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Carl_Spitzweg - Passeio ao campoAProfunda, deslumbrante na simplicidade da sua linguagem, com uma ironia onde a inteligência brilha, assim leio a poesia de Wisława Szymborska (1923-2012), de quem hoje transcrevo, para iniciar poeticamente 2014, esta reflexão sobre o amor feliz que não faz assunto de poesia.

 

Amor feliz

 

Amor feliz. Será normal,

será sério, será útil? —

que tem o mundo a ver com duas pessoas

que não vêem o mundo?

 

Erguidos ao céu sem mérito nenhum,

os melhores entre milhões e convencidos

que assim tinha que ser — a premiar o quê? Nada;

de algum ponto cai a luz —

e porquê logo sobre estes e não outros?

Ofenderá isto a justiça? Sim.

Perturbará os princípios estabelecidos com cuidado?

Derrubará do seu púlpito a moral? Perturba e derruba.

 

Olhem-me bem estes felizardos:

se ao menos se mascarassem um pouquinho,

fingissem melancolia dando assim algum ânimo aos amigos!

Ouçam bem como se riem — é um insulto.

A linguagem que usam — entendivel, pelos vistos.

E aquelas cerimónias, etiquetas,

obrigações rebuscadas um para o outro —

parece mesmo um acordo nas costas da humanidade.

 

É difícil até de prever no que daria

se um tal exemplo pudesse ser seguido.

Com que é que poderiam contar as religiões, a poesia,

de que nos recordaríamos, de que desistiríamos,

quem quereria pertencer ao círculo?

 

Amor feliz. Assim terá que ser?

Tacto e bom senso mandam omiti-lo

como a um escândalo nas altas esferas da Existência.

 

Tradução de Júlio Sousa Gomes. Transcrito de Paisagem com Grão de Areia, edição Relógio d’Água, Lisboa, Junho de 1998.

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