Beleza ideal e amor humano no soneto 130 de Shakespeare

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Num soneto/paródia ao soneto de amor popularizado desde Petrarca (1304-1374), Shakespeare (1564-1616) dá-nos, no seu soneto 130, um poema onde impera a lucidez sobre a mulher amada e os seus atributos físicos, concluindo por declarar o seu amor excepcional, apesar da ausência dos detalhes que fazem o canon do belo.
O poema é assim uma peremptória afirmação do poder do real humano sobre o ideal, e por ele lemos como o amor triunfa sobre as ideias feitas quando a vida nos toca e o amor nos bate à porta.

 

 

Soneto 130

Minha amante nos olhos sol não tem,
mais rubro é o coral que sua boca,
se a neve é branca, o peito é escuro e bem,
se há toucas de oiro, negro fio a touca.
Vi rosas brancas, rubras, damascadas,
não tem rosas na face, ao contemplá-la,
e há essências que são mais delicadas
do que o bafo que a minha amante exala.
Gosto de ouvir-lhe a voz, contudo sei
da música mais doce a afinação,
e uma deusa a passar jamais olhei,
a minha amante a andar põe pés no chão.
  Creio no entanto o meu amor tão raro
  quão falsas ilusões a que o comparo.

 

Tradução de Vasco Graça Moura
in Os Sonetos de Shakespeare, versão integral, Bertrand Editora, 2007.

 

 

Sonnet 130

My mistress’ eyes are nothing like the sun,
Coral is far more red than her lips’ red;
If snow be white, why then her breasts are dun;
If hairs be wires, black wires grow on her head.
I have seen roses damasked, red and white,
But no such roses see I in her cheeks;
And in some perfumes is there more delight
Than in the breath that from my mistress reeks.
I love to hear her speak, yet well I know
That music hath a far more pleasing sound;
I grant I never saw a goddess go:
My mistress, when she walks, treads on the ground.
   And yet, by heaven, I think my love as rare
   As any she belied with false compare.

 

Transcrito de The Oxford Shakespeare, Complete Sonnets and Poems, Oxford 2002.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Eugène Delacroix (1798-1863).

 

Solta a alegria! — o vinho e a poesia de Al-Mu’tamid

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Eu só quero que me fales
de cantigas e de vinho
deixa lá, tu não te rales
Deus perdoa o descaminho!

I
deixa esta gente vã,
de promessas e intrigas.
ela já não conta nada
pois o meu maior afã
é beber minha golada
nesta tarde tão louçã
ao som de belas cantigas.

 

Neste itinerário do vinho em poesia paremos agora no rei-poeta do Al-Andaluz nascido em Beja, Al-Mu’tamid (1040-1095).
Embora nalguma poesia de  Al-Mu’tamid o beber seja em sentido figurado tentar saciar a inesgotável sede de amor do poeta, nesse percurso de prazer o vinho também entra, ainda que seja, como se sabe, um interdito do Islão.

Além da nota de festa do fragmento de abertura, leiamos em dois poema: primeiro, como o vinho sublima o prazer do amor:

 

A noite lavava as sombras
das suas pálpebras com a aurora.
ligeira corria a brisa.
e bebemos! um vinho velho cor de rubi,
denso de aroma e de corpo suave.

 

E para concluir, mais uma reflexão sobre a finitude e o que vale da vida é o prazer que dela se colhe:
Solta a alegria! Que fique desatada! / esquece a ânsia que roi o coração. /… a vida é uma presa, vai-te a ela! / pois é bem curta a sua duração.

 

 

Poema

Solta a alegria! Que fique desatada!
esquece a ânsia que roi o coração.
tanta doença foi assim curada!
e a vida é uma presa, vai-te a ela!
pois é bem curta a sua duração.

e mesmo que a tua vida acaso fosse
de mil anos plenos já composta
mal se poderia dizer que fora longa.
seres triste sempre não seja a tua aposta
pois que o alaúde e fresco vinho
te aguardam na beira do caminho.

os cuidados não serão de ti os donos
se a taça for espada brilhante em tua mão.
da sabedoria só colherás a turbação
cravado no mais fundo do teu ser:
é que, dentre todos, o mais sábio
é aquele que não cuida de saber.

