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vicio da poesia

Category Archives: Convite à arte

Sobre tradução de poesia – poema de Zbigniew Herbert

26 Segunda-feira Nov 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ 1 Comentário

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Giorgio De Chirico, Herberto Helder, Jorge Sousa Braga, Zbigniew Herbert

 

Ao escolher poemas noutras linguas para o blog algumas vezes encontro versões em português, outras não sei que existam e aí, traduzi-los seria o caminho óbvio. Acaba por ser muitas vezes o receio de perder as subtilizas da língua original de um poema o que me tolhe quando coloco esses poemas no blog sem qualquer tradução a acompanhar.

Na labuta de aproximação à nossa língua de um poema que nos encanta, há muito dos trabalhos de sedução no processo amoroso: há um terreno virgem a percorrer no encontrar a palavra certa para flanquear o caminho do verso, culminando no prazer final de atingir o auge que é a conclusão de um poema.

De toda esta empreendedora tarefa nos dá conta em belas imagens na luta do besouro com a flor, o poema de Zbigniew Herbert (1924-1998) – Sobre tradução de poesia – que hoje vem ao blog, vertido em português pela genialidade de Herberto Hélder.

Herberto Hélder, além da sua obra poética singular, tem um conjunto vasto de poemas de diversas proveniências, mudados para português, como o próprio se lhes refere, dos quais este saboroso e dúplice tratado sobre tradução poética é um dos meus preferidos.

– Sobre tradução de poesia –
(Zbigniew Herbert)

Zumbindo um besouro pousa
numa flor e encurva
o caule delgado
e anda por entre filas de pétalas folhas
de dicionários
e vai direito ao centro
do aroma e da doçura
e embora transtornado perca
o sentido do gosto
continua
até bater com a cabeça
no pistilo amarelo

e agora o difícil o mais extremo
penetrar floralmente através
dos cálices até
à raiz e depois bêbado e glorioso
zumbir forte:
penetrei dentro dentro dentro
e mostrar aos cépticos a cabeça
coberta de ouro
de pólen

Tradução de Herberto Helder publicada a abrir o livro OUOLOF poemas mudados para português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa 1997.

A tradução poética continua matéria de controvérsia, ainda que para mim, enquanto leitor, a preferência vá sempre para a tradução que em português fala comigo, a uma qualquer versão em que a fidelidade lexical seja o propósito. As versões de Herberto Hélder são certamente um caso extremo no afastamento da fidelidade lexical, e, com rara felicidade, são sempre novos poemas acrescentados à língua portuguesa, como se nela tivessem sido criados de raiz. Para o avaliar convido o leitor a seguir a versão portuguesa do mesmo poema que hoje nos ocupa, agora por Jorge Sousa Braga:

SOBRE A TRADUÇÃO DE POESIA

Como um abelhão desajeitado
pousa numa flor
vergando o frágil caule
abre caminho com os cotovelos
através duma fileira de pétalas
através das folhas de um dicionário
quer chegar
onde se concentram a fragrância e a doçura
e embora esteja constipado
e sem gosto
continua a tentar
até que a cabeça choca
contra o pistilo amarelo

e não consegue ir mais longe
é tão duro
forçar a coroa
até chegar à raiz
por isso levanta voo
emerge pavoneando-se
zumbindo
eu estive lá
e aqueles
que não acreditam nisso
olhem para o seu nariz
amarelo de pólen

Versão de Jorge Sousa Braga a partir da versão inglesa de Czeslaw Milosz. Publicado em Zbigniew Herbert, Escolhido pelas Estrelas, antologia poética, Assírio & Alvim, Lisboa 2009.

Ilustra o artigo a pintura de Giorgio De Chirico, As Musas Inquietas (eventualmente inquietas com os problemas levantados pela tradução de poesia).

