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Category Archives: Poesia Antiga

A bela teta segundo Clément Marot e Le blason de Georges Brassens

17 Sábado Mar 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Convite à música, Poesia Antiga

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Clément Marot, Georges Brassens, Pierre de Ronsard

Nada como a experiencia para nos revelar quanto estamos errados com as nossas ideias feitas.

Tinha para mim que acariciar seios cuja beleza acrescida decorria de cirurgia plástica, arrefeceria o prazer desde que o facto fosse conhecido. A experiência mostrou-me que perante uma intervenção bem feita o prazer explode intacto ao tacto destas maravilhas.

Nasce dentro das mãos este desejo / De toda te palpar e possuir:

O elogio poético explicito dos seios não é muito frequente. Recuo ao século XVI, a um francês pouco mais velho que Camões, para encontrar uma explicita elegia às tetas, agora chamadas seios.

A bela teta

Teta perfeita, branca como um ovo,

Teta de cetim feita, cetim novo,

Teta da qual a rosa tem vergonha,

Teta melhor que tudo o que se sonha,

Teta dura, nem teta, mas enfim

Comparável a bola de marfim,

E no centro da qual somente esteja

Um rubi de morango ou de cereja

Que ninguém vê nem toca por enquanto,

Mas que aposto ser tal como eu o canto:

Teta de bico pois tão encarnado

Que parece por agora sossegado,

Quer ela vá correndo ou vá andando,

Quer ela vá partindo ou vá saltando:

Teta do lado esquerdo, tão matreira,

Sempre longe da sua companheira,

Teta que és testemunha e viva imagem

De compostura tal da personagem

Que só de ver-te assim como te vejo

Nasce dentro das mãos este desejo

De toda te palpar e possuir:

Mas é preciso eu próprio me impedir

De mais me aproximar, pois não duvido

Depois desse desejo outro surgido…

Ó teta nem modesta nem vistosa,

Teta madura, teta apetitosa,

Teta que noite e dia ouço gritar:

“Depressa me casai, quero casar!”

…

…

Com justiça, feliz se vai dizer

Aquele que de leite te há-de encher,

Fazendo de uma teta de donzela

Teta de dona inteiramente bela.

Não será difícil imaginar que a bela de quem o poema fala poderia semelhar-se a alguma das belas do século XV cujos retratos há dias aqui deixei, qual seja por exemplo a bela Simonetta Vespucci pintada por Pietro di Cosimo cerca de 1520, ou a Fornarina, causa inventada da morte precoce de Rafael e que pela mesma época este pintou:

A tradução do poema é de David Mourão-Ferreira e foi publicada em Vozes da Poesia Europeia – II (Colóquio  Letras nº 164). Os conhecedores da língua francesa encontram no final do post o poema em francês moderno com os dois versos (29 e 30) que David Mourão-Ferreira não traduziu:

 [29]Tétin qui t’enfles, et repousses  / [30] Ton gorgias de deux bons pouces

O poema chama-se em francês Le blason du beau tétin. O “blason”, género poético sem equivalente preciso em português, que eu saiba, é um curto poema celebrando uma parte do corpo feminino, constituindo-se essa parte como brasão ou emblema (blason) digno de ser cantado. Conhecido na poesia francesa em meados do século XV, ressurgiu e fez moda pela pena do nosso poeta de hoje Clément Marot (1497 – 1544). Este “blason” da bela teta foi estendido por outros poetas em imitação e emulação de Marot, nos anos que se seguiram ao seu aparecimento (1535), ao elogio de outras partes do corpo feminino das belas amadas dos poetas que as cantaram.

Depois de largo silêncio, vamos encontrá-lo de novo no século XX em poemas de Paul Eluard e André Breton, nomeadamente. Mas é um poema de Georges Brassens (1921-1981) , Le blason, que me atrai. Sendo uma elegia  à “merveillette fente” como lhe chamou Pierre de Ronsard (1524-1585), de caminho vitupera a língua francesa pela homonimía de possuir para tal amiga do homem o mesmo termo que para idiota [con]. Infelizmente não conheço tradução portuguesa desta poema de Brassens, cantado pelo poeta no disco Mourir pour des idées (1962). Deixo-vos, pois, o poema e a interpretação do grande Brassens a cuja poesia e música espero regressar.

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/Georges+Brassens+-+Le+Blason.mp3

LE BLASON

Ayant avec lui toujours fait bon ménage,
J’eusse aimé célébrer, sans être inconvenant,
Tendre corps féminin, ton plus bel apanage,
Que tous ceux qui l’ont vu disent hallucinant.

Ç’eût été mon ultime chant, mon chant du cygne
Mon dernier billet doux, mon message d’adieu.
Or, malheureusement, les mots qui le désignent
Le disputent à l’exécrable, à l’odieux.

C’est la grande pitié de la langue française,
C’est son talon d’Achille et c’est son déshonneur,
De n’offrir que des mots entachés de bassesse
À cet incomparable instrument de bonheur.

