Fernando Pessoa no país dos sonhos

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Procurar o sonho na poesia de Fernando Pessoa(1888-1935) é uma viagem emocionalmente arriscada. Ele está lá, mas no deslaçado da existência no mundo da sua poesia, ele é o outro lado a que a vida não chega e do qual uma nostalgia às vezes sobrevive.

 

Ainda muito jovem, Fernando Pessoa na sua poesia desencantava-se da vida e do lugar onde a viver, em termos de pungente desolação:

 

 

Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.

Vive-se como se nasce
Sem o querer nem saber.
Nessa ilusão de viver
O tempo morre e renasce
Sem que o sintamos correr.

O sentir e o desejar
São banidos dessa terra.
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar.

Nem se sonha nem se vive:
É uma infância sem fim.
Parece que se revive
Tão suave é viver assim
Nesse impossível jardim.
21-11-1909

 

 

 

Mais de vinte anos passados, e porque o sonho, embora triste, existiu, o poeta escreve ainda, metaforicamente, a esperança de que sobre o negro do girassol da vida, o seu amarelo lhe dê o calor que a infância espera dela:

 

 

Guardo ainda, como um pasmo
Em que a infância sobrevive,
Metade do entusiasmo
Que tenho porque já tive.

Quase às vezes me envergonho
De crer tanto em que não creio.
É uma espécie de sonho
Com a realidade ao meio.

Girassol do falso agrado
Em torno do centro mudo
Fala, amarelo, pasmado
Do negro centro que é tudo.
18-4-1931

 

 

Adulto, e consciente de si, mesmo assim o sonhar não traz um sentido diferente à existência, conduzindo-a pelo caminho que vontade e desejo podem traçar:


Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.
 …

 

e ainda, no outro poema a seguir transcrito refere:


Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.

 

 

Eis os poemas citados:

 

 

*
Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?
 
Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.
 
As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, estar em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há ou não há o mesmo resta.
 
Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.
 
Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?
20-1-1933

 

 

**
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.
24-8-1930

 

 

 

O confronto entre o eu poético de Fernando Pessoa e o mundo é sempre desencantado, se não mesmo amargo, e sonhos de que o futuro traga dias melhores não existem:

 

Lá fora a vida estua e tem dinheiro.
Eu, aqui, nulo e afastado, fico
O perpétuo estrangeiro
Que nem de sonhar já sou rico.

 

Ou como refere noutro poema:


Dentro em breve (poucos anos
É quanto vive quem vive),
Eu, anseios e enganos,
Eu, quanto tive ou não tive,
Deixarei de ser visível
Na terra onde dá o Sol,

 

Estes são fragmentos de complexos poemas que transcrevo a seguir, interpeladores da existência, do estado do mundo, do papel do indivíduo nele, onde sonhos não têm lugar:

 

 

***
Se penso mais que um momento
Na vida que eis a passar,
Sou para o meu pensamento
Um cadáver a esperar.

Dentro em breve (poucos anos
É quanto vive quem vive),
Eu, anseios e enganos,
Eu, quanto tive ou não tive,
Deixarei de ser visível
Na terra onde dá o Sol,
E, ou desfeito e insensível,
Ou ébrio de outro arrebol,
Terei perdido, suponho,
O contacto quente e humano
Com a terra, com o sonho,
Com mês a mês e ano a ano.

Por mais que o Sol doire a face
Dos dias, o espaço mudo
Lembra-nos que isso é disfarce
E que é a noite que é tudo
1-5-1931

 

 

****
Lá fora a vida estua e tem dinheiro.
Eu, aqui, nulo e afastado, fico
O perpétuo estrangeiro
Que nem de sonhar já sou rico.

Não sou ninguém, o meu trabalho é nada
Neste enorme rolar da vida cheia,
Vivo uma vida que nem é regrada
Nem é destrambelhada e alheia.

E um século depois terá esquecido
Tudo quanto estuou e foi ruído
Nesta hora em que vivo. E os bisnetos
Dos opressores de hoje, desta louca luta
Saberão, mas vagamente, a data
— E claramente os meus sonetos.
2-9-1922

 

 

Em todos estes poemas pressente-se o desejo de uma vida que não se viveu, e o medo de a sonhar traz consigo a dura e desencantada consciência do seu vazio, algo que o poema com que termino eloquentemente enuncia:

 

*****
Deslembro incertamente. Meu passado
Não sei quem o viveu. Se eu mesmo fui,
Está confusamente deslembrado
E logo em mim enclausurado flui.
Não sei quem fui nem sou. Ignoro tudo.
Só há de meu o que me vê agora —
O campo verde, natural e mudo
Que um vento que não vejo vago aflora.
Sou tão parado em mim que nem o sinto.
Vejo, e onde [o] vale se ergue para a encosta
Vai meu olhar seguindo o meu instinto
Como quem olha a mesa que está posta.
13-9-1934

 

Poemas transcritos de Fernando Pessoa, Novas Poesias Inéditas, Edições Ática, 1973.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Magritte (1898-1967).

 

Pelo Natal com poemas de Miguel Torga

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Ao longo das páginas dos XVI volumes do Diário (1941-1993) tem Miguel Torga (1907-1995) espalhado um Cancioneiro de Natal. Não livro temático deliberado, mas poemas/apontamentos reflexivos e sentimentais sobre a data e o seu significado pessoal. Se em muitos poemas é a memória e o sentir próprio que se reflectem, noutros é a leitura social do significado da crença, o que encontramos.

Destes vinte e tal poemas explicitamente assinalados, e espalhados ao longo dos últimos cinquenta anos da vida do poeta (do Natal de 1940 ao Natal de 1991), transcrevo a seguir cinco. Se o consolo da fé não surge evocado, a esperança que a mitologia da data encerra nas suas múltiplas possibilidades, está sempre presente, à mistura com a amargura de que o mundo não seja o lugar de paz e harmonia que a cada nascimento se promete.

