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vicio da poesia

Monthly Archives: Dezembro 2015

Amor e um poema medieval na despedida de 2015

30 Quarta-feira Dez 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Jacopo da Lentini, Matisse

Matisse - Standing Nude with Raised Arms 1947 500pxAmor! Sentimento de todas as idades e de todas as épocas, motivo maior e perene na poesia, é certamente adequado para a leitura final deste ano de graça de 2015, na esperança que 2016 traga em si, em avalanche, amor suficiente para saciar a humanidade sedenta dele, e se houver rateio, que os leitores do blog sejam satisfeitos em primeiro lugar.

 

Feliz 2016 a todos!

 

O poema de encerramento do ano, um soneto de amor, chega-nos da Sicília, da primeira metade do século XIII, escrito por Jacopo (ou Giacomo) da Lentini (c.1210 – c.1260), considerado o inventor do soneto.

Desde então, ainda que com lento desenvolvimento até ao esplendor renascentista, o soneto não deixou de ser a forma de excelência para exprimir as dores e alegrias das paixões humanas, com um pico absoluto nos sonetos de Camões.

Falando do fogo do amor que abrasa, da alegria, do prazer, e da dor, este soneto inicial tem lá tudo o que posteriormente foi apenas glosado, por vezes de forma sublime.

 

 

Soneto XXXIV

 

Quem nunca tivesse visto o fogo

Não acreditava que pudesse queimar.

Ao descobrir o seu fulgor

Acharia que era coisa de folgar.

 

Mas se lá pusesse a mão,

Saberia quanto o fogo queima!

Eu toquei no fogo de amor,

Fogo que abrasa: Ah, se esta fogueira,

 

Ardesse em vós, minha Senhora,

Vós que pareceis dar prazer,

Vós que não dais senão dor!

 

Por certo o amor faz vilania

Não te unindo, tu que escarneces,

A mim, teu escravo sem alegria.

 

Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo

in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim, 2001.

 

Original do poema

 

Soneto XXXIV

 

[C]hi non avesse mai veduto foco

no crederia che cocere potesse,

anti li sembraria solazzo e gioco

lo so isprendor[e], quando lo vedesse.

 

Ma s’ello lo tocasse in alcun loco,

be·lli se[m]brara che forte cocesse:

quello d’Amore m’à tocato un poco,

molto me coce – Deo, che s’aprendesse!

 

Che s’aprendesse in voi, [ma]donna mia,

che mi mostrate dar solazzo amando,

e voi mi date pur pen’e tormento.

 

Certo l’Amor[e] fa gran vilania,

che no distringe te che vai gabando,

a me che servo non dà isbaldimento.

 

Edição de Roberto Antonelli, Roma, 1979

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De dragões e outros figurões a O Mostrengo de Fernando Pessoa

28 Segunda-feira Dez 2015

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Camões, Fernando Pessoa

Raphael - S Jorge e o Dragão 600pxPor este tempo de Natal, ao querer comprar uma prenda para uma criança da família, disseram-me da paixão do miúdo por dinossauros e outros monstros. Lembrei-me de quando o meu filho pelos sete/oito anos vivia apaixonado pelos monstros da moda, à época, umas chamadas tartarugas Ninja, e, depois, dinossauros, seguidos de toda uma galeria que lhes sucedeu, e certamente se reproduzirá ad seculum seculorum.

A um adulto como eu, o que chama primeiro a atenção é a estética do feio apanágio das figuras, o que parece deixar os infantes indiferentes. Com efeito, pensando na coisa sem preparação de especialista, concluo que para os miúdos aqueles seres corporizam o assustador do mundo por conhecer e, simultaneamente, nas suas acções, permitem à criança que joga e brinca, viver intensamente actos de coragem e bravura que significam a aprendizagem de vencer o medo e enfrentar o desconhecido que crescer na verdade é.

