• Autor
  • O Blog

vicio da poesia

Monthly Archives: Julho 2013

Conta-mo outra vez – poema de Amalia Bautista

31 Quarta-feira Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Amalia Bautista

Picabia_Francis-Tetes-paysageNum casal que se ama os filhos nascem, os filhos crescem, os filhos vão à vida deles, e se o amor permanece, o mais belo sonho é o de envelhecer juntos. É do que nos fala, enquanto desejo, o poema de Amalia Bautista  (1962) que hoje transcrevo:

Conta-mo outra vez

Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me outra vez que o casal
do conto foi feliz até à morte,
que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer
lhe ocorreu enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuavam beijando-se cada noite.
Conta-mo mil vezes, por favor:
é a história mais bela que conheço.

Cuéntamelo otra vez

Cuéntamelo otra vez, es tan hermoso
que no me canso nunca de escucharlo.
Repíteme otra vez que la pareja
del cuento fue feliz hasta lá muerte,
que ella no le fue infiel, que a él ni siquiera
se le ocurrió engañarla. Y no te olvides
de que, a pesar del tiempo y los problemas,
se seguían besando cada noche.
Cuéntamelo mil vezes, por favor:
es la historia más bella que conozco.

A poesia de Amalia Bautista que conheço é quase toda ela um apelo à continuidade do amor reflectindo sobre os seus desconcertos e vicissitudes.

Feita do relato condensado de situações em curso, quando o fim se pressente próximo, cada poema remete para o sobressalto permanente que a possibilidade do amor contém.

Por detrás deste sentir feminino, é a presença do homem de hoje, na sua tateante busca de afirmação, quem se desenha, e nisso cada poema é uma contínua aprendizagem para todos nós.

Usando a lição da famosa fábula de Esopo, lemos no poema seguinte dizer exactamente o contrario do que se sente, de alguma forma erro recorrente entre os que se amam, quando amuados.

A raposa e as uvas

Não me interessa já querer-te tanto,
há muito tempo deixaram de agradar-me
os teus beijos, as tuas caricias, a tua voz,
já não tem sentido a nossa história.
Outros homens me cortejam como loucos
e é bom momento para loucura.
As tuas mãos nunca foram, tu o sabes,
suaves como as uvas, e já é hora
que uma raposa possa desprezar-te.

La zorra y las uvas

No me interessa ya quererte tanto,
han dejado hace tiempo de gustarme
tus besos, tus caricias y tu voz,
ya no tiene sentido nuestra historia.
Otros hombres me rondam como locos
y es buen momento para locura.
Tus manos nunca han sido, tú lo sabes,
suaves como las uvas, y ya es hora
de que una zorra pueda despreciarte.

Os poemas foram publicados no livro Cuéntamelo otra vez em 1999. A transcrição dos originais foi feita a partir da edição da poesia reunida da autora, TRES DESEOS, Editorial Renacimiento, Sevilha 2006. A tradução é de minha responsabilidade.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Despedida, o poema de Jorge Luis Borges

29 Segunda-feira Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Jorge Luís Borges

Bearden_Romare-Spring_WayHá poemas que se bastam, não aceitam o supérfluo de comentários, qual este Despedida de Jorge Luís Borges (1899-1986), que hoje transcrevo.

Despedida

Hão-de erguer-se entre o meu amor e eu
trezentas noites quais trezentos muros
e o mar será magia entre nós dois.

Apenas haverá recordações.
Oh tardes merecidas pela pena,
noites esperançadas ao olhar-te,
campos do meu caminho, firmamento
que vejo e vou perdendo…
Definitiva como um mármore,
a tua ausência irá entristecer as tardes.

À belíssima tradução de Fernando Pinto do Amaral incluída na edição portuguesa das Obras Completas de Borges, acrescento o original em castelhano.

Despedida

Entre mi amor y yo han de levantarse

trescientas noches como trescientas paredes 

y el mar será una magia entre nosotros. 



No habrá sino recuerdos. 

Oh tardes merecidas por la pena, 

noches esperanzadas de mirarte, 

campos de mi camino, firmamento 

que estoy viendo y perdiendo… 

Definitiva como un mármol 

entristecerá tu ausencia otras tardes.

