A Primavera anuncia-se em Lisboa e um soneto de Cecília Meireles

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Pondo fim ao tempo em que  A chuva chove mansamente … como um sono , a primavera anuncia-se subitamente em Lisboa, e as árvores explodem em flor.

Evoco o soneto de Cecília Meireles (1901 – 1964) a contrario, ou seja, para deixar para trás tudo o que ele convoca.

A chuva chove mansamente … como um sono

que tranquilize, pacifique, resserene…

A chuva chove mansamente… Que abandono!

A chuva é a musica de um poema de Verlaine…

 

E vem-me o sonho de uma véspera solene,

em certo paço, já sem data e já sem dono…

Véspera triste como a noite, que envenene

a alma, evocando coisas líricas de outono…

 

num velho paço, muito longe, em terra estranha,

com muita névoa pelos ombros da montanha…

paço de imensos corredores espectrais,

 

onde murmurem velhos órgãos árias mortas,

enquanto o vento, estrepitando pelas portas,

revira in-fólios, cancioneiros e missais…

 

Soneto imbuído de atmosfera musical, é outra a musica que quero lembrar, e não

o sonho de uma véspera solene/ … / Véspera triste como a noite, que envenene / a alma…/ …/ velho paço…/ … / onde murmurem velhos orgãos árias mortas, / enquanto o vento, estrepitando pelas portas, / revira in-fólios, cancioneiros e missais…

Ouçamos, pois, a atmosfera festiva de Vozes da Primavera para estrear uma nova forma de ouvir musica no blog.

Frühlingsstimmen op. 410 (Vozes da Primavera), valsa de Johann Strauss (1825 – 1899) tocada pela Orquestra Filarmónica de Viena no Concerto de Ano Novo de 1987.

Dirige a orquestra Herbert von Karajan e a parte solista é cantada por Katleen Battle, Soprano, que na altura surgiu esplendorosa, em vermelho, entre as flores que decoravam o palco.

Para Solombra (1963), último livro publicado em vida da poetisa, fez Julio Pomar 4 ilustrações magníficas, a evidenciar o corta estético do pintor com o neo-realismo.

Pode, seguindo este link, saber mais sobre Cecília Meireles

A dificil arte do soneto segundo Lope de Vega, Alexandre O´Neill e Manuel Alegre

Desde a sua invenção nunca o soneto deixou de desafiar poetas.

Poema de 14 versos em verso decassílabo rimado, ordenado em quatro estancias geralmente de duas quadras com dupla rima seguidas de dois tercetos.

No seu desenvolvimento o soneto exige ser construido numa espécie de silogismo, como bem lembrava Manuel Borralho nas suas Luzes de Poesia (1724), partindo de premissa(s) e rematando com uma conclusão, sendo o último verso do soneto, a certa altura,  chamado de chave de ouro.

Apresentado o tema na primeira quadra, deverá o poema dar continuidade ao assunto que se propõe, desenvolvendo a ideia que lhe subjaz, e concluindo-se de forma coerente com o argumentado.

Sendo uma forma poética de meu especial agrado, e existindo na literatura portuguesa elevado número de sonetos belíssimos, tenho por diversas vezes falado e transcrito sonetos. Hoje reúno um conjunto especial em que o assunto é a própria dificuldade em escrever um soneto.

Começo por Lope de Vega (1562-1635) que assim respondeu a Violante quando lhe pediu um soneto:

 

Un soneto me manda hacer Violante / Um soneto me faz fazer Violante

Y en vida nom me he visto en tal aprieto; / Nunca na vida estive tão inquieto;

Catorce versos dicen que es soneto: / Catorze versos dizem que é soneto,

Burla burlando, van los tres delante. / Brinca brincando vão os três diante.


Yo pensé que no hallara consonante / Pensei que não achava consoante

E estoy a la mitad de otro cuarteto; / E a metade estou deste quarteto;

Mas, si me hallo en el primer terceto, / Mas, se me vejo no primeiro terceto,

No hay cosa en los quartetos que me espante. / Nada há nos dois quartetos que me espante.


Por el primer terceto voy entrando / pelo primeiro terceto vou entrando

Y aún presumo que entré por pie derecho, / E parece que entrei com o pé direito,

Pues fin con este verso le voy dando. / Pois fim com este verso lhe estou dando.


Ya estoy en el segundo y aún sospecho / No segundo já vou e até suspeito

Que estoy los trece versos acabando: / que estou os treze versos acabando;

Contad si son catorze, y esté hecho. / Contai se são catorze e já está feito.

