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vicio da poesia

Category Archives: Poesia Antiga

Arcipreste de Hita – fragmento do Livro de Bom Amor

19 Quarta-feira Jun 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Arcipreste de Hita

O Sátiro e a mulherNeste percorrer a poesia através dos tempos, tenho vindo a dar conta de como o amor físico nela se expressa. Acrescento hoje um fragmento da prodigiosa obra do Arcipreste de Hita, Juan Ruiz, Libro de buen amor, conhecido desde 1330.
Obra de reflexão moral e “autobiografia (?)” ficcionada, é sobretudo um percurso sobre os temas literários da época, onde costumes, religião e moral se cruzam, temas esses que também se encontram em Dante ou no Decameron de Bocaccio.

— fragmento —

Aqui diz como segundo a natureza os homens e os outros animais querem ter ajuntamento com as fêmeas

Como diz Aristóteles, é coisa verdadeira,
o homem por duas coisas se esforça: a primeira
para subsistir; e a outra coisa era
para poder juntar-se a fêmea prazenteira.

Se o dissesse por mim era de censurar;
mas di-lo um bom filósofo, ninguém me vai culpar:
de quanto afirma um sábio não devemos duvidar
pois com factos se prova o sábio e seu falar.

Que diz verdade o sábio claramente se prova:
homens, aves e bestas, todo o bicho de cova
querem como é natural companhia sempre nova,
e muito mais o homem que coisa que se mova.

Digo que mais o homem que outra criatura:
todas têm uma época pra se unir por natura;
o homem em qualquer dia, sem juízo e mesura,
sempre que pode, quer cometer tal loucura.

O fogo sempre quer permanecer na cinza,
pois arde tanto mais quanto mais alguém o atiça;
o homem quando peca entende que desliza,
mas não se afasta disso, que a natura o encarniça.

E eu, como sou homem como os outros, pecador,
senti pelas mulheres às vezes grande amor;
nós provarmos as coisas não é por tal pior,
pra saber o bem e o mal, e escolher o melhor.

Noticia bibliográfica

O fragmento respeita aos quartetos 71— 76 na edição de Gybbon-Monypenny, Clásicos Castália, Madrid, 1988.
Tradução de José Bento in Antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Século XIX, ed. Assírio & Alvim, Lisboa 2001.

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Do amor e consequência com Juan de Mena

05 Quarta-feira Jun 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Juan de Mena, Picasso

Reclining Nude with a Man Playing the Guitar - 1970-10Em mais um convite à cultura do século XV, arquivo no blog dois poemas de Juan de Mena (1411-1456), poeta espanhol grosso modo contemporâneo do francês François Villon (1431-1464) de artigo recente.

É outro o assunto desta poesia e é outra também a delicadeza da versificação.

Regresso ao deleite do amor e à sua explicitação poética, alargando a evidência de quanto o assunto é importante para a humanidade e capaz de inspirar as mais delicadas manifestações do espírito.

Depois de ontem, pela voz de Herberto Hélder (1930), sabermos poeticamente como a visita da amada transforma a noite em arco-íris, hoje Juan de Mena conta-nos, numa canção, do sofrimento de deixar os braços da amada:
…
oh, que morte que perdi / em viver, quando parti / dos braços de minha dama.

Canção

Onde estou eu nesta cama,
a maior dor que senti
é pensar quando parti
dos braços de minha dama.
Junto ao mal com que contendo
por estarmos longe nós,
tantas vezes me arrependo
quantas me lembro de vós:
tanto que espalham a fama
que por isso adoeci
os que sabem que parti
dos braços de minha dama.
Embora eu sofra e me cale,
esta queixa não menos perto
a acho, para meu mal,
quanto de vós eu deserto.
Se meu fim é que me chama,
oh, que morte que perdi
em viver, quando parti
dos braços de minha dama.

Conhecido que está o efeito da separação quando se ama, vejamos o efeito de um amor não respondido nestes perdidos tempos de há quase 600 anos:

Primeiro o coup-de-foudre:

Vossos olhos me fitaram / com tão discreto fitar, / feriram e não deixaram / em mim nada por matar.

L'aubade - 1965-4
Depois, a ausência de resposta satisfatória:

Eles, inda não contentes / com minha mente vencida, / dão-me tão cruéis tormentos / que atormentam minha vida:

depois que me dominaram / com tão discreto fitar, / feriram e não deixaram / em mim nada por matar.

Conclui-se a canção com o despeito de amor não correspondido, como provavelmente na humanidade de hoje também acontece:

Para crer no que tu vejas, / na minha pena dorida, / dê-te Deus tão triste vida /
que ames e nunca sejas / amada nem bem querida.

E com esta vida tal / penso bem que tu crerás / no tormento sem igual / que, sem eu merecer, me dás.
Já que morte me desejas, / sem por mim ser merecida, / dê-te Deus tão triste vida
que ames e sempre sejas / desamada e mal querida.

Deixo-vos com a canção sem mais intromissões.

Canção

Vossos olhos me fitaram
com tão discreto fitar,
feriram e não deixaram
em mim nada por matar.
Eles, inda não contentes
com minha mente vencida,
dão-me tão cruéis tormentos
que atormentam minha vida:
depois que me dominaram
com tão discreto fitar,
feriram e não deixaram
em mim nada por matar.
Para crer no que tu vejas,
na minha pena dorida,
dê-te Deus tão triste vida
que ames e nunca sejas
amada nem bem querida.
E com esta vida tal
penso bem que tu crerás
no tormento sem igual
que, sem eu merecer, me dás.
Já que morte me desejas,
sem por mim ser merecida,
dê-te Deus tão triste vida
que ames e sempre sejas
desamada e mal querida.

