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vicio da poesia

Category Archives: Crónicas

O Expresso do Oriente

18 Quinta-feira Out 2012

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Em maré de policiais, ocorrem-me algumas aventuras com cenário no celebérrimo comboio Expresso do Oriente de que vos falaria com deleite, não fora o adiantado da hora. Por exemplo, Oriente-Expresso na tradução de Jorge de Sena do romance de Graham Greene, Stamboul Train, prodígio de suspense e emoção na pintura dos desenganos da vida, ou o romance de Agatha Christie do mesmo nome, naquele crime colectivo de fazer justiça pelas próprias mãos, quando a legalidade jurídica se mostrou incapaz de a concretizar, ou ainda no encantatório filme de Hitchcock, A Desaparecida, espionagem entertecida de ingénua história de amor, encanto do meu filho desde os quatorze anos. Iria por aí adiante mas paro em A Máscara de Dimitrius, romance inesquecivel de Eric Ambler e filme de Jean Negulesco com o personagem sinistro de Peter Lorre que pelos anos 30 e 40 deu corpo ao medo em cinema desde M de Fritz Lang. Longas histórias de mundos imaginados em torno de um comboio lendário, umas vezes personagem de parte inteira, outras apenas presença de passagem, como em Single & Single de LeCarré, e que aqui evoco com estes posters convidativos ao sonho de nele viajar, procurando os posters uma atmosfera nos antípodas das histórias que antes lembrei.

 

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Homenagem a Gogol por Marc Chagall

13 Segunda-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas

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Marc Chagall, Nicolau Gogol

Quem conheça a obra de Nicolau Gogol (1806-1852) apreciará a eloquência com que esta se encontra condensada na pintura que Marc Chagall (1887-1985) lhe dedicou. Encontramos nela o indizível da surpresa e de non sense que os textos de Gogol nos dão, numa harmonia de colorido em que ao amarelo solar da envolvente, que é ao fim e ao cabo o efeito da escrita no leitor,  se acrescenta o negro do humor com que o personagem pintado se veste.
Há na pintura uma atmosfera de ternura poética que emana da delicada elegância da figura humana, na sua imponderável curvatura, a que a surpresa da escala do palácio, suportado na ponta do sapato, acrescenta a dimensão de absurdo que a escrita do mestre contém.

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Cinquenta mil visitas ao blog assinaladas com a universalidade da poesia

21 Sábado Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Fulani

Passados que estão pouco mais de dois anos e meio, é com surpresa e perplexidade que conto 50.000 visitas ao blog. Aventura de incerta regularidade, lida com avidez por alguns, nela persistirei contando e dando conta de prazeres e descoberta onde a teia da cultura se tece.

É a poesia a manifestação primeira, e por excelência, da humanidade que fala e escreve. Antes da escrita, e nas sociedades onde ela foi desconhecida, tal como nas outras que a praticaram e praticam, foi a poesia transmitida entre gerações o veiculo para dar continuidade a uma identidade cultural. Entre nós cabe a Os Lusíadas o papel maior. Desse mosaico por gerações tecido somos hoje herdeiros, e de pequeníssima parte dele vou dando conta no blog.

Entendo a prática da poesia num sentido lato, qual concepção humana do universo, como cosmologia, dando-nos tanto o detalhe pessoal como a visão abrangente do homem na sua circunstância ou ancorado numa tradição ou passado histórico, com isto encerrando em si uma cosmosofia ou sabedoria do mundo.

Num percurso temporal e geográfico abrangente, preenchi o blog procurando afinidades às artes plásticas em leituras ora de continuidade ora de confronto, num desafio que, espero, tenha sido estimulante para alguns.

Não são artigos fáceis, os que aqui escrevo, na medida em que pressupõem a disponibilidade do leitor para procurar noutras fontes o que de pouco claro encontrar. Ao escrever é difícil estabelecer a fronteira entre o que hoje é conhecimento generalizado para as diversas gerações, normalmente adquirido na escola, e aquele conjunto de saberes ou informações que apenas uma atenção curiosa ou direccionada mais tarde adquiriu. Na tentativa de equilíbrio navego.

Dando conta da universalidade que acima referi, transcrevo uma versão em português de um poema cosmogónico atribuído aos Fulani (Mali(?)).
O poema foi publicado a abrir ROSA DO MUNDO, a preciosa e quase enciclopédica antologia de poesia com que Porto Capital Europeia da Cultura em 2001 quis assinalar a sua existência, para nossa eterna gratidão.