Alors que tant de fleurs ont des noms poétiques,
Tendre corps féminin, c’est fort malencontreux
Que ta fleur la plus douce et la plus érotique
Et la plus enivrante en ait un si scabreux.

Mais le pire de tous est un petit vocable
De trois lettres, pas plus, familier, coutumier,
Il est inexplicable, il est irrévocable,
Honte à celui-là qui l’employa le premier.

Honte à celui-là qui, par dépit, par gageure,
Dota du même terme, en son fiel venimeux,
Ce grand ami de l’homme et la cinglante injure,
Celui-là, c’est probable, en était un fameux.

Misogyne à coup sûr, asexué sans doute,
Au charme de Vénus absolument rétif,
Était ce bougre qui, toute honte bu’, toute,
Fit ce rapprochement, d’ailleurs intempestif.

La malepeste soit de cette homonymie!
C’est injuste, madame, et c’est désobligeant
Que ce morceau de roi de votre anatomie
Porte le même nom qu’une foule de gens.

Fasse le ciel qu’un jour, dans un trait de génie,
Un poète inspiré, que Pégase soutient,
Donne, effaçant d’un coup des siècles d’avanie,
À cette vrai’ merveille un joli nom chrétien.

En attendant, madame, il semblerait dommage,
Et vos adorateurs en seraient tous peinés,
D’aller perdre de vu’ que, pour lui rendre hommage,
Il est d’autres moyens et que je les connais,

Et que je les connais.

Terminemos com o original deste elogio dos seios

Le blason du beau tétin

Tétin refait, plus blanc qu’un œuf, (1)

Tétin de satin blanc tout neuf,

Toi qui fait honte à la rose

Tétin plus beau que nulle chose,

Tétin dur, non pas tétin voire (2)

Mais petite boule d’ivoire

Au milieu duquel est assise

Une fraise ou une cerise

Que nul ne voit, ne touche aussi,

Mais je gage qu’il en est ainsi.

Tétin donc au petit bout rouge,

Tétin qui jamais ne se bouge,

Soit pour venir, soit pour aller,

Soit pour courir, soit pour baller (3)

Tétin gauche, tétin mignon,

Toujours loin de son compagnon,

Tétin qui portes témoignage

Du demeurant du personnage, (4)

Quand on te voit, il vient à maints

Une envie dedans les mains (5)

De te tâter, de te tenir :

Mais il se faut bien contenir

D’en approcher, bon gré ma vie,

Car il viendrait une autre envie.

Ô tétin, ni grand ni petit,

Tétin mûr, tétin d’appétit,

Tétin qui nuit et jour criez

«Mariez moi tôt, mariez !»

Tétin qui t’enfles, et repousses

Ton gorgias de deux bons pouces : (6)

A bon droit heureux on dira

Celui qui de lait t’emplira,

Faisant d’un tétin de pucelle,

Tétin de femme entière et belle.

(1) refait : nouvellement formé

(2) voire : qui n’est pas, à vrai dire, un tétin

(3) baller : danser

(4) demeurant : de tout le reste de la personne

(5) trois syllabes

(6) décolleté, haut de la robe, corsage

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Belas mulheres do século XV e um soneto de Petrarca

09 Sexta-feira Mar 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Petrarca

Involuntariamente, para cada um de nós o mundo começa quando nascemos. Daí para a frente é a nossa vida e o mundo fazê-mo-lo à imagem do que conhecemos. Para trás é historia e olha-mo-la com os instrumentos que fomos adquirindo.

Vivendo nós, hoje, num mundo de imagens, temos a maior dificuldade em recuar no tempo e imaginar as sociedades das quais os documentos visuais escasseiam.

Grande parte do meu prazer nos ócios é reunir peças para um puzzle que vou construindo na cabeça, pondo de pé os mundos fisicos, humanos e mentais  que fizeram a realidade que encontrei ao nascer.

Das mulheres dum tempo anterior à fotografia nada sabemos. Ao ler poesia que enaltece a beleza da amada nunca saberemos se tal corresponde a uma realidade ou à distorção do amor.

Recuando no tempo a pintura é escassa mas existe para as estirpes reais. Feitas da mesma massa que o resto dos humanos, seriam tão belas ou feias como a generalidade das suas contemporâneas. Terão mudado as feições? Terão mudado os canones de beleza? Tenho para mim que apenas mudou a moda no vestir. Belas mulheres sempre existiram.

Restringindo o periodo que me ocupa hoje ao tempo das descobertas organizadas pelo Infante D Henrique no inicio de 1400 até à descoberta do Brasil, é ao acervo da pintura europeia do século XV que vou buscar imagens, belas imagens, de mulheres que viveram aquele período.

As não tão belas mulheres virão outro dia.

A identificação do pintor e retratada é feita no nome do ficheiro para não sobrecarregar o texto. Basta passar o cursor sobre a imagem e ele surge. Todas as imagens podem ser vistas em tamanho maior com click sobre a imagem no botão direito do rato.

