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vicio da poesia

Monthly Archives: Dezembro 2019

D. Francisco de Sá e Meneses — pago sempre em tristeza / os sonhos do pensamento

31 Terça-feira Dez 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa antiga

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D. Francisco de Sá e Meneses, Joan Miró

Os sonhos, porta de entrada da esperança, umas vezes realizam-se, outras ficam pelo caminho nos acidentes de percurso da vida vivida. Não que os sonhos do pensamento sempre se esboroem virando a esperança em tristeza, ou como poeticamente escreve D. Francisco de Sá e Meneses (1515-1584), 1.º Conde de Matosinhos(*), no poema que a seguir transcrevo: pago sempre em tristeza / os sonhos do pensamento. Esta desilusão permanente é talvez uma imagem de abismo decorrente de desilusões sucessivas, a ponto de o poeta desabafar: 

…

Que até de ter esperança

Tenho a esperança perdida. 

…

 

Embora suponhamos poder ter mão no destino, em verdade só a temos no que da nossa vontade depende, como bem lembra Epicteto (séc. I-II) em Encheiridion (Manual). O que nos é alheio atinge-nos sem fuga. E se esse acontecer, a que chamamos pouca sorte, persiste, então talvez sintamos como o poeta que ao terminar o poema se lamenta:

…

E eu, por não mudar a sorte,

Nem morro nem tenho vida.

 

Que nem todos tenhamos tamanha desilusão com o viver, desejo.

 

 

Poema

 

Mote

 

Já não posso ser contente:

Tenho a esperança perdida!

Ando perdido entre a gente;

Nem morro, nem tenho vida.

 

Glosa

 

A tudo quanto desejo

Acho atalhadas as vias;

Em tentos e fantasias

Mui mau caminho me vejo.

Se do passado e presente

O porvir se pode crer,

Já não há que pretender:

Já não posso ser contente.

 

Que de tudo quanto quero

Chego a tara triste estremo

Que vejo tudo o que temo 

E nem sombra do que espero,

Desengano-me da vida

E fiz nela tal mudança 

Que até de ter esperança

Tenho a esperança perdida.

 

Cuidei um tempo que havia

Na fortuna o que buscava,

E posto que o não dava,

O mesmo tempo o daria.

Achei tudo diferente,

Fiquei desencaminhado, 

E como em despovoado, 

Ando perdido entre a gente.

 

De que farei fundamento

Pois em nada acho firmeza

E pago sempre em tristeza

Os sonhos do pensamento?

Abrande esta dor crescida

Vivendo em pena de morte,

E eu, por não mudar a sorte,

Nem morro nem tenho vida.

 

Fonte do poema

As cem melhores poesias (líricas) da língua portuguesa escolhidas por Carolina Michaëlis de Vasconcelos, editado simultaneamente em Lisboa, Rio de Janeiro, Berlim, Bruxelas, Lausanne, Londres, 1910.

Actualizei a ortografia.

 

(*) Não confundir com o sobrinho de nome homónimo e autor do poema épico Malaca conquistada e poemas diversos.

Com esta publicação concluem-se dez anos de blog e quase mil artigos publicados.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Joan Miró (1893-1983), A Esperança.

Possa o contemplá-la ser um estímulo para manter a esperança vida fora.

 

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Um soneto de Francisco Villaespesa

29 Domingo Dez 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Espanhola

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Francisco Villaespesa, Tom Wesselmann

Como bem lembra algures Octávio Paz (1914-1998), o erotismo não é uma simples imitação da sexualidade, é a sua metáfora, ou como noutra ocasdião referiu Georges Bataille (1897-1962), o erotismo humano é da esfera da espiritualidade.

As consideraçõs de tais autoridades literárias são o intróito a um poema de Francisco Villaespesa (1877-1936) que a seguir transcrevo, seguido de uma minha tradução:

La sabia mano a cuyo tacto ardiente
vibra la carne como un instrumento,
prolongó la agonía del momento
en una languidez intermitente…

Oh, el cálido contacto de tu frente!
Oh, tu dorso desnudo y opulento
echado sobre mí, como un sediento
sobre lá superfície de una fuente!

