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vicio da poesia

Category Archives: Poesia Antiga

Dois sonetos de Louise Labé com pasteis de Rosalba Carriera

21 Terça-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Louise Labé, Rosalba Carriera

Acompanhando ainda este tempo de verão, tempo de amor em que o desejo se incendeia, trago as palpitações contadas por Louise Labé (1524-1566):

Eu vivo, eu morro: e ardo e arrefeço;
com extremo calor tremo de frio;

Para depois nos dizer dos extremos da paixão:

E tal como jubilo me entristeço;
no prazer o tormento ludibrio;

Incluída na história da literatura entre as grandes amorosas por Rainer Maria Rilke, Louise Labé (1524-1566), é poetisa de obra curta (24 sonetos, 3 elegias) e  é pouco conhecida entre nós.

Com biografia hipotética, levantam hoje alguns especialistas a dúvida sobre quem escreveu os seus sonetos, um pouco à semelhança do que aconteceu com a prosa erótica atribuída à nossa Luísa Sigea. Mas neste último caso a mulher existiu, a obra é que não é de sua autoria.
Um dia, talvez lá vá, a esse gineceu que foi a corte da Infanta D. Maria onde Luisa Sigea viveu. Hoje fiquemos com dois sonetos de Louise Labé (1524-1566), em tradução de David Mourão-Ferreira, e respectivos originais.

Eu vivo, eu morro: e ardo e arrefeço;
com extremo calor tremo de frio;
do mundo ora me espanto ora me rio;
no meio da alegria me aborreço.

E tal como jubilo me entristeço;
no prazer o tormento ludibrio;
meu bem não dura mais que um arrepio;
e seco de repente, e reverdeço.

Assim me arrasta o inconstante Amor:
e quando penso que é maior a dor,
sem saber como sinto-me liberta.

Mas do alto a que subo deslumbrada
novamente me vejo despenhada,
quando julgo a fortuna mais que certa.

Original

Je vis, je meurs: je me brûle et me noie,
J’ai chaud extrême en endurant froidure;
La vie m’est et trop molle et trop dure,
J’ai grands ennuis entremélés de joie.

Tout en un coup je ris et je larmoie,
Et en plaisir maint grief tourment j’endure,
Mon bien s’en va, et à jamais il dure,
Tout en un coup je sèche et je verdoie.

Ainsi Amour inconstamment me mène
Et, quand je pense avoir plus de douleur,
Sans y penser je me trouve hors de peine.

Puis, quand je crois ma joie être certaine,
Et être en haut de mon désiré heur,
Il me remet en mon premier malheur.

Outro soneto

Ó belos olhos, ó cílios descidos,
Ó suspiros, ó lagrimas choradas,
Ó negras noites em vão tão esperadas,
Ó dias vãos em vão tão repetidos!

Ó tristes prantos, ó tempos perdidos,
Ó desejos, ó penas sufocadas,
Ó mil mortes em redes enlaçadas,
Ó males p’ra meu mal acontecidos!

Ó riso, ó fronte, ó braços, mãos e dedos!
Ó alaúde, ó viola dos enredos:
Archotes sois para uma fêmea arder!

De ti me queixo, que tais fogos tendo,
Só a mim afinal deixas ardendo,
Sem faúlha nenhuma te atingir!

Original

Ô beaux yeux bruns, ô regards détournés,
Ô chauds soupirs, ô larmes épandues,
Ô noires nuits vainement attendues,
Ô jours luisants vainement retournée !

Ô tristes plaints, ô désirs obstiné,
Ô temps perdu, ô peines dépendues,
Ô milles morts en mille rets tendues,
Ô pires maux contre moi destiné !

Ô ris, ô front, cheveux bras mains et doigts !
Ô luth plaintif, viole, archet et voix !
Tant de flambeaux pour ardre une femelle !

De toi me plains, que tant de feux portant,
En tant d’endroits d’iceux mon coeur tâtant,
N’en ai sur toi volé quelque étincelle.

Abre o artigo com uma alegoria ao Verão de Rosalba Carriera (1675-1757), um retrato feminino a pastel.
Foi uma grata surpresa a descoberta dos retratos de Rosalba Carriera, certa tarde em Veneza, quando, na minha estultícia, julgava já não haver pintura a descobrir.
A fragilidade do pastel e a textura particular da superfície pintada, dão aos retratos um vivacidade e presença que quase nos apetece começar a falar com quem nos olha. A obra da pintora não é vasta e ao que conheço restringe-se ao retrato. Acrescento para quem a não conhece as restantes estações do ano no pastel da pintora.
São sempre mulheres de seio à vista, e é uma alegoria correcta, pois são elas quem nos acompanha em todas as estações da vida. Em realidade ou em fantasia.

