Merda! Sou lúcido. – Coitado do Álvaro de Campos!

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Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa

Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,

Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;

E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha

(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:

Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,

E romantismo, sim, mas devagar…)


Sinto uma simpatia por essa gente toda,

Sobretudo quando não merece simpatia.

Sim, eu sou também vadio e pedinte,

E sou-o também por minha culpa.

Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:

É estar ao lado da escala social,

É não ser adaptável ás normas da vida,

Às normas reais ou sentimentais da vida –

Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,

Não ser pobre a valer, operário explorado,

Não ser doente de uma doença incurável,

Não ser sedento de justiça ou capitão de cavalaria,

Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas

Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,

E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.


Não: tudo menos ter razão!

Tudo menos importar-me com a humanidade!

Tudo menos ceder ao humanitarismo!

De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?


Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,

Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:

É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,

É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.


Tudo mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.

Tudo mais é ter fome e não ter que vestir.

E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente

Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,

E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.


Coitado do Álvaro de Campos!

Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!

Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!

Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,

Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,

Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele

Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.


Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!

Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!


E, sim, coitado dele!

Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,

Que são pedintes e pedem,

Porque a alma humana é um abismo.


Eu é que sei. Coitado dele!


Que bom poder-me revoltar num comicio dentro da minha alma!

Mas até nem parvo sou!

Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.

Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.


Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.

Já disse: sou lúcido.

Nada de estéticas com coração: sou lúcido.

Merda! Sou lúcido.


Nos vinte anos, quando cheguei à poesia de Álvaro de Campos nas velhinhas edições da Ática, este foi dos poemas que marcou de forma indelével a minha relação com a poesia de Fernando Pessoa.

Confrontado com pedintes na rua, vejo-me e revejo-me no gesto largo, liberal e moscovita de dar Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele /Pobre.

Este poema é um antídoto quando começo a contemplar-me e a ter pena de mim, Porque a alma humana é um abismo, e me sinto Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações! / Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!

Chego ao fim do poema, e a força da exclamação Merda! Sou lúcido. desperta-me e devolve-me à realidade.


Tavira num poema de 1854

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Esquecido nas páginas de O BARDO, entre um poema de Soares de Passos e outro de Camilo Castello-Branco, encontrei este poema, recordação da minha Tavira natal e escrito no dia de S. João de 1854.

O dia de S. João.

Saudades da minha terra

Les beaux jours du printemps ont passé comme un jour,
Et ces beaux jours pour moi sont perdu sans retour.
Michaud – Regrets du Proscrit.

Quem dos céus da minha terra / Não viu o límpido azul,

Quem da sua verde serra / Não viu nunca as rasteirinhas

Áureas, argenteas florinhas / Sorrindo à brisa do sul;

 

Quem em noites d’alma lua / Lá junto à beira do rio,

Quando no rio flutua / Da lua o clarão saudoso,

Não viu quedo e silencioso / De mágoa o peito vazio;

 

Quem o crepúsculo vago / Não viu ali uma vez

A debuxar-se num lago, / Como em face de donzela

Se retrata a imagem bela / Da mais pura candidez;

 

Quem jamais ouviu do sino / Do mosteiro d’Atalaia

Aquele som peregrino, / Que na quebrada dos dias

Tocando ás Ave-Marias / No espaço em ondas se espraia;

 

E quem jamais o perfume / Daqueles campos sentiu,

Onde brotam em cardume / Singelas, frescas boninas,

Quais assim noutras campinas / Vista d’homem nunca viu;

 

Oh! Não sabe o que é um riso / Reflectido lá no céu

Na face de um paraíso / Que entre serra e mar se estreita;

Nem jamais viu tão perfeita / A natureza sem véu!

 

Na minha terra um só dia, / Ai, dá tanta e tanta luz,

Que n’alma brota a poesia, / Quando da serra na encosta

Do sol a imagem se arrosta, / Ou quando no mar transluz.

 

Cada folha que ali brota, / Cada conchinha do mar

São de poesia uma nota; / E a natureza mais rude

Canta-a em seu alaúde / O poeta que sabe amar.

 

E eu canto assim tão magoado, / Dando de mágoa um sinal,

Porque este dia saudado / Nas aldeias e cidades

Veio avivar-me as saudades / Do meu ninho paternal.

 

Lembram-me as galas formosas / D’este dia tão gentil,

Cuja aurora toda rosas / Passava beijando as flores,

Qual fresca manhã de Abril.

 

Neste dia eu via o povo / Mágoas suas a espalhar;

Mas hoje só diz de novo / À triste lembrança minha

O quanto passou asinha / A quadra do meu folgar!

