Manuel Alegre — Que somos nós senão o que fazemos?

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No passado próximo deixei uma interrogação e convite à meditação do eu interior com uma Oração à Alma de Gregório de Naziano. Hoje venho com uma diferente interrogação por Manuel Alegre (1936): Que somos nós senão o que fazemos?
O soneto Que somos nós dá a resposta do poeta:


Que serei eu senão só o que faço
e é tão pouco no tempo em que não temos

para viver senão o tempo de
transformar neste tempo e neste espaço
a vida em que não somos mais do que

o sol do que fazemos. …

 

 

O soneto foi publicado em 1970. Não sei se hoje, passados quase cinquenta anos de vida a resposta do poeta continua a ser a dada no poema, de que o homem ou é acção, ou não é.

 

Entendo que somos mais que acção. Agir é tantas vezes errar. Agir sem a vigilância da reflexão sobre o que se faz e suas consequências pode ser historicamente marcante mas quantas vezes, se não tivesse acontecido, não seria melhor.
Vejamos o que nos diz o imperador Marco Aurélio (121-180) num dos seus Pensamentos:

 

Tudo o que sou não passa disto: um pouco de carne que respira e o norte da razão que nos dirige. …
Marco Aurélio, Pensamentos, Liv. II, 2.

 

Ser homem é pensar sempre e a cada momento as consequências da sua acção. Se como escrevi no artigo antes referido, mesmo quando não escolhemos estamos a decidir não escolher, agir ou não agir que seja sempre consequência de escolher, e não irreflectido impulso, para que o rasto que deixemos na terra tenha servido de alguma forma o bem.

 

Antes de o deixar, leitor, com o poema, regresso a um dos pensamentos de Marco Aurélio:

 

Experimenta como te prova por seu turno a vida do homem de bem que aceita com gosto a parte que lhe toca no conjunto e se contenta, pelo que lhe depende, com praticar a justiça e permanecer em disposição benevolente.
Liv. IV, 25.

 

 

Poema

 

Que somos nós

Que somos nós senão o que fazemos?
Que somos nós senão o breve traço
da vida que deixamos passo a passo
e é já sombra de sombra onde morremos?

Que somos nós se não permanecemos
no por nós transformado neste espaço?
Que serei eu senão só o que faço
e é tão pouco no tempo em que não temos

para viver senão o tempo de
transformar neste tempo e neste espaço
a vida em que não somos mais do que

o sol do que fazemos. Porque o mais
é sombra de sombra e o breve traço
de quem passamos para nunca mais.

 

in O Canto e as Armas, inédito na 2.ª edição, 1970
Transcrito de Obra Poética, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1999.
Traduções de Marco Aurélio por João Maia. Pensamentos, Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1995.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Fernand Léger (1881-1955), Os Construtores da colecção do Museu Fernand Léger de França.

 

Incêndio — poema de José Saramago

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Se algum leitor se desse ao trabalho de seguir no blog a poesia que aborda prazer e sexo, espantar-se-ia com a variedade expressiva para falar do mesmo e em todas as épocas e latitudes. Hoje mais um exemplo, não de um poeta, mas de um prosador que escreveu alguma poesia, José Saramago (1922-2010). Com o seu poema, Incêndio, dou continuidade ao que há pouco escrevi no blog: que a poesia portuguesa do século XX abunda na representação do erótico, manifestação do desejo físico e sua consumação, cobertos por linguagem velada, se não mesmo metafórica.

 

Incêndio

Convoco o cheiro, a polpa sensitiva
Dos dedos curiosos e da boca,
Convoco a cor dos olhos, e os cabelos,
E o lume que neles há, e a voz rouca.

Convoco o grito, o espanto e o temor,
O corpo recurvado, a violência,
O suor que arrefece — e o sorriso
Que te cobre de paz e inocência.

Reúno estas memórias. No meu sangue
As infundo e converto como brasas,
E ardo, violento: assim, ao vento,
Ardem de lés a lés searas rasas.

in Provavelmente Alegria.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de René Magritte (1898-1967), La lectrice soumise, A leitora subjugada.

Fantasiemos um pouco sobre esta imagem de abertura.
Representará uma mulher ainda nova, modesta com a sua pessoa, pouco favorecida pela beleza física, a quem a vida não proporcionou os prazeres descritos no que acaba de ler.  Curiosa, segue o meu conselho, e de artigo em artigo cresce o espanto sobre os prazeres que é possível gozar e ela ignora:
— Ai os poetas romanos! E os do Al -Andaluz então… . Meu Deus! Tanta religião e aquilo…
Para cúmulo, admiradora da prosa do nosso Nobel, nem percebe bem o que ele quer dizer com aquele:


Convoco o grito, o espanto e o temor,
O corpo recurvado, a violência,
O suor que arrefece — e o sorriso
Que te cobre de paz e inocência.

