Dois textos de Miguel Martins

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Para além da ausência e dos percalços da paixão, tinha sido um dia quase perfeito. De manhã o trabalho levou-me até ao mar. À tarde, um par de horas à conversa com um amigo sobre poesia, sobretudo, e a oferta do livro que é o pretexto desta prosa.

Jantei no Sergio, incluindo o tiramisu da minha perdição, e resolvi ir ao cinema. O novo filme de Woody Allen, Meia-noite em Paris, terna e lúcida reflexão sobre a nostalgia e o sentido que a cultura dá à vida, foi a cereja.

Chegado a casa, pego no livro oferecido e a leitura é quase compulsiva. Os fios com que o acaso nos tece a meada da existência têm destas coincidências: entre os textos do livro, surge uma reflexão sobre as mulheres, que aqui reproduzo, e encaixa no que hoje me preocupa:

10 – DAS MULHERES

As mulheres (digo: algumas mulheres) (digo: algumas mulheres, poucas) (digo: algumas mulheres, poucas, e nenhum homem) acalmam-me, tiram-me das minhas circunstâncias. Corpo com o corpo – sexo, pele, boca, mãos –, com a voz, apenas com a presença. Às mulheres tudo me parece possivel. Talvez por isso as trate com maior exigência. Quando o não fazem, é porque não querem ou porque os homens são umas bestas. Os homens, prosaicamente, não fazem o que nao podem, brutos coitados. Às mulheres pode-se e deve-se (e devem-se) exigir o poema permanente. E criar as condições para que não se tenham de preocupar com mais nada para além disso. Só isso permite aos machos (alguns, poucos) fugazes fogachos de poesia. Só isso evitará o quase inevitável: que neste mundo haja mais pedreiras do que prados, mais escaravelhos sobrevivendo à fuligem do que cachorros panando-se na areia. Tirésias, que voltou a ser homem depois de ter sido mulher, ensinou-nos que as mulheres sentem dez vezes mais prazer do que os homens. É por isso, estou certo, que se preocupam menos com o que não interessa. E foi também por isso que com elas aprendi o pouco que sei acerca de prioridades: I.ª o prazer, 2.ª o prazer,3.ª o prazer, 4.ª o prazer, e por aí fora. Se assim for, não nos preocupemos com o Céu – tê-lo-emos alcançado aqui em baixo e Deus e os anjos virão ter connosco.

 

O livro – LÉRIAS – de Miguel Martins, recentemente editado pela AVERNO, reúne um conjunto de textos previamente publicados pelo autor num blog.

Poeta de quem conheço mal a poesia, revela nestes textos, alguns com acentuado pendor poético, um olhar sereno e um tanto irónico (a começar pelo título) sobre as voltas da vida e a hierarquia do que na verdade vale a pena guardar como presente por estar vivo.

Lido o livro, onde algumas afinidades encontro, transcrevo o ultimo texto nele publicado:

27 – FINE

Os sentimentos são paisagens áridas, imprecisas, tremeluzentes, desconfortáveis.

Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado, dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura.

Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem.

Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles restasse apenas uma mancha de gordura no chão.

Em qualquer caso, emudeceriam. Ou não seriam escutados, o que vem a dar ao mesmo.

Nunca contemplei esta hipótese por mais de cinco minutos – certamente, nem tanto.

Não consigo. Não sei. Julgo que, no fundo, é o que menos quero. E que essa é a raiz da minha resistência. Crónica e aguda.

Os sentimentossão onde sei viver, onde me sinto menos morto.

Os sentimentos sou eu.

Os melhores.

Os piores.

O beijo.

A bala.

(Ou vice-vresa).

Todos os nomes da intranquilidade.

 

Aqui chegados remeto-vos para Pandémica e Celeste de Jaime Gil de Biedma , dando uma vez mais conta das continuidades que fazem a poesia transversal ao tempo e à geografia, quando com sinceridade fala do homem e da sua circunstância:

Pandémica e Celeste – um poema de Jaime Gil de Biedma (1929-1990)

Mimosa boca errante – poema de Carlos Drummond de Andrade

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No mundo da poesia e nos acasos da leitura, leio em sequência dois poetas rigorosamente contemporâneos, Miguel Torga (1907-1995) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), poetas em que a poesia e o humor não podiam estar mais afastados.

