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vicio da poesia

Category Archives: Convite à arte

A memória de um homem está nos seus beijos – despedida de Vicente Aleixandre

23 Terça-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Edvard Munch, Vicente Aleixandre

Munch_Edvard-Self-portrait_with_Bottle_of_WineCom o verso A memória de um homem está nos seus beijos, abre Vicente Aleixandre (1898-1984) o seu poema Aquele que faz vive, do livro Poemas da consumação (1968).

Verso síntese de muitos dos seus poemas ao longo de décadas, é a seu pretexto que escolho o poema com que me despeço desta visita prolongada, no blog, à sua poesia.

Chove, o poema escolhido, encontra-se no mesmo livro, e afortunadamente possuímos em português uma sua tradução completa da autoria de Armando Silva Carvalho, poeta maior da nossa língua.

É dele que transcrevo a primeira tradução.

Chove

Nesta tarde chove, e chove pura
a tua imagem. E o dia abre-se na minha memória.
Entraste.
Não oiço. A memória dá-me apenas a tua imagem.
Só o teu beijo ou chuva cai na memória.
A tua voz chove, e chove o beijo triste,
o beijo fundo,
beijo molhado em chuva. O lábio é húmido.
Húmido de memória o beijo chora
de uns céus cinzentos
delicados.
Chove o teu amor molhando a minha memória
e cai e cai. O beijo
ao fundo cai. E cinzenta também
vai caindo a chuva.

Anterior é a tradução do também poeta José Bento que a seguir se lerá.

Chove

Nesta tarde chove, e chove pura
tua imagem. Na minha recordação abre-se o dia. Entraste.
Não oiço. A memória dá-me só a tua imagem.
Só o teu beijo ou chuva cai em recordação.
Chove a tua voz, e chove o beijo triste,
o fundo beijo,
beijo molhado em chuva. O lábio é húmido.
Húmido de recordação o beijo chora
nuns céus cinzentos
delicados.
Chove o teu amor, molha a minha memória
e cai e cai. O beijo
cai ao fundo. E cinzenta ainda cai
a chuva.

Mais uma vez, a superior capacidade poética de José Bento para traduzir do castelhano salta à vista. Em mínimos arranjos do verso e cirúrgicas opções de construção frásica, temos um poema mais fluente em português, onde a musicalidade é uma constante. Apenas no penúltimo verso teria preferido também, opção de Armando Silva Carvalho, ao ainda, escolhido por José Bento.

Termino com o original em castelhano.

LLUEVE

En esta tarde llueve, y llueve pura
tu imagen. En mi recuerdo el día se abre. Entraste.
No oigo. La memoria me da tu imagen solo.
Solo tu beso o lluvia cae en recuerdo.
Llueve tu voz, y llueve el beso triste,
el beso hondo,
beso mojado en lluvia. El labio es húmedo.
Húmedo de recuerdo el beso llora
desde unos cielos grises
delicados.
Llueve tu amor mojando mi memoria,
y cae y cae. El beso
al hondo cae. Y gris aún cae
la lluvia.

Notícia bibliográfica

A tradução do livro Poemas da consumação, em edição conjunta com o livro Diálogos do conhecimento, ambas de Armando Silva Carvalho, foram editadas por Líber, Publicidade Portugal e Brasil, Lda, Lisboa, 1979.

A versão de José Bento consta da sua Antologia de Vicente Aleixandre, já noutro artigo mencionada, tal como a edição de Poesías Completas de Vicente Aleixandre, e pode ser seguido aqui.

Plenitude do amor – poema de Vicente Aleixandre

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Después del amor – poema erótico de Vicente Aleixandre

22 Segunda-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Modigliani, Vicente Aleixandre

259

Continuo em viagem pela obra de Vicente Aleixandre (1898-1984) e desta vez com um poema erótico para o qual não encontrei tradução portuguesa, pelo que apenas vos deixo o poema no original.

O poema pertence ao livro História del Corazón publicado em 1954 com poemas escritos entre 1945 e 1953.

Después del amor

Tendida tú aquí, en la penumbra del cuarto,
como el silencio que queda después del amor,
yo asciendo levemente desde el fondo de mi reposo
hasta tus bordes, tenues, apagados, que dulces existen.
Y con mi mano repaso las lindes delicadas de tu vivir retraído.
Y siento la musical, callada verdad de tu cuerpo, que hace un instante, en desorden, como lumbre cantaba.
El reposo consiente a la masa que perdió por el amor su forma continua,
para despegar hacia arriba con la voraz irregularidad de la llama,
convertirse otra vez en el cuerpo veraz que en sus límites se rehace.