O poema foi publicado originalmente em Fervor de Buenos Aires (1923), primeiro livro de Borges.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

O verão segundo Alceu de Lesbos

28 Domingo Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poesia Grega

≈ 1 Comentário

Etiquetas

Alceu de Lesbos, Picasso

Beach at La Garoupe (first version) - 1955-16Neste verão que se esconde, e a espaço nos abrasa, regresso com a poesia da antiga Grécia, terra habituada ao sol, cujos poetas nos deixaram uma leitura do mundo, cruzada com o capricho de deuses e heróis numa explicação do incompreensível, de inexcedível beleza.

É de Alceu de Lesbos (sec VII a.C.), poeta e soldado de quem nos chegou pouca da muita poesia sua de que há noticia, esta reflexão sobre o Verão — É a hora / em que as mulheres se tornam / mais fogosas e mais fracos / os homens —, onde de alguma forma retoma a reflexão de Hesíodo (séc VIII a.C.) em Trabalhos e Dias (versos 582-596) que há anos, pelo Outono transcrevi no blog.

Humedece de vinho a garganta, que o astro
já voltou. É penosa
a estação e tudo
esmorece com o calor. Entre
a folhagem, docemente
a cigarra canta… Floresce
o cardo. É a hora
em que as mulheres se tornam
mais fogosas e mais fracos
os homens, pois que Sírio
as cabeças abrasa e os joelhos.

A tradução é de Albano Martins e consta da Antologia da Poesia Grega Clássica, Edições Afrontamento, Porto, 2011.

Talvez algum erudito leitor nos saiba esclarecer quanto a semelhança entre estes fragmentos de Alceu e Hesíodo reflecte os processos de transmissão da poesia antiga até nós e traduz um conceito de originalidade autoral nos antípodas do que hoje prezamos.

Iconografia

Acompanham o artigo duas visões de Picasso da praia em La Garoupe, sul de França, em 1955.

Beach at La Garoupe (second version) - 1955-15

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Partida e ausência, poeticamente sentidas por Fernão Rodrigues Lobo Soropita

23 Terça-feira Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Crónicas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Sofonisba ANGUISSOLA

Anguissola_Sofonisba-Portrait_of_Minerva_AnguissolaFernão Rodrigues Lobo, de alcunha o Soropita, é sobretudo conhecido como o compilador e prefaciador da primeira edição das Rhythmas de Camões, editadas após a morte do poeta, em 1595.

Foi Camilo Castelo Branco o primeiro editor da obra do Soropita a partir de um manuscrito encontrado no mosteiro de Tibães. Apenas em 2007 Maria Luísa Linhares de Deus fez uma nova edição da Obra Poética e em Prosa do poeta. É dessa edição que me sirvo para a transcrição dos poemas.

É incerta a informação sobre a vida do poeta e do que é conhecido poderá concluir-se que nasceu no inicio da segunda metade do séc. XVI e terá vivido até aos primeiros anos do séc.XVII (conhece-se uma carta sua datada de 1601).

Ganhou fama como poeta satírico, o que, como quase sempre acontece, torna a obra datada, porque associada às circunstancias do tempo. Mas foi também sonetista de expressivo sentimento à maneira petrarquista, como os melhores poetas do maneirismo português, e é a esse espolio que vou buscar os sonetos que envolvem uma despedida da mulher amada, num deles, a tristeza depois da partida da amada em outro. Termino com a reflexão usual à época sobre os desenganos do amor.

A umas lágrimas de uma despedida

Quando de ambos os céus caindo estava
O rico orvalho, em pérolas formado,
E sobre as frescas rosas derramado,
Igual beleza recebia e dava.

Amor que sempre ali presente estava,
Como competidor de meu cuidado,
Num vaso de cristal de ouro lavrado
As gotas uma a uma entesourava.

Eu, c’os olhos na luz, que aquele dia,
Entre as nuvens do novo sentimento,
Escassamente os raios descobria,

Se me matar (dizia) apartamento,
Ao menos não fará que esta alegria
Não seja paga igual de meu tormento.

