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Entre adesão e controvérsia, a poesia de Walt Whitman (1819-1892) continua hoje, cento e cinquenta anos passados, a trazer ao leitor o confronto entre o sentir e a biologia, no que a abrir o poema Uma mulher espera por mim, este regista, a saber, o papel fundamental do sexo na vida de todos nós:


O sexo contém tudo, corpos, almas,
Intenções, provas, pureza, delicadeza, resultados, promulgações,
Canções, ordens, saúde, orgulho, mistério da maternidade, o leite seminal
Todas as esperanças, benefícios, concessões, todas as paixões, amores, belezas, delícias da terra,
Todos os governos, juízes, deuses, os que para nós são como ídolos
Tudo isto está contido no sexo como partes e justificações dele mesmo.

 

O indivíduo de quem Walt Whitman fala na sua obra poética é um ser ideal, encarnação e portador de um modelo de humanidade futura. E se o homem é o objecto da sua reflexão, fazendo a defesa das relações homoeróticas como condição da masculinidade viril, no poema Uma mulher espera por mim, a mulher surge numa situação de igualdade desde que preencha condições de virilidade:


Agora afasto-me das mulheres insensíveis
Irei ficar com aquela que me espera, e com aquelas mulheres que são quentes e suficientes para mim,
Vejo que elas me compreendem e não me recusam,
Vejo que elas me merecem, serei o marido robusto dessas mulheres.

Nelas nada é inferior a mim
Têm o rosto bronzeado pelos sóis brilhantes e pelos ventos que sopram
A sua carne tem a antiga elasticidade e força divinas
Sabem nadar, remar, montar, lutar, atirar, correr, combater, recuar, avançar, resistir, defender-se
São irevogáveis quanto aos próprios direitos — são calmas, claras, em plena posse de si mesmas.

 

No tom proclamatório de toda a poesia de Walt Whitman, este Uma mulher espera por mim é o poema genesíaco que cria a humanidade nova:


Sobre vós, enxerto os enxertos do que há de mais querido em mim e na América,
As gotas que destilo sobre vós farão crescer raparigas impetuosas e atléticas, novos artistas, músicos e cantores,
As crianças que gero em vós hão-de gerar, por sua vez, crianças,
Dos meus dispêndios amorosos exigirei homens e mulheres perfeitos,
Esperarei que eles se interpenetrem noutros como eu e vós nos interpenetramos agora,

 

Numa América penetrada pela leitura da Bíblia, é interessante confrontar esta visão darwiniana do cruzamento dos mais fortes conduzindo a uma humanidade melhor, e verificar em que extensão o “acessório biológico” que é a mulher no poema de Walt Whitman se afasta da visão da mulher proclamada no Provérbio 31 do Livro dos Provérbios.
No final do artigo transcrevo uma sua versão literária da Vulgata, para confronto.

Folhas de Erva, livro que reúne a produção poética essencial do autor, foi inicialmente publicado em 1855, e teve sucessivas revisões e adições.
A secção Filhos de Adão onde o poema Uma mulher espera por mim se integra, foi acrescentada à obra na edição de 1856, juntamente com a secção Cálamo.

Este poema, Uma mulher espera por mim, foi pretexto para a 6.ªedição do livro, em 1881-82 ser acusada de obscenidade.

 

Uma mulher espera por mim

Uma mulher espera por mim, tem tudo, nada lhe falta,
Todavia, tudo faltaria se o sexo faltasse, ou se a seiva do homem certo faltasse,

O sexo contém tudo, corpos, almas,
Intenções, provas, pureza, delicadeza, resultados, promulgações,
Canções, ordens, saúde, orgulho, mistério da maternidade, o leite seminal
Todas as esperanças, benefícios, concessões, todas as paixões, amores, belezas, delícias da terra,
Todos os governos, juízes, deuses, os que para nós são como ídolos
Tudo isto está contido no sexo como partes e justificações dele mesmo.

Sem vergonha o homem de quem gosto sabe e reconhece delícia do seu sexo
Sem vergonha a mulher de quem gosto sabe e reconhece a sua.

Agora afasto-me das mulheres insensíveis
Irei ficar com aquela que me espera, e com aquelas mulheres que são quentes e suficientes para mim,
Vejo que elas me compreendem e não me recusam,
Vejo que elas me merecem, serei o marido robusto dessas mulheres.