Tocando esos bordes, sedosos, indemnes, tibios, delicadamente desnudos,
se sabe que la amada persiste en su vida.
Momentánea destrucción el amor, combustión que amenaza
al puro ser que amamos, al que nuestro fuego vulnera,
solo cuando desprendidos de sus lumbres deshechas
la miramos, reconocemos perfecta, cuajada, reciente la vida,
la silenciosa y cálida vida que desde su dulce exterioridad nos llamaba.
He aquí el perfecto vaso del amor que, colmado,
opulento de su sangre serena, dorado reluce.
He aquí los senos, el vientre, su redondo muslo, su acabado pie,
y arriba los hombros, el cuello de suave pluma reciente,
la mejilla no quemada, no ardida, cándida en su rosa nacido,
y la frente donde habita el pensamiento diario de nuestro amor, que allí lúcido vela.
En medio, sellando el rostro nítido que la tarde amarilla caldea sin celo,
está la boca fina, rasgada, pura en las luces.
Oh temerosa llave del recinto del fuego.
Rozo tu delicada piel con estos dedos que temen y saben,
mientras pongo mi boca sobre tu cabellera apagada.

Para outras considerações e notícia bibliográfica sobre a obra de Vicente Aleixandre, convido os leitores a consultar o artigo anterior:

Plenitude do amor – poema de Vicente Aleixandre

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Plenitude do amor – poema de Vicente Aleixandre

21 Domingo Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Parmigianino, Vicente Aleixandre

Os poetas Nobel de língua castelhana (homens) têm uma obra onde o amor é assunto maior.

De todos me apetecia falar longa e desenvolvidamente, cometimento despropositado neste formato de blog. Assim, atenho-me a esporádicos poemas.

No caso de Vicente Aleixandre (1898-1984), Nobel de 1977, é procedimento particularmente ingrato, pois cada livro do poeta contém uma unidade intrínseca em que a disposição sequencial dos poemas conduz o leitor a uma mais densa e aprofundada leitura.

O poema de hoje, Plenitude do amor, integra o livro Sombra del Paraíso com poemas escritos no imediato pós-guerra civil, (1939-1943), e por isso mesmo, de alguma forma consequência dessa experiência.

Sobre o livro escreveu o poeta:

… canto de aurora do mundo, vista a partir do homem presente, cântico de luz a partir da consciência de escuridão (tal contraponto permanente creio que dá a esta obra o seu fundo patético). (…) O tema paradisíaco principal é completado, por um lado, pela visão do cosmos, na sua glória, antes do aparecimento do homem e, com ele, da dor e da limitação.

Deixo-vos com o poema, esperando pelo acontecer com que o poema termina:

Depois do amor, da felicidade activa do amor, repousado,
deitado, imitando descuidadamente um regato,
reflicto em mim as nuvens, os pássaros, as futuras estrelas,
a teu lado, oh recente, oh viva, oh entregada;
e olho-me em teu corpo, em tua forma branda, dulcíssima, apagada,
como se contempla a tarde que transbordante termina.

ParmigianinoPlenitude do amor

Que fresco e novo encanto,
que doce perfil louro emerge
da tarde sem neblina?
Quando julguei que a esperança, a ilusão, a vida,
desviava o seu rumo para Oriente
em triste e vã procura do prazer.
Quando eu vira vogar pelos céus
imagens sorridentes, doces corações cansados,
espinhos que atravessavam belos lábios,
e um fumo quase dolorido
onde palavras enamoradas se desfaziam como o hálito do amor sem destino…

Apareceste leve como a árvore,
como a brisa cálida que uma vaga envia do meio-dia, envolta
nos sais febrís, como nas frescas águas do azul.

Uma árvore jovem, sobre um curvo horizonte,
horizonte palpável para beijos apaixonados;
uma árvore nova e verde que melodiosamente move sual folhas altivas
louvando a ventura do seu vento nos braços.

Um peito alegre, um coração simples como a preia-mar distante
que herda sangue, espuma, de outras regiões vivas.
Uma enorme vaga lúcida sob o vasto sol aberto,
desdobrando a plumagem de um mar inspirado;
plumas, aves, espumas, mares verdes ou cálidos:
toda a mensagem viva de um peito rumoroso.

Eu sei que o teu perfil sobre o azul recente do crepúsculo intacto,
não finge vaga nuvem criada por um sonho.
Que forte fronte doce, que bela pedra viva,
acesa de beijos sob o sol melodioso,
é tua fronte beijada por uns lábios livres,
jovem ramo belíssimo que um ocaso arrebata!