Não aproveitou Miguel Torga, do Brasil, apesar de para lá ter partido criança e regressado jovem adulto, aquela ligeireza com que se dizem coisas graves e sérias, como Drummond amplamente praticou. E de certeza escondeu dos olhos do público as pulsões que o sexo lhe inspirou e apenas timidamente afloram em alguma da sua poesia, caso das Odes que semanas atrás transcrevi aqui no blog.

Foi diferente com Carlos Drummond de Andrade. Reuniu para publicação póstuma (O amor natural, 1992) um vasto acervo de belíssima poesia erótica onde os tabus estão ausentes.

É desse surpreendente e atordoador livro de poesia que transcrevo um dos poemas que sobre o assunto do soneto Beija-me, minha alma, doce espelho e guia,  o génio de Carlos Drummond de Andrade concebeu, talvez mais de quinhentos anos depois dele ter sido escrito, dando conta das continuidades que fazem com que a poesia seja um universal comum à humanidade.

 

Mimosa boca errante

Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delicias
que fruto e boca se permitem, dádiva.

Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereçes
a seu volume e jato apaixonados,
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?

Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a liquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh, chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

Câmara Ardente de Miguel Torga

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Uma turbada emoção surpreendeu-me hoje ao ler Câmara Ardente de Miguel Torga (1907-1995).
O poeta estava na curva dos cinquenta, idade de balanço em que a esperança na vida por vir teima em permanecer.

Olhar para trás, olhar em volta, é inevitável. O encontro com a nossa circunstância nem sempre é fácil.

E o cavalo do tempo a galopar…
Ninguém pode detê-lo.
Vê-lo,
É ver, a sonhar,
Um relâmpago a rasgar
O céu dum pesadelo


Transcrevo quase ao acaso alguns poemas. Dão conta da interrogação perante si e o mundo, num falar poético repleto de contida emoção.

Lastro

Depois da noite, o dia, a claridade!
A benção de acordar
E de ter vida!
Olhar
E descobrir a eternidade
Em cada contingência renascida.

A música concreta dos ruídos…
A frescura dos frutos orvalhados…
O perfume da brisa que perpassa…
E os sentidos
Felizes, excitados
Como podengos que farejam caça.

Assim dentro de nós o sol nascesse
E apagasse
Nessa madrugada,
A teimosa e penosa consciência
Da existência
Passada!

Calendário

Pregados na parede da memória,
Os dias do passado
Amarelecem.
Folhas mortas dum bloco de emoções,
Solto-as ao vento da melancolia.
Seis de Outubro, um de Abril,
Ano tal, ano tal, e a mais bela manhã primaveril
Desfeita numa pústula outonal!

A inútil persistência de viver!
O erro de lutar
Por qualquer duração!
Mesmo antes do
Letes
conhecido,
Todo o sonho,
Ou gemido,
Ou alegria,
É uma data vazia
No sepulcro do tempo decorrido.

Colóquio

Duvida das palavras…
Nunca disseram nada.
Palmeiras no deserto
Da expressão,
O mais que dão
É sombra aos sentimentos,
Nos momentos
Em que o sol é uma cruz de expiação.


Ouve o silêncio – a voz universal.
Só ele é o verdadeiro confidente
Do coração de tudo.
Poeta angustiado
E penitente,
Mudo
A teu lado
É que eu sou transparente…

Encontro

Rasgo todos os véus da minha vida,
Como quem despe a noiva em pensamento.
Eterno adolescente, desatento
Aos adultos conselhos da razão,
Violento
O pudor que lhe vela a imperfeição.

Quero a sua nudez desencantada,
Bosque sem folhas, onde a claridade
Desça à raiz das sombras e as desfaça.
Quero ver a pureza
Da impureza,
A intima brancura da desgraça.

E descubro o que sou no que ela é:
O triste dia a dia
Deste absurdo humano:
Erguida pelo vento da loucura,
Uma onda à procura
De oceano.

Viagem

Aparelhei o barco da ilusão
E reforçei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

E os poemas surgem-nos ordenados no livro como um olhar de balanço numa simbólica:

Câmara Ardente

Serve-se no presente
Dum símbolo futuro…
Um frio prematuro
De mortalha
Coalha
A inspiração
Que animava o seu canto.
Não morreu. Mas enquanto
A vida lhe negar um novo sol,
Mais quente e mais fecundo,
Não vislumbra outra imagem
Da intima paisagem
Deste mundo…

CÂMARA ARDENTE foi publicado em 1962, em Coimbra.