Primavera

Outono

Inverno

Termino com o belo Apolo para consolo das leitoras do blog

 

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Camões – Canto IX de Os Lusíadas (fragmento)

07 Terça-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Camões, Hieronymous Bosch

Embora os leitores possam conhecer a aventura de Leonardo, soldado bem disposto, na Ilha dos Amores, narrada por Camões no Canto IX de Os Lusíadas, não resisto à sua transcrição.

O poeta dá conta em detalhada descrição, de como se desenvolveu o encontro entre Leonardo, soldado da armada de Vasco da Gama e a ninfa Efire quando para repouso e prémio dos valorosos marinheiros,

De longe a Ilha viram, fresca e bela, / Que Vénus pelas ondas lha levava

Ficou esta ilha conhecida por Ilha dos amores e os seus encantos descreve-os o poeta a partir da estrofe 52 do Canto IX.

Acompanhamos o detalhe da natureza na descrição do poeta, de que destaco

Os fermosos limões ali, cheirando, / Estão virgíneas tetas imitando.

Depois da descrição da ilha somos chamados a acompanhar o desembarque dos guerreiros

Nesta frescura tal desembarcavam / Já das naus os segundos Argonautas, / Onde pela floresta se deixavam / Andar as belas Deusas, como incautas.

Como eram e o que faziam as belas deusas, sabemos a seguir:

Algumas, doces cítaras tocavam,
Algumas, harpas e sonoras frautas;
Outras, cos arcos de ouro, se fingiam
Seguir os animais que não seguiam.

Isto era estratégia de sedução, conta-nos à frente o poeta:

Assi lho aconselhara a mestra experta:
Que andassem pelos campos espalhadas;
Que, vista dos barões a presa incerta,
Se fizessem primeiro desejadas.
Era o paraíso ali à vista:
Algumas, que na forma descoberta
Do belo corpo estavam confiadas,
Posta a artificiosa fermosura,
Nuas lavar se deixam na água pura.

Será de estupefacção, primeiro, a reacção à vista de tal espectáculo:

Mas os fortes mancebos, que na praia
Punham os pés, de terra cobiçosos
…
Começam de enxergar subitamente,
Por entre verdes ramos, várias cores,
Cores de quem a vista julga e sente
Que não eram das rosas ou das flores,
Mas da lã fina e seda diferente,
Que mais incita a força dos amores,
De que se vestem as humanas rosas,
Fazendo-se por arte mais fermosas.

Dá Veloso, espantado, um grande grito:
«Senhores, caça estranha (disse) é esta!
Se inda dura o Gentio antigo rito,
A Deusas é sagrada esta floresta.

E à estupefacção segue-se a luxúria:

De hüa os cabelos de ouro o vento leva,
Correndo, e de outra as fraldas delicadas;
Acende-se o desejo, que se ceva
Nas alvas carnes, súbito mostradas.

É Leonardo o escolhido para protagonizar a narrativa das delicias ali vividas:

Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,

por tal forma saborosos que no final o poeta não resiste ao conselho:

Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

(Nota: julgue-o é aqui usado com o sentido de imagine-o)

Leia-se então integralmente o episódio com Leonardo.

75
Leonardo, soldado bem disposto,
Manhoso, cavaleiro e namorado,
A quem Amor não dera um só desgosto,
Mas sempre fora dele mal tratado,
E tinha já por firme prossuposto
Ser com amores mal-afortunado,
Porém não que perdesse a esperança
De inda poder seu Fado ter mudança;

76
Quis aqui sua ventura que corria
Após Efire, exemplo de beleza
Que mais caro que as outras dar queria
O que deu, pera dar-se, a Natureza.
Já cansado, correndo, lhe dizia:
«Ó fermosura indigna de aspereza,
Pois desta vida te concedo a palma,
Espera um corpo de quem levas a alma!

77
«Todas de correr cansam, Ninfa pura,
Rendendo-se à vontade do inimigo;
Tu só de mi só foges na espessura?
Quem te disse que eu era o que te sigo?
Se to tem dito já aquela ventura
Que em toda a parte sempre anda comigo,
Oh! não na creias, porque eu, quando a cria,
Mil vezes cada hora me mentia.

