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vicio da poesia

Category Archives: Poesia Antiga

Eurípedes, um fragmento de Ifigénia em Áulide

15 Terça-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas, Poesia Antiga, Poesia Grega

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Eurípedes, Frans Floris

FLORIS, Frans - O julgamento de Páris 1548Dava hoje noticia a imprensa, de um inquérito não representativo ao Interesse Sexual Masculino, levado a cabo em Portugal, Croácia e Noruega.
A noticia concluía, não sei se o inquérito também, umas coisas variadas, destacando e apontando razões para um suposto desinteresse sexual em mais de 10% dos portugueses homens, na casa dos 30 anos.
Estes estudos explicam-se por si: são ocupação de alguém para durante algum tempo produzir qualquer coisa que permita seguir em frente ganhando a vida.
Expendidos vários argumentos para este resultado, um deles refere a perda de interesse sexual por excesso de convívio com a pornografia. Será! Poupo-vos a comentários. Digo-vos, apenas que ao ler tudo isto me ocorreu um fragmento de Eurípides (480-406a.C.):

Haja para mim graça / comedida e castos amores;
dos dons de Afrodite participe / mas evite os seus excessos.

Deixo-vos com a estrofe da primeira intervenção do coro de Ifigénia em Áulide, poema maravilhoso e cruel tragédia, nas palavras de André Bonnard, onde estes versos se contêm.

Felizes os que, com medida divina           543
e segundo a sabedoria,
tiveram parte nos prazeres de Afrodite,
com calma usando
o aguilhão furioso das paixões
quando Eros de loura cabeleira
os dardos ambos dispara das suas graças,
um para destino de felicidade,
outro para tormento de vida.
A este afasto eu, linda Cípris,
do meu tálamo.
Haja para mim graça
comedida e castos amores;
dos dons de Afrodite participe
mas evite os seus excessos.

A tradução é de Carlos Alberto Pais de Almeida, 2ªedição, FCG/JNICT, 1998

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A mosca azul – poema de Machado de Assis

30 Domingo Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Machado de Assis, Miró

Miró Mujer frente al solÉ a elegância da versificação o que primeiro chama a atenção em A mosca azul de Machado de Assis (1839-1908), prosador maior da língua portuguesa. Depois, a repetida leitura é um convite a que não se resiste: levados pela musicalidade encantatória do verso seguimos a fantasia da história contada, nesta metáfora de sonhos desfeitos por excesso de análise.

Sigamos com A mosca azul o aparecimento, apoteose e queda de uma fantástica ilusão, e como metáfora guardêmo-la para as nossas vidas.

A mosca azul

Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão.
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada.
Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua — melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.

Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
— “Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que te ensinou?”

Então ela, voando e revoando, disse:
— “Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor”.

E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo
E tranqüilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.

Entre as asas do inseto a voltear no espaço,
Uma coisa me pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço,
Eu vi um rosto que era o seu.

Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o colo nu
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vixnu.

Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.

Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios.
Voluptuosamente nus.

Vinha a glória depois; — quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
Das coroas ocidentais.

Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpos os corações.

Então ele, estendendo a mão calosa e tosca.
Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.

Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa se partiu.

Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.

Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.

Hoje quando ele aí vai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.

Noticia bibliográfica

A mosca azul foi publicado no livro Ocidentais, talvez em 1880 (não encontrei cópia desta edição, nem informação fidedigna sobre ela), e depois incluído na edição das suas Poesias Completas (1902?), onde reuniu uma escolha alargada de poemas anteriormente saídos nos quatro livros de poesia publicados ao longo da vida.

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Anunciação e Advento – A Palavra da Biblia e a pintura ocidental

10 Segunda-feira Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Biblia, S. Lucas

MASTER of Heiligenkreuz 1410Vou hoje ao encontro daqueles pesquisadores da net sobre o Advento, que os motores de busca enviam para o blog, e onde sobre o assunto pouco há.

As religiões cristãs celebraram no primeiro domingo de Dezembro, o inicio do Advento, ou a esperada vinda de Jesus à terra, que ocorrerá com o Natal, nascimento de seu significado.

A expectativa desta chegada, fixada no calendário litúrgico para as quatro semanas que antecedem o Natal, liga-se indissociavelmente ao anúncio feito a Maria pelo Anjo Gabriel, de que iria ser mãe do Filho de Deus, acontecimento conhecido como Anunciação.

Desde que consumada a divisão de cristãos entre católicos e as diferentes confissões reformadas, se para os católicos romanos a Anunciação se celebra a 25 de Março (com pequenas variações em função do período de Quaresma), nove meses antes do nascimento do Filho de Deus, para os seguidores da religião cristã reformada a omnipotência de Deus não exige esta duração, e as celebrações acabam por se confundir, associando-se Anunciação e Advento.

Na verdade, com a fixação dogmática pela Igreja Católica do dia 8 de Dezembro como celebração da Imaculada Concepção, as datas deste calendário acabam por criar alguma confusão ao leigo.

Nada nos Evangelhos permite uma calendarização, o que é natural, e em S. Lucas,I, 26:38, onde a Anunciação se relata na forma mais detalhada, estas questões de calendário não se colocam. Terão sido, talvez, necessidades de organização da pratica do culto a ditá-lo.

Aproveito e transcrevo a tradução da passagem de Lucas, I, 26:38, por João Ferreira Annes d’Almeida (primeiro tradutor da Bíblia para português no século XVI), na fixação do texto levada a cabo por José Tolentino Mendonça.