 

Tradução dos poemas por Adalberto Alves, transcritos de Al-Mutamid poeta do destino, Assírio & Alvim, Lisboa, 1996.

 

Internadas — um poema de Paul Verlaine

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No carrossel das convenções morais, aqui e agora já não é objecto de escândalo o contacto íntimo entre amigas que circunstâncias propícias desencadeia, qual refere este poema de Paul Verlaine (1844-1896), Internadas, até não há muitos anos incluído entre os seus poemas malditos, como a edição portuguesas de onde o transcrevo, evidencia.
A tradução, atrever-me-ia a dizer, mais bela que o original, feita por Luiza Neto Jorge, dá conta, com intensidade, da perturbação erótica que as protagonistas vivem.

O soneto foi inicialmente publicado em Bruxelas em 1867, no livro Amigas, sob o pseudónimo de Pablo Maria de Herlagñes (Ségovie), numa tiragem de 50 exemplares. Condenado à destruição de todos os exemplares pelo Tribunal de Lille, e multado o seu editor, tal não impediu sucessivas edições clandestinas até à sua circulação sem proibições.

 

 

Internadas

Quinze anos uma, a outra uns dezasseis,
Num só quarto dormiam lado a lado.
Era em Setembro, à noite, um ar pesado.
Cor de morango, olhos azuis, tão frágeis.

Despem, como quem livre se deseja,
A veste fina, d’ambar perfumada.
Ergue a mais nova os braços, arqueada,
Enquanto, mãos nos seios, a irmã a beija.

De joelhos já cai, e assim treslouca,
Cola o rosto ao ventre, e sequiosa a boca
Afunda no que é sombra e incandescência;

E a menina recenseia o que sente
Plos débeis dedos, um valsar fremente,
E rosada sorri com inocência.

 

Tradução de Luiza Neto Jorge
in Paul Verlaine, Poemas Malditos, edição em fascículos com doze desenhos de José Rodrigues, Editorial O Oiro do Dia, Porto, 1991.

 

 

Poema original

 

Pensionnaires

L’une avait quinze ans, l’autre en avait seize ;
Toutes deux dormaient dans la même chambre.
C’était par un soir très lourd de septembre
Frêles, des yeux bleus, des rougeurs de fraise.

Chacune a quitté, pour se mettre à l’aise,
La fine chemise au frais parfum d’ambre.
La plus jeune étend les bras, et se cambre,
Et sa soeur, les mains sur ses seins, la baise,

Puis tombe à genoux, puis devient farouche
Et tumultueuse et folle, et sa bouche
Plonge sous l’or blond, dans les ombres grises ;

Et l’enfant, pendant ce temps-là, recense
Sur ses doigts mignons des valses promises,
Et, rose, sourit avec innocence.

 

Transcrito de Paul Verlaine, Poèmes érotiques, Librio, 2006.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura gigante (135x200cm) que hoje nos dá as boas-vindas no Petit Palais, museu de belas-artes da cidade de Paris, pintada por Gustave Courbet (1819-1877) em 1866, Le Sommeil.

 

Jonathan Swift — Resoluções para quando envelhecer

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Embora velhas de mais de trezentos anos, as Resoluções para quando envelhecer escritas por Jonathan Swift (1667-1745) em 1699, conservam em grande parte a acutilância e acerto que as faz intemporais.
Aparentemente, como consequência do envelhecimento, alguns comportamentos são de sempre: considerar que os tempos estão mudados e quando se era jovem é que a vida valia a pena, que os jovens … . Enfim, argumentos conhecidos também hoje.
A sensata lista de Swift que quase integralmente podia servir para os nossos dias, é, evidentemente, como as resoluções de Ano Novo, ou os propósitos de emagrecer:
Não me dispor a cumprir todas estas regras, por receio de não observar nenhuma delas., como o poeta ironicamente conclui.

 

 

Resoluções para quando envelhecer

Não casar com mulher nova.

Não procurar a companhia da gente moça, a menos que ela queira.

Não ser impaciente, nem rabugento,nem desconfiado.

Não depreciar o presente, as suas concepções, modas, homens, guerras, etc.

Não ser doido por crianças, mas também não as repelir.

Não estar sempre a contar a mesma história às mesmas pessoas.

Não ser avarento.

Não negligenciar o decoro, ou o asseio, para não cair na sordidez.