 

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Vida doméstica na pintura de Pieter de Hooch

25 Domingo Nov 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Pieter de Hooch

Na pintura de género holandesa produzida no século XVII, o espectador de hoje tem a ilusão de ter acesso aos diferentes aspectos da vida quotidiana da época graças a uma especial técnica de composição das pinturas, onde ao rigor da perspectiva se associa uma espécie de espontaneidade do gesto, captando em flagrante determinada actividade, embora a pintura seja tudo menos tirada do natural, como fizeram mais tarde os impressionistas, mas cuidadosamente organizada na arrumação da cena por forma a que a iluminação natural chegasse aos personagens, oferecendo a imagem pretendida ao assunto da pintura. Tal como nas cenas de taberna em que a moralidade se extrai da atitude dos personagens (e a elas irei em próximo post) assim também na pintura onde a exaltação das virtudes domésticas se pretende mostrar.

Escrevi no artigo anterior que os clientes desta pintura procuraram nela rever as suas vidas e como escreveu Hegel “eles querem encontrar nos seus quadros a limpeza das suas cidades e o gozo da sua paz doméstica”. Espero que o conjunto de obras de Pieter de Hooch (1629-1684) que hoje aqui trago, dê conta do que afirmei.

À família reunida para a posteridade acrescentam-se os episódios de um dia-a-dia na serenidade de vidas sem angustia, fruindo do bem estar material que o detalhe dos adereços evidencia.

O quarto

O aleitamento de um recém-nascido.

Cena doméstica com criança e cão.

Cena doméstica com criada e criança.

Cena doméstica – descascar maçãs.

Cena doméstica no pátio com senhora e criada.

Cena doméstica no pátio: mãe, filha e criada, talvez preparando-se para sair.

 Acrescentam-se a estas cenas tranquilas do viver doméstico, os momentos de lazer bebendo um vinho e conversando à mesa, onde tanto os casais como jovens namorando podem figurar.

Fiquemos por aqui na viagem a este mundo imaginado e que talvez tenha existido tal como o pintaram.

Passear nestas pinturas, fruindo o detalhe da composição, a iluminação da cena e o recorte dos personagens em conversação eterna, permite ao apreciador de pintura um prazer sem fim.

Para o leitor a quem este mudo holandês do século XVII desperte a curiosidade, sugiro a leitura do romance de Agustina Bessa-Luís – O bicho da terra, onde a pretexto de recriar a biografia do filósofo Uriel da Costa, o génio da escritora nos faz passear por este mundo perdido.

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A urbe na pintura holandesa do século XVII

21 Quarta-feira Nov 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Cornelis de MAN, Jan van der HEYDEN, Pieter Jansz SAENREDAM

Pieter Jansz SAENREDAM (1597-1665) – 1657

É o poder económico da burguesia holandesa, associado à religião que dispensa a iconografia sagrada, o determinante na alteração dos temas na pintura holandesa a partir de final do século XVI.
Surgem por esta época as cenas de domesticidade e quotidiano, atribuindo uma dignidade à vida de todos os dias e à gente burguesa e humilde, até aí recusadas como matéria digna de ser pintada, e que nos países católicos permaneceu até ao século XVIII.
É nesta pintura, comummente conhecida por pintura de género, que encontro muitos dos quadros que fazem a minha delicia. Pedindo de empréstimo a Tzvetan Todorov o titulo de um seu ensaio famoso, é do elogio do quotidiano que esta pintura trata.
Os clientes procuraram na pintura rever as suas vidas e como escreveu Hegel “eles querem encontrar nos seus quadros a limpeza das suas cidades e o gozo da sua paz doméstica”.
Se para a paz doméstica são arqui-conhecidas as pinturas de Vermeer, embora Pieter de Hooch não lhe fique atrás, os pintores que nos deram a atmosfera das cidades referida por Hegel têm uma visibilidade, hoje, muito menor.
Reuni algumas destas vistas urbanas holandesas, dando conta de uma arrumação e limpeza em consonância com a imagem que as suas populações pretendiam perpetuar. Para um engenheiro civil os detalhes da arquitectura acrescentam um sabor especial a cada quadro.

