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A Nova Poesia Portuguesa em 1854

19 Terça-feira Abr 2011

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A nova poesia portuguesa, Faustino Xavier de Novaes, Novaes

Tal como a nossa, todas as épocas têm uma Nova Poesia Portuguesa.

Atenho-me hoje à Nova Poesia Portuguesa em 1854 pela mão de Camilo Castelo Branco (1825-1890).

Publicou o nosso autor em Maio de 1854 uma folha impressa com 8 páginas, O Bico de Gaz. Foi publicação de número único e hoje é das mais raras peças da bibliografia camiliana, juntamente com  A Infanta Capelista. No final do século XIX conheciam-se apenas 4 exemplares de O Bico de Gaz.

Em O Bico de Gaz, ironia, sarcasmo e sátira têm roda livre. O jornal foi inteiramente escrito por Camilo e um dos artigos respeita a A Vespa do Parnaso!, publicação de versos satíricos da autoria de Faustino Xavier de Novaes (1820-1869), surgida na altura, no Porto, e assinada POR UM MORDOMO DAS ALMAS DE CAMPANHÃ que vem de colarinhos tesos meter a fala ao bucho ao seu juiz, autor das FOLHAS CAIDAS.

A Vespa do Parnaso! pretendia deliberadamente evocar o livro de poesia de Camilo publicado já no inicio desse ano de 1854,  FOLHAS CAÍDAS, APANHADAS NA LAMA, assinadas por O AMIGO JUIZ DAS ALMAS DE CAMPANHÃ. O livro de Camilo é uma feroz sátira aos costumes do tempo e às personalidades enfatuadas do seu dinheiro e ignorância, surgidos com a mudança da situação politica. Deixo como exemplo estas quadras do poema AOS BARÕES:

...

Vossa avó de pé descalço,/ traz canastra com toucinho/ pão de broa corpulenta, borracha de verde pinho.

Inda ontem eu vi isto!…/ e vocês sus patuscões, / devem espantar-se comigo/ de serem hoje barões!

…

Burros ficam sempre burros,/ embora tragam selim, / cravado de diamantes / e estofado de cetim.

O brilhar dessas comendas/ não vos muda a condição:/ o instinto vos arrasta/ para o côvado e balcão.

É vasta e fascinante a produção de Camilo fora do romace e novela, nestes primeiros anos da década de 50, e a sátira aos costumes do tempo ocupa aí um lugar privilegiado.

O propósito do artigo em O Bico de Gaz foi saudar na publicação de A Vespa do Parnaso!, a nova poesia portuguesa em 1854, ou pelo menos o poder demolidor da sátira nessa nova poesia, da qual Novaes era um dos expoentes, além de editor de O Bardo desde 1852.

Acompanha a apresentação um poema extraído de A Vespa do Parnaso!, O BARÃO E O DOUTOR, onde se relata uma conversa entre um médico e um barão de recente fornada. Escrito em forma corrida, o diálogo mosta a ignorância da lingua e a vacuidade de conversação social com laivos de pretensão a conversa culta, onde o dislate impera. O barão é dado às letras e gosta de se istruir.

Deixo agora o leitor com a apresentação de A Vespa do Parnaso!  feita por Camilo em O Bico de Gaz, o qual, de caminho, refere, em resumo, a sua opinião sobre a poesia dos tempos antigos.

Como é de(ver), nada presta antes do que nós fizémos. As vaidades juvenis, e Camilo tinha à data 29 anos feitos a 16 de Março,  falam sempre da mesma maneira qualquer que seja a época.

Vamos ao texto:

A imprensa do Porto custa-lhe a conceber, mas, quando concebe, vem sempre à luz do mundo literário com um parto robusto, esperançoso, e digno dos pais.

A vespa do Parnaso, recém-nascida, ocupa o espirito público, e inaugura uma nova época nos fastos da poesia.

No principio, quando os patriarcas do género humano fizeram versos, beberam as inspirações na magestade da natureza, no pasmo dos corpos luminosos, que rolam no espaço, e no terror da mão omnipotente de Jeová.

Depois a Grécia inventou os deuses. A poesia alteava-se a regiões do mito, embelezava a mentira pagã dos grandes modelos, e arranjava com Marte, Cupido, Neptuno, e Platão um pastel de onzenices parvas, cujos restos nossos pais amargaram no sonetos insofriveis da escola arcadiana.

Veio a escola romantica. Os arcanjos e as estrelas, os silfos e os arrebóis, as brisas e os crepuscúlos, o murmurio das fontes e o ciciar da ramagem, o hino da floresta e a nuvem de cetim, e muitas outras coisas bonitas proscreveram as fórmulas eruditas e compactas da mitologia de insonsa memória.

Era esta a poesia dominante, quando a Vespa do Parnaso, sob o modesto título, que só por si espreme um epigrama nas bochechas dos antiquários, apareceu radiosa como todas as ideias novas.

A índole desta ligeira colecção de poemas extrema-se de todas as escolas para fundar uma, peculiarmente sua.

Quem lhe arrebata os voos, e lhe faísca o lume do entusiasmo sonoroso são os marotos de todo o género, os estupidos de todas as formas, os imbecis de todos os quilates, e os pedantes de toda a força de bestialidade conhecida.

Já vêem que o género é inteiramente novo.

A poesia, assim concebida, torna-se d’um proveito real para a sociedade. O sumo do ridículo, espremido nas faces que a vergonha encontra de porcelana, há-de coar-lhe na alma de cântaro, áquele que, apesar das grandes orelhas, tem de enterrar a carapuça até ao pescoço.

Convidamos a geração nova a impregnar-se, se assim posso exprimir-me, do sabor picante da Vespa do Parnaso.

Ao acaso transcrevemos, com permissão do seu autor, uma poesia que nos deu momentos de conscienciosa gargalhada, sendo certo que não é nosso costume rir de bagatelas:

O BARÃO E O DOUTOR.

       B. – Senhor Doutor, dá licença? –

       D. – Não sei quem é que está aí! – 

       B. – Seu criado – eu vou entrando…

       D. – Oh! Vossência por aqui!


        A Senhora Baronesa

       Como passa? – Tem saúde?…

       Quis ir ontem visitá-la…

       Tive que fazer, não pude.


        B. – Eu le digo… vai andando;

       Mas sempre com suas teimas,

       Não quer tomar o remédio

       Que le deu pras almorreimas! 


        Tem-se queixado do Omnibus, 

       Anda muito incomodada;

      Mas tem lá seus carrapichos,   

       E então, não quer tomar nada.


        D. – Pois, Senhor, queira Vossência 

       Ver se pode resolvê-la

       A entregar-se à Medicina,

       Que eu amanhã irei vê-la.


        Vá-lhe dando alguns passeios,

       Roubando-a à meditação;

       Que é sempre, nessas moléstias,

       Proveitosa a distração.


       B. – Ai… bô… bô!… alguns passeios!…

       Ela em casa nunca está;

       Não há por i uma festa 

       Onde eu com ela não vá!


        Já foi à Foz ver o hydroppico,

       E onte fomos ó triato; 

       E por sinal, que chegamos

       No fim do purmeiro acto. 


       A propósto, meu amigo, 

       Que me diz à Companhia?

       Aquela Lucrécia Borges   

       Foi bem… apois  não iria?


        Olhe qu’aquele… o… Finório, 

       Qu’é cunhado da Jordana,

       Canta bem… é bô maritmo, 

       E nunca… nunca se engana!


       E o outro tenor baixito,

       Chamo-le o basso profundo,

       Tamém é bô  … e bem mostra

       Que tem pratega do mundo. 


       E a Jordana! Isso é que canta

       Com’eu inda não ouvi!

       Não sei por que esses janotas

       Dão mais palmas à Ponti!


        D. – A Ponti é como artista

       Cousa muito sup’rior,

       B. – O quê?… melhor qu’a Jordana?…

       Nada… nada… não senhor!


        A Ponti, não gosto dela;

       – Não digo qu’é mau contralto; 

       Mas é muito presumida…

       A outra canta mais alto.


        Não faz uns tais gargarejos; 

       Mas quem sabe o que ela foi?…

       Tem um cantar grosso e forte,

       Qu’as vezes parece um boi!


        Quando, há dias, dava palmas

       À Ponti, certo magote,

       Enfim – pequenas misérias – 

       Disse eu lá do cambarote.  


        É gente que não entende,

       Gosta duma bacatela; 

       A Ponti se é boa dama,

       Eu não engraço com ela!


        Diga-me – que livro é esse,

       Que lia quando eu cheguei?

       D. – Era o Hahnemann. – B. – Conheço,

       Grande poeta… bem sei!


        O Senhor Doutor se lesse

       A Fremosa Mangalona,

       Havia de gostar muito;

       Olhe que é muito ratona!


        E quando quiser bons livros

       Faça favor d’ir por lá:

       Também tenho o Calros Mano…  

       Eu l’os  mandarei pra cá.

 

      D. – São bons livros – eu conheço-o;

       Fico obrigado a Vossência;

       Mas o tempo que me resta

       Emprego-o só na ciência.


        B. – Na ciência?… e é bô livro?

       E quantos balumes tem?… 

       Ah!… já sei… eu ‘stava tolo…

       São quatro… tenho-os tamém!


        Olhe que eu sou dado às letras,

       E gosto de me istruir: 

       Pois de falar?… quando falo

       Todos gostam de m’ouvir.


        Mas passemos a oitra coisa:

       Estes retratos quem são?

       Vamos cá dar volta à sala,

       E faça-me a explicação.


        Daquele estão-me a dar ares;

       Não será um meu besinho?

       D. – É Lamennais. – B. É o mesmo,

      Já lhe merquei muito binho.


        Ora diga-me – e aquele

       Que tem anéis no cabelo?

       Aquele home  é estrangeiro,

       Que eu não me lembro de vê-lo.


       D. – De certo não, que é antigo,

       Já não é dos tempos seus;

       Nem é possível, Vossência

       Ter visto o Rei dos Judeus.


        B. – O Rei dos Judeus! – É este? – 

      Oh que soberbo tratante!

       Não sei como quer em casa

       Um retrato semelhante!…

       Eu cá sou escrupuloso

       Nisto de religião:

      O Rei dos Judeus! – Arruda! 

       E na casa dum cristão!…


        Este sim… não é o Bispo?…

       O D. Jiromeno? … é… 

       Morreu… coitado… era um home 

      Em que eu tinha muita fé.


        E por via das exéquias…

       Por se meter a pregar,

       É que se foi… que era rijo,

       Inda podia durar.


       D. – Eu não sei que lhe viesse

       Daí, moléstia de morte!

       Com o estudo… a vigília…

       Podia bem, que era forte!


        B. – Mas olhe cá, meu amigo,

      Aqui pra nós: – qu’ é vigília?…

       D. – Falta de sono. – B. – Isso, isso…

       Tudo por causa da Emília… 


        Um home que tem idade

       E quer fazer de rapaz,

      Metido nesses excessos,

       Não sabe a asneira que faz!


        Enfim, Doutor, vou-me à praça,

       Que deve agora estar cheia:

       – Até à noite, qu’ habemos 

      De bêr-nos   na Sumboleia.  