Lucas,I, 26:38

26 E no sexto mês foi o Anjo Gabriel enviado de Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré:

27. A uma virgem desposada com um varão, cujo nome era José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria.

28. E entrando o Anjo a ela, disse: Gozo hajas em graça aceita, o Senhor [é] contigo, bendita tu entre as mulheres.

29. E vendo[-o] ela, turbou-se muito de suas palavras, e considerava que saudação seria esta.

30. E disse-lhe o Anjo: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus.

31. E vês aqui conceberás em o ventre, e parirás um filho, e chamarás seu nome Jesus.

32. Este será grande, e Filho do Altíssimo será chamado; E dar-lhe-á o Senhor Deus o trono de David seu pai.

33. E reinará em a casa de Jacob eternamente, e de seu Reino não haverá fim.

34. E disse Maria ao Anjo: Como se fará isto? Porquanto varão não conheço.

35. E respondendo o Anjo, disse-lhe: O Espirito Santo sobre ti virá, e a virtude do Altíssimo com sua sombra te cobrirá. Pelo que também o Santo que de ti há-de nascer, Filho de Deus chamado será.

36. E vês aqui Elisabeth tua prima também tem concebido um filho em sua velhice; e este é o sexto mês daquela, que a estéril chamada era.

37. Porque nenhuma coisa será a Deus impossível.

38. Entonces disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo tua palavra. E o Anjo se partiu dela.

Este passo dos Evangelhos foi largamente glosado na pintura ocidental. Seguem as imagens de uma escolha pessoal entre algumas das mais tocantes dessas obras e, porventura, menos conhecidas.

Mestre Alemão desconhecido 1330

Fra Fillipo Lippi 2

Irmãos Limbourg - Anunciação - 1410-16

Simone Martini 1333

FRANCESCO DI SIMONE DA SANTACROCE 1504

Book of Hours of Marie of Guelders Annunciation 1415

É hoje conhecimento apenas de especialistas a clara significação de cada um dos motivos que preenchendo o cenário, quadra os protagonistas desta história sacra. Entre outros, permanece para mim inexplicado o motivo porque em todas estas pinturas Maria se encontra a ler, ou com um livro aberto por perto, no momento da aparição do Anjo. Haverá algum leitor que o elucide?

 

 

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Pensamentos sobre o tempo – Paul Fleming (1609-1640)

06 Quinta-feira Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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carlos mendonça lopes, Paul Fleming

O mundo cigiadoAinda que a colagem de abertura nos remeta para o nosso vigiado tempo, o convite poético é para uma reflexão intemporal sobre o enigma do tempo que a cada um cabe viver.

O poema de Paul Fleming (1609-1640) que vos trago, Pensamentos sobre o tempo, pode parecer a uma leitura superficial, apenas trocadilho em torno ao tempo, mas em segunda leitura, a reflexão desenvolve-se a seu pretexto:

E que será esse outro que de vós fará nada?

É à interrogação sobre a eternidade:

Ah, viesse aquele tempo em que tempo não há,
P’ra nos levar do nosso para os tempos de lá

e ao nosso efémero, que o poema nos conduz:

O tempo é o que vós sois, vós sois o que o tempo é,
Mas bem menos sois vós que aquilo que o tempo é.

Leia-se a totalidade do poema.

Pensamentos sobre o tempo

Vós viveis no tempo e o tempo não conheceis;
Do que sois e onde estais, vós, homens, não sabeis.
O que sabeis é só que num tempo nascestes
E que haveis de partir num tempo, tal viestes.
Mas o que foi o tempo que em si vos deu guarida?
E que será esse outro que de vós fará nada?
O tempo é tudo e nada, o homem a ele igual;
Mas sobre o tudo e o nada a duvida é geral.
O tempo morre em si, e de si renasceu.
Um vem de mim e de ti, outro és tu e sou eu.
O homem é no tempo, este nele também.
E no entanto o homem, quando ele fica, vai.
O tempo é o que vós sois, vós sois o que o tempo é,
Mas bem menos sois vós que aquilo que o tempo é.
Ah, viesse aquele tempo em que tempo não há,
P’ra nos levar do nosso para os tempos de lá
E a nós de nós mesmos, para podermos ser
Iguais àquele tempo que já deixou de ser!

Tradução de João Barrento

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Dois Epigramas de Angelus Silesius (i.e. Johannes Scheffler)

06 Quinta-feira Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Angelus Silesius, Johannes Scheffler

 

Rosa azul

A rosa é sem porquê, está em flor porque é flor,
Não perguntes se a vemos, de ti não quer saber.

Deus é como uma fonte: derrama-se sem fim
Nas suas criaturas, e fica sempre em Si.

(De: O Peregrino Querubínico ou Epigramas Espirituais)

Tradução  de João Barrento

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Robert Burns – alguns poemas

20 Terça-feira Nov 2012

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Robert Burns

Deixemos de lado as soturnidades por onde tenho andado no blog e passemos ao erotismo viril da poesia de Robert Burns (1758-1796).
Nascido na Escócia foi, nas palavras de Jorge de Sena “Um dos maiores líricos da poesia universal“.

Embora com poesia ainda publicada em vida, a obra poética coligida em 1801 foi, e regresso às palavras de Jorge de Sena, “um dos maiores fermentos do Romantismo, a cujos ideais de licença erótica na poesia e na vida se pode dizer que ele sacrificara a sua. Pela liberdade apaixonada, o erotismo desenfreado, a pungência dorida, a malícia viril, o domínio absoluto de uma linguagem que é menos dialectal do que fabricada por ele com dialecto e inglês literário, a arte consumada de uma musicalidade perfeita, a sua grandeza de lírico é extraordinária. Mas nem a simplicidade aparente, nem o tom popular, excluem uma aguda perspicácia e uma culta desenvoltura, que tudo absorviam e tornavam em original poesia que foi uma rajada de ar fresco nos convencionalismos poéticos do século XVIII. Sátira violenta e revolucionarismo libertário igualmente estão presentes nesta poesia desavergonhadamente autobiográfica. “.

