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vicio da poesia

Category Archives: Convite à arte

Mulheres na pintura de Ingres (II) e ainda Le violon d’Ingres

20 Quarta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Convite à fotografia

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Ingres, Man Ray

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Half-figure_of_a_Bather

Porque a vida não é apenas metafísica, tenho que confessar uma fraqueza: a contemplação na cama de uma mulher nua, de costas, onde as formas dos ombros à anca se desenvolvem como se de um violoncelo se tratasse, é música para os meus olhos, e todo o corpo vibra. As mãos percorrem em caricias aquelas suaves curvas e o concerto em que tudo termina deixo à vossa imaginação adivinhar.

Sendo a natureza naturalmente diversa e pródiga, permitindo este encanto musical em muitas das suas belas criaturas, há no entanto uma fotografia famosa de Man Ray (1890-1976) que consagra este esplendor da forma feminina, talvez de forma definitiva,

Man Ray - Le violon d'Ingres

e que não por acaso, o mestre, em homenagem às belas mulheres pintadas por Ingres, chamou Le violon d’Ingres.

A homenagem é justíssima pois à harmonia de formas, pose e colorido de cada uma das pinturas que a seguir arquivo, só falta o nosso “arco” para fazer a música soar.

Olhai e sentí:

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-The_Bather

Certamente encantado com a obra, ei-la de novo com outro fundo:

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-The_Small_Bather

e como o que realmente importa é o que está na frente, aí ficam alguns inspiradores resultados.

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Study_for_Roger_freeing_Angelica

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-The_Birth_of_Venus

Como O Banho Turco e A Fonte podem ser encontrados algures no blog, termino com A Grande Odalisca

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-The_Grand_Odalisque

Uma nota a propósito da foto de Man Ray, Le violon d’Ingres de 1924

Le violon d’Ingres era, não sei se ainda em uso, uma expressão idiomática francesa para exprimir ocupação de ócio, ou hobby.

A foto, cuja modelo é Kiki de Montparnasse, pode oferecer a leitura a partir do título, de que se o hobby de Ingres era tocar violino, o de Man Ray seria ocupar o tempo livre com Kiki, de resto modelo de outras fabulosas fotos do mestre. De caminho, cada um de nós pode embalar a imaginação nesta espécie de ocupação do tempo livre, tocando as cordas de quem mais lhe apetecer.

 

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A parábola dos cegos de Pieter Brueghel o Velho, e o poema de William Carlos Williams

19 Terça-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Pieter Brueguel o Velho, William Carlos Williams

Parábola dos cegos 01A par dos valores intrinsecamente plásticos na pintura de Pieter Brueguel o Velho (1525-1569), que nos encantam o olhar pelo movimento e colorido das cenas pintadas, existe um lado documental sobre aquele mundo do século XVI longe a vida da corte, que transforma a contemplação desta pintura num mergulho na história e vicissitudes da condição humana.

Escolho para hoje a ilustração da parábola dos cegos, que no terrível da sua representação nos compunge e empurra para a reflexão sobre o que nos nossos dias de semelhante existe.

Enquanto leitura metafórica, a pintura remete-nos para a cegueira com que cada homem caminha na vida, seguindo os outros e não buscando por si o seu caminho, num percurso em que o tropeçar nos erros e no desconhecido é inevitável. Esta cegueira metafórica, no contexto da época do pintor, é sobretudo moral e religiosa, a qual conduz à miséria da vida terrena.

O poeta norte-americano William Carlos Williams (1883-1963) reflectiu em poesia, num famoso livro de 1962, e prémio Pulitzer, Pictures from Brueghel and Other Poems, sobre esta obra. No final transcrevo o poema no original, The Parable of the Blind, desconhecendo se existe alguma versão portuguesa dele.

Agora alguns detalhes de tão fabuloso quadro.

Parábola dos cegos 03

Parábola dos cegos 091

Parábola dos cegos 08

Parábola dos cegos 09

Parábola dos cegos 092

The Parable of the Blind

This horrible but superb painting
the parable of the blind
without a red

in the composition shows a group
of beggars leading
each other diagonally downward

across the canvas
from one side
to stumble finally into a bog

where the picture
and the composition ends back
of which no seeing man

is represented the unshaven
features of the des-
titute with their few

pitiful possessions a basin
to wash in a peasant
cottage is seen and a church spire

the faces are raised
as toward the light
there is no detail extraneous

to the composition one
follows the others stick in
hand triumphant to disaster

 

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Um poema de Wu-ti em versão de António Ramos Rosa

18 Segunda-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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António Ramos Rosa, Archipenko, Poesia Chinesa Antiga, Wu-ti

Archipenko - Torso no espaço

Aí, Senhora minha,
que deixei de ouvir
o roçar da seda
do vosso vestido.

