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vicio da poesia

Category Archives: Poetas e Poemas

E agora José?

29 Sábado Maio 2010

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Carlos Drummond de Andrade


Lembram-se do Zé tornado famoso na televisão? Foi título de um livro de histórias de Cardoso Pires, mas antes foi poema de Carlos Drummond de Andrade.

José

E agora José? / A festa acabou, / a luz apagou / o povo sumiu, / a noite esfriou, / e agora José? / e agora você? / você que é sem nome, / que zomba dos outros, / você que faz versos, / que ama, protesta? / e agora José?

Está sem mulher, / está sem discurso, / está sem carinho, / já não pode beber, / já não pode fumar, / cuspir já não pode, / a noite esfriou, / o dia não veio, / o bonde não veio, / o riso não veio, / não veio a utopia / e tudo acabou / e tudo fugiu / e tudo mufou, / e agora José?

E agora José? / sua doce palavra, / seu instante de febre, / sua gula e jejum, / sua biblioteca, / sua lavra de ouro, / seu terno de vidro, / sua incoerência, / seu ódio – e agora?

Com a chave na mão / quer abrir a porta, / não existe porta; / quer morrer no mar, / mas o mar secou; / quer ir para Minas, / Minas não há mais. /  José, e agora?

Se você gritasse, / se você gemesse, / se você tocasse / a valsa vienense, / se você dormisse, / se você cansasse, / se você morresse… / mas você não morre, / você é duro, José!

Sozinho no escuro / qual bicho-do-mato, / sem teogonia, / sem parede nua / para se encostar, / sem cavalo preto / que fuja a galope, / você marcha, José! / José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade dispensa apresentação. É dos raros poetas brasileiros cuja obra tem sido regularmente editada em Portugal.

Senhor de uma inspiração singular, estilista maior da língua portuguesa, no aparente nada do dia-a-dia encontra a inspiração para nos fazer ver a beleza em que constantemente tropeçamos sem reparar:


Foi no Rio.

Eu passava na Avenida quase meia-noite.

Bicos de seios batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.

Havia a promessa do mar

e bondes tilintavam,

…

Havia a promessa do mar –   que verso lindo.


Ou aquele outro Poema de sete faces

…

O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos não perguntam nada.


Sigo por esta poesia com a Confidência do Itabirano

…

A vontade de amar, que me paraliza o trabalho,

vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,

é doce herança itabirana.

…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.

Hoje sou funcionário público

Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói!


E termino por agora com os versos de abertura do poema A mesa, gigantesco quadro da vida na sua beleza e contradições.


E não gostavas da festa…

Ó velho, que festa grande

hoje te faria a gente.

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A bunda, que engraçada — poema de Carlos Drummond de Andrade

27 Quinta-feira Maio 2010

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Carlos Drummond de Andrade


 

Há imagens indeléveis que nos acompanham e no inesperado de um momento assaltam a memória.

Subia eu as escadas do metro e à minha frente flutuava, levitava, tornava-se imponderável no seu andar dançante, uma negra de ancas opulentas, lá vai sorrindo a bunda pensei.

Num flash voltou-me a imagem daquele filme absoluto sobre a adolescência – Amarcord – quando Gradiska, escultura de curvas em movimentos, quais esferas harmoniosas sobre o caos, surgia e desaparecia entre montes de neve onde o vermelho rompia o branco imaculado.

Não contente ainda, deixei rolar a memória cinéfila até Quanto mais Quente Melhor e revi Marilyn no autocarro da orquestra a caminhar de costas ao longo do corredor, fazendo soar todas as trombetas do desejo na caricia de ser e balançar.

Como o poeta tem razão!

 

A bunda, que engraçada.

Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

 

Não lhe importa o que vai

pela frente do corpo. A bunda basta-se.

Existe algo mais? Talvez os seios.

Ora – murmura a bunda – esses garotos

ainda lhes falta muito estudar.

 

A bunda são duas luas gemeas

em rotundo meneio. Anda por si

na cadência mimosa, no milagre

de ser duas em uma, plenamente.

 

A bunda se diverte

por conta própria. E ama.

Na cama agita-se. Montanhas

avolumam-se, descem. Ondas batendo

numa praia infinita.

 

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz

na caricia de ser e balançar.

Esferas harmoniosas sobre o caos.