 

Que saudades que eu não tenho / Da vida que então vivi!

Hoje lembro-me do lenho / Em que eu ia rio avante

Junto à serra verdejante / Dessa terra em que nasci.

 

Hoje cresce-me a saudade / Das águas do meu Gilão;

Lembra-me aquela cidade / Com seus brincs populares,

E lembram-me os meus folgares, / Folgares que já não são.

 

Lembram-me aquelas lareiras / Onde de verde alecrim

Ardiam vastas fogueiras / Entre dois mastros erguidos,

De murta e flores vestidos, / Quais outros não vi assim.

 

Lembram-me as belas folias / Daquelas terras de além,

Que nestes e noutros dias / Ali o povo engendrava,

E tudo que então amava / Lembra-me agora também.

 

Que tempo! Que tempo aquele / Que tão rápido passou!

Hoje mais não tenho dele / Do que uma grata lembrança

Pois que apagada é a esperança / Que desde então me ficou!…

 

Oh! Quem inda fora um dia / Ver meus lindos laranjais,

Onde ás tardes triste eu ia / Por sobre verdes folhagens

Da ribeira junto ás margens / Deslaçar meus tristes ais!

 

Quem pudera, oh! Quem pudera / Ir lá ver o adeus do sol

Nas tardes de primavera, / E ouvir gorgeios suaves

Daquelas tão lindas aves, / E os cantos do rouxinol!

 

Oh! Minha formosa terra, / Quem dentre os encantos teus

Lá da tua verde serra / As flores vira medrando,

E à luz da lua alvejando, / Quais as vejo em sonhos meus!

 

Ai que saudade tão bela / É esta que a pátria dá!

Eu que sei tão bem sofrê-la, / Posso dizer sem vaidade

Que igual a esta saudade / Outra saudade não há!

 

Dá-me, oh dia prazenteiro, / Um raio do teu fulgor,

Que ser possa mensageiro / De saudosos pensamentos,

E que os leve em meus lamentos / Ao berço do meu amor!

Lisboa 1854 – Junho 24.

De seu nome completo, Sebastião Philippes Martins Estácio da Veiga (1828-1891), nascido em Tavira e hoje esquecido enquanto poeta, foi um notabilíssimo arqueólogo, cuja biografia vale a pena ler na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

Poema de um moço de 25 anos, espanta a tristeza nostálgica com que recorda os tempos de adolescência vividos na cidade.

Ler este poema levou-me nos braços das minhas próprias recordações, sobretudo as aventuras de descoberta daquela natureza esplendente de luz, e inebriante na gama do seu colorido feérico que vai dos azuis do mar e céu, ao longe, aos verdes e ocres da serra afastada, e sobretudo deslumbra, no branco do casario, estonteante até doer, em tardes de sol em fogo.

Foi um tempo vivido na saída da infância, em que quase nada teria mudado no pouco mais de um século decorrido desde a adolescência do poeta evocada no poema.

Haveria de novo o comboio, construído já na segunda metade do século XIX e inaugurado no alvor do séc. XX, e aquela assustadora ponte ferroviária, desafiadora e inacessível para os olhos de uma criança.


Esta ponte foi cenário de peripécias de alto risco, em que um grupo de jovens adolescentes, ou nem isso, se media nos feitos de coragem de a atravessar sob os carris, devassando a estrutura metálica e fruindo a vista em redor quando chegados ao meio da ponte sobre o rio, ufanos da proeza.

Do S. João, pretexto do poema, são primeiro os cheiros que me vêm à memória, alecrim e murta, como bem refere o poeta. Das fogueiras de alecrim vividas ainda na minha adolescência e provavelmente pouco diferentes das que o poeta recorda, falarei talvez noutra ocasião.

Do poeta, a Câmara Municipal de Tavira em conjunto com Edições Colibri, propôs-se há anos publicar 3 volumes de poesias inéditas. Conheço apenas o primeiro volume com poemas dos 20 anos, ingénuos e de parco interesse poético, sendo a edição pouco cuidada, e em que felizmente a introdução dá um pouco a conhecer a vida e obra do homem. Chama-se adequadamente “POESIAS (ou banalidades poéticas). Não sei se os restantes volumes previstos viram edição em livro.