Rima: (ABBA / ABBA / CDC / DCD)  /  (ABBA / ABBA / CDC / DCD)

No livro Abandono Vigiado publicado por Alexandre O’Neill (1924-1986) em 1960 encontro o soneto QUATORZE VERSOS tendo como epígrafe o primeiro verso deste soneto de Lope de Vega.

Deliberada homenagem a um poeta maior, pois o poema anterior é outra homenagem, essa a

João Cabral de Melo e Neto, / Você não se pode imitar, / mas incita a ver mais perto, / com mais atenção e vagar, / o que está como que em aberto, / …,

o soneto QUATORZE VERSOS brinca, também ele, com a arte de escrever sonetos, na qual O’Neill foi exímio como nestes SONETOS GARANTIDOS… páginas antes no mesmo livro, e que não resisto a transcrever:

SONETOS GARANTIDOS…

Sonetos garantidos por dois anos.

E é muito já, leitor que mos compraste

para encontrar a alma que trocaste

por rádios, frigorificos, enganos…


essa tristeza sobre pernas faz-te

temeroso e cruel e tonto e traste.

Nem pior nem melhor que outros fulanos,

não vês a Bomba e crês nos marcianos…


e é para ti que escrevo, é para ti

que um verso lanço – ó mão! – como o destino,

nel’ ponho mesura, desatino,


rasgo, invenção, lugar-comum protesto?

Antes para soldado ou para resto,

escroto de velho, ronco de suíno…

Mas voltanto à dificil arte do soneto temos então no soneto QUATORZE VERSOS uma eloquente demonstração:


QUATORZE VERSOS

O primeiro é assim: fica de parte.

No segundo já posso prometer

que no terceiro vai haver mais arte.

Mas afinal não houve… Que fazer?


Melhor será calar, pois que dizer

nem no sexto conseguirei destarte.

Os acentos errados é favor não ver;

nem os versos errados, que também sei hacer


Ó nono verso porque vais embora

sem que eu te sublime neste décimo?

Ao décimo-primeiro dediquei uma hora.


Errei-o. Mas que importa se a poesia,

mesmo que o não errasse, já não vinha?

É este o último e, como os outros, péssimo…

Ficaria por aqui não fora Manuel Alegre (1936) no seu livro Sonetos do Obscuro Quê publicado em 1993, vir explicitamente a este soneto de O’Neill quando se debruçava sobre a arte de escrever poesia em forma de soneto. Temos então, agora de Manuel Alegre:

Desata-se-me o verso no primeiro

no segundo de vento vai vestido

no terceiro de mar e marinheiro

no quarto está perdido está perdido.


Recupero-o no quinto sem sentido

no sexto deito-o à sombra de um sobreiro.

No sétimo com dante digo:”Guido

sê tu no oitavo verso o companheiro”.


Porque não espero de voltar no nono

leva-me O’Neill no décimo a um terceto

que aponte já no onze o sul e o sal.


Ao décimo segundo chega o sono.

No treze está a chave do soneto

mas nem sempre o catorze é o final.

Vamos pois dormir, a conselho do poeta, não sem antes referir que a tradução do poema de Lope de Vega é de José Bento e que se lê com proveito, o artigo SONETO publicado no DICIONÁRIO DE LITERATURA, sob a direcção de Jacinto do Prado Coelho e assinado por António Coimbra Martins.

 

Nota final: Quatorze ou Catorze? Escolha o leitor. Apenas reproduzi o conteúdo das edições impressas que possuo. Antes do Acordo Ortográfico Quatorze seria para Portugal e Catorze para o Brasil.

Periclitam os grilos/ a noite é nada e mais poemas de Alexandre O’Neill

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Enquanto olho Lisboa, saltita-me o pensamento entre a metafísica dos sinais de transito no percurso da volta,e a importância do tempo no boletim meteorológico. É preciso ver o caminho. E inevitavelmente chego a Alexandre O’Neill.


Periclitam os grilos:

a noite é nada.

Quem tem filhos tem cadilhos,

(Que quadra tão bem rimada!)


Não espere, leitor, que eu diga:

“Debaixo daquela arcada…”.

Não venho fazer intriga:

versejo só – e mais nada.


Assim o terceiro verso

desta tirada

(reparou que é um provérbio?)

não significa mais nada.


Se a noite é nada e os grilos

não estão de asa parada,

não vou puxar, só por isso,

o fio à sua meada,


leitor que me pede história

que já traz engatilhada,

leitor que não se habitua

a que não aconteça nada


em poesia que comece

como esta foi começada

e acabe como esta

vai agora ser acabada…

A esta luz, é a possibilidade da metáfora no jogo do bingo que me ocorre, mas este céu duma tristeza cor de farda leva-me a esse outro SONETO onde a aposta é na vida, mesmo errada.

No céu duma tristeza cor de farda,

Uma angustia de nuvens se desenha.