78
«Não canses, que me cansas; e, se queres
Fugir-me, por que não possa tocar-te,
Minha ventura é tal, que, inda que esperes,
Ela fará que não possa alcançar-te.
Espera; quero ver, se tu quiseres,
Que sutil modo busca de escapar-te;
E notarás, no fim deste sucesso,
“Tra la spica e la man qual muro he messo.”

79
«Oh! Não me fujas! Assi nunca o breve
Tempo fuja de tua fermosura;
Que, só com refrear o passo leve,
Vencerás da Fortuna a força dura.
Que Emperador, que exército, se atreve
A quebrantar a fúria da ventura
Que, em quanto desejei, me vai seguindo,
O que tu só farás não me fugindo?

80
«Pões-te da parte da desdita minha?
Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.
Levas-me um coração que livre tinha?
Solta-mo, e correrás mais levemente.
Não te carrega essa alma tão mesquinha
Que nesses fios de ouro reluzente
Atada levas? Ou, despois de presa,
Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?

81
«Nesta esperança só te vou seguindo:
Que ou tu não sofrerás o peso dela,
Ou, na virtude de teu gesto lindo,
Lhe mudarás a triste e dura estrela.
E, se se lhe mudar, não vás fugindo,
Que Amor te ferirá, gentil donzela,
E tu me esperarás, se Amor te fere;
E, se me esperas, não há mais que espere.»

82
Já não fugia a bela Ninfa, tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.

83
Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

Ilustra o artigo o painel central do tríptico de Hieronymous Bosch, O Jardim das Delícias na Terra, pintado em 1504-05.

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Nevermore – soneto de Paul Verlaine

30 Segunda-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Paul Verlaine, Toulouse-Lautrec

É a um exercício de reflexão sobre os limites e resultados da tradução de poesia que convido o leitor que simultaneamente leia fluentemente francês.

São três as leituras em português que transcrevo de um famoso soneto de Paul Verlaine (1844-1896), Nevermore.

As opções dos tradutores dividem-se entre a fidelidade verbal ao texto e a captação da ideia numa reconstrução em português.
A polémica é antiga e permanece. Qual delas é a opção legítima? Por mim, apenas o talento poético do tradutor permite criar na nossa língua um poema que pareça ter-lhe sempre pertencido, o que, com rara felicidade, acontece nestas três traduções, embora a tradução de charmant por vibrante, no penúltimo verso, feita por Fernando Pinto do Amaral me pareça discutível.

Outras traduções são ainda possíveis para a infinita nostalgia que se desprende deste Ah! …

– Ah ! les premières fleurs, qu’elles sont parfumées !
Et qu’il bruit avec un murmure charmant
Le premier oui qui sort de lèvres bien-aimées !

Vamos então às traduções. O original encontra-se integralmente no final do artigo.

Nevermore

Doces recordações, que me quereis? O Outono
Fazia o tordo voar num lânguido ar de sono
E, monótono, o Sol lançava do seu trono
Ao bosque desmaiado uma luz de abandono.

Íamos sós os dois, sonhando, o pensamento
E o cabelo a esvoaçar na quimera do vento.
E eis que ela, olhos em mim, num enternecimento,
“Qual foi na vida”, disse,”o teu melhor momento?”

Trinava a doce voz, em vibrações amenas;
Um sorriso discreto eu lhe volvi apenas
E a sua mão beijei, devotamente.

— Ah! as primeiras flor’s, como são perfumadas!
E como se ouve soar, que murmúrio atraente
Tem o primeiro sim nas bocas bem-amadas!

Tradução de Pedro da Silveira

E agora a versão de Herculano de Carvalho

Nevermore

Reviver, reviver, que me queres tu? O Outono
Fazia o tordo abrir as asas pelo céu morno
E, monótono, o Sol lançava um raio em torno
Do bosque amarelando, à brisa, em abandono.

Os dois íamos sós e num sonho absorvente,
Eu e ela, o cabelo e o pensamento ao vento.
De súbito, voltando o olhar de encantamento:
“Qual teu dia melhor?” disse a voz de oiro quente.

A voz doce e sonora, em fresco timbre, angélica,
Um sorriso discreto à pergunta deu réplica,
E beijei sua mão branca devotamente.

— Aí! as primeiras flores e os botões perfumados!
E como soa num murmúrio comovente
O “sim” primeiro, ao vir de lábios bem-amados.

Termino com a versão de Fernando Pinto do Amaral

Nevermore

Ah, lembrança, lembrança, que me queres? O Outono
Fazia voar os tordos plo ar desmaiado
E o sol dardejava um monótono raio
No bosque amarelado onde a nortada ecoa.