É ainda com a memória dessa época que recordo o entusiasmo com que o meu filho ouviu ler o poema O Mostrengo de Fernando Pessoa incluído no livro Mensagem. Nele, é também uma figura monstruosa e aparentemente invencível que, enfrentada pela pequenez de um capitão de coragem, é derrotada. Afinal a repetição da história bíblica de David e Golias.

A descrição poética do episódio do Adamastor em Os Lusíadas de Luís de Camões, para onde o poema O Mostrengo remete, é, do ponto de vista da infância, e para lá da dificuldade vocabular, totalmente diferente, ao que julgo. Em Camões, é tão só um relato de terror perante o monstro o que temos, reduzindo, por isso o apelo do episódio do Adamastor para estes jovens aprendizes da vida, pois, ao que suponho, é no desenlace por coragem que a atracção infantil por estes monstros reside.

Deixo-o, leitor, com os poemas.

 

O Mostrengo

 

O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo?»

E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»

 

«De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?»

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso.

«Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:

«El-Rei D. João Segundo!»

 

Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

«Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!»

 

Fernando Pessoa, in Mensagem

 

Camões, Os Lusíadas, Canto V

 

Estrofes 37- 40

 

 

37

«Porém já cinco Sóis eram passados

Que dali nos partíramos, cortando

Os mares nunca de outrem navegados,

Prosperamente os ventos assoprando,

Quando hüa noute, estando descuidados

Na cortadora proa vigiando,

Hüa nuvem, que os ares escurece,

Sobre nossas cabeças aparece.

 

38

«Tão temerosa vinha e carregada,

Que pôs nos corações um grande medo;

Bramindo, o negro mar de longe brada,

Como se desse em vão nalgum rochedo.

“Ó Potestade (disse) sublimada:

Que ameaço divino ou que segredo

Este clima e este mar nos apresenta,

Que mor cousa parece que tormenta?”

 

39

«Não acabava, quando hüa figura

Se nos mostra no ar, robusta e válida,

De disforme e grandíssima estatura;

O rosto carregado, a barba esquálida,

Os olhos encovados, e a postura

Medonha e má, e a cor terrena e pálida;

Cheios de terra e crespos os cabelos,

A boca negra, os dentes amarelos.

 

40

«Tão grande era de membros, que bem posso

Certificar-te que este era o segundo

De Rodes estranhíssimo Colosso,

Que um dos sete milagres foi do mundo.

Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,

Que pareceu sair do mar profundo.

Arrepiam-se as carnes e o cabelo,

A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!

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Ainda em tempo de Natal, um poema de Ruy Cinatti

27 Domingo Dez 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Ruy Cinatti

Memling - As 7 alegrias da Virgem BVou ao encontro da transcendência do tempo de Natal, tempo em que simbolicamente podemos voltar a nascer, com um poema de Ruy Cinatti (1915-1986) onde, de par com a alegria, se convoca o que de harmonia pode ter o mundo: o amor, Deus e a sua presença benfazeja, a música e a dança, e a inocência de ser outra vez criança; tudo numa forma poética superior que procura devolver a esperança no viver.

 

Poema

 

Alegria —

Ó minha vida! —

Permaneçe,

Sê ainda amor.

 

Lá no alto

Onde prossegues,

Guia-me…

Sê ainda a chuva benfazeja

Que refresca

A desolada aridez do meu caminho.

 

Estrela

Ou música descendo!

Se eu te fugir

Harpeja só de leve a noite escura

Que eu regressarei,

Contente e mudo

Como se nunca me tivessem exilado.

 

Criança!

Eis-me de novo

Dançando

Uma canção que alguém me está cantando

E eu já esqueci…

— Divina se ia erguendo a prece alada.

 

Alegria —

Ó minha vida! —

Mais profunda do que a julga a agonia

Do homem que padece,

Não sejas a morte,

Sê ainda amor!

 

Ruy Cinatti (1915-), in Nós não Somos Deste Mundo, 2ªed. 1960.