Supus desnecessário um glossário para os dislates do barão. Para os não iniciados registo apenas que Lucrécia Borga se refere à opera de Donizetti Lucrécia Borgia.

Noticia bibliográfica:

A Vespa do Parnaso! É um raro folheto com 53 páginas. Os poemas de Faustino Xavier de Novaes foram posteriormente incluidos nas suas Poesias. O frontespicio de A Vespa do Parnaso! acompanha este artigo.

O conteúdo de O Bico de Gaz, a menos do poema de Novaes, pode encontrar-se no volume II dos Dispersos de Camilo publicados por Júlio Dias da Costa em 1925 na Imprensa da Universidade de Coimbra.

 O DICIONÁRIO DE CAMILO CASTELO BRANCO de Alexandre Cabral, publicado, em 2ªedição revista e aumentada em 2003, pela Editorial Caminho é, com pequenissimas excepções, fonte de confiança sobre Camilo, os homens e as obras do seu tempo.

Nota à margem

É possivel que Camilo, com a cultura e o sarcasmo que lhe são conhecidos, quisesse significar o ânus com a expressão O Bico de Gaz, pois é a forma como o orgão é conhecido por terras do Ceará, no Brasil, de onde vinham enriquecidos alguns “Brasileiros” fustigados, por esses anos, na sua prosa e poesia.

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Um Peido Alfabético em verso, datado de 1710 – Autor Anónimo

13 Quarta-feira Abr 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Poesia Anónima, Poesia do Século XVIII, Poesia escatológica

Com uma enorme vénia ao editor pelo imenso prazer proporcionado com a leitura de tanta ignorada poesia portuguesa dos séculos XVII e XVIII, que o seu trabalho tem revelado, transcrevo este folguedo escatológico, como lhe chamou.

UM PEIDO ALFABÉTICO em verso, datado de 1710

Transmitido por três testemunhos manuscritos e anónimo em todos eles, … a  paródia  começa  por  se  revelar  ao  nível  dos  elementos paratextuais,  a  começar  pelo  cólofon:

«Com  licença  da  Câmara,  à  custa  da Limpeza»;

«Impresso em certa parte, na Oficina Secreta».

Também o desenho e o acróstico sublinham de imediato esta vertente subversiva do poema, apoiada num humor  por  vezes  bastante  feliz:

«É  Entendido porque  tudo  o  que  se  lhe  ouve  é muito fundo e ninguém lhe sabe responder com palavras».

Mas  a  parte  mais  interessante  da  obra  é,  sem  dúvida,  o  ABC,  que  adopta  a forma da oitava-rima. Cada estrofe é uma acumulação de sinónimos metafóricos, justificados de forma muito sucinta.

Peido Alfabético definido e explicado por um Mestre de Meninos de Lisboa

Para todos os autores que escreveram sobre a regra do ABC

Com licença da Câmara, à custa da Limpeza

Parte 2.ª

No ano de MDCCX

Impresso em certa parte, na Oficina Secreta

Tem o Peido em cada uma das letras do seu nome a melhor prova das suas virtudes, e em cada uma das suas virtudes se prova toda a grandeza do seu nome.

É Prudente porque ninguém o ouve diante de pessoas de autoridade; recolhe a prosa e, quando muito, larga pela boca pequena  algum  suspiro  ou  bocejo,  que  mal  o  percebem  os ouvidos,  ainda  que  o  entendam  os  narizes.

É  Entendido porque tudo o que se lhe ouve é muito fundo e ninguém lhe sabe responder com palavras.

É Inteiro porque ninguém o viu partido e porque se não sabe desdizer tanto que chega a falar.

É Desinteressado porque sempre dá, e de tal sorte que se dá a si mesmo.

É Orgulhoso porque finge várias formas para não ser   conhecido,   e   para   o   seu   intento   sai   quase   sempre disfarçado; com tudo se parece, mas nada o iguala, e melhor o louva a seguinte quintilha acróstica:

Para todos é igual
Este que Peido se chama.
Juntamente é bem e mal;
Dele corre boa fama
Onde se sabe o que vale.

Para quem ler

Com licença das barbas dos Leitores,
Veremos no Alfabeto, pois nos toca,
Que cousa é Peido e todos seus Louvores,
Para com isto se tapar a boca
A alguns reverendíssimos autores,
Cuja arrogância a tanto nos provoca;
Porque as sinificações que dão à vida
No nosso Peido têm melhor saída.

Ao seu discurso muito pouco deve
Quem mostra no ABC que é erudito
E que estas letras são as de que escreve,
Sendo assunto comum e infinito.
Responder aos seus livros bem se atreve
Qualquer rapaz dos meus, e por escrito!
Mas porque logo aqui se lhe responda,
O Peido também tem letra redonda.

Se no Peido consiste a nossa vida,
E se a vida do Peido é dependente,
Faltou a vida em Peido definida,
Que o Peido à vida é mais conveniente.
A vida é Peido se não tem saída,
O Peido é vida quando sai contente,
E pelo Peido a vida é, num instante,
Por detrás Peido, e vida por diante.

Argumento da Obra

A B C D E F G H I L M N O P Q R S T V X Z

A
É o Peido natural de que tratamos,
Para prova de tudo que dizemos,
Árvore de que os traques são os ramos,
Átomo tal que só com um olho o vemos;
É Ave que sem tiro não caçamos,
Abismo em que de riso nos perdemos,
Água de trovoada, e é Aurora
Que por um olho mesmo ri e chora.

B
É Banquete de cousa já comida,
Posto que os pratos sejam mal cheirosos,
É Bainha em que sempre vai metida
A espada dos narizes mais mimosos;
É Barranco em que certa está a caída,
É Baile de instrumentos, mas ventosos,
Em que todo o rojão é de assobio;
É Barro, porém Barro de Bacio.

C
É Cárcere em que tudo são fedores,
Cítara que apertada desafina,
É Carreira em que atrás vão os maiores,
É Casa em que ninguém co’a porta atina,
E fogem dela os mesmos moradores;
É Cana que com o vento abaixo inclina,
É Censura entre gente bem criada
E é Carga em todo o ventre bem pesada.

D
É Desterro cruel dos circunstantes,
Depósito fiel de todo o flato,
Demarcação das nalgas mais distantes,
Delírio do besbelho mais sensato;
Desacordo de quem dormia dantes,
Desafio da voz de qualquer gato,
Quando de dentro saï com voz cheia
E apertada no cu fica co’ meia.

E
É Espelho de vidro embaciado,
É Espinho que as almorreimas pica,
Engodo para quem não tem cursado,
Empréstimo que em casa sempre fica,
Estio quando é seco ou vem molhado,
Estopa que arde e o fogo não publica;
É Estrela de rabo, ou é cometa,
Mas a sua influencia é mais secreta.

F
É Fábula que finge voz humana,
A quem já venerou a Antiguidade,
Folha que de papel rasgada engana,
Fio podre que quebra de humidade;
É Flor que pelo cheiro desengana,

Faísca a que qualquer ventosidade
Faz acender, e é Feno que arde logo;
É Fantasma sem ser, Fumo sem fogo.

G
É Galé quando dentro está forçado,
E se acaso se solta sai fugido;
É Guerra em que o nariz é o soldado,
Só do fumo da pólvora vencido;
Girândola de fogo tão calado
Que se acende depois de ter ardido;
É Grimpa de tão fácil movimento
Que aponta aqui e ali com todo o vento.

H
Hospedagem de pobres quando há frio,
Hospital, mas é só dos enjeitados;
É Hora de cagar dada em bacio,
Que tem quartos traseiros e atrasados,
Horror porque o lugar é mui sombrio;
É História de casos engraçados,
Porque faz rir e acaba com estouro,
Holocausto, pois saï como um touro.

I
É Íris que aparece em trovoada
Por sinal de bonança aos flatulentos,
Incêndio cuja chama já apagada
Ainda faz fugir aos mais nojentos,
Inverno em tempestade desatada,
Porque sempre debaixo são os ventos,
Jogo do cu e Ironia, se bem noto,
E Imagem verdadeira de um arroto.

L
Labirinto se há muitos circunstantes,
Porque ninguém acerta com a saída;
É Lua que também tem seus minguantes,
É Laço em que afogar-se pode a vida,
Luz cujo morrão fede aos mais distantes;
É recolhido às tripas grande Lida,
É Luto, pois talvez chora no cabo
E também porque [sempre] sai de rabo.

M
Manhã que quase sempre traz orvalho,
Miséria quando a fralda se salpica;
É Moinho de vento sem trabalho,
Maná que em tudo fede em má botica;
É Música que canta por atalho,
Mas dos papéis a letra não explica;
Na pressa com que saï é Momento,
E a toda a parte corre como vento.

N
É Nau que sai das costas com tromenta
E largando os traquetes faz viagem;
É Noute que fantasma representa,
É Névoa de que só faz mal a aragem,
É Nuvem negra, como se exp’rimenta,
Porque lança trovões, mas de passagem;
Neve, mas de sorvete ou limonada,
E porque é ar o Peido, o Peido é Nada.

O
Do Sol da Índia o Peido é Oriente,
E por isso não luz neste Orizonte;
Lá debaixo aos Antípodas é quente,
Porque nasce entre um e outro monte;
Órgão que vaza o vento de repente,
Sem que ninguém o tanja nem aponte;
É Outono no muito que semeia
E é Orvalho se o cu tem diarreia.

P
Primavera de mal cheirosas flores,
De várias tintas é fresca Pintura,
Porque borradas se lhe vêm as cores;
É Pomo que apodrece e podre dura,
Porta que abrem Senhoras e Senhores,
Roncando-lhe a couceira e fechadura;
Péla que o vento vaza, mas no cabo
É Pó que se levanta e Pó Diabo.

Q
Questão entre os narizes e os ouvidos,
Mas sempre o nariz prova a consequência;
É Queixa porque se ouvem os gemidos,
É Queda que evitar pode a prudência,
Mas mais perigo têm os mais sofridos,
Pois no Peido também há continência;
Se há peleja ou revolta na barriga,
É Quitação que as tripas desobriga.

R
É Rio, porém Rio de Cuama,
Que de um olho entre montes nasce e corre
E por suas cascatas tem mais fama,
Mas não pode saber-se adonde morre;
É Raio que nos altos mais se inflama,
É Relógio que cursa e mais discorre,
É Roda, mas de traques Roda viva,
É Rosa, mas é Rosa purgativa.

S
É Seta que voando fere e mata,
É Sono porque ronca fortemente,
É Sonho de cagar sem patarata,
É Sombra porque assombra a muita gente,
Silogismo sutil que se desata
E que se prova logo em continente;
É Sumário de crimes muito atrozes,
É Solfa porque faz todas as vozes.

T
É Teia que se rasga, cujo pano
Tem só para fundilhos serventia;
Teatro em que as figuras são engano,
Transformação que faz a fantesia;
É Trânsito perciso a todo o humano,
É Tragédia que tem a Poesia,
De verso solto menos elegante,
Porque Peido não acha consoante.