O amor já morreu: que o tempo venha

Desmantelar o que a memória guarda.


Jogai!, jogai! Quem não jogar não ganha

Nem perde. É a última cartada.

Eu aposto na vida, mesmo errada.

Talvez outro destino me sustenha.


Avião de Lisboa para o mundo,

Apaga-me a tristeza com as asas,

Tão nítidas no céu em que me afundo!


Depois desaparece atrás das casas

E deixa-me o azul, o azul profundo,

E duas nuvens de razão tocadas.

Ei-las:

Deixo-vos com um AUTO-RETRATO do poeta em 1962 onde lembra a imensa verdade de que amor não há feito:

AUTO-RETRATO

 

O’Neill (Alexandre), moreno português,

cabelo asa de corvo; da angústia da cara,

nariguete que sobrepuja de través

a ferida desdenhosa e não cicatrizada.

Se a visagem de tal sujeito é o que vês

(omita-se o olho triste e a testa iluminada)

o retrato moral também tem os seus quês

(aqui, uma pequena frase censurada..)

No amor? No amor crê (ou não fosse ele O’Neill!)

e tem a veleidade de o saber fazer

(pois amor não há feito) das maneiras mil

que são a semovente estátua do prazer.

Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se

do que neste soneto sobre si mesmo disse…

Noticia bibliográfica:

Soneto foi publicado em 1958 no livro NO REINO DA DINAMARCA, Periclitam os grilos foi publicado em 1960 no livro ABANDONO VIGIADO, AMBOS PELA Guimarães Editores . AUTO-RETRATO foi publicado em POEMAS COM ENDEREÇO, em 1962 pela Livraria Moraes Editora.

 

Outro dia, com Irene Lisboa

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Alguns escritores, talvez já aqui o tenha referido, desarmam-me quaisquer planos. É abrir-lhes um livro ao acaso e embalo na leitura, esquecido de compromissos ou obrigações. É o caso de Irene Lisboa.

Amanhecera azul num céu de Tiepolo e fui trabalhar de olhos cheios. A certa altura choveu sob o arco-iris e os suburbios-dormitório onde o trabalho me leva, ganharam um brilho transparente de cristal. Pareceram por momentos lugares onde apetecia viver.

Era dia de rua Irene Lisboa, e no infinito daquele subúrbio, lá apareceu entre lixo e grafitti, com edifícios pouco menos que degradados. Serão habitados por gente parente de quem a escritora fez a crónica, pensei.

Fiz o que precisava, e no regresso fui à sua poesia. Aqui fica apenas um poema:

outro dia

Ontem,

cansada, cansada,

cheguei a casa,

à noite.

O céu estava limpo.

Cheguei à porta e olhei,

antes de entrar.

Lá em baixo,

nem perto nem longe,

no escuro,

luziam uns pingos…

Caíam rectos

e brilhantes

na água…

Deixavam um rasto!

Os meus olhos riram,

vendo-os

imobilizaram-se.

E tive desejos

de seguir pelas ruas,

de cabeça no ar,

com um riso parado…

Mas subi as escadas.

Lisboa 1935

O poema encerra o livro um dia e outro dia…. A versão transcrita é a do vol I das Obras de Irene Lisboa organizada por Paula Morão e publicada pela Editorial Presença em 1991.

Essa Negra Fulô e outros poemas de Jorge de Lima

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Conheço mal a obra de Jorge de Lima. De muito novo acompanha-me Essa Negra Fulô dito na voz de João Villaret e gravado num recital no Teatro S. Luis em Lisboa, em 1957 se não erro, recital esse editado em dois discos de vinil.

 

Nota: Há pequenas trocas na ordem porque os versos são ditos por Villaret em relação à versão impressa do poema que possuo e que aqui transcrevo.

 

Poema de onde sai um mundo, é um mundo apenas aparentemente extinto.

Hoje são outras as práticas e outras as relações de domínio entre seres humanos, mas a sua verdade, tão pungentemente aqui descrita, permanece.

Essa Negra Fulô

Ora, se deu que chegou

(isso já faz muito tempo)

no bangüê dum meu avô

uma negra bonitinha,

chamada negra Fulô.

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá)

— Vai forrar a minha cama,

pentear os meus cabelos,

vem ajudar a tirar

a minha roupa, Fulô!

 

Essa negra Fulô!

 

Essa negrinha Fulô

ficou logo pra mucama,

pra vigiar a Sinhá

pra engomar pro Sinhô!

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá)

vem me ajudar, ó Fulô,

vem abanar o meu corpo

que eu estou suada, Fulô!

 

vem coçar minha coceira,

vem me catar cafuné,

vem balançar minha rede,

vem me contar uma história,

que eu estou com sono, Fulô!

