em que a cadeira é ponto de partida, e onde uma  amarga ironia ao olhar o envelhecimento brilha.

I
Nesta cadeira me sento
é nela que me apresento,
mas menos do que me ausento,
tento, lamento, avelhento,
aqui me invento e rebento;
passo cordura de unguento
e alimento o alento
da vida de sono e pão.

Desta cadeira prossigo
para um outro nó pascigo,
já sem perigo nem abrigo,
amigo como inimigo,
com meu já perdido umbigo
de só nascer por castigo:
ali de vez eu te irrigo,
cintilante coração.

II
Sento-me na cadeira
e olho para o chão:
mesmo à minha
beira abre-se o vulcão

onde o fogo assume
sua condição
de rubro negrume
sem limitação,

sem mira que veja
onde acaba a mão
que tem a bandeja
do vinho e do pão.

Mesmo que não queira,
sorvido me sumo:
desfaz-se a cadeira
e eu desfeito em fumo.

Nota bibliográfica
Memória Indescritivel de Pedro Tamen foi publicado por  GÓTICA, Lisboa, 2000

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Almada Negreiros – Manifesto Anti-Dantas lido pelo poeta

19 Quinta-feira Jan 2012

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Almada negreiros

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/Almada+Negreiros+-+manifesto+Anti-Dantas.mp3

