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Trabalhos e Dias

07 Quinta-feira Out 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Grega

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Hesíodo

 

 

É urbana a minha memória dos cheiros da terra. São, nos mercados as bancas da hortaliça se por acaso entre elas despontam ervas aromáticas: coentro, salsa, hortelã; que me devolvem aquela espécie de segurança despreocupada apanágio da infância.

Quando, chegado Outubro, acontecia a feira anual de sementes, frutos secos e gado, bujigangas e figurinhas de barro para o presépio à mistura,  em grandes sacos de serrapilheira lá estavam –  peros: vermelhos, raiados, verdes, bravo d’esmolfe; e então, era a alegria num odor inebriante, talvez perdido para sempre.

É em vão que da prateleira do supermercado levo para casa bolinhas verdes a que chamam peros bravo d’esmolfe, pois aberto o saco, cheiro não há, e o sabor é vago a qualquer coisa indistinta.

Na volta do fim da tarde passei à porta da preciosa charcutaria de bairro e havia, em caixotes, cheirosos, peros bravo d’esmolfe. Entrei e comprei. As tâmaras da Tunísia e Israel, os figos da Turquia, nada disso ainda chegou, mas já há as frutas em açucar da abençoada fábrica Convento da Serra, de Elvas. Se até há uns anos eram as ameixas deles a minha perdição, desde que apareceram figos, não resisto. Com a minha paixão por figos em qualquer estádio, frescos, secos, com açucar, cristalizados, recheados  ou em doces os mais diversos, quase me sinto perto dos deuses do Olimpo de quem se diz alimentarem-se a figos e mel.

Na verdade é uma paixão vinda da mais tenra infância. Voltava eu da escola de aprender a ler, mal feitos os três anos, e ao passar em casa da bisavó corria para as algibeiras daqueles saiões rodados onde sempre havia figos secos e torrados. Mais tarde, era o caixote de madeira providenciado anualmente pelo meu avô para o inverno, cheio de figos arrumados às camadas separadas por pauzinhos de funcho, a fonte das delicias. Interrompia brincadeiras para amiúde ir buscar 1 ou 2 figos e o caixote com custo ultrapassava o Natal.

Como algures aqui escrevi, sou decididamente uma criatura do mediterrãneo. Neste folhear de memórias ocorre-me o prazer com que descobri o mercado das Ramblas em Barcelona, espectáculo único para os sentidos de qualquer gourmet, ou os passeios há 30 anos pelos mercados de rua nas cidades italianas, de Veneza a Nápoles, hoje praticamente inexistentes por milagre da nossa senhora da união.

O acaso das leituras cruzadas destes últimos dias conduziu-me ao mediterrâneo. Leio Orlando Ribeiro numa viagem fascinada pela paisagem, gentes e cultura. De um fôlego li a última história de mestre Camileri deambulada na Sicilia, e demoradamente caminho na edição de José Ribeiro Ferreira de Trabalhos e Dias de Hesíodo.

Na documentação que acompanha a tradução de Trabalhos e Dias encontro o esquema do arado descrito por Hesíodo e usado há mais de 2600 anos na Grécia. Na página seguinte do livro aparece o esquema do arado usado em pleno século XX na freguesia onde nasci e cresci em tudo semelhante ao arado grego da antiguidade.

Estas continuidades devolvem-me um sentido único de pertença a um mundo do qual gosto de guardar e transmitir a herança.

É Outubro, é mês de lavoura, tempo da passagem do grou pela Grécia vindo dos países nórdicos a caminho de África para aí hibernar e nos Trabalhos e Dias Hesíodo recomenda para esta altura:


…

Presta atenção, quando escutares o grito do grou,             448

no alto, entre nuvens, ele que seu lamento, ano a ano, repete:

dá-te o sinal do trabalho de lavra, a estação do inverno                   450

te anuncia, pluviosa, e punge o coração do que não tem bois.

Então engorda os bois de chifres recurvos, em casa.

Pois é fácil dizer: “empresta-me a junta de bois e o carro”;

mas fácil é também recusar: “ já há trabalho para os meus bois”.

O homem rico fala, em espírito, em construir um carro;                   455

louco, nem sequer sabe que cem são as peças desse carro,

as quais deve ele, primeiro, ter o cuidado de reunir em casa.

Logo que brilha para os mortais o tempo da lavoura,

aprestai-vos então em conjunto, escravos e tu próprio,

a arar a terra, seca ou húmida em cada estação da lavoura,           460

esforçando-te desde manhã, para que os campos produzam.

…

 


Talvez nesta eterna viagem algum dos grou de Hesíodo tenha transportado Nils Holgerssons na sua viagem maravilhosa.

Uma vez por outra sabe bem voltar à infância.

 

Noticia bibliográfica:

O fragmento transcrito do poema Trabalhos e Dias, de Hesíodo, foi retirado da edição conjunta de Teogonia e Trabalhos e Dias de Hesíodo, publicada pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda em 2005 na colecção Biblioteca de Autores Clássicos e da responsabilidade de Ana Elias Pinheiro – Teogonia , e José Ribeiro Ferreira – Trabalhos e Dias.

 

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Entre a Idade Média e Jorge de Sena, uma questão de lingua

10 Sexta-feira Set 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga

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João Airas de Santiago, João Garcia de Guilhade, João Soares Coelho, Jorge de Sena, Natália Correia

Iluminura 06x500

A linguagem do amor tem na língua o seu principal trunfo e por vezes um grande problema, isto quando, por vergonha, gestos de proverbial eficácia são afastados do horizonte da comunicação. Raramente apenas a linguagem dos dedos constitui um substituto eficaz. No entanto, a combinação de ambos pode traduzir-se num sortilégio de afrodisíaco efeito.

O detalhe do percurso da língua é seguramente mais adequado para um menu e aqui pretenderemos apenas abordar questões de léxico, sem procurar pôr em evidência a sumptuosa satisfação que o sabor da língua pode provocar.