Ah, a verdade tangível de um corpo que estremece
entre os braços vivos de teu amante arrebatado,
que beija vivos lábios, brancos dentes, ardores
e um colo como uma água calidamente alerta!

Por um torso nu giram tépidos fios.
Que risada de chuva sobre o teu peito ardente!
Que fresco ventre puro, onde sua curva oculta
leve musgo de sombra rumoroso de peixes!

Coxas de terra, barcas onde vogar um dia
pelo harmonioso mar do amor enturvado,
onde fugir libérrimos, rumo aos altos céus
em que a espuma nasce de dois corpos que voam.

Ah, a maravilha lúcida do Teu corpo a cantar,
faiscante de beijos sobre tua pele desperta:
resplandecente abóbada, nocturnamente bela,
que humedece o meu peito de estrelas ou de espumas!

Já distante a agonia, a solidão gemente,
as torpes aves baixas que gravemente roçaram minha fronte nos sombrios dias dolorosos.
Já longe os mares ocultos que enviavam suas águas
pesadas, densas, lentas, sob a extinta zona da luz.

Regressado à tua claridade não é difícil, agora,
reconhecer os pássaros matinais que gorgeiam,
nem descobrir nas faces os impalpáveis véus da Aurora,
como é possível sobre as suaves rugas da terra
divisar o forte, vivo, generoso corpo nu do dia,
que mergulha os pés velozes em águas transparentes.

Deixai-me então, vagas preocupações de ontem,
abandonar meu lento vestuário sem música,
qual uma árvore que depõe o seu luto rumoroso,
seu pálido adeus à tristeza,
para exalar feliz suas folhas verdes, suas campânulas azuis
e essa espuma feliz que se encapela em sua copa
quando pela primeira vez a invade a ridente Primavera.

Depois do amor, da felicidade activa do amor, repousado,
deitado, imitando descuidadamente um regato,
reflicto em mim as nuvens, os pássaros, as futuras estrelas,
a teu lado, oh recente, oh viva, oh entregada;
e olho-me em teu corpo, em tua forma branda, dulcíssima, apagada,
como se contempla a tarde que transbordante termina.

Tradução do poema de José Bento

Segue-se o original em castelhano.

Plenitud del amor

Qué fresco y nuevo encanto,
qué dulce perfil rubio emerge
de la tarde sin nieblas?
Cuando creí que la esperanza, la ilusión, la vida,
derivaba hacia oriente
en triste y vana busca del placer.
Cuando yo había visto bogar por los cielos
imágenes sonrientes, dulces corazones cansados,
espinas que atravesaban bellos labios,
y un humo casi doliente
donde palabras amantes se deshacían como el aliento
del amor sin destino…
Apareciste tú, ligera como el árbol,
como la brisa cálida que un oleaje envía del mediodía, envuelta
en las sales febriles, como en las frescas aguas del azul.

Un árbol joven, sobre un limitado horizonte,
horizonte tangible para besos amantes;
un árbol nuevo y verde que melodiosamente mueve sus hojas altaneras
alabando la dicha de su viento en los brazos.

Un pecho alegre, un corazón sencillo como la pleamar remota
que hereda sangre, espuma, de otras regiones vivas.
Un oleaje lúcido bajo el gran sol abierto,
desplegando las plumas de una mar inspirada;
plumas, aves, espumas, mares verdes o cálidas:
todo el mensaje vivo de un pecho rumoroso.

Yo sé que tu perfil sobre el azul tierno del crepúsculo entero
no finge vaga nube que un ensueño ha creado.
¡Qué dura frente dulce, qué piedra hermosa y viva,
encendida de besos bajo el sol melodioso,
es tu frente besada por unos labios libres,
rama joven bellísima que un ocaso arrebata!

¡Ah, la verdad tangible de un cuerpo estremecido
entre los brazos vivos de tu amante furioso,
que besa vivos labios, blancos dientes, ardores
y un cuello como un agua cálidamente alerta!

Por un torso desnudo tibios hilillos ruedan.
¡Qué gran risa de lluvia sobre tu pecho ardiente!
¡Qué fresco vientre terso, donde su curva oculta
leve musgo de sombra rumoroso de peces!

Muslos de tierra, barcas donde bogar un día
por el músico mar del amor enturbiado,
donde escapar libérrimos rumbo a los cielos altos
en que la espuma nace de dos cuerpos volantes.

¡Ah, maravilla lúcida de tu cuerpo cantando,
destellando de besos sobre tu piel despierta:
bóveda centelleante, nocturnamente hermosa,
que humedece mi pecho de estrellas o de espumas!