Já o pó se acama
sobre o chão dos pátios
do palácio onde
não mais passeais.

As folhas mortas
vão-se amontoando
diante da porta
p’ra sempre fechada.

E o silêncio do
palácio nunca mais
será quebrado pelo
lindo riso vosso.

Meu pobre coração
não encontra sossego
e, sem esperança alguma,
em vão por vós chama.

Versão de António Ramos Rosa (1924), in Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro.

Embora sem informação editorial nesta versão, suponho que se trata de um poema do 6º imperador da dinastia Han, Wu-ti, que viveu entre 157-87 a. C, e não de c. 200 como assinalado na edição portuguesa.

O poema terá sido escrito em lembrança da sua amante Li Fu-jen, quando esta morreu.

Acrescento a versão inglesa do poema por Arthur Waley, a qual, no confronto com o português, permite saborear melhor a beleza da versão de António Ramos Rosa, na quase imponderável leveza do vocabulário, transmitindo-nos aquela espécie de silêncio que a ausência convoca.

LI FU-JEN

The sound of her silk skirt has stopped.
On the marble pavement dust grows.
Her empty room is cold and still
Fallen leaves are piled against the doors.
Longing for that lovely lady
How can I bring my aching heart to rest?

A imagem que abre o artigo mostra uma pintura/colagem de Archipenko – Torso no espaço.

Archipenko (1887-1964), conhecido sobretudo como escultor do Construtivismo soviético, possui também algumas belas obras de pintura/tecnica mista que noutro artigo arquivarei.

 

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Mulheres na pintura de Ingres (I)

16 Sábado Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Ingres

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Madame_MoitessierEm viagem a Londres, anos vai, aconteceu estar em exibição um vasto conjunto de pintura de retrato de Ingres.

Ingres (1780-1867) era para mim, até ver as obras nessa exposição, um pintor que pouco me chamava, parecendo-me os seu retratos um tudo-nada decorativos.

A demorada observação do detalhe fez-me compreender a importância daquele preciosismo pictórico no impacto da imagem. Aquelas mulheres olham-nos de frente quase sempre, senhoras de si e da sua condição e falam connosco. Há uma verdade humana nestas pinturas que não condescende com hipotéticos cânones de beleza feminina, e são mulheres de carne, osso e sentimento que nos são reveladas. Ora vejam:

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Portrait_of_Madame_Gonse

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Portrait_of_Delphine_Ingres-Ramel

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Madame_Jacques-Louis_LeBlanc

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Portrait_of_Baronne_James_de_Rothschild

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Princess_de_Broglie

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Portrait_of_Madame_Moitessier_Standing

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Portrait_of_Madame_Marcotte_de_Sainte-MariePoderia fazer-se, a partir de cada um destes retratos, e não conhecendo nada da biografia das retratadas, uma história de vida, de sentimentos e condição social, enquadrada, está bem de ver, na sociedade francesa da primeira metade do século XIX. Estes retratos são bem o contraponto pictórico de algumas heroínas de Balzac e da sua Comédia Humana.

Ingres é também autor da pintura de alguns dos mais belos nus da tradição ocidental. Mostrá-los fica para outro dia.

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Erros meus… com Camões e a glosa de Gastão Cruz

15 Sexta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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Camões, Gastão Cruz, Paul Klee

Klee_Paul-SiblingsPor muito que estejamos convencidos do acerto das nossas escolhas, uma vez por outra ou o desânimo, ou as contrariedades, ou a constatação pela evidência do erro, conduzem-nos a reflexões próximas das de Camões no famoso soneto que hoje trago, sem que, evidentemente, as consigamos expressar com a elegante inspiração do nosso génio maior.

As escolhas, os enganos, a sorte, tudo lá está, na concisão que o soneto exige, servido pela admirável simplicidade de uma linguagem que nos faz participar desse destino.