Mis besos perfumaron el vacío
de un húmedo y mortal escalofrío…
Y bajo tu melena estremecida

en un áureo manojo de serpientes,
sentí sangrar y sucumbir mi vida,
entre el canibalismo de tus dientes!

Para quem não seja fluente em castelhano segue uma tradução aproximada do soneto.

A sábia mão a cujo tacto ardente
Estremece a carne como um instrumento
Prolongou a agonia do momento
Em uma languidez intermitente…

Oh, cálido contacto da tua frente!
Oh, o teu dorso nu e opulento!
Deitado sobre mim, qual um sedento
Avidamente bebe de uma fonte!

Meus beijos perfumaram o vazio,
Húmida morte suou em calafrio…
E sob a tua melena estremecida

Num glorioso abraço de serpentes
Senti sangrar e sucumbir a vida,
Entre o canibalismo dos teus dentes!

Tradução de Carlos Mendonça Lopes

Conhecemos mal em Portugal a poesia erótica espanhola e hispano-americana, que é muita e de elevada qualidade média. Poetas há em que a tensão erótica perpassa toda a obra, e estou a lembrar-me de Octávio Paz, Luis de Góngora, Ruben Darío, Lorca, Vicente Aleixandre, isto para referir apenas os mais conhecidos entre nós.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Tom Wesselmann (1931-2004), Great American Nude 59 (1965).

 

Nota final

O poema, a tradução, e uma primeira versão do artigo foram publicados no blog em Agosto de 2011.

 

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Um epigrama de Théophile de Viau

29 Domingo Dez 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Francesa

≈ 1 Comentário

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Peter Geiger, Théophile de Viau

Em brejeirices de final do ano eis um epigrama atribuído a Théophile de Viau (1590-1626),  poeta de curta vida, condenado à fogueira aos trinta e três anos por heresia e libertinagem. Ausente de França, para execução da sentença foi queimado em esfinge. A sentença foi depois aliviada para prisão perpétua, o que de pouco serviu para os poucos anos que entretanto viveu.

O poema conta como um gordo abade, deitado, se entregava aos cuidados de uma esforçada freira, que lhe tentava erguer o membro. Vendo o sem sucesso da empresa, diz-lhe a freira: — Senhor, diga Magnificat, pois ao ouvi-lo todo o mundo se levantava.

Transcrevo o original para leitores familiarizados com o francês, e acrescento uma minha versão para português que conservando a rima, palidamente se aproxima da graça e elegância do original, em assunto habitualmente procaz.

 

Épigramme 

 

Un gros abbé se laissait en sa couche 

Tater le vit aux mains d’une nonain 

Mais son engein demeurait sous sa main 

Sans se mouvoir tout aussi qu’une souche; 

Cette nonain, que n’avait point de trêve, 

Voyant son vit demeurer aussi plat, 

Lui dit: Monsieur, dites Magnificat; 

Quand on le dit tout le monde se lêve.

 

Versão para português por Carlos Mendonça Lopes:

 

Epigrama

 

Na cama, um gordo abade entregue

A mãos de freira o membro tinha,

Mas tal engenho inerte segue:

Tal qual um morto se mantinha.

A freira trabalhava até ao fundo

E da verga vendo o tenaz pendor,

Ao abade sugere: — Diga Magnificat, Senhor,

Dizê-lo faz levantar o que há no mundo.

 

 

E agora uma imagem possível do pós-Magnificat numa gravura de Peter Geiger (1805-1880):

A imagem integra uma colecção de 10 gravuras eróticas de Peter Geiger (1805-1880), numa edição privada com 530 cópias, Viena, 1909.

A colecção mostra um conjunto típico do chamado período Biedermeier.

