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Munch_Edvard-Self-portrait_with_Bottle_of_WineCom o verso A memória de um homem está nos seus beijos, abre Vicente Aleixandre (1898-1984) o seu poema Aquele que faz vive, do livro Poemas da consumação (1968).

Verso síntese de muitos dos seus poemas ao longo de décadas, é a seu pretexto que escolho o poema com que me despeço desta visita prolongada, no blog, à sua poesia.

Chove, o poema escolhido, encontra-se no mesmo livro, e afortunadamente possuímos em português uma sua tradução completa da autoria de Armando Silva Carvalho, poeta maior da nossa língua.

É dele que transcrevo a primeira tradução.

Chove

Nesta tarde chove, e chove pura
a tua imagem. E o dia abre-se na minha memória.
Entraste.
Não oiço. A memória dá-me apenas a tua imagem.
Só o teu beijo ou chuva cai na memória.
A tua voz chove, e chove o beijo triste,
o beijo fundo,
beijo molhado em chuva. O lábio é húmido.
Húmido de memória o beijo chora
de uns céus cinzentos
delicados.
Chove o teu amor molhando a minha memória
e cai e cai. O beijo
ao fundo cai. E cinzenta também
vai caindo a chuva.

Anterior é a tradução do também poeta José Bento que a seguir se lerá.

Chove

Nesta tarde chove, e chove pura
tua imagem. Na minha recordação abre-se o dia. Entraste.
Não oiço. A memória dá-me só a tua imagem.
Só o teu beijo ou chuva cai em recordação.
Chove a tua voz, e chove o beijo triste,
o fundo beijo,
beijo molhado em chuva. O lábio é húmido.
Húmido de recordação o beijo chora
nuns céus cinzentos
delicados.
Chove o teu amor, molha a minha memória
e cai e cai. O beijo
cai ao fundo. E cinzenta ainda cai
a chuva.

Mais uma vez, a superior capacidade poética de José Bento para traduzir do castelhano salta à vista. Em mínimos arranjos do verso e cirúrgicas opções de construção frásica, temos um poema mais fluente em português, onde a musicalidade é uma constante. Apenas no penúltimo verso teria preferido também, opção de Armando Silva Carvalho, ao ainda, escolhido por José Bento.

Termino com o original em castelhano.

LLUEVE

En esta tarde llueve, y llueve pura
tu imagen. En mi recuerdo el día se abre. Entraste.
No oigo. La memoria me da tu imagen solo.
Solo tu beso o lluvia cae en recuerdo.
Llueve tu voz, y llueve el beso triste,
el beso hondo,
beso mojado en lluvia. El labio es húmedo.
Húmedo de recuerdo el beso llora
desde unos cielos grises
delicados.
Llueve tu amor mojando mi memoria,
y cae y cae. El beso
al hondo cae. Y gris aún cae
la lluvia.

Notícia bibliográfica

A tradução do livro Poemas da consumação, em edição conjunta com o livro Diálogos do conhecimento, ambas de Armando Silva Carvalho, foram editadas por Líber, Publicidade Portugal e Brasil, Lda, Lisboa, 1979.

A versão de José Bento consta da sua Antologia de Vicente Aleixandre, já noutro artigo mencionada, tal como a edição de Poesías Completas de Vicente Aleixandre, e pode ser seguido aqui.

Plenitude do amor – poema de Vicente Aleixandre

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