Descodifico a primeira quadra para facilitar a leitura

Quando de ambos os céus caindo estava (os céus são os dois olhos da amada que chora)
O rico orvalho, em pérolas formado, (as lágrimas )
E sobre as frescas rosas derramado, ( as frescas rosas referem as faces)
Igual beleza recebia e dava, (liga ao verso da quadra seguinte)

A partir daqui o restante será claramente perceptível, suponho.

Na beleza das imagens deste soneto está todo o seu encanto. Destaco a forma como o desgosto do poeta pela partida da amada é descrito sobretudo no primeiro terceto, ao usar a luz para explicitar a felicidade que a partida do ser amado vem escurecer — Entre as nuvens do novo sentimento / Escassamente os raios descobria.

Passemos então aos outros sonetos prometidos.

A uma partida

Partistes-vos, e [a] alma juntamente
Em partes desiguais se me partiu;
A melhor, que era vossa, vos seguiu;
Ficou-me a outra, fraca e descontente.

Bem sei que a natureza o não consente,
Mas Amor, que mais pode, o consentiu,
Por que a fé que em presença vos serviu,
Também vos sirva agora, estando ausente.

Eu, sem mim e sem vós, não sei que espero,
Nem com que maravilhas me sustento
Nas sombras tristes do meu bem passado.

Só sei que cada dia mais vos quero,
E que por mais que possa o esquecimento,
Nunca poderá mais que meu cuidado.

**

Quanto mais pode amor num peito humano,
Tanto se mostra mais não ter firmeza,
Pois quando dá mor gosto e mor alteza,
Então é mais cruel e desumano;

Põe debaixo do bem um falso engano,
Promete-vos prazer, dá-vos tristeza,
Seus afagos e gostos são crueza,
O mor gosto que tem é ser tirano.

Alto me pôs a fé e o pensamento,
Por que mor queda assim fizesse dar-me
Amor, que em ser cruel é tão isento;

Foi-me desenganar por segurar-me;
Assim, quanto me deu, foi tudo vento,
Desenganou-me enfim, para enganar-me!

Noticia bibliográfica

Fernão Rodrigues Lobo Soropita, OBRA POÉTICA E EM PROSA, edição Maria Luísa Linhares de Deus, Campo das Letras, 2007.

O livro foi publicado no âmbito do projecto da DGLB, Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, Século XVI, entretanto lamentavelmente extinto.

Iconografia

Assumamos, para melhor enquadrar os poemas, que a menina objecto destas proezas poéticas, surgiria aos olhos do amador qual Minerva Anguissola, aqui pintada por sua irmã Sofonisba, na segunda metade do século XVI, contemporânea, portanto, do poeta.

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Arte de Camarões — máscaras

20 Sábado Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Arte da tradição africana, Arte de Camarões, Máscaras africanas

Camarões etnia Bafum 3No meu fascínio pelas possibilidades estéticas de representação do rosto humano avultam as máscaras da arte da tradição africana na sua aparentemente infinita criatividade.

Na apreciação destas esculturas não me interessam quaisquer considerações sobre a função e o quadro etnológico da peça. Apenas o seu resultado plástico me atrai.

eMuseumPlus136 etnia Bum CamarõesDeste vasto mundo escolho hoje para o blog algumas máscaras de diferentes etnias de Camarões pertencentes à colecção do museu etnológico de Berlim.

Camarões etnia Bafum 2São esculturas de enorme impacto visual que na representação do rosto impõem um jogo de volumes entre as diferentes componentes: olhos e bochechas, sobretudo, usando predominantemente formas arredondadas. O equilíbrio escultórico em cada peça é conseguido com a ornamentação da cabeça, variando como um todo a linha que acompanha o contorno do rosto.

O resultado é um conjunto estilisticamente identificável onde apenas a simetria do rosto é uma constante. A distorção facial praticada transmite a quase todas as máscaras escolhidas amicabilidade ao olhar, se não mesmo bonomia, resultando daí um enorme prazer na sua contemplação.