Há palavras que se deixam pronunciar melhor que outras, e do encontro de línguas resulta muitas vezes uma linguagem de desejo em que o fogo surge, qual fósforo sobre palha seca, conseguindo mesmo humedecer zonas onde a língua depois passeia com efeito avassalador.

Muitas vezes não há palavras para descrever o êxtase, outras, a conotação obscura inibe os protagonistas do uso da lingua de as aplicar.

Um inventário exaustivo de palavras portuguesas de origem erudita ou vulgar para retratar todas estas actividades do amor, reduz-se ao parco conjunto que todos conhecem. Menos lhes conhecerão a antiguidade.

Na verdade, depois das palavras antigas, usadas sem alteração durante séculos, apenas a lingua francesa trouxe alguma frescura e sofisticação a uma actividade que vivia quase sem palavras.

Socorro-me de dois poemas de João Garcia de Guilhade incluídos no Cancioneiro Medieval – Cantigas de Escarnio e Maldizer, para ilustrar a antiguidade de cono e foder

Poema 166

Martim jograr, que gram cousa:

já sempre com vosco pousa

vossa molher!


Vedes m’andar morrendo,

e vós jazedes fodendo

vossa molher!


De meu mal nom vos doedes,

e moir’eu, e vós fodedes

vossa molher!



Poema 167

Martim jograr, ai Dona Maria,

jeita-se vosco já cada dia,

e lazero-m’eu mal


And’eu morrend’e morrendo sejo,

e el tem sempr’o cono sobejo,

e lazero-m’eu mal


Da mia lazeira pouco se sente;

fod’el bom con[o] e jaz caente,

e lazero-m’eu mal.


Acrescento este outro de João Soares Coelho a propósito de impotência masculina, talvez causada por doença venérea como defende o trovador:

Poema 198

Luzia Sánchez, jazedes em gram falha

comigo, que nom fodo mais nemigalha [nemigalha/d’ua vez – nunca mais de uma vez]

d’ua vez; e, pois fodo, se Deus mi valha

fiqu’end’afrontado bem por tercer dia.

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


Vejo-vos jazer migo muit’aguada,

Luzia Sánchez, porque nom fodo nada;

mais se eu vos per i houvesse pagada,

pois eu foder nomposso, peer-vos-ia.   [peer – peidar]

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


Deu-mi o Demo esta pissuça cativa,

que já nom pode sol cospir saíva

e, de pram, semelha mais morta ca viva,

e se lh’ardess’a casa, nom s’ergeria.

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


Deitarom-vos comigo os meus pecados;

cuidades de mi preitos tam desguisados,

cuidades dos colhões, que tragu’inchados,

ca o som com foder e é com maloutia  [doenças (venéreas)]

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


e aqui encontramos “aguada” para tesão e colhões sem modificação. Aparece-nos ainda “pissuça” para pénis, provavelmente forma anterior da piça de hoje que os franceses também aproveitam levando mais longe o termo com o verbo “pisser” para urinar.

As palavras são poucas mas o acervo é vasto pelo que apenas transcrevo mais um poema deste mesmo João Soares Coelho em que parece tratar de um adultério, ainda que a controvérsia exista entre especialistas

Poema 192

Joam Fernándiz, mentr’eu vosc’houver

aquest’amor que hoj’eu com vosqu’hei,

nunca vos eu tal cousa negarei

qual hoj’eu ouço pela terra dizer:

dizem que fode quanto mais foder

pode o vosso mouro a vossa molher.


[E] pero que foss’este mouro meu

já me teria eu por desleal,

Joam Fernándiz, se vos negass’eu

atal cousa qual dizem que vos faz:

ladinho como vós jazedes, jaz

com vossa molher, e m’end’é mal.


E direi-vos eu quant’en vimos nós:

vimos ao vosso mouro filhar

a vossa molher e foi-a deitar

no vosso leit’; e mais vos eu direi

quant’eu do mour[o] aprendi e sei:

fode-a como a fodedes vós.


Perante tantas das palavras dos poemas modificadas ou caídas em desuso com a evolução da língua, espanta como em mais de 700 anos, esta meia-duzia ligada ao sexo permanece inalterada.

Na verdade, no que à linguagem do amor respeita, existem no português moderno tanto limitações de léxico como limitações de formas verbais.

Os verbos enquanto formas linguísticas de expressão da acção, são não só poucos como insuficientes para cobrir em português todas as praticas sexuais conhecidas, deixando assim a língua impossibilitada de transmitir aspectos essenciais da actividade humana com a ênfase, o rigor e a precisão adequados.

Exemplificarei algumas dessas limitações com a actividade sexual mais vulgar, a união dos sexos de duas pessoas. Chamam-lhe pudicamente (?) “fazer amor”. Ora quem ama sabe que o amor não se faz. Nasce, surge, acontece, existe e extingue-se, mas não se faz. Ao que em português agora se chama fazer amor deveria dar-se outro nome.

Escrever a frase  “depois daquela tragédia precisava fazer amor não importava com quem” ou a frase “depois daquela tragédia precisava foder não importava com quem” não são uma e a mesma frase. Em amor, o que importa é com quem. É até a única coisa que importa, daí a desadequação da expressão neste contexto.

A expressão poderá ser aceite em poucas situações. Por exemplo: em publico, dois amantes entreolham-se e a intimidade do olhar permitirá dizer – Vamos fazer? Amor. E aqui “fazer” substitui “foder” num contexto de obsceno interdito.

O problema com a palavra foder para designar esta actividade prende-se com o significado de insulto que também reveste na expressão “vai-te foder” que mancha a união sexual voluntária de duas pessoas com um estigma soez.