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Dois poemas breves em tempo de Natal

26 Sábado Dez 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Amândio César, Raul de Carvalho

Fra Filippo LIPPI - Natividade fresco da Catedral de Spoleto 1467-69 BO melhor que posso desejar aos outros resume-se a que cada um possa sentir e exclamar para si “Ich habe genug!” [Eu tenho o bastante!].

E este “bastante”, como é diferente para cada um de nós! Afinal, é a sua procura que nos faz viver. Se para uns, movidos por um insaciável desejo, não há “bastante” como escreve  Amândio César (1921-1987) no poema Tudo abaixo transcrito:

— Oh felicidade que baste, / Que nunca bastas de mais!

para outros, poderá ser tão só a concretização da espera que o poema de Raul de Carvalho (1920-1984) descreve, e mais à frente transcrevo:

Meu coração tumultuoso aguarda / A paz da tua vinda.

Estendendo a conversa da poesia à música, refiro que Ich habe genug é também um verso da Cantata BWV 82 de J. S. Bach (1685-1750) do mesmo nome, para voz baixo solista, oboé d’amore, cordas, e baixo continuo, e é de todas as mais de 200 cantatas que J. S. Bach escreveu, a minha preferida, sobretudo na interpretação de Max van Egmond, com uma orquestra barroca dirigida por Franz Bruggen, e pode ser ouvida no YouTube.

 

Tudo

 

E em surdina chegaste

E em surdina te vais:

 

— Oh felicidade que baste,

Que nunca bastas de mais!

 

E eu queria que ficasses,

De tal maneira ficada,

Que nunca mais me trocasses

 

— Por nada!

 

Amândio César, in Saudade de Pedra, 1949.

 
Poema

Perto de mim

E a cada instante

Nasces.

 

Meu coração tumultuoso aguarda

A paz da tua vinda.

 

Adivinho-te perto

Ou cada vez

Mais longe?

 

Pergunto a Deus o que é que nos separa.

 

A luz confere

À forma do teu rosto

 

A extrema e fina formosura

De espiga quebrada.

 

Nas mãos de Deus deponho

Força e fraqueza, erro e temor, morte e orgulho.

 

Raul de Carvalho, in Realidade Branca, 1968.

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Vozes dos Animais – poema de Pedro Diniz

20 Domingo Dez 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

≈ 14 comentários

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Jan Brueghel o Velho, Pedro Diniz

Jan Brueghel o Velho (1568-1625) - Os animais entrando na arca de Noé 600pxBe a child in Christmas time [Sê criança em tempo de Natal], convida uma popular canção, daí esta poesia adequada à infância de todos os tempos. Podem assim os leitores lê-la a filhos, netos, afilhados ou outros infantes, fazendo com que um dia sejam também leitores de poesia.

O poema foi  escrito por Pedro Diniz (1839?-1896) e recolhido por Antero de Quental no Tesouro Poético da Infância.

Vozes dos Animais

 

Palram pega e papagaio

E cacareja a galinha;

Os ternos pombos arrulham;

Geme a rola inocentinha.

 

Muge a vaca; berra o touro;

Grasna a rã; ruge o leão;

O gato mia; uiva o lobo,

Também uiva e ladra o cão.

 

Relincha o nobre cavalo;

Os elefantes dão urros;

A tímida ovelha bala;

Zurrar é próprio dos burros.

 

Regouga a sagaz raposa

(Bichinho muito matreiro);

Nos ramos cantam as aves;

Mas pia o mocho agoureiro.

 

Sabem as aves ligeiras

O canto seu variar;

Fazem às vezes gorjeios,

Às vezes põem-se a chilrar.

 

O pardal, daninho aos campos,

Não aprendeu a cantar;

Como os ratos e as doninhas,

Apenas sabe chiar.

 

O negro corvo crocita;

Zune o mosquito enfadonho;

A serpente no deserto

Solta assobio medonho.