Traduções de José Bento in Antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Século XIX, ed. Assírio & Alvim, Lisboa 2001.

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Pintura em Berlim e a Balada dos Enforcados de François Villon

27 Segunda-feira Maio 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Dürer, Fra Filippo Lippi, François Villon, GHIRLANDAIO, Holbein, Jan van EYCK, MAINARDI, Vermeer

Holbein - O mercador Gisze - 1532É com emocionante surpresa que a cada passo, ao visitar os museus de pintura em Berlim, encontro obras que por anos conheci em fotografia e integraram o museu da minha imaginação. São talvez dezenas as que já surgiram no blog porque com elas me cruzei num livro e me interrogaram, sem que soubesse onde se encontravam e agora, ao circular de sala em sala, surgem, inesperadas. É um júbilo que me invade. Apetece mexer-lhes, vê-las de perto, encontrar os detalhes que em tempos prenderam a atenção. E as surpresas de escala são frequentes: a algumas das pinturas julgava-as pequenas e surgem enormes, outras pensadas de dimensões generosas, são afinal pequeníssimas. Enfim, prazeres do olhar que enchem a alma.

Anónimo - 1450O que faz de Berlim um caso especial é a diminuta divulgação mediática que os museus fazem do seu acervo, resultando daí um enorme desconhecimento sobre os tesouros que lá se guardam.

Vermeer - Mulher com colar de pérolas 1662-64Acrescento hoje alguma pintura antiga de retrato, paixão minha a que tento aliciar os leitores do blog. Alguns são retratos pouco divulgados nas monografias onde o peso das colecções norte-americanas e francesas se faz sentir. Aí ficam à contemplação do olhar.

GHIRLANDAIO ou MAINARDI - retrato de rapariga 1500

EYCK, Jan van - retrato de homem com cravo - 1435

Dürer - retrato de rapariga 1497Este olhar o outro, encontrando simultaneamente continuidades e diferenças culturais, faz da observação de cada retrato um imenso desafio à compreensão de quem somos. Na envolvência que procuramos e nos conforta, medimos a distancia que nos separa destes mundos passados que a pintura faz presentes.

Fra Filippo Lippi -  rapariga de perfil 1440-42No mosaico que a realidade sempre é, tentar captar por vislumbres uma época passada é tarefa sobremaneira cheia de prazeres intelectuais. Das épocas mais recuadas, ficaram-nos às vezes testemunhos escritos, outras vestígios da civilização material, quase sempre obras de arte que continuam a falar-nos, revelando o seu carácter intemporal.

A pouco e pouco, conhecer e preencher o puzzle de uma época que nos interroga e apaixona, dando forma na cabeça à atmosfera que nela se vivia, acaba por ser o sentido de ler e viajar pelos territórios onde os seus vestígios permanecem.

Se diversas épocas e geografias têm ao longo dos anos preenchido uma aparente insaciável curiosidade, acabo sempre, a cada nova descoberta, por regressar à Europa do século XV, aquele período da gesta dos descobrimentos portugueses e de invenção do mundo moderno que herdámos.

Foram desse tempo alguns retratos encontrados em Berlim e mostrados antes. É desse tempo a famosa Balada dos Enforcados de François Villon (1431-1464) poema em que nos confrontamos com a mais extrema violência sobre os homens, a aceitação da sua legitimidade e justificação, numa sociedade requintada capaz de produzir a sofisticação de que estes retratados dão mostras.

L’Épitaphe de Villon en forme de ballade

Homens irmãos que mais que nós viveis,
Não deixeis vosso peito empedernido,
Pois que, se compaixão de nós haveis,
Bem será Deus de vós compadecido.
Aqui somos atados cinco, seis.
Quanto à carne, demais por nós nutrida,
É gasta, devorada, corrompida
E nós, ossos, cinza e pó vamos ser.
Que ninguém de nós ria nesta vida,
Rogai a Deus que nos queira absolver!

Se clamamos, irmãos, vós não deveis
Ter desdém, por termos sido feridos
Pela justiça. Pois vós sabereis
Que nem todos têm certos os sentidos;
Intercedei por nós assim transidos
Junto do Filho da Virgem Maria,
Que não seja, da graça, a alma vazia,
Pra do fogo infernal nos proteger
Somos mortos, nada nos arrelia;
Rogai a Deus que nos queira absolver!

Pela chuva lavados e polidos,
Pelo sol ressequidos e tostados,
Os olhos pelos corvos engolidos,
A barba e os cabelos arrancados.
Nunca jamais estamos assentados,
Pra cá, pra lá, como o vento varia;
Para onde quer, sem parar, nos envia.
Bicadas: mil, até dedais parecer.
Não sejais, pois, da nossa confraria;
Rogai a Deus que nos queira absolver!

Senhor Jesus, de todos senhoria,
Poupai-nos do Inferno a tirania:
Nada temos com ele a resolver.
Homens, aqui não cabe a zombaria;
Rogai a Deus que nos queira absolver!

Tradução de Herculano de Carvalho.

Os curiosos poderão encontrar na ligação abaixo o texto original da balada e a sua versão em francês moderno.

Texte de la ballade et transcription en français moderne

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Dirceu – O poeta Tomás António Gonzaga

07 Domingo Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Dirceu, Marília, Poesia, Tomás António Gonzaga


Continuo a desafiar os leitores do Blog para a poesia antiga.

Publicado este artigo num tempo em que a audiência do blog se contava por meia dúzia de leitores, o artigo tem permanecido escondido entre o mais de meio milhar de artigos do arquivo do blog. Resolvi despertá-lo, na tentativa de encontrar novos leitores para um poeta maior que dá gosto ler.

Hoje, o autor é conhecido e lendária a paixão por Marília. Será a sua poesia assim conhecida?