A NAU CATRINETA

Aprendiamo-la na escola primária, e sabiamos de cor, esta Nau Catrineta.

Faz parte da vasta e preciosa colecção de romances populares passados de boca em boca e contados em longos invernos à roda do borralho.

Com mais vagar outro dia virei a estas histórias versificadas, que amo, onde paixões, algumas funestas, e aventuras, acontecem, trazendo o coração ao pé da boca e deixando-nos em suspenso sobre a sorte dos herois e protagonistas.

Hoje, para que não se esqueça, aqui fica a versão publicada no inicio do século XX por Carolina Michaëlis de Vasconcelos na sua escolha das Cem Melhores Poesias Líricas Portuguesas de Sempre que por mais de uma vez aqui referi.

 

NAU CATRINETA

Ouvi agora senhores,

Uma história de pasmar.

Passava mais de ano e dia

Que iam na volta do mar;

Já não tinham que comer,

Já não tinham que manjar.

Deitaram sola de molho

Para o outro dia jantar;

Mas a sola era tam rija

Que a não puderam tragar.

Deitam sorte à ventura

Qual se havia de matar;

Logo foi cair a sorte

No capitão general.

“Sobe, sobe, marujinho,

Àquele mastro real;

Vê se vês terras de Espanha,

As praias de Portugal.”

“Não vejo terras de Espanha,

Nem praias de Portugal;

Vejo sete espadas nuas

Que estão p’ra te matar.”

“Acima, acima, gageiro,

Acima ao tope real!

Olha se enxergas Espanha,

Areias de Portugal.”

“Alvissaras, capitão,

Meu capitão general!

Já vejo terras d’Espanha,

Areias de Portugal.

Mais enxergo três meninas

Debaixo de um laranjal:

Uma sentada a coser,

Outra na roca a fiar,

A mais formosa de todas

Está no meio a chorar.”

“Todas três são minhas filhas!

Oh! quem m’as dera abraçar!

A mais formosa de todas

Contigo a hei-de casar.”

“A vossa filha não quero,

Que vos custou a criar.”

“Dar-te-ei tanto dinheiro

Que não o possas contar.”

“Não quero o vosso dinheiro

Pois vos custou a ganhar.”

“Dou-te o meu cavalo branco,

Que nunca houve outro igual.”

Guardai o vosso cavalo,

Que vos custou a ensinar.”

“Dar-te-ei a Nau Catrineta,

Para nela navegar.”

“Não quero a nau Catrineta,

Que a não sei governar.”

“Que queres tu meu gageiro,

Que alviçaras te hei-de eu dar?”

“Capitão quero a tua alma

Para comigo a levar.”

“Renego de ti demónio,

Que me estavas a atentar!

A minha alma é de Deus;

O corpo dou eu ao mar.”

Tomou-o um anjo nos braços,

Não n’o deixou afogar.

Deu um estouro o demónio,

Acalmaram vento e mar;

E à noite a nau Catrineta

Estava em terra a varar.

Bom é amar, – mas como fere tanto? – 4 sonetos de Juan Boscán

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Bom é amar, – mas como fere tanto?

Grande gosto é qu’rer bem, – porque entristece?

Prazer é desejar, – como aborrece?

Amor é nosso bem, – porque dá pranto?

 

Amar anima, – mas como causa espanto?

Pelo amor o bem da lama cresce,

– mas com assim, por ele , ela padece?

Como tantos contrários cobre um manto?

 

Não é o amor o que dor nos reparte;

a companhia que a seu pesar mantém

também, mau grado seu, nos fere e mata.

 

Nele rende-se o mal de nossa parte;

só ele em nosso bando nos sustém,

e nossa paz constantemente trata.

Rima ABBA ABBA CDE CDE

Doce sonhar e doce angustiar-me,

quando estava sonhando que sonhava.

Doce gozar com o que me enganava,

se um pouco mais durasse o enganar-me.

 

Doce em mim não estar que figurar-me

podia quanto bem eu desejava.

Doce prazer, mesmo se magoava,

que alguma vez chegava a despertar-me.

 

Oh sono, quão mais leve e saboroso

me foras se viesses tão pesado

que assentasses em mim com mais repouso!