Regresso  às Cantigas de Escárnio e Maldizer e a João Garcia de Guilhade para ilustrar estes dois significados de foder – fornicar e lixar. De acordo com Graça Videira Lopes o significado “lixar” deve até ser a primeira leitura do poema:

Poema 164

Elvira lópez, que mal vos sabedes

vós guardar sempre daqueste peom

que pousa vosc[o], e há coraçom

de tousar vosqu’, e vós nom lh’entendedes;

hei mui gram medo de xi vos colher

algur senlheira; e se vos foder, [senlheira – sózinha]

o engano nunca lho provaredes.


O peom sabe sempr’u vós jazedes,

e nom vos sabedes dele guardar

siquer poedes [em] cada logar

vossa maeta o quanto tragedes; [maeta – maleta]

e dized’ora, se Deus vos perdom:

se de noite vos foder o peom,

contra qual parte o demandaredes?


Direi-vos ora como ficardes

deste peom, que tragedes assi

vosco, pousando aqui e ali:

e vós já quando que ar dormiredes

e o peom, se coraçom houver

de foder, foder-vos-á, se quiser,

e nunca del[e] o vosso haveredes.


Ca vos diredes: – Fodeu-m’o peom!

E el dirá: – Boa dona, eu nom!

E u las provas que [vós] lhi daredes?


Tratados que estamos com a antiguidade do foder, temos ainda o caso da palavra fornicação, ou do verbo fornicar, ou então a palavra coito, da qual nem sei se se aplica coitar, pois coito reveste um significado de passado ex: ”houve coito ou não?” e aí é quase uma inquirição policial. Imagine-se o leitor a pensar “esta noite vou coitar com o meu amor”, que tal?

Voltando a fornicação ou fornicar são qualquer delas palavras monstruosas para referir uma actividade magnífica.

Não obstante  fornicação evocar algum contorcionismo, falta-lhe, no entanto, o calor envolvente que caracteriza o acto. Dificilmente se consegue aceitar “que boa fornicação” e então “esta noite sonhei que fornicava a Marylin Monroe” não é sonho que se descreva por estas palavras.

Mas este deambular trazia como propósito a elucidação de que felizmente o francês nos socorreu com a adequada palavra para a actividade sexual envolvendo a língua, sendo certamente incerto que alguém, mesmo com propensão erudita, manifeste em voz alta desejo daquele cunilinguus de tão dificil pronuncia. A tempo o francês  com a sua minette resolveu-nos o problema da forma que Jorge de Sena nos esclarece como segue:

EM LOUVOR DA LÍNGUA PORTUGUESA

Tão forte e tão hipócrita que até

usa nome francês para dizer

o que – heroicamente – faz

todos os dias

à cona da mãe.

É a esta actividade que durante largo tempo a humanidade ocidental chamou “beijo impudico” ainda que não deixasse de o praticar. E é de novo das Cantigas de Escárnio e Maldizer que me socorro  para deixar aqui um poema sobre este mesmo cunilinguus chamado, desta vez da autoria de João Airas de Santiago


Poema 144

Dom Beeito, home duro,

foi beijar pelo obscuro

a mia senhor.


Come home aventurado,

foi beijar pelo furado

a mia senhor.


Vedes que gran desventura:

beijou pela fendedura

a mia senhor.


Vedes que moi grand’abaco:

foi beijar polo buraco

a mia senhor.


A editora do poema aventa a qualificação de home duro feita pelo trovador a D. Beito como hipótese de ironia à sua impotência. É provavelmente uma interpretação restritiva na medida em que desconhecemos qual a conotação em termos da imagem da masculinidade, que o “beijo impudico” revestia, não obstante a controvérsia entre trovadores sobre o assunto conhecida como “affaire Cornilh (1161)”, a qual modernas interpretações defendem que afinal respeita ao desejo de Madame Ayma ser primeiro lambida no cu para conceder os seus favores a Bernatz de Cornilh.

Sabendo que questões de língua devem ser um prazer interminável e não uma sensaboria fico-me por aqui, esquecendo controvérsias de especialistas e questões teóricas em torno da leitura destes poemas.

Uma leitura mais profícua exige um comentário em contexto com as características e temas destas composições. Os leitores interessados encontram-nos nas publicações de especialistas. Neste artigo apenas a curiosidade da linguagem ditou a escolha. Deixo agora a nota bibliográfica que é de justiça.

Noticia bio-bibliográfica

Encontramos noticia sobre a vida e obra dos nossos trovadores no Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, publicado em 2ª edição pela Editorial Caminho em 2000.

Aí, sob as entradas Johan Airas de Santiago e Johan Garcia de Guilhade, encontramos detalhada informação sobre a obra de ambos e algumas circunstância biográficas conhecidas.

Importa aqui reter que ambos são poetas vivendo no sécul XIII, a compor ao tempo de Afonso X de Castela e do nosso rei D.Dinis, sendo substancialmente mais novos que este. De Johan Garcia de Guilhade sabe-se que é já adulto em 1239.

Nas trancrições  dos poemas medievais usei a edição de Graça Vieira Lopes das Cantigas de Escárnio e Maldizer, publicada pela Editorial Estampa em 2002, no âmbito da colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa. A numeração que identifica os poemas neste artigo é a atribuída nesta edição.

O poema de Jorge de Sena integra o ciclo “EM LOUVOR DA BOA LINGUAGEM” publicado postumamente em 1980 por Moraes Editores na sua colecção Circulo de Poesia, e inserido no livro SEQUÊNCIAS.

Em nota final deixo a versão de Natália Correia do poema 166 em português moderno publicado por esta em 1965, na nunca demais elogiada Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica:

Martim jogral, que defeita,

sempre convosco se deita

vossa mulher!


Vedes-me andar suspirando;

e vós deitado, gozando

vossa mulher!


Do meu mal não vos doeis;

morro eu e vós fodeis

vossa mulher!