 

Essa negra Fulô!

 

“Era um dia uma princesa

que vivia num castelo

que possuía um vestido

com os peixinhos do mar.

Entrou na perna dum pato

saiu na perna dum pinto

o Rei-Sinhô me mandou

que vos contasse mais cinco.”

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô? Ó Fulô?

Vai botar para dormir

esses meninos, Fulô!

“Minha mãe me penteou

minha madrasta me enterrou

pelos figos da figueira

que o Sabiá beliscou.”

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô? Ó Fulô?

(Era a fala da Sinhá

Chamando a negra Fulô.)

Cadê meu frasco de cheiro

Que teu Sinhô me mandou?

 

— Ah! Foi você que roubou!

Ah! Foi você que roubou!

 

O Sinhô foi ver a negra

levar couro do feitor.

A negra tirou a roupa.

 

O Sinhô disse: Fulô!

(A vista se escureceu

que nem a negra Fulô.)

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

Cadê meu lenço de rendas,

Cadê meu cinto, meu broche,

Cadê o meu terço de ouro

que teu Sinhô me mandou?

Ah! foi você que roubou.

Ah! foi você que roubou.

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

O Sinhô foi açoitar

sozinho a negra Fulô.

A negra tirou a saia

e tirou o cabeção,

de dentro dêle pulou

nuinha a negra Fulô.

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

Cadê, cadê teu Sinhô

que Nosso Senhor me mandou?

Ah! Foi você que roubou,

foi você, negra fulô?

Essa negra Fulô!

Poesia multifacetada, tantas vezes coloquial, culmina em A Invenção de Orfeu, longo poema publicado em 1952, pouco antes da morte do poeta, e do qual disse João Gaspar Simões:

Tudo entra no poema de Jorge de Lima concebido na febre que exalta, no sonho que dilata, no transe que confunde. E o passado junta-se ao presente. Memória e invenção, sonho e realidade, história e futuro, infância e ancestralidade confundem-se, como se, em verdade, o poeta formasse com o seu poema uma espécie de caos preparatório de onde surgirá um dia uma ordem ideal.

Nos anos 30 do século XX o poeta converteu-se ao catolicismo reflectindo-se na sua poesia essa dimensão religiosa.

Rasto dessa conversão são os 2 poemas escolhidos a seguir.

Primeiro este A mão enorme guiando a nau da existência num dos grandes poemas da lingua portuguesa, onde à cadência do verso se une a meditação teológica do destino.

A mão enorme

Dentro da noite, da tempestade,

a nau misteriosa lá vai.

o tempo passa, a maré cresce,

o vento uiva.

A nau misteriosa lá vai.

Acima dela

que mão é essa maior que o mar?

Mão de piloto?

Mão de quem é?

A nau mergulha,

o mar é escuro,

o tempo passa.

Acima da nau

a mão enorme

sangrando está.

A nau lá vai.

O mar transborda,

as terras somem,

caem estrelas.

A nau lá vai.

acima dela

a mão eterna

lá está.

E este singular Inverno, onde, numa ligação à terra e à natureza tão característica da poesia brasileira antiga, e é o eco de Glaura de Manuel Inácio da Silva Alvarenga que me ressoa nesta Zefa com quem o poeta fala, também aqui temos no final a marca da devoção religiosa:

Mas tudo isso, Zefa, / vamos dizer, / só com os poderes / de Jesus Cristo!


Inverno

Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojés,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!

Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno
Covas bem fundas
pra enterrar cana:
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nelas se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite
pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa…
E mais gostoso
que tudo isso:
noites de frio,
lá fora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
córgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne de sol
chia nas brasas,
farinha d’água,
café, cigarro,
cachaça, Zefa…
…rede gemendo…
Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!

Termino a escolha com Este Poema De Amor Não É Lamento

Este poema de amor não é lamento
Nem tristeza distante, nem saudade,
Nem queixume traído nem o lento
Perpassar da paixão ou pranto que há de

Transformar-se em dorido pensamento,
Em tortura querida ou em piedade
Ou simplesmente em mito, doce invento,
E exalta visão da adversidade.

É a memória ondulante da mais pura
E doce face (intérmina e tranqüila)
Da eterna bem-amada que eu procuro;

Mas tão real, tão presente criatura
Que é preciso não vê-la nem possuí-la
Mas procurá-la nesse vale obscuro.

 

Em nota final refiro que o espectáculo O Grande Circo Místico, de Edu Lobo e Chico Buarque de Hollanda, foi baseado na obra do poeta.

Pele escura e poesia portuguesa – uma digressão

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Suponho que as morenas hoje dispensam o encorajamento dos poetas do dia.