Será que se refere mesmo ao que ela está a pensar? Incrédula, quase deixa cair o livro onde foi procurar o poema para se certificar da sua existência. …

E aqui ponho fim à fantasia. Até à próxima…

 

Ruy Belo — o poema Ácidos e Óxidos

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Sim, sou eu, devo sem dúvida ser eu

Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar
circunscreves o corpo. …

 

Depois do intervalo destes dias, regressemos à poesia densa de implicações sociais e psicológicas com o poema Ácidos e Óxidos de Ruy Belo (1933-1978):

Escolhe inscreve-te pertence, não concordas
que há cores mais bonitas do que outras?
Sou homem de palavra e hei-de cumprir tudo
hão-de encontrar coerência em cada gesto meu
Ser isto e não aquilo, amar perdidamente
alguém alguma coisa as cláusulas do pacto
Isto ou aquilo, ou ele ou eu, sem mais hesitações

 

Eis o retrato de alguém psicologicamente adaptado ao papel social que lhe foi atribuído, embora ocasionalmente espreite alguma perplexidade, que não interrogação:

E perguntar será para ti responder

Pode ser que me engane, pode ser que seja eu
e no entanto estou de pé, rebolo-me no sol,
sou filho desta terra e vou fazendo anos
pois não se pode estar sem fazer nada

 

Na desarticulação do discurso linear recolhem-se as complexidades do eu, e nesta espécie de conversa ao espelho do próprio consigo mesmo, reflecte-se a quase impotência da autonomia individual na teia social de compromissos, deveres, e expectativas dos outros, a ponto de acreditar que são afinal escolhas do próprio as que outros induzem:

São horas, vamos lá, sorri, já as primeiras chuvas
levam ou lavam corpos caras
Sabemos que podemos bem contar contigo em tudo
Amanhã, neste lugar, sob este sol
e de aqui a um ano? Combinado

 

O remate surge na inevitável conclusão da inutilidade de tanto compromisso, consequência da pressão exterior sobre o indivíduo:

Que fica dos teus passos dados e perdidos?
Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta,
o riso que resulta de seres vítima de olhares
Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto?
E assim e assado sofro tanto tempo gasto

 

 

Eis o poema na totalidade:

 

 

Ácidos e Óxidos

É uma coisa estranha este verão
E no entanto ia jurar que estive aqui
Não me dói nada, não. A tia como está?
Claro que vale a pena, por que não?
Sim, sou eu, devo sem dúvida ser eu
Podem contar comigo, eu tenho uma doutrina
Não é bonito o mar, as ondas, tudo isto?
Até já soube formas de o dizer de outra maneira

Há coisas importantes, umas mais que outras
Basta limpar os pés alheios à entrada
e só mandarmos nós neste templo de nada
E o orgulho é a nossa verdadeira casa
Nesta altura do ano quando o vento sopra
sobre os nossos dias, sabes quem gostava de ser?
Não, cargos ou honras não. Um simples gato ao sol,
talvez uma maneira ou um sentido para as coisas

Ó dias encobertos de verão do meu país perdido
mais certos do que o sol consumido nos charcos no inverno,
estas ou outras formas de morrermos dia a dia
como quem cumpre escrupulosamente o seu horário de trabalho
Não eras tu, nem isto, nem aqui. Mas está bem,
estou pelos ajustes porque sei que não há mais
Pode ser que me engane, pode ser que seja eu
e no entanto estou de pé, rebolo-me no sol,
sou filho desta terra e vou fazendo anos
pois não se pode estar sem fazer nada

Curriculum atestado testemunho opinião…
que importa, se o verão é mesmo uma certa estação?
Escolhe inscreve-te pertence, não concordas
que há cores mais bonitas do que outras?
Sou homem de palavra e hei-de cumprir tudo
hão-de encontrar coerência em cada gesto meu
Ser isto e não aquilo, amar perdidamente
alguém alguma coisa as cláusulas do pacto
Isto ou aquilo, ou ele ou eu, sem mais hesitações
Estar aqui no verão não é tomar uma atitude?
A mínima palavra não será como prestar
em certo tipo de papel qualquer declaração?
Há fórmulas, bem sei, e é preciso respeitá-las
como o gato que cumpre o seu devido sol
São horas, vamos lá, sorri, já as primeiras chuvas
levam ou lavam corpos caras
Sabemos que podemos bem contar contigo em tudo
Amanhã, neste lugar, sob este sol
e de aqui a um ano? Combinado
Não achas que a esplanada é uma pequena pátria
a que somos fiéis? Sentamo-nos aqui como quem nasce
Será verdade que não tens ninguém?
Onde é o teu refúgio, ó sítio de silêncio
e sofrimento indivisível? É necessário
Vais assim. Falam de ti e ficas nas palavras
fixo, imóvel, dito para sempre, reduzido
a um número. Curriculum cadastro vizinhança
Acreditas no verão? Terás licença? Diz-me:
seria isto, nada mais que isto?
Tens um nome, bem sei. Se é ele que te reduz,
aí é o inferno e não achas saída
Precário, provisório, é o teu nome
Lobos de sono atrás de ti nesses dez anos
que nunca conseguiste e muito menos hoje
Espingardas e uivos e regressos, um regaço
redondo – o único verdadeiro espaço, o
sabor de não estar só, natal antigo,
o sol de inverno sobre as águas, tudo novo,
a inspecção minuciosa de pauis, de cômoros, marachas
Viste noites e dias, estações, partidas
E tão terrível tudo, porque tudo
trazia no princípio o fim de tudo
A morte é a promessa: estar todo num lugar,
permanecer na transparência rápida do ser
E perguntar será para ti responder

Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar
circunscreves o corpo. Sentas-te, levantas-te
e o sol bate por vezes nessa fronte aonde o pensamento
— que ao dominar-te deixa que domines — mora
Estás e nunca estás e o vento vem e vergas
e há também a chuva e por vezes molhas-te,
aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali,
animas-te, esmoreces, há os outros, morres
Mas quando foi? Aonde te doía? Dividias-te
entre o fim do verão e a renda da casa
Que fica dos teus passos dados e perdidos?
Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta,
o riso que resulta de seres vítima de olhares
Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto?
E assim e assado sofro tanto tempo gasto

 

in Todos os Poemas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

 

 

Abre o artigo a imagem de um objecto escultórico de Jim Dine (1935), Fato Verde.

 

Dois epigramas anónimos espanhóis

Esta semana deu-me para o desenfado. Acontece. Tenham paciência os leitores.
Folheio a biblioteca, passo os olhos nas edições libertinas francesas do século XVIII, completamente desadequadas para a austeridade dos leitores do blog apreciadores de metafísicas, e prossigo.
Nas leituras de acaso encontro, numa edição setecentista de Flores varias del Parnaso, dois epigramas espanhóis, anónimos, que ofereço a seguir em tradução. Talvez façam sorrir algum sisudo leitor.

 

 

Epigrama

Um distinto professor
Perguntou a um aluno:
— Diga: que tempo é amar?
— Amar é tempo perdido!
***

Tradução Carlos Mendonça Lopes

 

 

Epigrama

O maciço D. José
Que o pesassem dispôs.
E para o efeito se pôs
Sobre a balança, de pé.

O pesador, que era André,
Disse depois de um minuto:
— Quinze arrobas*. — Net ou bruto?
— Bruto, tal qual você é.
***
* uma arroba são 15kg.

Tradução Carlos Mendonça Lopes

 

 

Abre o artigo a imagem de um desenho/colagem de Erwin Blumenfeld (1897-1969), D. Juan casa-se.

D.Juan, esse herói espanhol criado por Tirso de Molina no séc. XVII, e sucessivamente reinterpretado pela cultura europeia, numa conjectura possível, seria quem transmitira ao aluno do epigrama a sábia afirmação: Amar é tempo perdido!.
No entanto, a crer na colagem de abertura, D. Juan casa-se, e talvez, envergonhado de atraiçoar a sua gloriosa memória, tendo engordado como inevitavelmente acontece a qualquer casado, se disfarce do D.José, cujo peso se avalia no segundo epigrama (o homem estava preocupado com a linha…).

Eu tinha avisado a abrir…

Poemas sobre gatos — Appolinaire e Szymborska

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Não tenho animais de estimação e espanta-me sempre um pouco verificar as transferências afectivas que as pessoas fazem para os seus bichos. É um universo emocional que me é estranho e aceito sem julgar. De entre estes animais domésticos são gatos o que mais surge na poesia, sobretudo dando conta do seu comportamento voluntarioso e independente. As relações de afecto com os seus donos, se para os cães são comuns, com os gatos manifestam-se de forma talvez mais desprendida.

São disso testemunho indirecto dois poemas que a seguir transcrevo. De Guillaume Apollinaire (1880-1918), O Gato, do qual se lerão duas versões; depois, de Wislawa Szymborska (1923-2013), Gato em apartamento vazio. Dão conta os poemas de atmosferas de domesticidade onde o gato se integra. Revelam o convívio com o animal de estimação que traduz um sereno entendimento da sua presença no quotidiano humano.

Em Apollinaire lemos um quadro de desejo doméstico com mulher, gato, livros, e amigos:

 

O Gato

Na minha casa desejo ter
Uma mulher que imponha a sua razão
Um gato passeando por entre os livros
E porque sem eles não posso viver
Amigos seja qual for a estação

in Assinar a Pele — antologia de poesia contemporânea sobre gatos
(organização de João Luís Barreto Guimarães)

 

Poema original

Le chat

Je souhaite dans ma maison :
Une femme ayant sa raison,
Un chat passant parmi les livres,
Des amis en toute saison
Sans lesquels je ne peux pas vivre

in Le Bestiaire ou Cortège d’Orphée

 

e agora uma versão mais perto da letra do original:

O Gato

Desejo ter em minha casa:
Uma mulher no seu juízo,
Um gato passeando-se entre livros,
Amigos para o que der e vier
Porque sem eles não sei viver.