 

Loa

É nesta mesma lareira,
E aquecido ao mesmo lume,
Que confesso a minha inveja
De mortal
Sem remissão
Por esse dom natural,
Ou divina condição,
De renascer cada ano,
Nu, inocente e humano
Como a fé te imaginou,
Menino Jesus igual
Ao do Natal
Que passou.

S. Martinho da Anta, 24 de Dezembro de 1969.

 

 

Natal

Todos os anos, nesta data exacta,
Momentos antes
De fechar o cartório
De poeta
— Um registo civil ultra-real —,
O mago desse arquivo de presságios
Regista de antemão o mesmo nome
No seu livro de assentos:
— Jesus… — repete com melancolia,
A consumar a morte prematura
Do nascituro,
E a lamentar que a mãe, Virgem Maria,
Humana criatura,
Continue a ter filhos no futuro
Condenados à mesma desventura.

S. Martinho da Anta, 24 de Dezembro de 1973.

 

 

Natal

Soa a palavra nos sinos,
E que tropel nos sentidos,
Que vendaval de emoções!
Natal de quantos meninos
Em nudez foram paridos
Num presépio de ilusões.

Natal da fraternidade
Solenemente jurada
Num contraponto em surdina.
A imagem da humanidade
Terrenamente nevada
Dum halo de luz divina.

Natal do que prometeu,
Só bonito na lembrança.
Natal que aos poucos morreu
No coração da criança,
Porque a vida aconteceu
Sem nenhuma semelhança.

Coimbra, Natal de 1974.

 

 

Natal

Ninguém o viu nascer.
Mas todos acreditam
Que nasceu.
É um menino e é Deus.
Na Páscoa vai morrer, já homem,
Porque entretanto cresceu
E recebeu
A missão singular
De carregar a cruz da nossa redenção.
Agora, nos cueiros da imaginação,
Sorri apenas
A quem vem,
Enquanto a Mãe,
Também
Imaginada,
Com ele ao colo,
Se enternece
E enternece
Os corações,
Cúmplice do milagre, que acontece
Todos os anos e em todas as nações.

Coimbra, 25 de Dezembro de 1983.

 

 

Natal

Menino Jesus feliz
Que não cresceste
Nestes oitenta anos!
Que não tiveste
Os desenganos
Que eu tive
De ser homem,
E continuas criança
Nos meus versos
De saudade
Do presépio
Em que também nasci,
E onde me vejo sempre igual a ti.

Coimbra, 24 de Dezembro de 1988.

 

 

Poemas transcritos de Miguel Torga, Poesia Completa, 2 volumes, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2007.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Master Francke, presumivelmente de 1424. Mestre Francke foi pintor activo no norte da Alemanha nos primórdios do século XV, e de cuja vida e obra hoje pouco se sabe.

 

Dia de Outono — O poema de Rainer Maria Rilke

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Rainer Maria Rilke (1875-1926) dá-nos no poema Herbsttag, Dia de Outono, o pretexto para a reflexão sobre o caminho do crepúsculo, não o do ciclo das estações com a sua esperança de eterno retorno, mas o da vida, fazendo meditar no doce/amargo da plenitude vivida e da solidão do fim. Longa a vida, apenas o é quando surge o cansaço dela:

Senhor: é tempo. Foi muito grande o verão.
Nos relógios de sol estira as tuas sombras,
deixa que pelo prado os ventos vão.

E mesmo assim, ainda é tempo para o desejo de gozar dos frutos apetecidos:

Manda aos últimos frutos a espessura,
dá-lhes do sul ainda mais dois dias,
força a plenitude neles, vê se envias
ao vinho forte a última doçura.

Apenas a solidão dá pretexto ao desalento:

Quem não tem casa agora, já não constrói nenhuma,
quem agora está só, vai ficar só, sombrio,
perder o sono, ler, escrever cartas a fio,
e a um ir e vir inquieto nas áleas se acostuma,
vagueando enquanto as folhas lá vão num rodopio.

Transcrevo a seguir a admirável versão portuguesa do poema por Vasco Graça Moura que acima citei em fragmentos. Completo-a com duas outras versões: uma por Paulo Quintela, outra por Maria João Costa Pereira trazida da sua tradução de O Livro das Imagens, a que o poema pertence. No final incluo o poema original.

Dia de Outono

Senhor: é tempo. Foi muito grande o verão.
Nos relógios de sol estira as tuas sombras,
deixa que pelo prado os ventos vão.

Manda aos últimos frutos a espessura,
dá-lhes do sul ainda mais dois dias,
força a plenitude neles, vê se envias
ao vinho forte a última doçura.

Quem não tem casa agora, já não constrói nenhuma,
quem agora está só, vai ficar só, sombrio,
perder o sono, ler, escrever cartas a fio,
e a um ir e vir inquieto nas áleas se acostuma,
vagueando enquanto as folhas lá vão num rodopio.

Tradução de Vasco Graça Moura
in Rainer Maria Rilke, Elegias de Duíno, Os Sonetos a Orfeu, Bertrand Editora, Lisboa, 2007.

Dia de Outono

Senhor: é tempo. O Verão foi muito longo.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre as campinas.
Manda que os últimos frutos se arredondem;
dá-lhes inda dois dias mais meridionais,
leva-os à perfeição e faze entrar
a última doçura no vinho pesado.

Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.
Quem agora está só, longo tempo o será.
Fará vigílias, e lerá, escreverá longas cartas
e vagueará, de cá para lá, nas alamedas,
agitado, quando o vento arrasta as folhas.

Tradução de Paulo Quintela,
in Rainer Maria Rilke, Poemas, As Elegias de Duíno, Sonetos a Orfeu, Porto, 2001.