Despida dos convencionalismos arcádicos que pululam na maior parte da poesia portuguesa da segunda metade do sec. XVIII, é a nobreza e verdade do sentimento o que nos comove ao lê-la.

Do lirismo do tempo de Coimbra ainda com sabor ao soneto quinhentista, à variedade poética com que envolve a sua paixão por Marília, temos um conjunto de belíssima poesia de que escolho quase ao acaso alguns poemas.

 

Antes de Marília

Vamos com o jovem poeta do sonho de riqueza ao coração dividido por dois amores

I

Num fértil campo do soberbo Douro,

Dormindo sobre a relva, descansava,

Quando vi que a fortuna me mostrava,

Com alegre semblante, o seu tesouro.

 

De uma parte, um montão de prata e ouro

Com pedras de valor o chão curvava;

Aqui um ceptro, ali um trono estava,

Pendiam coroas mil de grama e louro.

 

– Acabou-se – diz-me então – a desventura:

De quantos bens te exponho qual te agrada,

Pois benigna o concedo, vai, procura.

 

Escolhi, acordei, e não vi nada:

Comigo assentei logo que a ventura

Nunca chega a passar de ser sonhada.

 

II

É gentil, é prendada a minha Altéia;

As graças, a modéstia do seu rosto

Inspiram no meu peito maior gôsto

Que ver o próprio trigo quando ondeia.

 

Mas, vendo o lindo gesto de Dircéia,

A nova sujeição me vejo exposto;

Ah! Que é mais engraçado, mais composto

Que a pura esfera, de mil astros cheia!

 

Prender as duas com grilhões estreitos

É uma acção, ó deuses, inconstante,

Indigna dos sinceros nobres peitos.

 

Cupido, se tens dó de um triste amante,

Ou forma de Lorino dous sujeitos,

Ou forma desses dous um só semblante.

 

Retrato e paixão por Marília

Primeiro o retrato.

Os olhos:

ao sol se excedem / na luz que dão,

o resto di-lo o poema.

 

Depois a paixão com um poema que nos dá conta do que sente o apaixonado sem remédio.

se não vivera /

uma esperança / no peito seu, /

já morto estava / o bom Dirceu.

 

III

A minha amada / é mais formosa

que branco lírio, / dobrada rosa,

que o cinamomo,  / quando matiza / co’a folha a flôr.

Vénus não chega / ao meu amor.

 

Vasta campina, / de trigo cheia,

quando na sesta / co vento ondeia,

ao seu cabelo, / quando flutua, / não é igual.

Tem a cor negra, / mas quanto val!

 

Os astros, que andam / na esfera pura,

quando cintilam  / na noite escura,

não são, humanos, / tão lindos como / seus olhos são,

que ao sol se excedem / na luz que dão.

 

Às brancas faces / ah! Não se atreve

jasmim de Itália, / nem inda a neve,

quando a desata / o sol brilhante / com seu calor.

São neve, e causam / no peito ardor.

 

Na breve boca / vejo enlaçadas

as finas per’las / com as granadas;

a par dos beiços, / rubis da India / têm preço vil.

Neles se agarram / amores mil.

 

Se não lhe desse / compadecido,

tanto socorro / o deus Cupido;

se não vivera / uma esperança / no peito seu,

já morto estava / o bom Dirceu.

 

Vê quanto pode / teu belo rosto,

e de gozá-lo / o vivo gosto!

Que submergido / em um tormento / quase infernal,

porqu’inda espero, / resisto mal.

 

IV

Não sei, Marília, que tenho, / Depois que vi o teu rosto,

Pois quanto não é Marília / Já não posso ver com gosto.

Noutra idade me alegrava, / Até quando conversava

Com o mais rude vaqueiro: / Hoje, ó bela, me aborrece

Inda o trato lisonjeiro / Do mais discreto pastor.

Que efeitos são os que sinto?

Serão efeitos de amor?

 

Saio da minha cabana / Sem reparar no que faço;

Busco o sítio aonde moras / Suspendo defronte o passo.

Fito os olhos na janela; / Aonde, Marília bela,

Tu chegas ao fim do dia; / Se alguém passa e te saúda,

Bem que seja cortesia, / Se acende na face a cor.

Que efeitos são os que sinto?

Serão efeitos de amor?

 

Se estou, Marília, contigo, / Não tenho um leve cuidado;

Nem me lembra se são horas / De levar à fonte o gado.

Se vivo de ti distante, / Ao minuto, ao breve instante

Finge um dia o meu desgosto; / Jamais pastora te vejo

Que em teu semblante composto / Não veja graça maior.

Que efeitos são os que sinto?

Serão efeitos de amor?

 

Ando já com o juizo, / Marília, tão perturbado,

Que no mesmo aberto sulco / Meto de novo o arado.

Aqui no centeio pego, / Noutra parte em vão o sego;

Se alguém comigo conversa, / Ou não respondo, ou respondo

Noutra coisa tão diversa, / Que nexo não tem menor.

Que efeitos são os que sinto?

Serão efeitos de amor?

 

Se geme o bufo agoureiro, / Só Marília me desvela,

Enche-se o peito de mágoa, / E não sei a causa dela.

Mal durmo, Marília, sonho / Que fero leão medonho

Te devora nos meus braços: / Gela-se o sangue nas veias,

E solto do sono os laços / À força de imensa dor.

Ah! Que os efeitos, que sinto,

Só são efeitos de amor!

 

O namoro e a explicação do sexo

Brincadeiras, ciúme, e como se fazem meninos com exemplos colhidos na natureza.

 

V

Num sitio ameno, / cheio de rosas, / de brancos lírios / murtas viçosas.

Dos seus amores / na companhia / Dirceu passava / alegre o dia.