A sonhar caminhávamos os dois, a sós,
Ela e eu, pensamento e cabelos ao vento.
De repente, fitou-me em olhar comovente:
“Qual foi o teu mais belo dia?” disse a voz

De oiro vivo, sonora, em fresco timbre angélico.
Um sorriso discreto deu-lhe a minha réplica
E então, como um devoto, beijei-lhe a mão branca.

— Ah! as primeiras flores, como são perfumadas!
E como em nós ressoa o murmúrio vibrante
Desse primeiro sim dos lábios bem-amados!

Nevermore

Souvenir, souvenir, que me veux-tu ? L’automne
Faisait voler la grive à travers l’air atone,
Et le soleil dardait un rayon monotone
Sur le bois jaunissant où la bise détone.

Nous étions seul à seule et marchions en rêvant,
Elle et moi, les cheveux et la pensée au vent.
Soudain, tournant vers moi son regard émouvant
” Quel fut ton plus beau jour? ” fit sa voix d’or vivant,

Sa voix douce et sonore, au frais timbre angélique.
Un sourire discret lui donna la réplique,
Et je baisai sa main blanche, dévotement.

– Ah ! les premières fleurs, qu’elles sont parfumées !
Et qu’il bruit avec un murmure charmant
Le premier oui qui sort de lèvres bien-aimées !

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Meio-Dia de Gabriele D’Annunzio com pintura de Georges Seurat

29 Domingo Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Gabriele D'Annunzio, Georges Seurat

Depois de Hesíodo, nos próximos tempos, mas com incerta cadência, vão aparecer alguns poemas numa espécie de elegia para o verão: sentimentos, lugares e acontecimentos com o Verão num papel de protagonista. Hoje é o poema Meio-Dia de Gabriele D’Annunzio (1863-1938) onde uma intensa comunhão com a natureza se vive.

Meio-Dia

No seu auge o dia.
Sobre o mar etrusco
paira um verde pálido
como o dessepulto
bronze das estátuas.
Tudo tão tranquilo
que à roda não vibra
nem da brisa o hálito;
sequer um arbusto
se move na áspera,
solitária praia.

Bonança, calor,
em tudo silêncio.
O Verão, maduro,
cobre-me a cabeça,
como sendo um fruto
que a mim me pertença,
e colher eu deva
com a minha mão,
e sugar eu deva
com a minha boca.
Nem um só vestígio
de humana presença.
Nada que se ouça,
se me ponho à escuta.
Longe a dor dos homens.
Nem já tenho nome.
Sinto que o meu rosto
se doura de um ouro
que é meridiano;
e que a minha loura
barba já reluz
como a própria areia.
Mesmo o delicado
desenho da onda
na orla da praia
me está no palato,
na palma da mão
regendo-me o tacto.
Toda a minha força
na areia se expande,
no mar se difunde:
minha veia, o rio;
minha fronte, o monte;
o bosque, o meu púbis;
meu suor, a nuvem.
E vivo na flor
de esteva das dunas,
nas pinhas, nos bagos
dos juncos; nas algas,
na flora marinha;
nas coisas exíguas,
nas coisas imensas;
na areia contínua,
de cumes longínquos.
Só ardo e rebrilho.
E nem tenho nome.
Montanhas e ilhas,
bosques e baías
perderam os nomes
que outrora lhes dei
ou tinham outrora
em lábios humanos.
E eu próprio sem nome
nem destino humano:
já só Meio-Dia
agora me chamo.
Vivo em tudo, tácito,
tal e qual a Morte.

Toda a minha vida
se tornou divina.

Tradução de David Mourão-Ferreira

Acompanha o poema a pintura solar de Georges Seurat (1859-1891), génio de curta vida que no espaço de nove anos (1882-1891) produziu um conjunto de pinturas imperecíveis, onde a alegria do mundo se exprime.
Inventor da técnica pontilhista, com um absoluto domínio cientifico da teoria das cores, é a sobreposição de pontos de cores puras a responsável pela textura e efeito das suas pinturas resplandecendo modernidade.

Depois deste conjunto explorando as possibilidades do contraste em diagonal no preenchimento da superfície pictórica, escolhi este segundo grupo onde a horizontal na definição da paisagem surge no seu potencial pictórico.

Termino dando conta, em complemento da pintura inicial, da evolução da técnica aplicada à figura humana.