Camarões etnia Bamungum

Camarões etnia Kom  sec 19

Camarões etnia Bafum A

Camarões etnia Bamileke sec 19

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Os trabalhos de Eros na poesia de Tomás Segovia

20 Sábado Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Erótica, Poetas e Poemas

≈ 2 comentários

Etiquetas

Tomás Segovia

Waldeck 1A poesia erótica em castelhano é um jardim onde, depois de entrar, não apetece sair.

Hoje venho com a poesia erótica de Tomás Segovia (1927-2011), poeta espanhol de nascimento e mexicano por adopção, que mereceu a atenção de tradução de dois poetas maiores de Portugal: David Mourão-Ferreira e António Ramos Rosa.

Senhor de uma poderosa linguagem poética onde as imagens escorrem desejo e prazer, usou frequentemente formas clássicas de expressão, com o soneto em destaque pela mestria do seu desenvolvimento e musicalidade.

Escolhi para hoje o canto poético do êxtase sexual onde apenas o desejo conta — … quando jazes toda nua, quando / ávida as pernas abres palpitando, … e se entro / com a língua nas entranhas que me estendes, / posso beijar teu coração por dentro. —.
Deixo para outro dia Os beijos em tradução de António Ramos Rosa e entrego-vos ao “… coração felpudo que me incita, ” com o soneto traduzido por David Mourão-Ferreira.

Entre as tépidas coxas te palpita
um negro coração febril, fendido,
de remoto e sonâmbulo latido
que entre escuras raízes se suscita:

um coração felpudo que me incita,
mais que outro cordial e estremecido,
a entrar como na casa em que resido
até tocar o grito que te habita.

E quando jazes toda nua, quando
ávida as pernas abres palpitando,
e até ao fundo, em frente a mim, te fendes,

um coração podes abrir, e se entro
com a língua nas entranhas que me estendes,
posso beijar teu coração por dentro.

Passemos agora ao poema na língua de origem e apreciai a beleza da tradução.

Entre los tibios muslos te palpita

un negro corazón febril y hendido

de remoto y sonámbulo latido

que entre oscuras raíces se suscita;



un corazón velludo que me invita,

más que el otro cordial y estremecido,

a entrar como en mi casa o en mi nido
l
hasta tocar el grito que te habita.



Cuando yaces desnuda toda, cuando

te abres de piernas ávida y temblando

y hasta tu fondo frente a mí te hiendes,



un corazón puedes abrir, y si entro

con la lengua en la entrada que me tiendes,

puedo besar tu corazón por dentro.

Termino com dois outros sonetos onde o prazer sem tabus se conta. Transcrevo tão só os originais pois de traduções em português não sei.

*
Un momento estoy solo: tú allá abajo

te ajetreas en torno de mi cosa,

delicada y voraz, dulce y fogosa,

embebida en tu trémulo trabajo.



Toda fervor y beso y agasajo

toda salivas suaves y jugosa

calentura carnal, abres la rosa

de los vientos de vértigo en que viajo.



Mas la brecha entre el goce y la demencia,

a medida que apuras la cadencia,

intolerablemente me disloca,

y

al fin me rompe, y soy ya puro embate,

y un yo sin mí ya tuyo a ciegas late

gestándose la noche de tu boca.

**

Otra vez en tu fondo empezó eso…

Abre sus ojos ciegos el gemido,

se agita en ti, exigente y sumergido,

emprende su agonía sin regreso.



Yo te siento luchar bajo mi peso

contra un dios gutural y sordo, y mido

la hondura en que tu cuerpo sacudido

se convulsiona ajeno hasta en su hueso.



Me derrumbo cruzando tu derrumbe,

torrente en un torrente y agonía

de otra agonía; y doblemente loco,



me derramo en un golfo que sucumbe,

y entregando a otra pérdida la mía,

el fondo humano en las tinieblas toco.

Noticia bibliográfica

Os sonetos constam do livro Poesia (1943-1997), edição F.C.E., Madrid, 1998.

A tradução de David Mourão-Ferreira encontra-se em Vozes da Poesia Europeia III, Colóquio Letras nº165, ed FCG, Lisboa.