Sendo a maioria das retratadas mulheres italianas, termino com uma das rimas de Petrarca (1304 – 1374), a 183, grosso modo um século mais velha que estas mulheres, e onde o poeta afirma:

Femina è cosa mobil per natura;

Rima 183

Se dela o doce olhar me mata aqui,

e as palavrinhas brandas de tal sorte,

e se Amor sobre mim a faz tão forte,

só quando fala ou só quando sorri,

 

ah! que será, se acaso ela por si,

por minha culpa ou por malvada sorte,

separa os olhos da mercê, e à morte,

lá onde me protege, então me fie?

 

Porém se tremo, e em coração gelado

vejo às vezes mudar sua figura,

medo é de antigas provas derivado.

 

Mulher é coisa móvel por natura;

onde eu sei bem que um amoroso estado

no peito dela pouco tempo dura.

 

Tradução de Vasco Graça Moura

 

Segue-se o original do soneto:

 

Se ‘l dolce sguardo di costei m’ancide,

e le soavi parolette accorte,

e s’Amor sopra me la fa si forte,

sol quando parla, o ver quando sorride,

 

lasso!, che fia, se forse ella divide,

o per mia colpa, o per malvagia sorte,

gli occhi suoi da mercé, si che di morte

là dove or m’assicura, allor mi sfide?

 

Però s’i’ tremo, e vo col cor gelato,

qualor veggio cangiata sua figura,

questo temer d’antiche prove è nato.

 

Femina è cosa mobil per natura;

ond’io so ben ch’un amoroso stato

in cor di donna picciol tempo dura.

 

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Flores poéticas

25 Quarta-feira Jan 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Luis Filippe Leite, Marc Chagall

Também ama!

Não apanhes, ó donzela,
Essa florinha singela,
Que entre teus dedos medrosa
Já se agita com tremor:
Como tu também formosa,
Inocente quanto esquiva,
Ei-la aí já pensativa,
Porque também sente amor.

À mais bela criatura,
Não faças a travessura
De roubar-lhe a pátria e tudo:
Que mal te fez a infeliz?
Nessa cama de veludo,
A filha da Primavera,
Cuidadosa, alguém espera…!
Ouçamos o que ela diz:

“Borboleta, como tardas!
Borboleta, porque aguardas?
Oh! Não sabes quanto eu amo?
Tu não vês sumir-se a luz?
Inda hoje no meu ramo
Não poisaste, mensageira
Da florinha feiticeira,
Que de longe me seduz!”

Cala… Eis chega a borboleta,
Asas d’oiro e violeta;
Poisou na flor que embalança;
Dentro nela se escondeu…
Que lhe segreda?… uma esp’rança…!
Oh! Não colhas, não, donzela,
Essa florinha singela,
Que é mais venturosa que eu!

Encontrei  este poema de um desconhecido Luís Filippe Leite no Almanaque de Lembranças para 1852.
Estranha forma de falar de amor a uma donzela naquele meado do século XIX, relatando uma paixão entre duas flores mediada por uma borboleta. Vejam como os jovens à época se entretinham nos seus jogos de paixão.
Adormecido nas páginas de uma publicação que hoje ninguém lê, ei-lo a vogar no mundo da net neste tecnológico século XXI.

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Um poema de João de Lemos

02 Segunda-feira Jan 2012

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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João de Lemos

Neste final de desenfadado lazer, lendo o que preocupava o mundo português há cento e cinquenta anos, folheei durante a tarde o Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro para 1862.
Não vos maço com o que por lá vi, apenas a consciência de ter andado por um mundo perdido que não deixou saudades retive, e um poema de tocante simplicidade de João de Lemos (1819-1890), o poeta fundador, e de maior talento, do grupo de O Trovador.

A MELHOR COLHEITA

Por tarde amena de estio
Vendo do campo o lidar,
Sentindo a brisa do rio,
Ouvindo o melro cantar,
Assentei-me em verde alfombra,
Dum freixo copado à sombra,
Com um amigo a conversar.

Qual era a melhor seara,
Qual melhor colheita dá,
Qual mais barata ou mais cara
Ao lavrador ficará;
Era o assunto da conversa,
Mas de opinião diversa,
Ambos teimávamos já.

Eis que perto ali passava
Um camponês ancião,
Ao ombro a enxada levava,
Levava um cesto na mão
E no rosto lhe luzia,
Por entre doce alegria,
Doce paz no coração.

– Façamos do velho, digo,
Entre nós ambos juiz;
Que dizes tu meu amigo?
– Venha o teu velho, me diz.
Chamei-o logo, ele veio
E de nós ambos no meio
Assentar o velho fiz.

Qual era a melhor seara,
Qual melhor colheita dá,
Qual mais barata ou mais cara
Ao lavrador ficará,
Lhe disse eu que era a conversa,
Mas de opinião diversa
Que ambos teimávamos já.