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Stéphane Mallarmé — Brisa marinha

27 Sexta-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Paul Gauguin, Stéphane Mallarmé

Às vezes, na sobrecarga dos dias invade-nos um desejo imenso de evasão, uma vontade de partir, em que apenas o mar é consolação.
É do que nos fala este poema de Stéphane Mallarmé (1842-1898), Brisa marinha, para o qual vos deixo duas versões em português, ambas satisfatórias mas sem a música desolada que se ouve no original, o qual acrescento para os leitores fluentes em francês.

A pintura de Paul Gauguin (1848-1903) a acompanhar explica-se pela biografia do pintor, aquele que definitivamente partiu, deixando tudo, em busca do paraíso.

Brisa marinha (Brise marine)

A carne é triste e eu, aí! já li todos os livros.
Fugir! Fugir p’ra longe. Oiço as aves aos gritos
Ébrias na espuma ignota e sob o céu, em bando!
Nada, nem vãos jardins nos olhos se espelhando
Retém meu coração que se embebe de mar,
Oh noite! nem a luz da candeia a alumiar
O deserto papel que a brancura defende;
Nem mesmo jovem mãe que seu filho amamente.
Hei-de partir! Vapor em marítimas crises,
Iça o ferro e faz rumo a exóticos países.

Um tédio triste, em cruel e inútil esperar,
Crê no supremo adeus dos lenços a acenar.
Que os mastros, porventura, atraindo presságios,
São os mesmos que um vento inclina nos naufrágios.
Soltos no mar, no mar, sem ilhas nem esteiros.
Mas ouve, coração, cantar os marinheiros.

Tradução de Herculano de Carvalho

Brisa marinha (Brise marine)

Triste carne, aí de mim! Já li os livros todos.
Fugir! Longe fugir! As aves sinto a modos
De ser ébrias de espuma entre o mistério e os céus!
Nada, nem os jardins espelhados nos meus
Olhos, o coração retém quase afogado,
Ó noites! nem da lâmpada a ausente claridade
No branco do papel que o vazio rejeita
E nem a jovem mãe que ao peito o filho aleita.
Hei-de partir! Veleiro a mastrear, tu, larga
As amarras, demanda outra exótica plaga!

Um Tédio, desolado por esperanças cruéis,
Crê ainda nos lenços molhados dos adeus!
E talvez que esses mastros atraindo os presságios
Sejam dos que o tufão verga sobre os naufrágios
Perdidos, já sem mastros, em estéreis ilhéus …
Mas os marujos cantam, ouve, coração meu!

Tradução de José Augusto Seabra

Brise marine

La chair est triste, hélas ! et j’ai lu tous les livres.
Fuir ! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
D’être parmi l’écume inconnue et les cieux !
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe
Ô nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l’ancre pour une exotique nature !

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l’adieu suprême des mouchoirs !
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages,
Sont-ils de ceux qu’un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots …
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots !

 

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Poemas para o verão: Hesíodo (séc VIII a.C,) a abrir

26 Quinta-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poesia Grega

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Abel Grimmer, Bruegel, Hesíodo

Verão, quando é “o vinho melhor / mais ardentes as mulheres e moles os homens;” segundo a sabedoria de Hesíodo nos seus mais de 2700 anos, é também tempo de poesia. E para este Verão reuni um grupo variado de poemas onde, da Rússia à América, a estação nos surge.

Dou a primazia a um fragmento do poema Trabalhos e Dias de Hesíodo (séc VIII a.C,) o mais antigo poeta grego cujo nome se conhece, e bastas vezes referido no blog.

Quando o cardo floresce e a sonora cigarra,
pousada nas árvores, espalha o melodioso canto,
pela fricção das asas, na penosa estação do calor,
nessa altura são mais gordas as cabras e o vinho melhor,
mais ardentes as mulheres e moles os homens;
Siriús abrasa-lhes a cabeça e os joelhos,
fica-lhes ressequida a pele pelo calor. É tempo então
de gozar a sombra de uma rocha, o vinho bíblino,
um pão de qualidade, leite de cabra que já não amamenta,
carne de vitela apascentada nos bosques, que ainda não pariu,
e de cabritos tenros. Bebe então o vinho rubro,
sentado à sombra, saciado o coração com o festim,
o rosto voltado de frente para a frescura do Zéfiro;
e de uma fonte que corre perene e límpida,
deita três partes de água e a quarta de vinho

Trabalhos e Dias (582-596)
Tradução de José Ribeiro Ferreira
Edição INCM, Lisboa 2005

A abrir o artigo vem um desenho de Bruegel (1525-1569) conhecido por Verão.