 

Chia a lebre; grasna o pato;

Ouvem-se os porcos grunhir;

Libando o suco das flores,

Costuma a abelha zumbir.

 

Bramam os tigres, as onças;

Pia, pia o pintainho;

Cucurica e canta o galo;

Late e gane o cachorrinho.

 

A vitelinha dá berros;

O cordeirinho, balidos;

O macaquinho dá guinchos;

A criancinha, vagidos.

 

A fala foi dada ao homem,

Rei dos outros animais.

Nos versos lidos acima,

Se encontram, em pobre rima,

As vozes dos principais.

 

Modernizei a ortografia.

Nota bio-bibliográfica

Não surge na net qualquer referência biográfica esclarecedora sobre o autor, aparte duas traduções de obras de Júlio Verne, daí esta pequena nota.  

Pegando no testemunho de Camilo Castelo Branco em Noites de Insónia, trata-se do mesmo Pedro (Guilherme dos Santos) Diniz que, com o pseudónimo de Amaro Mendes Gaveta, publicou em 1854 uma paródia ao livro de Almeida Garrett, Folhas Caídas, intitulado As Folhas Caídas Apanhadas a Dente e Publicadas em Nome da Moralidade.

Este Pedro Diniz (1829?-1896), génio precoce (alistado na marinha aos 11 anos, em 1850*?), foi colaborador do Palito Métrico ao que escreve, e publicou em 1855 um Livro de Ouro para Uso das Escolas de Educação, do qual não encontrei rasto. É neste livro que o poema transcrito, Vozes dos Animais, se inclui, conforme refere Camilo Castelo Branco na nota biográfica ao poeta no seu Cancioneiro Alegre.

Sobre outros aspectos da biografia do autor pode consultar-se a respectiva entrada (Pedro Dinis) na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

*informa Alexandre Cabral no seu Dicionário de Camilo Castelo Branco, 2ªedição, Caminho, Lisboa 1988.

Verificada a diversidade da obra produzida pelo autor na década de 50, tratar-se-ia de uma precocidade inaudita, a ser verdade tudo isto, daí que deva existir qualquer gralha em datas algures, parecendo mais provável o nascimento do homem em 1829, e não 1839 como decorre do documento citado por Alexandre Cabral.

Nota iconográfica

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Jan Brueghel o Velho (1568-1625) – Os animais entrando na arca de Noé.

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O terrorista… olha — poema de Wislawa Szymborska

13 Domingo Dez 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Robert Rauschenberg, Wislawa Szymborska

Robert Rauschenberg - sem título 1963Através da aparente banalidade formal dos seus versos, servidos com uma ironia de incomparável elegância, Wislawa Szymborska (1923-2012) leva-nos à profundidade moral por detrás do nosso quotidiano, reflectindo, e nós com ela, sobre comportamentos e valores nas sociedades modernas. E isto desde os poemas iniciais aos últimos publicados, como por exemplo “Confissões de uma máquina de leitura” publicado em 2011, de que apenas conheço a versão inglesa: “Confessions of a Reading Machine“. Aqui, a máquina de traduzir expende a sua perplexidade sobre o significado de palavras como sentimentos, alma, e ser, propondo por exemplo, como significado para alma, uma espécie de nevoeiro supostamente mais duradouro que o corpo humano.

Todos nós, utilizadores da internet, já nos surpreendemos com a criatividade das traduções automáticas, daí a especial acuidade desta reflexão. Mas também é verdade que este esforço tecnológico, ainda nos primeiros passos, será, na sua evolução, uma prodigiosa ferramenta no entendimento humano.

 

Confessions of a Reading Machine

 

I, Number Three Plus Four Divided By Seven,

am renowned for my vast linguistic knowledge.

I now recognize thousands of languages

employed by extinct people

in their histories.

 

Everything that they recorded with their signs,

even when crushed beneath layers of disasters,

I extract, reconstruct

in its original form.

