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Love Story e outros poemas de Egito Gonçalves

20 Segunda-feira Jan 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Egito Gonçalves

Mestre de Ferrara retrato de familia 1480 Munique AEntre mulheres e lugares correm os poemas do livro de Egito Gonçalves (1920-2001) E no entanto move-se, que hoje visito.

O livro, publicado em Lisboa em 1995 por Quetzal Editores, recebeu prestigiados prémios quando da publicação: Prémio de Poesia do Pen Clube, Prémio Eça de Queirós,  Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, e suponho, é hoje um livro esquecido. Se é o caso, é pena. São belos os poemas, há uma sinceridade que emociona, e por vezes, à pouca importância que o poeta a si se atribui subjaz uma cauta ironia que convida o leitor a continuar.

Abro com uma Love Story a contrario: relato desencantado do amor tão só como possibilidade, ou antes, de uma busca do amor que se perdeu nos mistérios da paixão que foge, como a todos tantas vezes acontece.

Love Story

Nunca encontrámos

o lugar onde o amor se forma.

 

Tentámos, aceitando os desencontros,

dançámos em torno,

arrepiámos uma breve carícia,

separámos-nos

sem descobrir o que haveria a descobrir,

o que haveria a atravessar:

uma montanha, um túnel,

ou mina ou arco

de uma ponte.

 

Agora contemplo uma cama

vazia

flutuando numa barragem

longe do lugar

que poderíamos ser.

 

Muitas coisas se partilharam,

as palavras não eram pedras,

o vento alguma vez

nos juntou os cabelos.

Nunca encontrámos

o lugar onde o amor se arma.

 

Foram pedaços de muita coisa:

quando os queria colar

sempre algum era arrastado pela chuva,

sempre algum se perdia em lençóis de sombra.

 

A imagem de cada um de nós

nunca foi suficiente

para criar no outro o relâmpago,

o pássaro ígneo, delirante.

 

Nunca encontrámos

o percurso das águas,

o lugar onde o amor se firma.

10.9.91

Continuo a viagem com o cruzamento da vida com poesia, numa ida ao supermercado, ocupação que bem conheço, e aqui de alguma forma revejo.

Supermercado

No seu aniversário

           ela abriu uma lata de sidra

e comemorou a solidão

tornando a bebida ponto de partida

para um poema:

um presente que oferecia a si mesma.

O alimento tem muito a ver

com a poesia. No supermercado

havia hoje uma prateleira

            de garrafas de sidra

e isso levou-me a pensar

naquela história antiga. Decidi

que o estômago também se encontra no poema

enquanto avançava com o carrinho

pelo meio da multidão

olhando  de soslaio as pernas das mulheres

e de frente um salmão inteiro

que parecia acabado de sair da água.

Comprei-o para assar no forno,

distraindo-me assim de um labor

mais intelectual — afinal

a hora do meu próprio poema tinha passado

e os pensamentos insistiam em tropeçar

nas pernas das mulheres,

satisfeitos com a sua própria incoerência.

2.4.91

Mas, por mais que pernas dêem corda à imaginação,

Um rosto de mulher

é o meio que o coração encontra

para manter a sua sede.

 

Um chá, uma flor, uma paisagem,

 

uma romã aberta,

 

desaparecem na sombra

se não houver um rosto de permeio.

 

Não te queixes

do que supões ausência. Por agora

és tu que mantens o movimento.

 

Sem isso

nem o coração mais pulsaria.

Sábio conselho que não evita a solidão que um Inverno em Viena relata:

Inverno em Viena

Para me aquecer compro postais

(escreverei no aeroporto: a catedral,

um Klimt, um Egon Schiele…). Saio

novamente. A neve

domina a paisagem. Uma descida

lenta, flocos

cobrem no fim da rua o jardim público,

deserto, onde só dois corvos saltitam,

frenéticos,

bicando a neve. Começou

a levantar-se vento. Dou a volta

ao jardim. Regresso. A própria luz

treme de frio. Os dois corvos

continuam ali. Saltitam,

fazem pequenos furos

no colchão branco dos canteiros. Parece-me

o mais inútil dos trabalhos,

embora consciencioso! Mas

que sei eu de corvos? Viro

as costas ao vento. Começo

a tossir. Quatro agulhas de pinheiro

caem. Os corvos

esvoaçam.

5.9.91

Lê-se o livro e no final vem a pergunta: onde a poesia, onde a vida?