MANIFESTO ANTI-DANTAS e por extenso

por

José de Almada Negreiros Poeta d’Orpheu Futurista E Tudo

Todos os meus livros devem ser lidos pelo menos duas vezes para os muito inteligente e daqui para baixo é sempre a dobrar.
Basta pum basta!!!
Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!
Abaixo a geração!
Morra o Dantas, morra! Pim!
Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!
Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em seco!
O Dantas é um cigano!
O Dantas é meio cigano!
O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!
O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!
O Dantas é um habilidoso!
O Dantas veste-se mal!
O Dantas usa ceroulas de malha!
O Dantas especula e inocula os concubinos!
O Dantas é Dantas!
O Dantas é Júlio!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d’Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz!
E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu!
O Dantas é um ciganão!
Não é preciso ir pró Rossio pra se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!
Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever!
O Dantas é um autómato que deita pra fora o que a gente já sabe o que vai sair… Mas é preciso deitar dinheiro!
O Dantas é um soneto dele-próprio!
O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum.
O Dantas nu é horroroso!
O Dantas cheira mal da boca!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas é o escárnio da consciência!
Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!
O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa!
O Dantas é a meta da decadência mental!
E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!
E ainda há quem lhe estenda a mão!
E quem lhe lave a roupa!
E quem tenha dó do Dantas!
E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero!
Vocês não sabem quem é a soror Mariana do Dantas? Eu vou-lhes contar:
A princípio, por cartazes, entrevistas e outras preparações com as quais nada temos que ver, pensei tratar-se de soror Mariana Alcoforado a pseudo autora daquelas cartas francesas que dois ilustres senhores desta terra não descansaram enquanto não estragaram pra português, quando subiu o pano também não fui capaz de distinguir porque era noite muito escura e só depois de meio acto é que descobri que era de madrugada porque o bispo de Beja disse que tinha estado à espera do nascer do Sol!
A Mariana vem descendo uma escada estreitíssima mas não vem só, traz também o Chamilly que eu não cheguei a ver, ouvindo apenas uma voz muito conhecida aqui na Brasileira do Chiado. Pouco depois o bispo de Beja é que me disse que ele trazia calções vermelhos.
A Mariana e o Chamilly estão sozinhos em cena, e às escuras, dando a entender perfeitamente que fizeram indecências no quarto. Depois o Chamilly, completamente satisfeito, despede-se e salta pela janela com grande mágoa da freira lacrimosa. E ainda hoje os turistas têm ocasião de observar as grades arrombadas da janela do quinto andar do Convento da Conceição de Beja na Rua do Touro, por onde se diz que fugiu o célebre capitão de cavalos em Paris e dentista em Lisboa.
A Mariana que é histérica começa a chorar desatinadamente nos braços da sua confidente e excelente pau de cabeleira soror Inês.
Vêm descendo pla dita estreitíssima escada, várias Marianas, todas iguais e de candeias acesas, menos uma que usa óculos e bengala e ainda toda curvada prá frente o que quer dizer que é abadessa.
E seria até uma excelente personificação das bruxas de Goya se quando falasse não tivesse aquela voz tão fresca e maviosa da Tia Felicidade da vizinha do lado. E reparando nos dois vultos interroga espaçadamente com cadência, austeridade e imensa falta de corda… Quem está aí?… E de candeias apagadas?
– Foi o vento, dizem as pobres inocentes varadas de terror… E a abadessa que só é velha nos óculos, na bengala e em andar curvada prá frente manda tocar a sineta que é um dó d’alma o ouvi-la assim tão debilitada. Vão todas pró coro, mas eis que, de repente, batem no portão sem se anunciar nem limpar-se da poeira, sobe a escada e entra plo salão um bispo de Beja que quando era novo fez brejeirices com a menina do chocolate.
Agora completamente emendado revela à abadessa que sabe por cartas que há homens que vão às mulheres do convento e que ainda há pouco vira um de cavalos a saltar pla janela. A abadessa diz que efectivamente já há tempos que vinha dando pela falta de galinhas e tão inocentinha, coitada, que naqueles oitenta anos ainda não teve tempo pra descobrir a razão da humanidade estar dividida em homens e mulheres. Depois de sérios embaraços do bispo é que ela deu com o atrevimento e mandou chamar as duas freiras de há pouco com as candeias apagadas. Nesta altura esta peça policial toma uma pedaço d’interesse porque o bispo ora parece um polícia de investigação disfarçado em bispo, ora um bispo com a falta de delicadeza de um polícia d’investigação, e tão perspicaz que descobre em menos de meio minuto o que o público já está farto de saber – que a Mariana dormiu com o Noel. O pior é que a Mariana foi à serra com as indiscrições do bispo e desata a berrar, a berrar como quem se estava marimbando pra tudo aquilo. Esteve mesmo muito perto de se estrear com um par de murros na coroa do bispo no que se mostrou de um atrevimento, de uma insolência e de uma decisão refilona que excedeu todas as expectativas.
Ouve-se uma corneta tocar uma marcha de clarins e Mariana sentindo nas patas dos cavalos toda a alma do seu preferido foi qual pardalito engaiolado a correr até às grades da janela gritar desalmadamente plo seu Noel. Grita, assobia e rodopia e pia e rasga-se e magoa-se e cai de costas com um acidente, do que já previamente tinha avisado o público e o pano cai e o espectador também cai da paciência abaixo e desata numa destas pateadas tão enormes e tão monumentais que todos os jornais de Lisboa no dia seguinte foram unânimes naquele êxito teatral do Dantas.
A única consolação que os espectadores decentes tiveram foi a certeza de que aquilo não era a soror Mariana Alcoforado mas sim uma merdariana-aldantascufurado que tinha cheliques e exageros sexuais.
Continue o senhor Dantas a escrever assim que há-de ganhar muito com o Alcufurado e há-de ver que ainda apanha uma estátua de prata por um ourives do Porto, e uma exposição das maquetes pró seu monumento erecto por subscrição nacional do “Século” a favor dos feridos da guerra, e a Praça de Camões mudada em Praça Dr. Júlio Dantas, e com festas da cidade plos aniversários, e sabonetes em conta “Júlio Dantas” e pasta Dantas prós dentes, e graxa Dantas prás botas e Niveína Dantas, e comprimidos Dantas, e autoclismos Dantas e Dantas, Dantas, Dantas, Dantas… E limonadas Dantas- Magnésia.
E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.
E fique sabendo o Dantas que se todos fossem como eu, haveria tais munições de manguitos que levariam dois séculos a gastar.
Mas julgais que nisto se resume literatura portuguesa? Não Mil vezes não!
Temos, além disto o Chianca que já fez rimas prá Aljubarrota que deixou de ser a derrota dos Castelhanos pra ser a derrota do Chianca.
E as pinoquices de Vasco Mendonça Alves passadas no tempo da avózinha! E as infelicidades de Ramada Curto! E o talento insólito de Urbano Rodrigues! E as gaitadas do Brun! E as traduções só pra homem do ilustríssimos excelentíssimo senhor Mello Barreto! E o frei Matta Nunes Moxo! E a Inês Sifilítica do Faustino! E as imbecilidades do Sousa Costa! E mais pedantices do Dantas! E Alberto Sousa, o Dantas do desenho! E os jornalistas do Século e da Capital e do Notícias e do Paiz e do Dia e da Nação e da República e da Lucta e de todos, todos os jornais! E os actores de todos os teatros! E todos os pintores das Belas-Artes e todos os artistas de Portugal que eu não gosto. E os da Águia do Porto e os palermas de Coimbra! E a estupidez do Oldemiro César e o Dr. José de Figueiredo Amante do Museu e ah oh os Sousa Pinto hu hi e os burros de cacilhas e os menus do Alfredo Guisado! E o raquítico Albino Forjaz de Sampaio, crítico da Lucta a quem Fialho com imensa piada intrujou de que tinha talento! E todos os que são políticos e artistas! E as exposições anuais das Belas-Artes! E todas as maquetas do Marquês de Pombal! E as de Camões em Paris; e os Vaz, os Estrela, os Lacerda, os Lucena, os Rosa, os Costa, os Almeida, os Camacho, os Cunha, os Carneiro, os Barros, os Silva, os Gomes, os velhos, os idiotas, os arranjistas, os impotentes, os celerados, os vendidos, os imbecis, os párias, os ascetas, os Lopes, os Peixotos, os Motta, os Godinho, os Teixeira, os Câmara, os diabo que os leve, os Constantino, os Tertuliano, os Grave, os Mântua, os Bahia, os Mendonça, os Brazão, os Matos, os Alves, os Albuquerques, os Sousas e todos os Dantas que houver por aí!!!!!!!!!
E as convicções urgentes do Homem Cristo Pai e as convicções catitas do Homem Cristo Filho!…
E os concertos do Blanc! E as estátuas ao leme, ao Eça e ao despertar e a tudo! E tudo o que seja arte em Portugal! E tudo! Tudo por causa do Dantas!
Morra o Dantas, morra! Pim!
Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificação do país mas atrasado da Europa e de todo o Mundo! O país mais selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degredados e dos indiferentes! A África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos sobejos! Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia – se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!
Morra o Dantas, morra! Pim!
José de Almada Negreiros
Poeta d’Orpheu
Futurista E Tudo
1915