Tendo nos tempos de estudante publicado de forma dispersa, por publicações periódicas alguns poemas, apenas reuniu em livro “Romanceiro do Algarve“, publicado em 1870, na linha do Romanceiro editado por Garrett. É uma recolha de romances populares retocados pelo poeta para a edição, tendo o manuscrito com as versões originais sido encontrado há poucos anos no arquivo do Museu Arqueológico de Lisboa, cujo espólio inicial foi reunido por Estácio da Veiga.

 

A fermosa Lianor

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Ainda recentemente, em conversa sobre a poesia aprendida na escola e que acompanha tantos de nós pela vida fora, se discutia a autoria do poema  “Descalça vai para a fonte / Lianor pela verdura / …”. A memória já não é o que era, e uns, que a poesia era de Luís de Camões, outros que era de Rodrigues Lobo.

A discussão ficou em aberto.

Chegado a casa, tirei-me de cuidados e fui à procura. Aqui deixo a solução da controvérsia que ficou por resolver.  Ambos os partidos tinham razão.

 

Descalça vai para a fonte

Lianor pela verdura;

Vai fermosa e não segura.

é o mote de autoria desconhecida que tanto Camões como Rodrigues Lobo glosaram, ambos em metro de redondilha maior e com resultado de igual mérito.

Tem nelas a poesia portuguesa duas obras-primas, em minha modesta opinião.

Ei-las:

Luís de Camões

Mote

Descalça vai para a fonte

Lianor pela verdura;

Vai fermosa e não segura.


Voltas

Leva na cabeça o pote,

O testo nas mãos de prata,

Cinta de fina escarlata

Sainho de chamalote:

Traz a vasquinha de cote

Mais branca que a neve pura

Vai fermosa e não segura.


Descobre a touca a garganta,

Cabelos de ouro entrançado,

Fita de cor de encarnado,

Tão linda que o mundo espanta.

Chove nela graça tanta,

Que dá graça à fermosura.

Vai fermosa e não segura.

 

E agora a inspiração de Francisco Rodrigues Lobo

 

Vilancete

Descalça vai para a fonte

Lianor pela verdura;

Vai fermosa e não segura.


A talha leva pedrada,

Pucarinho de feição,

Saia de cor de limão,

Beatilha soqueixada.

Cantando de madrugada

Pisa as flores na verdura

Vai fermosa e não segura.


Leva na mão a rodilha,

Feita da sua toalha;

Com uma sustenta a talha,

Ergue com outra a fraldilha.

Mostra os pés por maravilha

Que a neve deixam escura

Vai fermosa e não segura.


A Venus Nova – Poema de Francisco Palha (1826-1890)

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Não Raquel, não desvario,

Venus, o estilo é antigo,

Os seus dotes repartiu

Bem largamente contigo.


Deu-te esse corpo divino!

Esses seios palpitantes!

Fosse eu inda pequenino

E tu minh’alma! Que instantes!


Por ser branca e por ser loira

Tem o loiro em menos preço;

Por isso te deu da moira

O negro cabelo espesso.


Chega aos olhos… De repente

Vê que não tem na paleta

Cor nenhuma refulgente

Para imitar um planeta.


Corre logo à fonte limpa;

E procedeu com acerto

Que em ócios não se repimpa

Quem se encontra em duro aperto.


“Ó doce noite”, ela exclama,

“tu tens estrelas a esmo,

Duas quero em rubra chama,

Quase sóis; dois sóis. É o mesmo.”


A Noite, que é velha e fina,

E foi sempre a Vénus dada,

Responde: – Minha menina,

Só para a outra fornada.


–“Pois ao forno! E já! Que eu pago!”

A Noite, ouvindo-a, lampeira,

A estrada de Santiago

Deitou logo na caldeira.


Fogo ao lado, e fogo ao centro!

Quando a fervura era vivia

O sete estrelo pr’a dentro!

E folhas de sensitiva!


Ao cabo de poucas horas

Em duas orbitas fundas

Despejou duas auroras

Com qu’est’alma em luz inundas.


Venus pilou de contente;

Mas depois… (que são mulheres!)

Disse à outra em tom plangente:

“Adeus!… O que tu quiseres!…


Fizeste-a fresca! Eu reinava.

Era no Olimpo a mais bela.

Passei de rainha a escrava.

A Venus agora … é ela!”


Francisco Palha (1826-1890), poeta da geração de “O Bardo”, notabilizou-se em vida como homem de teatro. Empresário e director do Teatro D. Maria II, devolveu a este teatro o esplendor que tinha conseguido a seguir à sua fundação por Almeida Garrett. As peripécias da vida teatral num teatro oficial, levaram-no a sair e a construir o Teatro da Trindade que dirigiu até à morte.