Pieter Jansz SAENREDAM (1597-1665) – 1662

Jan van der HEYDEN (1637-1712) Delft

Jan van der HEYDEN (1637-1712)

Jan van der HEYDEN (1637-1712)

Jan van der HEYDEN (1637-1712)

  Cornelis de MAN (1621-1706) – Delft

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Paul Gauguin — pintura para um mundo em Estado de Graça

13 Terça-feira Nov 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Paul Gaugin

Deixo-vos uma escolha pessoal entre a pintura de Paul Gaugin (1848-1903), sobre a qual as considerações de escola cruzadas com a biografia abundam. Importa-me mais o estado de felicidade absoluta que esta pintura transmite, na entrega ao prazer de simplesmente existir oferecida pelas modelos hawaianas dos seus quadros. É verdadeiramente uma pintura para um mundo em estado de graça.

 

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George Grosz, expoente do expressionismo alemão

08 Quinta-feira Nov 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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George Grosz

O expressionismo alemão que floresceu nos anos de Weimar, enquanto movimento nas artes plásticas, permanece na tradição da arte ocidental da pintura um caso singular. Provavelmente fruto de circunstâncias históricas únicas -desenvolveu-se numa sociedade a viver o rescaldo de uma derrota devastadora na primeira guerra mundial, de que fora a principal responsável – dá-nos conta de um horror normalizado, instalado no quotidiano, onde muitas vezes a agressividade da paleta grita a sua desolação. Entrelaçada esta paleta no contraste de um desenho deformado, temos como resultado umas vezes pungente, outras estarrecedor, uma pintura que nao permite esqueçer o mundo que a viu nascer.

Exemplo maior deste universo é a obra pictórica de George Grosz (1893-1959) realizada na Alemanha, nestes anos.

Regresso à sua obra no blog para vos deixar com algumas pinturas dos anos 1918-1928.

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Otto Dix — alguns retratos

08 Quinta-feira Nov 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Otto Dix

 

A humanidade pintada por Otto Dix (1891-1969), no grotesco da sua representação, é uma humanidade que dói. Talvez tenha existido, talvez até existam hoje, sob a capa da trivialidade doméstica, aqueles seres.

Não nos reconhecemos neles, ou antes, não me reconheço neles, mas a existirem, são por si só a representação visual da crueldade do mundo.
Aqui ficam alguns.

 

 

 

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Algumas capas modernistas para LP’s

21 Domingo Out 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Eric Nitsche

Terminei o artigo anterior fazendo a ligação entre as artes gráficas preocupadas em comunicar uma mensagem comercial e as vanguardas artísticas que desde os anos 20 do século XX tiveram uma presença dominante no desenvolvimento dos mecanismos do gosto, tendo chegado a sua influência até nós nos padrões com que lemos a modernidade estética.

Nos anos 50, as capas do recém-descoberto disco de vinil de longa duração, LP, que girava a 33 rotações por minuto, foram objecto de cuidadoso trabalho gráfico. Pelo seu custo e conteúdo, dirigiam-se a uma camada média-alta da população, com elevada sofisticação no gosto, a que estas capas procuravam responder.

A companhia discográfica DECCA, pioneira neste mercado em muitos aspectos técnicos, também o foi no cuidado gráfico da embalagem.

Mostro-vos um conjunto de capas para o reportório de musica clássica, assinadas por Eric Nitsche onde a influência estética do modernismo dos anos 20/30 é eloquente.

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As Feiticeiras de Teócrito

21 Domingo Out 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Richard Hamilton, Teócrito, Vogue

Ando agora bastante de metro e por estes dias o anúncio agressivo de uma popular revista feminina tem-me retido o olhar enquanto espero o comboio.

O cartaz publicita a capa do número mais recente. Suponho até que a revista tem lugar cativo naquele placard pois já lá têm estado anunciadas outras capas.