Não foi sempre assim.

Num tempo em que os padrões de beleza eram os a seguir figurados,

 

qualquer morena, por mais bela que fosse, acabava por se sentir na pele deste modelo.

 

Poetas condoidos, ou apreciando a beleza sem preconceito, louvaram a pele trigueira de morenas belas.

Desde logo Camões, na que há muito é considerada entre as melhores poesias portuguesas de sempre, canta em Endexas a uma cativa chamada Bárbara, os encantos, cuja Pretidão de amor[*], / Tão doce a figura, / que a neve lhe jura / que trocara a cor.

[*] Este verso tem feito correr rios de tinta com comentadores ao logo dos séculos indignados e a pretender demonstrar que a pretidão é apenas do cabelo. Outros concedem que Bárbara possa ser, talvez, morena.

Embora de longa data a brancura da pele tenha sido, nas sociedades de matriz católica, distintivo de classe e apanágio de beleza, já no virar do sec. XVII para o XVIII encontramos um poema que dá conta de uma realidade social onde a cor da pele determina o destino. Trata-se de um poema de Soror Maria do Céu (1658 – 1753) que, em A pérola e a pimenta, retrata o destino de duas donzelas, uma branca e uma preta, provavelmente meio-irmãs, filhas do mesmo pai como parece intuir-se do final do poema, em que a branca ficou por dama / a negra por cozinheira.


A PÉROLA E A PIMENTA

Companheira de jornada,

Duas donzelas havia,

Uma formosa e fria,

Outra feia e engraçada.

Uma tão negra se of’rece,

Que até carapinha tem,

A outra tão clara vem

Que filha da alva parce.

E olhando com desafogo

Nos efeitos que produz,

Uma tem cara de luz,

A outra entranhas de fogos.

Já acabada a carreira,

Ali onde a sorte as chama,

A branca ficou por dama,

A negra por cozinheira.

Uma e outra foi notada

Nesta jornada ou empresa,

Porque a dama ficou presa,

E a negra escalavrada.

Todos sabemos quem são

E as conhecemos bem,

Ainda que uma só tem

Árvore de geração.

E da outra não duvido

Venhais em conhecimento,

Porque é o seu nascimento

Claro, posto que escondido.

 

 

Avançando no tempo, é na segunda metade do século XIX que escolho dois poemas com a particularidade de terem sido seleccionados, por antologiadores de mérito, como representativos da poesia dos seus autores e se situarem entre os melhores da poesia portuguesa de sempre.

No primeiro, TRIGUEIRA,  Júlio Diniz (1839 – 1877) desdobra-se em argumentos de consolo:  Mais feia / Com essa cor te imaginas? / … / Pois serias tu mais linda, / Se tivesses outra cor?

ou ainda:

Tu, que assim fascinas / Com um só olhar dos teus!

Invejar a cor da rosa, / Em ti, é quase pecar.

Trigueira! Onde mais realça / O brilhar duns olhos pretos, / … / Do que numa cor assim?

 

Vamos então ao poema:

 

TRIGUEIRA

Trigueira! Que tem? Mais feia

Com essa cor te imaginas?

Feia! Tu, que assim fascinas

Com um só olhar dos teus!

Que ciumes tens da alvura

D’esses semblantes de neve!

Ai, pobre cabeça leva!

Que te não castigue Deus.


Trigueira! Se tu soubesses

O que é ser assim trigueira!

D’essa ardilosa maneira

Por que tu o sabes ser;

Não virias lamentar-te,

Toda sentida e chorosa,

Tendo inveja à cor da rosa,

Sem motivos para a ter.


Triguieira! Porque és trigueira

É que eu assim te quis tanto,

Daí provem todo o encanto

Em que me traz este amor.

E suspiras e murmuras!

Que mais desejavas inda?

Pois serias tu mais linda,

Se tivesses outra cor?


Trigueira! Onde mais realça

O brilhar duns olhos pretos,

Sempre húmidos, sempre inquietos,

Do que numa cor assim?

Onde o correr duma lágrima

Mais encantos apresenta?

E um sorriso, um só, nos tenta,

Como me tentou a mim?


Trigueira! E choras por isso!

Choras, quando outras te invejam

Essa cor, e em vão forcejam

Por, como tu, fascinar?

Ó louca, nunca mais digas,

Nunca mais, que és desditosa,

Invejar a cor da rosa,

Em ti, é quase pecar.


Trigueira! Vamos, esconde-me

Esse choro de criança.

Ai, que falta de confiança!

Que graciosa timidez!

Enxuga os bonitos olhos,

Então, não chores, trigueira,

E nunca dessa maneira

Te lamentes outra vez.