(Mito da criação)

No principio existia uma enorme gota de leite.
Então chegou Doondari e criou a pedra.
A pedra criou o ferro;
E o ferro criou o fogo;
E o fogo criou a água;
E a agua criou o ar.
Então Doondari desceu pela segunda vez.
Juntou os cinco elementos
E moldou-os num homem,
Mas o homem era orgulhoso.
Então Doondari criou a cegueira e a cegueira derrotou o homem.
Mas quando a cegueira se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou o sono, e o sono derrotou a cegueira;
Mas quando o sono se tornou demasiado orgulhoso,
Doondari criou a preocupação, e a preocupação derrotou o sono;
Mas quando a preocupação se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou a morte, e a morte derrotou a preocupação.
Quando a morte se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari desceu pela terceira vez.
E ele veio como Gueno, o Eterno,
E Gueno derrotou a morte.

Tradução de Vasco David

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Figos: prazer e memória com poesia de Eugénio de Andrade

20 Sexta-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas, Poetas e Poemas

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Eugénio de Andrade, Figos, Giovanna Garzoni, Tavira

Ardidos que estão milhares de hectares de arvoredo na tragédia do incêndio de ontem, no seu rescaldo, a dureza da perda levará as gentes a um esforço redobrado de recuperação, e a paisagem agora nua e calcinada reverdecerá, como pelos séculos em que estas terras têm sido habitadas, a espaços aconteceu. De toda a vegetação queimada, são as figueiras perdidas que mais lamento.

A Figueira

Este poema começa no verão,
os ramos da figueira a rasar
a terra convidavam a estender-me
à sua sombra. Nela
me refugiava como num rio.
A mãe ralhava: A sombra
da figueira é maligna, dizia.
Eu não acreditava, bem sabia
como cintilavam maduros e abertos
seus frutos aos dentes matinais.
Ali esperei por essas coisas
reservadas aos sonhos. Uma flauta
longínqua tocava numa écloga
apenas lida. A poesia roçava-
me o corpo desperto até ao osso,
procurava-me com tal evidência
que eu sofria por não poder dar-lhe
figura: pernas, braços, olhos, boca.
Mas naquele céu verde da Agosto
apenas me roçava, e partia.

Apenas aflorados neste poema de Eugénio de Andrade (1923-2005), os figos frescos são fruta frágil com exigências caprichosas no seu amadurecimento e apanha, pelo menos para os aficionados. A hora ideal para os apanhar e comer directamente da árvore é o alvorecer, quando a “brandura” derramada pela noite ainda permanece. Apanhados e comidos durante o dia ou mesmo ao entardecer de uma daquelas tardes de verão do Sul, onde o calor brilha no restolho dourado, ao som do zumbido das cigarras, são receita certa para problemas intestinais. Ao entrever as delicias das próximas férias, é neles que penso, e pouco mais. Mar e nadar, certamente. Mas a incerteza sobre a multidão mitiga-me o entusiasmo. Num horizonte de nada fazer, à oportunidade de reencontrar as comidas de boa memória, redobra-me o entusiasmo de partir.
Alimento de excelência no Sul, prepará-los e gozá-los ao longo do ano foi matéria de invenção das gentes onde o figo abunda. Por exemplo, associo o Dia de Todos-os-Santos sobretudo aos figos. Nas terras do Sul foi desde que me recordo um dia festivo, ficando para o dia seguinte, 2 de Novembro, a celebração dos mortos, no que se chamava Dia de Finados. Finados, aqueles para quem a vida chegou ao fim, Apenas recentemente o Dia de Finados se sobrepôs ao Dia de Todos-os-Santos.
Como qualquer dia festivo também o Dia de Todos-os-Santos tinha, e tem para quem ainda pratica, as suas comidas de celebração, e neste dia, no meu berço Natal, são os figos, e os doces com figo, os reis: figos cheios (figos recheados com chocolate, açúcar e canela e ligeiramente torrados no forno), bombons de figo (pasta de figo moído, açúcar, canela e algo mais que faz o segredo da receita), enrolado em pequenas bolas guardadas em papel colorido, e estrelas (figos abertos em três pontas unidos dois a dois com miolos de amêndoa na extremidade e passados ligeiramente pelo calor do forno para colar). Estas especialidades da época, que felizmente a minha mãe não dispensa e continua a fazer, remetem-me para o tempo da despreocupada infância.
São os figos que me trazem a única memória de uma bisavó.
Comecei na escola paga quando fiz três anos. Era a escola da menina Emília. Não existindo infantários, as primeiras letras eram ensinadas aos meninos e meninas naqueles anos cinquenta, em casas particulares, por uma senhora que organizava esta escola doméstica, paga chamada, pois este ensino tinha uma mensalidade, ao contrário do ensino oficial e obrigatório a partir dos sete anos, que era gratuito. Nas famílias com mais necessidades as crianças apenas começavam a aprendizagem das letras nesta escola oficial, e assim se fazia a diferenciação para a vida. Quando cheguei ao ensino oficial lia, escrevia e sabia a matemática elementar (tabuada) como apenas a outra meia dúzia na minha situação o sabiam entre cerca de 30 rapazes.
Voltando à bisavó, morava na mesma rua da menina Emília. A escola ficava ao cimo da rua do Malfor, perto da passagem de nível, ou seja, do cruzamento da rua com a linha de comboio. A casa da bisavó era um pouco mais abaixo. Quando terminada a escola regressava à tarde a casa, passava-lhe junto à porta. Habitualmente estava à janela e muitas vezes chamava-me para lanchar. Nestas visitas, o prémio que recordo era tentar tirar-lhe de dentro dos bolsos das saias alguns figos secos ou torrados que sempre lá estavam, e que ela na brincadeira esquivava. Não sei de outros que, comidos depois, me soubessem melhor.