– Dize, pois, honrado velho,
É trigo, é milho, é arroz?
Decide com o teu conselho,
Dá o teu voto entre nós;
Que na falta de ciência
A sabedora experiência
Falará na tua voz.

Olhou-nos então sorrindo,
E disse – se Deus o quer,
Tudo é bom à terra indo,
Quando e como o tempo der,
Quando e como nos ensina
Da própria terra a doutrina
Aos que nela sabem ler.

Mas de todas as colheitas
E, mancebos, a melhor
A das acções por nós feitas,
Sem que suba ao rosto a cor;
Porque é dessa que é medida,
No dia da despedida,
Nossa pensão ao Senhor!

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De Alcipe: sonho, destino e desejo de amor

06 Terça-feira Dez 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Alcipe, Marquesa de Alorna

A Marquesa de Alorna (1750-1839), conhecida enquanto poetisa por Alcipe, tem sido alvo recente da atenção de biógrafos sem que a sua poesia tenha despertado curiosidade concomitante.

A tragédia pessoal  vivida desde o inicio da adolescencia  até à idade adulta, a mulher culta e brilhante que nos salões europeus conquistou admiração, são os argumentos que espevitam a curiosidade do leitor de hoje sobre a biografia da mulher. A obra poética, embora datada, contém jóias que vão para além do esquematismo de escola e o sentimento extravaza as convenções em muitos dos poemas.

Sem dispôr agora do tempo para o artigo circunstanciado que gostaria, remeto-vos para quatro poemas onde sonho, destino e desejo de amor se retratam, terminando a escolha com uma graça sobre cortesias, matéria importante à época da autora.

Os quatro primeiros poemas foram extraídos do conjunto de CANTIGAS, o último integra um grupo de QUADRAS, todos presentes no Tomo II das suas OBRAS POÉTICAS publicadas em 1844.

Cantiga XLIX

 

Sonho

Sonhos meus, suaves sonhos,

Sois melhores [do] que a verdade;

Quando sonho sou ditosa,

Sem o ser na realidade.

 

Amor, tu vens nos meus sonhos

Acalmar-me o coração;

Mas cruel! Quanto prometes

Não passa de uma ilusão.

 

Sonhei, tirano, esta noite,

Sonhei que tu me chamavas,

E que sobre a relva branda

Tu mesmo me acalentavas.

 

Disseste-me: “Dorme, Alcipe,

Amor sobre ti vigia,

Mal podes temer os fados.”

 

Dormi: neste dobre sono

Me achei n’um palacio d’ouro:

Entregaram-me uma chave

Para que abrisse um tesouro.

 

– “Chave mágica, sublime,

Que me vais tu descobrir?

Se é menos do que eu desejo

Será melhor não abrir…”

 

– “ Abre, Alcipe” qual trovão

Brada o deus que me vigia:

Acordei sobressaltada,

E abriu-se, mas foi o dia.

 

 

Cantiga L

 Pára, funesto destino,

Respeita a minha constância;

Pouco vences, se não vences

De minha alma a tolerância.

 

Se eu sobrevivo aos estragos

Dos males que me fizeste,

Inutil é combater-me,

Nem me vences, nem venceste.

 

Com secos olhos diviso

Esse horror que se apresenta:

Os meus existem de glória;

Morrendo a glória os alenta.

 

 

Cantiga LI

Basta, destino severo:

Em dias tão malogrados

Me trocaste sem piedade

Instantes afortunados.

 

Quais voltas do sol os raios

Pelas trevas apagados,

Voltai, se podeis, instantes,

Instantes afortunados!

 

Voto imprudente! Que digo?

Só posso esperar cuidados,

Uma vez que os interrompem

Instantes afortunados.

 

 

 

Cantiga LIX

Quem diz que amor é um crime

Calunia a natureza,

Faz da causa organizante

Criminosa a singeleza.

 

Que vejo, céus! Que não seja

De uma atracção resultado?

Atracção e amor é o mesmo;

Logo amor não é pecado.

 

Se respiro, a atmosfera,

Com um fluido combinado,

É quem me sustenta a vida

Dentro do peito agitado.

 

Se vejo mares, se fontes,

Rio, cristalino lago,

Dois gases se unem, formando

Aguas com que a sede apago.

 

Uma lei de afinidade

Se acha nos corpos terrenos;

Ácidos, metais, alcalis,

Tudo se une mais ou menos.

 

De que sou feita? – De terra;

Nela me hei de converter:

Se amor arder em meu peito

É da essencia do meu ser.

 

Sem que te ofenda razão,

Quero defender o amor;

Se contigo não concorda

Não é virtude, é furor.

 

 

 

Despedida nas Caldas a uma amiga

Na invenção das cortesias

Não entrou o coração:

Nasceram do fingimento,

Tolerou-as a razão.

 

Se eu fosse amiga das dúzias,

Fôra a teus pés despedir-me:

Mas faz sol, eu tenho calma,

Quer o meu bem, quero ir-me.