A publicação parece ser dirigida à mulher desinibida(?) de hoje, e traz habitualmente três chamadas de capa para assuntos interiores: um sobre o trabalho, outro sobre o corpo e a moda, e um terceiro sobre sexo e relações amorosas; o que também acontece nesta capa.

Para este último tópico temos então no cartaz que agora me ocupa, a afirmação de que a magia negra existe mesmo.

Assim afixado, não tenho duvidas! De resto, como acontece com todos os assuntos humanos, é ou foi, também ele, matéria de poesia. Ilustro a afirmação com Teócrito, poeta alexandrino que viveu no século III a.C.. No seu poema As Feiticeiras temos o assunto poeticamente abordado.

O pretexto para a magia negra é no poema, tal como agora será na maior parte dos casos, suponho, um abandono incompreendido e não aceite:

Que foi que se passou? Sei que tudo perdi,
e que sou, para ele, ainda menos que nada.

E perante esta incompreensão desenvolve-se um forte desejo de reencontro:

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

É desse desejo que surge a tentação de tudo fazer para recuperar o objecto amado:

Vou queimar lentamente este ramo de louro:
vede como crepita! Ei-lo já todo em brasa…
Assim fique também aquele por quem morro!
E que eu o veja ardendo, aqui, em minha casa!

Não sei se a magia negra de que a revista fala se limitará a queimar ramos de louro, ou caminhará por ingredientes de maior poder sugestivo, mas para o caso pouco importa. Quero apenas realçar nesta conversa, continuidades culturais que mostram quanto estamos próximo da humanidade distante, e para as quais nem sempre nos encontramos despertos, embrulhados nos gadjets do nosso quotidiano, com a ilusão de progresso à nossa volta.

Vamos então a As Feiticeiras numa tradução de David Mourão-Ferreira.

Traze-me os filtros, anda! E as folhas de loureiro.
Envolve-me essa taça em lã avermelhada,
a ver se encanto assim o cruel estrangeiro
que há doze dias já me deixa abandonada…

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

Vou queimar lentamente este ramo de louro:
vede como crepita! Ei-lo já todo em brasa…
Assim fique também aquele por quem morro!
E que eu o veja ardendo, aqui, em minha casa!

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

Derreter esta cera? Assim me ajude a lua,
para que se derreta a sua própria alma!
Ou que eu o veja então rondar a mina rua,
como nas minhas mãos esta onda não pára!

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

Já o mar se calou; já o vento caiu…
Mas a dor, no meu peito, é que nunca se cala.
Que foi que se passou? Sei que tudo perdi,
e que sou, para ele, ainda menos que nada.

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

Esta formosa versão de David Mourão-Ferreira traduz apenas o inicio do poema e não ficaria satisfeito comigo se vos deixasse apenas com ela.

O poema na sua totalidade cobre a gama emocional em torno da paixão e da perda, onde o recurso à magia negra é o instrumento para garantir o ancestral desejo de absoluto no amor: se não é para mim, não será para mais ninguém. Antes mutilado ou morto. E para o conseguir, os recursos de feitiço são variados como se espera.

O poema desenvolve a narrativa em duas partes: na primeira seguimos as etapes da processo de feitiço e na segunda tomamos conhecimento do desenvolvimento da paixão até ao desenlace que provoca esta busca do sobrenatural.

Aí vai toda a história, vertida em português por Albano Martins.

As feiticeiras

Onde estão os meus ramos de loureiro? Téstilis, vai buscá-los!
Onde estão os filtros? Coroa a taça
de fina lã de ovelha tingida de púrpura,
e assim prenderei o amado que me tortura.
Há já doze dias que o miserável
não vem ver-me, nem se preocupa
em saber se estou morta ou viva…

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Primeiro consome-se a farinha no fogo.
Espalha-a, Téstilis. Desgraçada, onde tens a cabeça?
Também para ti, ó infame, sou motivo de troça?
Espalha e diz ao mesmo tempo:”Espalho
os ossos de Délfis”.