Apresentado que está o poeta pela voz autorizada de um mestre, vamos a alguma da sua poesia.

ANA (tradução de Jorge de Sena)

Aí vinho que ontem bebi
‘scondido numa choupana
quando em meu peito senti
os negros cabelos de Ana!
O judeu lá no deserto
que bebia o que Deus mana
não sabia o mel oferto
nos lábios ardentes de Ana!

Reis, tomai o Leste e o Oeste,
desde o Indo até o Savana,
mas dai ao corpo que as veste
as formas trementes de Ana!
Encantos desdenharei
de imperatriz ou sultana
pelo prazer que darei
e tomarei só com Ana.

Vai-te, faustoso deus diurno!
Vai-te, pálida Diana!
Suma-se o claror nocturno,
quando eu me encontro com Ana!
Venha a noite em negro manto!
Sol, Lua, Estrelas, deixai-nos!
Só com penas de anjo o encanto
direi dos gozos com Ana.

E segue-se o original, do qual Jorge de Sena não traduziu o postscript.

THE BANKS OF BANNA (original)
Yestreen I had a pint o wine,
A place where body saw na;
Yestreen lay on this breast o’ mine
The gowden locks of Anna.
The hungry Jew in wilderness
Rejoicing o’er his manna
Was naething to my hiney bliss
Upon the lips of Anna.

Ye Monarchs take the East and West
Frae Indus to Savannah:
Gie me within my straining grasp
The melting form of Anna!
There I’ll despise Imperial charms,
While dying raptures in her arms,
I give an take wi Anna!

Awa, thou flaunting God of Day!
Awa, thou pale Diana!
Ilk Star, gae hide thy twinkling ray,
When I’m to meet my Anna!
Come, in thy raven plumage, Night
(Sun, Moon, and Stars, withdrawn a’,)
And bring an Angel-pen to write
My transports with my Anna!

POSTSCRIPT
The Kirk an State may join, an tell
To do sic things I maunna:
The Kirk an State may gae to Hell,
And I’ll gae to my Anna.
She is the sunshine o’ my e’e,
To live but her I canna:
Had I on earth but wishes three,
The first should be my Anna.

O poema encontra-se na colecção de poemas licenciosos The Merry Muses, publicada em 1799. É dela também a balada Roger e Molly, que segue.
O postscript entende-se melhor se se souber que o poeta foi primeiramente condenado pela igreja fundada por John Knox [conhecida entre os escoceses por Kirk] a abstinência sexual com a namorada Betsy, com quem teve a  primeira filha, por terem tido relações sexuais sem serem casados. A reacção do poeta a esta primeira condenação lemo-la em THE FORNICATOR, que transcrevo no final, onde as relações sexuais são qualificadas como as bem-aventuradas alegrias dos amantes [The blissful joys of lovers].

ROGER E MOLLY (tradução de Jorge de Sena)

à sombra do chorão, que se alongava,
Molly, tão bela, de amor suspirava,
Seu gado era em redor,
Ora fazendo meia, ora cantando,
o mesmo pensamento ia soltando:
“Quão fundo é meu amor”.

O jovem Roger que por lá passava
ouviu quanto de amor’s Molly cantava
com que magoado ardor.
Saltando a sebe, aproximou-se dela,
veio estender-se ao pé de Molly bela:
“Quão fundo é meu amor”.

Molly corou de um breve susto inquieto:
“Que graça a tua, agora fica quieto”.
E os olha num langor…
“Quebra-se a agulha, a meia me desfazes…
Cantava, e não pensava nos rapazes,
“Quão fundo é meu amor”.

Bruto! Oh, beijos não… Tira! Sou tua…
Agora, agora… pára… continua…
Aí que eu grito de dor!
Que estás tu a fazer, patife imundo?”
E el’ arquejante como um moribundo:
“Quão fundo é meu amor”.

I LOVE MY JEAN (tradução de Luiz Cardim)

Anda alegria no vento
sempre que vem do sol-pôr:
lá donde vive a serrana
que me enfeitiçou d’amor…
Lá nos montes, pelas fontes,
pelos pinhais, vai sozinha…
A cada momento, o vento
me faz lembrar — Joaninha!

Vejo-a nas florinhas tenras,
que dá graça de as olhar;
ouço-a no trilo das aves
que põe bruxedo no ar:
a papoila que floresce
por entre a messe, ou a vinha,
o rouxinol que gorjeia,
só me dizem — Joaninha!

I LOVE MY JEAN (original)

Of all the airts the wind can blaw
I dearly like the west
For there the bonnie Lassie lives
The Lassie I love best
There’s wild-woods grow, and rivers row
And mony a hill between
But day and night my fancy’s flight
Is ever way my Jean

I see her in the Dewy flowers
I see her sweet and fair
I hear her in the tuneful birds
I hear her charm the air
There’s not a bonnie flower, that springs
By a fountain, shaw, or green
There’s not a bonnie bird that sings
But minds me o‚ my Jean

MY HEART IS SAKE FOR SOMEBODY… (tradução de Luiz Cardim)

Trago inquieto o coração
por alguém, que nem eu sei…
Quisera perder as noites
a pensar em alguém,
por amor dalguém,
aí, por amor dalguém!
Ir-me por todo esse mundo
por amor dalguém!

Santos ao amor fagueiros,
sorri docemente a alguém!
Livrai-o de todo o p’rigo;
e dai-me esse alguém,
trazei-me esse alguém
aí, trazei-me esse alguém!
Que eu… — que não farei eu
por amor dalguém?