 

A bunda é a bunda,

redunda.

 

Notícia Bibliográfica:

O poema é de Carlos Drummond de Andrade e encontrei-o num livro em tempos oferecido por uma amiga querida – Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século. Foi editado em 2001 pela Editora Objectiva do Rio de Janeiro.

 

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Espirrar até à metafisica

20 Terça-feira Abr 2010

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Fernando Pessoa

 

Republicado com modificações em Nov 2015

 

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Cabral do Nascimento — Alguns poemas

29 Segunda-feira Mar 2010

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Cabral do Nascimento

Redondilha

Sobre os rios e ribeiros

Que por esses vales vão,

Pus um barco de papel.

Os desejos vogam nele,

Que as palavras essas não.

 

E quando as águas encontram

As suas irmãs do mar

E se misturam, aos beijos,

Vão para o fundo os desejos

As penas sobem ao ar.

 

Desejo, dor e saudade

São companheiros. Depois

Morre primeiro o primeiro,

Ainda ás vezes solteiro,

Ficam só os outros dois.

 

 

“… graças à arte requintada com que trabalha o verso, Cabral do Nascimento atinge em muitas das suas composições uma simplicidade, uma sageza, um desencanto, um doloroso fruir dos efémeros frutos da vida, características que lhe dão o direito a que o consideremos um dos mais altos poetas da sua geração.” João Gaspar Simões dixit.

 

Poeta raro, ausente do barulho da fama, a sua obra é de um inexcedível prazer de leitura.

Esta é  uma pequena escolha retirada de Cancioneiro, talvez o seu mais perfeito livro juntamente com Fábulas.

 

Tenhamos presente que o livro Cancioneiro foi publicado em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, e os poemas que seguem ganham um significado acrescido.

 

Futuro

O que há-de vir é belo

(Pensamos). Belo e ardente.

Fosse o futuro assim!

Pudesse agora tê-lo!

Agora, – e o Presente

Deixá-lo para o fim.

 

O dia de amanhã?

Ilusão. Frioleiras.

Pois bem: quem o tivera

Já gasto em cinza vã,

Em vez de, à sua espera,

Ficar a vida inteira!

 

Amanhã: dia de hoje

Que não chegou ainda.

Seja! Mas foge

A vida, antes que venha!

A sua face é linda.

Pena que se detenha.

 

Há-de vir, certamente,

Daqui a muitos anos.

Todavia no mundo

Só haverá presente.

Enganos. Desenganos.

Um silencio profundo.

 

Dia tão indeciso,

Tão cheio de mistério!

Virá pelo Outono,

Quando não for preciso,

Acordar-me do sono,

Talvez no cemitério.

 

Na singeleza da forma, que admirável reflexão sobre um amanhã tão sem esperança como o hoje, ou como o poeta o define: “Amanhã: dia de hoje / Que não chegou ainda.”

E todavia sonha: “O que há-de vir é belo / (Pensamos). Belo e ardente. / Fosse o futuro assim! / Pudesse agora tê-lo!”.

Prossegue a reflexão até concluir no desalento de um presente com o sonho bloqueado, que o futuro: “ Virá pelo Outono, / Quando não for preciso, / Acordar-me do sono, / Talvez no cemitério.”

 

Canção a meia voz

A minha vida é sempre ontem

E o meu desejo, amanhã.

Hoje é uma coisa parada.

Nada sei nem faço nada.

Certeza é palavra vã.

 

Não sou. Ou fui ou serei.

Se ao menos tivesse fé!

Corro atrás duma quimera.

Ou então fico-me à espera,

Porém à espera de quê?

 

Porque abri as minhas mãos

E deixei fugir o instante

Que havia nelas ainda?

Agora o nada não finda

E o tudo é sempre distante!

 

Virás tu ao meu encontro,

Ou sou eu que devo achar-te?

Quem pudera descansar!

Ver, ouvir e não pensar!

Ser aqui e em toda a parte!

 

Chego tarde ou muito cedo.

Ou paro aquém ou além.

Houvesse algo para mim

Sem ter principio nem fim,

Sem ser o mal nem o bem!

 

A dúvida de si, em que todos, mais ou menos, nos embrulhamos tantas vezes, ganha aqui a exemplaridade da sua enunciação “Corro atrás duma quimera. / Ou então fico-me à espera, Porém à espera de quê?”