Elisabeta

Fiquei ao lado dela por acaso

e vi que me lançava o seu melhor sorriso

como se adivinhasse que eu era um português recém-liberto.

Tinha uns olhos lindos e rugas serenas

de mulher que moldou com segurança a própria vida

num mundo difícil e agressivo. Mais tarde

ofereceu-me um livro de poemas

que eu soube imediatamente serem bons

apesar da hostilidade dos caracteres cirílicos. Assinou

Sófia, Junho de 1977 — Elisabeta Bagriana.

Ao leitor que aqui chegou, terá talvez valido a pena a viagem, e por agora da poesia de Egito Gonçalves me despeço:

De ausência, o tempo sangra

num olhar líquido

mas a alegria não foi toda comida.

Resta ainda alguma

para escapar à morte, para

reinventar os dias. Vê no livro:

há-de haver receitas. Um vestido

estampado no ácido dos caminhos.

O coração bate sem pudor, lembra

gestos, caminhos que contornam

o abismo, desvios súbitos

para encontrar uma matriz.

Um nome que seja possível habitar

sobre um tapete que a alfândega

não descubra no imo do discurso.

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Szymborska e os nus de Rubens

15 Quarta-feira Jan 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Rubens, Wislawa Szymborska

Rubens_Rapto das filhas de LeucipoAAssistimos na arte barroca à representação do excesso. Surgem as pinturas em natureza-morta sobrecarregadas de géneros alimentares; pintam-se cenas de comezainas até ao entorpecimento, como as pintadas por Jan Steen (1626-1679) que há dias trouxe ao blog; o preciosismo e a sobrecarga de adereços no trajar de figurões socialmente importantes são mostrados em retratos hieráticos; e no nu temos as abundâncias carnais, de que as pinturas de Rubens (1577-1640) são o paradigma. Rubens earth-waterA1Para uma mulher  como Wisława Szymborska (1923-2012) em quem a parcimónia parece ser a marca de água, esta pintura não poderia deixar de impressionar, tanto mais quanto viveu o período central da sua vida na Polónia comunista onde a vida material correu entre dificuldades inenarráveis. E assim, num notável poema, Mulheres de Rubens, fala-nos ela de todo este excesso, exactamente a propósito das pinturas de nus femininos de Rubens. Não de uma representação em particular, mas de uma espécie de sobreposição carnal, de onde emerge o essencial da representação. Parte do poema desenvolve-se como comentário ao destino reservado a mulheres onde esta exuberância de carnes está ausente, e que a propria talvez tenha sentido com a sua figura fransina, ainda que as fotos mostrem um belo rosto de mulher.

rubens-1620ADeixo-vos com o poema em tradução de Julio Sousa Gomes e ao longo do artigo podem ver-se algumas dessas pinturas de excesso saídas do pincel de Rubens e seus ajudantes.

 rubens-1614-Venus_and_Adonis-ErmitazA

Mulheres de Rubens

Fauna mulheril de Arrasa-Montanhas,

nuas como um estrondo de barris.

Aninham-se em leitos amachucados,

dormem de bocas abertas como galos para cantar.

Fugiram-lhe as pupilas para as entranhas

e penetram no interior das glândulas,

cujos fermentos se espalham pelo sangue.

 

Filhas gradas do barroco. Cresce o bolo na masseira,

fumegam banhos, ruborescem vinhos,

leitões de neblina galopam no céu,

trompas estrondeiam num físico alarme.

 

Ó aboboradas, ó excessivas

e duplicadas pelo rejeitar das vestes,

e triplicadas pela pose truculenta,

ó gordas iguarias do amor!

 

As suas manas magras ergueram-se mais cedo

antes que no quadro a manhã clareasse.

E ninguém se deu conta da fila em que seguiram

pelo lado da tela por pintar.

 

Banidas do estilo. Costelas contadas,

natureza de ave nas nãos e nos pés.

Tentam erguer voo nas espáduas em quilha.

 

O século XIII dar-lhes-ia um fundo de ouro.

O século XX dar-lhes-ia ecrã de prata.

Em seiscentos não há nada para as chatas.

 

Eu diria até nédio o próprio céu,

nédios os anjos e nédia a divindade,

um bigodudo Febo que num suado

corcel vai penetrando na alcova ardente.