Tradução de Maria Gabriela Llansol,
in Mais Novembro que Setembro, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2001.

 

No poema de Wislawa Szymborska, Gato em apartamento vazio, conta-se a perplexidade da perda, no universo do gato, quando a morte altera as rotinas que dão o sentido dos dias:

 

Gato em apartamento vazio

Morrer — isso não se faz ao gato.
Pois que há-de um gato fazer
num apartamento vazio.
Ir arranhando as paredes.
Roçar-se por entre os móveis.
Por aqui nada mudou
mas está mais que mudado.
As coisas estão nos sítios,
mas os sítios outro são.
E nem se acende a luz pela noitinha.

Ouvem-se passos na escada,
todavia, não os tais.
A mão que põe no pratinho o peixe
também não é a que antes punha.

Algo aqui não acontece
às horas que acontecia.
Há algo aqui que não corre
como devia correr.
Alguém aqui esteve, esteve,
e agora teima em não estar.

Vasculhados todos os armários.
Percorridas todas as prateleiras.
Uma vez verificado o chão sob a alcatifa.
Contra todas as proibições até,
espalhados os papéis.
Que é que fica ainda por fazer.
Dormir e esperar.

Tradução de Júlio Sousa Gomes
in Paisagem com grão de areia, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 1998.

Exemplar ilustração de como tudo muda com a morte quando parece nada ter mudado olhando a imobilidade das coisas.

O gato da fotografia surpreendi-o certa tarde, junto ao mar, a olhar para mim enquanto fotografava. Aos especialistas deixo a interpretação desse olhar.

António Feliciano de Castilho e o macaco janota

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Para recreio de alguns leitores que apreciam dar folga à transcendência, trago vez por outra, poesia de autores obscuros, uns, esquecidos e ilustres no seu tempo, outros.
Hoje uma ironia poética de António Feliciano de Castilho (1800 -1875), As Metamorfoses do Macaco.

No poema, António Feliciano de Castilho entretém-se, e nós com ele, a brincar com O Janota:


Mira-se, exulta. Só nota
Perfeições no todo seu.
Hoje chamam-lhe “janota”,
Bicho incógnito a Lineu.
(*)

 

Com elegância, para evitar o desprimor de alguns dos seus contemporâneos, A. F. Castilho evita um nome comum, chamando ao seu macaco janota, Jacó.

Servindo-se da sua proverbial mestria versificatória e rítmica, António Feliciano de Castilho dá-nos em quadras heptassilábicas de rima abab nunca repetida, uma pérola de graça e inocência satírica. Nele lemos uma caricatura acerba de quem se desgosta da sua pessoa e procura por todos os meios noutro se transformar.

Acrescento no final um pequeno glossário para elucidação de alguns vocábulos no poema que me pareceram de inteligência menos comum ao leitor de hoje, ainda que o seu significado decorra com facilidade da leitura.

 

 

As Metamorfoses do Macaco

Jacó, flor das raças monas
E aluno de um piemontês,
Fazia entre mil gaifonas
Coisas que o demo não fez.

Quanto via, arremedava
Por modo tão natural,
Que o piemontês lhe chamava
Daguerreótipo animal.

Se falasse assombraria;
Porém, mesmo sem falar,
Em toda a macacaria
Era um bichinho sem par.

Um dia em certa barraca
De uma feira, onde brilhou,
Com arte mais que velhaca,
Lustroso espelho empalmou.

Viu-se; pasmou. «Que diabo!
Pois eu tenho a cara assim?!
Ó bruxas, de mim dai cabo,
Ou condoei-vos de mim!

Machuchas mestras de tretas,
Se cabe em vós pio dó,
Deixai-me o dom das caretas,
No mais transformai Jacó.»

Bruxinha de génio gaio
Despachou-lhe a petição.
Eis, o mono, papagaio!
Eis nova consumição!

«O meu falar é mui rico!
Quanto às penas, guapo estou!
Mas este bico!… este bico!
Quem tal ratice inventou?!

Bruxa honrada! eu to aconselho,
Vá nova transformação.»
Diz: torna a encarar o espelho…
Vê-se estrelado pavão!

Espaneja-se garboso!
Ama-se; está como um dez.
Senão quando… ai, desditoso!
Repara… que horrendos pés!

Novo rogo impertinente:
«Por esta vez, e não mais»,
Diz a velha impaciente,
«Quero ceder aos teus ais.

Do que tu mesmo aprovaste
Nas três formas que te dei,
Para teu consolo baste,
Que esta final te armarei;

Terás as visagens ricas,
O papagaial palrar;
Do pavão as galas ricas…
Pegar no espelho! mirar!»