 

Dormindo, enfim, fui bem-aventurado,

e é justo na mentira ser ditoso

quem deveras foi sempre desgraçado.

Rima ABBA ABBA CDC DCD

 

 Pensando no passado, de medroso,

acho um grande amor dentro do peito;

eu bem sei que o passado é já desfeito,

mas dá imaginá-lo algum repouso.

 

Por de descanso estar tão desejoso,

repouso em qualquer parte onde me deito;

onde espero descanso, é o meu leito,

sendo embora o descanso mentiroso.

 

Mas este descansar sendo tão vão

há-de acabar-se dentro de um momento;

e em mim ficar sua recordação.

 

Cedo volto a esta inquietação;

a conta disto é tal que nem a tento;

mas o que perco e ganho está na mão.

Rima ABBA ABBA CDC CDC

 

 

Doce repouso deste entendimento;

doce prazer sobre o ser bom fundado;

doce saber que alto saber me é dado,

pois tenho de meu bem conhecimento.

 

Doce gozar de um doce sentimento,

vendo meu céu tão claro e serenado;

sobre o meu seio o mais doce cuidado,

com firme concluir que estou contento.

 

Doce gostar de um não sei quê sem nome,

que Amor dentro em minha alma colocou,

ao curar-me com inclito renome.

 

Doce pensar que no paraíso estou;

porém, enfim, me lembro que sou home(m),

digo o que penso do que se passou.

Rima ABBA ABBA CDC DCD

 

Lemos estes poemas e não cessa o nosso espanto pela elegância como a eternidade do sentimento amoroso neles é tratada.

Quanto encanto, quanta sabedoria se encerram em todos e cada um dos versos. Escolho quase ao acaso:

 

Amor é nosso bem, – porque dá pranto?

 

ou estes versos onde a doçura descreve os sentimentos

 

Doce sonhar e doce angustiar-me, / quando estava sonhando que sonhava.

Doce pensar que no paraíso estou;

 

e ainda

 

Doce gozar de um doce sentimento, / vendo meu céu tão claro e serenado;

 

Qual deles mais delicadamente descreve o palpitar do coração apaixonado nas nuances do doce enlevo amoroso?

Juan Boscán foi, com Garsilaso de la Vega, o renovador da poesia de Espanha vinda dos Cancioneiros do século XV, ao fazer triunfar em Espanha a poesia a manera de los italianos, como o próprio se lhe referiu no prólogo A los lectores, na 1ª edição da sua poesia em conjunto com de Garsilaso, em 1546.

As traduções a partir do castelhano são, uma vez mais, de José Bento e foram publicadas na Antologia da Poesia Espanhola do Siglo de Oro – Renascimento, editada por Assirio  Alvim em 1993.

A apresentação da obra e as noticias bibliográficas dos autores antologiados são elucidativas e modelares na sua concisão.

A EROS e outras odes de Miguel Torga (1907-1995)

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A EROS (versão de 1946)

Eros é o Pai, o Adão!

A terra onde começa o paraíso!

O delírio pagão

Pedido pela seiva em seu juízo!

Eros é o sangue, o lume!

O principio da vida!

A impunidade que se ri do gume

Da lança da pureza, erguida!

E cobrem-no de folhas e vergonha!

E apaga-se com medo a sua chama!

Único Deus que sonha

Na nossa própria cama!

Pela primeira vez transcrevo no blog poesia de Miguel Torga (1907-1995). É um poeta mal amado hoje, se é que alguma vez foi um poeta amado.

A produção é irregular e muitos dos versos são duros, à maneira da dureza de um Filinto Elísio, e acusam o esforço de produzir poesia a partir de uma ideia de poema, ao invés de esperar a visita da inspiração.

No entanto, a sua obra contém alguns belos poemas que vale a pena procurar sobretudo nas páginas dos primeiros volumes do Diário ou no conjunto dos Poemas Ibéricos.

Transcrevo agora outra ode, desta vez ao fogo:

AO FOGO (versão de 1946)

Abre o teu riso mais ainda,

Fogo da vida, lume da alegria!

Queima a tristeza toda, finda

À penumbra vazia!

Arde com mais calor em cada hora,

Chama da inspiração!

Sobe da terra ao céu, devora

A lenha que secou de solidão!

Bebe, bebe de um trago

A líquida prudência que te apaga!

Com ágil mão de mago,

 Transforma água de poços numa vaga!