Este A Venus Nova, tem o sabor ligeiro de tanta da poesia do “O Bardo”.

Poesia sem preocupações metafisicas ou outras agonias em moda à época, é bem o reflexo de um espirito todo ele virado para o entertenimento e bonomia no viver, e que atravessa a sua poesia.

O poema vem publicado em MUSA VELHA, editado em 1883.

Deste mesmo MUSA VELHA recolho um exemplo de rima despretenciosa para dar a imagem da juventude e da velhice, usando uma forma singela, adequada à inscrição NUM ÁLBUM, instituição tão caracteristica da sociedade burguesa do século XIX.

NUM ÁLBUM

Por essa existência fora

Nosso caminho é diferente.

Eu vou por onde se chora;

Tu por onde canta a gente.

Tu chegas; tu vens agora;

Tu sobes qual sobe a aurora;

Eu, tal qual o sol poente,

Desço… desço!… Vou-me embora.

E em jeito de epitáfio escreve o poeta AS MINHAS MEMÓRIAS dedicado À Exma Sra D.A.F. Pinto

Nasci. Vivi. Foi meu cruel destino

Ser inutil, vulgar, enquanto moço.

De dor em dor, cansado peregrino,

Chego à triste velhice sem conforto.

Nunca pude saber o que era tino,

Como a bolsa não soube o que é caroço.


Quando voltares hei-de ser um morto.


Canção Grata seguido de Ode Pagã – 2 poemas de Carlos Queiroz

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Canção Grata

Por tudo o que me deste:

– Inquietação, cuidado,

(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)

Noites de insónia, pela ruas, como um louco…

– Obrigado, obrigado!

 

Por aquela tão doce e tão breve ilusão,

(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,

Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita

A minha gratidão!

 

Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!

– Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado…

Sem ironia, amor: – Obrigado, obrigado

Por tudo o que me deste!

 

 

Volto amiúde à poesia de Carlos Queirós (1907-1949). Poeta de um requintado lirismo, no quase não-dito dos seus versos encontro o desafio de me pensar, como por exemplo neste espantoso Quase Tudo: “Que pouco-imenso falta à minha vida / para poder sentir que sou poeta!” e conclui “Uma fatal anímica explosão!”.

 

O poema que aqui deixo, Canção Grata, tornado famoso, em tempos, na voz de uma fadista, faz parte daquele grupo que me acompanha como expressão superior da paixão desfeita.

 

Mas não resisto a deixar um outro poema, este agora um hino à vida:

 

Ode Pagã

 

Viver! – O corpo nu, a saltar, a correr,

Numa prais deserta… Ou rolando, na areia,

Rolando, até ao mar… Que importa o que a alma anseia?

– Isto sim, é viver!

 

O paraiso é nosso e está na terra. Nós,

É que temos o olhar velado de incerteza;

E julgamos ouvir a voz da natureza,

Ouvindo a nossa voz.

 

Ilusões! A cultura, o amor, a poesia…

Não igualam, sequer, um dia à beira-mar,

Vivido plenamente, – a sorver, a beijar

O vento e a maresia!

 

Viver, é estar assim: a fronte ao céu erguida,

Os membros livres, as narinas dilatadas;

Com toda a natureza, em espírito, as mãos dadas…

– O resto, não é Vida!

 

Que venha pois, a brisa, e me trespasse a pele,

Para melhor poder compreendê-la e amá-la!

Que a voz do mar me chame e, ouvindo a sua fala,

Eu vá e seja dele!

 

Que o sol penetre bem na minha carne e a deixe

Queimada, para sempre; as ondas, uma a uma,

Rebentem no meu corpo! E eu fique, ébrio de espuma,

Contente como um peixe!

 

Uma brincadeira de João Penha

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Depois da longa ausência regresso com uma brincadeira de João Penha .

 

Tradução

Risonho , disse eu a Inês,

Que num sofá se quebranta:

“Dormi mecum!” – “É francês?”

– “É frase da Biblia santa.”

 

– “Vê-me nervosa e confusa:

Eu nada sei, meu amigo:

Não hesite, vá! Traduza”

– Quer? – “Quero… “– Dorme comigo.

 

– “Oh! Que indecência, que horror!

Dizer-me essa cousa, a mim!

O que lhe vale, senhor,

É ter-ma dito em latim.”

 

Poeta hoje quase esquecido, foi imperador e rei de uma boémia que deixou nome e de que Guerra Junqueiro foi pactário. A sua poesia canta  duas coisas – o vinho e as mulheres.