V
É Vestido que em todo o corpo ajusta
E de todo o nariz sai à medida,
Vapor do cu que com o fedor assusta,
Vidro que para copo se convida,
Vento cuja tormenta muito custa,
Voz em todas as línguas entendida;
E para desengano da verdade,
É o Peido das tripas Vaidade.

X
É Xara porque corre velozmente,
É Xadrez, jogo só [de] desenfado,
E lhe quadra este jogo propriamente
Porque o Peido de estômago danado
É Rei, a Bufa Dama, e juntamente
Os traques são Peões, e está ganhado
O jogo só com o Xaque aos circunstantes,
Pois sem esperar mate fogem antes.

Z

Zizânia de visitas em estrado,
Onde a dúvida faz desconfiança,
Pois negando que é seu quem o tem dado,
Na roda se enjeitou como criança;
É Zunido ao nariz que causa enfado,
Zombaria que não se estranha em França,
Zodíaco que os sinos toca em cheio,
E é Zona que o cu parte pelo meio.

Noticia Bibliográfica:

Consta o poema Peido Alfabético definido e explicado por um Mestre de Meninos de Lisboa da publicação FOLGUEDOS ESCATOLÓGICOS INÉDITOS DO SÉCULO XVIII — Versos de Entrudo em metáforas fedorentas, uma Peidorrada e três Peidologias, editado pelo Professor Francisco Topa, em Edição do Autor, em 1998, no Porto.

Nesta transcrição suprimi a noticia das variantes assinaladas pelo editor, e respeitando às 3 diferentes versões manuscritas de que o autor refere a existência.

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Voltar a Veneza ao ler Kenneth Rexroth a pretexto de Gaspara Stampa

08 Terça-feira Mar 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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Gaspara Stampa, Kenneth Rexroth

Enquanto a luz de Canaletto / e de Guardi se torna em luz de / Turner,…

Ler estes versos faz-me voar a memória. O Carnaval acabara e raras máscara passeavam ainda a nostálgia de um tempo irremediavelmente sem regresso.

Vinte e cinco anos tinham passado.

Chegados a Santa Luzia e deixado o comboio, lá vamos levados pela multidão e arrastando o trolley pela calçada a caminho da cidade. A paragem do vaporetto fica longe do hotel, é melhor ir a pé.

O cheiro da cidade, o colorido do mar e, sobretudo, a luz, são os mesmos. Os reflexos vindos dos canais, a atmosfera do lugar, tudo permanece igual à memória. Com Veneza as memórias são inevitáveis. E o desejo irreprimível de flanar, olhar o mar, as pessoas, as ruas, descer a S.Marcos ao pôr-do-sol, intacto aí está. A perenidade da paisagem dá-nos o sentido da eternidade.

Mas vamos à cidade. Acabado o Carnaval, turistas são poucos. O sol brilha a espaços, e o frio da laguna desperta todos os sentidos mal pomos pé fora do hotel.

De novo a luz. O deslumbre do olhar é a constante do dia. Ao longo das horas os mesmos locais mudam de atmosfera mantendo sempre o encanto inesquecível. São os jogos de reflexão na água  e a variação da luz nas fachadas e palácios que inebriam e encantam.

Em Veneza passear é ir ao sabor dos cheiros, dos pormenores das esquinas, e perder-se no labirinto de ruelas e pontes. Descobrir a cada passo o detalhe que comove e enche a alma do prazer de ser surpreendida. Depois, há as igrejas, anódinas na fachada e todas, sem excepção, repletas de tesouros no interior, tantos deles por descobrir, afastadas que estão dos guias que fazem correr os turistas. Como valem a descoberta!

Os museus desmancham quaisquer planos e a excitação aumenta com as descobertas. A pintura de Tintoreto, agora restaurada, resplandece na Scuola S. Rocco. Os retratos a pastel de Rosalba Carrera são a revelação. Afinal ainda há pintura a descobrir.

Outro dia é para a Galeria della Academia. Os olhos vêem, mas a mente não retém. É demasiada beleza concentrada. Temos que voltar.

E as pessoas. Os venezianos são poucos. Habitam a cidade, mantêm-na vida. Saturados dos turistas guardam educadamente as distâncias. É preciso tempo em Veneza para que ela e eles se deixem conhecer. Forasteiros são muitos. Alguns ficam presos para sempre. Outros desejam voltar a Veneza e morrer.

Para um melómano o ar de Veneza trás à lembrança Wagner, Stravinski, e sobretudo, Vivaldi de cuja musica, mesmo a religiosa, salta uma irreprimível vontade de viver. É a melhor associação que faço a Veneza.

Para o fotógrafo, Veneza é uma dádiva. As cambiantes da luz com o passar das horas, o inesperado dos pontos de vista e a irresistível paisagem, criam a urgência do regresso quando a partida é inevitável.

Voltar, ter tempo para estar, para olhar, para sentir, para descobrir.

A Veneza podemos voltar, mesmo quando lá fomos felizes. Sempre.

Mesmo quando

Tudo o que tenho por companhia / são as duas metades do meu coração.

Afinal comecei e acabei o texto com versos de um poema de Kenneth Rexroth (1905 – 1982), NUMA PÁGINA DAS “RIME” DE GASPARA STAMPA.

Poeta norte – americano, figura participante do grupo em torno de quem a Beat Generation se desenvolveu, é mal conhecido em Portugal.

É de novo pela mão de Jorge de Sena que nos chegam algumas traduções entre as quais as que aqui transcrevo.

 

NUMA PÁGINA DAS “RIME” DE GASPARA STAMPA

Enquanto a luz de Canaletto

e de Guardi se torna em luz de

Turner, e as cúpulas da Salute

começam a absorver a tarde,

bebo chocolate e Vecchia

Romagna, esse tão estimável

brandy, na esplanada do

Café Internacional,

e leio estas ardentes

páginas que se estorcem. O amor foi

também para ti uma agonia, Signora,

e deu em nada depois

de um preço tão terrível.

Envolto nos sussurros

do fim do dia nesta cidade quieta,

aonde o mais sonoro som humano

é o de passos, estou sozinho

com a minha vida. Na noite passada

tomei uma gôndola até além da Giudecca,

directamente dentro do luar.

Quando voltei os frades

cantavam as matinas em San Giorgio

Maggiore. E penso em se é possível

estar-se mais só do que numa gôndola

em Veneza, à luz da lua cheia

de Junho. Tudo o que tenho por companhia

são as duas metades do meu coração.

Depois do poema-pretexto para voltar a Veneza, mais dois poemas do autor em tradução de Jorge de Sena, acompanhadas dos respectivos originais.

O ABUTRE

São Tomás de Aquino pensava

que a fêmea era lésbica

e o vento a emprenhava.

Se buscas os factos da vida,

os intelectuais papistas

podem ser muito enganadores

Vulture
St. Thomas Aquinas thought
That vultures were lesbians
And fertilized by the wind.
If you seek the facts of life,
Papist intellectuals
Can be very misleading.

O LEÃO

É o chamado rei

dos animais. De hoje em dia

há tantos em jaulas

quantos os há fora delas.

Se te oferecem uma coroa, recusa.

Lion
The lion is called the king
Of beasts. Nowadays there are
Almost as many lions
In cages as out of them.
If offered a crown, refuse.

Saber mais sobre Kenneth Rexroth (1905 – 1982):

Na página http://www.bopsecrets.org/rexroth/ pode ser encontrada informação abundante e fiável sobre este notável autor, tradutor, e cultor de um espírito universalista raro em escritores norte-americanos.

Se do nosso poeta sabemos pouco em Portugal, que dizer da personalidade e da obra de Gaspara Stampa (1523 – 1554)?

Embora para os conhecedores de Rilke não seja um nome desconhecido, pois foi este quem a colocou como emblema dos amantes a quem a infelicidade fez maior que o próprio destino ao referi-la na Primeira Elegia de Duíno, e sobretudo nos Cadernos de Malte Laurids Brigge, onde a compara com Soror Mariana Alcoforado, encontrar a sua poesia traduzida em português é procurar agulha em palheiro.

Vasculhadas as antologias que encontrei à mão é  na insubstituível Rosa do Mundo p.877, que encontro a tradução do Soneto CCVIII de Gaspara Stampa da responsabilidade de Jorge Henrique Bastos:

O amor transformou-me em fogo vivo,

como uma nova salamandra no mundo,

tal como o animal menos raro

que no mesmo sitio nasce e morre.

 

Todo o meu prazer e o deleite

é viver ardendo e não sentir dor,

sem preocupar-me com quem me impele

se tem ou não alguma piedade de mim.

 

Apenas o primeiro ardor estava extinto

foi outro a incendiar o Amor, ainda mais vivo

e maior do que todos os que provei.

 

Não me arrependo de arder de Amor,

se alguém roubar de novo o meu coração

há-de ficar com o meu ardor satisfeito.

 

E a versão original em italiano:

Soneto CCVIII

Amor m’a fatto tal ch’io vivo in foco,

qual nova salamandra al mondo, e quale

l’altro di lei nom men stranio animale,

que vive e spira nel medesmo loco.

 

Le mie delizie son tutte e ‘l mio gioco

viver ardendo e non sentire il male,

e non curar ch’ei che m’induce a tale

abbia di me pietà molto ne poco.

 

A pena era anche estinto il primo ardore,

che accese l’altro Amore, a quel ch’io sento

fin qui per prova, più vivo e maggiore.

 

Ed io d’arder amando non mi pento,

pur che chi m’ha di novo tolto il core

resti de l’arder mio pago e contento.

A obra de Gaspara Stampa, morta aos trinta e um anos, foi publicada pela irmã no ano da sua morte. Consta de 311 sonetos, elegias e madrigais.

Ao que sei, apenas em italiano é possível encontrar em volume a obra completa, disponível em edição de bolso da Rizzoli.

Em francês, a edição de uma antologia bilingue com tradução de Sophie Basch, e uma modelar apresentação pela tradutora, é mais uma das pérolas da colecção Orphée publicada pela editora La Différence.

 

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Com Camilo em viagem

29 Quarta-feira Dez 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga

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Camilo Castelo-Branco

Em viagem, um qualquer volume da obra de Camilo em papel bíblia é companhia preciosa.

No pouco peso de um livro temos mil páginas do melhor de Portugal. Saboreamos a língua, contactamos os costumes, encontramos conhecidos e contrastamos o nosso apego à imobilidade com a visão do mundo que passa.

Desta feita carreguei-me com os volumes X e XI. Poupo a descrição do conteúdo dos volumes e salto para o que aqui me traz, o Cancioneiro Alegre, irrepetível colecção de poesias entre o despautério e a mais cintilante graça.

Nesta quadra de fartas comesainas, quando o prazer da mesa encontra as tradições pantagruélicas, um poema na tradição herói-cómica e de especial assunto, incluido no Cancioneirio e atribuido a um Anónimo, deu-me a medida da continuidade que nos garante o lugar no mundo.

Longe que estou dos instrumentos do saber, não consegui averiguar se, tal como suspeito, o poema é da autoria do próprio Camilo.