 Rubens_Peter_Paul-The_Three_GracesA1

Nota final

Para os leitores que os não conheçam, deixo os links para os artigos com pintura barroca de retrato, natureza-morta, e comezainas de Jan Steen.

Retrato barroco

Natureza-morta

Jan Steen

Rubens - Alegoria às bençãos da paz

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Querida – poema de Mang Ke com pintura de Zang Xiaogang

14 Terça-feira Jan 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Mang Ke, Zang Xiaogang

Zhang Xiaogang 00No eterno do amor e do seu relato poético, é das longínquas paragens da China de hoje que vem um poema do amor total, este Darling (título inglês) do poeta chinês Mang Ke (1951).

Mang Ke (1951) encontra-se entre os mais conhecidos poetas da China dos nossos dias. Incluido por alguns no grupo dos Misty Poets, foi co-fundador com o poeta Bei Dao da revista Today durante a Primavera de 1979 em Pequim. Encerrada pelo governo em 1980, esta revista teve papel fulcral na experimentação artística pós Revolução Cultural. Como tantos outros, também  Mang Ke (1951) viveu em exílio interno no campo, no período da Revolução Cultural.

Transcrevo a versão inglesa do poema, que conheço, e acompanho-a com uma minha aproximação em português.

 Zhang Xiaogang 01

Darling

If your body returns to its first form,

a small heap of yellow earth,

I’m still willing to lie on your full breasts

as I did in the beginning

I’m willing to turn into sunlight

to clothe you in a skin of sun

I’m willing to melt silently with you into one body

 

If your body turns to spring soil

I’m willing to surrender my own shape

to become water

I’m willing to be sucked up entirely

and with every feeling I have

to saturate your body

Zhang Xiaogang 05

Querida

Se o teu corpo regressar à primitiva forma:

um pequeno torrão de terra amarela,

jazerei sobre o teu peito

como no princípio aconteceu.

Disponível estou para em luz do sol me transformar

e numa capa solar te envolver.

Voluntária e silenciosamente me fundirei contigo num só corpo.

 

Se o teu corpo num regato se transformar

voluntariamente deixarei a minha forma

e serei água

disposto a ser sugado

e com com todo o meu sentir

saturar o teu corpo.

Zhang Xiaogang 04

Acompanham o artigo alguns dos extraordinários retratos de família pintados por Zang Xiaogang (1958) a partir de antigas fotos do tempo da Revolução Cultural.

 Zhang Xiaogang 02

Espantosos no misto de familiaridade e irrealidade que transmitem, dão a ver simultaneamente seres humanos e robots no que foi uma das grandes tragédias que parte da humanidade do século XX viveu. A esta pintura regressarei de forma mais circunstanciada.

Zhang Xiaogang 03

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Wisława Szymborska sobre o amor

03 Sexta-feira Jan 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Wislawa Szymborska

Carl_Spitzweg - Passeio ao campoAProfunda, deslumbrante na simplicidade da sua linguagem, com uma ironia onde a inteligência brilha, assim leio a poesia de Wisława Szymborska (1923-2012), de quem hoje transcrevo, para iniciar poeticamente 2014, esta reflexão sobre o amor feliz que não faz assunto de poesia.

 

Amor feliz

 

Amor feliz. Será normal,

será sério, será útil? —

que tem o mundo a ver com duas pessoas

que não vêem o mundo?

 

Erguidos ao céu sem mérito nenhum,

os melhores entre milhões e convencidos

que assim tinha que ser — a premiar o quê? Nada;

de algum ponto cai a luz —

e porquê logo sobre estes e não outros?

Ofenderá isto a justiça? Sim.

Perturbará os princípios estabelecidos com cuidado?

Derrubará do seu púlpito a moral? Perturba e derruba.

 

Olhem-me bem estes felizardos:

se ao menos se mascarassem um pouquinho,

fingissem melancolia dando assim algum ânimo aos amigos!

Ouçam bem como se riem — é um insulto.

A linguagem que usam — entendivel, pelos vistos.

E aquelas cerimónias, etiquetas,

obrigações rebuscadas um para o outro —

parece mesmo um acordo nas costas da humanidade.

 

É difícil até de prever no que daria

se um tal exemplo pudesse ser seguido.

Com que é que poderiam contar as religiões, a poesia,

de que nos recordaríamos, de que desistiríamos,

quem quereria pertencer ao círculo?

 

Amor feliz. Assim terá que ser?