 

Este poema, cuja popularidade, hoje, desconheço, figurou entre as 100 Melhores Poesias (Líricas) da Língua Portuguesa, escolhidas por Carolina Michaelis de Vasconcellos em 1910. À poesia de Júlio Diniz hoje desaparecida das livrarias (suponho), regressarei por estes dias.

Entre estas 100 poesias figura, obviamente, Endexas a uma cativa chamada Bárbara de Camões.

 

O segundo poema sobre a cor da pele, MORENA, é de Guerra Junqueiro (1850 – 1923).

Aqui o tom é outro, brincalhão, e a morena a quem se dirige o poema é ainda alvo de atenções prévias do poeta

… / Pois pouco te importa / Que eu goste ou que não.

e não o consolo que Júlio Diniz escreveu.

Ao longo do poema desenvolvem-se comparações com flores … / Há rosas dobradas / E há-as singelas; / … / Mas rosas morenas, / Só tu, linda flor.

 

E de elogio em elogio termina no mais convincente(?):

E a Virgem Maria / Não sei… mas seria / Morena também.

Vê lá depois disto / Se ainda tens pena / Que as mais raparigas / Te chamem morena!

 

Finalmente o poema:

 

MORENA

Não negues, confessa

Que tens certa pena

Que as mais raparigas

Te chamem morena.


Pois eu não gostava,

Parece-me a mim,

De ver o teu rosto

Da cor do jasmim.


Eu não… mas enfim

É fraca a razão,

Pois pouco te importa

Que eu goste ou que não.


Mas olha as violetas

Que, sendo umas pretas,

O cheiro que têm!

Vê lá que seria,

Se Deus as fizesse

Morenas também!


Tu és a mais rara

De todas as rosas;

E as coisas mais raras

São mais preciosas.


Há rosas dobradas

E há-as singelas;

Mas são todas elas

Azuis, amarelas,


De cor de açucenas,

De muita outra cor;

Mas rosas morenas,

Só tu, linda flor.


E olha que foram

Morenas e bem

As moças mais lindas

De Jerusalém.

E a Virgem Maria

Não sei… mas seria

Morena também.


Moreno era Cristo,

Vê lá depois disto

Se ainda tens pena

Que as mais raparigas

Te chamem morena!

 

Sendo um poema conhecido na sua época, foi escolhido como representativo do estro de Guerra Junqueiro por Cabral do Nascimento para a antologia COLECTÂNEA DE VERSOS PORTUGUESES  do século XII ao século XX, publicada em 1964, onde figurava apenas um poema por poeta.

Nesta antologia permaneceu a representar a obra camoneana  Endexas a uma cativa chamada Bárbara, mas desapareceu qualquer poema de Júlio Diniz.

Nas voltas da moda ou da sensibilidade de cada época se fazem génios hoje, esquecidos amanhã.

Um friozinho faz cócegas na nuca – 3 poemas de Óssip Mandelstam

Este frio siberiano que nos visita no corpo e na alma, fez-me ir buscar um poema de Óssip Mandelstam (1891 – 1938).

 

Um friozinho faz cócegas na nuca,

é impossivel ver de imediato:

também a mim me corta o tempo como

a ti se desgasta e camba o salto.

 

A si mesma se vence a vida, o som

derrete pouco a pouco, falta sempre

qualquer coisa, até falta o tempo

para ter qualquer coisa que se lembre.

 

Dantes era melhor, é bem verdade;

esse velho sussurrar de outrora

em nada se pode comparar,

ó sangue, ao teu sussurrar de agora.

 

Pelos vistos não é gratuito

este leve mexer dos lábios,

e abanam, mexem-se os ramos

que condenaram a ser cortados.

1922

 

A tragédia pessoal do poeta, intuida nos documentos conhecidos, nunca conheceremos do detalhe do seu horror, mas dos tormentos das prisões siberianas foram entretanto conhecidos diversos testemunhos.

Embora tenha lido no inicio da minha juventude Um dia na vida de Ivan Denisovich de Aleksand Solzhenitsyn, foi a leitura há poucos anos de La musique d’une vie, romance de Andreï Makine sobre um pianista que nunca o será, mercê das peripécias decorrentes da arbitrariedade a que um regime absurdo e despótico submete as pessoas, onde encontrei uma aproximação a este frio de alma surgido na impossibilidade de se ser quem se deseja.

Nos livros de Mandelstam que conheço publicados em Portugal com tradução e apresentação dos nunca demais elogiados Nina Guerra e Filipe Guerra, encontram-se detalhes da biografia do poeta que permitem intuir a sua tragédia.