Compõe-se o poema de quinze décimas distribuídas por três partes. Tem uma introdução em quatro sextilhas e termina de novo numa sextilha. A extensão do poema, UM JANTAR DE BARÕES,  levou-me numa primeira fase, e para evitar indigestão, a pensar ater-me apenas à sua transcrição parcial. À medida que avançava na transcrição, pareceu-me inaceitável qualquer corte, tal a preciosa concatenação de episódios de que o poema dá conta.

Após uma invocação às musas pedindo inspiração para tão árduo cometimento: Musa da sopa e do cozido, inspira-me! /… / Transforma o estro meu em lombo assado; / Da minha inspiração faz um pudim., na primeira parte do poema temos a descrição do Barão: D’Alcatruzes é chamado, / Porque, sendo ainda moço, / Muitos baldes d’água fresca / Dizem que tirou dum poço. E mais adiante: É barão; não vale a pena / Discutir-lhe os nobres feitos; / É barão dos Alcatruzes, / Já tem pagos os direitos.

A segunda parte apresenta-nos os comensais em acto após anunciar o banquete: Da terrina a caudal sopa / Em silêncio é devorada. / Só então fingiram d’homens, / Porque não disseram nada. / Mas venceu a natureza!, e é ouvi-los pela voz do poeta.

Chega a terceira parte, e com ela o pós-pasto, com brindes e discursos como o inenarrável chorrilho saido da boca do barão de Pimpinelas, e onde o barão literato faz o pleno do despautério com “Repercutem, simbolizam / Acrimónias insolúveis, / Nos acrósticos volúveis / D’epopeias que eternizam / …” e por aí fora. Refere-nos o poeta como Sucedeu o grito ao pasmo! / Nunca se viu coisa assim!.

O epílogo relata de forma sucinta o rescaldo de tão lauto festim: E a pândega findou. Mas alta noite, / Disseram-nos fiéis informações / Que grande movimento houve de tripas,…

Para além do retrato da boçalidade dos convivas, titulares de nobreza paga a contado, para quem a ignorância da língua é um estatuto, e que Camilo amplamente fustigou nos seus romances, temos no poema vasta matéria de sátira social para comportamentos bem perto de nós.

Para garantir que as continuidades existem, mesmo sem barões dos Alcatruzes ou Asnos de Puxar Nora, refiro o que já aboquei neste remanso de férias.

Longe do cosmopolitismo culinário da capital e ainda que a televisão tente fazer alguma mossa na tradição, já apareceu na mesa, e destaco: cordeiro de leite vindo expressamente de Trás-os-Montes (só não sei se deixou alguma pastora chorosa) assado com castanhas, de lamber beiços e dedos (pois segurar os ossos é de lei). Houve também cataplana de mariscos, de comer até rebentar, feijoada de lingueirão a pedir para não ficar na panela, uns cascabulhos (ostras) abertas ao calor e camarão da costa. O peixe para grelhar faltou pois o mar não tem estado de feição, mas prometem-me para amanhã caldeirada de eirozes.

Dos mimos não sei se fale. Broas de cobiçada receita que leva três dias a cozinhar, e os fritos! filhós com mel: de flor, simples, e dobradas; empanadilhas com recheio de batata doce e amendoa; fatias douradas (rabanadas), sonhos de desfazer na boca, bolinhóis tenros como manteiga. Já agora conto dos doces, bolos sobretudo, e de amendoa evidentemente (a torta, o morgado, o toucinho do céu, os engana-visitas, os olhos de sogra, etc) mas também o folhado de Tavira, o pastel de Londres e o casado, para matar saudades. E isto para não falar do aportuguesado bolo inglês, perdição de quem está à mesa.

Páro aqui. Chamam-me para umas ameijoas à Bulhão Pato e por isso vos deixo com UM JANTAR DE BARÕES.

Bom ano 2011


UM JANTAR DE BARÕES


Invocação

Musa da sopa e do cozido, inspira-me!

Pândega musa, que sorris ao vate

Em molho de açafrão, e de tomate,

Um cego adorador… achaste em mim:

Transforma o estro meu em lombo assado;

Da minha inspiração faz um pudim.


Tu, filha dos barões, musa do unto,

Nasceste na cozinha entre caçoilas;

Saudaram-te no berço alhos, cebolas,

Do cominho tiveste uma ovação;

Depois, trajando galas de toucinho,

Eu vi-te nas bochechas de um barão.


Namorado de ti, fiz-te meiguices

Por detraz de um peru, e tu de lá

Sorriste-me através da nédia pá

De vitela gentil, rica de arroz!

Ai! era!… e nem eu sei se foi mais linda

Aquela gorda pata… que te pôs!


Tu fizeste de mim um novo Cláudio,

Inspiraste-me a fé num rodovalho.

Traguei indigestões, arrotos d’alho,

Bernardas na barriga suportei.

Tomei chá de macela… e, em prémio disto,

O teu auxilio, ó musa, não terei?!


I

Dentro e fora iluminado

O palácio dum barão,

Fulgurante representa

Um enorme lampião.

Jorram límpidas vidraças

Sobre as populosas praças

Ondas trémulas de luzes.

Vai lá dentro grande gozo,

Nesse alcáçar radioso

Do barão dos Alcatruzes.


D’Alcatruzes é chamado,

Porque, sendo ainda moço,

Muitos baldes d’água fresca

Dizem que tirou dum poço.

Nenhum outro mais destreza

Revelou na árdua empresa

De puxar acima um balde.

Um que seja tão robusto

Há-de vir mui tarde e a custo

Do concelho de Ramalde.


É barão; não vale a pena

Discutir-lhe os nobres feitos;

É barão dos Alcatruzes,

Já tem pagos os direitos.

Inda é mais; pois, além disto,

É comendador de Cristo

Com bastante indiscrição.

Mal diria Cristo, outrora,

Que seria posto agora

No peito dum vendilhão!


E mais ele, que os tocava

Com terrivel azorrague!

Mas os Judas vendem Cristo,

Ponto é haver quem pague.

E o barão dos Alcatruzes

Neste século das luzes

Também fez de fariseu.

E, também, se necessário,

Representa de Calvário

Onde a cruz se suspendeu.


II

Num salão vasto, opulento

Um banquete se vai dar;

Nos cristais reflecte o ouro

A fulgir, a cintilar.

Os rubis e a cor da opala

Transfiguram esta sala

Em olímpicas mansões.

Mas a alma cai por terra

Quando vê que ali se encerra

Dúzia e meis de barões.


Da terrina a caudal sopa

Em silêncio é devorada.

Só então fingiram d’homens,

Porque não disseram nada.

Mas venceu a natureza!

Um barão por sobre a mesa

Estendendo o prato diz:

“Ó compadre!isto é qu’ébô!

Venha sopa, e acabô!

Cá de mim torno à matriz!”


O barão de Cogumelos,

Junto estando à baronesa

Que se diz dos Sacatrapos,

Quis fazer-lhe uma fineza.

Arrastou pra junto dela

Um peru, e a cabidela

No prato lhe despejou.

E lhe diz: “Cá isto é nosso;

Coisa que não tenha osso

É pró estâmago, e arrimou!”


Outro diz à gorda esposa

Que bem perto de si tem:

“Bai-le bobendo po’riba,

Ó mulher, come-le bem!”

Este pede ao seu vizinho

“Que lh’atice bem no binho

Qu’é da bela Companhia.”

Diz aquele ao seu fronteiro

“Que lhe chegue um frango inteiro,

E biba a santa alegria!”


III

As saúdes já começam;

É um gosto agora vê-los:

Estas caras representam

Tomates de cotovelos

E, através do escarlate

Do legítimo tomate,

Transuda um óleo que brilha.

Cada qual tem as orelhas

Encarniçadas vermelhas

Como as asas de uma bilha.


Pega no copo e exclama

O barão de Pimpinelas:

“Vito sério! um home fala

Sem preâmbulos nem aquelas!

À saúde e alegria

Desta bela companhia

E com toda a estifação!

Pra que todos cá binhamos

Estifeitos como bamos

De casa do sor barão!”


E os hurras retumbaram

Pela sala do festim!

Baltasar nos seus banquetes

Nunca ouviu gritar assim!

Sobre a mesa deram murros,

Saudaram com grandes urros

O barão dos Alcatruzes;

Mas alguns com mágua sua,

Já cuidavam ver a Lua,

Não podendo ver as luzes.


Mas, entre eles, um existe,

Literato em seu conceito,

A palavra pede, e reina

Um silêncio de respeito.

Ele diz: “Risonhas galas

Que refrangem nestas salas

Repercutem, simbolizam

Acrimónias insolúveis,

Nos acrósticos volúveis

D’epopeias que eternizam.


Pandemónios exauríveis

De indeléveis congruências,

Requintados se escurecem

Nos empórios das ciências

E libérrimos se escudam

Nas facanhas que transsudam

Em fantasiosas luzes.

E, portanto, a mais aludo,

Quando, férvido, saúdo

O barão dos Alcatruzes!”


Sucedeu o grito ao pasmo!

Nunca se viu coisa assim!

O orador foi abraçado

Com furor, com frenesim!

“Isto é qu’é!” dizia um,

Convertido em rubro atum,

Beterraba até não mais.

“Viva Cic’ro!” outro dizia,

Despejando a malvazia

Com grasnidos infernais.


IV

E a pândega findou. Mas alta noite,

Disseram-nos fiéis informações

Que grande movimento houve de tripas,

E grande salto deram as torneiras

Das pipas convertidas em barões

Ou, antes, dos barões tornados pipas.

Aditamento

Pouco depois de ter escrito este artigo, constatei que o poema Um Jantar de Barões era efectivamente de Camilo Castelo Branco como no corpo do texto suspeitei, e foi previamente publicado em FOLHAS CAÍDAS APANHADAS NA LAMA.

Entretanto, o tempo passou e não mais recordei actualizar a informação no post, o que agora faço.

Este FOLHAS CAÍDAS APANHADAS NA LAMA foi por sua vez referido no blog a propósito do folheto A Vespa do Parnaso, num artigo/paródia a pretexto da Nova poesia Portuguesa em … 1854.

 

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DUARTE DIAS – Poeta Português do Séc. XVI

12 Sexta-feira Nov 2010

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Duarte Dias

Os poetas daquele século XVI cuja poesia tanto me emociona, foram sobretudo homens temperados nas lutas do seu tempo, em quem a memória e a experiência de ver matar e morrer, e cujo

…  destino, / Atormentado de perpétua guerra, / Me leva por mil mares peregrino.

fez conhecedores dos desconcertos do mundo e da precaridade da vida, permitindo-lhes discernir e dar valor a  Ua rara beleza, ua figura / Que me faz ver na terra o paraiso. ou seja, o que é essencial na vida e faça valer a pena vivê-la:

Hoje venho com um poeta cuja poesia dormia no pó de bibliotecas até há quase vinte anos. De então para cá pouco mais leitores terá encontrado.

Falo de Duarte Dias, poeta português do século XVI nascido no Porto, cuja obra VÁRIAS OBRAS DE DUARTE DIAZ EM lingoa Portuguesa e Castelhana foi publicada pela 1ªvez em Madrid, por Luis Sanches, em 1592.