 

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Formas da solidão em dois poemas de Patrizia Cavalli

27 Sexta-feira Dez 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Italiana

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Edward Hopper, Patrizia Cavalli

Estar só depois da experiência da vida a dois gera uma solidão diferente daquela vivida por quem nunca a vida partilhou. 

Num primeiro poema de Patrizia Cavalli (1947)  que a seguir traduzo, é essa solidão posterior à vida partilhada que a poesia capta, mostrando a evidência do desejo de que às vezes qualquer companhia é melhor que o silêncio da solidão:

 

 

Poema

 

Agora que o tempo parece todo meu

e ninguém me chama para o almoço ou jantar,

agora que posso ficar olhando

como uma nuvem se desvanece e desaparece,

como um gato caminha pelo telhado

no luxo imenso de uma exploração, agora

que em cada dia me espera

a ilimitada duração de uma noite

onde nada me chama e não há mais razão

para me despir com pressa e descansar dentro

da ofuscante doçura de um corpo que me espera,

agora que a manhã nunca começa

e silenciosa me deixa com os meus projectos

em todas as cadências da minha voz, agora

subitamente, gostaria da prisão.

 

Tradução do italiano por Carlos Mendonça Lopes 

 

 

Poema original

 

Adesso che il tempo sembra tutto mio

e nessuno mi chiama per il pranzo e per la cena,

adesso che posso rimanere a guardare

come si scioglie una nuvola e come si scolora,

come cammina un gatto per il tetto

nel lusso immenso di una esplorazione, adesso

che ogni giorno mi aspetta

la sconfinata lunghezza di una notte

dove non c’è richiamo e non c’è piú ragione

di spogliarsi in fretta per riposare dentro

l’accecante dolcezza di un corpo che mi aspetta,

adesso che il mattino non ha mai principio

e silenzioso mi lascia ai miei progetti

a tutte le cadenze della voce, adesso

vorrei improvvisamente la prigione.

 

in Patrizia Cavalli, Poesie (1974-1992), Einaudi, Torino, 1992.

 

Nestoutro poema que à frente traduzo, fala-nos Patrizia Cavalli da solidão acompanhada, tantas vezes presente numa relação cuja razão de ser desapareceu. O poema recorda-me irresistivelmente a canção de Patxi Andion, Aniversário, que em tempos trouxe ao blog.

 

Poema

 

Esta noite perfeita, esta hora tão doce,

o silêncio, e ninguém que perturbe

nesta casa exposta apenas ao mar e ao céu

na temperatura certa da carne,

eu sem carne aqui em frente a ti

enquanto me aborreço e enquanto tu te aborreces e crês

que quebrar o silêncio quebra o tédio

que em vez disso, cada palavra aumenta. E agora?

Entediar-se sozinho talvez seja um luxo,

mas entediar-se em duo é desespero

— não é tédio que plácido resida,

mas activamente trabalha no meu sangue

e me faz fraca e débil, me extingue.

 

Tradução do italiano por Carlos Mendonça Lopes 

 

Poema original

 

Questa notte perfetta, questa ora così dolce,

il silenzio, e nessuno che disturbi

in questa casa esposta solo al mare e al cielo

nella temperatura giusta della carne,

io senza carne qui di fronte a te

mentre mi annoio e mentre tu ti annoi e credi

che rompere il silenzio rompa la noia

che invece ogni parola accresce. E adesso?

Annoiarsi da soli forse è un lusso,

ma annoiarsi in due è disperazione

— non è noia che placida risieda,

ma attivamente lavora nel mio sangue

e mi fa scarsa e debole, mi estingue.

 

in Patrizia Cavalli, Datura, Einaudi, Torino, 2013.

 

 

Abrem e fecham o artigo as imagens de duas pinturas de Edward Hopper (1882-1967), Sol matinal e Hotel junto a uma estação de comboios, ambas de 1952. A primeira pertence à colecção do Columbus Museum of Art, a segunda ao Hirshhorn Museum and Sculpture Garden, Smithsonian Institution, ambos nos EUA.