Lejos ya la agonía, la soledad gimiente,
las torpes aves bajas que gravemente rozaron mi frente
en los oscuros días del dolor.
Lejos los mares ocultos que enviaban sus aguas,
pesadas, gruesas, lentas, bajo la extinguida zona de la luz.

Ahora vuelto a tu claridad no es difícil
reconocer a los pájaros matinales que pían,
ni percibir en las mejillas los impalpables velos de la aurora,
como es posible sobre los suaves pliegues de la tierra
divisar el duro, vivo, generoso desnudo del día,
que hunde sus pies ligeros en unas aguas transparentes.

Dejadme entonces, vagas preocupaciones de ayer.
abandonar mis lentos trajes sin música,
como un árbol que depone su luto rumoroso.
su mate adiós a la tristeza,
para exhalar feliz sus hojas verdes, sus azules campánulas
y esa gozosa espuma que cabrillea en su copa
cuando por primera vez le invade la riente primavera.

Después del amor, de la felicidad activa del amor, reposado,
tendido, imitando descuidadamente un arroyo,
yo reflejo las nubes, los pájaros, las futuras, estrellas,
a tu lado, oh reciente, oh viva, oh entregada;
y me miro en tu cuerpo, en tu forma blanda, dulcísima, apagada,
como se contempla la tarde que colmadamente termina.

Noticia bibliográfica

A tradução do poema, de José Bento, integra a Antologia de Vicente Aleixandre, Porto, Editorial Inova s/d (1977/78)

Para a obra poética de Vicente Aleixandre, a edição da editora Visor Libros de Madrid, Poesías Completas, preparada por Alexandre Duque Amusgo, é sem preço e companhia para a vida. A 2ªedição publicada em 2005, inclui um novo livro póstumo e poemas dispersos até aí inéditos.

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Amamentar – Pintura de Mary Cassatt

17 Quarta-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas

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Bernardino LUINI, Mary Cassatt

Mary Cassatt 03

No gesto de amamentar consubstancia-se, provavelmente, o que de mais íntimo conhece a ligação mãe-filho. Estranho que sou a esta ligação física, é apenas com uma visão exterior que dela falo. O indizível desta relação salta-me ao olhar vendo algumas pinturas de Mary Cassatt (1844-1926), onde o aleitamento se retrata.

Há nestas mães um misto de perplexidade e prazer ao olhar aquele “para lá de si” que de alguma forma ilumina o mistério da ligação mãe-filho, e da abnegação que tantos e tantos relatos nos dão conta.

Mary Cassatt 04

Mary Cassatt maternidade 1890

A liturgia católica conserva e transmite esta perene ligação da mãe ao filho através do Stabat Mater, relato-poema da dor de perder um filho, ainda que Deus feito homem, e que aqui deixei na passada Sexta-Feira da Paixão.

Artigo com o texto do poema Stabat Mater

Para Maria, como para qualquer mãe, o seu filho é, até ao fim, o seu menino.

Termino com esta representação imaginada na renascença italiana, de Maria a amamentar, da autoria de Bernardino LUINI (1480-1522), seguidor de Leonardo da Vinci.

Bernardino LUINI - Maria a amamentar c 1520

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Nos 120 anos do nascimento de Almada Negreiros

14 Domingo Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Almada negreiros

Auto-retrato

Entre documento e memória se tem feito a evocação da poesia de Almada Negreiros (1893-1970) aqui no blog.

No momento em que a atenção mediática, e com ela a dos leitores, se volta para a obra do genial mestre, encurto caminho aos interessados em ler o que por aqui há.

Desde logo um documento sonoro histórico: a leitura pelo próprio do Manifesto Anti-Dantas, acrescentado da revelação dos pormenores em torno da sua criação e edição.

almada-negreiros – manifesto anti-dantas lido pelo poeta

Depois, uma pagina de memória pessoal onde a sua presença se cruza.

Mulher sentada

Entre Almada Negreiros e Bicesse – Memória de Carnaval

Encontra-se também a associação entre o mestre e o génio de Camões, no tom brincado que é às vezes o seu, onde nos conta a aventura de Camões e da poesia em Portugal no poema LUÍS, O POETA SALVA A NADO O POEMA.

Luis de CamõesHomenagem de Almada Negreiros a Camões

De cada vez que a vida me leva à estação do Metro do Saldanha, em Lisboa, decorada com obras e frases de Almada Negreiros, paro sempre a pensar numa frase, escrita na parede, e na sua justeza sobre o que fazemos com o tempo, a única coisa que na verdade, nesta vida nos pertence, a qual abre o texto poético, A invenção do Dia Claro, e pode ser lida aqui.