Não ser demasiado severo para com a gente nova, mas ser tolerante para as suas loucuras e fraquezas.

Não ser influenciado, nem dar ouvidos ditos e mexericos de criados, ou seja de quem for.

Não estar sempre a dar conselhos, a menos que nos peçam.

Pedir a alguns bons amigos que me apontem, entre estas resoluções, aquelas que eu não tiver cumprido, ou tiver negligênciado, e em quê; e modificar-me de acordo com essas críticas.

Não falar demais, sobretudo de mim.

Não me gabar de minha beleza passada, da minha força, nem do meu valimento junto das damas, etc.

Não dar ouvidos à lisonja, nem pensar que posso ser amado por uma jovem, “et eos qui hoereditatem captant, odisse ac evitare“.

Não ser categórico nas minhas afirmações, nem teimoso.

Não me dispor a cumprir todas estas regras, por receio de não observar nenhuma delas.

(escrito em 1699)

 

Esta tradução vem incluída na edição de Preceitos para uso do pessoal doméstico, Editorial Estampa, Lisboa, 1970.

 

 

Abre o artigo a imagem do detalhe de uma pintura de Edvard Munch (1863-1944), Auto-retrato frente à parede de casa, de 1926.

Porque o vinho é o espelho dos homens — poemas de Alceu de Mitilene

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Na alegria, como na tristeza ou no desespero, o vinho é companhia e confidente dos homens desde os alvores da civilização. E a sua presença na poesia é quase um universal, olhado o arco geográfico e temporal onde ela surge.
Comecemos uma volta por esta tradição poética com alguns poemas e fragmentos de Alceu de Mitilene (c. 600 a. C.). Outros de outras épocas e latitudes se seguirão.

 

 

O vinho, meu amigo, e a verdade.
(366 L-P)

 

 

Planta a videira de preferência
a outro qualquer arbusto.
(342 L-P)

 

 

É preciso não entregar
o coração ao infortúnio.
Nada lucraremos, ó Bíquis,
com tristezas. O melhor
remédio é pedir
vinho e embriagar-nos.
(335 L-P)

 

 

Bebamos. Porque havemos
de esperar pelas lucernas? O dia
tem a extensão de um dedo. Traz
as taças grandes, meu amor, as coloridas
taças. O filho
de Sémele e de Zeus aos homens
o vinho deu para esquecimento
de seus males. Enche-as
até transbordarem — uma
parte de vinho para duas
de água. E que uma taça
empurre a outra.
(346 L-P)

 

 

Precisamos de embriagar-nos, é preciso
que todos bebam sem descanso, agora
que Mírsilo morreu.
(332 L-P)

 

 

Chove a mando de Zeus, e do céu
cai forte invernia. Estão
gelados os cursos de água.

Combate o frio atiçando
o fogo, misturando
sem descanso o vinho doce
como o mel, e reclina
em seguida a cabeça sobre
uma almofada macia.
(338 L-P)

 

 

Já sinto chegar
a primavera florida…

Misturai depressa no vaso
vinho doce como o mel.
(367 L-P)

 

 

Humedece o vinho a garganta, que o astro
já voltou. É penosa
a estação e tudo
esmorece com o calor. Entre
a folhagem, docemente
a cigarra canta… Floresce
o cardo. É a hora
em que as mulheres se tornam
mais fogosas e mais fracos
os homens, pois que Sírio
as cabeças abrasa e os joelhos.
(347 L-P)*

 

 

Porque o vinho
é o espelho dos homens
(333 L-P)

 

Traduções de Albano Martins
in O essencial de Alceu e Safo, INCM, Lisboa, 1986.

 

A numeração que sucede os poemas respeita à numeração dos poemas originais na edição E. Lobel e D. Page, Poetarum Lesbiorum Fragmenta, Oxford, 1955.

 

* Este poema (347 L-P) foi anteriormente transcrito em artigo no blog embora partir de uma edição diferente.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Giovanni Maria Bottalla (1613-1644), chamado Il Raffaellino, Baco, Temperança e Cupido, de 1640-1642.