 

Not to boast,

but I even read lava

and scan ashes.

 

I explain on a screen

each object mentioned,

when it was produced,

and what from, and what for.

 

And solely on my own initiative,

I peruse the occasional letter

and correct its

spelling errors.

 

I admit—certain words

do cause me difficulty.

For example I still cannot explain precisely

the states called “feelings.”

 

Likewise “soul,” a peculiar expression.

I’ve determined for now that it is a kind of fog

purportedly more lasting than mortal organisms.

 

But the word “am” gives me the most trouble.

It appears to be an ordinary function,

conducted daily, but not collectively,

in the present prehistoric tense,

specifically, in the continuous,

although as we know discontinued long ago.

 

But will this do for a definition?

I feel rumbling in my linkages and grinding of my screws.

My button to Head Office smokes but won’t light up.

 

Perhaps my pal Two Fifths Of Zero Fractured By Half

might provide some brotherly assistance.

True, he’s a known lunatic,

but he’s got ideas.

 

Tradução de Clare Cavanagh.

in Wislawa Szymborska, MAP, Collected and Last Poems, ed. Houghton Mifflin Harcourt, New York, 2015.

 

Se no poema anterior a tecnologia revela uma preocupação de entender os homens e de os aproximar, vencendo a maldição de Babel que a humanidade carrega, no poema seguinte, O terrorista… olha, a tecnologia está ao serviço da morte, qualquer que seja a roupagem com que se disfarce. E bem avisada anda a poeta, ao retirar do relato qualquer sentimentalidade, dando apenas conta da frieza inerente ao acto de matar com prazo. Acrescenta-se a eloquência com que a arbitrariedade do acaso pode ditar o que por segundos separará viver de morrer.

Ao ler o poema, como saltam vivas, as imagens do que pode ter sucedido nos cafés de Paris em Novembro de 2015!

Robert Rauschenberg - Falcão 1963

O terrorista… olha

 

A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.

São neste momento treze e dezasseis.

Alguns conseguem ainda entrar,

alguns sair.

 

O terrorista passou já para o outro lado da rua.

A que distância ficará livre de perigo

e, quanto à vista, é como no cinema:

 

Uma mulher de casaco amarelo… entra.

Um homem de óculos… sai.

Rapazes de jeans… conversam.

Treze horas, dezassete minutos e quatro segundos.

Aquele baixinho tem sorte e senta-se na vespa,

mais um tipo alto que entra.

 

Treze horas, dezassete minutos e quarenta segundos.

Passa uma moça de fita verde nos cabelos.

Só que o autocarro oculta-a.

 

Treze e dezoito.

A rapariga desapareceu.

Se foi bastante estúpida para entrar ou não,

isso se saberá pelas notícias.

 

Treze e dezanove.

Parece que ninguém entra.

Há porém um careca gordo que sai.

Mas olha, parece que procura algo nos bolsos,

faltam treze segundos para as as treze e vinte,

e ele volta a entrar em busca das luvas que perdeu.

 

São treze e vinte.

Como o tempo voa.

Deve ser agora.

Ainda não.

Sim, é agora.

A bomba… explode

 

Tradução de Júlio Sousa Gomes

 

in Wislawa Szymborska, Paisagem com Grão de Areia, Relógio d’Agua Editores, Lisboa 1998.

Robert Rauschenberg - Propriedade 1963

Acompanham o artigo imagens de pinturas de Robert Rauschenberg (1925-2008).

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Televisão e mais poemas de John Updike

12 Sábado Dez 2015

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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John Updike, Lucien Freud

ib-and-her-husband-1992Num último livro com poemas, John Updike (1932-2009) vai-nos dando conta do mundo em redor, sem retórica ou moralidades escusadas. Apenas o olhar de quem por uma vida observou o mundo e sobre ele escreveu com mediania, riscada às vezes por traços geniais, o que afinal devolve os homens à sua verdadeira dimensão.