Tacto e bom senso mandam omiti-lo

como a um escândalo nas altas esferas da Existência.

 

Tradução de Júlio Sousa Gomes. Transcrito de Paisagem com Grão de Areia, edição Relógio d’Água, Lisboa, Junho de 1998.

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Wrong (Errado) — linguagem do amor em 2013

29 Domingo Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Vasco Fernandes

Roy Lichtenstein - Nu pensativoTerá sido amar o mesmo para todas as gerações? Será amar, para a minha geração, o mesmo que para os jovens nos vinte anos, hoje? Falo de um amar que pressupõe o outro, a quem entregamos, e de quem recebemos, quando correspondido, a plenitude

Nenhuma outra linguagem fala de amor como a poesia, sabemos todos. Encontramos na poesia, entre antigos e modernos, expressões de um sentir que por vezes também é ou foi o nosso. A forma do dizer poético transmite essa emoção condensada por onde os sentimentos mais profundos circulam. E a palavra, tantas vezes, faz-se eco desse indizível que frequentemente nos apanha quando queremos dizer o que no mais fundo de nós grita.

Cada geração encontra a linguagem que faz sua para falar do amor, e afinal, é o eterno desejo de absoluto que exige.

No poema de um jovem de pouco menos de trinta anos, Vasco Fernandes (1985), encontro em meia-dúzia de versos o desejo da vida vivida a dois, na total fusão que o amor pressupõe, reclamada numa entrega sem subterfúgios ou desculpas.

Escrito originalmente em inglês, a versão portuguesa fica esbatida da força vocabular do original. Transcrevo ambas.

 

WRONG

 

– What’s wrong?

 

Wrong?

Do you want to hold my hand as we discover each cobble stone, each arch, each corner of Rome, Paris and Venice?

Do you want our fingers to intertwine for so long and so hard that our bones will show those marks long after we are gone?

Do you want to lay on your knees and give everything of you, with no shame, no regret, just joy?

Do you want to give yourself to pleasure and pain, night after night with no other hope but to stand closer than the night before?

Do you want to hate my enemies and love my friends with a vengeance and adoration so great that they surpass yours?

Do you want to say goodnight, with no heartache, no sorrow, and meet me in your dreams right until we say good morning?

Do you want to lay your head on my shoulder, to find there, and only there, your home?

No? Then that’s what’s wrong.

 
Versão em português

 

ERRADO

 

– O que é que se passa?

 

Passa?

Queres segurar-me a mão ao descobrir cada pedra, cada arco, cada recanto de Roma, Paris, Veneza?

Queres os nossos dedos entrelaçados por tanto tempo e com tal força, que os ossos mostrarão essas marcas muito depois de partirmos?

Queres prostrar-te de joelhos e dar tudo de ti, sem vergonha, sem arrependimento, só alegria?

Queres dar-te ao prazer e à dor, noite após noite, sem outra esperança a não ser ficar mais perto que na noite anterior?

Queres meus inimigos odiar e  meus amigos amar com vingança e adoração tais que ultrapassem os teus?

Queres dizer boa noite, sem angústia, sem tristeza, e encontrar-me nos teus sonhos até ao dizer bom dia?

Queres pousar a cabeça no meu ombro e encontrar ali, e só ali, a paz?

Não? Então é isso que se passa.

Jacqueline Fraser -La Cite Paris-2011-II

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Com poesia de E. E. Cummings depois do Natal

27 Sexta-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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E. E. Cummings, Manuel Bandeira

Iluminura 13x500Passada que está a atmosfera entre euforia de compras, coração aberto aos outros para encontrar a prenda que mostra a nossa gratidão, e a intensidade do sentimento religioso vivido por crentes, venho com poemas que falam de sonhos, de amor e do seu fim, e não da pungente realidade que afinal nos cerca. Mas pelas voltas caprichosas da poesia talvez não seja em vão pois:

na rua do firmamento a luz caminha espalhando poemas

Comecemos pelo amor

é em momentos depois de ter sonhado

com o raro entretenimento dos teus olhos,

quando(ficando aquém da ilusão)tenho pensado

 

na tua singular boca que o meu coração tornou sábio;

em momentos quando a cristalina escuridão sustenta

 

a verdadeira aparição do teu sorrir

(foi por entre lágrimas sempre)e o silêncio molda

essa estranheza que ainda há pouco como minha pude sentir;