Mira-se, exulta. Só nota
Perfeições no todo seu.
Hoje chamam-lhe «janota»,
Bicho incógnito a Lineu.
(*)

 

(*) Glossário
Dez —Eestá como um dez: sente-se o máximo.
Empalmar — Furtar com destreza.
Gaifona — Trejeito.
Gaio — Alegre, Jovial, Folgazão.
Janota — Aqui usado no sentido de Peralta: indivíduo afectado nos modos ou trajes.
Lineu — Inventor da classificação das espécies vivas.
Machuchas — Diz-se de pessoas que têm influência.
Mono — Macaco.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Otto Dix (1891-1969), O negociante Max Roesberg, de 1922.

 

Metafísica — O amor segundo Adolfo Casais Monteiro

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Entendendo por erotismo poético um conceito difuso que fala do corpo e do abismo dos seus prazeres, — … / sede infinita, lava ao rubro, / em que morremos renascendo! — encontramos na poesia portuguesa do século XX uma abundante produção onde a linguagem velada, — … / fogo de desejo a tua face / trémula de querer-te a minha voz… / … — se não mesmo cifrada, é de obrigação nesta abordagem.
Um exemplo entre tantos é o poema Metafísica de Adolfo Casais Monteiro (1908-1972) que hoje transcrevo e antes citei.

Belo poema com estranho entendimento do amor fisico, chamando Metafísica (*) à sua explicitação:


Ou febre ou calma dum presente
em que os beijos não acabam
e as carícias reverdecem
em sucessivas primaveras!

por ele passa o ardor sem tempo do que faz arder as gentes: aceso coração da vida!

 

Metafísica

A sós contigo, em qualquer parte
nem meu nem teu só nosso o mundo,
aceso coração da vida!
Fiando um tempo indiferente
ao que fomos e seremos
fogo de desejo a tua face
trémula de querer-te a minha voz…l

Ou febre ou calma dum presente
em que os beijos não acabam
e as carícias reverdecem
em sucessivas primaveras!
Espuma de taça sempre cheia
num extinguir-se inextinguível,
sede infinita, lava ao rubro,
em que morremos renascendo!

in Simples Canção da Terra

 

(*) Metafísica segundo o Dicionário Oxford de Filosofia: qualquer investigação que levante questões sobre a realidade que estejam por detrás ou para além das que podem ser tratadas pelos métodos da ciência.

A propósito do título do poema, tendo em conta o conceito filosófico, faz-me relevar a implicação de que viver o amor físico é uma investigação; concordo. E que estes actos levantem questões além da ciência também não discordo. Mas há uma ciência precisa na sua prática, há quem lhe chame arte, e essa é muito conveniente aos participantes, e sem ela dificilmente os resultados serão satisfatórios.
Concluo: estamos perante uma investigação que é simultaneamente física e metafísica, daí a estranheza que assinalei ao título do poema.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Tom Wesselmann (1931-2004), Nude nº1 de 1970.

O mundo poético de Adília Lopes

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Hoje leio a poesia de Adília Lopes(1960) publicada em livro entre 1985 e 2014 e reunida pela própria no volume Dobra.

Estes poemas são um mundo feminino onde entro pé ante pé. Povoados de parentela, criadas, e amizades dúbias, são quase sempre poemas narrativos onde os homens por vezes surgem, quais fantasmas fálicos. Lendo as histórias que contam interrogo-me entre espanto e perplexidade: será assim? Aceito que seja.

Historietas contadas com desenvoltura e economia, são, na maior parte das vezes, platitudes à procura da poesia, ex:


então vamos comer um gelado
eu não vou eu digo
apetece-me um gelado
mas não como disse-me ela
o que é que se pode fazer
com uma rapariga destas?

 

com uma que outra piscadela de olho ao conhecimento cultural do leitor. Acontece surgir aqui e ali uma quadro sociológico ou mental dado com nervo e precisão cirúrgica, o que nos redime da leitura.

Num mundo de bonecas e bordados irrompe a certa altura o sexo, desbragado e explícito, não já as brincadeiras adolescentes, ora incestuosas ora homoeroticas que por lá andavam, mas a fome primordial de gozo, intensa e voraz. Os poemas com esta sexualidade ávida ficam hoje de fora. Outro dia a eles irei.

Quando não são narrativos, os poemas, surgem aforismos e sentenças, onde interrogações não existem. Eis uma escolha.

 

Os poemas seguem, cada um separado por um * e indicação da primeira publicação em livro.

 

*
Não busco
o tempo
perdido
porque
é o tempo
perdido
que vem
ter comigo

Reencontrado

o tempo
acaba
o tormento

Fica

espaço
para
o Verão

O mar

é verde
amplia
o meio-dia
in César a César, 1.ª edição & etc, 2003.

 

 

*
Debaixo
do vulcão
está o retrato
do artista
quando
jovem cão
in Sete Rios Entre Campos, 1.ª edição & etc, 1999.

 

 

*
O passado
é barro
como o futuro

O presente

é água
como a morte

 

 

*
O passado
é plasticina
como o futuro

O futuro

é carnificina
in Le Vitrail La Nuit * A Árvore Cortada, 1.ª edição & etc, 2006.