 

Depois de olhar para si e ter sonhado o futuro, o poeta olhou o mundo, e como o viu nos relata:

 

Programa

Ópio: o trabalho, a dor, o riso, e este

Livro que me empolga!

O teatro, o jornal, o amor e o resto…

Ópio de toda a hora.

 

Matar o tempo, reduzi-lo a pó,

Assim, anos e anos?

Ele a vida nos leva e nos consome,

Ele fica e nós vamos.

 

Renova-se: é Verão, Outono, Inverno

E Primavera! Vê-se

Quanto de nosso fim já somos perto…

Ele, volta ao começo.

 

A vida, só vivê-la

Sem rumo, como um corpo sobre as ondas…

Para gozá-la é breve,

Para sofrê-la é ainda mais longa.

 

 

Teatro

Era uma vez um menino

Em seu jardim a brincar.

(Brincar, brincar, não brincava,

Sempre, sempre a meditar!)

Os outros vinham de longe

E a correr, para o levar.

(Correr, correr, não corria,

Porém ficava a cismar).

Na tarde de oiro se ouviam

Seus gritos enchendo o ar.

(Ele gritar não gritava,

Mas calava-se a pensar).

O mundo andava de roda

E tudo em volta a girar!

(Ele, porém, ali estava

Só a ver, a contemplar).

E tudo quanto se via,

E tudo quanto passava,

Nos seus olhos se detinha,

Na sua alma ficava.

 

Tenho sido espectador

E toda a vida o serei.

Ah, estar de fora da dor,

Aquém do palco do riso,

Longe da arena do mundo!

É insensatez? É juízo?

É bom? É mau? Não no sei.

 

Mas quanto drama profundo,

Devagar, devagarinho,

Sem voz, sem gesto, sem cor,

Se infiltra tão de mansinho

Na alma do espectador!

 

 

 

 

Brinquedo

Tenho na minha mão esta esfera de lata,

Este globo terráqueo untado de verniz.

A terra e a água, em linha e cor, tudo relata,

Em letras rubras quantos nomes diz!

A proporção devida, a forma exacta,

Vê-se um palmo diante do nariz.

Linhas de lado a lado, e de alto a baixo (coisa abstracta),

Deus não as fez, o homem é que quis.

Como na estampa antiga dalgum príncipe autocrata,

Guardo o mundo na mão: não sei se sou feliz.

Ah! Quantas voltas hei-de dar assim ao mundo?

Tê-lo a girar… e sucederem rios,

Altas montanhas, mares sem ter fundo,

Continentes ardentes e outros frios.

Pensar que neste circulo rotundo

As caravanas passam, e os navios!

Sucesso grande, a dor mesquinha, o caso imundo…

A uns imaginei-os, e outros vi-os.

Tê-lo a girar…  Profundo

Abismo entre o seu ritmo e os meus sonhos vazios!

Gira cansada bola,

Tua ordenada rotação constrói.

De ti se evola

A alma do que é… E eu sinto o aroma do que foi!

Com teu Presente o meu Passado se consola;

Fizeste a chaga e a mim é que ela dói.

Deixa-me ser tão orgulhoso como quem dá uma esmola,

Timido como um herói.

Gira, cansada bola,

Tua ordenada rotação constrói…

 

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AMAR OU ODIAR – Poesias de Fausto Guedes Teixeira

27 Sábado Mar 2010

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Poetas e Poemas

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Fausto Guedes Teixeira, João Gaspar Simões

AMAR OU ODIAR

Amar ou odiar: ou tudo ou nada!

O meio termo é que não pode ser

A alma tem d’estar sobressaltada

P’ra o nosso barro se sentir viver.

 

Não é uma cruz a que não for pesada,

Metade dum prazer não é um prazer;

E quem quiser a alma sossegada

Fuja do mundo e deixe-se morrer.

 

Vive-se tanto mais quanto se sente;

Todo o valor está no que sofremos…

Que nenhum homem seja indiferente!

 

Amemos muito, como odiamos já:

A verdade está sempre nos extremos,

Porque é no sentimento que ela está.

 

Recusando as nuances do compromisso neste soneto da paixão como absoluto da vida, o poeta afirma mesmo – O meio termo é que não pode ser .