Em tom de graça, / ao terno amante / manda Marília / que toque e cante.

Pega na lira, / sem que a tempere, / a voz levanta, / e as cordas fere.

Cos doces pontos / a mão atina, / e a voz iguala / à voz divina.

Ela, que teve / de rir-se a ideia, / nem move os olhos, / de assombro cheia.

Então Cupido / aparecendo, / à bela fala, / assim dizendo:

– Do teu amado / a lira fias, / só por que dele /zombando rias?

Quando num peito / assento faço, / do peito subo / à lingua e braço.

Nem creias que outro / estilo tome, / sendo eu o mestre, / a acção teu nome.

 

VI

Minha Marília, / tu enfadada? / Que mão ousada

perturbar pode / a paz sagrada / do peito teu?

Porém que muito / que irado esteja

o teu semblante: / também troveja / o claro céu.

 

Eu sei, Marília, / que outra pastora / a toda hora,

em toda a parte, / cega namora / ao teu pastor.

Há sempre fumo / aonde há fogo:

Assim, Marília, / há zelos, logo / que existe amor.

 

Olha, Marília, / na fonte pura / a tua alvura,

a tua boca / e a compustura / das mais feições.

Quem tem teu rosto / Ah! Não receia

que terno amante / solte a cadeia, / quebre os grilhões.

 

Não anda Laura / nestas campinas / sem as boninas

no seu cabelo, / sem peles finas / no seu jubão.

Porém que importa? / O rico asseio

não dá, Marília, / ao rosto feio / a perfeição.

 

Quando apareces / na madrugada, / mal embrulhada

na larga roupa, / e desgrenhada, / sem fita ou flor,

Ah! Que então brilha / a natureza!

Então se mostra / tua beleza / inda maior.

 

O céu formoso, / quando alumia / o sol de dia,

ou estrelado, / na noite fria, / parece bem.

Também tem graça / quando amanhece;

até Marília, / quando anoitece / também a tem.

 

Que tens, Marília, / que ela suspire, / que ela delire,

que corra os vales, / que os montes gire, / louca de amor?

Ela é que sente / esta desdita;

e na repulsa / mais se acredita / o teu pastor.

 

Quando há, Marília, / alguma festa / lá na floresta,

(fala a verdade!) / dança com esta / o bom Dirceu?

E se ela o busca, /vendo buscar-se,

não se levanta, / não vai sentar-se / ao lado teu?

 

Quando um por outro / na rua passa, / se ela diz graça

ou muda o gesto, / esta negaça / faz-lhe impressão?

Se está fronteira, / e brandamente /

lhe fita os olhos, / não põe, prudente, / os seus no chão?

 

Deixe o ciúme, / que te desvela, / Marília bela;

nunca receies / dano daquela / que igual não fôr.

Que mais desejas? /Tens lindo aspecto;

Dirceu se alenta / de puro afecto, /de pundonor.

 

VII

Marília, de que te queixas? / De que te roube Dirceu

O sincero coração? / Não te deu também o seu?

E tu, Marília, primeiro / Não lhe lançaste o grilhão?

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

Em torno das castas pombas / Não rulam ternos pombinhos?

E rulam, Marília, em vão? / Não se afagam os biquinhos?

E a provas de mais ternura / Não os arrasta a paixão?

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

Já viste, minha Marília, / Avezinhas que não façam

Os seus ninhos no verão? / Aquelas, com quem se enlaçam,

Não vão cantei-lhes defronte / Do mole pouso, em que estão?

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

Se os peixes, Marília, geram / Nos bravos mares e rios,

Tudo efeitos de amor são. / Amam os brutos ímpios,

A serpente venenosa, / A onça, o tigre, o leão.

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

As grandes deusas do céu / Sentem a seta tirana

Da amorosa inclinação / Diana, por ser Diana,

Não se abrasa, não suspira / Pelo amor de Endimião?

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

Desiste, Marília bela, / De uma queixa sustentada

Só na altiva opinião. / Esta chama é inspirada

Pelo céu, pois nela assenta / A nossa conservação.

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

A prisão

Num pungente canto, assistimos ao desfilar dos terrores da prisão a que o amor por Marília oferece o conforto e a esperança.

O poema termina de forma admirável com a exclamação:  Vê, Marília, o quanto pode / contra meus males teu rosto!

 

VIII

Se o vasto mar se encapela / e na rocha em flor rebenta,

grossa nau, que não tem leme, / em vão sustentar-se intenta;

até que naufraga e corre / à discrição da tormenta.

 

Quem não tem uma beleza, / em que ponha o seu cuidado,

se o céu se cobre de nuvens, / e se assopra o vento irado,

não tem forças que resistam / ao impulso do seu fado.

 

Nesta sombria masmorra, / aonde, Marília, vivo,

encosto na mão o rosto, / fico ás vezes pensativo.

Ah! Que imagens tão funestas / me finge o pesar activo!

 

Parece que vejo a honra, / Marília, toda enlutada;

a face de um pai, rugosa, / num mar de pranto banhada;

os amigos macilentos, / e a familia consternada.

 

Quero voltar os meus olhos / para outro diverso lado:

vejo numa grande praça / um teatro levantado;

vejo as cruzes, vejo os potros, / vejo o alfange afiado.

 

Um frio suor me cobre, / lassam-me os membros, suspiro;

busco alívio às minhas ânsias, / não o descubro, deliro.

Já, meu bem, já me parece, / que nas mãos da morte expiro.

 

Vem-me então ao pensamento / a tua testa nevada,

os teus meigos, vivos olhos, / a tua face rosada,

os teus dentes cristalinos, / a tua boca engraçada.