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Délfis desgosta-me, e eu, por causa de Délfis,
queimo loureiro. Tal como este crepita
ao contacto com o fogo e arde tão rapidamente
que nem sequer vemos a cinza, que assim
se consuma na chama a carne de Délfis.

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Tal como derreto esta cera com a ajuda da deusa,
que assim o mínimo Délfis se derreta de paixão.
E como este disco de bronze gira,
movido por Afrodite, que assim
ele venha a girar à minha porta.

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Já se calou o mar, calaram-se os ventos, mas não se cala
a dor no meu peito. Ardo completamente
por aquele que, pobre de mim, me fez, não sua esposa,
mas mulher má e desonrada.

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Délfis perdeu esta franja da sua capa; agora
desfio-a e atiro-a ao fogo destruidor.
Aí, terrível Eros, porque sugaste
todo o sangue negro do meu corpo
como sanguessuga do pântano?

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Esmagarei um lagarto e amanhã levar-lhe-ei
uma poção venenosa. Téstilis, vai agora
apanhar as ervas, amassa-as na soleira
da sua casa, antes que a noite acabe, cospe nelas
e diz:”Esmago os ossos de Délfis!”

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Agora que estou só, como hei-de chorar o meu amor?
Por onde hei-de começar? Quem me trouxe este mal?…

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

Eu vi-o, e logo o delírio me tomou, logo se me sobressaltou
e feriu o coração, infeliz. A minha beleza murchou
e não prestei mais atenção àquela procissão.
Não sei como voltei para casa: um mal devorador
destroçou-me e estive prostrada no leito
durante dez dias e dez noites.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

A minha tez tinha frequentemente
A cor do açafrão, os cabelos caíam-me todos
da cabeça, só me restavam
os ossos e a pele. A quem não recorri ou que casa
de que velha feiticeira não visitei? Mas nada
me aliviou, e o tempo passava, fugaz.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

E assim revelei à escrava os meus verdadeiros propósitos:
“Vai, Téstilis, e arranja-me um remédio
para este penoso mal. O míndio apossou-se de mim
completamente, pobre de mim. Vai pois espreitar
a palestra de Timageto. Ele costuma ir lá,
ele gosta de estar ali.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

E, quando o vires sozinho, faz-lhe um sinal
às escondidas e diz-lhe: “Simeta chama-te”,
e trá-lo aqui. Assim lhe disse, ela foi
e trouxe o reluzente Délfis a minha casa. E eu,
mal o vi transpor com pé ligeiro
a soleira da minha porta,

(Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.)

fiquei toda mais fria do que a neve,
da fronte escorreu-me um suor
semelhante a húmidas gotas de orvalho,
não conseguia articular palavra
nem sequer esses balbúcios que as crianças
pronunciam no sono, quando falam com as mães.
E o meu belo corpo ficou tão rígido
como o duma boneca.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

Este homem insensível viu-me, fixou os olhos no chão,
sentou-se no mediu leito e, já sentado, disse
“Na verdade, Simeta, não te antecipaste mais
do que eu mesmo um dia destes me antecipei na corrida
ao encantador Filino: recebi o convite para vir a tua casa
no momento em que vinha para cá”.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

…Assim ele falou. E eu, ingénua, pegando-lhana mão,
Fi-lo reclinar-se no macio leito. Em breve os nossos corpos
em contacto um com o outro, aqueceram, as nossas caras
tornaram-semais quentes do que antes
e cochichávamos docemente. Enfim,
para não alongar a história, querida Lua,
o mais importante aconteçeu
e atingimos ambos o que desejávamos.