Despeço-me de toda esta evocação, onde afinal foi do passar do tempo que falei, com Prato de Figos, poema de Eugénio de Andrade em que uma metáfora do envelhecimento se escreve.

Prato de Figos

Também a poesia é filha
da necessidade —
esta que me chega um pouco já
fora do tempo
deixou de ser a sumarenta alegria
do sol sobre a boca;
esta, perdida a fresca
e nacarada pele adolescente,
mais parece um desses figos
secos ao sol de muitos dias
que num inverno sempre se encontram
postos num prato
para comeres junto ao fogo.

Vai o artigo acompanhado pelas apetitosas pinturas de Giovanna Garzoni (1600-1670).

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No Dia Mundial do Livro

23 Segunda-feira Abr 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas

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Irmãos Limbourg

Sucedem-se os dias mundiais a propósito das mais variadas matérias. Acabam por chamar a atenção para assuntos ou realidades de que andava distraído. Não assim com o Dia Mundial do Livro. É para mim uma espécie de aniversário colectivo em que muitos amigos se festejam.

No esforço de segurar a vida tentando acreditar que vale a pena vive-la, é aos livros que recorro, qual Cartas a Lucílio, de Séneca, qual Consolação da Filosofia, de Boécio. Outros há, e na poesia são tantos, em que a alegria de estar vivo se reencontra!

Leio de forma regular desde os oito anos. À época, e estou a falar do principio dos anos sessenta do século XX, a fonte das minhas leituras era a biblioteca itinerante da Fundação Gulbenkian, materializada numa carrinha cheia de livros que às quartas-feiras estacionava no Largo da Praça e onde, ao fim da tarde, eu trocava os livros emprestados e lidos, pelos novos que seriam a alegria da semana seguinte. Encarregava-me o meu pai, nesta troca, do transporte dos livros que para ele também levara. Do que ele lia, não recordo. Apenas o nome de Balzac me vem à memória, pelo peso e tamanho dos livros. Para mim, sim, lembro os livros de contos de príncipes e princesas encantadas, encadernados a tecido com uma estampa pequena, colorida, na capa.

Foi adulto que, com enorme jubilo, encontrei no livro do século XV, Très Riches Heures du Duc de Berry (c. 1416), da autoria dos irmãos Limbourg, as imagens que inspiravam os desenhos desses livros de contos e me alimentaram a imaginação infantil com castelos e personagens fabulosos.

Hoje, à visão de qualquer livro de horas exposto em museu ou galeria, páro embevecido a olhá-los longamente. Foi com desgosto que há dias, em visita a um alfarrabista, não comprei uma belíssima copia fac.-similada em pergaminho, de uma destas obras-primas. A crise não está para aventuras.