 

Qual, Marília, a estrela d’alva, / que a negra noite afugenta;

qual o sol, que a névoa espalha, / apenas a terra aquenta;

ou qual íris, que o céu limpa, / quando se vê na tormenta.

 

Assim, Marília, desterro / triste ilusão e demência;

faz de novo o seu oficio / a razão e a prudência;

e firmo esperanças doces / sobre a cândida inocência.

 

Restauro as forças perdidas, / sobe a viva cor ao rosto,

gira o sangue pela veia / e bate o pulso, composto.

Vê, Marília, o quanto pode / contra meus males teu rosto!

Lida hoje, a sinceridade do sentimento expresso e a forma singela despida de arrebiques, faz nosso contemporâneo este poeta e esta poesia. Quem alguma vez amou reconhece a cada passo  as dúvidas, os anseios, a hipérbole da admiração e a esperança de redenção a que o amor conduz.

 

Noticia biográfica e bibliográfica

 

Tomás António Gonzaga (1744-1810) nascido no Porto, passou a adolescência no Brasil de onde voltou com 17 anos, em 1761, para se matricular na Universidade em Coimbra no ano seguinte, estudar leis, e de onde saiu graduado em 1768, aos 24 anos.

Tendo exercido cargos públicos como Juiz em Portugal, foi nomeado em 1782 Ouvidor de Vila Rica no Brasil, para onde partiu nesse ano e nunca mais regressou a Portugal.

Vila Rica era a capital de Minas Gerais, por onde ao tempo passavam ouro e diamantes com destino a Portugal.

Integrado na sociedade local, conheceu Maria Doroteia, menina da boa sociedade, na altura com cerca de 17 anos. Linda, a ajuizar por testemunhos da época, deu a volta à cabeça do nosso poeta, a entrar nos 40.

O namoro pegou, e foi esta Maria Doroteia a Marília cantada por Gonzaga, que a si atribuiu o nome de Dirceu.

O namoro prosseguiu por entre as complicações politicas em torno do Ouvidor e em meados de 1787 o casamento estava assente.

 

Entre as complicações em torno do homem que para a obra do poeta nos interessam, esteve a publicação das Cartas Chilenas, sátira veemente aos desmandos e tiranias do Governador de Minas, escritas na clareza de linguagem que caracteriza o poeta e ás vezes de uma ironia pungente. Estas Cartas Chilenas circularam sem nome de autor.

Foi por esta altura, 1788, que o depois famoso “Tiradentes”, alferes Joaquim José da Silva Xavier, concebeu a ideia de um levantamento armado que proclamasse a indepêndencia de Minas Gerais em relação à coroa portuguesa.

Os maiores amigos de Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa, ambos poetas notáveis, brasileiros de nascimento, envolveram-se na conspiração. Aparentemente o nosso poeta tinha na conspiração um pé dentro e outro fora.

Um dos visados nas Cartas Chilenas, Joaquim Silvério dos Reis, foi quem denunciou a conjura junto do Governador e apontou Gonzaga como chefe da conspiração.

A 21 de Maio de 1789 o Governador ordenou a prisão de Gonzaga, e em vésperas do casamento o poeta foi enviado para o Rio de Janeiro e encarcerado na Fortaleza da Ilha das Cobras.

Após 3 anos de prisão Gonzaga, foi condenado a 10 anos de degredo em Moçambique, e a 23 de Maio de 1792 partiu para Africa com mais seis réus do que ficou conhecido como Inconfidência.

Não voltaria a ver Marília.

 

Do resto da vida passada em Moçambique, onde morreu em 1810, dá conta com abundantes detalhes, Manuel Rodrigues Lapa na edição crítica das Poesias e Cartas Chilenas, publicada no Rio de Janeiro em 1957 pelo Instituto Nacional do Livro, e de cujo prefácio me socorri para as informações que acima deixei.

 

Sob o título “Marília de Dirceu e outras poesias”, foi a poesia amorosa de Tomás António Gonzaga publicada na colecção Clássicos Sá da Costa, onde conheceu ampla divulgação. A edição foi de M. Rodrigues Lapa, e anterior à edição crítica que acima referi. Segundo o editor, ás condições da edição em plena 2ª Guerra Mundial, em 1942, se devem algumas insuficiências da edição Sá da Costa, colmatadas na edição crítica de 1957 feita no Brasil.

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Os beijos – poema ultra-romântico

04 Quinta-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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António José de Sousa Almada, Poesia Ultra-romântica, William Holman Hunt

William Holman Hunt 1827-1910 - The awakening Conscience 1853 TateEm maré de beijos poéticos, venho com um poema do ultra-romantismo assinado António José de Sousa Almada e escrito em Lisboa, em 1848.

O poema apenas nos mostra, uma vez mais, a constância da palpitação erótica através das épocas e o impulso para a sua formulação poética.

Ao contrario de Catulo e dos seus beijos mil, o nosso jovem (suponho) clama da falta deles:

Dos beijos que por aí vão
Perdidos,… que nem eu sei;
Nem sequer um beijo só
Dos que se perdem, achei!

…
E mais, não é por descuido,
Nem por faltar-me o desejo,
…

E o nosso jovem(?) dando-se ares de inocente escreve:

…
Que eu não sei dizer ainda
O gosto que tem um beijo.

Pedi-los… não querem dar-me,
Furtá-los… não sei a quem,
Por mais que busque e pergunte
Onde estão?… e quem os tem?!

Que sabem bem… desconfio
Pois mo têm vindo contar;
…

Bom, com a conversa daqui a pouco esquartejo todo o poema, pelo que fico-me por mais esta citação:

…
E dizem também que há beijos
Que dados mais de uma vez:
Entumecem nos sentidos
Torrentes de languidez.
…

Passam os séculos mas chegada a idade certa, a conversa é sempre a mesma.