Foi original. No seu tempo reinava o pieguismo, era-se tísico por amor da bela mas ele nunca carpiu o desgosto de viver.

E prático, forte, soberbo, deu-se a proclamar em verso a única terapeutica apropriada – a caneca do espumante e a fatia de salpicão ou a talhada de presunto.

Estas considerações retirei-as da introdução ao livro Canto do Cisne, assinadas por Albino Forjaz de Sampaio e publicado em 1923.

 

Intensamente interessado na vida literária do seu tempo, publicou em Coimbra, entre 1868 e 1873 A Folha, jornal literário de grande influência na época, conjuntamente com Gonçalves Crespo, Guerra Junqueiro, Cândido de Figueiredo, Francisco Gomes de Amorim, Simões Dias e outros.

Foi o volume de versos, Rimas, publicado em 1882, e onde se contêm os sonetos de “Vinho e Fel” que deu ao poeta a aura de que gozou até ao fim da vida.

Ler hoje a poesia e prosa de João Penha é um prazer inesperado, pelos temas, pela fluência do verso na sua rigorosa metrificação, e sobretudo, pelo entusiasmo de viver que deles transborda.

 

Cabral do Nascimento — Alguns poemas

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Redondilha

Sobre os rios e ribeiros

Que por esses vales vão,

Pus um barco de papel.

Os desejos vogam nele,

Que as palavras essas não.

 

E quando as águas encontram

As suas irmãs do mar

E se misturam, aos beijos,

Vão para o fundo os desejos

As penas sobem ao ar.

 

Desejo, dor e saudade

São companheiros. Depois

Morre primeiro o primeiro,

Ainda ás vezes solteiro,

Ficam só os outros dois.

 

 

… graças à arte requintada com que trabalha o verso, Cabral do Nascimento atinge em muitas das suas composições uma simplicidade, uma sageza, um desencanto, um doloroso fruir dos efémeros frutos da vida, características que lhe dão o direito a que o consideremos um dos mais altos poetas da sua geração.” João Gaspar Simões dixit.

 

Poeta raro, ausente do barulho da fama, a sua obra é de um inexcedível prazer de leitura.

Esta é  uma pequena escolha retirada de Cancioneiro, talvez o seu mais perfeito livro juntamente com Fábulas.

 

Tenhamos presente que o livro Cancioneiro foi publicado em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, e os poemas que seguem ganham um significado acrescido.

 

Futuro

O que há-de vir é belo

(Pensamos). Belo e ardente.

Fosse o futuro assim!

Pudesse agora tê-lo!

Agora, – e o Presente

Deixá-lo para o fim.

 

O dia de amanhã?

Ilusão. Frioleiras.

Pois bem: quem o tivera

Já gasto em cinza vã,

Em vez de, à sua espera,

Ficar a vida inteira!

 

Amanhã: dia de hoje

Que não chegou ainda.

Seja! Mas foge

A vida, antes que venha!

A sua face é linda.

Pena que se detenha.

 

Há-de vir, certamente,

Daqui a muitos anos.

Todavia no mundo

Só haverá presente.

Enganos. Desenganos.

Um silencio profundo.

 

Dia tão indeciso,

Tão cheio de mistério!

Virá pelo Outono,

Quando não for preciso,

Acordar-me do sono,

Talvez no cemitério.

 

Na singeleza da forma, que admirável reflexão sobre um amanhã tão sem esperança como o hoje, ou como o poeta o define: “Amanhã: dia de hoje / Que não chegou ainda.

E todavia sonha: “O que há-de vir é belo / (Pensamos). Belo e ardente. / Fosse o futuro assim! / Pudesse agora tê-lo!”.

Prossegue a reflexão até concluir no desalento de um presente com o sonho bloqueado, que o futuro: Virá pelo Outono, / Quando não for preciso, / Acordar-me do sono, / Talvez no cemitério.

 

Canção a meia voz

A minha vida é sempre ontem

E o meu desejo, amanhã.

Hoje é uma coisa parada.

Nada sei nem faço nada.

Certeza é palavra vã.

 

Não sou. Ou fui ou serei.

Se ao menos tivesse fé!

Corro atrás duma quimera.

Ou então fico-me à espera,

Porém à espera de quê?

 

Porque abri as minhas mãos

E deixei fugir o instante

Que havia nelas ainda?

Agora o nada não finda

E o tudo é sempre distante!

 

Virás tu ao meu encontro,

Ou sou eu que devo achar-te?

Quem pudera descansar!