Com benevolência e alguma desilusão fui lendo parte do que John Updike escreveu desde um juvenil encontro com Rabitt Run, Corre Coelho, numa fascinante tradução de Fiama Hasse Pais Brandão, nos idos anos 60 (edição Europa-America). Hoje encontro um escorreito livro de poemas, o último escrito, numa competente tradução da poetisa Ana Luisa Amaral, e do qual transcrevo alguns poemas.

São poemas sobre um sentir que nos é próximo, como próximas são as realidades de que falam. Da medicina à arte, passando pela televisão, se compõe a escolha que transcrevo. São assuntos de difícil tratamento poetico: transmitir a ambivalência de sentimentos que nos provocam ao incomodar-nos o seu convívio ou necessidade; e o poeta vai para lá do relato-pretexto, dando-nos poemas com uma dimensão que nos toca intimamente.

naked-man-back-viewColonoscopia

 

E falam eles de intimidade! Preferia que o não fizessem.

No dia anterior, uma luta com a náusea

(BEBE-ME: um litro de líquido doce e enjoativo)

e a diarreia, para nos apresentarmos imaculados

como noiva ao noivo e aos seus instrumentos,

à sua inspecção, uma minúscula câmara de TV,

as palavras delicodoces. Está bronzeado, ele,

voltou de umas férias merecidas

das já familiares partes baixas.

 

Em traje apropriado, reclinados,

vemos, rolando os olhos, o ecrã por onde

o intestino longo, sedado, serpenteia,

os segmentos marcados por pontos de construção

anelar, limpos, como em túnel pré-fabricado

lançado pelo genro do governador.

Um súbito jorro de líquido cintilante brilha

na luz introduzida, e curvas como ganchos de cabelo

surgem mais à frente, para logo fugirem,

impalpáveis; flutuamos, caímos, rodopiamos

nesses corredores suaves e dóceis, explorados

por tudo o que comemos.

Depois, tudo escurece,

tal como Deus o queria, quando selou no abdômen

de Adão o milagre da vida, viscoso, retorcido, de mau

cheiro. A voz do noivo, abaixo do nível de visão,

como tesouro enterrado, anuncia:

“Perfeito. Nem um pólipo. Vemo-nos daqui a

cinco anos.” Cinco anos? Já a feira pode ter sido levantada.

benefits-supervisor-sleeping-also-known-as-big-sue

Lucien Freud

 

(Uma exposição em Veneza, Setembro de 2005)

 

Sim, o corpo é uma coisa hedionda, sobretudo

os pés e os genitais, e não menos a face humana.

Veias azuis desenham serpentes nas costas

das mãos e desfiguram a solidez de mármore

brilhante que têm as coxas. Vale a pena

ver esse peso coalhado depois de séculos

(de Pigmalião a Canova) do nu como a forma

exterior do espírito, uma chama branca: a Psyche.

 

De que forma maravilhosa a elegante Diana

de Saint-Gaudens se equilibra num só pé, no ar,

distante como a lua, e para sempre! Mas não,

a carne arrasta-nos para baixo, a sua terra salpicada,

terreno ávido para o pintor, terra inocentemente feia,

adormecida, pobre nudez, anjo afundado, saco de fleuma.

grand-interior-notting-hill

Televisão

 

Ligo-a como se fosse uma torneira,

nem frio nem quente, só tépido infotenimento,

e dela jorram as provas cintilantes

de conflitos, misérias, concupiscência,

desatrelados pouco a pouco, em remissões

de publicidade ansiosa que antecipa

para nosso bem a melhor vida dependente

de uma compra, de alguma aquisição indispensável.