 

Vou-me embora, adeus amiga:

De palavra ou por escrito

Verás sempre na minha alma

Mesmo o que não tenho dito.

 

Lerás o que outras não lêem

Saudades, sinceridade;

E mais cálida que as Caldas

A minha terna amizade.

 

 

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Carregado de mim ando no mundo – o lado sério de Gregório de Matos

19 Sábado Nov 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Gregório de Matos

Embora conhecido sobretudo pelas suas sátiras corrosivas e amiúde obscenas, Gregório de Matos (1633-1696), foi também poeta de reflexão.

Com a obra poética para além dos sonetos  aguardando uma edição critica (ao que suponho) que separe a produção própria da de outros, nomeadamente Tomás Pinto Brandão, Gregório de Matos é um poeta mal-amado.

Temos hoje, como no passado, dificuldade em lidar com a obscenidade posta em letra de forma, ainda que, na maior parte dos casos,  a realidade a que é aplicada não possua outra forma igualmente lapidar de se lhe referir.

Transcrevo nesta breve visita dois sonetos  com o lado sério de Gregório de Matos.

Começo com este  Carregado de mim ando no mundo, cujos primeiros versos em muitos de nós ganham por vezes intensa acutilância, e alguns há, com demasiada frequência.

Carregado de mim ando no mundo, / E o grande peso embarga-me as passadas / Que como ando por vias desusadas, / Faço crescer o peso, e vou-me ao fundo.

O resto do soneto vai pela mesma qualidade de inspiração.

 Carregado de mim ando no mundo,

 E o grande peso embarga-me as passada,

 Que como ando por vias desusadas,

Faço crescer o peso, e vou-me ao fundo.

 

O remédio será seguir o imundo

Caminho onde dos mais vejo as pisadas,

Que as bestas juntas andam mais ornadas,

Do que anda só o engenho mais fecundo.

 

Não é facil viver entre os insanos,

Erra quem presumir que sabe tudo,

Se o atalho não soube dos seus danos.

 

O prudente varão há de ser mudo,

Que é melhor neste mundo, mar de enganos

Ser louco c’os demais, que só  sisudo.

 

Na edição crítica dos Sonetos de Gregório de Matos preparada por Francisco Topa, estes encontram-se arrumados por temas.Temos sonetos Sacros e Morais onde se inclui o que transcrevi, Encomiásticos, Fúnebres, Amorosos, Satíricos e burlescos, e dois outros, num total de 217 sonetos recenseados e atribuídos formalmente ao poeta. É um corpus vasto de qualidade desigual onde se encontram algumas belas poesias.

Termino transcrevendo de entre os sonetos amorosos,  um soneto-reflexão sobre o tempo da paixão e o sofrimento que ela trás:

Horas contando, numerando instantes,

Os sentidos à dor e à gloria atentos,

Cuidados cobro, acuso pensamentos,

Ligeiros à esperança, ao mal constantes.

 

Quem partes concordou tão dissonantes?

Quem sustentou tão vários sentimentos?

Pois para glória excedem de tormentos,

Para martírio ao bem são semelhantes.

 

O prazer com a pena se embaraça;

Porém quando um com outro mais porfia,

O gosto corre, a dor apenas passa.

 

Vai ao tempo alterando a fantasia,

Mas sempre com vantagem na desgraça,

Horas de inferno, instantes de alegria.

 

A poesia satírica e obscena fica para outra visita.

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A Ventura e uma canção dos Rolling Stones

23 Domingo Out 2011

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A. X. R. Cordeiro

A  VENTURA

 Olha, meu anjo, esta vida,

Que passa despercebida,

É de gozos tão despida,

Que nos não custa morrer;

Mas já que a sorte persiste,

E que a existência resiste

Aos baldões da triste sorte,

Não nos lembremos da morte,

Vamos buscar o prazer.

 

Mas este, bela inocente,

Não consiste no luzente

Doirado metal que a gente

Anda tanto a procurar;

Não consiste na grandeza,

Que p’ra muitos é riqueza;

Não consiste nas vaidosas

Honrarias mentirosas,

Que te possam tributar.

 

Muito embora a fantasia,

Cada noite, e cada dia,

Em mil sonhos se sorria

De mentiroso prazer;

Embora tenhas alfaias,

Escudeiros, muitas aias,

Ricos trens, muitos enfeites,

São tudo falsos deleites

D’um fantástico viver.

 

A ventura, virgem bela,

É formosa, viva estrela,

Que cá na terra à donzela

Lhe conquista o sumo bem;

A ventura é ser amada

Ser no mundo idolatrada,

Mais que lá no oriente,

Sendo amadas loucamente,

O são as belas no harém.

 

A ventura é ter um seio,

A que o nosso sem receio,

A pender por doce enleio,

Revele as mágoas e a dor;

A ventura é ter desejos

E matá-los com mil beijos,

A ventura é ter a vida

Ao doce afecto rendida;

A ventura é ter amor.