Eis o poema, retirado do pó de mais de 150 anos.

Os Beijos

Dos beijos que por aí vão
Perdidos,… que nem eu sei;
Nem sequer um beijo só
Dos que se perdem, achei!

E mais, não é por descuido,
Nem por faltar-me o desejo,
Que eu não sei dizer ainda
O gosto que tem um beijo.

Pedi-los… não querem dar-me,
Furtá-los… não sei a quem,
Por mais que busque e pergunte
Onde estão?… e quem os tem?!

Que sabem bem… desconfio!
Pois mo têm vindo contar:
Há beijo, que tira a cor,
Há beijo… que faz corar!

O beijo que tira a cor,
É beijo dado com medo;
Que sobressalta, e descora
A quem lhe guarda o segredo.

O beijo que faz corar,
É quase sempre o primeiro;
Murmúrio d’alma da virgem,
Que assoma aos lábios fagueiro.

Os beijos que são pedidos,
Pousa-os na face a vontade:
É o amor a dilatar-se
No perfume da amizade!

Mas os beijos que são dados
À vista de muita gente,
Desmerecem no apreço
E arrefecem de repente.

E dizem também que há beijos
Que dados mais de uma vez:
Entumecem nos sentidos
Torrentes de languidez.

Eu cá por mim, — nada sei,
Mas acho que estes são
Mistérios que não se explicam,
Segredos do coração!

Não sei: — nem mesmo se o beijo,
Revela às vezes, pousando,
Mística voz lá do céu
Que a boca não diz, falando!

E se inexacto julgarem
Os beijos que descrevi;
Mostrem-me as Damas o erro
Dando-me um beijo a mi!…

Que os beijos que por aí vão,
Perdidos,… que nem eu sei.
Nem sequer um beijo só
Dos que se perdem, achei.

Lisboa, 1848

Nota final

O poema vem publicado no Tomo IV de Lísia Poética, colectânea de poesia romântica e ultra-romântica publicada no Rio de Janeiro em 1849 por José Ferreira Monteiro.

A pintura que abre o artigo, denominada O despertar da consciência, 1853, é obra do pintor Pré-Rafaelista William Holman Hunt (1827-1910).

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Beijos mil – o poema V de Catulo

03 Quarta-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Catulo, Klimt, Rodin

Rodin - O beijo - terracota

Permanece no imaginário de quem o leu como forma superior de dizer do amor e da sua paixão o Carme V de Catulo (Gaius Valerius Catullus, 87 ou 84 a.C. – 57 ou 54 a.C.), ad Lesbiam.

O eterno do desejo e a sua urgência ganha forma poética neste acontecer de beijos dados e desejados, sucedendo-se pela vida e para além dela.

Objecto de variadas traduções ao longo dos tempos, encontrou na recente tradução de José Pedro Moreira e André Simões um comovedor equilíbrio entre fidelidade textual e poesia.

Vivamos, Lésbia minha, e amemos.
A má-língua dos velhos mais sisudos
para nós não valha mais do que um tostão.
Podem os dias morrer e nascer:
quando a breve luz de vez morrer
noite perpétua devemos juntos dormir.
Dá-me beijos mil, e depois cem,
e depois mil outros, e depois mais cem,
e depois ainda mais mil, e depois cem.
Depois, quando muitos dermos,
baralhá-los-emos para não sabermos quantos,
ou não possa homem mau invejar-nos
ao saber que quantos beijos demos.

Antes desta versão, dera-nos Jorge de Sena a leitura com que por décadas vivemos o poema:

Vivamos, minha Lésbia, e nos amemos.
Sem que o que digam murmurantes velhos
Importe para nós mais que uma palha.
Podem morrer e renascer os sóis.
A nós, quando se apaga a breve luz,
Noite é perpétua que dormir havemos.
Oh dá-me beijos mil, depois um cento,
Depois mais outros mil, e um outro cento,
Depois ainda outros mil, e mais um cento.
Depois, quando os milhares forem já muitos,
Erraremos a conta, a não saibamos,
Para que a inveja não nos leve a mal,
Sabendo quanto foi de beijos dado.

Também Maria Helena da Rocha Pereira, com a probidade da sua oficina, o traduziu:

Vivamos, minha Lésbia, e amemos,
e os murmúrios ds velhos mais severos
dêmos-lhes a todos o valor de um cêntimo!
Os sóis podem extinguir-se e voltar:
mas nós, uma vez que se extingue a breve luz do dia,
temos de dormir uma só noite, para sempre.
Dá-me mil beijos, depois um cento,
e mais mil, depois outro cento,
depois outros mil, e mais cem.
Em seguida, quando juntarmos muitos milhares,
misturamo-los, para que não saibamos
ou nenhum malvado possa invejar-nos,
quando souber que tantos foram os beijos.

Termino com o original latino do poema.

V. ad Lesbiam

VIVAMUS mea Lesbia, atque amemus,

rumoresque senum seueriorum

omnes unius aestimemus assis!

soles occidere et redire possunt:

nobis cum semel occidit breuis lux,

nox est perpetua una dormienda.

da mi basia mille, deinde centum,

dein mille altera, dein secunda centum,

deinde usque altera mille, deinde centum.

dein, cum milia multa fecerimus,

conturbabimus illa, ne sciamus,

aut ne quis malus inuidere possit,

cum tantum sciat esse basiorum.

Klimt_Gustav-The_Kiss

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O Edital, poema de Augusto Gil

02 Terça-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Augusto Gil

MASTER of the Duke of Bedford - Construindo a Torre de babel 1423

Pessoa amiga sugeria-me que hoje, a pretexto do dia do livro infantil, aqui trouxesse a poesia que mais me tocou na infância. Ela já está algures no blog: foi o poema popular Nau Catrineta.