E agora? Há já doze dias que não o vejo.
Não será que tem outros prazeres
e se esqueçeu de mim?
Mas hoje vou prendê-lo com os meus filtros.
Se insistir em fazer-me sofrer,
às portas do Hades – pelas Moiras! – terá que chamar.
Tal é, declaro-o, o poder dos venenos
que para ele guardo numa caixinha
e que, ó soberana, me ensinou um estrangeiro da Assíria.

Mas tu, radiante, ó soberana, dirige os teus potros para o Oceano.
Eu carregarei o meu fardo como até aqui.
Saúdo-te, ó Lua de face resplandecente! E saúdo também
as outras estrelas, que acompanham o carro da Noite tranquila.

Não se esgota a poesia de Teócrito, neste poema. Criador do bucolismo em poesia, de tão numerosos e belos exemplos entre nós, aos seus idílios um dia virei. Como qualifica Frederico Lourenço: “Teócrito é o poeta do travo amargo que o amor deixa na boca de quem ama“. Com este As feiticeiras a afirmação é verdadeira. Veremos mais tarde como com outros poemas se confirma.

Abre o artigo com uma famosa pintura de Richard Hamilton (1922) – O que é que faz as nossas casas hoje tão diferentes, tão atractivas, expoente do movimento popart que pelos anos 60 tomou conta do mercado de arte nos EUA e um pouco por todo o ocidente. Deixo a(o) leitor(a) o cuidado da ligação ao objecto pretexto da feitiçaria do poema, ou até da magia negra de hoje.

Tratou-se o popart de um movimento estético em resposta às formas de comunicação vindas das artes gráficas, num percurso porventura inverso ao seguido nos anos 20 e 30, em que as vanguardas estéticas com o construtivismo e a influência da Bauhaus à cabeça, ditaram novas formas na comunicação gráfica.

São exemplo desta influência algumas das primeiras capas da revista Vogue, que tão decisiva viria a ser numa certa ideia da mulher sobre si própria, ao longo do século XX.

A natureza efémera destas publicações fá-las hoje objectos pouco conhecidos. Aqui vos deixo uma pequena amostra.

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Um epigrama de Marcial

21 Domingo Out 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Erótica, Poesia Antiga

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Jan Gossaert, Marcial, Ovídio

Foi no reboliço intelectual que acompanhou e precedeu a reforma protestante, que o nu integral surgiu na pintura do norte da Europa: Alemanha, Flandres e Holanda. É então que as pinturas com Adão e Eva, das quais já arquivei no blog algumas de Lucas Cranach, se tornam frequentes. No entanto, a que parece ser a primeira figuração moderna da mulher em nu frontal é a pintura que abre este artigo e representará, não Adão e Eva, mas Neptuno e Anfitrite, datada de 1516 e pintada por Jan Gossaert (1462/70-1533/41).

Como se vê, se a mulher surge nua, o homem ainda aparece com os genitais cobertos por um estojo peniano de conforto duvidoso, digo eu. Passarão poucos anos para que o homem, nu, figurando Adão, surja na pintura ocidental, para de novo voltar a desaparecer até aos nossos dias.

A propósito de estojos penianos, vale talvez a pena referir que Claude Levi-Strauss no seu belo livro Saudades do Brasil, mostra um habitante de uma aldeia Bororo, junto ao rio São Lourenço (afluente do rio Cuiabá) usando um estojo equivalente. E refere ainda como em dias de festa este estojo se ornamentava com um mosaico de plumas e uma bandeirola de palha brasonada com os sinais distintivos do clã do portador. É sempre fascinante percorrer as oscilações históricas dos costumes em torno do corpo.

Na conversa que aqui deixei ontem a propósito da argumentação clássica acerca da posição “cavalo de Heitor” mais nenhum aspecto das actividades em torno do sexo foi tratado. Mas os prazeres de mão também contam e o nosso professor Forberg a eles não se eximiu:

Não despraz tampouco aos que no vigor da idade e aptos a acariciar as raparigas, ter amantes cujas mãos não fiquem preguiçosas na cama e cujos dedos saibam o que têm a fazer nessa regiões onde Amor esconde as suas setas.