Nota

Na gravação aqui disponibilizada o poeta esclarece no final as circunstâncias da edição original do manifesto Anti-Dantas e os motivos da sua composição.

O auto-retrato do artista que acompanha o poema foi publicado no nº 2 da revista ATHENA editada por Fernando Pessoa em 1924.

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A horas mortas ouço Chopin

07 Sábado Jan 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Convite à música, Poetas e Poemas

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A horas mortas ouço Chopin

Desprende-se uma suave melancolia e as notas correm no teclado da alma

Entra no ar o sabor cálido e doce da ternura

Acaricia-se o silencio no sorriso emocionado do prazer

 

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/CHOPIN++Ballade+N+1+in+G+minor+op+23.mp3

 

Alto

Deixado a pensar

Permanece inebriado o canto silencioso

Do amor

 

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/CHOPIN+-+Nocturne+in+C+sharp+minor+op+posthume.mp3

Nota

Despido o pudor, acompanho estas minhas criações com musica de Chopin nos dedos mágicos de Alexadre Tharaud.

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O cansaço de Álvaro de Campos

06 Sexta-feira Jan 2012

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Álvaro de Campos, Fernando Pessoa

20120106-185928.jpg

Estou cansado, é claro

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto-
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo…
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço –
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas –
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada –
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço…

Não, não é cansaço…

Não, não é cansaço…
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo…

Não, cansaço não é…
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta –
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como…
Sim, ou por sofrer como…
Isso mesmo, como…

Como quê?…
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!…

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Saudação da Aurora com Juan Ramón Jiménez

01 Domingo Jan 2012

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Juan Ramón Jimenéz

Abro o ano de 2012 com esta Saudação da aurora de Juan Ramón Jiménez (1881-1958) fazendo meu o seu conselho, talvez adaptado do Sânscrito como a publicação original refere.

Saludo del alba

Cuida bien de este día! Este día es la vida, la esencia misma de la vida. En su leve transcurso se encierran todas las realidades y todas las variedades de tu existencia: el goce de crecer, la gloria acción y el esplendor de la hermosura.
El día de ayer no es sino un sueño y el de mañana es sólo una visión. Pero un hoy bien empleado hace de cada ayer un sueño de felicidad y de cada mañana una visión de esperanza. Cuida bien, pues, de este día!