 

Contemplar a perfeição com um soneto de Dante

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A evidência da perfeição ao contemplar a beleza na terra transmite-nos uma sensação do divino, por vezes expressa em poesia.
Nas suas manifestações poéticas mais frequentes é a beleza física nos seus detalhes que é cantada dando conta da perfeição que o belo transmite. Hoje o poeta — Dante Alighieri (1265-1321) — encontra a beleza no recato e gentileza de maneiras, transmitindo uma certa ideia de perfeição da mulher tal uma cousa que do céu acuda / à terra, por milagre revelada.

 

 

Soneto no cap. XXVI de Vita Nuova

Parece tão gentil, tão recatada,
minha senhora quando alguém saúda,
que toda a língua treme e fica muda
e olhá-la até seria ideia ousada.

Quando ela passa, ouvindo-se louvada,
benignamente a humildade a escuda,
tal uma cousa que do céu acuda
à terra, por milagre revelada.

Tal graça ao coração de quem na mira
está pelos olhos uma doçura a pôr
que não pode entender quem a não prove;

e dos lábios parece que se move
um espírito suave e só de amor
que vai dizendo à alma assim: Suspira.

Tradução de Vasco Graça Moura

 

 

Para o mesmo poema podemos ler ainda outra tradução, esta de Jorge Vaz de Carvalho, mais fiel ao texto original mas não tão fluente quanto ao poema em português:

 

 

Soneto no cap. XXVI de Vita Nuova

Parece tão gentil e honesta estar
a dama minha quando alguém saúda,
que toda a língua treme e fica muda,
e os olhos não se atrevem olhar.

Ela avança, ouvindo-se louvar,
benignamente em vestia sisuda;
parece coisa que do céu acuda
à terra um milagre a mostrar.

Mostrar-se tão perfeita a quem mira,
que ao coração p’los olhos dá dulçor,
que o não pode entender quem não o prova:

parece que dos lábios seus se mova
suave espírito pleno de amor,
que vai dizendo à alma: Tu, suspira.

Tradução de Jorge Vaz de Carvalho

 

 

Soneto original

Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia, quand’ella altrui saluta,
ch’ogne lingua devèn, tremando, muta,
e li occhi no l’ardiscon di guardare.

Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente d’umiltà vestuta,
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.

Mostrasi sì piacente a chi la mira
che dà per li occhi una dolcezza al core,
che ‘ntender no la può chi no la prova;

e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien d’amore,
che va dicendo a l’anima: Sospira.

 

 

Poemas transcritos respectivamente de A Vita Nuova de Dante Alighieri, tradução e estudo introdutório de Vasco Graça Moura, Bertrand Editora, Lda, Lisboa, 1995; e Vida Nova, tradução, introdução e notas de Jorge Vaz de Carvalho, Relógio d’Agua Editores, Lisboa, 2010.
Ambas as edições são bilingues.

 

 

Abre o artigo a imagem de um fragmento de um fresco no Castelo del Buonconsiglio em Trento, Itália. Trata-se se uma alegoria ao mês de Junho, no ciclo dos meses, parte dos esplendidos frescos do castelo. A autoria dos frescos é anónima, e terão sido realizados provavelmente em finais do século XIV.

 

Nostalgia — poema de Giuseppe Ungaretti

Talvez algum leitor tenha lido Arco de Triunfo de Erich Maria Remarque (1898-1970), ou visto o filme do mesmo nome com Ingrid Bergman (Joan Madou). Há neles uma cena inesquecível quando Charles Boyer (Ravic), médico refugiado em Paris, em fuga dos Nazis, impede o personagem Joan Madou de cometer suicídio. A história prossegue num notável drama com a WWII em fundo, mas o que queria ressaltar é a atmosfera do encontro de duas almas à deriva, numa noite de Paris, à beira-Sena, e que o poema de Giuseppe Ungaretti (1888-1970), Nostalgia, cuja tradução dou a seguir, capta de forma magistral.

Se o poema me trouxe esta memória, ele não precisa dela, nem nela se esgota.
Na economia do seu enunciado são duas vidas que se cruzam, envoltas no mistério das suas vicissitudes, deixando ao leitor a emoção contida naquele mundo sem palavras, onde apenas o ar gera a atmosfera da melancolia de existências à procura de si.