 

momentos quando os meus outrora mais ilustres braços

estão cheios de encantamento,quando o meu peito

usa a intolerante luminosidade do teu regaço:

 

um agudo momento mais branco do que os outros

 

—voltando da terrível mentira do sono

vejo as rosas do dia crescerem recônditas.

continuando com o poeta:

e é dia,

 

no espelho

vejo um frágil

homem

sonhando

sonhos

sonhos no espelho

neste viver onde tudo cabe, do banal ao excepcional o dia corre,

e é

o anoitecer           sobre a terra

 

uma vela é acesa

e está escuro as pessoas estão em casa

o frágil homem está na cama

e pensa no amor fanado que é o seu:

pode não ser sempre assim;eu digo

que se os teus lábios,que amei,tocarem

os de outro,e os ternos fortes dedos aprisionarem

o seu coração,como o meu não há muito tempo;

se no rosto de outrem o teu doce cabelo repousar

naquele silêncio que conheço,ou naquelas

grandiosas contorcidas palavras que,dizendo demasiado,

permanecem desamparadamente diante do espírito ausente;

 

se assim for,eu digo se assim for—

tu do meu coração,manda-me um recado;

para que possa ir até ele,e tomar as suas mãos,

dizendo,Aceita toda a felicidade de mim.

E então voltarei o rosto,e ouvirei um pássaro

cantar terrivelmente longe nas terras perdidas.

mas a vida exige-nos, e regresso ao poema que pelo meio da conversa esquartejei:

as horas levantam-se despindo-se de estrelas e é

o amanhecer

na rua do firmamento a luz caminha espalhando poemas

 

sobre a terra uma vela é

apagada          a cidade

desperta

com uma canção sobre a

boca tendo a morte nos olhos

 

e é o amanhecer

o mundo

sai para assassinar sonhos….

 

vejo a rua onde vigorosos

homens se alimentam de pão

e vejo os brutais rostos de

pessoas contentes hediondas desalentadas cruéis felizes

 

e é dia,

 

no espelho

vejo um frágil

homem

sonhando

sonhos

sonhos no espelho

 

e é

o anoitecer           sobre a terra

 

uma vela é acesa

e está escuro as pessoas estão em casa

o frágil homem está na cama

a cidade

 

dorme com a morte sobre a boca tendo uma canção nos olhos

as horas descem,

vestindo-se de estrelas….

 

na rua do firmamento a noite caminha espalhando poemas

Os poemas, de E.E. Cummings (1894-1962), foram transcritos de livrodepoemas, em tradução de Cecília Rego Pinheiro, edição Assírio & Alvim, Lisboa 1999.

Do segundo poema, soneto atípico, fez Manuel Bandeira (1886-1968) um deslumbrante soneto de amor e do seu esperado fim, com que remato esta viagem.

Soneto

Não será sempre assim… Quando não for,

Quando teus lábios forem de outro; quando

No rosto de outro o teu suspiro brando

Soprar; quando em silêncio, ou no maior

 

Delírio de palavras desvairando,

Ao teu peito o estreitares com fervor;

Quando, um dia, em frieza e desamor

Tua afeição por mim se for trocando:

 

Se tal acontecer, fala-me. Irei

Procurá-lo, dizer-lhe num sorriso

“Goza a ventura de que já gozei.”

 

Depois, desviando os olhos, de improviso,

Longe, ah tão longe, um pássaro ouvirei

Cantar no meu perdido paraíso.

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Natal ainda? poemas de Antonio Manuel Couto Viana

23 Segunda-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Antonio Manuel Couto Viana

Petrus CHRISTUS - Natividade 1465 detalheAproxima-se o Natal, e variando as abordagens poéticas ao acontecimento, escolhi hoje quatro poemas de Antonio Manuel Couto Viana (1923-2010) onde de Natal se fala.

Com os dois poemas iniciais lemos quanto à aproximação do Natal o peso da idade se faz sentir na lucidez de saber a vida perto do fim:

Na solidão que o apavora, / O velho corre o coração de lado a lado.

Recorda um deus: um deus criança,

…

Conformar-se, porquê, com o Natal dos velhos?

ou ainda

Eu, para aqui ajoelhado, / A memória da infância a pedir-me alegria,

Depois, a dificuldade de todos os dias ser e fazer a vida no espírito do Natal para um homem religioso:

Mas, ai! a adoração dura-me instantes! / Em breve irei negá-lo / Três vezes, antes

De cantar o galo!