Fulgor de quem a vive, cego a valores e conveniências, a paixão é devastadora nas suas consequências logo que a vida impõe o cinzento dos compromissos.

Esta é uma poesia incompatível com o nosso tempo. Tempo onde o frémito da paixão está ausente e apenas um fugidio bem estar afectivo é o valor a perseguir.

 

Poeta do amor, não deste ou daquele amor, desta ou daquela mulher, mas do sentimento amoroso em si, poeta de um amor que a si próprio se ama, como o descreve a certa altura João Gaspar Simões num pequeno estudo que lhe dedica na sua “Perspectiva Histórica da Poesia Portuguesa”.

E diz mais, “Fausto Guedes Teixeira é o poeta que depois de 1900 mantém as melhores tradições [da] lira sentimental, gemente a toda a hora entre nós…”.

A propósito da forma na poesia de Fausto Guedes Teixeira refere mais à frente “ Persuadido de que o sentimento vale mais que a arte, os seus versos, moles e frouxos nas composições longas de varios metros – … – ganham rigor na intensidade do soneto.”

Ainda segundo João Gaspar Simões, foi Fausto Guedes Teixeira “quem recriou esse modelo métrico onde o sentimento entra, em doses maciças, mas pautado ao mesmo tempo pelo rigor da forma que obriga a quem se abeira do soneto.”.

 

Vejamos esta mestria no manuseio do soneto em dois estereótipos de mulher:

 

ESBOÇO

Negro o cabelo, a fronte iluminada,

O nariz curvo, a boca pequenina,

Nos olhos escuríssimos cravada

Uma estrela no fundo da retina.

 

Nas faces uma rosa desmaiada

E outra rosa nos lábios purpurina,

Seus pequeninos pés os duma fada

E o seu corpo um corpinho de menina.

 

Todos os traços cheios de expressão,

Nas mãos um fogo estranho que lhas beija,

Porque eu lhe puz nas mãos o coração.

 

Eis o esboço rápido daquela

Que, sempre que na vida alguém a veja,

Nunca mais vê ninguém senão a ela!

 

Aqui desenha-se um universal, motivo de paixão, ao afirmar: Que, sempre que na vida alguém a veja, / Nunca mais vê ninguém senão a ela!.

 

A seguir, no próximo soneto, PARA TODO SEMPRE, dá-nos o poeta a explicação do que acontece “sempre que na vida a mulher sente / Que se enganou e aceita outra paixão,”

 

Quando se chega a ver nitidamente

O erro duma primeira ligação,

É muito natural que toda a gente

Se dê um dia a outro coração.

 

Mas sempre que na vida a mulher sente

Que se enganou e aceita outra paixão,

Então, ou a conserva eternamente

Ou ela pensa que não tem perdão.

 

E é por esse motivo que, ao segundo

Amor, ela se prende como cega,

Sem com mais nada se importar no mundo.

 

É que a mulher, feliz ou desgraçada,

Não se perde na hora em que se entrega,

Mas na hora em que for abandonada.

 

Depois deste coloquial soneto, onde o sempre, tal como no soneto anterior, garante o absoluto da ideia afirmada, não podia deixar de ilustrar como o sexo, sempre por detrás de tanta paixão, se mostra timidamente na poesia de Fausto Guedes Teixeira, “Tomando a forma duma labareda.”:

FOGO DO CÉU

O que mais amo nesta criatura

E que apaixonadamente me traz

Não é a sua grande formosura,

Mas a paixão de que a julguei capaz.

 

Com tanta duração como ternura

E tão fiel como o supus tenaz,

Dar-me-ia esse amor toda a ventura

Em que hoje creio e não achei p’ra trás.

 

Quando consigo por acaso vê-la

Vendo os seus braços, lembro o seu abraço.

Vendo-lhe a boca, sonho os beijos dela.

 

E, enquanto a vida só prazeres segreda,

Seu lindo corpo some-se no espaço

Tomando a forma duma labareda.

 

Noticia bibliográfica

Os sonetos transcritos, com ortografia modernizada, foram retirados de Sonêtos d’Amôr, de Fausto Guedes Teixeira, publicados em 1ª edição, em 1922,  por EDIÇÕES LUSITANIA .

Novas Perspectivas da Poesia Portuguesa (Século XX) de João Gaspar Simões foi publicado em 1ªedição em 1976 por Brasília Editora, nas Obras Completas do Autor.