Mas voltando à infância, poucos anos passados, com o aumento do nº de leitores, a biblioteca deixou a carrinha itinerante e instalou-se num antigo edifício no interior da cerca moura, adjacente à igreja da Misericórdia. Chegava-se lá por uma rua estreita em escadaria, da época medieval, a que também conduz ao castelo. Quando subia aquelas escadas, a minha imaginação infantil coloria-se, e via cavaleiros a descer por ali abaixo, envoltos em trajes esvoaçantes, arma em riste, a caminho de qualquer batalha ou aventura cavaleiresca de libertar formosa dama de um tirano pai que a mantinha a pão e água no alto de qualquer castelo.

Nunca mais parei de ler. Quando por volta dos catorze anos deixei de encontrar na biblioteca os livros que supunha interessarem-me, passei a comprá-los logo que conseguia juntar o dinheiro suficiente. Assim continuei, e acabei por quase submergir em livros.

Os livros sobrevivem-nos sempre, e agora, chegada a altura das escolhas, decidi passar a outros parte dos livros que por anos me acompanharam. Não ofereço, vendo-os. Quem decide gastar o seu dinheiro num livro, provavelmente deseja-o, e estimá-lo-á. Espero reduzir a biblioteca pessoal a poucos milhares de livros e continuar a ter espaço para os novos livros que chegam.

Hoje, ao toque do carteiro, pensei, mais cartas das Finanças! Afinal não. Para minha grande alegria, era o livro com a edição inglesa dos poemas de Anna Akhmatova, há muito esperado, e que a certa altura julguei perdido, que chegava. Terei ocasião de falar dele, da poetisa e dos seus poemas, mais tarde no blog.

Acredito com Umberto Eco que os livros como os conhecemos não serão substituídos por eBooks no tempo da minha vida. Os suportes variarão, todos teremos as nossa preferências no acto de leitura, mas a criação pela palavra e a sua transmissão entre os homens não vai terminar.
Reflexo da mutação dos tempos que atravessamos, decidi-me finalmente pela edição de parte do que tenho escrito, e assinalo este Dia Mundial do Livro de 2012 com o envio para publicação em eBook  do livro  da fermosa benfeitoria (rimas obscenas). A distribuição do livro estará a cargo de uma empresa dos EUA, e como as rimas são acompanhadas da reprodução de pinturas eróticas japonesas da minha colecção, aguardo a confirmação de aceitação, tendo em conta a censura visual exercida sobre a comunicação electrónica pública no pais da liberdade.

O livro, com uma abertura que remete para a pintura e um epílogo em diálogo com a religião, contém no corpo rimas que evocam alguma da poesia erótica da tradição europeia publicada ao longo dos séculos.

Quando o livro se encontrar disponível para compra, darei noticia no blog.

Releio o que escrevi acima e duas evidências ressaltam: por um lado ao falar de livros é a palavra alegria que sobressai; por outro, seria diferente o texto, e seria eu outra pessoa, se a vida não tivesse cruzado no meu caminho a Fundação Calouste Gulbenkian enquanto cidadão.
Através dela encontrei os livros, são edições da Fundação os livros que me salvaram e devolvem o sentido do viver, foi na colecção de arte da Fundação, exposta no seu museu, que abri os olhos para o belo artístico, aí incluídos tanto os livros de horas, como os livros persas por cujas iluminuras me apaixonei; foi finalmente na Fundação que as experiências musicais marcantes me aconteceram, quais os encontros com a música da vanguarda do século XX e a música antiga, e que outro dia virá à conversa, agora que Montserrat Figueras partiu para encantar os anjos no céu.

São do livro Très Riches Heures du Duc de Berry as imagens que acompanham o artigo.

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Entre Almada (Negreiros) e Bicesse, memória de Carnaval

21 Terça-feira Fev 2012

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poetas e Poemas, Prosas

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Almada negreiros

Tive na vida, até hoje, duas paixões de coup de coeur. A primeira, vão mais de quarenta anos.

Era o Carnaval de 1971. Nesses anos Marcelistas as pessoas abriam as casas a desconhecidos com a maior afabilidade, e as festas privadas de fim-de-semana eram parte integrante do quotidiano de qualquer jovem. Chegado o Carnaval os grupos transformavam-se em multidão.