Finalmente a assimilação de Natal a cada novo nascimento.

Quando na mais sublime dor, / A mulher dá à luz, / Há sempre um Anjo Anunciador / A murmurar-lhe ao coração — Jesus!

 

Na aparente simplicidade do verso, a mestria de uma arte versificatória para saborear.

  DAVID, Gerard 1490

Que longa espera, noite fora!

Virá o anjo? Trará recado?

Na solidão que o apavora,

O velho corre o coração de lado a lado.

 

Recorda um deus: um deus criança,

Sem a ciência entre os doutores.

E sem espada. E sem balança.

Coroado de inocência e flores.

 

A bela imagem diluída

De uma passada madrugada

Que lhe foi vida,

Antes de a vida não lhe ser nada.

 

Conformar-se, porquê, com o Natal dos velhos?

Cenário literário dos Natais:

A manta nos joelhos,

Lareira acesa, a mesa com cristais…

 

A neve, sim, que a tem

No cabelo e também no coração.

— Nascerá hoje alguém

Que o leve, puro e ardente, pela mão?

 

In Pátria Exausta, Editorial Verbo, Lisboa 1971.

 

DARET, Jacques 1434-35

 

Cenário de Natal sem o Natal

 

Nenhuma estrela luz, com mais brilho no céu.

Não oiço rumor d’asa ou de vagido

É meia-noite já. E ainda não nasceu.

O que terá acontecido?

 

Eu, para aqui ajoelhado,

A memória da infância a pedir-me alegria,

Todo o presépio armado

… E a mangedoira vazia!

 

O silêncio apavora:

Nem uma loa, nem o som de um sino.

Porquê tanta demora?

Não mais irá nascer o meu menino?

 

Nenhum sinal de sobrenatural

No cenário onde a fé não sublima nem arde.

Por isso, o meu Natal

Vai chegar tarde.

 

(Para sempre tarde?)

 

In Mínimos, Centro Cultural do Alto Minho, Viana do Castelo,1990.

 

MASTER FRANCKE 1424

 

Natal tão pouco

 

Nasceu em Belém, ou Nazaré

(A nova teoria),

Este que nos é

O Pai-Nosso em cada dia?

 

Que importa onde nasceu,

Se num presépio, se num leito?

A verdade sou eu

A aguardá-lo no peito.

 

Pois abro o coração

Pra o receber,

Quer venha ou não

Do céu ou ventre de mulher.

 

Mas, ai! a adoração dura-me instantes!

Em breve irei negá-lo

Três vezes, antes

De cantar o galo!

8.12.2005

 

In Disse e Repito, Averno, 2008.

 

UNKNOWN MASTER, Flemish 1400A

 

Natal cada Natal

 

Quando na mais sublime dor,

A mulher dá à luz,

Há sempre um Anjo Anunciador

A murmurar-lhe ao coração — Jesus!

 

Cada criança é o Céu que vem

Pra nos remir do pecado

E as palhas d’oiro de Belém

Espalham-se no berço, como um Sol espelhado

 

Por sobre o lar presepial , o brilho

Da estrela abre o convite dos portais:

— Vinde adorar a floração do filho

No alvoroço da raiz dos pais.

 

In Mínimos, Centro Cultural do Alto Minho, Viana do Castelo,1990.

Stefan Lochner (1410-1451) virgem adorando o meninoA

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Canção do Mundo Perdido de Carlos Queiroz

22 Domingo Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Carlos Queiroz

Gerard DAVID - Virgem do leite e o menino 1490Entre azáfama e melancolia foge o tempo com o Natal no horizonte. Cada ano assiste à luta da memória com a circunstância, na exigência da aprendizagem permanente que a vida obriga. Há sempre mundos perdidos para que outros sejam ganhos, ainda que um canto para a nostalgia possa ser reservado.

 

Canção do Mundo Perdido

 

Menino: o teu mundo,

Também já foi meu;

Tão belo e profundo,

Tão perto do céu!

 

Mas o tempo veio

E fez-me (tão cedo!)

Acordar, a meio

Do sonho mais ledo.

 

A chave emprestada,

Quis restituída;

Ou antes: trocada

P’la chave da vida.

 

Poema de Carlos Queiroz (1907-1949), transcrito de Desaparecido e Outros Poemas, Livraria Bertrand, Lisboa, 1950.