Dia de Outono

Senhor: é tempo. O Verão foi muito longo.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre os campos.

Ordena aos últimos frutos que amadureçam;
dá-lhes ainda dois dias meridionais,
apressa-os para a plenitude e verte
a última doçura no vinho pesado.

Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.
Quem agora está só, assim ficará por muito tempo,
velará, lerá, escreverá longas cartas
e vagueará inquieto pelas alamedas acima e abaixo,
quando caírem as folhas.

Tradução de Maria João Costa Pereira,
in Rainer Maria Rilke, O Livro das Imagens, Relógio d’Água, Lisboa, 2005.

Poema original

Herbsttag

Herr: es ist Zeit. Der Sommer war sehr gross.
Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren,
und auf den Fluren lass die Winde los.
 
Befiehl den letzten Früchten voll zu sein;
gib ihnen noch zwei südlichere Tage,
dränge sie zur Vollendung hin und jage
die letzte Süsse in den schweren Wein.
 
Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr.
Wer jetzt allein ist, wird es lange bleiben,
wird wachen, lesen, lange Briefe schreiben
und wird in den Alleen hin und her
unruhig wandern, wenn die Blätter treiben.

Abre o artigo a imagem de uma minha pintura digital de 2004.
Carlos Mendonça Lopes

O que parte não volta ainda que regresse — poemas de José Emilio Pacheco

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Numa preciosa obra-prima, a novela As Batalhas no Deserto, o poeta mexicano José Emilio Pacheco (1939-2014) faz um exercício de memória dando conta de como nos anos 50 e mesmo inícios de 60 do século XX, se antecipava, por lá, e por cá, o ano 2000 e o século XXI:


Diziam os jornais: O mundo atravessa momento angustiante. O espectro da guerra final projecta-se no horizonte. O símbolo sombrio do nosso tempo é o cogumelo atómico. No entanto, havia esperança. Os nossos livros da escola afirmavam: Visto no mapa o México tem forma de cornucópia ou corno da abundância. Para o impensável ano 2000 augurava-se — sem especificar como íamos consegui-lo — um futuro de plenitude e bem-estar universais. Cidades limpas, sem injustiça, sem pobres, sem violência, sem engarrafamentos, sem lixo. Para cada família uma casa ultramoderna e aerodinâmica (palavras da época). Não faltaria nada a ninguém. As máquinas fariam todo o trabalho. Ruas repletas de árvores e fontes, cruzadas por veículos sem fumo nem barulho nem possibilidade de colisões. O paraíso na terra. A utopia por fim conquistada.

 

Sabemos hoje quanto esta fantasia se transformou na perplexa realidade que nos cerca um pouco por todo o mundo. Mudou o mundo, mudámos nós com ele. E de nós no mundo falam alguns dos poemas de José Emilio Pacheco  que a seguir ofereço em tradução minha.

 

 

O Amanhã

Aos vinte anos disseram-me: “Há
Que sacrificar-se pelo amanhã”.

E oferecemos a vida no altar
Do deus que nunca chega.

Gostaria de me encontrar já no final
Com os velhos mestres desse tempo.

Teriam que dizer-me se de verdade
Todo o horror de hoje era o amanhã.

 

Original publicado no livro Como la lluvia [2001-2008].

 

 

Houve a vida, e outros poemas em que o desacerto entre realidade e sonho ou promessa se debatem. Primeiro já com o século XX a terminar, a dúvida entre a realidade e a fidelidade da memória:

 

 

Memória

Não tomes muito a sério
O que te diz a memória.

Provavelmente essa tarde não existiu,
Talvez tudo tenha sido auto-engano.
A grande paixão só existiu no teu desejo.

Quem te diz que não são ficções o que te contas
Para alongar o adiamento do fim
E sugerir que tudo isto
Teve ao menos algum sentido.

 

Original publicado em La arena errante [1992-1998].

 

 

Depois o confronto entre o indivíduo que sonhámos ser, e o homem que na vida se fez, com aquele belíssimo verso que escolhi para título do artigo — O que parte não volta ainda que regresse. — admirável formulação de quanto o passar do tempo nos modifica:

 

Aquele outro

Hoje veio ver-me o que não fui:
Aquele outro
Já para sempre não existência pura,
Ardil verbal para fôra,
Forma atenuada de dizer não fui.

Agora o entendo:
Quem não fui triunfou,
A realidade não o manchou, não teve
Que adaptar-se à eterna sordidez.
Jamais capitulou ou vendeu a alma
Por uma onça de sobrevivência.

O que não fui foi-se como se nada.
Já nunca voltará, já é impossível.

O que parte não volta ainda que regresse.

 

Original publicado em La edad de las tinieblas [2009].

 

 

No intervalo deste tempo entre dúvidas de memória e certezas de vida, esteve sempre a frieza da morte que tudo ronda ou:


Quem sabe se interpreto mal:
É compaixão
O que mostram estas caras lívidas.

 

 

Embora pareça circunscrito a um povo, o poema Moralidades é de toda a humanidade: a morte dos outros obriga sempre a olharmos quem somos, seja na compunção, no sentir a tragédia, ou na indiferença:

 

 

Moralidades

O nosso povo pratica a moral
E faz de cada acto uma lição ética.

Aqui nunca enterramos os mortos.
Deixamo-los apodrecer na praça pública

Para que esta humilhação final
Nos obrigue a olharmo-nos como somos.

 

Original publicado no livro Como la lluvia [2001-2008].

 

 

Falar da morte é sempre falar de nós e das interrogações que nos assaltam. Termino esta curta viagem com esse enigma:

 

 

Morgue

Não faz calor neste anexo do inferno.

Os mortos regressaram à idade do gelo.