Nesta pausa da Páscoa passeava em Tavira, minha cidade natal, e reencontrei um condiscípulo de escola primária, básica chama-se hoje, que nunca mais vira, e em verdade, não consigo trazer à memória qualquer recordação que o relacione. Foi um encontro gratificante e, simultaneamente, embaraçoso, pelo carácter admirativo de que se revestiu, e tenho pudor de contar.

Como já aqui rememorei, aprendi a ler, escrever e contar aos 3 anos, e chegado à escola oficial com seis anos, encontrei cerca de trinta rapazes com sete anos e mais, para quem este mundo de ler e escrever era uma novidade absoluta. Foi fácil ganhar um ascendente e uma aura de prodígio, que já esquecera, e agora reencontrei.

Saber ler é um poder considerável do qual hoje não há, felizmente, vestígios. A generalização da aprendizagem disso se encarregou. Não foi sempre assim, e no Portugal até 1974 o analfabetismo era uma terrível realidade.

É dessa realidade que fala o poema O Edital de Augusto Gil (1873-1929) que acabei por escolher para de algum modo sinalizar este dia do livro infantil.

O Edital

Manuel era um petiz de palmo e meio
(ou pouco mais teria na verdade),
de rosto moreninho e olhar cheio
de inteligente e enérgica bondade.

Orgulhava-se dele o professor…
No porte e no saber era o primeiro.
Lia nos livros que nem um doutor,
fazia contas que nem um banqueiro…

Ora uma vez ia o Manuel passando
junto ao adro da igreja. Aproximou-se
e viu à porta principal um bando
de homens a olhar o quer que fosse.

Empurravam-se todos em tropel,
ansiosos por saberem, cada qual,
o que vinha a dizer certo papel
pregado com obreias no portal…

“Mais contribuições!” – supunha um.
“É pràs sortes, talvez” … outro volvia.
Quantas suposições! Porém, nenhum
sabia ao certo o que o papel dizia.

Nenhum (e eram vinte os assistentes)
sabia ler aqueles riscos pretos.
Vinte homens e talvez inteligentes,
mas todos – que tristeza analfabetos!…

Furou Manuel por entre aquela gente
ansiosa, comprimida, amalgamada,
como uma formiguinha diligente
por um maciço de erva emaranhada.

Furou, e conseguiu chegar adiante.
Ergueu-se nos pezitos para ver;
mas o edital estava tão distante,
lá tanto em cima, que o não pôde ler.

Um dos do bando agarrou-o então
e levantou-o com as mãos possantes
e calejadas de cavarem pão…
Houve um silêncio entre os circunstantes.

E numa clara voz melodiosa
a alegre e insinuante criancinha
pôs-se a dizer àquela gente ansiosa
correntemente o que o edital continha.

Regressava o abade do passal
a caminho da sua moradia.
Como era já idoso e via mal,
acercou-se para ver o que haveria…

E deparou com esse quadro lindo
duma criança a ler a homens feitos,
dum pequenino cérebro espargindo
luz naqueles cérebros imperfeitos…

Transpareceu no rosto ao bom abade
um doce e espiritual contentamento,
e a sua boca, fonte de verdade,
disse estas frases com um brando acento:

Olhai, amigos, quanto pode o ensino…
Alguns de vós são pais, outros avós,
pois só por saber ler, este menino
— É já maior do que nenhum de vós!

O poema integra o livro VERSOS, publicado em 1898. Transcrevi a versão da 5ª edição,

Ilustra o artigo uma iluminura da construção da Torre de Babel, de Mestre do Duque de Bedford, c. 1423.

“E era toda a terra de uma mesma língua, e de uma mesma fala” Génesis 11:1

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Cantiga da Condessa de Die (sec. XII-XIII)

26 Terça-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Condessa de Die

Iluminura 10x500

É famosa a cantiga da Condessa de Die (sec. XII-XIII) onde a supremacia da vontade da mulher no seio do casal se afirma sem ambiguidades:

Não há nenhum mór prazer
Que vos ter com’a marido.
Se de vós for prometido
Fazerdes quant’eu quiser.

Ao longo do poema, sem falsos pudores, a Condessa fala-nos do amor, físico, evidentemente, em termos que poucas mais vezes uma mulher ousou em poesia:

Ai quero ao meu cavaleiro
Apertar às tetas brancas!
O corpo dou-lh’eu inteiro,
Cavalgará minhas ancas!

Este poema é parte do glorioso corpus da poesia Provençal, berço da poesia europeia pós-latina, e raiz do entendimento do poeta como cantor do amor na devoção da amada, que foi o seu entendimento social até ao século XIX. Nele apenas os sexos entre evocador e evocado se trocam.

A versão de Jorge de Sena que transcrevo procura em português moderno conservar o sabor peculiar desta forma de dizer amor em poesia.

CANTIGA

Grã coita tenho sofrido
Por homem que desdenhei.
Que sempre seja sabido
Quanto o amo e amarei.
É-me agora fementido
Por amor que eu recusava.
E doida eu’stava em vestido
Ou se nua me deitava.

Ai quero ao meu cavaleiro
Apertar às tetas brancas!
O corpo dou-lh’eu inteiro,
Cavalgará minhas ancas!
Cá lh’estou mais que rendida
Flora o foi de Brancaflor,
É todo seu meu amor,
Minh’alma, os olhos, e a vida.

Aí meu amigo velido!
S’em meu poder vos tomar
E convosco me deitar
E d’amor eu vos beijar,
Não há nenhum mór prazer
Que vos ter com’a marido.
Se de vós for prometido
Fazerdes quant’eu quiser.