MY HEART IS SAKE FOR SOMEBODY… (original)

My heart is sair, I dare na tell,
My heart is sair for Somebody;
I could wake a winter night
For the sake o’ Somebody.
Oh-hon! for Somebody!
Oh-hey! for Somebody!
I could range the world around,
For the sake o’ Somebody!

Ye Powers that smile on virtuous love,
O, sweetly smile on Somebody!
Frae ilka danger keep him free,
And send me safe my Somebody.
Oh-hon! for Somebody!
Oh-hey! for Somebody!
I wad do – what wad I not?
For the sake o’ Somebody!

MARY MORISON (tradução de Luiz Cardim)

Maria, assoma à janela:
chegou por fim o momento!
O teu sorriso empobrece
os oiros do avarento…
Até me fazia escravo
a moirejar noite e dia,
se como prémio tivesse
a minha doce Maria!

Ontem, ao som das violas,
a aldeia inteira bailava;
só eu, sem ouvir nem ver,
para ti, meu bem, voava…
Fossem loiras ou morenas,
nenhuma ali te vencia…
Eu, então, só me queixava
Não sois a minha Maria!

A quem por ti dera a vida,
vais, Maria, enlouquecer?
Ou rasgar-lhe o coração
sem culpa de bem-querer?
Se amor por amor não dás,
pena tem desta agonia…
Mal ficava ser cruel
à minha doce Maria!

MARY MORISON (original)

O Mary, at thy window be,
It is the wish’d, the trysted hour!
Those smiles and glances let me see,
That makes the miser’s treasure poor:
How blythely wad I bide the stoure,
A weary slave frae sun to sun,
Could I the rich reward secure,
The lovely Mary Morison.

Yestreen when to the trembling string
The dance gaed thro’ the lighted ha’
To thee my fancy took its wing,
I sat, but neither heard nor saw:
Tho’ this was fair, and that was braw,
And yon the toast of a’ the town,
I sigh’d, and said amang them a’,
“Ye are na Mary Morison.”

O Mary, canst thou wreck his peace,
Wha for thy sake wad gladly die?
Or canst thou break that heart of his,
Whase only faut is loving thee?
If love for love thou wilt na gie
At least be pity to me shown:
A thought ungentle canna be
The thought o’ Mary Morison.

E agora o prometido THE FORNICATOR para o qual não encontrei tradução em português. Talvez algum dos eruditos leitores do blog nos venha a propor uma tradução. Tenhamos esperança!

THE FORNICATOR (original)

Ye jovial boys, who love the joys,
The blissful joys of lovers,
And dare avow wi’ dauntless brow,
Whate’er the lass discovers;
I pray draw near, and you shall hear,
And welcome in a frater,
I’ve lately been in quarantine,
A proven fornicator.
Before the congregation wide
I pass’d the muster fairly,
My handsome Betsy by my side,
We gat our ditty rarely.
My downcast eye, by chance did spy
What made my mouth to water,
Those limbs so clean, where I between,
Commenced a fornicator.
Wi’ ruefu’ face, and signs o’ grace,
I paid the buttock hire;
The night was dark, and thro’ the park,
I couldna but convoy her.
A parting kiss, what could I less ;
My vows began to scatter,
Sweet Betsy fell, fal, lal, de ral,
And I’m a fornicator.
But by the sun and moon I swear,
And I’ll fulfill ilk hair o’t,
That while I own a single crown,
She’s welcome to a share o’t.
My roguish boy, his mother’s joy,
And darling of his pater,
I for his sake, the name will take,
A hardened fornicator.

Abri o artigo com a visão de um encontro possivel entre protagonistas dos poemas, termino com um desenho mais em linha com o que acabámos de ler.

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Shakespeare — Ser ou não ser… a meditação de Hamlet

13 Terça-feira Nov 2012

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poesia de Língua Inglesa

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Shakespeare

O bardo, Shakespeare (1564-1616), chega ao blog com a meditação de Hamlet na 1ªcena do 3º acto da tragédia com o seu nome: Ser ou não ser …, [To be or not to be…], numa rara e belíssima tradução de Luiz Cardim.

Bibliotecas de comentários tem suscitado esta fala teatral. Poesia no mais elevado sentido que a humanidade conheceu, nela se dá conta da dúvida sobre o que fazer perante o sofrimento que o viver nos inflige: se terminá-lo com a morte voluntária, se vivê-lo no receio do desconhecido para além dela.

“Ser ou não ser…” Fala de Hamlet, acto 3, cena 1

Ser, ou não ser, – eis a questão: se acaso
é mais nobre sofrer d’ânimo firme
os pelouros e dardos da má sorte,
ou terçar armas contra um mar de agruras
e findá-las de vez? Morrer…,dormir …,
mais nada…; e com um sono desfazer-nos
da angustia, e mil embates naturais
de que é herdeira a carne, — alguém deseja
um término melhor? Morrer…, dormir…
dormir… talvez sonhar… Sonhar?! Ah, não:
pois no sono da morte, quando formos
do terreal tumulto já libertos,
que sonhos podem vir — basta essa ideia
para fazermos pausa; ela e só ela
gera às calamidades longa vida.
Quem sofreria os golpes e sarcasmos
do mundo, as iniquidades dos tiranos,
as prosápias do orgulho, as dores acerbas
do amor menosprezado, as dilações
do foro, a brusquidão da famulagem,
e as sevicias que ao mérito paciente
a nulidade inflige, — se pudera
ele próprio de tudo redimir-se
co’a ponta dum punhal? Ou quem os fardos
da canseirosa vida suportava
a suar e gemer, senão pungido
pelo ansioso pavor de qualquer coisa
depois da morte — esse país ignoto
das fronteiras do qual ninguém regressa —
que mareia a vontade, e nos coage
a preferir os males deste mundo
àqueles que nos são desconhecidos?
A consciência nos torna assim cobardes,
a todos nós, e assim a cor nativa
da decisão, desmaia e desfalece
sob a pálida luz do pensamento;
de tal sorte que empresas de grão vulto
se apartam dos seus fins, e vão perdendo
todo o nome de acção…