Na perpétua releitura a que os clássicos convidam, os nossos poetas, por vezes, encontram aí inspiração. É o caso, hoje, de Gastão Cruz (1941) que ao famosíssimo soneto de Camões

[Erros meus, má fortuna, amor ardente]

foi buscar âncora para a glosa que o seu poema Erros traduz.

É num diálogo com o soneto de Camões que o poema de Gastão Cruz se inicia, ganhando rapidamente o caminho da interrogação própria do poeta, atendo-se apenas às perplexidades do amor e que o tempo se encarrega de esgotar:

em que tudo era eterno e só durou / o espaço da manhã do teu sorriso

…

frio só porque tudo tem um tempo / até as rosas…

A simplicidade da linguagem acompanha o soneto de Camões, um dos motivos porque ele continua a falar-nos, e a reflexão desencantada de Gastão Cruz termina sem resposta à interrogação inicial:

Não sei se má fortuna erros decerto / erros somente?…

Erros

Não sei se má fortuna erros decerto
erros somente? Pode o amor ardente,
algum tempo omitido, descoberto
cobrir de novo a pele neste presente,

que de pouco já serve a sua chama
lugar comum tão pobre e tão verídico
que sopras e apagas como a cama
negas ao corpo Foge o tempo mítico

em que tudo era eterno e só durou
o espaço da manhã do teu sorriso
como a rosa que tarde já chegou
e pousou devagar no corpo liso

e frio não de morte ou indiferença
frio só porque tudo tem um tempo
até as rosas e não há presença
nem chama do amor que o torne eterno

Para o caso de haver leitores a quem o soneto de Camões não seja familiar, ele aqui fica, sem comentários intrusivos.

Camões

Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.

Tudo passei; mas Tejo tão presente
a grande dor das cousas, que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro génio de vinganças!

A pintura, de Paul Klee, que abre o artigo, é de 1930.

Noticia bibliográfica

O poema Erros de Gastão Cruz inclui-se no livro Crateras, publicado em 2000, suponho. Esta transcrição foi feita a partir da poesia reunida do poeta OS POEMAS (1960-2006), ed. Assírio & Alvim, 2009.

O soneto de Camões, publicado pela 1ª vez em 1616, é aqui transcrito com actualização ortográfica de Maria de Lurdes Saraiva, e consta de Lírica Completa II, INCM, 1980.

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No lugar dos palácios desertos com Álvaro de Campos

15 Sexta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Jean-Leon Gerome

Jean-Leon Gerome Turkish BathAinda a propósito do Dia dos Namorados, e agora que percorro o Algarve, onde os ecos da ocupação islâmica, dos seus poetas e das moiras encanadas, vitimas ou carrascos de amores funestos, permanece, ocorre-me um poema de Álvaro de Campos(?), inventado poeta por Fernando Pessoa, nascido em Tavira, sonhando estes ou outros amores:

 

No lógar dos palacios desertos e em ruínas
Á beira do mar,
Leiamos, sorrindo, os segredos das sinas
De quem sabe amar.

Qualquer que elle seja, o destino d’aquelles
Que o amor levou
Para a sombra, ou na luz se fez a sombra d’elles,
Qualquer fôsse o vôo.

Por certo elles fôram mais reaes e felizes

Noticia bibliográfica

O poema, sem atribuição de autoria no espólio, foi atribuído a Álvaro de Campos pela edição da Ática, e retirado do corpus do heterónimo por Teresa Rita Lopes.

Na transcrição segui a ortografia da edição crítica a cargo de Cleonice Berardinelli, publicada por INCM, Lisboa 1990. Esta edição da obra de Álvaro de Campos coloca o poema em Apêndice entre os “poemas éditos, anteriormente atribuídos a Álvaro de Campos”.

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Todas as cartas de amor são ridiculas — Álvaro de Campos

15 Sexta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Konrad Witz

WITZ, Konrad - O rei Salomão e a Rainha do SabáA propósito do comercialmente festivo Dia de S. Valentim, que agora por cá também se comemora, ocorreu-me arquivar no blog o conhecido poema de Fernando Pessoa, assinado Álvaro de Campos cujo inicio reza assim:

Todas as cartas de amor são / Ridiculas.

Há na biografia de Pessoa vasta pastagem sobre a ambivalência da paixão deste por Ofélia Queiroz, a quem escreveu conhecidas cartas de amor, encarregando o heterónimo Álvaro de Campos do contraponto de dúvida sobre essa paixão.