Pausa

Fragmento de A Invenção do Dia Claro

É de novo sobre o tempo e o que com ele fazemos, a reflexão entre o serio e o irónico onde um cheiro de Pessoa surge, que nos traz este Momento de Poesia, com que termino.

Momento de Poesia

Se me ponho a trabalhar
e escrevo ou desenho,
logo me sinto tão atrasado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar pra diante o tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que cansado me julgo satisfeito;
e o efeito da fadiga
é muito igual à ilusão da satisfação!
Em troca, se vou passear por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que é fora de mim,
dou conselhos tão bíblicos aos aflitos
de uma aflição que não é minha,
dou-me tão perfeitamente conta do que
se passa fora das minhas muralhas
como sou cego ao ler-me ao espelho,
que, sinceramente não sei qual
seja melhor,
se estar sozinho em casa a dar à manivela do mundo,
se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu.

Escrito em 14 de Dezembro de 1941.

A Sesta

As imagens que acompanham este artigo são variações digitais sobre a obra do Mestre.

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Beijos mil – o poema V de Catulo

03 Quarta-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Catulo, Klimt, Rodin

Rodin - O beijo - terracota

Permanece no imaginário de quem o leu como forma superior de dizer do amor e da sua paixão o Carme V de Catulo (Gaius Valerius Catullus, 87 ou 84 a.C. – 57 ou 54 a.C.), ad Lesbiam.

O eterno do desejo e a sua urgência ganha forma poética neste acontecer de beijos dados e desejados, sucedendo-se pela vida e para além dela.

Objecto de variadas traduções ao longo dos tempos, encontrou na recente tradução de José Pedro Moreira e André Simões um comovedor equilíbrio entre fidelidade textual e poesia.

Vivamos, Lésbia minha, e amemos.
A má-língua dos velhos mais sisudos
para nós não valha mais do que um tostão.
Podem os dias morrer e nascer:
quando a breve luz de vez morrer
noite perpétua devemos juntos dormir.
Dá-me beijos mil, e depois cem,
e depois mil outros, e depois mais cem,
e depois ainda mais mil, e depois cem.
Depois, quando muitos dermos,
baralhá-los-emos para não sabermos quantos,
ou não possa homem mau invejar-nos
ao saber que quantos beijos demos.

Antes desta versão, dera-nos Jorge de Sena a leitura com que por décadas vivemos o poema:

Vivamos, minha Lésbia, e nos amemos.
Sem que o que digam murmurantes velhos
Importe para nós mais que uma palha.
Podem morrer e renascer os sóis.
A nós, quando se apaga a breve luz,
Noite é perpétua que dormir havemos.
Oh dá-me beijos mil, depois um cento,
Depois mais outros mil, e um outro cento,
Depois ainda outros mil, e mais um cento.
Depois, quando os milhares forem já muitos,
Erraremos a conta, a não saibamos,
Para que a inveja não nos leve a mal,
Sabendo quanto foi de beijos dado.

Também Maria Helena da Rocha Pereira, com a probidade da sua oficina, o traduziu:

Vivamos, minha Lésbia, e amemos,
e os murmúrios ds velhos mais severos
dêmos-lhes a todos o valor de um cêntimo!
Os sóis podem extinguir-se e voltar:
mas nós, uma vez que se extingue a breve luz do dia,
temos de dormir uma só noite, para sempre.
Dá-me mil beijos, depois um cento,
e mais mil, depois outro cento,
depois outros mil, e mais cem.
Em seguida, quando juntarmos muitos milhares,
misturamo-los, para que não saibamos
ou nenhum malvado possa invejar-nos,
quando souber que tantos foram os beijos.

Termino com o original latino do poema.

V. ad Lesbiam

VIVAMUS mea Lesbia, atque amemus,

rumoresque senum seueriorum

omnes unius aestimemus assis!

soles occidere et redire possunt:

nobis cum semel occidit breuis lux,

nox est perpetua una dormienda.

da mi basia mille, deinde centum,

dein mille altera, dein secunda centum,

deinde usque altera mille, deinde centum.

dein, cum milia multa fecerimus,

conturbabimus illa, ne sciamus,

aut ne quis malus inuidere possit,

cum tantum sciat esse basiorum.

Klimt_Gustav-The_Kiss

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No 1º de Abril, uma noticia sensacional!

01 Segunda-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas

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Fra Carnevale

A cidade ideal - possivelmente de Fra Carnevale (1425–1484)

Tive noticia que um investidor, entusiasmado com o sucesso deste blog, decidiu abrir um gigantesco centro livreiro onde se propõe reunir, editar, e por à venda, toda a poesia alguma vez criada pela humanidade.