Ver, ouvir e não pensar!

Ser aqui e em toda a parte!

 

Chego tarde ou muito cedo.

Ou paro aquém ou além.

Houvesse algo para mim

Sem ter principio nem fim,

Sem ser o mal nem o bem!

 

A dúvida de si, em que todos, mais ou menos, nos embrulhamos tantas vezes, ganha aqui a exemplaridade da sua enunciação “Corro atrás duma quimera. / Ou então fico-me à espera, Porém à espera de quê?

 

Depois de olhar para si e ter sonhado o futuro, o poeta olhou o mundo, e como o viu nos relata:

 

Programa

Ópio: o trabalho, a dor, o riso, e este

Livro que me empolga!

O teatro, o jornal, o amor e o resto…

Ópio de toda a hora.

 

Matar o tempo, reduzi-lo a pó,

Assim, anos e anos?

Ele a vida nos leva e nos consome,

Ele fica e nós vamos.

 

Renova-se: é Verão, Outono, Inverno

E Primavera! Vê-se

Quanto de nosso fim já somos perto…

Ele, volta ao começo.

 

A vida, só vivê-la

Sem rumo, como um corpo sobre as ondas…

Para gozá-la é breve,

Para sofrê-la é ainda mais longa.

 

 

Teatro

Era uma vez um menino

Em seu jardim a brincar.

(Brincar, brincar, não brincava,

Sempre, sempre a meditar!)

Os outros vinham de longe

E a correr, para o levar.

(Correr, correr, não corria,

Porém ficava a cismar).

Na tarde de oiro se ouviam

Seus gritos enchendo o ar.

(Ele gritar não gritava,

Mas calava-se a pensar).

O mundo andava de roda

E tudo em volta a girar!

(Ele, porém, ali estava

Só a ver, a contemplar).

E tudo quanto se via,

E tudo quanto passava,

Nos seus olhos se detinha,

Na sua alma ficava.

 

Tenho sido espectador

E toda a vida o serei.

Ah, estar de fora da dor,

Aquém do palco do riso,

Longe da arena do mundo!

É insensatez? É juízo?

É bom? É mau? Não no sei.

 

Mas quanto drama profundo,

Devagar, devagarinho,

Sem voz, sem gesto, sem cor,

Se infiltra tão de mansinho

Na alma do espectador!

 

 

 

 

Brinquedo

Tenho na minha mão esta esfera de lata,

Este globo terráqueo untado de verniz.

A terra e a água, em linha e cor, tudo relata,

Em letras rubras quantos nomes diz!

A proporção devida, a forma exacta,

Vê-se um palmo diante do nariz.

Linhas de lado a lado, e de alto a baixo (coisa abstracta),

Deus não as fez, o homem é que quis.

Como na estampa antiga dalgum príncipe autocrata,

Guardo o mundo na mão: não sei se sou feliz.

Ah! Quantas voltas hei-de dar assim ao mundo?

Tê-lo a girar… e sucederem rios,

Altas montanhas, mares sem ter fundo,

Continentes ardentes e outros frios.

Pensar que neste circulo rotundo

As caravanas passam, e os navios!

Sucesso grande, a dor mesquinha, o caso imundo…

A uns imaginei-os, e outros vi-os.

Tê-lo a girar…  Profundo

Abismo entre o seu ritmo e os meus sonhos vazios!

Gira cansada bola,

Tua ordenada rotação constrói.

De ti se evola

A alma do que é… E eu sinto o aroma do que foi!

Com teu Presente o meu Passado se consola;

Fizeste a chaga e a mim é que ela dói.

Deixa-me ser tão orgulhoso como quem dá uma esmola,

Timido como um herói.

Gira, cansada bola,

Tua ordenada rotação constrói…

 

AMAR OU ODIAR – Poesias de Fausto Guedes Teixeira

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AMAR OU ODIAR

Amar ou odiar: ou tudo ou nada!

O meio termo é que não pode ser

A alma tem d’estar sobressaltada

P’ra o nosso barro se sentir viver.

 

Não é uma cruz a que não for pesada,

Metade dum prazer não é um prazer;

E quem quiser a alma sossegada

Fuja do mundo e deixe-se morrer.

 

Vive-se tanto mais quanto se sente;

Todo o valor está no que sofremos…

Que nenhum homem seja indiferente!

 

Amemos muito, como odiamos já:

A verdade está sempre nos extremos,

Porque é no sentimento que ela está.

 

Recusando as nuances do compromisso neste soneto da paixão como absoluto da vida, o poeta afirma mesmo – O meio termo é que não pode ser .