Talvez se os deixássemos aqui
Se tornassem imortais.

Horror a vida desde o iglô da morte.

Para isto nascemos?,
Perguntamo-nos
Ao profanar a morgue com nossos olhos
E ver
Um gesto de reprovação nos cadáveres.

Quem sabe se interpreto mal:
É compaixão
O que mostram estas caras lívidas.

 

Original publicado no livro Como la lluvia [2001-2008].

 

 

Originais lidos em Tarde o Temprano [Poemas 1958-2009], Tusquets Editores, Barcelona, 2010.
Tradução dos poemas por Carlos Mendonça Lopes.
Novela As Batalhas no Deserto, Oficina do livro, Cruz Quebrada —Dafundo, 2006.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma fotografia de Loretta Lux (1969), fotógrafa alemã nascida na antiga Alemanha de Leste. Como sabemos, país desaparecido, onde o paraíso na terra, ou algo próximo, chegou a ser declarado.

Uma mulher espera por mim — um poema de Walt Whitman

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Entre adesão e controvérsia, a poesia de Walt Whitman (1819-1892) continua hoje, cento e cinquenta anos passados, a trazer ao leitor o confronto entre o sentir e a biologia, no que a abrir o poema Uma mulher espera por mim, este regista, a saber, o papel fundamental do sexo na vida de todos nós:


O sexo contém tudo, corpos, almas,
Intenções, provas, pureza, delicadeza, resultados, promulgações,
Canções, ordens, saúde, orgulho, mistério da maternidade, o leite seminal
Todas as esperanças, benefícios, concessões, todas as paixões, amores, belezas, delícias da terra,
Todos os governos, juízes, deuses, os que para nós são como ídolos
Tudo isto está contido no sexo como partes e justificações dele mesmo.

 

O indivíduo de quem Walt Whitman fala na sua obra poética é um ser ideal, encarnação e portador de um modelo de humanidade futura. E se o homem é o objecto da sua reflexão, fazendo a defesa das relações homoeróticas como condição da masculinidade viril, no poema Uma mulher espera por mim, a mulher surge numa situação de igualdade desde que preencha condições de virilidade:


Agora afasto-me das mulheres insensíveis
Irei ficar com aquela que me espera, e com aquelas mulheres que são quentes e suficientes para mim,
Vejo que elas me compreendem e não me recusam,
Vejo que elas me merecem, serei o marido robusto dessas mulheres.

Nelas nada é inferior a mim
Têm o rosto bronzeado pelos sóis brilhantes e pelos ventos que sopram
A sua carne tem a antiga elasticidade e força divinas
Sabem nadar, remar, montar, lutar, atirar, correr, combater, recuar, avançar, resistir, defender-se
São irevogáveis quanto aos próprios direitos — são calmas, claras, em plena posse de si mesmas.

 

No tom proclamatório de toda a poesia de Walt Whitman, este Uma mulher espera por mim é o poema genesíaco que cria a humanidade nova:


Sobre vós, enxerto os enxertos do que há de mais querido em mim e na América,
As gotas que destilo sobre vós farão crescer raparigas impetuosas e atléticas, novos artistas, músicos e cantores,
As crianças que gero em vós hão-de gerar, por sua vez, crianças,
Dos meus dispêndios amorosos exigirei homens e mulheres perfeitos,
Esperarei que eles se interpenetrem noutros como eu e vós nos interpenetramos agora,

 

Numa América penetrada pela leitura da Bíblia, é interessante confrontar esta visão darwiniana do cruzamento dos mais fortes conduzindo a uma humanidade melhor, e verificar em que extensão o “acessório biológico” que é a mulher no poema de Walt Whitman se afasta da visão da mulher proclamada no Provérbio 31 do Livro dos Provérbios.
No final do artigo transcrevo uma sua versão literária da Vulgata, para confronto.

Folhas de Erva, livro que reúne a produção poética essencial do autor, foi inicialmente publicado em 1855, e teve sucessivas revisões e adições.
A secção Filhos de Adão onde o poema Uma mulher espera por mim se integra, foi acrescentada à obra na edição de 1856, juntamente com a secção Cálamo.

Este poema, Uma mulher espera por mim, foi pretexto para a 6.ªedição do livro, em 1881-82 ser acusada de obscenidade.

 

Uma mulher espera por mim

Uma mulher espera por mim, tem tudo, nada lhe falta,
Todavia, tudo faltaria se o sexo faltasse, ou se a seiva do homem certo faltasse,

O sexo contém tudo, corpos, almas,
Intenções, provas, pureza, delicadeza, resultados, promulgações,
Canções, ordens, saúde, orgulho, mistério da maternidade, o leite seminal
Todas as esperanças, benefícios, concessões, todas as paixões, amores, belezas, delícias da terra,
Todos os governos, juízes, deuses, os que para nós são como ídolos
Tudo isto está contido no sexo como partes e justificações dele mesmo.

Sem vergonha o homem de quem gosto sabe e reconhece delícia do seu sexo
Sem vergonha a mulher de quem gosto sabe e reconhece a sua.

Agora afasto-me das mulheres insensíveis
Irei ficar com aquela que me espera, e com aquelas mulheres que são quentes e suficientes para mim,
Vejo que elas me compreendem e não me recusam,
Vejo que elas me merecem, serei o marido robusto dessas mulheres.

Nelas nada é inferior a mim
Têm o rosto bronzeado pelos sóis brilhantes e pelos ventos que sopram
A sua carne tem a antiga elasticidade e força divinas
Sabem nadar, remar, montar, lutar, atirar, correr, combater, recuar, avançar, resistir,    defender-se
São irevogáveis quanto aos próprios direitos — são calmas, claras, em plena posse de si mesmas.