Dá conta António Cirurgião, na moderna edição critica que fez da obra, editada em 1991, da existência de apenas 2 exemplares de VÁRIAS OBRAS DE DUARTE DIAZ EM lingoa Portuguesa e Castelhana: um na Biblioteca Nacional de Madrid e outro na Hispanic Society of America.

É provavelmente relevante referir que à data da 1ª edição do livro, 1592, estavam ainda por publicar as obras de Sá de Miranda (1595), de António Ferreira (1598), de Diogo Bernardes (1596,1597,1616) e as Rimas de Camões (1595,1598,1616) para referir apenas obras ainda publicadas no século XVI.

A raridade da obra e o anátema que ainda hoje paira sobre a obra dos poetas que se encontraram ao serviço dos Filipes (veja-se D. Francisco Manuel de Melo cujas OBRAS MÉTRICAS apenas connheceram 2ªedição em 2006 e são um caso sério para se obter) talvez explique o silêncio de histórias de literatura sobre o poeta.

 

Escolhi para aqui deixar, 6 sonetos entre os 60 que o livro contém, num total de 115 poesias.

Tentado a destacar um ou outro verso de cada soneto, desisti. A coerência dos poemas seria perdida.

A excelente edição crítica que segui comenta de forma inteligente e erudita todos os poemas. Convido o leitor interessado a lê-la.

 

Agora os sonetos:

Logrando estou, senhora, um brando riso

Daquela doce boca e vista pura

Ua rara beleza, ua figura

Que me faz ver na terra o paraiso.


Logrando estou o delicado aviso,

A luz que torna dia a noite escura

O claro sol, a nova fermosura

Que abrasa o pensamento e perde o siso.


Logrando estou a graça peregrina,

A trança dos cabelos de ouro fino

Que em diferentes laços me arremata:


E quem logra tisouro tão divino

Claramente delira e desatina,

Se dele [se] apartar por ouro ou prata.

p.122

 


Em tanto que o cabelo de ouro fino

Rodea alegremente a linda testa;

Em tanto que descobre e manifesta

Rosas e neve o rosto cristalino;


Em tanto que respira um ar benino

O brando parecer em grata festa;

Em quanto nessa luz alegre assesta

Cem mil setas o inclito menino;


Colhei, senhora minha, o doce fruto,

Antes que tolde e cubra o tempo avaro

De aborrecida neve o fresco cume:


Ah! não tardeis: olhai que corre muto,

Olhai que tudo leva, olhai que em claro

Tudo nos arrebata e nos consome.

p.139

 


Não são estes os rios, doce amigo,

Que com as minhas lágrimas creciam?

Não são estes os vales que sabiam

Quanto de amor eu suspirei comigo?


Não são estes os montes que consigo

O meu triste segredo recolhiam?

Não são estes os árvores [*] que ouviam

Os queixumes que só a Tirse digo?


Oh ricos preços, oh fermosa terra,

Que negra sorte, que contrário sino,

Dos teus amados termos me desterra?


Em fim parto de ti, que o meu destino,

Atormentado de perpétua guerra,

Me leva por mil mares peregrino.

 

[*] – árvore era substantivo masculino.

p.99

 


Doce esperança, pretensão perdida,

Cego desejo, errado pensamento,

Sospiros que contino leva o vento,

Dai-me já paz na minha triste vida.


E se não pode em pena tão crecida

Valer, ou socorrer esquecimento,

Tome correndo o ultimo tormento

Os despojos de ua alma entrestecida.


Recreça a dura e tenebrosa sorte,

Que a mais estranha dor me será leve

A respeito do mal que tanto sinto.


Lágrimas, confusão, estrago ou morte,

Todo se me figura, tudo pinto,

Que passará como desgosto breve.

p.102

 


Parte-se o gosto meu, parte-se a vida

De quem jamais o pensamento parte,

Mas não creais de mim que seja parte

De me apartar de vós esta partida.


Parte-se o coração, mas esculpida

Vossa figura vai na melhor parte,

E parte-se a minha alma, mas não parte,

Que nesses olhos fica recolhida.


Oh quanto melhor fora se passara

Em sospiros e lágrimas ardentes

E na vossa presença descansara,


Que provar o furor dos acidentes

Que minha dura sorte me prepara,

E já do meu receo estão presentes!

p.80

 

Nota erudita:

De notar o emprego da mesma palavra em diferentes formas gramaticais (poliptoto) e o uso de diferentes palavras formadas a partir do mesmo radical (cognatos de partir) num processo poético tão caro a alguma vanguarda na poesia portuguesa dos anos 60 do sec. XX.

 


Calava o mar, calava o fero vento,

Calava o alto Céu, calava a terra,

Calava a mansa noite, que desterra

A pena do cansado pensamento;


Calava o passarinho sonolento,

E, chea de animais, calava a serra.

Calava o vale, sem lhe fazer guerra

Do ar o buliçoso movimento.


Calava o manso rio, convertido

Em doce esquecimento, e, se corria,

Apenas de si mesmo era sentido.


Tudo um brando silêncio adormecia:

Só o triste Tireno, perseguido

Em varios pensamentos, se afligia.

p.121

 


E com este brando silêncio me despeço, deixando o poeta lá onde repousa, provavelmente já não afligido, nos seus próprios pensamentos.


Notícia Bibliográfica:

VÁRIAS OBRAS EM LÍNGUA PORTUGUESA E CASTELHANA foi uma edição da Fundação Caloute Gulbenkian – Centre Culturel Portuguais/Paris, publicada em 1991, e de que ainda o ano passado, 18 anos após a edição, comprei na própria Fundação 2 exemplares.

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Entre a Idade Média e Jorge de Sena, uma questão de lingua

10 Sexta-feira Set 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga

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João Airas de Santiago, João Garcia de Guilhade, João Soares Coelho, Jorge de Sena, Natália Correia

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A linguagem do amor tem na língua o seu principal trunfo e por vezes um grande problema, isto quando, por vergonha, gestos de proverbial eficácia são afastados do horizonte da comunicação. Raramente apenas a linguagem dos dedos constitui um substituto eficaz. No entanto, a combinação de ambos pode traduzir-se num sortilégio de afrodisíaco efeito.

O detalhe do percurso da língua é seguramente mais adequado para um menu e aqui pretenderemos apenas abordar questões de léxico, sem procurar pôr em evidência a sumptuosa satisfação que o sabor da língua pode provocar.

Há palavras que se deixam pronunciar melhor que outras, e do encontro de línguas resulta muitas vezes uma linguagem de desejo em que o fogo surge, qual fósforo sobre palha seca, conseguindo mesmo humedecer zonas onde a língua depois passeia com efeito avassalador.

Muitas vezes não há palavras para descrever o êxtase, outras, a conotação obscura inibe os protagonistas do uso da lingua de as aplicar.

Um inventário exaustivo de palavras portuguesas de origem erudita ou vulgar para retratar todas estas actividades do amor, reduz-se ao parco conjunto que todos conhecem. Menos lhes conhecerão a antiguidade.

Na verdade, depois das palavras antigas, usadas sem alteração durante séculos, apenas a lingua francesa trouxe alguma frescura e sofisticação a uma actividade que vivia quase sem palavras.

Socorro-me de dois poemas de João Garcia de Guilhade incluídos no Cancioneiro Medieval – Cantigas de Escarnio e Maldizer, para ilustrar a antiguidade de cono e foder

Poema 166

Martim jograr, que gram cousa:

já sempre com vosco pousa

vossa molher!


Vedes m’andar morrendo,

e vós jazedes fodendo

vossa molher!


De meu mal nom vos doedes,

e moir’eu, e vós fodedes

vossa molher!



Poema 167

Martim jograr, ai Dona Maria,

jeita-se vosco já cada dia,

e lazero-m’eu mal


And’eu morrend’e morrendo sejo,

e el tem sempr’o cono sobejo,

e lazero-m’eu mal


Da mia lazeira pouco se sente;

fod’el bom con[o] e jaz caente,

e lazero-m’eu mal.


Acrescento este outro de João Soares Coelho a propósito de impotência masculina, talvez causada por doença venérea como defende o trovador:

Poema 198

Luzia Sánchez, jazedes em gram falha

comigo, que nom fodo mais nemigalha [nemigalha/d’ua vez – nunca mais de uma vez]

d’ua vez; e, pois fodo, se Deus mi valha

fiqu’end’afrontado bem por tercer dia.

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


Vejo-vos jazer migo muit’aguada,

Luzia Sánchez, porque nom fodo nada;

mais se eu vos per i houvesse pagada,

pois eu foder nomposso, peer-vos-ia.   [peer – peidar]

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


Deu-mi o Demo esta pissuça cativa,

que já nom pode sol cospir saíva

e, de pram, semelha mais morta ca viva,

e se lh’ardess’a casa, nom s’ergeria.

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


Deitarom-vos comigo os meus pecados;

cuidades de mi preitos tam desguisados,

cuidades dos colhões, que tragu’inchados,

ca o som com foder e é com maloutia  [doenças (venéreas)]

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


e aqui encontramos “aguada” para tesão e colhões sem modificação. Aparece-nos ainda “pissuça” para pénis, provavelmente forma anterior da piça de hoje que os franceses também aproveitam levando mais longe o termo com o verbo “pisser” para urinar.

As palavras são poucas mas o acervo é vasto pelo que apenas transcrevo mais um poema deste mesmo João Soares Coelho em que parece tratar de um adultério, ainda que a controvérsia exista entre especialistas

Poema 192

Joam Fernándiz, mentr’eu vosc’houver

aquest’amor que hoj’eu com vosqu’hei,

nunca vos eu tal cousa negarei

qual hoj’eu ouço pela terra dizer:

dizem que fode quanto mais foder

pode o vosso mouro a vossa molher.


[E] pero que foss’este mouro meu

já me teria eu por desleal,

Joam Fernándiz, se vos negass’eu

atal cousa qual dizem que vos faz:

ladinho como vós jazedes, jaz

com vossa molher, e m’end’é mal.


E direi-vos eu quant’en vimos nós:

vimos ao vosso mouro filhar

a vossa molher e foi-a deitar

no vosso leit’; e mais vos eu direi

quant’eu do mour[o] aprendi e sei:

fode-a como a fodedes vós.


Perante tantas das palavras dos poemas modificadas ou caídas em desuso com a evolução da língua, espanta como em mais de 700 anos, esta meia-duzia ligada ao sexo permanece inalterada.

Na verdade, no que à linguagem do amor respeita, existem no português moderno tanto limitações de léxico como limitações de formas verbais.

Os verbos enquanto formas linguísticas de expressão da acção, são não só poucos como insuficientes para cobrir em português todas as praticas sexuais conhecidas, deixando assim a língua impossibilitada de transmitir aspectos essenciais da actividade humana com a ênfase, o rigor e a precisão adequados.

Exemplificarei algumas dessas limitações com a actividade sexual mais vulgar, a união dos sexos de duas pessoas. Chamam-lhe pudicamente (?) “fazer amor”. Ora quem ama sabe que o amor não se faz. Nasce, surge, acontece, existe e extingue-se, mas não se faz. Ao que em português agora se chama fazer amor deveria dar-se outro nome.