Perseguido, e finalmente preso por ter compostos 2 poemas, eventualmente mais, onde de forma ténue, como se poderá ler num dos poemas “criminosos(?)” que a seguir transcrevo, critica o ditador Estaline – montanheiro do Kremlin – , morreu em transito para a Sibéria, num campo de prisioneiros em Vladivostok.

Eis um dos poemas-crime:

 

Vivemos sem sentir o país sob os pés,

Nem a dez passos ouvimos o que se diz,

E quando chegamos enfim á meia fala

O montanheiro do Kremlin lá vem à baila.

Dedos gordurosos como vérmina gorda,

As palavras certas como pesos de arroba.

Riem-se-lhe os bigodes de barata,

Reluzem-lhe os canos da bota alta.

 

À volta a escumalha – guias de fino pescoço –

Nas vénias da semigente ele brinca com gozo.

Um assobia, o outro geme, aquele mia,

Só ele trata por tu, escolhe companhia.

Como ferraduras, lei ‘trás de lei ele oferta,

Em cheio na virilha, olho e sobrolho e testa.

Cada morte que faz – crime malino

E o peitaço tem amplo, ossetino.

Novembro de 1933

 

São conhecidos poemas do autor desde jovem e felizmente a vida não foi na totalidade a tragédia vivida final. Moço de 18 anos, sente o corpo e interroga-se sobre finalidade e destino,  naquela tão característica profundidade de pensamento que surge a cada passo nos escritores russo:

 

O corpo me é dado – e com que fim,

Meu corpo único, tão de mim?

 

Pela alegria chã de respirar,

Silenciosa, a quem devo louvar?

 

Sou jardineiro e sou flor – cativo

Na prisão do mundo sozinho não vivo.

 

E já nos vidros da eternidade

Cai meu calor, meu sopro respirado.

 

Nela se grava um desenho pra sempre,

Irreconhecivel de tão recente.

 

Escorra do momento a água turva –

O desenho amado não esbate à chuva.

1909

Noticia Bibliográfica:

Os poemas foram retirados de FOGO ERRANTE Antologia poética de Óssip Mandelstam, publicado por Relógio d’ Água em 2001 e de GUARDA MINHA FALA PARA SEMPRE publicado por Assírio & Alvim em 1996 com tradução dos mesmos.

Recolhimento – poema de Baudelaire e tradução de Jorge de Sena

Receuillement

Sois sage, ô ma Douleur, et tiens-toi plus tranquille.
Tu réclamais le Soir ; il descend ; le voici :
Une atmosphère obscure enveloppe la ville,
Aux uns portant la paix, aux autres le souci.

Pendant que des mortels la multitude vile,
Sous le fouet du Plaisir, ce bourreau sans merci,
Va cueillir des remords dans la fête servile,
Ma Douleur, donne-moi la main ; viens par ici,

Loin d’eux. Vois se pencher les défuntes Années,
Sur les balcons du ciel, en robes surannées ;
Surgir du fond des eaux le Regret souriant ;

Le Soleil moribond s’endormir sous une arche,
Et, comme un long linceul traînant à l’Orient,
Entends, ma chère, entends la douce Nuit qui marche.

Charles Baudelaire, Les Fleurs du mal

 

Tradução de Jorge de Sena

RECOLHIMENTO

Tem juízo, ó minha Dor, e faz por sossegar.

O Anoitecer querias, ei-lo que vem vindo:

Uma atmosfera obscura as ruas vai cingindo,

Que a uns promete a paz, e aos outros o pesar.

 

Enquanto dos mortais a multidão vulgar,

Ao chicote do Cio, esse carrasco infindo,

Remorsos colhe o Vício perseguindo,

Dá-me a tua mão, ó Dor, e vamos devagar

 

Longe de tudo. Vê: os anos mortos de outrora

Do céu espreitam em vestes já sem uso agora;

Sobe das fundas águas a Saudade casta;

 

O moribundo Sol num vão de arco descansa

E qual vasto lençol que se do oriente arrasta,

Escuta, oh escuta, a Noite que tão doce avança.

 

in POESIA DE 26 SÉCULOS, Antologia, Tradução e Prefácio de Jorge de Sena

A Poesia de Fernando Pessoa há 80 anos (1931) — Autopsicografia

Visito por estes dias a poesia que Fernando Pessoa escreveu há cerca de 80 anos, no inverno de 1931.

Por exemplo, na passada quarta-feira, 19-01 passaram 80 anos sobre uma desolada interrogação do eu: … / Sou, sem lar, nem conforto, nem esperança,/ Nem desejo de os ter./…

Vale a pena ler o poema todo:


Cai amplo o frio e eu durmo na tardança

De adormecer –

Sou, sem lar, nem conforto, nem esperança,

Nem desejo de os ter.


E um choro por meu ser me inunda

A imaginação.