 

 

*
1
Tudo muda
Deus não muda

2

As mudas
saltam
as coxas
coaxam

3

Não é tarde
é só
de tarde

 

 

*
Está
certo
o que está
perto

Não quero

ser monge
longe
mas hoje
in Os Namorados Pobres, 1.ª edição Assírio & Alvim, 2009.

 

 

Depois destes aforismos, sentenças, e piscadelas de olho, entremos no mundo feminino:

 

 

*
Eu realmente falo muito
em raparigas
ora as raparigas
haverá excepções
foram sempre muito minhas amigas
da onça
um dia convidei uma
para morrer comigo
hei-de tentar entrar na morte
a dançar disse-lhe eu
ela disse-me o que tu dizes
não se escreve
pois não não lhe disse eu
e o que eu escrevo não se diz
então vamos comer um gelado
eu não vou eu digo
apetece-me um gelado
mas não como disse-me ela
o que é que se pode fazer
com uma rapariga destas?
in Um Jogo bastante perigoso, 1.ª edição: da Autora, 1985.

 

 

*
A Salada com molho cor-de-rosa

1
Conheci a Magda na praia
na praia é uma metáfora obscena
que como as outras metáforas obscenas
pode ser usada quer como eufemismo
quer como insulto
conheço por experiência própria
os dois usos da expressão
na praia

2

Eu gosto de me fazer passar
por uma rapariga ordinária
a Magda era mesmo ordinária
a princípio era isto o que mais
me atraía nela depois foi isto
o que sobretudo me desgostou dela

3

As minhas relações com a Magda
de deliciosas passaram a promíscuas
aconteceu-me
o que me tinha acontecido
quando comi salada com molho cor-de-rosa
ao princípio
a salada era deliciosa por causa do molho
depois comecei a perceber
que era mil vezes melhor
estar a comer os vegetais
sem molho do que com molho
o molho impedia-me de comer os vegetais
com gosto
desgostava-me da vida

4

Vivia com a Magda
num quarto de duas camas
quando eu chegava ao quarto
a Magda estava deitada na minha cama
numa posição de Maja desnuda
mas vestida
o que ainda era pior
outras vezes encontrava-a
sentada na minha cadeira
a folhear os meus livros
e a chupar os dedos

5

A Magda era uma intrusa
depois de ter sido um ser envoûtant
quer como intrusa
quer como ser envoûtant
ela era para mim
uma fonte de perturbação

6

Eu não era casta
não porque me entregasse
com a Magda
(que era aliás uma praticante profissional do safismo)
a um prazer que alguns dizem vicioso
(só lhe toquei uma vez
sem querer
e pedi-lhe automaticamente desculpa)
mas porque com a Magda
não tinha prazer nenhum

7

(Acho que o prazer é casto
o que não é casto
é o simulacro do prazer
ou a renúnica ao prazer
tanto o simulacro
como a renúncia)

8

Um dia voltei ao quarto
e a Magda tinha desaparecido
sem deixar marcas
custou-me não encontrar
o chiqueiro próprio da Magda
os meus cigarros fumados
o meu cinzeiro cheio de beatas
sujas de bâton
(que me faziam lembrar
dentes cuspidos após uma briga)
o Las Moradas
antes do Calculus I
na minha estante
quando eu me habituei
a pôr esses livros por ordem inversa

9

O que me custou
foi tudo ter acabado
como tinha começado
como se nada se tivesse passado
durante
ora o que se passou durante
ainda hoje me incomoda
e portanto deve ter acontecido
in Um Jogo bastante perigoso, 1.ª edição: da Autora, 1985.

 

 

*
Aproveitaram a esperada
ausência das tias
para a sete chaves
se fecharem no quarto
mais húmido da casa
aí a sete chaves
elas fizeram-se comer uma à outra
bombons
in A Pão e Água de Colónia, 1.ª edição: Frenesi, 1987.

 

 

*
A Desobediência Castigada

Não foi culpa minha
se caí na selha e se meu irmão
correu para dentro a chamar
o criado que a mana estava
a molhar os vestidos quando eu
estava mas era a afogar-me
não foi culpa minha
se desobedeci a minha mãe
por sem sua licença passar a ferro
o vestido azul da boneca e assim
fazer no pulso com o ferro em brasa
uma queimadura rubra e sépia
como uma pétala de rosa macerada
que escondi com um lenço que anda
a menina a esconder com o seu lenço
nada minha mãe nada é uma arranhadela
que o gato arranhou por o não querer largar eu
não foi culpa minha
se a criada esqueceu a porta das traseiras
aberta e eu tropecei no degrau
e caí no lajedo e parti a cabeça
para ainda hoje trazer na testa
uma cicatriz que disfarço
com uma madeixa de cabelo
não foi culpa minha
se porém sempre por desobediência
minha mãe me privou da sobremesa
in O Decote da Dama de Espadas (romances), 1.ª edição: Gota de Água / Imprensa Nacional, 1988.