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ABÛ ‘UTHMÂN – meu conterrâneo

07 Sábado Ago 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga

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ABÛ ‘UTHMÂN, AL-MU’TAMID, Poesia Luso-Árabe


Sabemos quem somos quando atentamos no que gostamos, sobretudo no que gostamos de comer. É algo que todos os dias fazemos e onde procuramos prazeres repetidos.

O que eu gosto de figos, meu Deus, e de uvas, e de mel, e de tâmaras, e de amêndoas, e a lista não acaba.Sou decididamente uma criatura do sul. Contemplo o branco e o azul na paisagem e descubro aquela harmonia do mundo que faz sentir qual é o lugar a que pertencemos.

E o mundo é um lugar de prazeres inesperados ainda que viver seja cruzar um deserto de morte, como diz o nosso poeta de hoje.

Desculpo-me da longa ausência junto dos fiéis leitores de blog que não desarmaram perante o demorado silêncio e espero apreciem o que hoje aqui deixo.É a memória da minha, talvez, costela árabe a falar.

São poemas luso-árabes anteriores à conquista cristã, e abro com o meu conterrâneo, ABÛ ‘UTHMÂN, nascido em Tavira provavelmente ao aproximar de 1200, pois em 1229 com a conquista de Aragão pelos cristãos, retirou-se para Minorca e aí fundou um pequeno reino cuja corte funcionou como um cenáculo literário.

O assunto do poema é a eterna guerra entre o sexo e intelecto, ou pelo menos o coração puro empenhado no bem fazer.

Talvez para o nosso poeta o gosto do sexo seja incompatível com o bem fazer. Será?


como são bizarros certos reis,

transformados em escravos do prazer.

apenas desejam duas coisas:

bocetinhas e bocas de mulher!

se o espírito mais lhes interessasse,

poriam de lado a fornicação

fruindo no amor puro a união.

passa o tempo, continuam reis do mundo:

oxalá que eles passem num segundo!

se viver é cruzar um deserto de morte

aborrecer tais prazeres é o meu norte.

o meu fito neste mundo

é apenas ter puro o coração:

assim o guardo da corrupção

na via do Bem profundo.


Ainda que pudesse ficar por aqui, não resisto a acrescentar a presença do grande AL-MU’TAMID, nascido numa família de poetas em Beja em 1040.

Tendo governado Silves, ocupou o trono de Sevilha em 1069, de onde foi destronado e exilado para o interior de Marrocos, vindo aí a morrer na miséria.

Deste infortúnio extraiu elegias de grande beleza e é ainda hoje objecto de homenagens no seu túmulo em Aghmat.


Começo com um belo retrato de uma mulher amada:

um sol é seu rosto / e palmeira é ela / de ancas opulentas. …

em encanto não tem / rival tal senhora, / e, fora do sonho, / quem tão bela fora?


Pretendendo o nosso poeta o costume, lançou o convite:

dá paz ao ardor / de quem te deseja. / contenta o amor / e faz dom de ti, / vamos, sorri, / quando a boca beija.


Respondeu-lhe a bela, olhos de gazela e corpo de palmeira:

pecar me refreia


Mas o nosso poeta não se calou:

respondi-lhe: ora, / não é coisa feia!


Afinal o receio de pecar deve ter sido apenas negativa a dizer que sim, pois a seguir parece que:

uma vez era noite / de bem longa festa.


e a bela nem deixou o poeta dormir como lhe apetecia.

Talvez o nosso poeta fosse daqueles homens que, acabado o sexo e já quase ressonam, quem sabe?


E agora chega de conversa, aí vai o poema.

 

0

quem vive dos ardis da ilusão

e, assim, se aparta do amigo

poderá encontrar consolação?

I

quando será que estarei

livre de desdém tão fero

cujos fortes esquadrões

me dão guerra que não quero.

desvio, assim, é injusto.

juro pela luz altaneira

que em suas tranças se divisa:

não sou cobra traiçoeira

das que mudam de camisa.

II

de negras madeixas

amo uma gazela

um sol é seu rosto

e palmeira é ela

de ancas opulentas

existe em seus lábios

do néctar o gosto.

ó sede se intentas

sua boca beijar

não o vais lograr.

III

em encanto não tem

rival tal senhora,

e, fora do sonho,

quem tão bela fora?

qual espada seus olhos

lhe brilham e rosas

lhe enfeitam a face

na sombra vistosas

mas se as vais olhar

fá-la-ás murchar.

IV

dá paz ao ardor

de quem te deseja.

contenta o amor

e faz dom de ti,

vamos, sorri,

quando a boca beija.

me disse na hora:

pecar me refreia

respondi-lhe: ora,

não é coisa feia!

V

uma vez era noite

de bem longa festa.

adormeci. me disse

me acordando com esta:

teu sono vai longo

toca a levantar!

então me beijou

e eu pus-me a cantar:

fazem reviver

teus lábios a arder!    [que lábios serão?]


Termino com esta bela declaração de amor na distância da amada.


Invisível a meus olhos,

trago-te sempre no coração

Te envio um adeus feito paixão

e lágrimas de pena com insónia.

Inventaste como possuir-me

e eu, indomável, submisso vou ficando!

Meu desejo é estar contigo sempre,

oxalá se realize tal vontade!

Assegura-me que o juramento que nos une

nunca a distancia o fará quebrar.

Doce é o nome que é o teu

e aqui fica escrito no poema: ‘Itimad.



Noticia bibliográfica: os poemas e as notas biográficas foram retirados da antologia “O meu coração é árabe”  da responsabilidade de Adalberto Alves, e publicada pela Assírio & Alvim em 3ªedição revista e aumentada em 1999.

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Homenagem de Almada a Camões

10 Quinta-feira Jun 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Almada negreiros, Camões, Faria e Sousa, Poesia


Comemorar Camões é ler-lhe a poesia, fazê-la nossa, brincar com ela.

Passam hoje 440 anos sobre a sua morte, e o poeta continua vivo, na nossa companhia, permitindo-nos o prazer quase quotidiano da sua poesia.