Atraio-vos para mim, vós, mulheres,
Não posso deixar-vos partir, quero fazer-vos bem,
Sou para vós, e vós sois para mim, não só por nós, mas pelos outros,
Envoltos em vós dormem os maiores heróis e bardos
Recusam despertar ao contacto de qualquer homem que não seja eu.

Sou eu, vós, mulheres, que abro o caminho
Sou severo, amargo, grande, inflexível, mas amo-vos,
Não vos faço sofrer mais do que necessitais
Derramo o fluido para criar filhos e filhas que sirvam estes Estados, forço com um     músculo lento e rude
Torno-me duro com eficácia, surdo a quaisquer súplicas,
Não me atrevo a retirar sem depositar o que durante longo tempo se acumulou dentro de mim.

Através de vós esgotam-se os meus reprimidos rios,
Em vós venho guardar milhares de anos futuros
Sobre vós, enxerto os enxertos do que há de mais querido em mim e na América,
As gotas que destilo sobre vós farão crescer raparigas impetuosas e atléticas, novos artistas, músicos e cantores,
As crianças que gero em vós hão-de gerar, por sua vez, crianças,
Dos meus dispêndios amorosos exigirei homens e mulheres perfeitos,
Esperarei que eles se interpenetrem noutros como eu e vós nos interpenetramos agora, Contarei com os frutos das suas exuberantes bátegas como conto com os frutos das minhas exuberantes bátegas agora derramadas.
Procurarei colheitas de amor a partir dos nascimentos, da vida, da morte, da imortalidade que com tanta ternura agora planto.

Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
in Walt Whitman, Folhas de Erva, vol 1, Relógio d’Água, Lisboa, 2002.
O poema original encontra-se facilmente na internet.

 

Livro dos Provérbios
Provérbio 31
Versículos 10-31

Mulher exemplar não é fácil de encontrar;
ela vale muito mais que as jóias!
O seu marido confia inteiramente nela,
não lhe faltando com nada.
Ela só lhe dá satisfação e nunca desgostos,
todos os dias da sua vida.
Ela procura lã e linho
e trabalha de boa vontade com as suas mãos.
Tal como um navio mercante,
ela traz as suas provisões de muito longe.
Levanta-se antes de romper o dia,
prepara de comer para a família
e distribui as tarefas pelas suas criadas.
Examina um terreno e compra-o
e planta uma vinha com o produto do trabalho.
Põe-se ao trabalho com toda a energia;
os seus braços nunca estão parados.
Vigia bem os seus negócios;
durante a noite, a sua lâmpada mantém-se acesa.
As suas mãos trabalham com a roca de fiar
e os seus dedos, com o fuso.
Estende a mão segura aos infelizes
e é generosa para com os pobres.
Não receia a neve para os seus familiares,
porque todos eles trazem roupa suficiente.
Ela faz as suas próprias mantas
e os tecidos de linho e púrpura com que se veste.
O seu marido é conhecido e considerado na assembleia,
quando toma assento no conselho dos anciãos da terra.
Ela faz tecidos de linho fino para vender
e fornece cintos aos mercadores.
Reveste-se de força e dignidade
e sorri a pensar no futuro.
Fala sempre com sabedoria
e dá concelhos com bondade.
Vigia tudo o que se passa na sua casa
e não prova o pão da ociosidade.
Os seus filhos levantam-se para a felicitar
e o seu marido, para a elogiar:
“Muitas mulheres foram exemplares,
 mas tu és a melhor de todas.”
Encantos são enganos e beleza é ilusão,
mas uma mulher que respeita o SENHOR é digna de elogio.
Recompensem-na com o fruto das suas mãos
e louvem-na diante da assembleia pelo seu trabalho.

in a BÍBLIA para todos, edição literária, edição Temas e Debates e Circulo de Leitores, Lisboa, 2009.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura, Auto-retrato, de Alice Neel (1900-1984), realizada em 1980. A pintura integra a colecção da National Portrait Gallery de Washington.
Confrontar vigor, beleza física ideal, e humanidade no tempo, é o propósito de associar esta imagem ao artigo.
O papel da arte é também o de nos levar a sensibilidade ao encontro do pensamento.

Ruy Belo — Orla marítima

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o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos

 

O eco de um verso de António Nobre [Ó suaves e frescas raparigas,](1) no início do poema Orla marítima de Ruy Belo (1933-1978) leva-me a abrir o artigo com a imagem de uma pintura de Claude Monet (1840-1926), evocativa de um tempo de harmonia e encanto que à uma atravessam tanto este poema como o soneto nº4 do livro de António Nobre (1867-1900).

 

Orla marítima conduz-nos por uma densa reflexão sobre a vida, o que deixámos para trás,  meditado … / ao sol dos solitários dias de dezembro / .
Repleto de belos versos, … / Ali fica o retrato destes dias / gestos e pensamentos tudo fixo / …, dando-nos conta de como … / Sabemos agora em que medida merecemos a vida.

Melhor que qualquer comentário, são as palavras do poeta para o dizer.

 

Orla marítima

O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios da vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão* solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida

 

* Tenho dúvidas que a palavra impressa na edição que possuo seja a correcta no contexto do poema. Inclino-me para que em vez de pagão a palavra correcta seja pregão e os versos seriam:
[Manhã dos outros não nossa manhã / pregão* solar de uma alegria calma].
Poema transcrito de Ruy Belo, Todos os Poemas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

 

 

(1) Para quem o não conheça, deixo o soneto nº4 do livro de António Nobre:

Soneto nº4
Ó virgens que passais, ao sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido Lar.

Cantai-me, nessa voz omnipotente,
O Sol que tomba, aureolando o Mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a Graça, a formosura, o luar!

Cantai! cantai as límpidas cantigas!
Das ruínas do meu Lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho como um ai…
Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me nessa voz… Cantai!
Porto 1896

in António Nobre, Poesia Completa, Círculo de Leitores, 1987.