“To Be Or Not To Be…” Fala de Hamlet, Act 3 Scene 1

To be, or not to be: that is the question: –
Whether ’tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them? – To die, – to sleep;
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to, -’tis a consummation
Devoutly to be wish’d. To die, – to sleep; –
To sleep! perchance to dream: -ay, there’s the rub;
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause: there’s the respect
That makes calamity of so long life;
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressor’s wrong, the proud man’s contumely,
The pangs of despis’d love, the law’s delay,
The insolence of office, and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death, –
The undiscover’d country from whose bourn
No traveller returns, – puzzles the will,
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all;
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o’er with the pale cast of thought;
And enterprises of great pith and moment
With this regard, their currents turn awry,
And lose the name of action…

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As Feiticeiras de Teócrito

21 Domingo Out 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Richard Hamilton, Teócrito, Vogue

Ando agora bastante de metro e por estes dias o anúncio agressivo de uma popular revista feminina tem-me retido o olhar enquanto espero o comboio.

O cartaz publicita a capa do número mais recente. Suponho até que a revista tem lugar cativo naquele placard pois já lá têm estado anunciadas outras capas.

A publicação parece ser dirigida à mulher desinibida(?) de hoje, e traz habitualmente três chamadas de capa para assuntos interiores: um sobre o trabalho, outro sobre o corpo e a moda, e um terceiro sobre sexo e relações amorosas; o que também acontece nesta capa.

Para este último tópico temos então no cartaz que agora me ocupa, a afirmação de que a magia negra existe mesmo.

Assim afixado, não tenho duvidas! De resto, como acontece com todos os assuntos humanos, é ou foi, também ele, matéria de poesia. Ilustro a afirmação com Teócrito, poeta alexandrino que viveu no século III a.C.. No seu poema As Feiticeiras temos o assunto poeticamente abordado.

O pretexto para a magia negra é no poema, tal como agora será na maior parte dos casos, suponho, um abandono incompreendido e não aceite:

Que foi que se passou? Sei que tudo perdi,
e que sou, para ele, ainda menos que nada.

E perante esta incompreensão desenvolve-se um forte desejo de reencontro:

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

É desse desejo que surge a tentação de tudo fazer para recuperar o objecto amado:

Vou queimar lentamente este ramo de louro:
vede como crepita! Ei-lo já todo em brasa…
Assim fique também aquele por quem morro!
E que eu o veja ardendo, aqui, em minha casa!

Não sei se a magia negra de que a revista fala se limitará a queimar ramos de louro, ou caminhará por ingredientes de maior poder sugestivo, mas para o caso pouco importa. Quero apenas realçar nesta conversa, continuidades culturais que mostram quanto estamos próximo da humanidade distante, e para as quais nem sempre nos encontramos despertos, embrulhados nos gadjets do nosso quotidiano, com a ilusão de progresso à nossa volta.

Vamos então a As Feiticeiras numa tradução de David Mourão-Ferreira.

Traze-me os filtros, anda! E as folhas de loureiro.
Envolve-me essa taça em lã avermelhada,
a ver se encanto assim o cruel estrangeiro
que há doze dias já me deixa abandonada…

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

Vou queimar lentamente este ramo de louro:
vede como crepita! Ei-lo já todo em brasa…
Assim fique também aquele por quem morro!
E que eu o veja ardendo, aqui, em minha casa!

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

Derreter esta cera? Assim me ajude a lua,
para que se derreta a sua própria alma!
Ou que eu o veja então rondar a mina rua,
como nas minhas mãos esta onda não pára!

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

Já o mar se calou; já o vento caiu…
Mas a dor, no meu peito, é que nunca se cala.
Que foi que se passou? Sei que tudo perdi,
e que sou, para ele, ainda menos que nada.

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

Esta formosa versão de David Mourão-Ferreira traduz apenas o inicio do poema e não ficaria satisfeito comigo se vos deixasse apenas com ela.

O poema na sua totalidade cobre a gama emocional em torno da paixão e da perda, onde o recurso à magia negra é o instrumento para garantir o ancestral desejo de absoluto no amor: se não é para mim, não será para mais ninguém. Antes mutilado ou morto. E para o conseguir, os recursos de feitiço são variados como se espera.

O poema desenvolve a narrativa em duas partes: na primeira seguimos as etapes da processo de feitiço e na segunda tomamos conhecimento do desenvolvimento da paixão até ao desenlace que provoca esta busca do sobrenatural.

Aí vai toda a história, vertida em português por Albano Martins.

As feiticeiras

Onde estão os meus ramos de loureiro? Téstilis, vai buscá-los!
Onde estão os filtros? Coroa a taça
de fina lã de ovelha tingida de púrpura,
e assim prenderei o amado que me tortura.
Há já doze dias que o miserável
não vem ver-me, nem se preocupa
em saber se estou morta ou viva…

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Primeiro consome-se a farinha no fogo.
Espalha-a, Téstilis. Desgraçada, onde tens a cabeça?
Também para ti, ó infame, sou motivo de troça?
Espalha e diz ao mesmo tempo:”Espalho
os ossos de Délfis”.

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Délfis desgosta-me, e eu, por causa de Délfis,
queimo loureiro. Tal como este crepita
ao contacto com o fogo e arde tão rapidamente
que nem sequer vemos a cinza, que assim
se consuma na chama a carne de Délfis.