É de Almada Negreiros, esse português sem mestre como Augusto-França lhe chamou, que me socorro para assinalar a data.

No tom brincado que é ás vezes o seu, aqui temos a aventura de Camões e da poesia em Portugal.


LUÍS, O POETA

SALVA A NADO O POEMA


Era uma vez / um português / de Portugal.

O nome Luis / há-de bastar / toda a nação / ouviu falar.

Estala a guerra / e Portugal / chama Luis / para embarcar.

Na guerra andou / a guerrear / e perde um olho / por Portugal.

Livre da morte / pôs-se a contar / o que sabia / de Portugal.

Dias e dias / grande pensar / juntou Luis / a recordar.

Ficou um livro / ao terminar / muito importante / para estudar.

Ia num barco / ia no mar / e a tormenta / vá d’estalar.

Mais do que a vida / há-de guardar /o barco a pique / Luis a nadar.

Fora da água / um braço no ar / na mão o livro / há-de salvar.

Nada que nada / sempre a nadar / livro perdido / no alto mar.

– Mar ignorante / que queres roubar? / a minha vida / ou este cantar?

A vida é minha / ta posso dar / mas este livro / há-de ficar.

Estas palavras / hão de durar / por minha vida / quero jurar.

Tira-me as forças / podes matar / a minha alma / sabe voar.

Sou português / de Portugal / depois de morto / não vou mudar.

Sou português / de Portugal / acaba a vida / e sigo igual.

Meu corpo é Terra / de Portugal / e morto é ilha / no alto mar.

Há portugueses /a navegar / por sobre as ondas / me hão-de achar.

A vida morta / aqui a boiar / mas não o livro / se há-de molhar.

Estas palavras / vão alegrar / a minha gente / de um só pensar.

À nossa terra / irão parar / lá toda a gente / há-de gostar.

Só uma coisa / vão olvidar: / o seu autor / aqui a nadar.

É fado nosso / é nacional / não há portugueses / há Portugal.

Saudades tenho / mil e sem par / saudade é vida / sem se lograr.

A minha vida / vai acabar / mas estes versos / hão-de gravar.

O livro é este / é este o cantar / assim se pensa / em Portugal.

Depois de pronto / faltava dar / a minha vida / para o salvar.

Escrito em Madrid. Dezembro de 1931.


Como é sabido, a poesia lírica de Camões não foi publicada em livro em vida do autor, a menos de poucas peças incluídas em obras de terceiros, nem são conhecidos manuscritos autógrafos dos poemas.

Corre a lenda a partir de palavras de Diogo do Couto na Década VIII, que enquanto o poeta preparava Os Lusídas para edição, “foi escrevendo muito em um livro que ia fazendo, que intitulava Parnaso de Luis de Camões, livro que lhe furtaram e nunca pude saber no reino dela, por muito que inquiri, e foi furto notável …”.

Tal Parnaso … nunca foi encontrado. Os poemas circulavam de mão em mão e quando em 1595, 15 anos após a morte do poeta, Manuel de Lima preparou a 1ªedição das Rhythmas de Luís de Camões para o editor Estêvão Lopes, na ausência de manuscritos autógrafos, os editores socorreram-se das cópias que circulavam, sem segura atribuição de proveniência. Esta edição contemplou os poemas que à data conseguiram reunir.

A 2ªedição 3 anos depois, em 1598, acrescentou 63 novas composições e suprimiu 3. Uma 3ª edição em 1616 incluiu novas peças.

Na 4ª edição das Rimas em 1668 voltam a ser acrescentadas 60 obras poéticas de diversos géneros.

Faria e Sousa, em edição póstuma (1685-1689), acrescentou ao que era tomado pelo cânone da Lírica de Camões, 76 novas poesias. A novidade desta edição prende-se com o circunstanciado comentário que acompanha cada poesia, fazendo da obra, ainda hoje, uma aliciante experiência de leitura.

A admiração apaixonada de Faria e Sousa pela obra de Camões, levou-o a reconhecidos exageros de atribuição de autoria com o caso mais notável de erro em relação a Diogo Bernardes.

Não pararam aqui os acréscimos à obra do poeta.

A chamada edição Jorumenha no séc. XIX (1860-1869) duzentos anos depois da edição Faria e Sousa, traz mais 50 sonetos e 52 peças de géneros diversos.

A este conjunto sobre o qual se debruçam os especialistas questionando a autoria de algumas poesias, porque anteriormente publicadas em nome de outros, ou com características de estilo não atribuíveis a Camões, acrescentou-se o conhecimento público em 1922 do que é conhecido como Cancioneiro Fernandes Tomás, ainda hoje por estudar aprofundadamente e onde abundam composições atribuídas expressamente a Camões. Outros Cancioneiros têm sido entretanto estudados ao sabor das curiosidades e estratégias pessoais dos investigadores.

Passaram mais de 4 séculos sobre a morte de Luís de Camões e hoje está ainda longe de existir qualquer edição da Lírica que possa ser tomada como canónica. É uma vergonha que o país, para o seu poeta nacional, não tenha encontrado os meios, as vontades e recursos, para fixar de forma incontroversa o conjunto da obra do poeta, e que até hoje ninguém tenha conhecido e estudado tão profundamente a obra de Camões como Faria e Sousa no século XVII.

Que panorama triste para situação da obra do poeta com quem Portugal se comemora.

Algumas edições da Lírica surgiram ao longo de século XX. Nenhuma compulsou com critérios legitimados, a obra conhecida e as criações dispersas pelos Cancioneiros de mão que dormem nas bibliotecas do mundo, com vista a apurar o que é de Camões, o que não é de Camões e o que talvez seja.

Para o curioso leitor, em minha opinião de apaixonado pela Lírica camoneana, a mais proba das edições com grafia modernizada, é a LÍRICA COMPLETA DE LUÍS DE CAMÕES, em 3 volumes, publicada em 1980/81 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda e preparada por Maria de Lurdes Saraiva.