 

 

A imagem da pintura de Claude Monet que abre o artigo, Jardim em Sainte-Adresse, feita em 1867, num tempo em que a pincelada brusca que caracterizou a sua última pintura começava a surgir, pertence à colecção do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque.

 

Miguel Hernández — Eu não quero mais luz que teu corpo ante o meu

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É numa aproximação à luminosidade do amor que Miguel Hernández (1910-1942), no poema [Yo no quiero más luz que tu cuerpo ante el mío] dá conta do fulgor da paixão.
Luz que simultaneamente ilumina e cega, o poeta conta-o de forma superlativa:

En mi sangre, fielmente por tu cuerpo abrasada, / para siempre es de noche: para siempre es de día.

 

Os lugares comuns do enunciado da paixão de todos conhecidos, ainda que não experimentados, surgem enunciados neste poema numa linguagem poética peculiar, onde a luz inunda a escrita, transmitindo ao leitor o deslumbramento desse abismo que a paixão é:

No hay más luz que tu cuerpo, no hay más sol: todo ocaso.

 

 

É este um poema singular na obra do poeta de curta vida, mais focada numa crítica do mundo e das suas injustiças que  nos abalos da paixão.

 

 

Embora o poema original seja de fácil leitura em português, deixo aos leitores uma tradução minha, que eventualmente elucidará uma ou outra dificuldade.

 

 

Poema

Yo no quiero más luz que tu cuerpo ante el mío:
claridad absoluta, transparencia redonda.
Limpidez cuya entraña*, como el fondo del río,
con el tiempo se afirma, con la sangre se ahonda.

¿Qué lucientes materias duraderas te han hecho,
corazón de alborada, carnación matutina?
Yo no quiero más día que el que exhala tu pecho.
Tu sangre es la mañana que jamás se termina.

No hay más luz que tu cuerpo, no hay más sol: todo ocaso.
Ya no veo las cosas a otra luz que tu frente.
La otra luz es fantasma, nada más, de tu paso.
Tu insondable mirada nunca gira al poniente.

Claridad sin posible declinar. Suma esencia
del fulgor que ni cede ni abandona la cumbre.
Juventud. Limpidez. Claridad. Transparencia
acercando los astros más lejanos de lumbre.

Claro cuerpo moreno de calor fecundante.
Hierba negra el origen: hierba negra las sienes.
Trago negro los ojos, la mirada distante.
Día azul. Noche clara. Sombra clara que vienes.

Yo no quiero más luz que tu sombra dorada
donde brotan anillos de una hierba sombría.
En mi sangre, fielmente por tu cuerpo abrasada,
para siempre es de noche: para siempre es de día.

Poema /Tradução

Eu não quero mais luz que teu corpo ante o meu:
claridade absoluta, transparência redonda.
Limpidez cujo coração*, como o fundo do rio,
com o tempo se afirma, com o sangue se funde.

Que luzentes, duradoras matérias te fizeram,
coração de alvorada, carnação matutina?
Eu não quero mais dia que o que exala o teu peito.
Teu sangue é a manhã que jamais se termina.

Não há mais luz que teu corpo, não há mais sol: tudo ocaso.
Já não vejo as coisas a outra luz que a tua.
A outra luz é fantasma, nada mais, da tua passagem.
Teu insondável olhar nunca se volta a poente.

Claridade sem possível declínio. Suma essência
do fulgor que não cede nem abandona o cume.
Juventude. Limpidez. Claridade. Transparência
aproximando os astros mais distantes de luz.

Claro corpo moreno de calor fecundante.
Erva negra a origem: erva negra os templos.
Andorinha preta, o olhar distante.
Dia azul. Noite clara. Sombra clara que vens.

Eu não quero mais luz que tua sombra dourada
donde brotam anéis de uma erva sombria.
No meu sangue, fielmente por teu corpo abrasado,
para sempre é de noite: para sempre é de dia.

Tradução Carlos Mendonça Lopes

Poema original transcrito de Miguel Hernández, Antología, Editorial Losada, Buenos Aires, 1960.

* No verso 3 surge a palavra entraña, a qual, numa recente edição (2010) da Espasa Libros, na prestigiosa colecção Austral: Antologia Poética, edição comemorativa; escreve neste verso a palavra extraña. Porque penso que o poeta se refere ao coração, escrevi a versão da edição mais antiga da Editorial Losada de Buenos Aires.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Gerhard Richter (1932), Nu descendo as escadas, de 1966.
Para o que ao artigo importa, a mulher, comum, e não de uma beleza ideal, desce das alturas do escuro de uma vida sem amor, para a proximidade de quem a espera e deseja, ainda na difusa forma dos sonhos, caminhando para a luz da realidade de quem deseja.

 

Serradura e Cinco Horas — poemas de Mário de Sá Carneiro

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Entre o que julgámos querer ser e fazer, e o que a realidade nos mostra que concretizámos, vai o abismo que a vida vivida cavou. Quase sempre os sonhos de acção e aventura terminam no desejo irreprimível de sossego e conforto:


Pois é assim: a minha Alma / Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma, /  E hoje sonha só pelúcias.

 

Este conflito entre acção desejada e vida de monotonia referido por Mário de Sá Carneiro (1890-1916) no poema Serradura, cedo ou tarde atravessa os leitores de qualquer época. Poucos conseguem fazer o balanço do seu viver e concluir por um acerto entre o desejado e o feito.

Uma sensação de desacerto entre o indivíduo e a vida que lhe foi dado viver atravessa a poesia de Mário de Sá Carneiro e nos poemas Serradura e Cinco Horas encontramos exemplo eloquente:

 

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.