 

 

Nostalgia

Quando
a noite se esvai
pouco antes da Primavera
e só raro
alguém passa

Sobre Paris adensa-se
uma escura cor
de pranto

Num canto
de ponte
contemplo
o ilimitado silêncio
de uma rapariga
frágil

As nossas
doenças
fundem-se

E como deitados fora
permanecemos

 

Tradução de Carlos Mendonça Lopes

Poema original

 

Nostalgia

Quando
la notte è a svanire
poco prima di primavera
e di rado
qualcuno passa

Su Parigi s’addensa
un oscuro colore
di pianto

In un canto
di ponte
contemplo
l’illimitato silenzio
di una ragazza
tenue

Le nostre
malattie
si fondono

E come portati via
si rimane

 

Locvizza il 28 setembre 1916

 

Publicado pela primeira vez no livro L’Allegria.
Transcrito de Poeti italiani del Novecento, Mondadori, 2012.

 

 

Abre o artigo a imagem retrabalhada digitalmente de um cartaz do filme Arco de Triunfo.

 

Fernando Pessoa — um fragmento de Livro do Desassossego

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Tenho assistido, incognito, ao desfalecimento gradual da minha vida, ao sossobro lento de tudo quanto quis ser.

Quantas vezes, contudo, em pleno meio desta insatisfação sossegada, me não sobe pouco a pouco à emoção consciente o sentimento do vácuo e do tédio de pensar assim!

 

São de um texto datado de 2-9-1931 de Livro do Desassossego de Fernando Pessoa (1888-1935), estas linhas de abertura.
Ao ler muita da obra deixada inédita por Fernando Pessoa, e aos poucos publicada após a morte do poeta, somos tentados a concordar com o poeta no que mais à frente neste mesmo texto escreveu:

Sou, em grande parte, a mesma prosa que escrevo. Desenrolo-me em periodos e parágrafos, faço-me pontuações, e, na distribuição desencadeada das imagens, visto-me, como as crianças, de rei com papel de jornal, ou, no modo como faço ritmo de uma série de palavras, me touco, como os loucos, de flores secas que continuam vivas nos seus sonhos.

 

Onde está o homem, ser social e biológico, e o escritor, efabulador de existências, que em um momento ou outro da vida nos tocam de forma profunda e às vezes perene? É a interrogação a que legião de estudiosos se entrega de longa data. Para o leitor comum, o encontro com muito da obra de Pessoa é inevitavelmente um momento singular. Algures no presente ou no passado sentimos assim. Ou alguém perto de nós sentiu assim. E a poesia deixa de ser ornamento da vida, e explica-nos a nós, que de outro modo, às voltas, não nos entendemos.
O fragmento que tenho vindo a citar é mais um deles. Seguem alguns outros extractos:

 

 

2-9-1931
Tenho assistido, incognito, ao desfalecimento gradual da minha vida, ao sossobro lento de tudo quanto quis ser. Posso dizer, com aquela verdade que não precisa de flores para se saber que está morta, que não há coisa que eu tenha querido, ou em que tenha posto, um momento que fosse, o sonho só desse momento, que se me não tenha desfeito debaixo das janelas como pó parecendo pedra caída de um vaso de andar alto. Parece, até, que o Destino tem sempre procurado, primeiro, fazer-me amar ou querer aquilo que ele mesmo tinha disposto para que no dia seguinte eu visse que não tinha ou teria.

Espectador irónico de mim mesmo, nunca, porém, desanimei de assistir à vida. E, desde que sei, hoje, por anticipação de cada vaga esperança que ela há-de ser desiludida, sofro o gozo especial de gozar já a desilusão com a esperança, como um amargo com doce que torna o doce doce contra o amargo. Sou um estratégico sombrio, que, tendo perdido todas as batalhas, traça já, no papel dos seus planos, gozando-lhe o esquema, os pormenores da sua retirada fatal, na véspera de cada sua nova batalha.

Uns dizem que sem esperança a vida é impossivel, outros que com esperança é vazia. Para mim, que hoje não espero nem desespero, ela é um simples quadro externo, que me inclui a mim, e a que assisto como um espectáculo sem enredo, feito só para divertir os olhos — bailado sem nexo, mexer de folhas ao vento, nuvens em que a luz do sol muda de cores, arruamentos antigos, ao acaso, em pontos desconformes da cidade.