 

 

*
Lucinda e Madame Palmira

Onde estará
mas onde estará
o chapéu da boneca Lucinda?
aquele chapéu com uma peninha branca
e laços de veludo preto
que madame Palmira
costurou por graça
para a sobrinha da sua cliente dilecta?
madame Palmira começou por ser
ajudante de alfaiate
mas deixou de o ser quando
um cliente
durante uma prova de fraque
fez uma coisa que ela interpretou
como um atentado ao pudor
tornou-se modista de senhoras
mas de uma vez espetou
inadvertidamente
um alfinete num sovaco
(o que causou uma infecção
que embora sem gravidade
lhe fez perder a clientela)
foi assim que madame Palmira
se decidiu pelos chapéus
prova-os em manequins italianos
de celulóide
madame Palmira tem um espírito
minucioso
gosta de miniaturas
mas também com a boneca Lucinda
parece não ter sorte
pois o chapéu
sim esse chapéu de peninha branca
e laços de veludo preto
pelos vistos
desapareceu
in O Decote da Dama de Espadas (romances), 1.ª edição: Gota de Água / Imprensa Nacional, 1988.

 

 

*
A Ladainha minha

Há cem anos
que bordamos
os nossos enxovais
para nenhuma boda
nos nossos quartos
fechados à chave
os nossos noivos
enviuvaram
e andam pelo terreiro
vestidos de preto
com um fumo no braço
e cravo branco murcho
na lapela
as nossa mães
deixaram-nos
a bordar
em silêncio
os nossos enxovais
de brancos que foram sendo
fizeram-se amarelos
como crisântemos
eu e minhas irmãs
choramos a nossa sorte
copiosamente a fio
dia após dia
o pavio das nossas velas
esfuma-se
as nossas lágrimas
grossas como punhos
formam uma ribeira
que corre para o nosso mar
e o nosso mar?
in Os Cinco Livros de Versos Salvaram o Tio, 1.ª edição: da Autora, 1991.

 

 

Vai longo o artigo, e mais escolher dificilmente traria outra perspectiva a este corpus poético, além da temática de sexualidade activa e explícita que deliberadamente hoje deixei de fora.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura, óleo sobre tela, de James Rosenquist (1933-2017) Cão descendo as escadas de 1979, pertença de colecção privada.

Oração à Alma ou A alma vai-se tendo — Do Google a Gregório de Naziano com passagem por Szymborska

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Ao que leio, em Silicon Valley, os protagonistas e seus continuadores que pensaram, pensam, e realizam a revolução tecnológica em que o mundo está mergulhado, interrogam-se. Ao fim-de-semana parece ser a ocasião para meditar sobre os próprios, o sentido das suas vidas mergulhadas na tecnologia, e os valores. Servem-se de técnicas ancestrais de isolamento e concentração experimentadas nas velhas civilizações orientais, yoga e outras, e assim buscam encontrar o sentido para viver cada dia. Seguem, pois, o concelho de Gregório de Naziano (329-389), em Oração à Alma:

 

É tempo, ó minha alma, é mais que tempo, se quiseres conhecer-te a ti própria,   o  teu ser e o teu destino.
Donde vens, e onde precisas repousar.

 

 

Pensar no Google, já o escrevi aqui antes, na sua presença em toda a parte, na sua resposta a tudo o que perguntamos, ainda que a resposta possa não ser o que procuramos, é um bom exercício para quem tenha dificuldade em apreender a omnipresença e omnisciência de Deus.

 

Estamos pois perante uma trilogia: Indivíduo, alma e Deus, que esmiuçarei um pouco mais, com ajuda pelo meio de Wislawa Szymborska (1923-2012).

 

Pensar-se o indivíduo, pensar a existência, pensar o mundo, é exercício sempre recomendável em qualquer tempo e lugar. Escolha, acaso, ou necessidade, saber sempre ao acordar porque se desperta naquela cama, é o caminho para poder decidir que fazer da vida. As escolhas fazêmo-las todos os dias. Mesmo quando deixamos andar o que nos incomoda ou perturba, estamos a escolher nada fazer. O livre-arbítrio de que somos dotados permite isso mesmo. E tem sempre consequências. Meditá-las é de bom conselho:


Se a vida é o que nós vivemos, ou se esperamos melhor.

Qual a minha ligação à vida, e qual é o seu final?

 

E eventualmente:


O que houve antes do mundo, o que representa para ti o mundo
Donde vem e qual é o seu destino.

 

 

Mas a questão da alma às vezes intromete-se, e é uma interrogação velha para a qual Wislawa Szymborska tem uma resposta iluminante:

 

A alma vai-se tendo.
Ninguém a tem constantemente
nem para sempre.

Dia após dia,
ano após ano,
pode passar-se sem ela.