 

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Itália seguido de Soneto, poemas de Álvares de Azevedo

18 Quinta-feira Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Álvares de Azevedo, Ticiano

Titian-Danae-1544-IITerá sido certamente uma bela italiana — Pátria do meu amor! terra das glórias — quem esteve por detrás da sensual evocação — Lá na terra da vida e dos amores — que no poema Itália o jovem e malogrado poeta brasileiro Álvares de Azevedo (1831-1852) nos deixou, e onde o eterno da atracção ressuma.

Na singela forma poética do romantismo, Álvares de Azevedo deu-nos o calor da terra e a ardência da palpitação dos vinte anos, — A Itália do prazer, do amor insano, — em quadras de suave beleza melódica.

ITÁLIA

I
Lá na terra da vida e dos amores
Eu podia viver inda um momento…
Adormecer ao sol da primavera
Sobre o colo das virgens de Sorrento!

Eu podia viver — e porventura
Nos luares do amor amar a vida,
Dilatar-se minh’alma como o seio
Do pálido Romeu na despedida!

Eu podia na sombra dos amores
Tremer num beijo o coração sedento…
Nos seios da donzela delirante
Eu podia viver inda um momento!

Ó anjo de meu Deus! se nos meus sonhos
Não mentia o reflexo da ventura,
E se Deus me fadou nesta existência
Um instante de enlevo e de ternura…

Lá entre os laranjais, entre os loureiros,
Lá onde a noite seu aroma espalha,
Nas longas praias onde o mar suspira
Minh’alma exalarei no céu de Itália!

Ver a Italia e morrer!… Entre meus sonhos
Eu vejo-a de volúpia adormecida…
Nas tardes vaporentas se perfuma
E dorme, à noite, na ilusão da vida!

E, se eu devo expirar nos meus amores,
Nuns olhos de mulher amor bebendo,
Seja aos pés da morena Italiana,
Ouvindo-a suspirar, inda morrendo.

Lá na terra da vida e dos amores
Eu podia viver inda um momento,
Adormecer ao sol da primavera
Sobre o colo das virgens de Sorrento!

II

A Itália! sempre a Itália delirante!
E os ardentes saraus e as noites belas!
A Itália do prazer, do amor insano,
Do sonho fervoroso das donzelas!

E a gôndola sombria resvalando,
Cheia de amor, de cânticos e flores…
E a vaga que suspira à meia-noite
Embalando o mistério dos amores!

Ama-te o sol, ó terra da harmonia,
Do levante na brisa te perfumas,
Nas praias de ventura e primavera
Vai o mar estender seu véu d’escumas!

Vai a lua sedenta e vagabunda
O teu berço banhar na luz saudosa,
As tuas noites estrelar de sonhos
E beijar-te na fronte vaporosa!

Pátria do meu amor! terra das glórias
Que o génio consagrou, que sonha o povo…
Agora que murcharam teus loureiros
Fora doce em teu seio amar de novo…

Amar tuas montanhas e as torrentes
E esse mar onde bóia alcion dormindo,
Onde as ilhas se azulam no ocidente,
Como nuvens, à tarde, se esvaindo…

Aonde, à noite, o pescador moreno
Pela baía no batel se escoa…
E murmurando, nas canções de Armida,
Treme aos fogos errantes da canoa…

Onde amou Rafael, onde sonhava
No seio ardente da mulher divina,
E talvez desmaiou no teu perfume
E suspirou com ele a Fornarina…

E juntos, ao lar, num beijo errante
Desfolhavam os sonhos da ventura
E bebiam na lua e no silêncio
Os eflúvios da tua formusura!

Ó anjo de meu Deus, se nos meus sonhos
A promessa do amor me não mentia,
Concede um pouco ao infeliz poeta
Uma hora da ilusão que o embebia!

Concede ao sonhador, que tão-somente
Entre delírios palpitou d’enleio,
Numa hora de paixão e de harmonia
Dessa Itália do amor morrer no seio!

Oh! a terra da vida e dos amores
Eu podia sonhar inda um momento,
Na seios da donzela delirante
Apertar o meu peito macilento!