Termino com a pintura de um seguidor, Abel Grimmer (1570-1619) – Verão, feita provavelmente meio século mais tarde.

Veja o leitor as diferenças como exercício de Verão.

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Moda feminina no século XVII e dois sonetos de Nicolau Tolentino

25 Quarta-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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FRANS POURBUS, MARCUS GHEERAERTS o jovem, Nicolau Tolentino

Não sou conhecedor da história do vestir. Simplesmente a minha paixão pela pintura de retrato leva-me muitas vezes a ficar boquiaberto perante vestimentas de outrora com que as nobres pessoas se envolviam. Pasmo muitas vezes a pensar como se moveriam se na verdade se vestissem assim.
É certamente abusivo o título do artigo, pois o moderno conceito de moda, na volubilidade do gosto dos nossos dias, não é compaginável com as características da sociedade do século XVII. No entanto, a hierarquização social definida pela forma de vestir foi uma constante pelos séculos nas sociedades europeias. Há noticia na poesia satírica portuguesa do século XVIII, sobretudo, tanto de uma vontade de parecer mais do que se é, como de originalidades no vestir, verdadeiramente saborosas. No que ao século XVI se refere, há noticia de ordenações reais estipulando ao detalhe uma disciplina no traje.
Sendo a realeza o vértice da pirâmide social, é a esta que cabe a apresentação mais ofuscante da forma de surgir em público. E nesse universo reuni um pequeno grupo de pinturas onde a surpresa do traje é permanente  (a identificação da retratada consta do nome do ficheiro).

Para a nota poética do artigo, e como obviamente estas pessoas reais não podiam ser objecto de sátira, é ao século XVIII, onde ela abunda, que vou buscar dois sonetos de Nicolau Tolentino (1741-1811).

Fofo colchão, as plumas bem erguidas,
E sobre os ombros nas jocundas frentes
De enrolado cabelo aneis pendentes,
Longos chorões, belezas estendidas,

Era esta das matronas presumidas
A moda, que traziam bem contentes;
Riam-se delas as modestas gentes
Vendo pequenas poupas esquecidas.

Nisto a gentil madama aperaltada,
Grande autora de trastes esquisitos,
Nova moda lhe inventa abandalhada.

Reprova-lhe aureos leques com mil ditos.
Eis senão quando (ó moda endiabrada!)
Abanam-se com asas de mosquito.

Agora o famosissimo Colchão dentro do toucado

Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena,
Que o furtado colchão, fofo e de penas,
A filha o ponha ali, ou a criada.

A filha, moça esbelta, e aperaltada,
Lhe diz co’a doce voz, que o ar serena:
“Sumiu-se lhe um colchão, é forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada:”

“Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?” E dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado;
Eis senão quando (caso  nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.

Sonetos gémeos no desenvolvimento da ideia e na construção poética, em ambos é o despautério do desenlace (a chave de ouro do soneto) a desencadear o riso.

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Cecco Angiolieri – Soneto LXXXVI

24 Terça-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Cecco Angiolieri, Simone Martini

À época de Cecco Angiolieri (1260-1320) a cultura em Siena, de onde era natural, atingia um pico e rivalizava com Florença no que ao domínio das artes respeita. Entre as obras-primas que nos chegaram deste curto século, destacam-se a pintura de Duccio, dos Lorenzetti, sobretudo os frescos do bom e mau governo, e a pintura de Simone Martini, a cuja obra voltarei a propósito de Laura e Petrarca, mas de quem hoje escolho o famoso cavaleiro solitário para ilustração deste artigo.

Com a mordacidade e o desbocado herdado da poesia goliárdica, os sonetos de Cecco Angiolieri (1260-1320) são no seu conjunto pouco conhecidos hoje. Contemporâneo de Dante, com quem polemicou poeticamente, da sua poesia reúnem-se hoje 129 sonetos, alguns dos quais com autoria questionada. Registo no blog a existência do poeta com o seu provavelmente mais famoso soneto, o nº86, no original italiano e na tradução portuguesa de Herculano de Carvalho.

A linearidade da argumentação na enumeração do uso do poder, e a clareza do discurso dispensam a intermediação interpretativa. Apenas a constância com que os defeitos (e virtudes) humanas atravessam os séculos vale a pena destacar.

Soneto LXXXVI

Se fora fogo, eu abrasava o mundo,
Se fora vento eu o arrasaria,
Se eu fora a água então o afogaria,
Se fora Deus, mandava-o pró profundo.