Fogueira aberta! Rosa

Nem mística, nem pálida, nem branca!

Deusa que apenas goza

A mortalha que arranca!

Na edição original as odes são constituidas por quartetos de versos que a formatação do wordpress não me permitiu respeitar, prejudicando, com isso a leitura dos poemas.

Estas odes foram publicadas pela primeira vez em ODES, em 1946, edição Coimbra Editora, na 1ªedição do livro. Posteriormente, quando da 3ªedição revista de ODES, o poeta procedeu a substanciais alterações: desapareceu a ODE À NATUREZA, e chegaram de novo uma ode A ORFEU e uma ode À TERRA.

A ode AO FOGO desapareceu, tal como a transcrevi acima e reapareceu um outro poema com o mesmo título, que a seguir transcrevo. Perdeu-se assim aquele belissimo … devora /  A lenha que secou de solidão!

 

AO FOGO (versão de 1956)

Chama da inspiração, que me devoras,

Alarga o teu abraço ao mundo inteiro!

Reduz o pesadelo destas horas

A um braseiro

De amor!

Funde no teu calor

A montanha de gelo e de tristeza

Que nos oprime o corpo e o coração.

E que a grande fogueira da beleza

Seja o sol duma nova redenção!

 

A ode A EROS teve alteração menos radical, pois apenas foi substituido o segundo quarteto e onde havia:

Eros é o sangue, o lume!

passámos a ter:

Eros é puro amor.

 

A EROS  (versão de 1956)

Eros é o Pai, o Adão!

A terra onde começa o paraíso!

O delírio pagão

Pedido pela seiva em seu juizo!

 

Eros é puro amor.

O desejo despido

O ímpeto de sangue e de calor

Que resgata o instinto adormecido.

 

E cobrem-no de folhas e vergonha!

E apaga-se com medo a sua chama!

Único Deus que sonha

Na nossa própria cama!

 

Estamos pois, de uma edição para outra, perante quatro belissimos poemas sobre as leis da matéria, na linguagem transparente e críptica cara ao poeta.

 

Termino esta digressão pelas ODES de Miguel Torga com a ode A VÉNUS, que sofreu entre as duas edições que agora comparamos, uma pequena modificação nos versos 16 e 17.

Entremos então neste canto a Vénus, Deusa nua e perfeita / Que incendeias a carne e a ressuscitas,/ … / Quem se pode salvar sem te sentir / Quente e marmórea no seu leito?

 

 

A VÉNUS

Deusa nua e perfeita

Que incendeias a carne e a ressuscitas,

Que tornas viva, activa, insatisfeita,

No final da colheita,

A matriz corroída que visitas:

 

Vem outra vez ao triste acampamento

Destes pobres mortais!

Vem, nesse primaveril deslumbramento,

Trazida pela bruma e pelo vento

Da morada das fontes naturais!

 

Molhada pelo mar salgado e frio,

Sai da concha e passeia

A regar de frescura, amor e cio,

O deserto vazio

Desta areia!

 

Porque és tu o mito redentor!

És a flor

Que há-de chegar a fruto!

És a poesia, o sol, o fogo eterno

A aquecer cada inverno

Que fecha o céu da vida no seu luto.

 

Deusa!

Mulher e aparição num corpo só!

Seios, umbigo, coxas e cabelos

Que são fios abertos de novelos

Onde se aperta a seiva como um  nó.

 

Presença virginal e fecundada,

Quem se pode salvar sem te sentir

Quente e marmórea no seu leito?

Senhora, concubina e namorada,

Ver-te despida é já de si despir

O sarro morto que se tem no peito!

 

Da penumbra do tempo vem teu nome

Cinzelado na pedra da verdade;

Da raiz desse tempo vem a fome

Dum beijo submisso que nos dome

À sua maternal humanidade.

 

Lodo e ternura, lume e arte.

Um seio que dê sonho e alimente!

O desejo a buscar-te,

A condição a dar-te,

E toda a lama do prazer ausente!

 

Na própria chama acesa

Arde a lenha do mal.

Arde, e fica a certeza

Do haloque circunda a realeza

Que toca cada coisa natural.

 

Vem, grega sabedoria dos sentidos!

Sem pecado e sem vício, mostra erguidos

Os instintos, a forma e a paixão!