 

Um carro lustroso dá curvas na chuva murmurante,

uma praia de alvura óssea acolhe peles bronzeadas,

um toalhete acalma as rugas de uma bela enrugada,

um unguento consola a dor sedentária,

dentes falsos resplandecem, a cerveja provoca alegria,

e cabelos pintados arremessam a cor pelo ecrã:

erupções de luz bebidas pelo meu cérebro,

que depressa se cansa, até ficar sequioso outra vez.

 

in John Updike, Ponto Último e outros poemas, tradução de Ana Luisa Amaral, Civilização Editora, Porto, 2009.

Acompanham o artigo imagens de pinturas de Lucien Freud (1922-2011).

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O desfazer dos sonhos e a dança de Mofina Mendes

08 Terça-feira Dez 2015

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Gil Vicente

Henri GISSEY - Luis XIV com Apolo no Ballet de la nuit 1653 480pxChegado a uma idade em que os sonhos se realizaram ou estão desfeitos, salvo seja, dei comigo, no sossego da sauna, a pensar que se voltasse por qualquer processo a viver de novo desde a juventude, o que mais me custaria seria a perda dos sonhos pelo caminho. Provavelmente efeitos do calor excessivo.

Escreveu Antonio Gedeão no poema Pedra Filosofal: Eles não sabem que o sonho / é uma constante da vida / tão concreta é definida / como outra coisa qualquer / … Eles não sabem, nem sonham / que o sonho comanda a vida., e na verdade assim é. Com a expectativa da realização do(s) sonho(s) corre a vida, mesmo quando em cacos alguns ficam pelo caminho, como bem nos faz recordar Mofina Mendes na canção do auto do mesmo nome, escrito por Gil Vicente (c. 1465-1536) em 1534.

A canção é um pouco mais pessimista quando na coda final generaliza, concluindo pelo efémero de qualquer prazer ou bem-estar humano:

 

…

Pastores não me deis guerra;

Que todo o humano deleite,

Como o meu pote d’azeite

Há-de dar consigo em terra

 

 

Eis a história:

Mofina Mendes, guardadora de gado desleixada, depois de ter perdido o gado que guardava, é despedida. Como paga do trabalho recebe um pote de azeite. Com ele à cabeça dança e canta como segue:

 

Vou-me à feira de Trancoso

Logo, nome de Jesu,

E farei dinheiro grosso.

 

Do que este azeite render

Comprarei ovos de pata

Que é a coisa mais barata

Qu’eu de lá posso trazer.

E estes ovos chocarão;

Cada ovo dará um pato,

E cada pato um tostão.

Que passará de um milhão

E meio, a vender barato.

 

Casarei rica e honrada

Por estes ovos de pata.

E o dia em que for casada

Sairei ataviada

Com um brial d’escarlata,

E diante o desposado,

Que me estará namorando:

Virei de dentro bailando

Assim dest’arte bailado

Esta cantiga cantando.

 

Estas coisas diz Mofina Mendes com o pote de azeite à cabeça e andando enlevada no baile, cai-lhe o pote

 

…

 

Vai-se Mofina Mendes, cantando:

 

Por mais que a dita* m’engeite,

Pastores não me deis guerra;

Que todo o humano deleite,

Como o meu pote d’azeite

Há-de dar consigo em terra.

 

* dita — sorte, fado, destino

Modernizei ligeiramente a ortografia da edição de 1572.

Desconheço a fonte de inspiração directa de Gil Vicente para este episódio tomando o certo pelo incerto, mas o mesmo tem origens remotas e foi glosado diversas vezes, nomeadamente, e já depois de Gil Vicente, na fábula de La Fontaine sobre a Leiteira e o pote de leite.

Tanto quanto consegui apurar, a fonte mais antiga com esta ideia será um dos contos de Panchatantra, antiquíssima compilação indiana de apólogos, e mais precisamente o conto 9 do livro 5, cuja história é a seguinte:

Um brâmane pobre vai juntando a farinha que lhe sobra das esmolas num pote de barro pendurado da parede por cima da cama. Quando o pote está cheio começa a sonhar com o que fará depois de vender a farinha. Embarca-lhe a fantasia numa sucessão de bons negócios até ficar rico e casar. A certa altura do devaneio, gesticula, e com a perna dá um pontapé no pote. Este cai, parte-se, e toda a farinha se espalha, perdendo-se no ar, desfazendo assim os sonhos de uma vida melhor.