Escrever a frase  “depois daquela tragédia precisava fazer amor não importava com quem” ou a frase “depois daquela tragédia precisava foder não importava com quem” não são uma e a mesma frase. Em amor, o que importa é com quem. É até a única coisa que importa, daí a desadequação da expressão neste contexto.

A expressão poderá ser aceite em poucas situações. Por exemplo: em publico, dois amantes entreolham-se e a intimidade do olhar permitirá dizer – Vamos fazer? Amor. E aqui “fazer” substitui “foder” num contexto de obsceno interdito.

O problema com a palavra foder para designar esta actividade prende-se com o significado de insulto que também reveste na expressão “vai-te foder” que mancha a união sexual voluntária de duas pessoas com um estigma soez.

Regresso  às Cantigas de Escárnio e Maldizer e a João Garcia de Guilhade para ilustrar estes dois significados de foder – fornicar e lixar. De acordo com Graça Videira Lopes o significado “lixar” deve até ser a primeira leitura do poema:

Poema 164

Elvira lópez, que mal vos sabedes

vós guardar sempre daqueste peom

que pousa vosc[o], e há coraçom

de tousar vosqu’, e vós nom lh’entendedes;

hei mui gram medo de xi vos colher

algur senlheira; e se vos foder, [senlheira – sózinha]

o engano nunca lho provaredes.


O peom sabe sempr’u vós jazedes,

e nom vos sabedes dele guardar

siquer poedes [em] cada logar

vossa maeta o quanto tragedes; [maeta – maleta]

e dized’ora, se Deus vos perdom:

se de noite vos foder o peom,

contra qual parte o demandaredes?


Direi-vos ora como ficardes

deste peom, que tragedes assi

vosco, pousando aqui e ali:

e vós já quando que ar dormiredes

e o peom, se coraçom houver

de foder, foder-vos-á, se quiser,

e nunca del[e] o vosso haveredes.


Ca vos diredes: – Fodeu-m’o peom!

E el dirá: – Boa dona, eu nom!

E u las provas que [vós] lhi daredes?


Tratados que estamos com a antiguidade do foder, temos ainda o caso da palavra fornicação, ou do verbo fornicar, ou então a palavra coito, da qual nem sei se se aplica coitar, pois coito reveste um significado de passado ex: ”houve coito ou não?” e aí é quase uma inquirição policial. Imagine-se o leitor a pensar “esta noite vou coitar com o meu amor”, que tal?

Voltando a fornicação ou fornicar são qualquer delas palavras monstruosas para referir uma actividade magnífica.

Não obstante  fornicação evocar algum contorcionismo, falta-lhe, no entanto, o calor envolvente que caracteriza o acto. Dificilmente se consegue aceitar “que boa fornicação” e então “esta noite sonhei que fornicava a Marylin Monroe” não é sonho que se descreva por estas palavras.

Mas este deambular trazia como propósito a elucidação de que felizmente o francês nos socorreu com a adequada palavra para a actividade sexual envolvendo a língua, sendo certamente incerto que alguém, mesmo com propensão erudita, manifeste em voz alta desejo daquele cunilinguus de tão dificil pronuncia. A tempo o francês  com a sua minette resolveu-nos o problema da forma que Jorge de Sena nos esclarece como segue:

EM LOUVOR DA LÍNGUA PORTUGUESA

Tão forte e tão hipócrita que até

usa nome francês para dizer

o que – heroicamente – faz

todos os dias

à cona da mãe.

É a esta actividade que durante largo tempo a humanidade ocidental chamou “beijo impudico” ainda que não deixasse de o praticar. E é de novo das Cantigas de Escárnio e Maldizer que me socorro  para deixar aqui um poema sobre este mesmo cunilinguus chamado, desta vez da autoria de João Airas de Santiago


Poema 144

Dom Beeito, home duro,

foi beijar pelo obscuro

a mia senhor.


Come home aventurado,

foi beijar pelo furado

a mia senhor.


Vedes que gran desventura:

beijou pela fendedura

a mia senhor.


Vedes que moi grand’abaco:

foi beijar polo buraco

a mia senhor.


A editora do poema aventa a qualificação de home duro feita pelo trovador a D. Beito como hipótese de ironia à sua impotência. É provavelmente uma interpretação restritiva na medida em que desconhecemos qual a conotação em termos da imagem da masculinidade, que o “beijo impudico” revestia, não obstante a controvérsia entre trovadores sobre o assunto conhecida como “affaire Cornilh (1161)”, a qual modernas interpretações defendem que afinal respeita ao desejo de Madame Ayma ser primeiro lambida no cu para conceder os seus favores a Bernatz de Cornilh.

Sabendo que questões de língua devem ser um prazer interminável e não uma sensaboria fico-me por aqui, esquecendo controvérsias de especialistas e questões teóricas em torno da leitura destes poemas.

Uma leitura mais profícua exige um comentário em contexto com as características e temas destas composições. Os leitores interessados encontram-nos nas publicações de especialistas. Neste artigo apenas a curiosidade da linguagem ditou a escolha. Deixo agora a nota bibliográfica que é de justiça.

Noticia bio-bibliográfica

Encontramos noticia sobre a vida e obra dos nossos trovadores no Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, publicado em 2ª edição pela Editorial Caminho em 2000.

Aí, sob as entradas Johan Airas de Santiago e Johan Garcia de Guilhade, encontramos detalhada informação sobre a obra de ambos e algumas circunstância biográficas conhecidas.

Importa aqui reter que ambos são poetas vivendo no sécul XIII, a compor ao tempo de Afonso X de Castela e do nosso rei D.Dinis, sendo substancialmente mais novos que este. De Johan Garcia de Guilhade sabe-se que é já adulto em 1239.

Nas trancrições  dos poemas medievais usei a edição de Graça Vieira Lopes das Cantigas de Escárnio e Maldizer, publicada pela Editorial Estampa em 2002, no âmbito da colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa. A numeração que identifica os poemas neste artigo é a atribuída nesta edição.

O poema de Jorge de Sena integra o ciclo “EM LOUVOR DA BOA LINGUAGEM” publicado postumamente em 1980 por Moraes Editores na sua colecção Circulo de Poesia, e inserido no livro SEQUÊNCIAS.

Em nota final deixo a versão de Natália Correia do poema 166 em português moderno publicado por esta em 1965, na nunca demais elogiada Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica:

Martim jogral, que defeita,

sempre convosco se deita

vossa mulher!


Vedes-me andar suspirando;

e vós deitado, gozando

vossa mulher!


Do meu mal não vos doeis;

morro eu e vós fodeis

vossa mulher!

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Isto é amor, vejamos o que é ciúme

17 Terça-feira Ago 2010

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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António Barbosa Bacelar

Se não nos assustarmos com a austeridade das edições ou encadernações vetustas, podemos ser brindados com deliciosas surpresas.

Num poema da primeira metade do século XVII vamos encontrar uma saborosa metáfora em que carícias a um manjericão nos falam dos sábios trabalhos de mão e do que ela faz gozar:

Que o manjericão contente / … / Cair deixava a semente; / Mas era trabalho vão / Porque tornava a espigar / Em lhe dando outra demão, / Que tanto pode o gozar / Senhora da vossa mão.

E continua

Se assim, menina, se assim / Gostais desse doce ofício, / Mudai a mão para mim / E tereis largo exercício / Que há bem que fazer aqui;


Vamos então ao poema:

Mote

Tomara por ser capado

Senhora da vossa mão

Ser vosso mangericão


Glosa

Capáveis com tanto ar,

Menina, o manjericão,

Que eu vos chego a confessar

Que do meneio da mão

Namorou-me o seu capar;

Se favor tão envejado

Eu lograra possuido,

Não quisera mais do fado

Tanto que todo o partido

Tomara por ser capado


Cortáveis tão docemente

A semente a cada espiga,

Que o manjericão contente

Per vos dar menor fadiga

Cair deixava a semente;

Mas era trabalho vão

Porque tornava a espigar

Em lhe dando outra demão,

Que tanto pode o gozar

Senhora da vossa mão.


Se assim, menina, se assim

Gostais desse doce ofício,

Mudai a mão para mim

E tereis largo exercício

Que há bem que fazer aqui;

Mais mereço eu essa mão

Pois vos amo tão constante,

Não queirais que digam, não,

Que é mais que ser vosso amante

Ser vosso manjericão.

O poema foi muito popular à época pois chegaram até nós diversas versões em cancioneiros de mão.

O seu autor foi António Barbosa Bacelar (1610 – 1663) e o poema encontra-se incluído na edição das Obras Poéticas preparada por Mafalda Ferin Cunha e publicado em Outubro de 2007,  em 500 exemplares, pela Fundação Calouste Gulbenkian na sua colecção de Cultura Portuguesa.

Em vida o poeta apenas publicou 1 poema. No entanto foi um poeta reputado pois  os seus poemas circularam manuscritos em grande quantidade e são inúmeras as paródias ou sátiras a versos seus em obras dos contemporâneos. A edição das Obras Poéticas dá disso conta, referindo as variantes encontradas nas diferentes cópias manuscritas.

O único poema publicado em vida, foi escrito em castelhano como alguns outros e era próprio da época em que os poetas eram bi-lingues, e  encontra-se incluído numas “MEMORIAS FVNEBRES. SENTIDAS PELLOS INGENHOS Portuguefes, na morte da fenhora Dona Maria de Attayde. OFFERECIDAS A SENHORA DONA LVIZA MARIA DE FARO CONDESSA DE PENAGVIAM”, livro publicado em Lisboa no Anno 1650.

À parte esta edição, e os poemas publicados no SEC. XVIII, na antologia Fenix Renascida,  até hoje apenas foi publicado, e há alguns anos pela Assírio & Alvim, o poema “O Desafio Venturoso”. Estamos assim perante um poeta praticamente desconhecido, com obra vasta e de qualidade média muito elevada.

Alguns dos sonetos do autor destacam-se entre o melhor que a herança maneirista produziu numa clara memória da lírica de Camões.

E acrescento nesta memória da poesia de Camões, entre outras,  uma longa e belissima glosa ao soneto Alma minha gentil que te partiste, ao fim e ao cabo assunto tão recorrente que até bem perto de nós o encontramos na canção de Gilbert Becaud “Et maintenant”.

Os assuntos do amor são frequentes nesta poesia, nos tons mais variados, da brejeirice pura, ainda que sem obscenidades e tantas vezes enunciada de forma metafórica, aos aspectos mais reflexivos sobre o sentimento.

Transcrevo agora o soneto:

A um Amante alcançando posse da sua dama, mas não podendo fazer o que queria

Perdido aqui o leme, a esperança

Naufragava em tormentos de rigores,

Quando propicia a sorte a meus temores

Se renova a tormenta com a bonança.


Toca ao porto o desejo e quando alcança

Tocar os ramos e apanhar as flores,

Ao gozar da esperança e dos favores

Deu em seco o desejo com a tardança.


Assim, quando seguro mais perdido,

De minha infausta sorte a lei ordena

Que não goze a vitória entre a vitória.


Oh portentoso caso nunca ouvido,

Que quando cansa de afligir-me a pena

Se conjure em meu dano a mesma glória!