 

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Cândido Guerreiro — 5 Sonetos

24 Quarta-feira Mar 2010

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Cândido Guerreiro

Entre o palpitar da carne encerrado no pudor da linguagem e um panteísmo lido na paisagem algarvia que o viu nascer, circula a poesia de Cândido Guerreiro.

É uma poesia agarrada à terra e aos seus prazeres com a magia da luz mediterrânica em fundo e onde um diálogo com a religião penetra, numa harmonia de homem / deus do universo.

Aqui fica uma pequena amostra da sua poesia com cinco dos seus sonetos.

I

Cheios de paz e cheios de doçura,

Dão-me os teus olhos tanta claridade

Que a minha tormentosa noite escura

Se rasga em Vias-lácteas de bondade!

 

E vou na trajectória da ventura,

E sigo a linha recta da verdade,

Por ti guiado, oh frágil criatura,

Tão forte em tua simples humildade!

 

Que o amor vos traga aonde o amor me trouxe,

Cegos que enveredastes pelo mal,

Pois nesta estrada chã, direita e doce,

 

A morte ajoelhará quando vier,

Ante a Vida, que a Vida é imortal,

Reflorindo num seio de mulher!

 

II

 

Porque nasci ao pé de quatro montes,

Por onde as águas passam a cantar

As canções dos moinhos e das pontes

Ensinarem-me as águas a falar…

 

Eu sei a vossa língua, água das fontes…

Podeis falar comigo, águas do mar…

E ouço à tarde, os longínquos horizontes,

Chorar uma saudade singular…

 

E porque entendo bem aquelas mágoas,

E compreendo os íntimos segredos

Da voz do mar ou do rochedo mudo,

 

Sinto-me irmão da luz, do ar, das águas,

Sinto-me irmão dos íngremes penedos,

Sinto que sou Deus, pois Deus é tudo…

 

III

 

BOCA

Irrompe feito Verbo, o pensamento

Pela boca, e na graça de um sorriso

Descobre o nosso olhar um paraíso

Num fulgurante e rápido momento.

 

Da boca sai o cântico e o lamento;

As lindas rosas da manhã diviso

Na tua boca, e em beijos corporizo

O meu desejo rútilo e sangrento…

 

Folha revolta, arrebatada palma

Do vento impetuoso da paixão,

A teus pés, caindo-te a minha alma,

 

Arde em mim, Bem-Amada, a ânsia louca

(Para sentir melhor teu coração)

De colar ao teu seio a minha boca…

 

 

IV  –  SULAMITES

 

A tua alta estatura é comparada

Com a palmeira em lânguido meneio,

E são dois cachos de uvas o teu seio,

Suspensos da palmeira, oh Bem-Amada…

 

Subirei à palmeira delicada

E colherei seus frutos sem receio…

E a tua boca é como um pomo cheio

Duma essência a mais doce e perfumada…

 

Tua garganta, inebriante vinho,

Hei-de a saborear devagarinho,

Que tu és para mim e eu para ti…

 

Erga-mo-nos e vem, de manhãzinha,

A ver se há já romãs, se há flor na vinha,

E vem dar-me os teus peitos mesmo ali…

 

V

 

Minha terra embalada pelas ondas,

Lindo país de moiras encantadas,

Onde o amor tece lendas e onde as fadas

Em castelos de lua dançam rondas…

 

Oh meu Algarve, quero que me escondas…

Que na treva da morte haja alvoradas!

Hei de sonhar com moiras encantadas,

Se eu dormir embalado pelas ondas…

 

Quando o sol emergir de trás da serra,

Sempre será o sol da minha terra

A fecundar-me o chão da sepultura…

 

Ao pé dos meus, na minha aldeia querida,

A morte será quase uma ventura,

A morte será quase como a vida…

Noticia bibliográfica:

A obra poética de Cândido Guerreiro reparte-se por alguns livros de interesse desigual para o leitor de hoje.

Concordo com João Gaspar Simões quando diz que Cândido Guerreiro é sonetista por excelência, bem como com a forma como classifica os seus sonetos em três géneros, a saber: filosófico, pictural e erótico, e ainda quando constata que a sua produção de sonetos a partir de 1908 é dominada pela temática pictural e erótica (Perspectiva Histórica da Poesia Portuguesa, 1976, pag. 98-100).