Filha de artistas e da natureza,

Só te pede a beleza

Quem a traz a bater no coração!

 

Os versos 16 e 17 na edição original de 1946 eram:

Porque és tu a terra do renovo!

És o ovo

 

E concluo com estes versos extraídos da ode À BELEZA:

Um milagre, uma luz, uma harmonia, / Uma linha sem traço… / Mas sem corpo, sem pátria e  / em familia, / Tudo repousa em paz no teu regaço!

Acompanha o artigo um desenho de Dubois feito quando da campanha Napoleónica no Egipto e representa o deus MIN, deus pré-dinástico que em tempos primitivos foi conhecido como “Chefe do Paraíso”.

Elegia da Minha Infância de José Maria Valverde (1926-1996)

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Sabe bem trazer em nós a sensação de que continuamos o menino que fomos. Significa  que julgamos ainda ter ao nosso alcance a possibilidade da despreocupada harmonia dum mundo que nos surge perfeito na distância a que o vemos. Por isso percebo o apelo de José Maria Valverde(1926-1996):

 Oh, Senhor, aquele menino que era eu, /suplica-te, morto,/que o deixes viver no meu presente um pouco!


Escreve isto José Maria Valverde no seu poema Elegia da Minha Infância, e, noutro passo, dá-nos a sua visão da plenitude de ser quando escreve:

Só vivo por completo quando volto a menino.

 acrescentando depois:

 Que continue em mim, Deus meu – como tu nos dizias -,/ e viverei completamente,/ e sentirei plenamente a vida,/ e serás o meu assombro virginal cada manhã…/

Elegia da Minha Infância


Eis a minha fotografia de criança
a cravar em mim meus olhos, mais profundos que nunca,
com uma coisa vaga
pousada entre as mãos, distraídas e leves.
É o banco de pedra
– os pés não chegando ao chão ainda –
do parque de meus sonhos infantis
onde o sol era amigo
e a areia tomava
um tacto de mãe velha e conhecida.


… Guardo a imagem turva
de um menino que, de repente, se distrai
no meio dos jogos
e ao poente fica pensativo
a escutar o rumor distante das ruas…


O mundo ia nascendo pouco a pouco
para mim unicamente.
A terra era uma alegre maçã de merenda,
um balão de cores inesperado.
Os pássaros cantavam porque eu estava a ouvi-los,
as árvores nasciam quando eu abria os olhos…


E os medos, depois…
Tudo podia ser no escuro do quarto.
Ao fundo do corredor
pulsava todo o negro deste mundo,
todas as vagas forças inimigas,
todas as negações…


Alma da minha infância!
Só vivo por completo quando volto a menino.
Que outra revelação maior do que essa
do mundo e da vida em minhas mãos?
(… quando todas as coisas eram como palavras…)
Que sonho como aquele
de pressentir do limiar da alma
os dias a esperar-me?


Oh, Senhor, aquele menino que era eu,
suplica-te, morto,
que o deixes viver no meu presente um pouco!
Que continue em mim, Deus meu – como tu nos dizias -,
e viverei completamente,
e sentirei plenamente a vida,
e serás o meu assombro virginal cada manhã…


A tradução a partir do castelhano é de José Bento, e foi incluida na já aqui diversas vezes citada Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea publicada por Assírio & Alvim.

Lembrar a poesia de Manuel da Fonseca no ano do centenário

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É talvez chegado o tempo para a poesia de Manuel da Fonseca (1911-1993), afastadas que estão as circunstâncias do combate ideológico e politico de que ela foi bandeira.

As teses académicas, a fortuna e o desprezo, fizeram o seu caminho. É tempo de a ler despidos os preconceitos ideológicos, e seguir, nesta poesia descritiva, a encantatória melodia das palavras.

Escolho o poema MALTÊS, que abriu o livro Planície publicado na colecção neo-realista Novo Cancioneiro, julgo que em 1941.

Nesta história de vida de um Maltês, (será que ainda há quem sabe quem eram?) passa, no pudor de uma forma contida, a dimensão da tragédia de um homem, indomável, em luta para existir, quando nada tem de seu.