Maio, 1851. – S. Paulo

A obra de Álvares de Azevedo (1831-1852) não faz parte do conhecimento generalizados dos que em Portugal gostam de poesia. Para abrir o apetite ao conhecimento da sua obra, onde o realismo poético de Cesário Verde por vezes se antecipa, termino com um soneto em que um delicado erotismo espreita — Era mais bela! o seio palpitando… / Negros olhos, as pálpebras abrindo… /Formas nuas no leito resvalando…

Soneto

Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das águas embalada…
— Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando…
Negros olhos, as pálpebras abrindo…
Formas nuas no leito resvalando…

Não terias de mim, meu anjo lindo!
Por ti — as noites eu velei chorando,
Por ti — nos sonhos morrerei sorrindo!

Acompanha o artigo uma das belas Danae pintadas por Ticiano (1488/90-1576), esta de 1544. A modelo faz jus ao delírio poético que acabámos de ler.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Cartazes dos irmãos Stenberg

17 Quarta-feira Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

≈ 1 Comentário

Etiquetas

Cartazes publicitários, Stenberg

O General 1927No inicio da revolução russa, nos anos 20 do século passado, antes da subida ao poder de Estaline, o cartaz como meio de propaganda ganhou uma espantosa eficácia comunicativa através do uso de uma linguagem plástica inovadora saída directamente do construtivismo enquanto movimento estético. Quase todos os artistas plásticos em actividade o praticaram, mas foram os irmãos Stenberg quem produziu em maior número verdadeiras obras plásticas que sobrevivem para além da mensagem publicitaria ou de propaganda.

Entre as largas dezenas de cartazes conhecidos faço uma pequena escolha que arquivo no blog.

Os mais famosos serão talvez os cartazes feitos para os filmes A General de Buster Keaton (Pamplinas) com que abri o post, e o cartaz para anunciar o filme de Dziga Vertov, O Homem da Máquina de Filmar com que fecho a escolha. Pelo meio outros cartazes de semelhante apelo plástico. Nestes outros, é sobretudo o movimento que as composições transmitem, associado ao cromatismo contrastado onde o preto adensa o mistério, não da mensagem, mas do conteúdo que se anuncia, provocando a curiosidade, o que garante a vida autónoma do cartaz, convidando a olhar para além da informação.

A combinação da sobreposição de planos à maneira do cubismo, recusando a perspectiva clássica, com a abstracção geométrica na definição dos espaços, e a inserção de elementos realistas nas figuras humanas, fazendo lembrar técnicas vindas da colagem e do movimento DaDa, são a matriz do resultado plástico onde o grafismo das palavras joga um papel plástico decisivo.

Um homem sem medo

Qual dos dois 1927

Na primavera 1929

The Punch 1921

Poster Design by Vladimir and Georgii Stenberg 24

1929

O homem da maquina de filmar 1929

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Amor e mais poemas de Gueorgui Gospodinov

16 Terça-feira Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Grant Wood, Gueorgui Gospodinov

Wood, Grant-American Gothic 1930Amor

Todas as noites
sonhar com a mulher
deitada ao teu lado.

Nem sempre aforística, como nesta definição de Amor, a poesia de Gueorgui Gospodinov (1968), poeta búlgaro, surge-nos com o peso preciso de cada palavra, dando ao verso e aos poemas a extraordinária capacidade de nos fazer voar a imaginação.

Acrescento mais alguns poemas retirados da recolha poética O Coelho do Amor, onde a lemos em tradução portuguesa de Zlatka Timenova-Valtcheva e Petar Petrov.

Wood, Grant-Haying 1939

O Coelho do amor

Volto já, disse
e deixou a porta aberta.
A noite era especial para nós,
no fogão cozia coelho,
com cebola, rodelas de cenoura
e dentes de alho.
Nem casaco levou,
nem pôs batom, não perguntei
para onde ia.
Assim é ela.
Nunca teve noção
do tempo, chegava tarde para os encontros
e naquela noite
disse simplesmente
Volto já,
e nem a porta fechou.