Os sonetos aqui transcritos, em ortografia actualizada, foram retirados da 2ªedição de SONETOS publicada em 1916, em edição da Renascença Portuguesa do Porto.

Esta 2ªedição vem substancialmente ampliada em relação à 1ªedição de 1904, pois dos seus 122 sonetos apenas 50 pertenceram à 1ªedição.

 

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Eis Bocage

28 Domingo Fev 2010

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Bocage

Eis Bocage

 

Magro, de olhos azuis, carão moreno.

Bem servido de pés, meão de altura

Triste de facha, o mesmo de figura.

Nariz alto no meio e não pequeno,

 

 

Incapaz de assistir num só terreno;

Mais propenso ao furor do que à terura;

Bebendo em niveas mãos por taça escura,

De zelos infernais letal veneno;

 

 

Devoto incensador de mil deidades

(Digo de moças mil) num só momento,

E somente no altar amando os frades,

 

 

Eis Bocage, em quem luz algum talento.

Sairam dele mesmo estas verdades

Num dia em que se achou mais pachorrento.

 

O homem é hoje talvez mais conhecido que o poeta. Dele apenas proliferam as edições da Poesia Erótica Burlesca e Satírica, permanecendo o restante da obra no quase esquecimento. Uma nova edição da obra completa encontra-se em curso de publicação, da responsabilidade de Daniel Pires, nas Edições Caixotim.

Embora as cartas de Olinda e Alzira sejam do melhor da poesia portuguesa, sobretudo a Epístola VI, há mais poesia de Bocage para além da erótica e satírica, e não é de somenos. O conjunto de sonetos e epistolas escritos no cárcere são de uma pungência difícil de igual, qual seja este:

Aqui onde arquejando estou curvado

À lei, pesada lei, que me agrilhôa,

De lugubres ideias se povoa

Meu triste pensamento horrorizado;

 

E dando conta do peso do isolamento em que se encontra continua, terminando com:

 

Só me cercam fantasmas da tristeza.

Que silencio! Que horror! Que escuridade!

Parece muda, ou morta a natureza.

 

Bocage, como outros poetas maiores de setecentos e oitocentos, levados pela luta entre a razão e a crença, confrontaram-se com Deus na sua poesia. Estou a lembrar-me de Guerra Junqueiro e Gomes Leal entre os maiores. Chegados ao fim da vida protagonizaram estrondosos arrependimentos e Bocage não foi excepção acabando, quando sentiu próximo o fim, a gritar:

Deus! Ó Deus!…quando a morte a luz me roube,

Ganhe um momento o que perderam anos,

Saiba morrer o que viver não soube.

 

Na consciência da finitude exclamou a crença na eternidade:

 

Já Bocage não sou!… À cova escura

Meu estro vai parar desfeito em vento…

Eu aos céus ultrajei! O meu tormento

Leve me torne sempre a terra dura.

 

 

Conheço agora já quam vã figura

Em prosa ou verso fez meu louco intento.

Musa!… tivera algum merecimento

Se um raio da razão seguisse pura.

 

 

Eu me arrependo! A língua quase fria

Brade em alto pregão à mocidade,

Que atrás do som fantástico corria:

 

 

Outro Aretino fui… A santidade

Manchei!… Oh! Se me creste, gente ímpia,

Rasga meus versos, crê na eternidade!

 

Felizmente podemos crer na eternidade e conviver com os versos de Bocage. E atrever-me-ia a dizer que foi mais que Aretino, de quem a humanidade conserva apenas os 26 sonetos luxuriosos, deixando no quase esquecimento o resto que também criou.

Conta a tradição sobre este último soneto Já Bocage não sou!… À cova escura, referida por Rebelo da Silva no estudo biográfico e literário que acompanha a edição das Poesias de Bocage preparada por Inocêncio e editada em 1853, que o poeta“dictou ainda o ultimo soneto, que o morgado de Assentis colheu dos seus lábios trémulos, e escreveu todo de seu punho. O derradeiro suspiro foi portanto um grito de arrependimento”.

 

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A mão e o prazer – 2 poemas de José Régio

27 Sábado Fev 2010

Posted by viciodapoesia in Erótica, Poetas e Poemas

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José Régio

Homem, mulher, e mão, são a substância para a inspiração poética de José Régio (1901-1969) na escolha poética de hoje.