 

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Janeiras — poema de Vitorino Nemésio

24 Terça-feira Dez 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

≈ 2 comentários

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Bicci di Neri, Vitorino Nemésio

É para uma atmosfera de comemoração popular do nascimento de Jesus que o poema Janeiras de Vitorino Nemésio (1901-1978) nos transporta:

…

Vimos honrar a Jesus

Numas palhinhas deitado:

O candeio está sem luz 

Numa arribana de gado.

 

Mas uma estrela dianteira 

Arde no céu, que regala! 

A palha ficou trigueira,

Os pastorinhos sem fala.

…

 

Cantar as janeiras em grupos de porta em porta, em datas diferentes consoante os locais, é uma tradição a custo conservada em algumas povoações do país. Lembro-me de certo ano, as cantar em véspera de Natal, já lá vão talvez sessenta anos ou quase. Era em verdade uma forma simultânea de dar e receber a pretexto da comemoração religiosa:

 

Ó de casa, alta nobreza 

Mandai-nos abrir a porta,

Ponde a toalha na mesa 

Com caldo quente da horta!

 

Tendi, ferrinhos de prata, 

Ao toque desta sanfona!

Trazemos ovos de pata 

Fresquinhos, prà vossa dona.

…

 

No poema, ao anúncio da chegada dos cantadores à porta, segue-se a história do presépio. Finda esta, é hora de comezaina:

…

Acabou-se esta cantiga,

Vamos agora à chacota:

Já enchemos a barroga

Sigamos nossa derrota!

 

Rico vinho, santa broa 

Calça o fraco, veste os nus!

Voltaremos a Lisboa 

Pró ano, querendo Jesus.

 

 

E assim me despeço por hoje de si, leitor, com desejo de um Feliz Natal.

 

 

Eis o poema integral:

 

 

Janeiras

 

Ó de casa, alta nobreza 

Mandai-nos abrir a porta,

Ponde a toalha na mesa 

Com caldo quente da horta!

 

Tendi, ferrinhos de prata, 

Ao toque desta sanfona!

Trazemos ovos de pata 

Fresquinhos, prà vossa dona.

 

Senhora dona da casa, 

À ilharga do seu Joaquim,

Vermelha como uma brasa 

E alva com um jasmim!

 

Vimos honrar a Jesus

Numas palhinhas deitado:

O candeio está sem luz 

Numa arribana de gado.

 

Mas uma estrela dianteira 

Arde no céu, que regala! 

A palha ficou trigueira,

Os pastorinhos sem fala.

 

Dá-lhe calorzinho a vaca, 

O carvoeiro uma murra,

A velha o que trás na saca,

Seus olhos mansos a burra.

 

Já as janeiras vieram 

Os reis estão a chegar,

Os anos amadureceram:

Estamos para durar!

 

Já lá vem Dom Melchior

Sentado no seu camelo 

Cantar as loas de cor 

Ao cair do caramelo.

 

Ó incenso, mirra e oiro,

Que cheirais e luzis tanto,

Não valeis aquele tesoiro 

Do nosso Menino santo!

 

Abride a porta ao pregrino, 

Que vem de mum longe à neve,

De ver nascer o Menino 

Nas palhinhas do preseve.

 

Acabou-se esta cantiga,

Vamos agora à chacota:

Já enchemos a barroga

Sigamos nossa derrota!

 

Rico vinho, santa broa 

Calça o fraco, veste os nus!

Voltaremos a Lisboa 

Pró ano, querendo Jesus.

 

Publicado em Festa Redonda (1950).

Transcrito de Vitorino Nemésio, Obras Completas, vol I – Poesia, INCM, Lisboa, 1989.

 

 

Nota lexicográfica

Os termos pregrino, preseve, barroga, derrota, e outros são corruptelas populares para peregrino, presépio, barriga, rota, etc, que o poema contém e conservei.

Suponho que murra quererá significar um feixe de lenha para queimar. Se algum leitor conhecer o seu significado preciso, agradeço a informação.