 

Isto diz a abrir o poema Serradura, para, no poema Cinco Horas, a certa altura referir:

… / Nos cafés espero a vida / Que nunca vem ter comigo: / …

 

Na letra destes poemas não encontramos densidade de reflexões a propósito do que acima referi, mas é antes na trivialidade dos seus relatos que elas se escondem.

Serradura, poema variadamente colorido de acção hipotética, revela na sua ironia mordaz, a impotência do indivíduo no discernir do que na vida melhor se lhe ajusta:

 

Serradura

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.

Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o “Matin” de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

Folhetim da “Capital”
Pelo nosso Júlio Dantas —
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual…

O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!…

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra uma porta aberta…

Isto assim não pode ser…
Mas como achar um remédio?
— Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:

O que era fácil — partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

A gritar ”Viva a Alemanha”…
Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade…

Vou deixá-la — decidido —
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

 

(Nota à margem: serradura, pó de madeira, deitava-se à época no chão de cafés e tabernas modestos para absorver líquidos entornados e facilmente os varrer para o lixo.)

 

 

Em Cinco Horas, continuamos neste universo amargamente irónico da impotência de si, aqui trazendo a certa altura os outros, para revelar em cúmulo, a incapacidade perante uma vida de relação, cultivando o indivíduo tão só a atitude de espectador de si mesmo com os outros em fundo.

 

Cinco Horas

Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto… A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e fresca é!

Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais.)

Sobre ela posso escrever
Os meu versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber…

Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.

Ou acendendo cigarros,
— Pois há um ano que fumo —
[Imaginando]* presumo
Os meus enredos bizarros.

(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente…)

Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.

E o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha ideia persiste
E nunca mais se desloca.

Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades…

(Que história de Oiro tão bela
Na minha vida [aportou]*:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou…)

Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
— Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.

Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
Pra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.

— Cafés da minha preguiça,
Sois hoje — que galardão! —
Todo o meu campo de acção
E toda minha cobiça.

 

* Ainda que as edições consultadas escrevam imaginário e abortou, a narrativa poética que caracteriza o poema leva-me a pensar que as palavras deveriam ser imaginando e aportou, sendo as palavras impressas ao longo de variadas edições, gralhas tipográficas que terão passado de edição em edição.

O poema apenas teve edição póstuma, tendo sido publicado pela primeira vez no livro Indícios de Oiro em 1937, também depois da morte de Fernando Pessoa, executor testamentário do poeta. Apenas a consulta do manuscrito original o permitirá esclarecer.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Otto Dix (1891-1969), Retrato da jornalista Sylvia von Harden.

 

O amor em acto com sonetos de Curvo Semedo

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Lília nos braços de Belmiro agora,
Quanto há doce em Amor, tanto disfruta.

 

Na poesia do século XVIII encontramos uma aproximação lúdica ao prazer e sua consumação, bem mais próxima do sentir dos nossos dias que na poesia produzida no século XIX. Nessa poesia romântica e pós-romântica do século XIX, no que ao desejo e paixão respeita, o estro poético masculino circula entre a idealização virginal da amada e as putas para as necessidades biológicas.
Na poesia neo-clássica da segunda metade do século XVIII, bebendo directamente a inspiração nos modelos da antiguidade greco-romana, chama-se ao desejo amor e por aí se segue dando conta da alegria da sua consumação, ou dos desgostos da sua perda.

Hoje são alguns sonetos de Curvo Semedo (1766-1838) que o ilustram:

 

Soneto p22

No meu pobre batel entro com ela:
Oh céus! desde que sulco o Tejo undoso,
Nunca vi, nem gozei noite mais bela.

 

Soneto p23

Já matizando o céu de vivas cores
Vinha a brilhante aurora apavonada,
E inda sobre os meus braços fatigada
Laura dormia, Laura os meus amores.

 

 

São variadas as situações de encontros amorosos que estes sonetos e mais alguns, na edição das Composições Poéticas de Curvo Semedo cobrem, e dos quais escolhi cinco. Vejamos em jeito de preâmbulo a perspectiva que cada um aborda.

 

No soneto a p17 um ansioso Alzeu suspira pela presença da amada Lília para se aperceber que entretanto ela goza as delícias de amor nos braços de outro:

 

Soneto p17

Lília enquanto não foge a fresca tarde
Desce às margens frondosas deste pego,
Vem ver quem de saudades louco, e cego
Pela doçura de teus olhos arde.

Atende aos rogos dum Amor cobarde,
Que te chama do rio em que navego:
Vem, ou pôr termo ao pranto a que me entrego,
Ou do teu desamor fazer alarde.

Assim clamava Alzeu, que a Lília adora,
Eis como entanto, duma algosa gruta
Ouve dizer com voz clara, e sonora:

Não chames, Pescador, quem não te escuta:
Lília nos braços de Belmiro agora,
Quanto há doce em Amor, tanto disfruta.

 

 

No soneto que segue, a p22 da colecção, é um pescador poeta que, na faina, sonha com ter a seu lado a amada Laura, e eis que subitamente ela lhe surge, proporcionando-se, assim, um inesquecível encontro: Nunca vi, nem gozei noite mais bela.

 

Soneto p22

Medonha corre a noite, a frouxa Lua
A furto mostra o rosto desmaiado,
Em mil volúveis serras levantado
Ruge raivoso o mar na praia nua;

Um só baixel nas ondas não flutua,
Os Nautas dormem, zune o vento irado;
Ah! doce Laura, Ah! doce objecto amado,
Quem vira agora a linda imagem tua!

Assim as vozes eu soltava ansioso,
Quando Laura, o meu bem , a minha estrela
Ao lado vejo, e vejo-me ditoso.

No meu pobre batel entro com ela:
Oh céus! desde que sulco o Tejo undoso,
Nunca vi, nem gozei noite mais bela.