É uma edição inclusiva onde se publica tudo o que alguma vez foi atribuído a Camões, com excepções mínimas justificadas em prefácio. O conjunto vem separado e anotado entre o que tem sido considerado de autoria genuína, e aqueles poemas cuja autoria tem sido controvertida, independentemente da opinião da organizadora, deixando esta em  notas circunstanciadas as suas opiniões.

Esta edição apresenta pela primeira vez uma tentativa de organização cronológica das poesias, agrupadas estas por géneros líricos.

A edição estará provavelmente esgotada, como é costume, mas como teve tiragem elevada (10.000ex.) é talvez facil ao interessado encontrá-la em alfarrabista por módica quantia.

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Floriram os jacarandás – Viagem na poesia de Sophia

01 Terça-feira Jun 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen

No suave caminhar deste ano de crise chega Junho e de repente o uniforme da paisagem da cidade enche-se de azul.

Numa surpresa encantada exclamamos:

– Floriram os jacarandás!


É a Sophia que vou buscar a emoção mais próxima deste encantamento primaveril:

Como um fruto que se mostra

Aberto pelo meio

A frescura do centro


Assim é a manhã

Dentro da qual eu entro


e daqui outra manhã recordo:


Na manhã recta e branca do terraço

Em vão busquei meu pranto e minha sombra

*

O perfume do oregão habita rente ao muro

Conivente da seda e da serpente

*

No meio da praia o sol dá-me

Pupilas de água mãos de areia pura

*

A luz me liga ao mar como a meu rosto

Nem a linha das águas me divide

*

Mergulho até meu coração de gruta

Rouco de silencio e roxa treva

*

O promontório sagra a claridade

A luz deserta e limpa me reune


levando-me à infância, quando no Algarve havia amendoeiras.

Por final de Janeiro o inverno fazia uma pausa e subitamente as amendoeiras floriam. Eram extensões a perder de vista de encostas floridas em branco e rosa desafiando o azul do céu. Organizavam-se passeios de domingo para ir ver as amendoeiras em flor.

Esta comunhão com a beleza da natureza acompanha-me e


Mergulho no dia como em mar ou seda

Dia passado comigo e com a casa

Perpassa pelo ar um gesto de asa

Apesar de tanta dor e tanta perda


Pois é! A realidade não dá tréguas, A cidade dos outros  / Bate à nossa porta ainda que um desejo de Oasis permaneça:

Penetramos no palmar

A água será clara o leite doce

O calor será leve o linho branco e fresco

O silencio estará nu – o canto

Da flauta será nítido no liso

Da penumbra


Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira

………………………………………………………………….


Escuto mas não sei

Se o que ouço é silêncio

Ou deus



E por quinze dias a cidade ganha uma atmosfera de azul num efémero que faz os dias belos.

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Lua cheia – um fragmento de Safo em 4 versões

29 Sábado Maio 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Grega

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Albano Martins, Frederico Lourenço, Pedro Alvim, safo

Numa volta do caminho no regresso a casa  deixo para trás o ruído de luzes e faróis e súbito surge pela frente, plácida, esplendorosa,  a lua, cheia.

Perco a urgência de chegar e de mansinho deslizo por aquele caminho iluminado saboreando o azul cerúleo do céu e a língua de prata sobre o rio. Sonho com passeios mão-na-mão e beijos da amada à beira-mar. É o fragmento 34 de Safo que a memória me trás:

 

Lua Cheia

As estrelas ao redor

da lua bela

longe o brilho escondem

quando,

plena de fulgor,

mais ela

se entorna

cheia

pela terra.

 

Escrito há talvez mais de 2600 anos, mostra bem como o sortilégio perene da  natureza torna homens e mulheres iguais para além do tempo e do espaço.

Esta versão do poema grego é de Pedro Alvim, e foi publicada com outros fragmentos da poetisa pela Editora Vega em 1991.


São várias em português as versões deste poema. Deixo aqui  outras 3 versões de desigual resultado na transmissão da emoção do original grego.


Em redor da formosa

lua, as estrelas

de novo escondem

seu rosto brilhante

quando ela, cheia,

brilha sobre a terra

em todo o seu fulgor.


Versão de Albano Martins publicada em 1986  pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda em O essencial de ALCEU E SAFO.


A Lua

As estrelas, em volta da formosa Lua,

de novo ocultam a sua vista esplendente,

quando a Lua cheia brilha mais, argêntea,

sobre toda a terra.


Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira publicada em Hélada – Antologia da Cultura Grega, Edições ASA, 8ªedição 2003.


E agora, talvez a mais bela versão em português deste fragmento. A versão de Frederico Lourenço, publicada por Livros Cotovia em 2006, e incluída na sua antologia Poesia Grega.


A lua

Os astros em torno da bela lua

escondem seu aspecto cintilante

quando na sua plenitude ela ilumina

a terra.


Tendo vivido em Lesbos, ilha grega do mar Egeu, nos finais do século VII a. C., gosto de pensar que uma paisagem como a da fotografia desta crónica terá estado na origem deste belo fragmento.


Da poesia de Safo restam hoje apenas fragmentos, e tal com na escultura grega admiramos a sua beleza mutilada, nesta poesia saboreamos com comoção e embevecimento os restos que nos embalam a imaginação.

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Gravidez acidental num poema de Sidónio Muralha

26 Quarta-feira Maio 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Sidónio Muralha

Integrada que está no quadro social português, a interrupção voluntária da gravidez, dificilmente nos apercebemos hoje, e apenas quem o viveu saberá, quais eram os caminhos para interromper uma gravidez não desejada.

O tema é raro na poesia portuguesa. No poema Romance regista-se com pudor, e num lirismo admirável, uma gravidez acidental e o aborto forçado pelas conveniências sociais.