 

Abre o artigo a imagem de uma representação tradicional do presépio por Bicci di Neri (1419-1491), também conhecido por Neri di Bicci, de 1470.

A pintura pertence à colecção do museu Lindenau de Altenburg.

 

 

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Um poema sobre o Natal de Fernando Pinto do Amaral

23 Segunda-feira Dez 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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Fernando Pinto do Amaral, Gustav Klimt

Cai a noite — está frio 

e súbito perpassa 

por nós um arrepio

a anunciar a graça 

…

 

Numa toada de sabor popular em redondilha maior e quadras rimadas, Fernando Pinto do Amaral (1960) dá-nos no poema Natal de 98, de que antes citei a quadra de abertura, uma reflexão sobre nós e o sagrado, induzida pela noite de Natal:

…

Cai a noite serena 

sobre nossa agonia 

e repete-se a cena 

que de novo inicia 

 

uma história de amor 

entre os homens e alguém 

talvez muito maior 

talvez homem também 

…

 

Depois deste quase tocar o divino, vem a inescapável dimensão terrena — nossa:

…

Cai a noite e eu espreito

o que em silêncio brilha 

no escuro do meu peito 

no olhar da minha filha 

 

É uma antiga promessa 

a que ninguém responde 

uma luz que atravessa 

este lugar sem onde 

…

 

Notável reflexão onde o ritmo do poema pode conduzir o leitor apressado a reter apenas a melodia da rima, descurando o que no todo o poema nos dá: … / Cai a noite indiferente / às imagens do nada / …; afinal a experiência que cada ano renova.

 

 

Natal de 98 

 

Cai a noite — está frio 

e súbito perpassa 

por nós um arrepio

a anunciar a graça 

 

de sermos talvez mais 

do que simples humanos 

decifrando sinais 

que não passam de enganos 

 

Cai a noite serena 

sobre nossa agonia 

e repete-se a cena 

que de novo inicia 

 

uma história de amor 

entre os homens e alguém 

talvez muito maior 

talvez homem também 

 

Cai a noite e eu espreito

o que em silêncio brilha 

no escuro do meu peito 

no olhar da minha filha 

 

É uma antiga promessa 

a que ninguém responde 

uma luz que atravessa 

este lugar sem onde 

 

Cai a noite indiferente 

às imagens do nada 

Cai a noite e alguém sente 

que já é madrugada

 

in Natal… Natais, Oito séculos de Poesia sobre o Natal, Antologia de Vasco Graça Moura, Público, Comunicação Social, S.A., 2005.

 

 

Nota iconográfica

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Gustav Klimt (1862-1918), Castelo sobre a água de 1908, pertença da Galeria Nacional de Praga.

No espelho da natureza domesticada que são os jardins se reflecte a busca humana pela harmonia no mundo, qual luz que atravesse este lugar sem onde.

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Possa o vento soprar doçura — poema de Rig Veda

21 Sábado Dez 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia da Índia

≈ 3 comentários

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Arpad Szenes, Rig Ved

O poema que hoje dou em versão portuguesa tem como ponto de partida a versão em inglês de um hino de Rig Veda, colecção de hinos em sânscrito com datação aproximada entre (1500-1200 a. C.), e  base de religiões hindu.

Isolado da crença específica, nele podemos encontrar um desejo de harmonia no mundo envolvente, que a repetição do conceito de doçura acentua:

…

Doce seja a noite,

doce o amanhecer,

doce seja a fragrância da terra,

doce Pai do Céu!

…

 

Na incapacidade dos homens por si só construírem um universo harmonioso, a invocação do além é a saída para a manifestação desse desejo de que o mundo em redor seja repleto de bênçãos.

 

 

Poema 

 

Possa o vento soprar doçura,

os rios fluírem doçura,

das ervas crescer doçura,

para o Homem da Verdade!

 

Doce seja a noite,

doce o amanhecer,

doce seja a fragrância da terra,

doce Pai do Céu!

 

 Possa a árvore dar-nos doçura,

 o sol brilhar com doçura,

 nossas vacas produzirem doçura —

 leite em abundância!