Aqui fica, pois, a lição sobre a cautela aconselhável aos devaneios, cautela tanto maior quanto a fronteira entre sonho e realidade se dilua no calor excessivo, o que se pode revelar de péssimo conselho.

Nota iconográfica

Abre o artigo um desenho aguarelado mostrando o rei de França Luis XIV (1638-1715) como Apolo, no bailado Balett de la nuit, onde participou ainda jovem (15 anos) em 1653. Encorajado desde muito jovem pelo Cardeal Mazarino a praticar a dança, terá visto o sonho de bailarino desfeito, levado pela obrigação de reinar. Voltas que a vida tece…

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Manuel de Castro – Carta e Último Poema Possivelmente de Amor

06 Domingo Dez 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Jorge de Sena, Manuel de Castro

O Aniversário 1915Se para o mundo, acreditando na sua eternidade, podemos dizer: não há morte nem princípio, para o amor, efémero como o homem, há começar e acabar. O seu fim tanto é matéria de dor, como alívio ou desencanto. Esta simbiose emocional encontra na poesia vasto eco, reflectindo vivências particulares a que a pungência expressiva acrescenta por vezes dimensão avassaladora, qual seja o exemplo dos dois poemas de Manuel de Castro (1934-1971) na sua trabalhada contenção verbal, e que a seguir transcrevo.

Poeta de curta vida, dele poucos leitores saberão. Ao ler-lhe a poesia poder-se-á dizer que o poeta “…não falava / senão de alguma esperança e de poesia.” como escreveu Jorge de Sena num poema em que se lhe refere*:

…

Nem nada sei das voltas que lhe deu a vida.

Suponho que morreu de doença,de desordem,

miséria talvez, raivosa fúria dia a dia traída

…

O poema, também violento libelo contra os “poetas oficiais” do tempo, e de um certo estado das letras no Portugal de então, termina referindo-se de novo ao poeta evocado:

…

E quem não esteja lá, se limpo de assassino,

só pode recordar os olhos do poeta,

a boca retorcida de amargura à espreita,e os gestos sacudidos com que não falava

senão de alguma esperança e de poesia.

 

Eis os poemas:

 

Carta

 

esqueço-te com a terna complacência do silêncio

habitual das horas no seu movimento

e no entanto restou um perfume quase imperceptível

do olhar por uma vez aceite

em mim, um olhar que julguei

fosse o meu amor, a ilusão

de um gesto que olhamos como

se nos pertencesse e no entanto

nos é alheio.

Eu havia contribuído integralmente.

A terra foi por um instante pura

através do teu corpo elástico e pausado.

 

Último Poema Possivelmente de Amor

 

recorda

como se os dias não fluíssem em dias

e para ti fosse um nítido jogo de músculos

meu braço no teu corpo    anfiteatro

da mais pura derrota rumo às constelações

 

eis-me descoberta

de tudo que se arrisca sem limites

construído pela coloração de globos de vidro

iluminados e submersos

 

para o teu nome

um novo mecanismo de linguagem

para o teu corpo

memória      ciclo perfeito

dos meus desejos de pedra e de violência

 

tu

única para quem fui      adeus      o homem sem comédia

 

in Manuel de Castro, Bonsoir, Madame, Alexandria/Língua Morta, Lisboa, 2013.

* poema de Jorge de Sena datado de 17/6/1972, Lendo uma referência à morte de Manuel de Castro, no “Diário” de Palma-Ferreira, e publicado pela primeira vez em 1974 no livro Conheço o Sal… E Outros Poemas.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Marc Chagall.

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