Quantas vezes, contudo, em pleno meio desta insatisfação sossegada, me não sobe pouco a pouco à emoção consciente o sentimento do vácuo e do tédio de pensar assim! Quantas vezes não sinto, como quem ouve falar através de sons que cessam e recomeçam, a amargura essencial desta vida extranha à vida humana — vida em que nada se passa salvo na consciencia dela! Quantas vezes, despertando de mim, não entrevejo, do exilio que sou, quanto fora melhor ser o ninguém de todos, o feliz que tem ao menos a amargura real, o contente que tem cansaço em vez de tédio, que sofre em vez de supor que sofre, que se mata, sim, em vez de se morrer!

 

Texto nº 193 na ed. Richard Zenith de Livro do Desassossego, edição Assírio & Alvim com ortografia actualizada, e nº 322 na ed Jerónimo Pizarro, edição Tinta da China, edição esta conservando a ortografia do poeta. Mantém o mesmo número da edição crítica de Fernando Pessoa, publicada pela INCM, com edição também de Jerónimo Pizarro.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Horst Antes (1936), Figura sentada, amarelo.

 

Gomes Leal — Romantismo

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A ironia cáustica de Gomes Leal (1848-1921) debruça-se no poema Romantismo sobre um traço distintivo da poesia romântica — a mulher e o sonho de a ter


Oh como é bela! — Tem na luz do olhar
Quais violetas quando as fecha o sono,
Não sei que doce e lânguido abandono,
Não sei que vago que nos faz cismar!…

 

E neste cismar a mulher ideal, o nosso homem-poeta sonha, em sucessivos transes, poder ser o herói sedutor de populares histórias românticas, qual D.Juan de Lord Byron:


Como eu quisera ser, nos sonhos dela,
Um rei das lendas, o fatal D. Juan,

 

ou o protagonista da grandeza da paixão do Rei de Tule que a balada de Goethe imortalizou:
 …
Como eu deitara a minha taça d’ouro,
Por causa dela, duma torre alta!…

 

 

A paixão romântica, embrulhada na fantasia de uma realidade sonhada é ainda moeda corrente nos nossos dias. Mudou o modelo da mulher ou do homem ideais, mas as juras de amor eterno e casamentos para a vida são ainda aspiração de multidões. E por mais que a realidade em redor o desminta, a fantasia leva o pensamento a considerar que isso só acontece aos outros. É a permanência dessa mentalidade romântica surgida nos seus detalhes com os alvores do século XIX, que aqui se revela, e neste poema Gomes Leal aflora de forma crítica.

Ao longo do poema percorremos um cenário entre a trivialidade material e a grandiloquência que a imaginação permite. A ironia transparece na vulgaridade do quadro em que toda esta grandeza imaginada decorre: a observação indiscreta da intimidade de uma jovem mulher através da janela de casa:

 

Quando ergue o transparente da janela,
Ou que o seu quarto se inundou de luz,

Como eu a espreito, palpitante o seio,
Como eu a sigo nos seus gestos vários,
Naquele quarto, aquele ninho cheio
Da doce voz dos joviais canários!…

 

 

E todo o sonhar romântico termina na banalidade dos dias:


Um cravo murcha, numa jarra, a um canto,
— E as aves voam, debicando o alpiste.

 

Traz este poema em si, além do circunstancialismo do seu assunto, uma chamada de atenção para o que muitas vezes é atitude de vida: a procrastinação plasmada no pendor contemplativo do que se deseja em detrimento da acção para o conseguir, e aqui caricaturado com benévola bonomia. Ter disso consciência é já parte do caminho feito para a vencer.
E agora, leitor, deixo-lhe o poema total:

 

 

Romantismo

Quando ergue o transparente da janela,
Ou que o seu quarto se inundou de luz,
Eu amo vê-la, sedutora e bela,
— Longos cabelos sobre os ombros nus.

Oh como é bela! e como a fico a olhar,
Dos seus cabelos desatando a fita!…
Lembram-me as virgens que do austero Eremita
Vinham as noites de oração tentar.