Temos para inicio da história, a aventura da mão “Sábia talvez inconsciente” que se passeia “Ali onde o desejo mais me dói”, “doseando com volúpia, uma ancestral sofreguidão” levando-o até “àquele auge em que todo, em alma e corpo vou morrer…”.


Monólogo a dois

Sábia talvez inconsciente,

Doseando com volúpia, uma ancestral sofreguidão,

Ali onde o desejo mais me dói, mais exigente,

Me acaricia a tua mão.

De olhos fechados me abandono, ouvindo

Meu coração pulsar, meu sangue discorrer,

E sob a tua mão, na asa do sonho, eis-me subindo

Àquele auge em que todo, em alma e corpo, vou morrer…


Isto que a mão faz pelo prazer masculino tem a contrapartida no prazer feminino. E é acariciar com um dedo médio e um polegar, sabiamente manipulados, aquelas regiões onde o potencial erótico se esconde, para fazer uma mulher percorrer todo o alfabeto do prazer e não apenas de C a G, levando-nos com ela, à decifração daquele mistério feminino que cada mulher guarda em si para oferecer apenas a quem o souber merecer.

O conhecimento deste mistério  o poeta não desdenha quando nos conta: “crispou-se a minha mão sobre o teu sexo / …e a minha mão sondava/ … o teu mistério de mulher.”.

 

Poema

Crispou-se a minha mão sobre o teu sexo,

Fecharam-se-me os olhos sem querer…

De que abismos voava até ao fundo?

E a minha mão sondava

E Triturava

Aquele mundo

Tão pequenino e tão complexo:

O teu mistério de mulher.

 


De comum aos dois poemas temos os olhos fechados não em sentido figurado de alheamento ou não querer ver, nem numa qualquer deslocada reacção de pudor, mas no sentido físico de potenciação do prazer.

No primeiro poema, para na asa do sonho melhor ir subindo, e assim gozar o prazer até à última gota, enquanto no segundo poema se lhe fecham os olhos no gesto involuntária ditado pela volupia da mão sobre o teu sexo. Em ambos temos a verdade da vida dita na forma superior da poesia.


Publicados estes poemas ao virar os 60 anos, tempo bastante para fruir da vida os seus segredos e deles nos dar conta na sintese adequada à poesia, pertencem ambos ao ciclo “O Amor e a Morte” incluído no livro FILHO DO HOMEM publicado em 1961.


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Orlando Innamorato — Um poema de António Feijó

25 Quinta-feira Fev 2010

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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António Feijó

No deambular desenfadado com que vou lendo poesia, encontrei este Orlando Innamorato, pérola de ironia saída da inspiração de Ignácio de Abreu e Lima, pseudónimo de António Feijó (1859-1917), onde o poeta dá conta dos seus diversos amores e vicissitudes peculiares.

 

 

ORLANDO INNAMORATO

O meu primeiro amor

Chamava-se Maria

Leonor;

O segundo, Sophia

Eulália Pimentel;

O terceiro, que lembro com fervor,

Chamava-se Rachel…

Era um anjo exilado, uma pomba sem fel!

De todas foi a mais amada …

Quando a perdi (levou-a a Morte), oh dor immensa!

Ficou-me a alma encarcerada

Dentro da praça d’Olivença,

Onde Ella tinha o berço e a virginal morada!

Das outras, a primeira, a Maria Leonor

(esta lembrança é um horror!)

Trahiu-me com um primo, um primo d’ella e meu,

Estoira-vergas desvairado,

Só por tocar guitarra e por cantar o fado

Melhor do que eu.

A segunda, Sophia Eulália Pimentel,

Donzella gothica e feudal,

Foi apenas a visão, sonho de Menestrel

Em velha Côrte medieval…

Muitas outras depois, muitas outras mulheres,

Doido romantico, adorei;

Ah! quantas ilusões e quantos malmequeres

Por todas ellas desfolhei!

Mas nenhuma deixou recordação tão doce

Como a linda Rachel…

Ah! se ella viva fôsse,

Quanta impura triaga, quanto fel

Eu teria evitado

Como homem casado!