A ideia de marketing é a de que, cada vez mais, as pessoas querem poesia nas suas vidas. O slogan de lançamento será:

Viva a vida com poesia

A cidade escolhida para a instalação de tão fabuloso centro comercial foi Lisboa, por um lado conhecida por abrigar os maiores centros comerciais de qualquer tipo na Europa, e por outro, pelo facto de todos os dias os leitores de poesia surgirem na cidade nascidos das pedras da calçada.

Para que o resto do mundo não fique fora desta iniciativa, será construído um portal para venda mundial on-line de todas estas publicações.

Está em estudo o projecto de arquitectura para o centro, e ele será decalcado de uma das cidades ideais de pintor anónimo (talvez Fra Carnevale 1425-1484) de que vos mostro a abrir e a fechar, reproduções.

A localização está a ser discutida com a Câmara Municipal e, parece certo, será anunciada na abertura da campanha eleitoral que se avizinha.

Esfreguem as mãos, leitores, a poesia vai invadir-vos a vida.

A cidade ideal - Città_ideale_di_berlino_2

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As Pietá de Michelangelo e o poema Stabat Mater

29 Sexta-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Michelangelo

Michelangelo-Pietá do Vaticano detalhe da Virgem

Em Sexta-feira da Paixão trago-vos as Pietá de Michelangelo (1475-1564)

São esculturas em que a dor viva quase faz sangrar a pedra, seja na perfeição plástica de Maria (em cima) e do Cristo (a seguir) da escultura da Basílica do Vaticano (hoje mutilada no nariz de Maria e que ainda tive a felicidade de contemplar intacta e sem vidro de protecção),

Michelangelo-Pietá do Vaticano detalhe do Cristo

Michelangelo-Pietá do Vaticano

seja na rugosidade áspera do sofrimento nas Pietá de Florença,

Michelangelo-Pietá Galeria dell'Academia

Michelangelo-Pietá Museo dell'Opera del Duomo, Florence

ou no inacabado da Pietá de Milão.

Michelangelo-Pietà Rondanini inacabada

Dá conta deste sofrimento o poema medieval Stabat Mater que aqui arquivo no original em latim e na tradução oficial da Igreja Católica.

Stabat Mater

1 Stabat Mater dolorosa iuxta crucem lacrimosa dum pendebat Filius

  De pé, a mãe dolorosa junto da cruz, lacrimosa, via o filho que pendia

2 Cuius animam gementem contristatam et dolentem pertransivit gladius

  Na sua alma agoniada enterrou-se a dura espada de uma antiga profecia

3 O quam tristis et afflicta fuit illa benedicta Mater Unigeniti

  Oh! Quão triste e quão aflita entre todas, Mãe bendita, que só tinha aquele Filho

4 Quae moerebat et dolebat et tremebat cum videbat nati poenas inclyti

  Quae moerebat et dolebat Pia Mater dum videbat nati poenas inclyti

  Quanta angústia não sentia, Mãe piedosa quando via as penas do Filho seu!

5 Quis est homo qui non fleret Matri Christi si videret in tanto supplicio?

  Quem não chora vendo isso: contemplando a Mãe de Cristo num suplício tão enorme?

6 Quis non posset contristari Matrem Christi contemplari dolentum cum filio?

  Quem haverá que resista se a Mãe assim se contrista padecendo com seu Filho?

7 Pro peccatis suae gentis vidit Iesum in tormentis et flagellis subditum

  Por culpa de sua gente Vira Jesus inocente Ao flagelo submetido

8 Vidit suum dulcem natum moriendo desolatum dum emisit spiritum

  Vê agora o seu amado pelo Pai abandonado, entregando seu espírito

9 Eia Mater, fons amoris, me sentire vim doloris fac ut tecum lugeam

  Faze, ó Mãe, fonte de amor que eu sinta o espinho da dor para contigo chorar

10 Fac ut ardeat cor meum in amando Christum Deum ut sibi complaceam

  Faze arder meu coração do Cristo Deus na paixão para que o possa agradar

11 Sancta Mater, istud agas crucifixi fige plagas cordi meo valide

  Ó Santa Mãe dá-me isto, trazer as chagas de Cristo gravadas no coração.

12 Tui nati vulnerati tam dignati pro me pati poenas mecum divide

  Do teu filho que por mim entrega-se a morte assim, divide as penas comigo.

13 Fac me vere tecum flere crucifixo condolere donec ego vixero

    Fac me tecum pie flere crucifixo condolere donec ego vixero

  Oh! Dá-me enquanto viver com Cristo compadecer chorando sempre contigo.