Segui-mo-lo na busca pelo caminho – esses outros caminhos que só eu sei (al andar se hace el camino, escreveu por estas alturas António Machado), no confronto com o poder e na rendição ao mais forte:

 E enquanto eles redobravam / sobre o meu corpo tombado, / adormecido  / eu descansava  / de tão longa caminhada!…

No percurso surge o amor entrevisto num olhar, e  poucas vezes teremos tido em português a paixão pelo olhar, tão cara à poesia portuguesa desde o século XVI, como nestes versos:

Que nunca mulher alguma / se rendeu mais a um homem / que a moça do rosto claro /ao cruzar os olhos pretos / com o meu olhar de rei!

MALTÊS

I

Em Cerromaior nasci.

 

Depois, quando as forças deram

para andar, desci ao largo.

Depois, tomei os caminhos

que havia e mais outros que

depois desses eu sabia.

 

E tanto já me afastei

dos caminhos que fizeram,

que de vós todos perdido

vou descobrindo esses outros

caminhos que só eu sei.

II

Veio a guarda com a lei

no cano das carabinas.

 

Cercaram-me num montado;

puseram joelho em terra;

gritaram que me rendesse

à lei dos caminho feitos.

Mas eu olhei-os de longe,

 o rosto apenas virado,

que só vi em meu redor

dez pobres ajoelhados

perante mim, seu senhor.

III

Gente chegou às janelas,

saíram homens à rua:

 – as mães chamaram os filhos,

bateram portas fechadas!

 

E eu, o desconhecido,

o vagabundo rasgado,

entrei o largo da vila

entre dez guardas armados;

– mais temido e mais amado

que o deus a que todos rezam.

– Que nunca mulher alguma

se rendeu mais a um homem

que a moça do rosto claro

ao cruzar os olhos pretos

com o meu olhar de rei!

IV

…E vendo que eu lhes fugia

assim de altiva maneira

à sua lei decorada,

lá,

longe do sol e da vida,

no fundo duma cadeia,

cheios de raiva me bateram.

 

Inanimado,

tombei por fim a um canto.

 

E enquanto eles redobravam

sobre o meu corpo tombado,

adormecido

eu descansava

de tão longa caminhada!…

Quando da morte do escritor, Baptista-Bastos evocou o amigo no jornal Público. Refere a dado passo um episódio que, pela exemplaridade, nos dá uma medida do homem por detrás do poeta, e que aqui transcrevo:

Em outra ocasião, meados dos anos 50, as aflições de dinheiro levaram-no a tentar um emprego que lhe garantisse o arredondar da conta no final do mês. Falou com Aquilino Ribeiro, editorialista de “O Século” e da intimidade de João Pereira da Rosa. “Um lugarzito até como telefonista, na redacção do matutino”, foi a modesta solicitação. O encontro entre o todo-poderoso patrão de “O Século” e Manuel da Fonseca foi aprazado. E Manuel compareceu.

O gabinete de Pereira da Rosa era enorme, grave e intimidante, a condizer com o temperamento e o carácter do director do jornal. Pereira da Rosa recebeu-o com manifesta melancolia: “Sabe, senhor… como disse que se chamava? Manuel Fernandes? Luis da Fonseca? Sabe? A imprensa portuguesa está a atravessar uma crise medonha, terrível…” Manuel da Fonseca sentia-se muito pouco à vontade, mas escutava, atento e paciente, o estendal de misérias preocupantes. Dizia Pereira da Rosa: “Quando vou a Paris, e vou a Paris com frequência, coloco-me junto das saídas do metro, e que vejo? Vejo os franceses a comprar dois ou três jornais, duas ou três revistas, que lêem e atiram, depois, para o caixote do lixo. Em Madrid, em Barcelona, em Roma, a mesma coisa. Aqui é uma desgraça. Uma grande e dolorosa desgraça. As pessoas  compram um jornal, por exemplo, à porta dos cafés, pagam metade do preço aos ardinas e, depois devolvem o exemplar, que vai para devoluções, claro, empobrecendo, cada vez mais, as empresas. Uma desgraça sem solução aparente, senhor Luís Fonseca ou Manuel, desculpe-me, não tenho boa memória para nomes…”

Lentamente, muito lentamente, Manuel da Fonseca ergeu-se da cadeira onde, discreto, estivera sentado. Meteu a mão no bolso, extraiu de lá a última nota de vinte escudos que possuía, estendeu-a a João Pereira da Rosa e disse: “Desculpe a modéstia da oferta, senhor Roseira da Prosa, mas é a esmola que lhe posso dar para acudir aos seus infortúnios.”