 

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Aproximação ao Natal com Natal Chique e Anjos de Vitorino Nemésio

19 Quinta-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Bosch, Fra Angelico, Gerard David, Vitorino Nemésio

MASTER of Moulins 1480A azáfama que se espera de nós no corropio das prendas, e a realidade social que nos envolve, mostra-a Vitorino Nemésio (1901-1978) neste poema, Natal Chique, na metáfora da compra do anjo anunciado no jornal e do príncipe pedinte.

 

Natal Chique

 

Percorro o dia que esmorece

Nas ruas cheias de rumor;

Minha alma vã desaparece

Na muita pressa e pouco amor.

 

Hoje é Natal. Comprei um anjo,

Dos que anunciam no jornal;

Mas houve um etéreo desarranjo

E o efeito em casa saiu mal

 

Valeu-me um príncipe esfarrapado

A quem dão coroas no meio disto,

Um moço doente, desanimado…

Só esse pobre me pareceu Cristo.

 

Mas nem só deste embrulho de papel colorido se faz o Natal. Há uma sub-reptícia corrente mística que permanece, e nela, os anjos têm fulcral protagonismo anunciador.

 Fra Angelico (1400-1455) Altar do PradoA

Foi um anjo que anunciou a Maria a concepção divina.

Para os meninos educados na religião católica são anjos que os acompanham na forma de anjo da guarda. É talvez esse o anjo temido por Vitorino Nemésio, capaz de informar Deus das suas traquinices, e assim referido no poema Anjos:

 DAVID, Gerard - Anunciação 1506

Anjos são os terríveis / Modos de Deus connosco; / Nós, as suas possíveis / Transparências a fosco.

 

Lívidos, sem respiração / Ficávamos do toque / Da primeira asa vinda; / Mas eles rondam apenas a oração / Que múrmura os evoque, / E vão-se, e tornam ainda.

 

Enquanto exército imaginado de emissários de Deus, têm presença forte na vida dos crentes, ainda que nos nossos dias esteja um pouco fora de moda a invocação da sua companhia.

Bosch - Triptych of Haywain (left wing) -1500-02 detalhe

Figuras centrais da mitologia do Natal, e imagem de excelência do Paraíso como quotidiano, leia-se a visão deles por um homem religioso.

 

Anjos

 

Os anjos são rijos como as pedras

E leves como as prumas.

Na leira rasa de aves, Tu, que redras

Terra, névoas e espumas,

—Deus, de teu nome! —sabes

Que um anjo é pouco e imenso:

Por isso cabes

No anjo e ergues o incenso.

 

Desfaleço a pensar-te,

Ó ser de Anjos e Deus

Que baixa em mim:

Sobe-me na alma, que ando a procurar-te

E dizendo-te Deus

Acho-te assim.

 

Anjos são os terríveis

Modos de Deus connosco;

Nós, as suas possíveis

Transparências a fosco.

 

Lívidos, sem respiração

Ficávamos do toque

Da primeira asa vinda;

Mas eles rondam apenas a oração

Que múrmura os evoque,

E vão-se, e tornam ainda.

 

Deles para cima, ainda mais graus de glória

Relutam ao sentido

Que deles vem à memória

Como uma bolha de ar na água do olvido:

No mais, são tão pesados,

Os anjos leves ao justo…

Tão alados,

Mas desgostosos do nosso susto!

 

É isso! Disse-mo agora

O verbo súbito surpreso:

Ser anjo é espanto da demora

Nossa e do peso pávido

Que nos estende.

Terrível é quem toca terra

Para a levar, e não a rende.

 

Que o anjo, de si, é àvido

De transe e rapidez,

E é ele que chora

Nosso chumbo, hora a hora:

É ele que não entende

A nossa estupidez.

 

Poemas de O Pão e a Culpa, Lisboa 1955.

 

 

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Matéria de Poesia, O Amor e o Pêssego com Manoel de Barros

18 Quarta-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Manoel de Barros

Lyubov Popova, Space Force Construction1

A poesia de Manoel de Barros (1916) é um mundo novo e um mundo à parte. Partindo de palavras que todos conhecemos, organiza um discurso que estilhaça a lógica do seu significado corrente tão só pela relação criada entre elas.

Não é um inventor de palavras mas um observador das coisas do mundo que identifica o subtil absurdo em que mergulhamos com a certeza de viver uma normalidade.