14 Iuxta crucem tecum stare te libenter sociare in planctu desidero

     Iuxta crucem tecum stare et me tibi sociare in planctu desidero

  Junto à cruz eu quero estar quero o meu pranto juntar Às lágrimas que derramas

15 Virgo virginum praeclara mihi iam non sis amara fac me tecum plangere

  Virgem, que às virgens aclara, não sejas comigo avara dá-me contigo chorar.

16 Fac ut portem Christi mortem passionis eius sortem et plagas recolere

      Fac ut portem Christi mortem passionis fac consortem et plagas recolere

  Traga em mim do Cristo a morte, da Paixão seja consorte, suas chagas celebrando.

17 Fac me plagis vulnerari cruce hac inebriari ob amorem filii

     Fac me plagis vulnerari fac me cruce inebriari et cruore filii

  Por elas seja eu rasgado, pela cruz inebriado, pelo sangue de teu Filho!

18 Inflammatus et accensus, per te, Virgo, sim defensus in die iudicii

    Flammis ne urar succensus, per te, Virgo, sim defensus in die iudicii

    Flammis orci ne succendar, per te, Virgo, fac, defendar in die iudicii

  No Julgamento consegue que às chamas não seja entregue quem por ti é defendido

19 Fac me cruce custodiri morte Christi praemuniri confoveri gratia      Christe cum sit hinc (iam) exire da per matrem me venire ad palmam vicoriae

  Quando do mundo eu partir daí-me ó Cristo conseguir, por vossa Mãe a vitória

20 Quando corpus morietur fac ut animae donetur paradisi gloria. Amen

  Quando meu corpo morrer possa a alma merecer do Reino Celeste a glória. Amém.

O poema foi objecto e inspiração musical de algumas obras-primas no século XVIII, sobretudo, e a minha preferência vai, inteira, pela espiritualidade que se desprende da música, para a composição de Joseph Haydn.

Aqui fica a sugestão de audição.

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Floralia de Klimt à entrada da Primavera

21 Quinta-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Gustav Klimt

Klimt_Gustav-Country_Garden_with_Sunflowers

Assinalemos a chegada da Primavera ao hemisfério norte com algumas pinturas de Gustav Klimt (1862-1918) onde a presença de flores, fascínio e ornamento da natureza, domina.

Foi com uma surpresa deslumbrada que em certa visita a Viena descobri esta outra pintura de Klimt, até aí, para mim, pintor de figuras longilineas envoltas em mantos feéricos, surgindo como estereótipo de uma certa ideia de Arte Nova de que o quadro O Beijo será, talvez, o mais famoso ícone.

Contrariamente às pinturas alegóricas, carregadas de uma presença simbólica, as pinturas de paisagens são obras em que apenas uma atmosfera se sente, e convidam-nos tão só a uma atitude contemplativa, desligada de reflexões estéticas ou filosóficas.

Os temas de paisagem são parte importante da obra do artista, cerca de um quarto do que deixou, e são, de certa forma, o contraponto de oficio à reflexão do significado da arte na vida, que a sua restante pintura convida a meditar.

Captando a natureza no seu indiferente renascer e fluir, ao olhar estas pinturas somos levados a fruir tão só essa continuidade temporal, que de alguma maneira sabemos, acontecerá nos dias que se avizinham.

Feito o intróito, é tempo de a anunciada viagem pictórica acontecer.

Klimt_Gustav-Farmhouse_in_Upper_Austria

Klimt_Gustav-Water_Castle

Klimt_Gustav-Poppy_Field

Klimt_Gustav-Park

Klimt_Gustav-Unterach_am_Attersee

Klimt_Gustav-Houses_at_Unterach_on_the_Attersee

Klimt_Gustav-Flowering_Field

Klimt_Gustav-Beech_Grove_I

Klimt_Gustav-Schloss_Kammer_on_the_Attersee

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Alberto Caeiro – Poema VIII de O Guardador de Rebanhos no Dia do Pai

19 Terça-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Cânone XXI, Convite à arte, Poetas e Poemas

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Alberto Caeiro, Fernando Pessoa, Louis Gallait

louis Gallait 1848

Somos filhos antes de sermos pais. Em cada idade sentimos o Dia do Pai de forma adaptada ao percurso por onde a vida nos levou.

Depois que somos pais, somos também filhos de maneira diferente. Mas por mais adultos e suficientes que sejamos, só a perda do Pai nos faz sentir como a partir daí estamos na vida por nossa conta. É essa referência que nos moldou ao crescer, que nos acompanha pela vida e nos faz desejar assinalar de forma especial a passagem do Dia do Pai, diferente do seu ou do nosso aniversário.