(del Sánscrito)

Saudação da aurora

Cuida bem deste dia! Este dia é a vida, a essência mesma da vida. No seu breve transcurso encerram-se todas as realidades e todas as variedades da tua existência: o gozo de crescer, a gloria da acção e o esplendor da formosura.
O dia de ontem não é senão um sonho e o de amanhã é só uma visão. Mas um hoje bem empregado faz de cada ontem um sonho de felicidade e de cada amanhã uma visão de esperança. Cuida bem, pois, deste dia!

(do Sânscrito)

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Almada Negreiros — A invenção do dia claro (fragmento)

31 Sábado Dez 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Almada negreiros

Desejo aos leitores do blog, para 2012, toda a felicidade com que nem se atreveram a sonhar.

Entrei numa livraria. Puz-me a contar os livros que ha para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.

Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido., e nesta convicção, resolvi fotografar gaivotas.

Deixo-vos com algumas dessas fotos e despeço-me deste 2011 com um fragmento de A INVENÇÃO DO DIA CLARO de Almada Negreiros (1893 – 1970).

A invenção do dia claro (inicio do texto)

Entrei numa livraria. Puz-me a contar os livros que ha para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.

Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido.

No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas muito bem vestidas de quem precisa salvar-se.

* * * * *

Comprei um livro de filosofia. Filosofia é a sciencia que trata da vida; era justamente do que eu necessitava–pôr sciencia na minha vida.

Li o livro de filosofia, não ganhei nada, Mãe! não ganhei nada.

Disseram-me que era necessario estar já iniciado, ora eu só tenho uma iniciação, é esta de ter sido posto neste mundo á imagem e semelhança de Deus. Não basta?

* * * * *

Imaginava eu que havía tratados da vida das pessoas, como ha tratados da vida das plantas, com tudo tão bem explicado, assim parecidos com o tratamento que ha para os animaes domesticos, não é? Como os cavalos tão bem feitos que ha!

Imaginava eu que havia um livro para as pessoas, como ha hostias para cuidar da febre. Um livro com tanta certeza como uma hostia. Um livro pequenino, com duas paginas, como uma hostia. Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com a morada e o dia.

* * * * *

Não achas, Mãe? Por exemplo. Ha um cão vadio, sujo e com fome, cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas.

Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si–não saber cuidar de si é ser cão.

Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele soube cuidar de si!

Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma arvore! quando ha uma arvore. Assim, inteiro, sem adjectivos, só de uma peça: Um homem!

* * * * *

Mas eu andei a procurar por todas as vidas uma para copiar e nenhuma era para copiar.

Como o livro, as pessoas tinham principio, meio e fim. A principio o livro chamava-me, no meio o livro deu-me a mão, no fim fiquei com a mão suada do livro de me ter estendido a mão.

Talvez que nos outros livros… mas os titulos dos livros são como os nomes das pessoas–não quere dizer nada, é só para não se confundir…

* * * * *

Na montra estava um livro chamado «O lial conselheiro». Escrito antigamente por um Rei dos Portuguezes! Escrito de uma só maneira para todas as especies de seus vassalos!

Bemdito homem que foi na verdade Rei! O Mestre que quere que eu seja Mestre!

Eu acho que todos os livros deviam chamar-se assim: «O lial conselheiro»! Não achas, Mãe?

O Mestre escreveu o que sabia–por isso ele foi Mestre. As palavras tornaram presentes como o Mestre fazia atenção. Estas palavras ficaram escritas por causa dos outros tambem. Os outros aprendiam a ler para chegarem a Mestres–era com esta intenção que se aprendia a ler antigamente.

* * * * *

Sonhei com um paíz onde todos chegavam a Mestres. Começava cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha á escuta do universo; em seguida, fabricava desde a materia prima o papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da tinta negra dos chócos; gravava letra por letra o tipo com que compunha as suas palavras; e arrancava da arvore a prensa onde apertava com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.

* * * * *

Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa–salvar a humanidade.

 

———-   fim do extracto ————

Nota

Conservei  a ortografia da edição original de 1921

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Quixote: Cervantes, Portinari, Drummond

26 Segunda-feira Dez 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Carlos Drummond de, Cândido Portinari

Pelos caminhos volto / à procura de Sancho / para de novo Sancho / saber-me e conferir-me / com dobrado prazer.