 

Corre pois, dá-me os teus braços,

Apertemos nossos laços,

Porque os dias são escassos

Para quem sabe viver,

E se a dita é ser amada,

Se sem amor não há nada

Que te faça venturosa,

Ninguém neste mundo goza,

Mais ventura ou mais prazer.

 Coimbra, Abril de 1848

Lia este poema e pensava que tive a ventura de viver a adolescência e juventude num tempo em que a poesia como meio de sedução e convite ao amor estava fora de moda. O poema foi composto por A. X.  R.  Cordeiro (1819 – 1896) tinha o poeta 19 anos e estudava na Universidade de Coimbra. Foi publicado em O Trovador. e é o convite possível ao sexo naquele meado do século XIX, onde as convenções de sociedade eram espartilho para o amor.

Na verdade nos meus vinte anos e mesmo antes, era tudo muito mais fácil. Pensar em compor loas aos olhos da menina ou às sedutoras formas escondidas sob as sete saias da moda extinguiria, no burilar do verso, qualquer fogo em que o corpo ardesse. O recurso à prostituição como iniciação sexual era história passada e remota, de, pelo menos, o tempo dos pais. As formas e profundidade dos relacionamentos davam conta da liberdade de costumes que se insinuava nas nossas vidas, apesar de numa forma mais lenta que nas vizinhas sociedades ocidentais.

A música anglo-americana de final nos anos sessenta e década de setenta reflectiu isso mesmo. Os temas e as abordagens cobrem virtualmente as situações vividas por cada um de nós. Não é hoje que vos conto detalhes pessoais destes tempos mas recordo dos Rolling Stones, Let’s spend the night together, cuja letra é paradigmática do tempo que refiro.

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/Rolling+Stones+–+Let+spend+the+night+together.mp3

Let’s spend the night together

My, My, My, My
Don’t you worry ‘bout what’s on your mind (Oh my)
I’m in no hurry I can take my time (Oh my)
I’m going red and my tongue’s getting tied (tongues’s getting tied)
I’m off my head and my mouth’s getting dry.
I’m high, But I try, try, try (Oh my)
Let’s spend the night together
Now I need you more than ever
Let’s spend the night together now

I feel so strong that I can’t disguise (oh my)
Let’s spend the night together
But I just can’t apologize (oh no)
Let’s spend the night together
Don’t hang me up and don’t let me down (don’t let me down)
We could have fun just groovin’ around around and around
Oh my, my
Let’s spend the night together
Now I need you more than ever
Let’s spend the night together

Let’s spend the night together
Now I need you more than ever

You know I’m smiling baby
You need some guiding baby
I’m just deciding baby; now-
I need you more than ever
Let’s spend the night together
Let’s spend the night together now

This doesn’t happen to me ev’ryday (oh my)
Let’s spend the night together
No excuses offered anyway (oh my)
Let’s spend the night together
I’ll satisfy your every need (every need)
And I now know you will satisfy me
Oh my, my, my, my, my
Let’s spend the night together
Now I need you more than ever
Let’s spend the night together now

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A Maior Dor Humana e o grito contido de Camilo Castelo Branco

18 Terça-feira Out 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Camilo Castelo-Branco

Quando aqui deixei poesia de Ângelo de Lima (1872-1921), destaquei o poema A MEU PAI, no qual o poeta dá conta da dor pela ausência do pai.

Olhando de outra perspectiva a ligação entre pais e filhos, é a dor paternal que trago hoje, através do grito contido de Camilo Castelo Branco (1825-1890):

“Aqui estou quase cego, paralytico; ao lado de um filho querido e mentecapto que já tentou matar-me. Haverá grandes desgraçados, que comparados commigo, se considerem quasi felizes”.

Vem este desabafo numa carta a João de Deus (1830-1896) a propósito do livro de condolências “A Maior Dor Humana” por este organizado na sequência da morte quase simultânea dos dois filhos adolescentes de Teófilo Braga (1843-1924).

Camilo faz acompanhar a carta com o soneto que abre o livro e lhe dá o título:

A Maior Dor Humana

Que immensas agonias se formaram

Sob os olhos de Deus! Sinistra hora

Em que o homem surgiu! Que negra aurora,

Que amargas condições o escravisaram!


As mãos, que um filho amado amortalharam,

Erguidas buscam Deus. A Fé implora.

E o céo que respondeu? As mãos baixaram

Para abraçar a filha morta agora.


Depois, um pai que em trevas vai sonhando,

E apalpa as sombras d’elles onde os viu

Nascer, florir, morrer!…

Desastre infando!


Ao teu abysmo, pai, não vão confortos,

És coração que a dor impedreniu,

Sepulchro vivo de dois filhos mortos.

S. Miguel de Seide , 27 de junho de 1887.

O soneto, despido de sentimentalismos vãos, traça na sua secura, a compreensão masculina do amor paternal “Ao teu abysmo, pai, não vão confortos, / És coração que a dor impedreniu,”.