Conhecedor do peso e possibilidades de cada palavra, na organização do verso introduz-nos num universo que surpreende e encanta:

Quem não tem ferramenta de pensar, inventa.

Ao percorrer esta poesia continuamos no num meio conhecido, mas saímos da viagem a olhar à volta, para o que fazemos e pensamos, de outra maneira.

Comecemos por conhecer o que para o poeta é susceptível de ser assunto poético:

 

 

I. Matéria de Poesia

 

1.

 

Todas as coisas cujos valores podem ser

disputados no cuspe à distância

servem para poesia

 

O homem que possui um pente

e uma árvore

serve para poesia

 

Terreno de 10×20, sujo de mato — os que

nele gorjeiam: detritos semoventes, latas

servem para poesia

 

Um chevrolé gosmento

Coleção de besouros abstêmios

O bule de Braque sem boca

são bons para poesia

 

As coisas que não levam a nada

têm grande importância

 

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

 

Cada coisa sem préstimo

tem seu lugar

na poesia ou na geral

 

O que se encontra em ninho de joão-ferreira:

caco de vidro, garampos,

retratos de formatura,

servem demais para poesia

 

As coisas que não pretendem, como

por exemplo: pedras que cheiram

água, homens

que atravessam períodos de árvore,

se prestam para poesia

 

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma

e que você não pode vender no mercado

como, por exemplo, o coração verde

dos pássaros,

serve para poesia

 

As coisas que os líquenes comem

    — sapatos, adjetivos —

têm muita importância para os pulmões

da poesia

 

Tudo aquilo que a nossa

civilização rejeita, pisa e mija em cima,

serve para poesia

 

Os loucos de água e estandarte

servem demais

O traste é ótimo

O pobre-diabo é colosso

 

Tudo que explique

o alicate cremoso

e o lodo das estrelas

serve demais da conta

 

Pessoas desimportantes

dão para poesia

qualquer pessoa ou escada

 

Tudo que explique

a lagartixa de esteira

e a laminação de sabiás

é muito importante para a poesia

 

O que é bom para o lixo é bom para poesia

 

Importante sobremaneira é a palavra repositório;

a palavra repositório eu conheço bem:

tem muitas repercussões

como um algibe entupido de silêncio

sabe a destroços

 

As coisas jogadas fora

têm grande importância

— como um homem jogado fora

 

Aliás, é também objeto de poesia

saber qual o período médio

que um homem jogado fora

pode permanecer na terra sem nascerem

em sua boca as raízes da escória

 

As coisa sem importância são bens de poesia

 

pois é assim que um chevrolé gosmento chega

ao poema, e as andorinhas de junho

 

 

 

Pela vastidão enunciada imagina-se qual a dificuldade na escolha dos poemas para o espaço reduzido do blog, daí que tenha optado por duas reflexões em torno do amor, que a si, leitor(a), convido a meditar.

 

 

 

O Amor

 

Fazer pessoas no frasco não é fácil.

Mas se eu estudar ciências eu faço.

Sendo que não é melhor do que fazer

pessoas na cama

Nem na rede

Nem mesmo no jirau como os índios fazem.

(No jirau é coisa primitiva, eu sei,

mas é bastante proveitosa)

Para fazer pessoas ninguém ainda não

inventou nada melhor que o amor.

Deus ajeitou isso para nós de presente.

De forma que não é aconselhável trocar

o amor por vidro.

 

*

 

Quem não tem ferramenta de pensar, inventa.

 

 

 

Depois de sabermos que não é aconselhável trocar o amor por vidro, o poeta explica-nos porque e como se abre o pêssego de Deus.

 

 

 

PÊSSEGO

 

Proust

Só de ouvir a voz de Albertine entrava em

orgasmo. Se diz que:

O olhar de voyeur tem condições de phalo

(possui o que vê).

Mas é pelo tato

Que a fonte do amor se abre.

Apalpar desabrocha o talo.

O tato é mais que o ver

É mais que o ouvir

É mais que o cheirar.

É pelo beijo que o amor se edifica.

É no calor da boca

Que o alarme da carne grita.

E se abre docemente

Como um pêssego de Deus.

 

 

 

Transcrevi os poemas de Manoel de Barros, Poesia completa, 6ª reimpressão, 2010, Texto Editores, Ltda, São Paulo, Brasil.

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