Fulgor de quem a vive, cego a valores e conveniências, a paixão é devastadora nas suas consequências logo que a vida impõe o cinzento dos compromissos.

Esta é uma poesia incompatível com o nosso tempo. Tempo onde o frémito da paixão está ausente e apenas um fugidio bem estar afectivo é o valor a perseguir.

 

Poeta do amor, não deste ou daquele amor, desta ou daquela mulher, mas do sentimento amoroso em si, poeta de um amor que a si próprio se ama, como o descreve a certa altura João Gaspar Simões num pequeno estudo que lhe dedica na sua “Perspectiva Histórica da Poesia Portuguesa”.

E diz mais, “Fausto Guedes Teixeira é o poeta que depois de 1900 mantém as melhores tradições [da] lira sentimental, gemente a toda a hora entre nós…”.

A propósito da forma na poesia de Fausto Guedes Teixeira refere mais à frente “ Persuadido de que o sentimento vale mais que a arte, os seus versos, moles e frouxos nas composições longas de varios metros – … – ganham rigor na intensidade do soneto.

Ainda segundo João Gaspar Simões, foi Fausto Guedes Teixeiraquem recriou esse modelo métrico onde o sentimento entra, em doses maciças, mas pautado ao mesmo tempo pelo rigor da forma que obriga a quem se abeira do soneto.”.

 

Vejamos esta mestria no manuseio do soneto em dois estereótipos de mulher:

 

ESBOÇO

Negro o cabelo, a fronte iluminada,

O nariz curvo, a boca pequenina,

Nos olhos escuríssimos cravada

Uma estrela no fundo da retina.

 

Nas faces uma rosa desmaiada

E outra rosa nos lábios purpurina,

Seus pequeninos pés os duma fada

E o seu corpo um corpinho de menina.

 

Todos os traços cheios de expressão,

Nas mãos um fogo estranho que lhas beija,

Porque eu lhe puz nas mãos o coração.

 

Eis o esboço rápido daquela

Que, sempre que na vida alguém a veja,

Nunca mais vê ninguém senão a ela!

 

Aqui desenha-se um universal, motivo de paixão, ao afirmar: Que, sempre que na vida alguém a veja, / Nunca mais vê ninguém senão a ela!.

 

A seguir, no próximo soneto, PARA TODO SEMPRE, dá-nos o poeta a explicação do que acontecesempre que na vida a mulher sente / Que se enganou e aceita outra paixão,

 

Quando se chega a ver nitidamente

O erro duma primeira ligação,

É muito natural que toda a gente

Se dê um dia a outro coração.

 

Mas sempre que na vida a mulher sente

Que se enganou e aceita outra paixão,

Então, ou a conserva eternamente

Ou ela pensa que não tem perdão.

 

E é por esse motivo que, ao segundo

Amor, ela se prende como cega,

Sem com mais nada se importar no mundo.

 

É que a mulher, feliz ou desgraçada,

Não se perde na hora em que se entrega,

Mas na hora em que for abandonada.

 

Depois deste coloquial soneto, onde o sempre, tal como no soneto anterior, garante o absoluto da ideia afirmada, não podia deixar de ilustrar como o sexo, sempre por detrás de tanta paixão, se mostra timidamente na poesia de Fausto Guedes Teixeira, “Tomando a forma duma labareda.”:

FOGO DO CÉU

O que mais amo nesta criatura

E que apaixonadamente me traz

Não é a sua grande formosura,

Mas a paixão de que a julguei capaz.

 

Com tanta duração como ternura

E tão fiel como o supus tenaz,

Dar-me-ia esse amor toda a ventura

Em que hoje creio e não achei p’ra trás.

 

Quando consigo por acaso vê-la

Vendo os seus braços, lembro o seu abraço.

Vendo-lhe a boca, sonho os beijos dela.

 

E, enquanto a vida só prazeres segreda,

Seu lindo corpo some-se no espaço

Tomando a forma duma labareda.

 

Noticia bibliográfica

Os sonetos transcritos, com ortografia modernizada, foram retirados de Sonêtos d’Amôr, de Fausto Guedes Teixeira, publicados em 1ª edição, em 1922,  por EDIÇÕES LUSITANIA .

Novas Perspectivas da Poesia Portuguesa (Século XX) de João Gaspar Simões foi publicado em 1ªedição em 1976 por Brasília Editora, nas Obras Completas do Autor.