Nelas nada é inferior a mim
Têm o rosto bronzeado pelos sóis brilhantes e pelos ventos que sopram
A sua carne tem a antiga elasticidade e força divinas
Sabem nadar, remar, montar, lutar, atirar, correr, combater, recuar, avançar, resistir,    defender-se
São irevogáveis quanto aos próprios direitos — são calmas, claras, em plena posse de si mesmas.

Atraio-vos para mim, vós, mulheres,
Não posso deixar-vos partir, quero fazer-vos bem,
Sou para vós, e vós sois para mim, não só por nós, mas pelos outros,
Envoltos em vós dormem os maiores heróis e bardos
Recusam despertar ao contacto de qualquer homem que não seja eu.

Sou eu, vós, mulheres, que abro o caminho
Sou severo, amargo, grande, inflexível, mas amo-vos,
Não vos faço sofrer mais do que necessitais
Derramo o fluido para criar filhos e filhas que sirvam estes Estados, forço com um     músculo lento e rude
Torno-me duro com eficácia, surdo a quaisquer súplicas,
Não me atrevo a retirar sem depositar o que durante longo tempo se acumulou dentro de mim.

Através de vós esgotam-se os meus reprimidos rios,
Em vós venho guardar milhares de anos futuros
Sobre vós, enxerto os enxertos do que há de mais querido em mim e na América,
As gotas que destilo sobre vós farão crescer raparigas impetuosas e atléticas, novos artistas, músicos e cantores,
As crianças que gero em vós hão-de gerar, por sua vez, crianças,
Dos meus dispêndios amorosos exigirei homens e mulheres perfeitos,
Esperarei que eles se interpenetrem noutros como eu e vós nos interpenetramos agora, Contarei com os frutos das suas exuberantes bátegas como conto com os frutos das minhas exuberantes bátegas agora derramadas.
Procurarei colheitas de amor a partir dos nascimentos, da vida, da morte, da imortalidade que com tanta ternura agora planto.

Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
in Walt Whitman, Folhas de Erva, vol 1, Relógio d’Água, Lisboa, 2002.
O poema original encontra-se facilmente na internet.

 

Livro dos Provérbios
Provérbio 31
Versículos 10-31

Mulher exemplar não é fácil de encontrar;
ela vale muito mais que as jóias!
O seu marido confia inteiramente nela,
não lhe faltando com nada.
Ela só lhe dá satisfação e nunca desgostos,
todos os dias da sua vida.
Ela procura lã e linho
e trabalha de boa vontade com as suas mãos.
Tal como um navio mercante,
ela traz as suas provisões de muito longe.
Levanta-se antes de romper o dia,
prepara de comer para a família
e distribui as tarefas pelas suas criadas.
Examina um terreno e compra-o
e planta uma vinha com o produto do trabalho.
Põe-se ao trabalho com toda a energia;
os seus braços nunca estão parados.
Vigia bem os seus negócios;
durante a noite, a sua lâmpada mantém-se acesa.
As suas mãos trabalham com a roca de fiar
e os seus dedos, com o fuso.
Estende a mão segura aos infelizes
e é generosa para com os pobres.
Não receia a neve para os seus familiares,
porque todos eles trazem roupa suficiente.
Ela faz as suas próprias mantas
e os tecidos de linho e púrpura com que se veste.
O seu marido é conhecido e considerado na assembleia,
quando toma assento no conselho dos anciãos da terra.
Ela faz tecidos de linho fino para vender
e fornece cintos aos mercadores.
Reveste-se de força e dignidade
e sorri a pensar no futuro.
Fala sempre com sabedoria
e dá concelhos com bondade.
Vigia tudo o que se passa na sua casa
e não prova o pão da ociosidade.
Os seus filhos levantam-se para a felicitar
e o seu marido, para a elogiar:
“Muitas mulheres foram exemplares,
 mas tu és a melhor de todas.”
Encantos são enganos e beleza é ilusão,
mas uma mulher que respeita o SENHOR é digna de elogio.
Recompensem-na com o fruto das suas mãos
e louvem-na diante da assembleia pelo seu trabalho.

in a BÍBLIA para todos, edição literária, edição Temas e Debates e Circulo de Leitores, Lisboa, 2009.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura, Auto-retrato, de Alice Neel (1900-1984), realizada em 1980. A pintura integra a colecção da National Portrait Gallery de Washington.
Confrontar vigor, beleza física ideal, e humanidade no tempo, é o propósito de associar esta imagem ao artigo.
O papel da arte é também o de nos levar a sensibilidade ao encontro do pensamento.

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