Não temos afagos nem recordações de ternuras ou graças, apenas, na aflição, as mãos que “Erguidas buscam Deus. A Fé implora.”

Camilo à data tinha já conhecido de perto a morte do filho Manuel Plácido aos 19 anos. Sabia sobre o que escrevia. Jorge, o filho mentecapto referido na carta, tinha nesta altura 21 anos. Acompanhamos na correspondência de Camilo a experiência do pai com este filho, a quem se referiu sempre com a ternura seca dos seus modos.

É este A Maior Dor Humana um livro onde se condensa, não a dor do pai pelos filhos mortos, mas a visão social e pessoal da paternidade no final do século XIX.

O livro, hoje uma raridade bibliográfica, contém poemas, entre os quais  Poesia da Morta de Gomes Leal (1848-1921), é do melhor que o poeta produziu, e recolhe relatos de imprensa sobre as exéquias. Constitui no seu todo um documento sociológico notável.

Esta relação pai/filho não é a mesma dos nossos dias. Hoje os homens sentem-se socialmente autorizados a mostrar o amor pelos filhos através de manifestações de carinho e afecto, vedados em épocas passadas, e vistos inclusive como sinais de menor masculinidade.

Referência bibliográfica e iconográfica:

A Maior dor Humana – Coroa de saudades offerecida a Theophilo Braga e sua Esposa para a Sepultura de seus Filhos por João de Deus e entretecida pela piedade de …, dada à estampa pela piedade de Anselmo de Morais, 1889.

A pintura que encima o artigo é de Max Ernst (1891-1976) titulada Pietá.

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Dois sonetos de Bocage sobre o amor

05 Quarta-feira Out 2011

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Poesia Antiga

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Bocage

Lendário é o nome do poeta, menos conhecida é a sua poesia, sendo pesquisa de alfarrabista procurar a sua obra.

Arquivo no blog dois sonetos de Bocage (1765-1805) sobre o amor físico:

Um, remate da paixão:

Mais doce é ver-te de meus ais vencida, / Dar-me em teus brandos olhos desmaiados / Morte, morte de amor, melhor que a vida!

A Anália

Se é doce no recente, ameno estio
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias os verdores,
Mole e queixoso deslizar-se o rio;

Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis amadores,
Seus versos modulando e seus ardores
De entre os aromas de pomar sombrio;

Se é doce mares, céus, ver anilados
Pela quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados,

Mais doce é ver-te de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida!

Outro, desta vez gozo imaginado:

Que pode contra Amor a tirania, / Se as delicias que a vista não consente, / Consegue a temerária fantasia?

Debalde um véu cioso, ó Nize, encobre
Intactas perfeições ao meu desejo;
Tudo o que escondes, tudo o que não vejo
A mente audaz e alígera descobre.

Por mais e mais que as sentinelas dobre
A sisuda Modéstia, o cauto Pejo,
Teus braços logro, teus encantos beijo,
Por milagre da ideia afouta e nobre.

Inda que prémio teu rigor me negue,
Do pensamento a indómita porfia
Ao mais doce prazer me deixa entregue.

Que pode contra Amor a tirania,
Se as delicias que a vista não consente,
Consegue a temerária fantasia?

 

Nota sobre a fotografia:

Desconheço o autor da foto que encima o artigo. Encontrei-a num desses blogs que arquivam fotografias ao gosto dos seus promotores, sem nenhuma indicação de autoria. É pena. A foto convida-nos a adivinhar a perfeição do rosto a partir do desenho da boca, encaminhando a imaginação pela harmonica curvatura da cabeça. Escolhi-a a pensar com o poeta: Debalde um véu cioso, ó Nize, encobre / Intactas perfeições ao meu desejo;

Se é verdade que nas coisas de sexo importam sobretudo os lugares onde entramos e renascemos de prazer, o rosto dá uma iluminação inefável a cada morte de amor, melhor que a vida!

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Poesia de Li Ch’ing-chao

04 Terça-feira Out 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poesia Chinesa

≈ 2 comentários

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Li Ch'ing-chao

Nesta volta pela poesia produzida no mundo à roda do século XII e que chegou até nós, depois dos Carmina Burana, da poesia de Francisco de Assis, de poesia do Al-Andaluz com o meu conterrâneo  ABÛ ‘UTHMÂN e AL-MU’TAMID, também cantado por Carlos Cano, tendo ainda viajado brevemente até à Persia à poesia de Omar Jayyam, viajamos hoje até à China e à poesia de Li Ch’ing-chao (1084-1150).

Comecemos com uma versão em português de Gil de Carvalho:

Primavera em Wuling

Parou o vento. Até a poeira é perfumada.

Já é tarde. Não me apetece pentear-me.

As coisas estão aqui mas ele o homem não – tudo acabou.

Quero falar – mas correm-me as lagrimas

Ouvi dizer que no Regato Duplo é ainda Primavera.