Oh como é bela! — Tem na luz do olhar
Quais violetas quando as fecha o sono,
Não sei que doce e lânguido abandono,
Não sei que vago que nos faz cismar!…

Como eu a espreito, palpitante o seio,
Como eu a sigo nos seus gestos vários,
Naquele quarto, aquele ninho cheio
Da doce voz dos joviais canários!…

Como eu quisera ser, nos sonhos dela,
Um rei das lendas, o fatal D. Juan,
Pirata mouro, em galeões à vela,
Com minaretes sob o céu do Iran!…

Como eu quisera — e que vontade intensa! —
Só pelo brilho dessa longa trança,
Ser cavaleiro de invencível lança,
Ou rei normando duma ilha imensa!…

Como eu quisera, no seu pensamento,
Ser o rei bardo no rochedo duro,
E ambos, fugindo, recortado vento,
Sobre a garupa dum cavalo escuro!…

Se me morresse, que comprido choro!
Como vergara sob a Cruz de Malta!
Como eu deitara a minha taça d’ouro,
Por causa dela, duma torre alta!…

………………………………………………………

E assim por ela fico preso, enquanto
O sol se esconde no ocidente triste…
Um cravo murcha, numa jarra, a um canto,
— E as aves voam, debicando o alpiste.

 

in Claridades do Sul, segunda edição revista e aumentada, Empresa da História de Portugal, Lisboa, 1901.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), Retrato de mulher (Suzanne Valadon).
Suzanne Valadon (1865-1938) além de modelo em algumas das mais famosas pinturas de Renoir, foi, depois de ser empregada de mesa de café e acrobata, modelo e amante de pintores do impressionismo. Ensinada por Degas (1834-1917),  começou a pintar, sendo mais tarde a primeira mulher admitida na  Société Nationale des Beaux-Arts. Foi também e a mãe do pintor Maurice Utrillo (1883-1955).
Deixo a seguir a imagem de uma sua pintura de 1923, La chambre bleue, a lembrar Matisse (1869-1954), pertença da colecção do Centro Georges Pompidou.

 

Eugénio Lisboa — alguns poemas de O Ilimitável Oceano

Ao ler alguns poemas do livro O Ilimitável Oceano de Eugénio Lisboa (1930), ocorre-me a expressão com que o filósofo Immanuel Kant (1724-1804) deu formulação definitiva à radical diferença entre o eu que pensa e o mundo que nos envolve, no epílogo da sua Crítica da Razão Prática:
Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e com maior assiduidade delas se ocupa a reflexão: O céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim.”(*)

E de sempre, é na aproximação do eu ao mundo que a humanidade reflecte em cada criação cultural, procurando a ligação que permita integrar o indivíduo nessa envolvente que, estranha, surge tanto bela e amistosa, como hostil.

Nos poemas que a seguir transcrevo é dessa interrogada perplexidade que se fala, aqui no questionamento do homem no cosmos levado a cabo por alguns astrólogos famosos, e que moldaram por gerações o pensar de como a humanidade via o seu lugar no universo.

 

 

No túmulo de um Astrónomo

Amei demasiado as estrelas
do céu nu que percorri a dedo,
para que a noite, onde brilham, belas,
em mim seja surto de algum medo.

 

 

Ptolomeu

Como todos, sou mortal:
minha vida é um dia.
Mas quando sigo, fatal,
no céu que nos alumia,
a multidão das estrelas,
sinto, deslumbrado nelas,
meus pés, do chão, levantar.

 

 

Copérnico

O céu que viste era o céu
de Ptolomeu. Mas diferente
foi a forma de o olhar.
No modo de julgar, teu,
a Terra, astro movente,
demitiu-se de pensar
que era o centro do mundo:
assim ver, que abalo fundo!

 

 

Kepler

O mundo próximo, à volta, apodrece.
Fome, mortal conflito e pestilência
turvam o dia que mal amanhece.
Segura-se à pureza da ciência:
o curso aparente das estrelas,
seguindo matemática divina,
deriva, das rigorosas tabelas
do vasto cosmo, a curva sibilina.

 

Poemas transcritos de O Ilimitável Oceano, Quasi Edições, Março de 2001, Vila Nova de Famalicão.

O livro O Ilimitável Oceano faz, em curtos poemas, uma reflexão sintética sobre a obra singular de alguns génios, partindo da criação do mundo e concluindo com o pós apocalipse nuclear. Leitura evidentemente simplista da complexa relação entre a vida da humanidade e o conhecimento científico, é tão só ponto de partida para a reflexão sobre os limites e consequências da investigação científica, algo que deverá, evidentemente, ser procurado noutro lugar.

(*) in Immanuel Kant, Crítica da Razão Prática, tradução de Artur Morão, edições 70, Lisboa, 1986.