Naquele sábado combináramos encontrar-nos no atelier de um pintor na baixa. O boca-a-boca: onde vais sábado de Carnaval? transformou o pequeno grupo inicialmente previsto numa multidão que extravasava pela escada da mansarda. Quando chegámos, à entrada  e indiferente a multidão que cirandava, acotovelando-se, encostava-se a mulher dos meus sonhos, embora à data eu não soubesse exactamente como era. Foi o baque da paixão, ali, a iluminar-me a alma.

O caos em redor e a falta de espaço não iam permitir qualquer festa, era preciso encontrar solução alternativa àquela barafunda. Festa tinha que haver. Conferenciámos sobre as alternativas e sugeriu-se a casa da Paula.

– Mas é em Bicesse, alguém lembrou.

– Não faz mal, quantos carros há?

 Havia apenas 2.

– Quem couber vai de carro, quem não couber vai de comboio e vou buscá-los à estacão do Estoril, propôs uma amiga com quem eu ia. E assim se fez. A minha descoberta paixão foi connosco e a festa decorreu com quem quis ir. Durou até bem avançada a manhã. O meu coup de coeur deu em namoro e casamento.

A casa era de Almada Negreiros, e a partir dela  escreveu o poeta AQUI PORTUGAL, poema com que termino esta evocação.

Com ela pretendo lembrar a amiga que, com o seu carro e disponibilidade, permitiu que a festa acontecesse e a paixão de um olhar me fizesse feliz por muitos anos. Lembro-a no éter da net agora que faleceu vitima de cancro da mama.

AQUI PORTUGAL

Aqui Portugal

Bicesse

O Fim-do-Mundo mais perto de

Lisboa a da boa flôrdelis

e

Entre a Serra da Lua (Sintra)

As grutas e necrópole daqueles

Que nascidos em Creta

Passaram em Homero

Em Cristo

E a vista de Roma

Saíram do Mediterrâneo

E aqui ficaram e passaram

Trazendo consigo para toda a parte

A civilização da Liberdade individual

Do Homem

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Fantasias fotográficas de Rodney Smith

06 Sexta-feira Jan 2012

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Rodney Smith

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Cartão de Natal

25 Domingo Dez 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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SILVESTRE, o burro doutor

23 Sexta-feira Dez 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Abri gavetas antigas e da nuvem de pó saiu, não o génio da garrafa de Aladino, mas este Silvestre, o burro doutor.

Como prenda de Natal aos visitantes do blog e um envio especial a uma amiga que anos vai lutou com este burro, sem sucesso, para o verter em inglês, aí fica a sua história, pronta a correr mundo e embalar a ingenuidades de leitores para quem a infância permanece próxima.

 

SILVESTRE, o burro doutor

Vivia o burro Silvestre

num lugar muito habitado

por imensos animais.

Logo que o dia nascia

começava a sinfonia:

– É burro nunca  há-de  aprender!

 E sempre isto acontecia

mal a cabeça mostrava

à porta do seu quintal.

 

Bem triste à noite chorava

sem saber o que fazer.

Perguntava então para si:

– Que coisa tenho comigo

que não me deixa aprender?

 

E assim continuava

um dia e outro a seguir.

 

Já nem mesmo zurrar queria

para ninguém perceber

que ele por ali andava

e um malvado qualquer

chegar bem perto e gritar

– É burro nunca  há-de  aprender!

 

Certo dia quando estava

sentado e em solidão

ouviu uma voz dizer:

– Estuda e vais aprender.

 

– Será verdade afinal,

pensou de si para si,

   se eu estudar com vontade

   virei um dia saber?

 

Em tal hipótese crer

nem sabia se devia,

estudar era difícil

como o iria fazer?

 

De novo a voz segredou:

– À escola vai perguntar

  o que deverás fazer

  para poder estudar

  e um dia vir a ler.

 

Com uma enorme coragem

para a escola caminhou.

 

Ao saber tal novidade

espantam-se os animais

com tamanha presunção

e em grande reinação

disseram todos a rir:

 

– O burro quer ir à escola,

    não querem vocês lá ver.

         Vai passear a sacola

   fazendo que sabe ler.

 

O corajoso Silvestre

respondeu-lhes confiante:

 

– Riam, riam e hão de ver

   o que pode a persistência

   quando um burro quer saber.

Brincam vocês e eu estudo,

no final vamos ver

qual de nós irá vencer.