Deixo por fim mais uma definição de amor, tão cara à poesia deste período, com a originalidade de definir também o seu reverso, o ciúme.

Nesta espécie de poema-ensaio terminando em silogismo, desenvolve o autor os argumentos sobre o conceito de amor, o papel da ausência na permanencia do amor, a inevitabilidade do ciúme e conclui que

Amor é um costume / De ver o que se ama,


e como tal:

Que raro amor escape de uma ausência.


Talvez abra o apetite a algum leitor para mais sabendo que:

Amor é um desejo / De fermosura amada, / … / Começa com afeição, passa a cuidado, / … / Depois se faz costume; / Isto é amor, vejamos o que é ciúme.


É mais à frente que encontramos a opinião do poeta sobre o que é o ciúme:

Da alma o mais perigoso desatino,

ainda que:

Este mesmo ciúme que me inflama, / … / Faz-me mais doce a chama, / Faz-me maior a dita, / Logo é justa razão, justo costume, / Que raro amor acabe de um ciúme.


Visto que está como o ciúme não põe fim ao amor, veremos o que acaba com ele.

Para o nosso poeta é a ausência  que começa por provocar a saudade, ou seja:


Abranda o sentimento / De uma amante vontade;

e no final acaba com ele.


Com a saudade e a ausência chega uma palavra em desuso enquanto substantivo – um descustume – e quão adequada aqui está:


De um deixar de ver, um descustume / De não ver o que via / Quem da vista de uns olhos só vivia.


Vamos então, os corajosos,  ao poema:

Amor é um desejo

De fermosura amada,

È paixão dentro da alma radicada

De lograr o que amo e o que vejo.

Ao príncipio é agrado,

Começa com afeição, passa a cuidado,

Ânsia é depois e logo arrojamento,

Crece a dor, sobe o fogo e sempre é vento,

Depois se faz costume;

Isto é amor, vejamos o que é ciúme.


Ciúme é um receio mal siguro

De que outrem logre o prémio que eu procuro,

Um escrúpulo ousado,

Um medo mal nascido

De que saia na graça preferido

Quem não é nos desvelos igualado;

Tanto pois se acredita

Esta fúria cobarde,

Que só para estrovar-lhe aquela dita

Em novas chamas arde,

Arde igualmente e cia, [ciar: ter receio, ter ciúmes]

O que antes era amor se faz profia,

Só com maior violência

O desejo se passa a competência.

Logo, inda que o ciúme é um tormento

Que imprime o mais custoso sentimento

E, como diz o oráculo divino,

Da alma o mais perigoso desatino,

Não é muito que seja

Novo de amor motivo,

Que há de ficar por força amor mais vivo

Crescendo a leis de amor a leis de enveja.


Murcha o ciúme a esperança verde,

Mas amor mais se anima,

Que como não se estima

Senão o que se perde,

A beleza ciada

Crece nova razão para adorada,

Que torna a ser de novo apetecida

Só porque este receio a faz perdida;

Até já representa a fermosura

Este tormento activo

E dá novo motivo,

Na perda que afigura,

Para ser com mais ansias desejada

Do coração que fino a galanteia,

Que é parecer alheia;

Que muito pois que seja mais sobejo

Da beleza o desejo,

Se cuida que outro a goza

E crece o ser alheia ao ser fermosa.


Amo de Cloris bela a fermosura,

Aos meus olhos parece que é vintura

Lograr daquela graça o doce riso,

Mas não sei se se engana o meu juizo;

Este temor me esfria;

Vendo pois que outro busca o que eu queria,

Achando a mesma chama em outro peito,

Fico da minha escolha satisfeito.


O coração sangrado em seu tormento

O ciúme acredita ao sentimento,

Não só ama a vontade

Mas também o juizo a persuade,

Idolatrando mais fino o belo rosto

Tanto já por razão como por gosto.


Este mesmo ciúme que me inflama,

Como também a escolha me acredita,

Faz-me mais doce a chama,

Faz-me maior a dita,

Logo é justa razão, justo costume,

Que raro amor acabe de um ciúme.


Vamos a saudade,

Que, inda que lisonjeia,

Abranda o sentimento

De uma amante vontade;

Inda que é doce afago do tormento,

Dela mais se receia

Quem sabe que periga mal sigura

Às mãos da saudade a fé mais pura;

Esta pena, que ausência se nomeia,

Um acto é negativo

De um coração mal vivo

De um deixar de ver, um descustume

De não ver o que via

Quem da vista de uns olhos só vivia.


É siguro argumento

Que o fim responde sempre ao nascimento;

Qualquer acto que teve a existência

Numa certa influência,

A razão ordenada lhe distina

Em os Astros contrários a ruina;

Quem de quente recebe o ser amigo,

Lá no frio lhe aguarda o seu perigo,

Quem do frio recebe o ser primeiro,

Lá no quente lhe espera o derradeiro.


Amor é um costume

De ver o que se ama,

Logo esta ardente chama

Há de acabar às mãos do descostume,

Traz este descostume a saudade;

Amor é um custume da vontade,

Logo com razão mostra a experiência

Que raro amor escape de uma ausência.

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ABÛ ‘UTHMÂN – meu conterrâneo

07 Sábado Ago 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga

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ABÛ ‘UTHMÂN, AL-MU’TAMID, Poesia Luso-Árabe


Sabemos quem somos quando atentamos no que gostamos, sobretudo no que gostamos de comer. É algo que todos os dias fazemos e onde procuramos prazeres repetidos.

O que eu gosto de figos, meu Deus, e de uvas, e de mel, e de tâmaras, e de amêndoas, e a lista não acaba.Sou decididamente uma criatura do sul. Contemplo o branco e o azul na paisagem e descubro aquela harmonia do mundo que faz sentir qual é o lugar a que pertencemos.

E o mundo é um lugar de prazeres inesperados ainda que viver seja cruzar um deserto de morte, como diz o nosso poeta de hoje.

Desculpo-me da longa ausência junto dos fiéis leitores de blog que não desarmaram perante o demorado silêncio e espero apreciem o que hoje aqui deixo.É a memória da minha, talvez, costela árabe a falar.

São poemas luso-árabes anteriores à conquista cristã, e abro com o meu conterrâneo, ABÛ ‘UTHMÂN, nascido em Tavira provavelmente ao aproximar de 1200, pois em 1229 com a conquista de Aragão pelos cristãos, retirou-se para Minorca e aí fundou um pequeno reino cuja corte funcionou como um cenáculo literário.

O assunto do poema é a eterna guerra entre o sexo e intelecto, ou pelo menos o coração puro empenhado no bem fazer.

Talvez para o nosso poeta o gosto do sexo seja incompatível com o bem fazer. Será?


como são bizarros certos reis,

transformados em escravos do prazer.

apenas desejam duas coisas:

bocetinhas e bocas de mulher!

se o espírito mais lhes interessasse,

poriam de lado a fornicação

fruindo no amor puro a união.

passa o tempo, continuam reis do mundo:

oxalá que eles passem num segundo!

se viver é cruzar um deserto de morte

aborrecer tais prazeres é o meu norte.

o meu fito neste mundo

é apenas ter puro o coração:

assim o guardo da corrupção

na via do Bem profundo.


Ainda que pudesse ficar por aqui, não resisto a acrescentar a presença do grande AL-MU’TAMID, nascido numa família de poetas em Beja em 1040.

Tendo governado Silves, ocupou o trono de Sevilha em 1069, de onde foi destronado e exilado para o interior de Marrocos, vindo aí a morrer na miséria.

Deste infortúnio extraiu elegias de grande beleza e é ainda hoje objecto de homenagens no seu túmulo em Aghmat.


Começo com um belo retrato de uma mulher amada:

um sol é seu rosto / e palmeira é ela / de ancas opulentas. …

em encanto não tem / rival tal senhora, / e, fora do sonho, / quem tão bela fora?


Pretendendo o nosso poeta o costume, lançou o convite:

dá paz ao ardor / de quem te deseja. / contenta o amor / e faz dom de ti, / vamos, sorri, / quando a boca beija.


Respondeu-lhe a bela, olhos de gazela e corpo de palmeira:

pecar me refreia


Mas o nosso poeta não se calou:

respondi-lhe: ora, / não é coisa feia!


Afinal o receio de pecar deve ter sido apenas negativa a dizer que sim, pois a seguir parece que:

uma vez era noite / de bem longa festa.


e a bela nem deixou o poeta dormir como lhe apetecia.

Talvez o nosso poeta fosse daqueles homens que, acabado o sexo e já quase ressonam, quem sabe?


E agora chega de conversa, aí vai o poema.

 

0

quem vive dos ardis da ilusão

e, assim, se aparta do amigo

poderá encontrar consolação?

I

quando será que estarei

livre de desdém tão fero

cujos fortes esquadrões

me dão guerra que não quero.

desvio, assim, é injusto.

juro pela luz altaneira

que em suas tranças se divisa:

não sou cobra traiçoeira

das que mudam de camisa.

II

de negras madeixas

amo uma gazela

um sol é seu rosto

e palmeira é ela

de ancas opulentas

existe em seus lábios

do néctar o gosto.

ó sede se intentas

sua boca beijar

não o vais lograr.

III

em encanto não tem

rival tal senhora,

e, fora do sonho,

quem tão bela fora?

qual espada seus olhos

lhe brilham e rosas

lhe enfeitam a face

na sombra vistosas

mas se as vais olhar

fá-la-ás murchar.

IV

dá paz ao ardor

de quem te deseja.

contenta o amor

e faz dom de ti,

vamos, sorri,

quando a boca beija.

me disse na hora:

pecar me refreia

respondi-lhe: ora,

não é coisa feia!

V

uma vez era noite

de bem longa festa.

adormeci. me disse

me acordando com esta:

teu sono vai longo

toca a levantar!

então me beijou

e eu pus-me a cantar:

fazem reviver

teus lábios a arder!    [que lábios serão?]


Termino com esta bela declaração de amor na distância da amada.


Invisível a meus olhos,

trago-te sempre no coração

Te envio um adeus feito paixão

e lágrimas de pena com insónia.

Inventaste como possuir-me

e eu, indomável, submisso vou ficando!

Meu desejo é estar contigo sempre,

oxalá se realize tal vontade!

Assegura-me que o juramento que nos une

nunca a distancia o fará quebrar.

Doce é o nome que é o teu

e aqui fica escrito no poema: ‘Itimad.



Noticia bibliográfica: os poemas e as notas biográficas foram retirados da antologia “O meu coração é árabe”  da responsabilidade de Adalberto Alves, e publicada pela Assírio & Alvim em 3ªedição revista e aumentada em 1999.

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Um amor hermafrodita no Cancioneiro de Resende

02 Quarta-feira Jun 2010

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Cancioneiro Geral, Garcia de Resende, Poesia

O poema pretexto para este artigo encontra-se no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.

Compilação monumental da poesia portuguesa de meados do sec. XV até 1516,  foi organizado ao tempo de D. Manuel por Garcia de Resende.

Possui 880 poemas em grande parte colectivos como era prática na época em que a poesia era uma actividade social.