Gostaria de ir até lá andar numa barca leve

Mas tenho receio que barca tão frágil

Não suporte o peso de tanto sofrimento.

Vejamos agora uma primeira versão em inglês:

Spring Ends

To the tune “Spring in Wu-ling“

The wind stops.

Nothing is left of Spring but fragrant dust.

Although it is late in the day,

I have been too exhausted to comb my hair.

Our furniture is just the same,

But he no longer exists.

I am unable to do anything at all,

Before I can speak my tears choke me.

I hear that Spring at Two Rivers

Is still beautiful.

I had hoped to take a boat there,

But I am afraid my little boat

Is too small to ever reach Two Rivers,

Laden with my heavy sorrow.


A tradução é de Kenneth Rexroth (1905-1982) & Ling Chung e foi publicada em Women Poets of China, New Directions, 1972.

E por fim uma tradução de David Hinton em Classical Chinese Poetry, An Anthology, Farrar, Strauss and Giroux, 2008:

Untitled
A lovely wind, dust already fragrant with fallen blossoms:

it’s sunset, and I can’t even comb my hair.

Things go on and on. People don’t: all our great plans vanish.

Now, if I try to speak, nothing comes but tears.


I hear spring along Twosomes Creek is still exquisite, my love,

And I ache to go drifting there in a light boat,

but I’m afraid those frail little Twosomes-Creek boats

couldn’t bear up all this grief and sorrow.

Entre estas três versões do poema, que não sei ler em chinês, existem substanciais alterações de sentido no detalhe dos versos, sendo que no essencial todas dão conta da desolação da viúva na sua solidão, com aquela belíssima imagem final de o peso do sofrimento poder afundar um barco.

É uma característica desta poesia clássica chinesa, o cruzamento entre o sentimento e a materialidade do mundo em redor, utilizando esse mesmo mundo para, com imagens inesperadas, traduzir a natureza e extensão do sentir.

Todas as fontes são comuns na importância da poesia de Li Ch’ing-chao no conjunto da poesia chinesa de todos os tempos. Há uma unanimidade em a considerar a maior poetisa chinesa do período clássico.

Li Ch’ing-chao (1084-1150) nasceu numa família aristocrática, que deu às filhas as mesmas oportunidades de educação que aos filhos, prática completamente fora dos hábitos da época na China. A família casou-a com um intelectual e poeta, Chao Ming-ch’eng, com quem formou, aparentemente, o casal intelectual ideal. É lendária a colecção de livros, pinturas, caligrafias e antiguidades que ambos formaram. Obrigados a fugir à medida que o norte da China era conquistado pelos tártaros, foram, na fuga, perdendo toda esta colecção. No meio desta fuga o marido morreu de morte súbita, ficando Li Ch’ing-chao, viúva aos quarenta e seis anos, sem meios de vida, numa sociedade fortemente sexista em que a mulher se encontrava subordinada de forma absoluta ao homem. Mulher sózinha, sem protecção de um macho, pouco se sabe das duas décadas que ainda viveu. Ao morrer deixou cerca de 1000 poemas, mas como aconteceu com muitas das poetisas da antiga China, esta colecção perdeu-se completamente. O que dela hoje conhecemos chegou por fontes secundarias e metade é de autoria duvidosa.

A poesia que dela se conhece afasta-se da de outras poetisa da antiga China, cortesãs ou esposas abandonadas, muita da qual escrita afinal por homens, e pelo contrário transmite uma emoção banhada de experiência pessoal que a aproxima da poesia de uma Gaspara Stampa ou de uma Louise Labé. Os conhecedores arrumaram no passado a sua poesia em três períodos: primeiro a vida feliz enquanto casada, segundo a desolação após a morte do marido e terceiro, a progressiva solidão à medida que envelhecia. Hoje parece ser mais avisado ler os seus poemas apenas como tocantes poesia criada por uma poetisa de génio e dissociá-los de aspectos de biografia.

O género de poemas, como o aqui transcrito, destinado a ser cantado com acompanhamento musical para entreter convidados, é conhecido como Tz’u, significando “as palavras”. Terá sido Li Ch’ing-chao e alguns contemporâneos, quem deu inicio a um conteúdo discurso nestas letras de canções com uma escrita critica que passou a ser conhecida como “Tz’u lun” (discurso nas palavras) geralmente considerados os Tz’u mais interessantes.

Existem diferenças na romanização do nome da poetisa e algum desencontro sobre o período em que viveu, nas diferentes fontes consultadas:

– Gil de Carvalho em Uma Antologia da Poesia Chinesa adopta para a romanização do nome o Pinyin e escreve Li Qingzhao 1081-1145?

– Kenneth Rexroth  & Ling Chung em Women Poets of China  tal como  David Hinton em Classical Chinese Poetry, An Anthology escrevem, os primeiros LI CH’ING-CHAO (1084-1151), e o segundo Li Ch’ing-chao (1084-1150) adoptando na romanização do nome a transcrição mais antiga de Wade-Giles.

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