Como habitualmente em Fernando Pessoa, nada é simples, e neste poema sublima-se no propósito de dizer uma coisa e o seu contrario, entregando ao leitor a dúvida, e a escolha da solução.

Não fujo a uma resposta, e antes de vos deixar o poema deixem-me dizer: Felizes os que recebem ridículas cartas de amor. Para esses, todos os dias são Dia dos Namorados, e aqui os felicito.

Vamos ao poema:

Todas as cartas de amor são
Ridiculas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridiculas.

Tambem escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridiculas.

As cartas de amor, se ha amor,
Têm de ser
Ridiculas.

Mas, afinal,
Só as creaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridiculas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridiculas.

A verdade é que hoje
As minhas memorias
D’essas cartas de amor
É que são
Ridiculas.

(Todas as palavras esdruxulas,
Como os sentimentos esdruxulos,
São naturalmente
Ridiculas.)

21/10/1935

Conservei na transcrição a ortografia e acentuação da edição de Teresa Rita Lopes na Edição Critica da poesia de Álvaro de Campos, Editorial Estampa, Lisboa 1993.

Nota sobre a imagem de abertura

Trata-se da imagem de uma pintura de Konrad Witz a reprodução que abre o artigo. Nela representam-se, supostamente, o rei Salomão e a rainha do Sabá.

Não consta da lenda que envolve estes personagens qualquer paixão ou relação amorosa.

A pintura dá-nos conta do momento em que a rainha viajante entrega um opulento presente ao seu real hospedeiro. Revelam as suas expressões um respeito atento e cortês entre iguais e foi a ideia dessa relação de igualdade o motivo porque a escolhi ao assinalar este dia de namorados no blog.

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Ó Noite, ó desejo de Heliodora – Meleagro de Gádaros

07 Quinta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Matisse, Meleagro de Gádaros

Matisse_Henri-Satyr_and_NymphMeleagro de Gádaros (séc. I a. C.) foi o organizador da que é hoje conhecida como Antologia Palatina, compilação de poesia grega antiga onde se reunem poesias  dispersas em livros de epigramas amorosos, votivos, funerários, morais, cómicos, etc…, de poetas de quem em geral pouco se sabe.

Atenho-me, no entanto, a um dos belos poemas de Meleagro de Gádaros (séc. I a. C.) dedicados à mulher amada, Heliodora.

Ó Noite, ó desejo de Heliodora que me tem acordado,
e vós, ó ancas travessas cuja lembrança penetrante
me solta as lágrimas, dizei-me: guarda ela
na lembrança uma fria imagem
do calor dos meus beijos? Tem ela no leito,
como eu, as lágrimas por companheiras
e beija e aperta contra o peito
o meu fantasma que lhe cativa a alma?
Ou ela tem um novo amor?
Ó lâmpada, não ilumines essas novas folias
e guarda apenas para mim
aquela que te confiei.

(in Antologia Palatina)

Tradução de Albano Martins

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Com Páladas, A vida é isto, apenas isto: a vida é prazer

06 Quarta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Matisse, Páladas

Matisse_Henri-Luxe_calme_et_voluptePerco-me muitas vezes nos livros de antiga poesia grega. Não conheço o grego e por isso leio em traduções disponíveis, o que são sempre aproximações limitadas pelos preconceitos dos tradutores e do seu tempo, sobretudo nas matérias em que o sexo espreita. Tomada em conta esta realidade, sobra a felicidade com que o tradutor conseguiu criar na língua de chegada qualquer coisa parecida com poesia, e às vezes acontece.

Acontece frequentemente com o poeta Alberto Martins no seu labor de tradução de poesia grega antiga, um verso ficar preso à memória e a uma segunda e terceira leitura permanecer o encanto.

Para hoje escolho, dentre as suas traduções, alguns poemas de Páladas, gramático da Caldeia, estabelecido em Alexandria no século IV e cuja poesia foi recolhida na Antologia organizada por Agátias, o Escolástico, no século VI, vivendo na corte de Justiniano.

O primeiro poema remete-nos com enorme acutilância para a vida dos gregos, hoje:

A vida é um sonho

Acaso morremos e só na aparência estamos vivos,
nós, os gregos, caídos em desgraça,
imaginando que a vida é um sonho?
Ou estamos vivos e foi a vida que morreu?