Mas … lá diz o ditado:

Casamento e mortalha

No céu se talha,

Embora ás vezes o casamento

Seja um tormento,

Que mais parece fogo do Inferno

Que bico de obra das mãos do Eterno…

Foi por essa razão

Que simultaneamente e sucessivamente,

Com o meu coração

Atormentado e doente,

Me consagrei a amar

As mais diversas criaturas,

Mas já sem intenção de me casar:

Alem do mais, por serem duras

As minhas circunstâncias actuaes,

E bicudos os tempos para taes

Cavallarias.

Jamais, depois, tomei mulher senão a dias!

É um deleite a variedade…

Para o provar, meu tio abbade,

Com eloquencia e grande erudição, citava

A resposta que Luis XIV sempre dava

Ao confessor,

Quando este lhe exprobava inconstancias d’amor:

Nem sempre gallinha,

Nem sempre rainha…

Imagina, por isso,

Oh Thomásia! Oh sereia!

Já não digo a paixão, mas o immenso derriço,

Que a ti me prende e enleia,

Vendo que já lá vão três semanas e meia

Desde que estás ao meu serviço!

Conservei a ortografia da 1ª edição do poema.

 

 

 

O poema foi publicado em 1926 no livro NOVAS BAILATAS, livro póstumo tal com SOL DE INVERNO publicado em 1922 e por muitos considerado como a sua obra-prima.

Os poemas reunidos em Bailatas e Novas Bailatas apresentam-se num registo “… misto singular de ironia e de sensibilidade, de graça bufa e de melancolia , às vezes, parecem haver sido escritas por um Pierrot, ao mesmo tempo sentimental e charivárico”, como os caracteriza Luis de Magalhães na notável noticia biobibliográfica com que apresenta  SOL DE INVERNO.

É neste SOL DE INVERNO que Alberto d’Oliveira, dedicatário de ORLANDO INNAMORATO, num texto a que chamou “António Feijó, o que morreu de amor”, faz através da correspondência trocada por ambos, uma comovida evocação dos últimos meses da vida do poeta após a morte da esposa.

À época, António Feijó era embaixador de Portugal na Escandinávia e os excertos da correspondência publicados deixam entrever o peso de se ter nascido meridional e poeta: “Do estio setentrional ficou-me apenas a inenarrável melancolia. Não imagina como pesa ao meu espírito esta paisagem, composta monotonamente de lagos, pinheiros e rochedos, sob uma luz pálida, misto de aurora e poente, tão triste, tão triste, que parece a obra de um Deus infeliz.”

É um poeta e escritor brilhante quem assim escreve.

Lida como um todo, a poesia de António Feijó revela, na sua perfeição formal, um exercício de inteligência como poucas vezes encontramos na poesia portuguesa.

E aqui fica a belíssima alegoria à morte do amor com o passar do tempo publicado em  SOL DE INVERNO:

 

O AMOR E O TEMPO

Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

– «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento…
– «Por que voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» – Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume:
– «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo… Adeus! Adeus!»

 

 

 

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Corpo de ânsia, eu sonhei … poema de José Régio

19 Sexta-feira Fev 2010

Posted by viciodapoesia in Erótica, Poetas e Poemas

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José Régio

A poesia de José Régio (1901-1969), ainda que pretenda exprimir o universal da condição humana, e com isso ser profundamente apelativa ao leitor, a matriz cristã em que esse universal radica cria alguma desconfiança nestes tempos incréus.

Acontece que em José Régio, entre as angustias e dúvidas próprias ao humano, e que a sua poesia aborda, surgem poemas de uma carnalidade avassaladora em que a forma poética nos deixa sem fôlego. São algumas dessas poesias as escolhas próximas.


Canção cruel

Corpo de ânsia,

Eu sonhei que te prostrava,

E te enleava

Aos meus musculos!


Olhos de êxtase,

Eu sonhei que em vós bebia

Melancolia

De há séculos!


Boca sôfrega,

Rosa brava,

Eu sonhei que te esfolhava

Pétala a pétala!


Seios rígidos,

Eu sonhei que os mordia

Até que sentia

Vómitos!


Ventre de mármore,

Eu sonhei que te sugava,

E esgotava

Como a um cálice!


Noticia bibliográfica:

O poema pertence a um ciclo “O Amor e a Morte” publicado por José Régio no livro FILHO DO HOMEM editado pela primeira vez em Maio de 1961. É dos livros menos populares do poeta.


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