Romance

Depois daquela noite os teus seios incharam;

as tuas ancas alargaram-se;

e os teus parente admiraram-se

e falaram, falaram…


Porque falaram duma coisa tão bela,

tão simples, tão natural?

Tu não parias uma estrela,

nem uma noite de vendaval…


Mas tudo terminou porque falaram.

Tu fraquejaste e tudo terminou.

– Os teus seios desincharam;

só a tristeza ficou.


Ficou a tristeza duma coisa tão bela,

tão simples, tão natural…


– Tu não parias uma estrela,

nem uma noite de vendaval…

Noticia bibliográfica:

O poema Romance é de Sidónio Muralha, poeta para mim menor, no que dele conheço, mas com algumas fulgurações, e foi publicado em 1942 no livro “Passagem de Nível”.


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Esta crise é uma grande crise!… e poemas de Manuel Alegre

09 Domingo Maio 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Manuel Alegre

Passou o 25 de Abril, passou o 1º de Maio, passou o Dia da Mãe, temos o Papa à porta e o silencio no blog permaneceu. Devo uma explicação aos fiéis e desconhecidos leitores que perseverantemente voltaram ao blog de forma insistente neste longo período.

O que inicialmente foi uma brincadeira com constipação até à metafísica cresceu bem para lá de qualquer faculdade de julgar levando-me a febre ao delírio onde acabei por me perder em conjecturas e refutações, para afinal concluir que é à medida que a vida corre que percebemos como ela é uma busca inacabada.

Aqui chegados instala-se a dúvida, já nem metódica, mas sistemática, e acabamos por tomar decisões apenas com a certeza do incerto.

Como se compreende, com tamanha barafunda, a poesia, que é sobretudo matéria do sonho, ficou sem espaço enquanto circulei por este país da lógica, apesar de a certa altura um poeta ter anunciado, sem poesia, como resolver a crise. Tenho para mim que a crise não se vence com poetas nem sobretudo com poesia, porque a poesia não vence nada, a não ser o desanimo, devolvendo ás vezes o gosto de estar vivo.

Mas esta crise é uma grande crise, toda a gente o diz! Têm certamente razão. Muita gente a dizer a mesma coisa transforma qualquer fantasia em convicção profunda. Não fora assim e não haveria religiões. Mas a religião da crise é outra. É a do dinheirinho. Dinheirinho para cá, dinheirinho para lá, dinheirinho que não há. E afinal a poesia mete-se nela na forma de um poeta-candidato com a palavra certa no estrondo da voz.

PRESENÇAS

Eles estão por dentro. Nas

palavras

e nos actos.


Nas cadeiras

nas gavetas

nos cabides e nos fatos.


Quando menos se espera

fogem

dos retratos.


Tem cuidado quando te calças

eles podem esconder-se

nos sapatos.


Na sopa e na maçã

quem sabe se

no vinho.


Vê bem por onde vais

eles gostam das curvas

do caminho.


Na cama onde te deitas

nas camisas

e nas meias


no lençol com que te enxugas

no remédio que tomas para

desentupir as veias


no garfo sobre a mesa

nos copos

e nos pratos


eles estão por dentro e estão por fora.

Podes crer que nunca ficam

nos retratos.


O BURACO DA AGULHA

Vou de camelo pelo buraco de uma agulha

vou de camelo e não encontro o reino.


A porta é estreita mas os ricos

estão a comprar passagem e estão a entrar.


Vou de camelo pela oferta e a procura

e há quem pense que o céu também tem preço.


Tens de vir outra vez para dizer

que não pode servir-se a dois senhores.


Vou de camelo pela porta estreita

vou de camelo e não consigo entrar.


Tens de vir outra vez que os fariseus

não nos deixam passar não nos deixam passar.


UM PERFUME DE NARDO

Em verdade te digo: Não

espero a eternidade. E sei

que nenhum verso vence a morte.


Procuro apenas um sinal

um ritmo que me restitua

a imperceptivel respiração da terra.


Talvez os cabelos de Maria

irmã de Marta

a enxugar-me os pés.


Porque todos os poemas são mortais

e o que fica é talvez

um perfume de nardo. E nada mais.

Seguimos nesta escolha, primeiro, a visão poética da percepção do incompreensível na realidade, seguida de um apelo à justiça de Deus e terminando com a interrogação do poeta sobre o seu lugar no mundo.

Ficaria a selecção incompleta sem o tema central das escolhas deste blog – o amor e o corpo.

NÃO SEI DE AMOR SENÃO

Não sei de amor senão o amor perdido

o amor que só se tem de nunca o ter

procuro em cada corpo o nunca tido

e é esse que não pára de doer.

Não sei de amor senão o amor ferido

de tanto te encontrar e te perder.


Não sei de amor senão o não ter tido

teu corpo que não cesso de perder

nem de outro modo sei se tem sentido

este amor que só vive de não ter

o teu corpo que é meu porque perdido

não sei de amor senão esse doer.


Não sei de amor senão esse perder

teu corpo tão sem ti e nunca tido

para sempre só meu de nunca o ter

teu corpo que me doi no corpo ferido

onde não deixou nunca de doer

não sei de amor senão o amor perdido.


Não sei de amor senão o sem sentido

deste amor que não morre por morrer

o teu corpo tão nu nunca despido

o teu corpo tão vivo de o perder

neste amor que só é de não ter sido

não sei de amor senão esse não ter.


Não sei de amor senão o não haver

amor que dure mais que o nunca tido.

Há um corpo que não pára de doer

só esse é que não morre de tão perdido

só esse é sempre meu de nunca o ser

não sei de amor senão o amor ferido.


Não sei de amor senão o tempo ido

em que o amor era amor de puro arder

tudo passa mas não o não ter tido

o teu corpo de ser e de não ser

só esse é meu por nunca ter ardido

não sei de maor senão esse perder.


Cintilante na noite um corpo ferido

só nele de o não ter tido eu hei-de arder

não sei de amor senão amor perdido.