Saudade vaga, anónima, profunda,

Náusea da indecisão.


Frio do inverno duro, não te tira

Agasalho ou amor.

Dentro em meus ossos teu tremor delira.

Cessa, seja eu quem for!


Foi um dia de grande produção. A obra ortónima regista três poemas.

Quase para o fim do mês, sem data, surgiu aquele, entretanto famoso

Gato que brincas na rua

Como se fosse na cama,

Invejo a sorte que é tua

Porque nem sorte se chama.


Bom servo das leis fatais

Que regem pedras e gentes,

Que tens instintos gerais

E sentes só o que sentes,


És feliz porque és assim,

Todo o nada que és é teu.

Eu vejo-me e estou sem mim,

Conheço-me e não sou eu.

e neste Eu vejo-me e estou sem mim cabe um mundo de desespero às vezes tão presente em cada um de nós.

Passam os dias e o registo de poesia que ficou é quase quotidiano. Em Fevereiro, a 11,

Parece às vezes que desperto

E me pergunto o que vivi;

Fui claro, fui real, é certo,

Mas como é que cheguei aqui?


A bebedeira às vezes dá

Uma assombrosa lucidez

Em que como outro a gente está.

Estive ébrio sem beber talvez.


E de aí, se pensar, o mundo

Não será feito só de gente

No fundo cheia deste fundo

De existir clara e ebriamente?


Entendo, como um carrossel,

Giro em meu torno sem me achar…

(Vou escrever isto num papel

Para ninguém me acreditar …)


e aqui surge uma insinuação do que será alguns meses passados a reflexão definitiva sobra a relação de verdade entre o eu e a poesia, o poema AUTOPSICOGRAFIA.

Mas entretanto os poemas surgem com pequeníssimas variações de tema. Em Março, a 13, é uma interrogação na forma de poema – Quando é que me serei?que nos surge:


Quando é que o cativeiro

Acabará em mim,

E, próprio dianteiro,

Avançarei enfim?


Quando é que me desato

Dos laços que me dei?

Quando serei um facto?

Quando é que me serei?


Quando ao virar da esquina

De qualquer dia meu

Me acharei a alma digna

Da alma que Deus me deu?


Quando é que será quando?

Não sei. E até então

Viverei perguntando:

Perguntarei em vão.

Que a vida é cousa ao lado

Para quem pensa em ser.

Quando será meu fado

O fado que hei-de ter?


Apetece continuar a leitura. A produção de Março de 1931 é intensa, a obra ortónima regista 35 poemas neste mês.

Chegado Abril, no dia 1, dia das mentiras temos 2 poemas.

Aparece-nos primeiro:

Vou passando pelo bosque

Pelo bosque vou passando,

E ouço alguém que não existe

Cantar o que estou pensando.

poema falhado. Mas a seguir, surge a obra-prima que é AUTOPSICOGRAFIA:


AUTOPSICOGRAFIA


O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.


E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.


E assim nas calhas da roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

E o Verão nunca mais chega! Até lá, Poesia de Sophia

Poema de geometria e de silêncio

Ângulos agudos e lisos

Entre duas linhas vive o branco

Ó Poesia – quanto te pedi!

Terra de ninguém é onde eu vivo

E não sei quem sou – eu que não morri

Quando o rei foi morto e o reino dividido.

*

Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas

Deixarei que o teu nome se perca repetido

Mas espera-me:

Pois por mais longos que sejam os caminhos

Eu regresso.

 

Mandei para o largo o barco atrás do vento

Sem saber se era eu o que partia.

Humilhei-me e exaltei-me contra o vento

Mas não houve terror nem sofrimento

Que à praia não trouxesse

Morto o vento.

Margens inertes abrem os seus braços,

Um grande barco no silêncio parte.

Altas gaivotas nos ângulos a pique,

Recém-nascida a luz, perfeita a morte.


Um grande barco parte abandonando

As colunas dum cais ausente e branco.

E o seu rosto busca-se emergindo

Do corpo sem cabeça da cidade


Um grande barco desligado parte

Esculpindo de frente o vento Norte

Perfeito o azul do mar, perfeita a morte

Formas claras e nítidas de espanto.

Dormem na praia os barcos pescadores

Imóveis mas abrindo

Os seus olhos de estátua


E a curva do seu bico

Rói a solidão.

 

*

 

Dai-me o Sol das águas azuis e das esferas

Quando o mundo está cheio de novas esculturas

E as ondas inclinando o colo marram

Como unicórnios brancos.

Noticia Bibliográfica:

Os poemas foram extraidos do livro “CORAL” de SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN com ilustrações do pintor José Escada.

A edição foi de Portugália Editora, sem data.