Cita Aristófanes, passa a Ovídio (43a.C.-18(?)d.C.), e da sua obra Amores dá-nos:

A esta coisa aqui, a minha amada não se furtou, mesmo,
a despertá-la, com doces movimentos da sua mão
Livro III, 7, 73-74

e de seguida, referindo-se a Ulisses no epigrama 104 do Livro XI, de Marcial, transcreve:

e, embora o Ítaco roncasse, a púdica Penélope
sempre lá no sítio costumava ter a mão.

Neste epigrama de Marcial dá-se conta de uma lista de queixas sobre o que a mulher não lhe faz por comparação com o que gozam casais notáveis.

No outro dia, ao ver o filme Terapia a dois, com Meryl Streep e Tommy Lee Jones, numa das cenas de consultório quando o psicólogo se virou para Tommy Lee Jones e lhe perguntou: que desejos tem que a sua mulher não satisfaz?, esperei que saísse uma lista semelhante ao cardápio de Marcial. Afinal não, só gostava, e queria, que ela lhe chupasse o pénis, o que a partir daí condiciona o desenvolvimento da história, é bem de ver.

Mas voltando a Marcial, a lista é mais longa e aí a têm:

Livro XI, Epigrama 104

Põe-te a andar, mulher, ou partilha os meus hábitos:
eu não sou nenhum Cúrio nem Numa nem Tácio
Eu aprecio as noites passadas entre alegres copos:
tu sais à pressa da mesa, sisuda, mal bebes a água.
Tu gostas do escuro: a mim agrada-me brincar
com a lâmpada a ver e romper as ilhargas com luz a entrar.
Faixas e túnicas e negros mantos te escondem,
mas comigo mulher alguma está nua o bastante.
Cativam-me os beijos que imitam a doçura das pombas:
tu dás-me os mesmos que dás à tua avó pela manhã.
Nem com meneios nem palavras nem dedos te dignas
ajudar ao acto – é como se servisses incenso ou vinho puro;
masturbavam-se atrás da porta os escravos frígios,
sempre que a esposa montava Heitor a cavalo
e, embora o Ítaco roncasse, a púdica Penélope
sempre lá no sítio costumava ter a mão.
Não deixas que te encabe: mas Cornélia dava-o a Graco,
Júlia a Pompeio, e Pórcia a ti, Bruto,
quando o Dardânio não misturava ainda, como escanção,
as doces bebidas, Juno fazia de Ganimedes para Jove.
Se gostas de austeridade, deixo-te ser Lucrécia até mesmo
o dia inteiro: mas à noite quero uma Laís.

 

Noticia bibliográfica

A tradução do epigrama de Marcial é de Delfim Ferreira Leão e pertence ao tomo IV dos Epigramas de Marcial publicados por Edições 70, Lisboa 2004.

A tradução dos dois versos de Amores, de Ovídio, é de Carlos Ascenso André, na edição de Livros Cotovia, Lisboa 2006

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Dois sonetos de Louise Labé com pasteis de Rosalba Carriera

21 Terça-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Louise Labé, Rosalba Carriera

Acompanhando ainda este tempo de verão, tempo de amor em que o desejo se incendeia, trago as palpitações contadas por Louise Labé (1524-1566):

Eu vivo, eu morro: e ardo e arrefeço;
com extremo calor tremo de frio;

Para depois nos dizer dos extremos da paixão:

E tal como jubilo me entristeço;
no prazer o tormento ludibrio;

Incluída na história da literatura entre as grandes amorosas por Rainer Maria Rilke, Louise Labé (1524-1566), é poetisa de obra curta (24 sonetos, 3 elegias) e  é pouco conhecida entre nós.