 

Versão de Carlos Mendonça Lopes a partir do inglês.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Arpad Szenes (1897-1985), Aldeia do Algarve, de 1975.

Tudo o que de bom as memórias da infância me trazem está associado a estas terras do Algarve, para onde os olhos se viram sempre, na busca desse desejado mundo harmonioso.

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O Espírito do Natal por João Luís Barreto Guimarães

20 Sexta-feira Dez 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portiguesa do séc. XXI

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João Luís Barreto Guimarães, Mariotto Albertinelli

Por mais que nos interroguemos sobre o sentido da euforia consumista pelo Natal nas sociedades cristãs, participar dela é inescapável sob pena de nos sentirmos irremediavelmente à margem. 

Desde a entrada em força no mercado da produção chinesa barata e abundante, à aproximação do Natal, os enfeites, os mais diversos ou delirantes surgem por todo o lado, numa atmosfera de artifício que marca de forma indelével a época. Entre eles, o pinheiro de natal é rei incontestado dos especimens, desde os mínimos de alguns centímetros aos enormes que as casas podem conter, e aos gigantes que decoram ruas e praças nas urbes. 

Num poema, O Espírito do Natal, que a seguir transcrevo, João Luís Barreto Guimarães (1967) dá, de certa forma, conta destes aspectos, embora sem a explicitarão que deixei antes. O poema debruça-se sobre o negócio e o apagamento progressivo de memórias de um tempo diferente, e, o mais grave, digo eu, o dano ambiental, não do abate descontrolado de pinheiros, mas do universo de plástico que tudo isto trás. O todo com concisão e o tom nonchalant que marca a sua poesia ao tratar da trivialidade dos dias.

 

 

O Espírito do Natal

 

Ano após ano em dezembro a

árvore artificial 

deixa o encerro da cave para ser 

uma luz no frio. É um pinheiro da China. Quem 

se deitar a fazer contas ao ágio 

dessoutro negócio 

(vinte e quatro mil escudos: 

já lá vão nove invernos) a 

coisa

está mais ou menos por 

dois contos e tal 

o Natal. Mau grado à sua copa 

(inerte e inodora) falte o 

olor a caruma dos natais da minha infância 

nela escudo a floresta que ficou por abater 

todo um mundo aloplástico que me 

sobreviverá.

 

Publicado em Luz Última, 2006, 2.ªed 2011.

Transcrito de João Luís Barreto Guimarães, poesia reunida, Quetzal Editores, Lisboa, 2011.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Mariotto Albertinelli (1574-1515), Nascimento de Cristo, de 1503, pertença da Galleria degli Uffizi de Florença.

A ilustração do artigo busca realçar o contraste entre a devoção e parcimónia original na comemoração do Natal, e a feérie consumista subjacente ao poema e às considerações prévias.

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Carlos Drummond de Andrade — A vida apenas, sem mistificação

09 Segunda-feira Dez 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Brasileira sec. XX

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Carlos Drummond de Andrade, Joel Meyerowitz

No céu também há uma hora melancólica

Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas

Por que fiz o mundo? Deus se pergunta 

e se responde: Não sei.

…

 

Assim abre o poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Tristeza no Céu, relato silencioso do desabar do mundo em redor:

…

Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor, 

caem, são plumas.

 

Outra pluma, o céu se desfaz.

Tão manso, nenhum fragor denuncia

o momento entre tudo e nada,

ou seja, a tristeza de Deus.

 

 

É este descalabro em volta contado com a mansidão de tanta poesia de Carlos Drummond de Andrade que, num seu poema anterior,  Os ombros suportam o mundo, também nos surge. Nele, é melancolia escondida sob aparentes e ásperas certezas o que o poeta relata: … / És todo certeza, já não sabes sofrer. / E nada esperas de teus amigos. / …

Foram-se sonhos, esperanças … / Porque o amor resultou inútil. / E os olhos não choram. / E as mãos tecem apenas o rude trabalho. / E o coração está seco. / … e ficou um cerrar de dentes e seguir em frente, ou seja:

…

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.