Raramente nos assiste
nas tarefas maçadoras,
como deslocar móveis,
carregar umas malas
ou calcorrear uma estrada com as botas apertadas.

Podemos contar com ela,
quando de nada estamos certos,
porém curiosos de tudo.

Não diz de onde vem,
nem quando tornará a deixar-nos,
mas espera evidentemente por tais perguntas.

(*)

 

É este Podemos contar com ela, / quando de nada estamos certos, / porém curiosos de tudo. que nos desarma a confiança. Pois ela não vem para nos dar certezas. E perante a permanência das dúvidas, responde: Deus é a resposta.

 

 

O mundo da poesia é um mundo dos homens. Se ela se ocupa das suas alegrias e tragédias, sejam sociais ou pessoais, do mal-estar aos prazeres, também do seu transcendente cuida. E as interrogações expostas  antes estão plasmada no poema Oração à Alma, qualquer que seja o significado que a Deus cada um dê. É sempre do eu imaterial que falamos.

 

 

Oração à Alma

É tempo, ó minha alma, é mais que tempo, se quiseres conhecer-te
     a ti própria, o teu ser e o teu destino.
Donde vens, e onde precisas repousar.
Se a vida é o que nós vivemos, ou se esperamos melhor.
Põe-te ao trabalho, ó minha alma, é preciso purificar a tua vida.
Busca a Deus e os seus mistérios:
O que houve antes do mundo, o que representa para ti o mundo
Donde vem e qual é o seu destino.
Põe-te ao trabalho, ó minha alma, é preciso purificar a tua vida.
Porque aqui é o movimento e no além o repouso.
Porque nós somos levados pela corrente da vida.
Põe-te ao trabalho, ó minha alma, olha apenas a Deus.
O que foi o meu orgulho, hoje é a minha vergonha.
Qual a minha ligação à vida, e qual é o seu final?
Ilumina o meu espírito, dissipa todos os erros,
Põe-te ao trabalho, ó minha alma, e não sucumbas à dor.

 

Tradução de Armando Silva Carvalho
in A Oração dos Homens, uma antologia das tradições espirituais, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006.

 

(*) Excertos do poema Um Pouco da Alma, tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio Neves.
in Instante, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2006.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma obra de Max Ernst (1891-1976), Sem título – dada.

 

Dois dedos de conversa e mais alguma poesia visual

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Convida-nos Fernando Aguiar (1956) para Dois Dedos de Conversa (1981) com o poema visual de abertura, e aceite o convite, sentemo-nos primeiro no bancu (1975) concebido por António Aragão (1921-2008):

e comecemos com E. M. de Melo e Castro(1932) e três dos seus poemas visuais. Primeiro: Pêndulo, (1962):

Olhá-lo produz inevitavelmente Tontura, (1962):

Uma das consequências eventuais desta experiência pode ser o Hipnotismo, (1962):

E é assim, leitor(a), que tonto ou hipnotizado, seguimos até à Alemanha Barroca, onde a imaginação poética e gráfica de alguns senhores nos é trazida de forma brilhante pela tradução de João Barrento.

Temos para começar uma filosófica Ampulheta dando conta do passar do tempo e consequência, pensada por Theodor Kornfeld (1636-1698):

Sabendo que a vida é efémera e o tempo, inescapável, corre, perguntemos com Georg Philipp Harsdörffer (1607-1658), enquanto a vida o permitir: Dizei lá: O que é o Amor?

Informados que estamos de que o Amor é Estrada de muitos cansaços. Fogo que arde eternamente., não resisto a introduzir aqui o Bibelô saído da pena de Décio Pignatari (1927-2012), instrumento simultaneamente portador do fogo e vítima do cansaço de o procurar extinguir quando se fala de amor:

Termino com mais um poema de Fernando Aguiar, (c)entro (1978), onde se entra com o instrumento, procurando extinguir o fogo, o que o poema claramente elucida:

E assim concluo esta curta viagem pela poesia visual, num percurso temporal,  geográfico, e poético, alargado: do séc.XVII ao séc. XX, passeando entra Portugal, Alemanha, e Brasil.

A subversão pelo olhar é um dos trunfos da poesia visual, dando a ver por outro prisma, ideias e conceitos, e despertando pelo inesperado o gozo da surpresa. Trazê-la ao blog é tarefa quase impossível decorrente das limitações de formatação. Daí apenas esta pequeníssima escolha a juntar a outras pontuais e anteriores de Salette Tavares e José Lino Grünwald.

 

 

Nota bibliográfica

O Cardo e a Rosa, Poesia do Barroco Alemão, seleção, tradução e prefácio de João Barrento, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002.
Antologia da Poesia Experimental Portuguesa, Anos 60 – Anos 80, organizadores Carlos Mendes de Sousa e Eunice Ribeiro, Angelus Novus Editora, Coimbra, 2004.
Décio Pignatari, Poesia pois é poesia, 1950-2000, Ateliê Editorial e Editora Unicamp, Campinas, 2004.