Com biografia hipotética, levantam hoje alguns especialistas a dúvida sobre quem escreveu os seus sonetos, um pouco à semelhança do que aconteceu com a prosa erótica atribuída à nossa Luísa Sigea. Mas neste último caso a mulher existiu, a obra é que não é de sua autoria.
Um dia, talvez lá vá, a esse gineceu que foi a corte da Infanta D. Maria onde Luisa Sigea viveu. Hoje fiquemos com dois sonetos de Louise Labé (1524-1566), em tradução de David Mourão-Ferreira, e respectivos originais.

Eu vivo, eu morro: e ardo e arrefeço;
com extremo calor tremo de frio;
do mundo ora me espanto ora me rio;
no meio da alegria me aborreço.

E tal como jubilo me entristeço;
no prazer o tormento ludibrio;
meu bem não dura mais que um arrepio;
e seco de repente, e reverdeço.

Assim me arrasta o inconstante Amor:
e quando penso que é maior a dor,
sem saber como sinto-me liberta.

Mas do alto a que subo deslumbrada
novamente me vejo despenhada,
quando julgo a fortuna mais que certa.

Original

Je vis, je meurs: je me brûle et me noie,
J’ai chaud extrême en endurant froidure;
La vie m’est et trop molle et trop dure,
J’ai grands ennuis entremélés de joie.

Tout en un coup je ris et je larmoie,
Et en plaisir maint grief tourment j’endure,
Mon bien s’en va, et à jamais il dure,
Tout en un coup je sèche et je verdoie.

Ainsi Amour inconstamment me mène
Et, quand je pense avoir plus de douleur,
Sans y penser je me trouve hors de peine.

Puis, quand je crois ma joie être certaine,
Et être en haut de mon désiré heur,
Il me remet en mon premier malheur.

Outro soneto

Ó belos olhos, ó cílios descidos,
Ó suspiros, ó lagrimas choradas,
Ó negras noites em vão tão esperadas,
Ó dias vãos em vão tão repetidos!

Ó tristes prantos, ó tempos perdidos,
Ó desejos, ó penas sufocadas,
Ó mil mortes em redes enlaçadas,
Ó males p’ra meu mal acontecidos!

Ó riso, ó fronte, ó braços, mãos e dedos!
Ó alaúde, ó viola dos enredos:
Archotes sois para uma fêmea arder!

De ti me queixo, que tais fogos tendo,
Só a mim afinal deixas ardendo,
Sem faúlha nenhuma te atingir!

Original

Ô beaux yeux bruns, ô regards détournés,
Ô chauds soupirs, ô larmes épandues,
Ô noires nuits vainement attendues,
Ô jours luisants vainement retournée !

Ô tristes plaints, ô désirs obstiné,
Ô temps perdu, ô peines dépendues,
Ô milles morts en mille rets tendues,
Ô pires maux contre moi destiné !

Ô ris, ô front, cheveux bras mains et doigts !
Ô luth plaintif, viole, archet et voix !
Tant de flambeaux pour ardre une femelle !

De toi me plains, que tant de feux portant,
En tant d’endroits d’iceux mon coeur tâtant,
N’en ai sur toi volé quelque étincelle.

Abre o artigo com uma alegoria ao Verão de Rosalba Carriera (1675-1757), um retrato feminino a pastel.
Foi uma grata surpresa a descoberta dos retratos de Rosalba Carriera, certa tarde em Veneza, quando, na minha estultícia, julgava já não haver pintura a descobrir.
A fragilidade do pastel e a textura particular da superfície pintada, dão aos retratos um vivacidade e presença que quase nos apetece começar a falar com quem nos olha. A obra da pintora não é vasta e ao que conheço restringe-se ao retrato. Acrescento para quem a não conhece as restantes estações do ano no pastel da pintora.
São sempre mulheres de seio à vista, e é uma alegoria correcta, pois são elas quem nos acompanha em todas as estações da vida. Em realidade ou em fantasia.

Primavera

Outono

Inverno

Termino com o belo Apolo para consolo das leitoras do blog

 

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