 

Esta vontade expressa de domar sentimentos e crenças, se por vezes somos tentados a ela, não é sem consequências, e tarde ou cedo elas, devastadoras, chegam…

Este verso, A vida apenas, sem mistificação., com que o poema Os ombros suportam o mundo termina, é uma falácia, pois A vida apenas, é tudo, incluindo a mistificação de que o poeta fala: a amizade, o amor. Ele, o poema, é o relato de um homem que sente o peso enorme da solidão involuntária: … / Ficaste sozinho, a luz apagou-se, / …

 

 

Eis os poemas integralmente:

 

 

Os ombros suportam o mundo

 

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais: meu amor.

Porque o amor resultou inútil.

E os olhos não choram.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

E o coração está seco.

 

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

Ficaste sozinho, a luz apagou-se,

mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

És todo certeza, já não sabes sofrer.

E nada esperas de teus amigos.

 

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios

provam apenas que a vida prossegue

e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo

prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.

 

in Sentimento do Mundo (1935-1940)

 

 

Tristeza no Céu

 

No céu também há uma hora melancólica

Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas

Por que fiz o mundo? Deus se pergunta 

e se responde: Não sei.

 

Os anjos olham-no com reprovação 

e plumas caem.

 

Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor, 

caem, são plumas.

 

Outra pluma, o céu se desfaz.

Tão manso, nenhum fragor denuncia

o momento entre tudo e nada,

ou seja, a tristeza de Deus.

 

in José (1941-1942)

 

Poemas transcritos de Obra Completa, Companhia José Aguilar editora, Rio de Janeiro, 1967.

Abre o artigo a imagem de uma fotografia de Joel Meyerowitz (1938), Young Dancer, 34th Street and 9th Ave, de 1978.

 

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A observação da vida num poema de Alberto de Serpa

04 Quarta-feira Dez 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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Alberto de Serpa, Jean Tinguely

As experiências sensoriais são parte essencial da aprendizagem de si e do mundo. Ver é uma delas. Olhar e ver os outros é também um processo de aprendizagem como Alberto de Serpa (1906-1992) no poema Riqueza capta:

…

Corre, olhar, em roda!

O que te intimida?

A vida? Só toda 

Pode amar-se, a vida.

 

Amar a vida na sua diversidade e variabilidade no tempo é uma aprendizagem sempre inacabada. que o acumular dos anos vividos torna eloquente. É essa riqueza de contínua aprendizagem que o poema traz à nossa atenção.

 

Riqueza

 

Por parques e praças,

Ruas e travessas 

Tu, meu olhar, caças 

A vida. E tropeças.

 

Uma gargalhada 

Vem dum par contente.

Guarda-a bem guardada,

Mas caminha em frente.

 

Surgem-te sorrisos 

Dum lado e de outro lado,

Não faças juízos 

Rápidos. Cuidado!

 

Uma face grave 

Nada de revela?

Talvez a dor cave 

Só mais tarde, nela.

 

Num choro, num grito,

Pressentes a dor?

E quedas, aflito.

Segue, por favor.

 

Segue, bem aberto 

Para cada canto!

Olha o desconcerto 

Que parece tanto!

 

Corre, olhar, em roda!

O que te intimida?

A vida? Só toda 

Pode amar-se, a vida.

 

Poema transcrito de Luís Forjaz Trigueiros, Novas Perspectivas (Temas de Literatura 1962-68), União Gráfica, 1969.

O poema inclui-se na escolha “Para uma antologia do segundo modernismo”.

 

Abre o artigo a imagem de uma das máquinas concebidas por Jean Tinguely (1925-1991). A escultura, Sem título, de 1960, pertence ao Sprengel Museum de Hannover.

Na sua complicação e absurdo, é bem o retrato de como a vida às vezes nos parece. Observá-la ajuda a perceber e destrinçar melhor o essencial do acessório ou inútil.

 

 

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