Acrescento o original da canção em langue d’oc

Estat ai en greu cossirier

per un cavallier qu’ai agut,

e vuoil sia totz temps saubut

cum ieu l’ai amat a sobrier.

Ara vei qu’ieu sui trahida

car ieu non li donei m’amor

don ai estat en gran error

en lieig e quand sui vestida.

Ben volria mon cavallier

tener un ser en mos bratz nut,

qu’el s’en tengra per ereubut

sol qu’a lui fezes cosseillier.

Car plus m’en sui abellida

no fetz Floris de Blanchaflor,

lui eu l’austrei mon cor e m’amor

mon sen, mos huoillis e ma vida.

Bel amics avinens e bos,

cora.us tenrai en mon poder?

E que jagues ab vos un ser

e qu.us des un bais amoros?

Sapchatz, gran talen n’auria

qu.us tengues en luoc del marit

ab so que m’aguessetz plevit

de far tot so qu’eu volria.

Por fim uma versão da canção em francês moderno para aqueles que dominam a língua poderem apreciar melhor o trabalho de virtuose da palavra levado a cabo por Jorge de Sena.

J’ai été en cruelle douleur

pour un chevalier que j’ai eu,

je veux qu’il soit pour toujours su

que je l’aimais par-dessus tout.

Mais je vois que je suis trahie

car je ne lui donnai pas tout l’amour,

j’ai fait une terrible erreur

au lit ou encore vêtue.

Je voudrais tant mon chevalier

tenir un soir entre mes bras nu

et qu’il se trouve comblé,

que je lui serve de coussin.

Je suis plus amoureuse de lui

que jamais Floris de Blanchefleur,

je lui donne mon coeur, mon amour,

mon sens, mes yeux et ma vie.

Bel ami élégant et bon,

quand vous tiendrai-je en mon pouvoir ?

Quand coucherai-je avec vous un soir,

vous donnant un baiser amoureux ?

Sachez que j’ai grand désir

de vous à la place du mari,

pourvu que vous m’ayez promis

de faire tout ce que je voudrais.

A versão para francês moderno é de Jacques Roubaud.

A identidade da Condessa de Die (sec. XII-XIII) permanece misteriosa sendo umas vezes considerada esposa de Guilherme I de Valentinois, de nome próprio Beatrice, outras tida como filha de Guigne V, delfim de Viennois. A sua obra conhecida compõe-se quatro cansos e uma tenso com Raimbaut d’Orange, e datam do virar dos sec. XII e XIII. E é o máximo que com segurança hoje se pode afirmar.

Noticia bibliográfica

A tradução de Jorge de Sena consta da sua antologia Poesia de 26 séculos, Fora do texto, Coimbra, 1993.

A transcrição do poema original, da moderna tradução francesa e da noticia biográfica, foram feitas a partir do livro Le Moyen Âge flamboyant, Poesie et peinture, 2006, deslumbrante edição de Diane de Selliers onde poesia medieval e iluminuras raras se confrontam.

O livro propõe-se, e consegue, revelar uma idade média insuspeitada, impressionante de vivacidade e expressão, duma humanidade transbordante de ternura, de espírito, de humor, em estreita comunhão com a natureza.

Em português apenas podemos ter uma pálida ideia deste universo poético com as parcas, mas belas, traduções de Augusto de Campos e mais recentemente da obra de Guilherme IX de Aquitânia por Arnaldo Saraiva, sendo que as traduções de Segismundo Spina, no seu clássico A Lírica Trovadoresca, porque em prosa, apenas tenuemente aproximam esta poesia.

Condessa de Die

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Afasta de mim esses lábios – Anónimo celta do século XV/XVI

13 Quarta-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poesia Antiga

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ELLIOTT ERWITT

ELLIOTT ERWITT California 1955

De entre as variadas perspectivas de sentir o beijo como entrega da alma, que a poesia conserva, este poema de autor anónimo da cultura celta (Irlanda), provavelmente dos séculos XV/XVI, traz uma inusual escolha:

Mais doce que o mel um beijo eu tive
De mulher casada que o deu por amor.

O poema abre com a recusa do beijo da menina virgem:

Guarda para ti esse teu beijo
Menina virgem dos dentes brancos!

e desenvolve-se explicitando os prazeres do beijo da casada.
Para que não restem duvidas a ninguém, o nosso homem remata com uma declaração de fidelidade perene:

Outras mulheres novas e velhas não hei-de amar
Pois que o seu beijo é como é, foi e será.

Passemos então ao poema integral:

Afasta de mim esses lábios

Guarda para ti esse teu beijo
Menina virgem dos dentes brancos!
Nesse teu beijo eu gosto não acho
Longe de mim guarda teus lábios.

Mais doce que o mel um beijo eu tive
De mulher casada que o deu por amor.
Até que se acabem o mundo e os dias
Beijo de gosto só esse terei; esse e não outro.

Até que a veja tal como é em sua pessoa
Por obra e graça do filho de Deus
Outras mulheres novas e velhas não hei-de amar
Pois que o seu beijo é como é, foi e será.

Tradução de José Domingos Morais, in Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro.

A foto que abre o artigo, California, 1955, é de ELLIOTT ERWITT (1928)

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Elogio da morena por Asclepíades

07 Quinta-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Asclepíades

Oleg Igorin

Apenas um poema de Asclepíades (???) extraído da Antologia Grega, dando conta do poder da beleza contra convenções e preconceitos.

Dídima seduziu-me com as suas traquinices. Oh! Eu derreto
como cera ao lume à vista da sua beleza.
Se ela é negra, que importa? Também os carvões o são. Mas
quando acesos, brilham como botões de rosa.

Tradução de Albano Martins, Antologia da Poesia Grega Clássica.

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