 

Cândido Guerreiro — 5 Sonetos

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Entre o palpitar da carne encerrado no pudor da linguagem e um panteísmo lido na paisagem algarvia que o viu nascer, circula a poesia de Cândido Guerreiro.

É uma poesia agarrada à terra e aos seus prazeres com a magia da luz mediterrânica em fundo e onde um diálogo com a religião penetra, numa harmonia de homem / deus do universo.

Aqui fica uma pequena amostra da sua poesia com cinco dos seus sonetos.

I

Cheios de paz e cheios de doçura,

Dão-me os teus olhos tanta claridade

Que a minha tormentosa noite escura

Se rasga em Vias-lácteas de bondade!

 

E vou na trajectória da ventura,

E sigo a linha recta da verdade,

Por ti guiado, oh frágil criatura,

Tão forte em tua simples humildade!

 

Que o amor vos traga aonde o amor me trouxe,

Cegos que enveredastes pelo mal,

Pois nesta estrada chã, direita e doce,

 

A morte ajoelhará quando vier,

Ante a Vida, que a Vida é imortal,

Reflorindo num seio de mulher!

 

II

 

Porque nasci ao pé de quatro montes,

Por onde as águas passam a cantar

As canções dos moinhos e das pontes

Ensinarem-me as águas a falar…

 

Eu sei a vossa língua, água das fontes…

Podeis falar comigo, águas do mar…

E ouço à tarde, os longínquos horizontes,

Chorar uma saudade singular…

 

E porque entendo bem aquelas mágoas,

E compreendo os íntimos segredos

Da voz do mar ou do rochedo mudo,

 

Sinto-me irmão da luz, do ar, das águas,

Sinto-me irmão dos íngremes penedos,

Sinto que sou Deus, pois Deus é tudo…

 

III

 

BOCA

Irrompe feito Verbo, o pensamento

Pela boca, e na graça de um sorriso

Descobre o nosso olhar um paraíso

Num fulgurante e rápido momento.

 

Da boca sai o cântico e o lamento;

As lindas rosas da manhã diviso

Na tua boca, e em beijos corporizo

O meu desejo rútilo e sangrento…

 

Folha revolta, arrebatada palma

Do vento impetuoso da paixão,

A teus pés, caindo-te a minha alma,

 

Arde em mim, Bem-Amada, a ânsia louca

(Para sentir melhor teu coração)

De colar ao teu seio a minha boca…

 

 

IV  –  SULAMITES

 

A tua alta estatura é comparada

Com a palmeira em lânguido meneio,

E são dois cachos de uvas o teu seio,

Suspensos da palmeira, oh Bem-Amada…

 

Subirei à palmeira delicada

E colherei seus frutos sem receio…

E a tua boca é como um pomo cheio

Duma essência a mais doce e perfumada…

 

Tua garganta, inebriante vinho,

Hei-de a saborear devagarinho,

Que tu és para mim e eu para ti…

 

Erga-mo-nos e vem, de manhãzinha,

A ver se há já romãs, se há flor na vinha,

E vem dar-me os teus peitos mesmo ali…

 

V

 

Minha terra embalada pelas ondas,

Lindo país de moiras encantadas,

Onde o amor tece lendas e onde as fadas

Em castelos de lua dançam rondas…

 

Oh meu Algarve, quero que me escondas…

Que na treva da morte haja alvoradas!

Hei de sonhar com moiras encantadas,

Se eu dormir embalado pelas ondas…

 

Quando o sol emergir de trás da serra,

Sempre será o sol da minha terra

A fecundar-me o chão da sepultura…

 

Ao pé dos meus, na minha aldeia querida,

A morte será quase uma ventura,

A morte será quase como a vida…

Noticia bibliográfica:

A obra poética de Cândido Guerreiro reparte-se por alguns livros de interesse desigual para o leitor de hoje.

Concordo com João Gaspar Simões quando diz que Cândido Guerreiro é sonetista por excelência, bem como com a forma como classifica os seus sonetos em três géneros, a saber: filosófico, pictural e erótico, e ainda quando constata que a sua produção de sonetos a partir de 1908 é dominada pela temática pictural e erótica (Perspectiva Histórica da Poesia Portuguesa, 1976, pag. 98-100).

Os sonetos aqui transcritos, em ortografia actualizada, foram retirados da 2ªedição de SONETOS publicada em 1916, em edição da Renascença Portuguesa do Porto.

Esta 2ªedição vem substancialmente ampliada em relação à 1ªedição de 1904, pois dos seus 122 sonetos apenas 50 pertenceram à 1ªedição.