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Tal como derreto esta cera com a ajuda da deusa,
que assim o mínimo Délfis se derreta de paixão.
E como este disco de bronze gira,
movido por Afrodite, que assim
ele venha a girar à minha porta.

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Já se calou o mar, calaram-se os ventos, mas não se cala
a dor no meu peito. Ardo completamente
por aquele que, pobre de mim, me fez, não sua esposa,
mas mulher má e desonrada.

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Délfis perdeu esta franja da sua capa; agora
desfio-a e atiro-a ao fogo destruidor.
Aí, terrível Eros, porque sugaste
todo o sangue negro do meu corpo
como sanguessuga do pântano?

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Esmagarei um lagarto e amanhã levar-lhe-ei
uma poção venenosa. Téstilis, vai agora
apanhar as ervas, amassa-as na soleira
da sua casa, antes que a noite acabe, cospe nelas
e diz:”Esmago os ossos de Délfis!”

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Agora que estou só, como hei-de chorar o meu amor?
Por onde hei-de começar? Quem me trouxe este mal?…

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

Eu vi-o, e logo o delírio me tomou, logo se me sobressaltou
e feriu o coração, infeliz. A minha beleza murchou
e não prestei mais atenção àquela procissão.
Não sei como voltei para casa: um mal devorador
destroçou-me e estive prostrada no leito
durante dez dias e dez noites.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

A minha tez tinha frequentemente
A cor do açafrão, os cabelos caíam-me todos
da cabeça, só me restavam
os ossos e a pele. A quem não recorri ou que casa
de que velha feiticeira não visitei? Mas nada
me aliviou, e o tempo passava, fugaz.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

E assim revelei à escrava os meus verdadeiros propósitos:
“Vai, Téstilis, e arranja-me um remédio
para este penoso mal. O míndio apossou-se de mim
completamente, pobre de mim. Vai pois espreitar
a palestra de Timageto. Ele costuma ir lá,
ele gosta de estar ali.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

E, quando o vires sozinho, faz-lhe um sinal
às escondidas e diz-lhe: “Simeta chama-te”,
e trá-lo aqui. Assim lhe disse, ela foi
e trouxe o reluzente Délfis a minha casa. E eu,
mal o vi transpor com pé ligeiro
a soleira da minha porta,

(Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.)

fiquei toda mais fria do que a neve,
da fronte escorreu-me um suor
semelhante a húmidas gotas de orvalho,
não conseguia articular palavra
nem sequer esses balbúcios que as crianças
pronunciam no sono, quando falam com as mães.
E o meu belo corpo ficou tão rígido
como o duma boneca.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

Este homem insensível viu-me, fixou os olhos no chão,
sentou-se no mediu leito e, já sentado, disse
“Na verdade, Simeta, não te antecipaste mais
do que eu mesmo um dia destes me antecipei na corrida
ao encantador Filino: recebi o convite para vir a tua casa
no momento em que vinha para cá”.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

…Assim ele falou. E eu, ingénua, pegando-lhana mão,
Fi-lo reclinar-se no macio leito. Em breve os nossos corpos
em contacto um com o outro, aqueceram, as nossas caras
tornaram-semais quentes do que antes
e cochichávamos docemente. Enfim,
para não alongar a história, querida Lua,
o mais importante aconteçeu
e atingimos ambos o que desejávamos.

E agora? Há já doze dias que não o vejo.
Não será que tem outros prazeres
e se esqueçeu de mim?
Mas hoje vou prendê-lo com os meus filtros.
Se insistir em fazer-me sofrer,
às portas do Hades – pelas Moiras! – terá que chamar.
Tal é, declaro-o, o poder dos venenos
que para ele guardo numa caixinha
e que, ó soberana, me ensinou um estrangeiro da Assíria.

Mas tu, radiante, ó soberana, dirige os teus potros para o Oceano.
Eu carregarei o meu fardo como até aqui.
Saúdo-te, ó Lua de face resplandecente! E saúdo também
as outras estrelas, que acompanham o carro da Noite tranquila.

Não se esgota a poesia de Teócrito, neste poema. Criador do bucolismo em poesia, de tão numerosos e belos exemplos entre nós, aos seus idílios um dia virei. Como qualifica Frederico Lourenço: “Teócrito é o poeta do travo amargo que o amor deixa na boca de quem ama“. Com este As feiticeiras a afirmação é verdadeira. Veremos mais tarde como com outros poemas se confirma.

Abre o artigo com uma famosa pintura de Richard Hamilton (1922) – O que é que faz as nossas casas hoje tão diferentes, tão atractivas, expoente do movimento popart que pelos anos 60 tomou conta do mercado de arte nos EUA e um pouco por todo o ocidente. Deixo a(o) leitor(a) o cuidado da ligação ao objecto pretexto da feitiçaria do poema, ou até da magia negra de hoje.

Tratou-se o popart de um movimento estético em resposta às formas de comunicação vindas das artes gráficas, num percurso porventura inverso ao seguido nos anos 20 e 30, em que as vanguardas estéticas com o construtivismo e a influência da Bauhaus à cabeça, ditaram novas formas na comunicação gráfica.

São exemplo desta influência algumas das primeiras capas da revista Vogue, que tão decisiva viria a ser numa certa ideia da mulher sobre si própria, ao longo do século XX.

A natureza efémera destas publicações fá-las hoje objectos pouco conhecidos. Aqui vos deixo uma pequena amostra.

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Um epigrama de Marcial

21 Domingo Out 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Erótica, Poesia Antiga

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Jan Gossaert, Marcial, Ovídio

Foi no reboliço intelectual que acompanhou e precedeu a reforma protestante, que o nu integral surgiu na pintura do norte da Europa: Alemanha, Flandres e Holanda. É então que as pinturas com Adão e Eva, das quais já arquivei no blog algumas de Lucas Cranach, se tornam frequentes. No entanto, a que parece ser a primeira figuração moderna da mulher em nu frontal é a pintura que abre este artigo e representará, não Adão e Eva, mas Neptuno e Anfitrite, datada de 1516 e pintada por Jan Gossaert (1462/70-1533/41).