Seis anos após aquela noite
encontro-a numa outra rua,
pareceu-me assustada,
como alguém que se lembra
de ter deixado o ferro de engomar ligado
ou algo assim…

O fogão? Desligaste-o?
Ainda não, disse eu,

esses coelhos são muito rijos.

Wood, Grant-The Good Influence 1936

Um sonho em Dianopolis

Não o procurei foi uma coincidência
do olhar e da janela
numa tarde quando
a entrevi nua
só depois soube o seu nome
uma das muitas Dianas
no polis sonolento

agora estou a esconder-me nos campos
os meus cornos ficam rígidos
os meus pés transformam-se em cascos
crescem os meus caninos
e começam a perseguir-me ladrando
para dentro
galgos em mim
veado e cão veado e cão veado
e cão eu sou

(Nota minha: Diana, deusa itálica que se comprazia apenas na caça)

Depois da pungente ironia destes poemas sobre paixão e abandono alguns cruzamentos com a perplexidade de Deus.

Deus
talvez seja feliz
porque não tem o seu
Deus

Wood, Grant-Appraisal 1931

Ensino supremo

Deus tem o seu saber.
No fim dos nossos discursos
coloca cruzinhas em vez de pontos,
coloca cruzinhas em vez de assinatura.
Deus, digo-te ao ouvido,
tem a sua sabedoria.

Wood, Grant-New Road 1939

As notícias

Ela fecha o jornal e diz:
leste, em Ayova
caiu granizo — pedaços
como bolas de golfe,
perderam muitas bolas
e agora elas voltam.
Ele devolve-lhes as bolas,
percebes? Aquele Brincalhão!
Mas ela não ri
e diz horrorizada:

Ele tem sempre boa pontaria.

Wood, Grant-Young Corn 1931

Regresso à concisão poética do inicio, para terminar esta curta viagem:

A minha mãe está a chorar
As suas lagrimas caem no céu
e fermentam a Via Láctea

Wood, Grant-Daughters of Revolution 1932Acompanham os poemas pinturas do norte-americano Grant Wood (1891-1942).

Noticia bibliográfica

O Coelho do Amor, recolha poética com poemas de Gueorgui Gospodinov, provenientes dos livros Lapidarium (1992), A cerejeira e o povo (1996), prémio para o melhor livro do ano, Cartas a Gaustin (2003), e Os domingos no mundo, foi publicada por Roma Editora, Lisboa 2010.

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Curtos poemas IV — Sem título de Sophia de Mello Breyner Andresen

15 Segunda-feira Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Sophia de Mello Breyner Andresen, William Baziotes

Baziotes, William-Watercolor 1 - 19581Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Publicado em Poesia, 1ª edição 1944.

Acompanham o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (1914-2004) pinturas de William Baziotes (1912-1963), pintor norte-americano cuja obra com raízes no surrealismo, caminha para a abstracção através de uma iconografia não explícita.

Baziotes, William-Watercolor 3 1958

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...
← Older posts

Visitas ao Blog

  • 2.369.954 hits

Introduza o seu endereço de email para seguir este blog. Receberá notificação de novos artigos por email.

Junte-se a 898 outros subscritores

Página inicial

  • Ir para a Página Inicial

Posts + populares

  • Vozes dos Animais - poema de Pedro Diniz
  • Prazeres — de Brecht a Lucrécio
  • Eugénio de Andrade — Green god

Artigos Recentes

  • Sonetos atribuíveis ao Infante D. Luís
  • Oh doce noite! Oh cama venturosa!— Anónimo espanhol do siglo de oro
  • Um poema de Salvador Espriu

Arquivos

Categorias

Site no WordPress.com.

Privacy & Cookies: This site uses cookies. By continuing to use this website, you agree to their use.
To find out more, including how to control cookies, see here: Cookie Policy
  • Subscrever Subscrito
    • vicio da poesia
    • Junte-se a 898 outros subscritores
    • Already have a WordPress.com account? Log in now.
    • vicio da poesia
    • Subscrever Subscrito
    • Registar
    • Iniciar sessão
    • Denunciar este conteúdo
    • Ver Site no Leitor
    • Manage subscriptions
    • Minimizar esta barra
 

A carregar comentários...
 

    %d