As histórias, os episódios, os acontecimentos que protagonizou ou de que foi testemunha activa são numerosos. Manuel da Fonseca encarnou uma época, representou um estilo e criou uma personagem tão lendária e tão fabulosa quanto aqueles que amava e que transfigurou, sem desfigurar, em páginas e páginas admiráveis.

Em ano do centenário aqui fica, parcialmente, este texto notável, arquivado entre as páginas de um jornal diário e esquecido na voragem da edição seguinte.

O texto saiu no Público de 12 de Março de 1993.

Pequena pausa com Satie e um poema de Jorge de Sena

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De entre os poemas que Jorge de Sena (1919-1978) escreveu ouvindo música, e publicou em Arte de Musica, poucos em meu entender penetram no essencial do ouvido como o poema dedicado à música para piano de Erik Satie (1866-1925), e não a uma peça particular como acontece com a generalidade dos poemas do livro.

Enquanto ouço alguma musica de Satie aproveito e transcrevo o poema

ERIK SATIE PARA PIANO

As notas vêm sós por harmonias

como de escalas que se cruzam

em sequências descontínuas de figuras

singelamente acorde surpreendido

de se encontrar num instante pensativo.

São como vagas vindo no perlado

tão diminutas, solitárias mas ligadas

de pura sucessão ocasional

que se rebusca em cálculos descaso

contrário ao hábito de estarem escritas,

ou juntas ou seguidas. Mas é como

se desde sempre este hesitante fluido

houvera de estar pronto a ser pensado

e a soar tranquilo em espaço diminuto

não por ser breve mas por ser silêncio

de uma memória em que a surpresa ecoa

lembranças perpassantes de quanto não foi,

não existiu, não foi vivido e entanto

pungente fere as águas espelhadas

onde de imagens passam vultos claros

em túnicas voando transparentes

e muito curtas sobre membros duros

que dançam devagar a dança juvenil

num salpicar de pés do tempo antigo.

9 Janeiro 72

Podeis aqui ouvir de Erik Satie com Reinbert de Leeuw ao piano: Petite ouverture à danser; Air de l’Ordre; Gnossiennes nº2; e uma das famosas  Gymnopédies, a nº2,

Petite ouverture à danser

Air de l’Ordre

 Gnossiennes nº2

Gymnopédies nº2

O poema foi transcrito de Poesia II publicado por Moraes Editores em 1978, onde se reedita Arte de Musica, sendo que o poema com outros nove não consta da primeira edição de Arte de Musica.

Segundo a nota do poeta: o poema não se reporta especialmente a peça alguma, a não ser, talvez às Gymnopédies e às Gnossiennes. Mas depende fortemente das belissimas gravações do pianista Aldo Ciccolini, da obra completa de Satie para piano.

Para continuada vergonha da edição portuguesa, a obra poética completa de Jorge de Sena continua ausente das livrarias.

“A Bela de Yu” – poema de Jiang Jie (1245-1310)

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Regresso a Uma Antologia de Poesia Chinesa para vos trazer mais uma daquelas obras-primas em miniatura, capazes de dar na concisão do verso o essencial da vida, do tempo e do mundo. São as três fases da vida adulta: juventude, idade madura e velhice que por aqui passam na precisão destes quatorze versos.

Tomando como pano de fundo a constância e eternidade da chuva, vemos como a vida passou e o homem se transformou ouvindo a chuva indiferente.

É um poema de Jiang Jie (1245-1310).

 “A Bela de Yu”

Quando era novo, ouvia a chuva
Acompanhado por bailarinas,
As velas tremulando, no vermelho
Das cortinas de cama.
Depois, ouvi-a nos barcos errantes,
Nos imensos rios, sob nuvens baixas,
No vento de Oeste – lá onde
Grita o ganso selvagem.

Ouço-a agora junto à cabana dos monges
Com prata nos cabelos
Tristeza, alegria, ausência, encontro –
Passam, indiferentes.
Que ela tombe – a chuva, sobre os degraus,
Gota a gota, a noite inteira, até ser dia.


Uma palavra é de justiça sobre a beleza da versão em português. Gil de Carvalho assina aqui mais uma tradução que passará a pertencer de direito própria ao património da poesia portuguesa.

Uma Antologia de Poesia Chinesa por Gil de Carvalho, foi publicado por Assírio & Alvim em 2010.