A realidade vivida na Grécia hoje, de que vamos tendo noticia, cola-se como uma luva a esta reflexão.

Concluo com dois poemas onde se retoma a perspectiva da fugacidade da vida já reflectida por Horácio na Ode a Leucónoe, que antes deixei, e apologiando Carpe Diem, agora na formula:

Sejamos felizes hoje, que o amanhã de ninguém é conhecido.

A vida

A vida é isto, apenas isto: a vida é prazer. Longe de nós os cuidados.
A existência humana é curta. Venham depressa o vinho,
depressa as danças e as coroas de flores, depressa as mulheres.
Sejamos felizes hoje, que o amanhã de ninguém é conhecido.

Terminemos com o convite do poeta: chorai a rapidez do tempo!

O fim

Ó breves prazeres da vida,
chorai a rapidez do tempo!
Estamos sentados e dormimos,
Trabalhando ou gozando o prazer.
Mas o tempo corre, corre para nós,
míseros mortais, pondo fim
à vida de cada um.

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Camões – reflexões poéticas sobre o desconcerto do mundo

05 Terça-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Camões, o velho, Pieter Brueghel

Brueghel_Pieter_the_Elder-The_Triumph_of_Death_detailNum tempo que em Portugal é de horizontes bloqueados, quando o agravar de dificuldades atinge muitos, alguns há a quem a mofina não toca.

Vivem-se tempos de grande incerteza, onde a par das desigualdades o desejo de Justiça permanece,  gerando entre as gentes, se não revolta, pelo menos a perplexidade da sua existência.

Há uma espécie de desacerto nesta injustiça flagrante, como se o mundo não fizesse sentido. Isto mesmo nos diz Camões em relação ao seu tempo, na redondilha Ao desconcerto do mundo, e que hoje surge como que saída do nosso quotidiano:

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.

O poeta aborda ainda o assunto nas oitavas a dom António de Noronha, sobre o desconcerto do mundo, e interroga-se a abrir:

Quem pode ser do mundo tão quieto,
Ou quem terá tão livre o pensamento,
Quem tão experimentado e tão discreto,
Tão fora, enfim, de humano entendimento
Que, ou com publico efeito, ou com secreto,
Lhe não revolva e espante o sentimento,
Deixando-lhe o juízo quase incerto,
ver e notar do mundo o desconcerto?

Quem há que veja aquele que vivia
De latrocínios, mortes e adultérios,
Que ao juízo das gentes merecia
Perpétua pena, imensos vitupérios,
Se a Fortuna em contrário o leva e guia,
Mostrando, enfim, que tudo são mistérios,
Em alteza de estados triunfante,
Que, por livre que seja não se espante?

Quem há que veja aquele que tão clara
Teve a vida que em tudo por perfeito
O próprio Momo às gentes o julgara,
Ainda que lhe vira aberto o peito,
Se a má Fortuna, ao bem somente avara,
O reprime e lhe nega seu direito,
Que lhe não fique o peito congelado,
Por mais e mais que seja experimentado?

Num longo relato de perplexidades e juízos morais, expostos na forma interrogada, se desenvolve o poema ao longo de vinte e nove oitavas, ora interpelando o mundo ora interrogando a sua circunstância pessoal, e finalmente encaminhando o poema para os assuntos do amor com que termina:

Mas para onde me leva a fantasia?
Porque imagino em bem-aventuranças,
Se tão longe a Fortuna me desvia
Que inda me não consente as esperanças?
Se um novo pensamento Amor me cria
Onde o lugar, o tempo, as esquivanças
Do bem me fazem tão desamparado
Que não pode ser mais que imaginado?

Fortuna, enfim, co’o Amor se conjurou
Contra mim, porque mais me magoasse:
Amor a um vão desejo me obrigou,
Só para que a Fortuna me negasse.
A este estado o tempo me achegou,
E nele quis que a vida se acabasse;
Se há em mim acabar-se, que eu não creio;
Que até da muita vida me receio.

Ilustra o artigo um detalhe de O triunfo da morte, de 1562, pintura de Pieter Brueghel, o velho (1525/30-1569), eventualmente contemporânea dos poemas, e que incluí no artigo anterior com poesia de Kurt Heynicke.

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