Assim termina o Solilóquio da Renúncia , uma das 21 glosas poéticas de Carlos Drummond de Andrade a um conjunto de 21 desenhos de Cândido Portinari sobre cenas do Dom Quixote de Cervantes.

Foram leitores do Brasil os últimos a visitar o blog ontem. Do Brasil foram hoje os primeiros leitores a chegar. E lembrando o Brasil me chegou como prenda de Natal este belo livro. Mais que falar dele, o melhor é mostrá-lo. Eis o conjunto dos desenhos, em reproduções de fraca qualidade, infelizmente, e algumas das glosas poéticas de Carlos Drummond de Andrade.

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Na ambivalência que me habita, umas vezes Sancho, outras Quixote, vejamos se Volto pelos caminhos / à procura de mim / que de mim se perdera / …

 

 Sagração

Rocinante

pasta a erva do sossego.

 

A Mancha inteira é calma.

A chama oculta arde

nesta fremente Espanha interior.

 

De giolhos e olhos visionários

me sagro cavaleiro

andante, amante

de amor cortês a minha dama,

cristal de perfeição entre perfeitas.

 

 

Daqui por diante

é girar, girovagar, a combater

o erro, o falso, o mal de mil semblantes

e recolher, no peito em sangue,

a palma esquiva e rara

que há-de cingir-me a fronte

por mão de Amor-amante.

 

A fama, no capim

que Rocinante pasta,

se guarda para mim, em tudo a sinto,

sede que bebo, vento que me arrasta.

 

 

 

Exdruxularias de Amor Penitente 

Neste só, nestas brenhas

Aonde não chega a música

da voz de Dulcinéia

que por mim não suspira

e mal sabe que existo,

vou fazendo penitência

                               de amor.

Vou carpir minhas penas,

vou comover as rochas

com lavá-las de lágrimas,

vou rompê-las a grito,

ensandecer as águias,

cativar hipogrifos

e acarinhar serpentes,

                               vou

arrancar minhas vestes

de ferro e de grandeza

Esacar os calções

e de gâmbias de fora,

documentos do sexo

cinicamente à mostra,

para que aves e plantas

desfrutem o espectáculo,

farei micagens mil,

plantarei bananeiras

e darei cambalhotas,

saltos mortais vitais

de amor

                de amor

                               de amor.

 

Disquisição na Insónia

Que é loucura ser cavaleiro andante

                ou segui-lo, como escudeiro?

De nós dois, quem o louco verdadeiro?

                O que, mesmo vendado,

                vê o real e segue o sonho

de um doido pelas bruxas embruxado?

Eis-me, talvez, o único maluco,

e me sabendo tal, sem grão de siso,

sou – que doideira – um louco de juizo.

 

 

Solilóquio da Renúncia

Volto pelos caminhos

à procura de mim

que de mim se perdera

ao me sentir governo.

Governar, que besteira,

afrouxelado cárcere

de insónias e cuidados.

Que vale policiar

o interesse dos homens,

puni-los ou premiá-los,

se do poder, escravo

se tornou Sancho, o livre

lavrador de outros tempos,

que em seu boi, seu rafeiro,

suas roças meninas

e tudo que cabia

num alqueire de terra

fundara seu império

                e nele

governava a si mesmo?

Pelos caminhos volto

à procura de Sancho

para de novo Sancho

saber-me e conferir-me

com dobrado prazer.

 

 

Noticia bibliográfica.

O conjunto de desenhos de Cândido Portinari, a lápis de cor sobre papel, foi feito na sequência do conselho médico ao pintor, de abandonar as tintas por correr risco de intoxicação fatal.

As glosas poéticas de Carlos Drummond de Andrade foram publicadas no livro com o título D. Quixote: Cervantes, Portinari, Drummond, em  1º edição no Brasil, em 1972, pela editora Diagraphis, numa edição de 200 exemplares, assinada, e hoje raridade bibliográfica.

As transcrições dos poemas e a reprodução dos desenhos foram feitas a partir da 1ªedição portuguesa, Publicações D. Quixote, Lisboa, 2005.

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Apetecia-me escrever um belo verso – Irene Lisboa

20 Terça-feira Dez 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Irene Lisboa, João Falco

Agora que o Outono se despede, apenas um poema de Irene Lisboa (1892-1958).

 

Apetecia-me escrever um belo verso.

Sonoro, elegante, correcto, de mármore!