Se fora papa, em delírio jucundo
A todos os cristãos eu prenderia,
Se fora imperador, o que faria?
Golpeava a todos o pescoço, fundo.

Se fora morte, ao meu pai procurava,
Se fosse vida, o não queria mais
E coisa igual com minha mãe se dava.

Se fosse Cecco, como o sou de mais,
As mais linda mulheres p’ra mim guardava
E deixaria as feias para os mais.

Tradução de Herculano de Carvalho

Original do Soneto LXXXVI

S’i fosse fuoco, arderei ‘l mondo;
s’i fosse vento, lo tempestarei;
s’i fosse acqua, i’ l’annegherei;
s’i fosse Dio, mandereil’ en profondo;

s’i fosse papa, allor serei giocondo,
ché tutti cristiani imbrigarei;
s’i fosse ‘mperator, ben lo farei;
a tutti tagliarei lo capo a tondo.

S’i fosse morte, andarei a mi’ padre;
s’i fosse vita, non starei con lui;
similemente faria da mi’ madre.

Si fosse Cecco com’i’ sono e fui,
torrei le donne giovani e leggiadre:
le zoppe e vecchie lasserei altrui.

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Soneto de Ludovico Ariosto

23 Segunda-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Bartolomeo Veneto, Ludovico Ariosto

É conhecido em moderna tradução portuguesa o monumental poema Orlando Furioso de Ludovico Ariosto (1474-1533). São menos conhecidos os seus sonetos.

Arquivo no blog mais um daqueles retratos de mulher contido no soneto XXV, desta vez de uma traidora amante, cuja beleza física é laudatoriamente descrita para acentuar o contraste no fecho do soneto:

E embora seja tudo assim perfeito, / permiti que vos diga ousadamente: / mais perfeita era a fé que em vós eu tinha.

Soneto XXV

Que bela sois, senhora! Tanto, tanto,

que por mim nunca vi cousa mais bela!

Contemplo a fronte e penso que uma estrela

a meu caminho dá seu brilho santo.

Contemplo a boca e pairo no encanto

do sorriso tão doce que é só dela;

olho o cabelo de ouro e vejo aquela

rede que amor me impôs com terno canto.

É de terso alabastro o colo, o peito,

os braços mais as mãos, e finalmente

quanto de vós se vê ou se adivinha.

E embora seja tudo assim perfeito,

permiti que vos diga ousadamente:

mais perfeita era a fé que em vós eu tinha.

Tradução de David Mourão-Ferreira

Soneto XXV (original italiano)

Madonna, sète bella e bella tanto,

ch’io non veggio di voi cosa più bella;

miri la fronte o l’una e l’altra stella

che mi scorgon la via col lume santo;

miri la bocca, a cui sola do vanto

che dolce ha il riso e dolce ha la favella,

e l’aureo crine, ond’Amor fece quella

rete che mi fu tesa d’ogni canto;

o di terso alabastro il collo e il seno

o braccia o mano, e quanto finalmente

di voi si mira, e quanto se ne crede,

tutto è mirabil certo; nondimeno

non starò ch’io non dica arditamente

che più mirabil molto è la mia fede.

A pintura é obra de BARTOLOMEO VENETO 1502-31, dos anos 1520-25. Pintor de quem pouco se sabe, e a quem são atribuídos alguns requintados e notáveis retratos.

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Veneza de Alfred de Musset

22 Domingo Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Alfred de Musset, Canaletto

Veneza é paixão de quem a visita, e na poesia abundam as obras com Veneza como fundo ou pretexto, sendo talvez a maior, o conjunto de epigramas venezianos de Goethe. Acrescem outras poesias espalhados pela obra de poetas das mais variadas épocas. Para hoje escolhi um poema de Alfred de Musset (1810-1857), cuja poesia é nos nossos dias pouco conhecida em Portugal, que eu saiba.

Este Venise (Veneza) é uma poesia dos vinte anos incluída no seu primeiro livro, Contes d’Espagne et d’Italie. Contém este livro poesias, plenas de verve, de um jovem a quem os prazeres levaram a escrever a famosa obra licenciosa Gamiani, ou duas noites de excessos. A sua vida aparece contida, ao que se diz, em toda a obra, da qual La Confession d’un Enfant du Siècle permanece um documento notável sobre a juventude culta da primeira metade do século XIX em França. Pela sua poesia, de uma deliciosa musicalidade, foi chamado “o poeta da juventude”.