 

 

Agora iremos ler no soneto a p23, o relato peculiar de um encontro derradeiro contado a partir da fruição dos momentos seguintes ao êxtase amoroso:

E inda sobre os meus braços fatigada
Laura dormia, Laura os meus amores.

 

Por se tratar de um encontro clandestino, e no receio de ver estes amores descobertos, o nosso poeta parte sem despertar a amada:

Sinto privar do sono a minha amada,
Temo vejam, que logro os seus favores.

 

E esta fuga põe fim, por muito tempo, ao encontro destas almas apaixonadas:

Vou-me, deixo o meu bem; desde esse instante
Cansados olhos, olhos sem ventura
Nunca mais vistes seu gentil semblante.

 

 

Soneto p23

Já matizando o céu de vivas cores
Vinha a brilhante aurora apavonada,
E inda sobre os meus braços fatigada
Laura dormia, Laura os meus amores.

De terna mágoa, de hórridos temores
Vejo minha alma a um tempo salteada,
Sinto privar do sono a minha amada,
Temo vejam, que logro os seus favores.

Enquanto pugna em mim susto, e ternura,
Vistos somos de espia vigilante,
Que o nosso afecto destruir procura.

Vou-me, deixo o meu bem; desde esse instante
Cansados olhos, olhos sem ventura
Nunca mais vistes seu gentil semblante.

 

 

Ainda outra perspectiva destes encontros clandestinos, agora no soneto a p32, encontramos o relato de uma paixão que em segredo se consumou:

Estes muros, que vês aos céus erguidos,
Tenho, alta noite, vezes mil trepado;

E ambos de amor num êxtase sagrado
Obtivemos prazeres nunca obtidos.

 

a qual termina para o nosso par com a entrega forçada da amada Jónia a outro:
… Monstros potentes
Dão Jónia ao meu rival, Jónia foi sua
Sem lhe valerem lágrimas ardentes.

 

Soneto p32

Estes muros, que vês aos céus erguidos,
Tenho, alta noite, vezes mil trepado;
Aqui Jónia viveu, tendo a seu lado
Velante escolta d’Argos pressentidos:

Pelas caladas trevas protegidos
Vencer pudémos nosso iníquo fado,
E ambos de amor num êxtase sagrado
Obtivemos prazeres nunca obtidos.

Mas voou tanto bem: Monstros potentes
Dão Jónia ao meu rival, Jónia foi sua
Sem lhe valerem lágrimas ardentes.

Meu peito em mares de aflição flutua:
Amor, se ímpio não és, como consentes,
Que uns braços, que eram meus, outro os possua?

 

 

Vai longo o artigo, termino com o soneto a p36 o qual dá conta de um namoro de mais de quatro anos em que milhões de vezes os amantes viveram horas furtivas de prazer gozado, iludindo a vigilância de quem tinha por função prevenir estes encontros (Expertos Argos temos iludido).
A paixão permanece, e o poeta conclui o soneto com o desejo que o casamento finalmente chegue, ou na linguagem codificada do poema … De alegres vermos que Himeneu sagrado / Nos doura os laços, que tramou Cupido.

 

Soneto p36

Quatro vezes na Eclíptica brilhante
Febo tem dado a fúlgida carreira,
Depois que, doce Anália, a vez primeira
Vi teu risonho, teu gentil semblante:

Desde tão grato, venturoso instante
Minha alma de teus olhos prisioneira,
Consagrando-te a fé mais verdadeira,
Colheu primicias de teu peito amante:

Milhões de vezes por mercê do Fado
Expertos Argos temos iludido
E horas furtivas de prazer gozado;

O céu nos chegue ao prazo apetecido
De alegres vermos que Himeneu sagrado
Nos doura os laços, que tramou Cupido.

 

Poemas transcritos de B. M. Curvo Semedo, Composições Poéticas, Lisboa, na Regia Oficina Tipográfica, 1803.
Modernizei a ortografia.
A numeração que antecede cada soneto identifica a página onde o mesmo se encontra nesta edição.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Jacob van Loo (1614-1670), Casal apaixonado de 1669, da colecção do Rijksmuseum de Amsterdão.

 

Everdingen — Retrato de jovem mulher com chapéu largo

Há simultaneamente uma transparência e mistério neste retrato de rapariga pintado pelo pintor holandês Ceasar Boëtius van Everdingen (1617-1678) em 1645-50, que nos transporta para o mistério do feminino.

O rosto enigmático que olha longe ou para dentro, é a parte essencial desse mistério, acentuado pela sombra que o chapéu faz cair sobre os olhos enquanto deixa ver em toda a luminosidade do dia, contra um diáfano céu azul, um corpo que se adivinha esplêndido sob o ligeiro drapeado do vestido.

Os braços semi-erguidos num hesitante gesto de oferenda, também ela inexplícita (serão as maçãs de Eva na taça/cesto?) contribuem para o enigma de toda a figura feminina e do seu propósito, fazendo crescer em quem vê o desejo de ir mais além no conhecimento de quem assim tão enigmaticamente se mostra, afinal o “MacGuffin” do jogo masculino/feminino.

O equilíbrio da paleta sem cores gritantes que se sobreponham à suavidade da envolvente, apenas discretamente insinuada, deixa todo espaço ao esplendor deste icónico feminino.

Retrato simultaneamente de pudor e estimulador do desejo, é mais um dos extraordinários retratos que transcendem a circunstância da sua feitura, e continuamente nos interpelam: porque gosto de o olhar?

O retrato pertence à colecção do Rijksmuseum de Amsterdão. Costumava estar numa pequena sala rodeado de algumas outras pinturas irrelevantes e sem as multidões que afogam os  Vermeer. Infelizmente em 2017 tinha sido retirado de exposição. Oxalá já tenha retornado.

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