Uma vez pais, cada filho é sempre uma espécie do nosso Menino Jesus. Foi sentindo isso que escolhi assinalar este Dia do Pai com a transcrição do poema VIII de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro, o heterónimo de Fernando Pessoa, que termina precisamente com esta identificação:

Esta é a história do meu Menino Jesus. / Por que razão que se perceba /Não há de ser ela mais verdadeira / Que tudo quanto os filósofos pensam /E tudo quanto as religiões ensinam?

O poeta diz num verso lapidar como cada filho vive em nós e nos integra:

…

Ele dorme dentro da minha alma

…

A irreverência, por vezes chocante para católicos, que numa leitura superficial do poema a espaços surge, como por exemplo neste fragmento:

…

Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito-Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fêz que ninguém soubesse que êle tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modêlo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

ganha a dimensão da liberdade de pensar e faz sentir a complexidade dos sentimentos que nos atravessam perante a força avassaladora da fé, na sua negação do irracional. Irracional que está sempre presente no amor com que banhamos os nossos filhos desde o dia em que nascem até que deles nos despedimos, talvez com o desejo secreto que o poeta desvela:

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

Deixo-o, leitor, com o poema.

Para quem o conhece, fica o prazer do reencontro. Para quem o lê pela primeira vez, no final será, eventualmente, outra pessoa.

VIII

Num meio-dia de fim de primavera

Tive um sonho como uma fotografia.            

Vi Jesus Cristo descer à terra.

           

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

           

Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacôrdo

Com flores e árvores e pedras.

No céu tinha que estar sempre sério

E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer

Com uma côroa tôda à roda de espinhos

E os pés espetados por um prego com cabeça,

E até com um trapo à roda da cintura

Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe

Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas –

Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dêle;

E o outro pai era uma pomba estúpida,

A única pomba feia do mundo

Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala

Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que êle, que só nascera da mãe,

E nunca tivera pai para amar com respeito,

Pregasse a bondade e a justiça!

           

Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito-Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fêz que ninguém soubesse que êle tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modêlo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas pôças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedras aos burros,

Rouba a fruta dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

E, porque sabe que elas não gostam

E que tôda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.

           

A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me tôdas as coisas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.

           

Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente,

Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.

A Virgem-Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.

E o Espírito-Santo coça-se com o bico

E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada

Das coisas que criou –

«Se é êle que as criou, do que duvido» -.

«Êle diz, por exemplo, que os sêres cantam a sua glória,

Mas os sêres não cantam nada.

Se cantassem seriam cantores.

Os seres existem e mais nada,

E por isso se chamam sêres».

E depois, cansado de dizer mal de Deus,

O Menino Jesus adormece nos meus braços

E eu levo-o ao cólo para casa.

           

…………………………………………………………

           

Êle mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Êle é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Êle é o humano que é natural,

Êle é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com tôda a certeza

Que êle é o Menino Jesus verdadeiro.

           

E a criança tão humana que é divina

É esta minha quotidiana vida de poeta,

E é porque êle anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,

E que o meu mínimo olhar

Me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que fôr,

Parece falar comigo.

           

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segrêdo comum

Que é o de saber por tôda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.

           

A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que êle me faz, brincando, nas orelhas.

           

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos e dois

Com um acôrdo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.

           

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas

No degrau da porta de casa,

Graves como convém a um deus e a um poeta,

E como se cada pedra

Fôsse todo um universo

E fôsse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.

           

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível.

Ri dos reis e dos que não são reis,

E tem pena de ouvir falar das guerras,

E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos mares.

Porque êle sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer

E que anda com a luz do sol

A variar os montes e os vales

E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

           

Depois êle adormece e eu deito-o.

Levo-o ao colo para dentro de casa

E deito-o, despindo-o lentamente

E como seguindo um ritual muito limpo

E todo materno até êle estar nu.

           

Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos.

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sòzinho

Sorrindo para o meu sono.

           

……………………………………………..

       

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

           

……………………………………………………

           

Esta é a história do meu Menino Jesus.

Por que razão que se perceba

Não há de ser ela mais verdadeira

Que tudo quanto os filósofos pensam

E tudo quanto as religiões ensinam?

A transcrição ortográfica segue o texto fixado por Teresa Sobral Cunha na sua edição dos Poemas Completos de Alberto Careiro, Editorial Presença, Lisboa, 1994.

A pintura que abre o artigo é do belga Louis Gallait pintada presumivelmente em 1848.

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