Noticia bibliográfica: Os poemas, de Manuel Alegre, poeta-candidato, pertencem à 1ªedição do LIVRO DO PORTUGUÊS ERRANTE publicado em Fevereiro de 2001 por Publicações Dom quixote, Lda.

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A prostituição na poesia (3) – BE MY LOVE

30 Sábado Jan 2010

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Crónicas

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João Sampayo

Não te adoro porque não existes.

Ah!… Se eu pudesse amar-te, adorar-te.

Se eu pudesse ter-te nos meus braços,

abraçar-te, beijar-te, embriagadoramente!…


BE MY LOVE!

diz a musica que ressoa nos meus ouvidos.

Dentro de mim.

Nos meus dedos, nos meus cabelos.

Que faz vibrar todo o meu corpo.

Que não cala.

Que me absorve.

Que me dilui.


BE MY LOVE!


Ah! Como fazes vibrar toda a minha alma!

Como despertas em mim um sentimento banido, recalcado.

Como me incutes amor, sem eu estar apaixonado!…


Be my love e fica sempre ao pé de mim.

Nunca me abandones.

Nada mais tenho do que beijos para te dar…


Meu amor, como não te tenho, porque não existes,

sê a minha musica.

Be my love!

Nunca me abandones!…  Ou então parte

definitivamente.

Be my love uma vez e sempre!


Nós não somos deste mundo, os dois.

Transcendemos há muito o Transcendente.


Odeio-te pelo amor que te tenho.

Não te adoro porque não existes.


Be my love! Para ficarmos tristes

de ser felizes.

………………………………………………………………………………………………………………………………………………..


Une o teu corpo ao meu.

Sim!… TU!


Oferece-me a felicidade roxa de um momento que se compra como umas meias de seda artificial.

Supõe que me amas.

Esquece o teu lucro material.

Be my love. Apaga a luz.

…………………………………………………………………………………………………………………………………….


BE MY LOVE!…

……………………………………………………………………………………………………………………………………


Toma o teu dinheiro.

Obrigado pelo amor que me deste.

Obrigado por essa hora divinamente torpe,

em que te vendeste.

Be my love outra noite… Outra vez!

E perdoa!…


Amo-te porque não posso amar-te.

Mas não te odeio por desejar-te.

Não fiques triste!…

Aquela que eu verdadeiramente amo,

não existe.


Amo o ar livre, o sol, a lua, as estrelas,

os cais desertos,

as silhuetas e o fumo dos vapores ao longe.

Amo a dor das despedidas, os ultimos adeuses,

As lágrimas mal contidas.


O meu amor é isto e aquilo que eu não digo, mas sinto.

Que senti desfalecer dentro de mim quando ouvi cantar:


BE MY LOVE!


Quando descobri que adorava ainda aquela que eu verdadeiramente amo,

mas que não existe.

Não fiques triste!…


SÊ O MEU AMOR SINTÉTICO!


Be my love outra noite… Outra vez!

Amor sintético chama-lhe o poeta.


É na verdade um grito de amor na impossibilidade de ter a quem se ama, negando-lhe a existência repetidamente ao longo do poema: aquela que eu verdadeiramente amo não existe.

Na impossibilidade do amor correspondido, a carne não cala o desejo e procura o corpo disponível:

Une o teu corpo ao meu / Oferece-me a felicidade roxa de um momento que se compra como umas meias de seda artificial. /  Supõe que me amas

Mas lá vem, inevitável, a culpa de comprar o amor, com um insulto na forma de obrigado:  Obrigado por essa hora divinamente torpe, /  em que te vendeste.

É tramado isto do sexo a dinheiro.

Nos anos 50, quando o poema foi composto, o comércio do sexo, revestia para os homens, contornos que hoje temos dificuldade em imaginar.

Mais à frente no poema, temos a revelação de que o poeta continua a amar alguém e afoga no amor sintético a impaciência que o corpo não cala:

“O meu amor é isto e aquilo que eu não digo, mas sinto. / Quando descobri que adorava ainda aquela que eu verdadeiramente amo”.


Belíssimo poema da desolação afectiva, de um autor de quem nada sei. Histórias e dicionários de literatura passam em silêncio sobre o seu nome.

Assina João Sampayo, e publicou este livro  POEMAS SEM ÍNDICE em 1954, provavelmente em edição de autor, identificando o editor como João Fantasma.

Esta foi uma daquelas deslumbrantes descobertas de alfarrabista.

O livro, concebido como uma unidade, divide-se em 7 + 1 partes. Cada parte abre com um desenho, original suponho. Todos os desenhos vem assinados, e alguns por nomes maiores das artes plásticas portuguesas.

A abrir o livro este poema:

No princípio não era Nada porque nada

não tem princípio

Nada não tem fim

Nem nada se criou


No sétimo dia Deus descansou

e começou

por perder tempo

e seguem-se as diferentes partes:

ERA UMA VEZ  – abre com desenho de Pedro Felix Correia

AMOR SINTÉTICO  – abre com desenho de Diogo Lino Pimentel

NEO-SEBASTIANISMO – abre com desenho de José Escada

ETERNO TEMA – abre com desenho de Manuel Cargaleiro

INTERVALO MUSICAL – abre com desenho de José M. Torre do Valle

ÚLTIMA CARTA – abre com desenho de Sebastião Guimarães

INTERRUPÇÃO INOPORTUNA – abre com desenho de Manuel d’Abreu Lima

POST-PANNE – abre com desenho de António Areal


À parte a surpresa maravilhada dos poemas, o livro traz ainda um poema manuscrito como dedicatória.

Não fora os poemas, pela data de edição do livro, se encontrarem sujeitos a copyright, dá-los-ia aqui em fac-simile na totalidade.

Se por um daqueles imponderáveis, que acontecem, algum leitor tiver noticias sobre o autor, aqui fica o pedido de que as transmita.

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