Acabou-se de empremir o Cancioneiro Geeral, com previlegio do muito alto e muito poderoso rei Dom manuel nosso Senhor. Que nenhua pessoa o possa empremir nem trova que que nele vaa, sob pena de dozentos cruzados e mais perder todolos volumes que fizer. Nem menos o poderam trazer de fora do reino a vender, ahinda que lá fosse feito, sô a mesma pena atras escrita. Foi ordenado e emendado por Garcia de Resende, fidalgo da casa d’El-Rei nosso Senhor e escrivam da fazenda do Principe. Começou-se em Almeirim e acabou-se na muito nobre e sempre leal cidade de Lisboa, per Hermam de Campos, alemam, bombardeiro d’El-Rei nosso Senhor e empremidor, aos XXVIII dias de Setembro da era de Nosso Senhor Jesu Cristo de mil e quinhentos e XVI anos.

O poema trata das intimidades de uma Dama com D. Guiomar sobre a qual surge a suspeita de ser hermafrodita.

Estas intimidades são o motivo da indignação de D. João de Meneses

…se vós sois macho. / Se o sois e nam sois dama, / é mui bem que o digais / e tambem deve sua ama / nam querer que vós jaçais / soo com ela em uma cama.

A esta indignação sucede a ironia de Fernão da Silveira, o Moço

Dous gostos podeis levar, / senhora, desta maneira,  / pois sabeis de tudo usar: / ser macho pera Guiomar / e femea pera Nogueira.

Segue-se a justiça draconiana de Dom Rodrigo de Castro

Lancem-vos fora do paço, / ou vos levem a Lisboa / ou vos dêm outra machoa / com que percais o raivaço. / ou vos mandemos capar; / porqu’outra forma nom acho


Continua o poema com a participação de  Dom Pedro da Silva que nos diz como resolve a incógnita sobre se se trata de homem ou mulher

Pera parecer donzela / cousas tendes bem que farte,

…

mas com mui gentil despacho / vos hei-d’ir arregaçar / e oulhar, / se sois femea ou macho.


Para  Fernam da Silveira, o Regedor não há dúvidas, é masculino o sexo dominante da dama

Com estes tratos d’amor, / com estes beijos maa hora / vos nom ham ja por ser senhora, /

mas por um fino senhor.

E o mesmo termina com as razões da sua certeza

Dona Joana de Sousa, / dizem qu’ee prenhe de vós!

Pelo que só há uma solução

mandai um deles cortar /  ou tapar, / e ficai femea ou macho.


Leiamos então o poema


DE DOM JOAM DE MENESES A

UMA DAMA QUE REFIAVA

E BEIJAVA DONA

GUIOMAR DE

CRASTO


Senhora eu vos nam acho

rezam para rafiar

e beijar tam sem empacho

Dona Guiomar,

salvante se vós sois macho.


Se o sois e nam sois dama,

é mui bem que o digais

e tambem deve sua ama

nam querer que vós jaçais

soo com ela em uma cama.

Confessai-nos que sois macho

ou que folgais de beijar,

que doutra guisa nam acho

rezam de antrepernar

tal dama tam sem empacho.


Ajuda de Fernam da Silveira


Dous gostos podeis levar,

senhora, desta maneira,

pois sabeis de tudo usar:

ser macho pera Guiomar

e femea pera Nogueira.

E por isso nam vos tacho,

antes vos quero louvar;

nos trajos em que vos acho

podereis vós emprenhar

outra molher como macho.


Dom Rodrigo de Castro.


Lancem-vos fora do paço,

ou vos levem a lisboa

ou vos dêm outra machoa

com que percais o raivaço.

Lancem-vos um barbicacho

ou vos mandemos capar;

porqu’outra forma nom acho

pera poder escapar

Dona Guiomar;

pois sáfirma que sois macho.


Dom Pedro da Silva.


Pera parecer donzela

cousas tendes bem que farte,

mas chamardes vós muela

a beiços de dama bela

nam vos vem de boa parte.

D’hoje avante nom me agacho

nem mais hei assi d’andar;

mas com mui gentil despacho

vos hei-d’ir arregaçar

e oulhar,

se sois femea ou macho.


Fernam da Silveira,

o Regedor.


Com estes tratos d’amor,

com estes beijos maa hora

vos nom ham ja por ser senhora,

mas por um fino senhor.

Tambem trazês um recacho

e um som de galear,

que beijais tem sem empacho

Dona Guiomar,

que vos ham todos por macho.


Outra sua e cabo


Uma mui estranha cousa

se ruge caa antre nós

porque laa convosco pousa

Dona Joana de Sousa,

dizem qu’ee prenhe de vós!

Tambem diz cum mochacho

vos foi nam sei quem topar!

Havei eramaa empacho,

mandai um deles cortar

ou tapar,

e ficai femea ou macho.


Tal como na generalidade das composições colectivas do Cancioneiro, podemos assistir neste poema à variedade de pontos de vista sobre o mesmo assunto a à sua diferente expressão poética.

Ao transcrever este poema quis iluminar um tema que não se repete na poesia portuguesa antiga que conheço.


Noticia bibliográfica:

Para o leitor não especializado a leitura é dificil. Necessitaria ser acompanhada por dicionário, o qual é incompativel com esta estrutura de blog.

Usei o texto fixado por Aida Fernanda Dias na edição do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda em 4 volumes em 1993. O poema traz o nº 586 desta edição e vem inserido no seu vol. III.

A nota erudita sobre a poesia do Cancioneiro de Resende não tem aqui lugar pois este é um blog de não-especialista. A bibliografia é vasta e acessivel. Deixo apenas uma pequena nota sobre as dificuldades que enfrenta quem se aventura pelos textos dos especialistas.

Pertence este poema ás Cousas de Folgar do Cancioneiro na classificação do próprio Garcia de Resende. O verbete Cancioneiro Geral incluído no Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, assinado por M. Vieira Mendes, é um modelo de informação e síntese.

Sobre o autor do poema, D. João de Meneses, o mencionado Dicionário refere apenas um autor com este nome num verbete assinado por C. Almeida Ribeiro, identificando este autor com o Mordomo-Mor de D. João II e de D.Manuel, que terá sido Conde de Tarouca e Grão-prior do Crato.

Por outro lado, Aida F. Dias, editora do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, menciona 2 poetas no Cancioneiro com o nome D. João de Meneses. Identificando um como D. João de Meneses [Tarouca] (será o conde do Dicionário?) e outro como D. João de Meneses [Cantanhede], e faz a atribuição do poema a este último.

Até aqui tudo bem, não fora o Dicionário atribuir ao primeiro a autoria da extensa intervenção na controvérsia Cuidar e Suspirar incluída no início do Cancioneiro, enquanto Aida F. Dias atribui esta intervenção ao segundo.

Para um não especialista é confusão a mais. Fiquemos com o poema.

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Dom Francisco Manuel de Melo — 3 Sonetos

20 Sábado Mar 2010

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Camões, Francisco Manuel de Melo

Personagem de fábula e de lenda, escritor maior do nosso século XVII, foi Dom Francisco Manuel de Melo (1608-1666.10.13)  também poeta.

A sua poesia praticamente esquecida hoje, vitima de julgamentos datados, bem precisa de uma edição crítica que ao estudá-la, editando também a que permanece em manuscrito, chame a atenção para as várias pérolas que contém.

I

Responde a um amigo, que mandava perguntar a vida que fazia em sua prisão

Casinha desprezível, mal forrada;

Furna, lá dentro mais que inferno escura;

Fresta pequena, grade bem segura;

Porta só para entrar, logo fechada;

 

Cama que é potro; mesa destroncada;

Pulga que por picar faz matadura;

Cão só para agourar; rato que fura;

Candeia nem com os dedos atiçada;

 

Grilhão que vos assusta eternamente;

Negro, boçal; e mais boçal ratinho

Que mais vos leva que vos traz da praça!

 

Sem amor, sem amigo, sem parente,

Quem mais se dói de vós, diz: Coitadinho!

Tal vida levo. Santa prol me faça!

II

A  uma senhora que, estando de mui bom parecer, contraiu o parentesco de sogra

 

Quando deixareis vós de ser fermosa,

Minha senhora Dona Mariana?

Nunca jamais, se a vista não me engana,

Ou se a fé, mais que a vista, escrupulosa.

 

Filha vos conheci, e já vi rosa

Das que se preza Abril, Maio se ufana,

Que, em vendo essa beleza soberana,

Do prado se acolhia vergonhosa.

 

Conheci-vos esposa, em igual preço

Envejada das flores. Mas, que importa

Se mãe fostes, com raios semelhantes?

 

E até sogra, que agora vos conheço,

(contra o que dizem: nem de barro á porta…)

Aposto que inda sois como éreis dantes.

E ainda outro soneto:

III

 

Serei eu alguma hora tão ditoso,

Que os cabelos que amor laços fazia,

Por prémio de o esperar, veja algum dia

Soltos ao brando vento buliçoso?

 

Verei os olhos donde o sol fermoso

As portas da manhã mais cedo abria,

Mas em chegando a vê-los se partia,

Ou cego, ou lisonjeiro, ou temeroso?

 

Verei a limpa testa a quem a aurora

Graça sempre pediu? E os brancos dentes,

Por quem trocara as pérolas que chora?

 

Mas, que espero de ver dias contentes,

Se para se pagar de gosto uma hora,

Não bastam mil idades diferentes?

 

Se o corpo dos sonetos de Dom Francisco Manuel de Melo pode ser desigual, com o sublime ao lado do trivial, como,  julgo,  resulta evidente da escolha que aquí faço, as éclogas, de onde desapareceu o quadro pastoril, surgem como tese moral dialogada, dando a ver um curioso quadro mental da época.

Mas é sobretudo pelas cartas em verso que Dom Francisco Manuel de Melo merece ser lido, nomeadamente a carta conhecida como Canto da Babilónia:

 

Sôbolas águas correntes / de aqueles rios cantados / que a Babilónia levados / com lágrimas dos ausentes / chegam ricos e cansados.

 

Uma tarde me assentei / cheio de dor e fadiga / e hoje do que lá passei / me manda o tempo que diga / quanto em lágrimas direi.

 

Parafraseando Camões e a sua Sôbolos rios, Dom Francisco Manuel de Melo desenvolve em redondilha, ao longo de 500 versos, uma profunda e comovente reflexão sobre o sentido da vida tendo como ponto de partida os Salmos da Biblia e indo buscar à riqueza da sua experiência existencial, a matéria da sua formulação poética.

 

Mas tu, mas eu, que faremos, / Se nós mesmos fabricamos / O cavalo que adoramos / E dentro da alma metemos / O fogo em que nos queimamos?

Nota biográfica: As datas de nascimento e morte de Dom Francisco Manuel de Melo foram retiradas de

PRESTAGE, EDGAR, D. Francisco Manuel de Mello – Esboço biographico, Coimbra, Imprensa de Universidade, 1914.

Esta é uma obra fundamental no estudo da vida do autor e ainda hoje referência inultrapassada. Em diversos locais na net, nomeadamente  no site infopédia.pt, encontram-se referidas de forma errada, as datas de nascimento e morte do autor.

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