Para a biografia fica a relação escandalosa com George Sand e depois da rotura, com a Malibran, diva cara aos melómanos, para quem várias obras-primas da ópera foram compostas, e a quem há poucos anos Cecília Bartoli dedicou um espectacular disco, concerto dvd e museu itinerante.

Veneza

Em Veneza a vermelha,
Nenhum barco aparelha;
Nem pescador, no mar,
Se vê pescar.

Só, sobre o cais sentado,
Vela o leão do Estado,
Que ao horizonte adianta
A brônzea planta.

Ao seu redor, qual bando
De cisnes repousando,
Alinham, numerosas,
Naves airosas.

Dormem na água, que fuma,
E cruzam sob a bruma,
Em leves convulsões,
Os pavilhões.

A Lua, que perpassa,
Desmaia a fronte baça,
De uma nuvem ‘strelada
Meio velada …

— Como de Santa Cruz
A madre o seu capuz,
Sobre o rosto descai,
Que lho retrai.

E os palácios vetustos,
Os pórticos augustos,
Dos grande as escadas
Ornamentadas,

Mais as ruas, as pontes,
As estatuas e as fontes,
E o golfo, que o vento
Faz turbulento,

São mudos! … Só os guardas,
De longas alabardas,
Vão e vêm nos portais
Dos arsenais.

— Ah! quanta bela, agora,
Moço gentil que adora
Espera na janela
Que venha vê-la …

Outras ao espelho, entanto,
A mascarilha e o manto,
Para o baile a que vão,
Ajeitarão.

No leito perfumado,
O amante idolatrado
Vanina abraça ainda
Dormindo, linda.

Narciso, a louca altiva,
Na gôndola, lasciva,
Aturde-se na orgia
Até ser dia.

Mas quem, na Italia, um pouco,
Oh Céus! não tem de louco?
Quem não dá ao amor
Da vida a flor?

No palácio do doge,
Conte a hora que foge
O relógio cansado,
Em tom magoado …

Deixemo-lo, formosa!
E em tua boca sequiosa
Contemos beijos dados …
Ou perdoados.

Contemos teus encantos
E mais os doces prantos
Das horas de langor
Do nosso amor!

Venise (original em francês)

Dans Venise la rouge,
Pas un bateau qui bouge,
Pas un pêcheur dans l’eau,
Pas un falot.

Seul, assis à la grève,
Le grand lion soulève,
Sur l’horizon serein,
Son pied d’airain.

Autour de lui, par groupes,
Navires et chaloupes,
Pareils à des hérons
Couchés en ronds,

Dorment sur l’eau qui fume,
Et croisent dans la brume,
En légers tourbillons,
Leurs pavillons.

La lune qui s’efface
Couvre son front qui passe
D’un nuage étoilé
Demi-voilé.

Ainsi, la dame abbesse
De Sainte-Croix rabaisse
Sa cape aux larges plis
Sur son surplis.

Et les palais antiques,
Et les graves portiques,
Et les blancs escaliers
Des chevaliers,

Et les ponts, et les rues,
Et les mornes statues,
Et le golfe mouvant
Qui tremble au vent,

Tout se tait, fors les gardes
Aux longues hallebardes,
Qui veillent aux créneaux
Des arsenaux.

Ah ! maintenant plus d’une
Attend, au clair de lune,
Quelque jeune muguet,
L’oreille au guet.

Pour le bal qu’on prépare,
Plus d’une qui se pare,
Met devant son miroir
Le masque noir.

Sur sa couche embaumée,
La Vanina pâmée
Presse encor son amant,
En s’endormant ;

Et Narcissa, la folle,
Au fond de sa gondole,
S’oublie en un festin
Jusqu’au matin.

Et qui, dans l’Italie,
N’a son grain de folie ?
Qui ne garde aux amours
Ses plus beaux jours ?

Laissons la vieille horloge,
Au palais du vieux doge,
Lui compter de ses nuits
Les longs ennuis.

Comptons plutôt, ma belle,
Sur ta bouche rebelle
Tant de baisers donnés…
Ou pardonnés.

Comptons plutôt tes charmes,
Comptons les douces larmes,
Qu’à nos yeux a coûté
La volupté !

Acompanham o artigo três pinturas de Bernardo Canal dito Canaletto (1697-1768), veneziano que pintou a cidade como nenhum outro.

A tradução do poema é de Pedro da Silveira e encontra-se no livro Mesa de Amigos, Angra do Heroísmo, 1986.

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