Nele pôr o que outros me inspirassem.

O que ali aquele poeta estava cantando.

Ele o cantava e eu o repetia.

Acrescentava, desdobrava, acrescia da minha ansiedade.

Mas verso bem feito!

Cheio do que se sonha, não do que se sente.

Parece-me pobre o que sinto.

E vulgar.

Estes olhos que sem querer se envidraçam, fúteis, sem recato, infantis, esta voz

   [insegura, enfim, tudo isto…

Que figura iriam fazer dentro de um verso elegante, lapidar?

Belo verso trair-te-iam, roubar-te-iam toda a graça e até a ressonância, o êxtase

[e aquela espécie de embalo que ao espírito sempre dás.

Mas sinceramente me apetecia escrever um verso de mármore belo!

Tudo, tudo por causa daquele poema…

 

 Poema publicado por Irene Lisboa em Outono havias de vir latente e triste, com o pseudónimo de João Falco, Lisbos, Seara Nova, 1937.

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Um sorriso trazido por Ferreira Gullar e mais poesia erótica

18 Domingo Dez 2011

Posted by viciodapoesia in Erótica, Poetas e Poemas

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Ferreira Gullar

Desde que espreite o desejo e o sujeito seja poeta, o erótico ganha a palavra da poesia. E do incensado autor do Poema Sujo, trago-vos algo mais terno e sabiamente contado: o sorriso que conta.

UM SORRISO

Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas

quando
com o meu aceso archote e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?


que busco eu
em fogo
aqui embaixo?
senão colher com a repentina
mão do delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?

 

Para não deixar o(a) leitor(a) sedento(a), acrescento mais dois poemas eróticos:

 

SORTILÉGIO

Estava eu ali

no escuro e

                de repente

                o silêncio se move

 

                enruga-se, melhor

                dizendo, e me

                roça as virilhas                

                (onde dormiam fúrias)

 

É quando uma

quase voz me toca

o lado esquerdo

do corpo para onde

me volto

e estás ali

nua

                emergias da treva

as coxas o ventre

os seios

                               eram luas encantadas

                               e do centro

                               do teu corpo

                               a macia estrela negra

me chamava

para dentro de si

enquanto o teu rosto menino

espantosamente familiar

sorria a me dizer: jamais

                               jamais jamais

                               escaparás

COITO

Todos os movimentos

                do amor

                são noturnos

mesmo quando praticados

                à luz do dia

 

Vem de ti o sinal

                no cheiro ou no tato

que faz acordar o bicho

                em seu fosso:

                na treva, lento,

                se desenrola

                                               e desliza

em direcção a teu sorriso

 

Hipnotiza-te

com seu guizo

                               envolve-te

em seus anéis

corredios

                   beija-te

                   a boca em flor

e por baixo

    com seu esporão

  te fende te fode

 

e se fundem

no gozo

 

depois

desenfia-se de ti

 

                   a teu lado

                   na cama

                   recupero minha forma usual.

Noticia bibliográfica

UM SORRISO pertence ao livro NA VERTIGEM DO DIA (1975-1980), SORTILÉGIO e COITO integram o livro POEMAS RECENTES. Todos os poemas foram transcritos de Obra Poética publicada em 2003, em Portugal, por edições quasi.

 

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Sentadas, as memórias

18 Domingo Dez 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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viciodapoesia

O acolhimento às poesias ressuscitadas de gavetas esquecidas, leva-me a mostrar mais este pequeno ciclo de memória resguardada.

I

Sentada sobre a saudade

olha num pasmo infantil as horas

e o seu passar. Por vezes

chora lembranças

em mansos rios de ternura.

 

Arquiva como poemas

nos jornais do coração

os sonhos

e transforma o existir

em vagas promessas vãs.

 

 

II

Passam as horas caídas

sobre o novelo do tempo

mas permanecem paradas

as memórias consentidas.

Não partem nem deixam esquecer.

Impõem no seu silêncio

a tirania da vida

revivida sem sossego

nas mansas recordações.

 

 

III

Lugares de recordação peregrinam pela alma

trazem fantasmas do tempo,

invernos de nostalgia,

e conversam com a vida

olhando o tempo a passar.

 

 

IV

Visito assombrado os anos

ao acordar das memórias

num receio mudo e quedo

de despertar tempestades

na inércia confortável

dos dias no seu fluir.

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