 

 

Tinha pressa de aprender,

de manhã quando acordava

mal comia só estudava

certo de que chegaria

aquele desejado dia

em que havia de vencer

quem de si  escarnecia.

 

 

Chegou um dia uma carta

aquela aldeia remota.

 

Era o rei que convidava

os animais a mostrar

o que sabiam fazer

e ao príncipe ensinar.

 

Cada um escreveria

numa carta ao seu senhor

o que ensinar poderia

ao príncipe como tutor.

 

 

Reúnem-se  os animais

vindos dos outros quintais

dizendo o que faziam

e ensinar gostariam.

 

Então o burro muito sério

diz alta voz a zurrar:

– Ao príncipe vou ensinar

   a escrever e a contar.

 

 

Estrondosa gargalhada

rebentou da bicharada.

 

– Ouçam só o disparate

disseram todos à uma,

rindo e brincando com gosto.

Ficou o burro envergonhado

e calou para si o desgosto.

A reunião prosseguiu

com todos os animais

alegremente a escrever

o que sabiam fazer.

 

 

Foram cartas para o Rei

dizendo as habilidades

de todos os animais

só de Silvestre, coitado

nenhuma carta seguiu.

 

 

Veio o rei em comitiva

visitar aquele lugar

pensando se encontraria

o tutor que ao filho daria.

 

 

Vai chegando a bicharada

p´ra reunião frente ao rei.

 

Este com as cartas na mão

chama alto o seu autor

pedindo-lhe para mostrar

o que bem sabe fazer

e como o vai ensinar.

 

 

Todos mostram o melhor

das suas habilidades.

 

 

Chegadas ao fim as cartas

olhou o rei em redor

e vendo o burro a espreitar

chama-o com rispidez:

 

– E a tua carta onde está?

 

Responde o burro assustado:

 

– Riram-se estes animais

   quando alta voz desejei

   ao príncipe vir a ensinar

   a escrever e a contar.

            É apenas o que sei

e nesta escola aprendi.

 

 

– Mostra-me então o que sabes,

diz o rei rindo baixinho.

 

 

Afastam-se os animais

para Silvestre passar.

 

 

Chegou-se então para o centro

sentando-se em posição.

 

 

Fez-se silencio em redor

e Silvestre começou.

 

Leu, escreveu e contou

e de tão entusiasmado

não resistiu e cantou,

com voz tão bem colocada

que todo mundo encantou

incluindo a passarada.

 

 

Ficou muda a bicharada

tal o espanto do que viu

e o rei sem hesitar

ali mesmo decidiu:

 

– Este será o tutor

e o príncipe aprenderá

como é possível um burro

vir a ser um professor.

 

 

É agora bem afamado

e por todos convidado

Silvestre, o burro doutor.

 

FIM

 

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O passeio da Margarida

21 Quarta-feira Dez 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Nesta quadra propícia a inocências deixo-vos com o passeio da Margarida que em tempos escrevi a propósito da cadela de estimação de uma minha vizinha.

O passeio da Margarida

Passeia pelo jardim,

segura a trela na mão

e num desvelo de ternura

chama:

– Margarida venha cá!

A margarida teimosa

foge para longe a correr

sabe ser ela o pretexto

do passeio acontecer.

 Com corridas, atrevida

põe a dona em corrupio

repetindo divertida:

– Margarida venha cá!

Brincando de cá para lá

chegam a casa cansadas

e repousam sossegadas

no conforto do sofá.

Com a dona adormecida

salta a janela a correr

e foge pelo jardim.

Acorda a dona assustada

e a Margarida tão querida,

não está!

Olha a dona pela janela

e que vê?

A margarida anda nua

na rua, não pode ser!

Deixou a capa lavrada

mais a cinta, que molhada

pingava sobre o tapete.

E assim desprevenida

é de súbito apanhada

a namorar o cachorro

do vizinho do direito,

cão sem qualquer preconceito

no que respeita a cadelas,

pois roça por todas elas

sem distinguir pedigree.

– Já para casa Margarida!

grita de longe bem alto.

A pobre larga num salto

aquele cachorro malvado

e regressa a soluçar

num choro tão desmedido

que a dona sente no peito

um grande arrependimento.

Volta então a ponderar

o efeito do amor

entre cachorros sem trela

ou com trela e sem pudor .

                                Carlos Mendonça Lopes 

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