Como se vê, se a mulher surge nua, o homem ainda aparece com os genitais cobertos por um estojo peniano de conforto duvidoso, digo eu. Passarão poucos anos para que o homem, nu, figurando Adão, surja na pintura ocidental, para de novo voltar a desaparecer até aos nossos dias.

A propósito de estojos penianos, vale talvez a pena referir que Claude Levi-Strauss no seu belo livro Saudades do Brasil, mostra um habitante de uma aldeia Bororo, junto ao rio São Lourenço (afluente do rio Cuiabá) usando um estojo equivalente. E refere ainda como em dias de festa este estojo se ornamentava com um mosaico de plumas e uma bandeirola de palha brasonada com os sinais distintivos do clã do portador. É sempre fascinante percorrer as oscilações históricas dos costumes em torno do corpo.

Na conversa que aqui deixei ontem a propósito da argumentação clássica acerca da posição “cavalo de Heitor” mais nenhum aspecto das actividades em torno do sexo foi tratado. Mas os prazeres de mão também contam e o nosso professor Forberg a eles não se eximiu:

Não despraz tampouco aos que no vigor da idade e aptos a acariciar as raparigas, ter amantes cujas mãos não fiquem preguiçosas na cama e cujos dedos saibam o que têm a fazer nessa regiões onde Amor esconde as suas setas.

Cita Aristófanes, passa a Ovídio (43a.C.-18(?)d.C.), e da sua obra Amores dá-nos:

A esta coisa aqui, a minha amada não se furtou, mesmo,
a despertá-la, com doces movimentos da sua mão
Livro III, 7, 73-74

e de seguida, referindo-se a Ulisses no epigrama 104 do Livro XI, de Marcial, transcreve:

e, embora o Ítaco roncasse, a púdica Penélope
sempre lá no sítio costumava ter a mão.

Neste epigrama de Marcial dá-se conta de uma lista de queixas sobre o que a mulher não lhe faz por comparação com o que gozam casais notáveis.

No outro dia, ao ver o filme Terapia a dois, com Meryl Streep e Tommy Lee Jones, numa das cenas de consultório quando o psicólogo se virou para Tommy Lee Jones e lhe perguntou: que desejos tem que a sua mulher não satisfaz?, esperei que saísse uma lista semelhante ao cardápio de Marcial. Afinal não, só gostava, e queria, que ela lhe chupasse o pénis, o que a partir daí condiciona o desenvolvimento da história, é bem de ver.

Mas voltando a Marcial, a lista é mais longa e aí a têm:

Livro XI, Epigrama 104

Põe-te a andar, mulher, ou partilha os meus hábitos:
eu não sou nenhum Cúrio nem Numa nem Tácio
Eu aprecio as noites passadas entre alegres copos:
tu sais à pressa da mesa, sisuda, mal bebes a água.
Tu gostas do escuro: a mim agrada-me brincar
com a lâmpada a ver e romper as ilhargas com luz a entrar.
Faixas e túnicas e negros mantos te escondem,
mas comigo mulher alguma está nua o bastante.
Cativam-me os beijos que imitam a doçura das pombas:
tu dás-me os mesmos que dás à tua avó pela manhã.
Nem com meneios nem palavras nem dedos te dignas
ajudar ao acto – é como se servisses incenso ou vinho puro;
masturbavam-se atrás da porta os escravos frígios,
sempre que a esposa montava Heitor a cavalo
e, embora o Ítaco roncasse, a púdica Penélope
sempre lá no sítio costumava ter a mão.
Não deixas que te encabe: mas Cornélia dava-o a Graco,
Júlia a Pompeio, e Pórcia a ti, Bruto,
quando o Dardânio não misturava ainda, como escanção,
as doces bebidas, Juno fazia de Ganimedes para Jove.
Se gostas de austeridade, deixo-te ser Lucrécia até mesmo
o dia inteiro: mas à noite quero uma Laís.

 

Noticia bibliográfica

A tradução do epigrama de Marcial é de Delfim Ferreira Leão e pertence ao tomo IV dos Epigramas de Marcial publicados por Edições 70, Lisboa 2004.

A tradução dos dois versos de Amores, de Ovídio, é de Carlos Ascenso André, na edição de Livros Cotovia, Lisboa 2006

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A propósito de “Cavalo de Heitor” com Ovídio e Apuleio

21 Domingo Out 2012

Posted by viciodapoesia in Erótica, Poesia Antiga

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Apuleio, Friedrich-Karl Forberg, Marcial, Ovídio

Vale sempre a pena regressar aos clássicos, e agora, quando As cinquenta sombras de Grey provoca tamanha excitação, mais razões se conjugam.

Um filosofo alemão, Friedrich-Karl Forberg (1770-1848), discípulo e colaborador de Fichte, o filósofo do Idealismo Alemão, entreteve as horas de ócio compondo uma curiosa obra em latim, De figuris Veneris, que poderia traduzir livremente por As posições do Amor, onde compilou com o método e zelo proverbiais aos alemães, um catálogo extenso das posições documentadas na literatura clássica para a pratica do sexo. Do livro fez uma pequena e cuidada edição que ofereceu a amigos.
Tão erudito, saboroso e estimulante livro, não sei se faria hoje as delicias dos leitores de Grey, mas a prática de muito do que lá se contém leva ao paraíso quem a ela se decidir. O nosso circunspecto professor, com a ironia com que escreve todo o livro, avisa-nos a abrir:

Pretendemos passar em revista as diversas metamorfoses de Vénus: não todas, na verdade; como seria possível enumerar as mil invenções (Ovídio, Arte de Amar, I, 433-434), as mil posições a que ousa recorrer a engenhosa satisfação do prazer? mas pelo menos as que, atendo-se a géneros determinados, se prestam facilmente a uma classificação metódica. Não vá, leitor curioso, criar falsas expectativas. Não somos homem em busca de gloria, desvendando o resultado de experiências pessoais, ou de ensaios novamente tentados neste género de esgrima: nem fizemos ainda a nossa própria aprendizagem.

Não vou evidentemente transladar o livro para aqui, o que transformaria o blog num êxito comparável às ditas sombras, mas apenas apresentar uma posição que aprecio especialmente. Chama-lhe o professor “Cavalo de Heitor” e descreve-a do seguinte modo:

Chegamos agora à figura segundo a qual o homem deitado de costas tem comércio com a mulher curvada sobre ele. A mulher, estando os papeis trocados, faz então a função de cavaleiro, o homem a de cavalo. Chamava-se a esta posição o cavalo de Heitor.

Cita, primeiro Marcial (40-102(?)), com o epigrama 104 do Livro XI

…

sempre que a esposa montava Heitor a cavalo

e continua o nosso autor, passando a Ovídio (43a.C.-18(?)d.C.) e à sua Arte de Amar, dando conta de que esta posição não poderia dar prazer a Andrómaca (a amazona (esposa) que montava Heitor) por esta ser de grande estatura, motivo porque duvida que tal posição lhe fosso agradável ou mesmo possível. É às mulheres de pequena estatura que a posição convém, sublinha.

Da minha experiência posso dizer que a estatura não tem sido impedimento de prazer sublime.

Mas voltando a Ovídio, a quem tal consideração se deve, temos então os versos 779-780 do Livro III de Arte de Amar:

a de baixa estatura deve montar como a cavalo; por ser muito alta, nunca
a tebana [Andrómaca] casada com Heitor adoptou a posição do cavaleiro;

Duvido que o poeta lá tivesse estado para ver. Deve estar a falar por puro preconceito.

Ainda tratando desta posição para o amor, continua o nosso filósofo a viagem pelos autores clássicos que a referiram, e passa a Horácio e a uma das suas sátiras. Avança depois por Aristófanes (447a.C. – 383a.C.) e no verso 677 de Lisistrata encontra a afirmação:

A mulher gosta de montar a cavalo, e aí mantêm-se firme.

Concluímos esta equitação amorosa com Apuleio (125-170) e uma cena entre Lúcio e Fótis extraída de O burro de ouro, Livro 2, 16. 4:

… subiu para o leito, instalou-se devagar sobre mim e começou a manobrar rapidamente para cima e para baixo, agitando o ágil torso com movimentos lúbricos, até saciar-me com o fruto desta Vénus de baloiço.

Feita esta viagem pela posição de cavalgada, tantas vezes heróica, não me despeço sem convidar o leitor(a) a um pouco de Arte de Amar de Ovídio, mais precisamente aos versos 703 e seguintes do Livro II da obra, com a convicção de que nas obras de que aqui tratei se fala com a sabedoria que a experiência acumulou, do que à humanidade mais importa.

Eis que um leito acolheu, cúmplice, dois amantes;
diante das portas fechadas da alcova, ó Musa, sustém o passo!
Espontaneamente, sem a tua ajuda, palavras mil hão-de ser ditas,
e não se quedará inerte no leito a mão esquerda;
hão-de os dedos inventar que fazer naqueles sítios
em que às escondidas, mergulha as suas setas o Amor.
Isto mesmo fez outrora em Andrómaca o valente Heitor;
não era apenas para a guerra que ele tinha préstimo;
fazia-o, também, na sua cativa de Lirnesso, o grande Aquiles,
quando se deixava cair, cansado de inimigos, sobre a suavidade do leito;
com aquelas mãos, ó Briseida, consentias tu que te tocasse,
elas que estavam sempre encharcadas de sangue frígido;
era isso mesmo, porventura, ó mulher desregrada, que te dava prazer?
Que o teu corpo o percorressem mãos triunfantes?
Acredita no que te digo: não vê apressar-se o prazer de Vénus,
mas sim, discretamente, fazer por retardá-lo e demorá-lo.
Quando descobrires o ponto onde a mulher se excita ao ser tocada,
não seja o pudor a impedir-te de o tocar;
Verás os seus olhos a brilhar de fogo cintilante,
Como, tantas vezes, o sol reflecte a luz na superfície da água;
far-se-ão ouvir queixumes, far-se-á ouvir um encantador sussurro
e doces gemidos e palavras apropriadas ao prazer.
Mas não deixes para trás a tua parceira, desfraldando mais largas velas,
nem seja mais rápido o ritmo dela que o teu;
avançai para a meta ao mesmo tempo; então, será pleno o prazer,
quando, par a par, jazerem, vencidos, a mulher e o homem.
Esta é a prática que deves cultivar, sempre que te seja dado desfrutar livremente
do ócio, e o medo te não forçar a aventuras furtivas;

Sábios conselhos, e quem os seguir garante uma vida de prazer. Limitam-se a dizer em verso antigo o que a moderna sexologia escreve em espessos tratados.

Noticia bibliográfica

Para O burro de ouro, Livro 2, 16. 4, a tradução é de Delfim Leão;
Para Arte de amar, a tradução é de Carlos Ascenso André
Ambos os livros são edição de Livros Cotovia, Lisboa

Para a obra do professor Forberg não conheço nenhuma edição disponível, encontrando-se a que possuo de há muito esgotada.

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