Fotografar a dansa (com s por sugestão de Sophia)

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Yousuf Karsh - Maya Plisetskaya

Fotografar a dansa (com s por sugestão de Sophia de Mello Breyner Andresen a quem parecia ser S a letra adequada para dar à palavra o movimento do seu significado) parece um contra-senso – imobilizar algo que só existe em movimento.

Nesta foto de Yousuf Karsh (1908-2002) surge uma aproximação convincente à dansa fotografada, onde a lenda do ballet clássico, Maya Plisetskaya (1925), morre como cisne no ballet de Tchaikovsky, O Lago dos Cisnes.

Tudo me é uma dança em que procuro

A posição ideal,

Seguindo o fio dum sonhar obscuro

Onde invento o real.

À minha volta sinto naufragar

Tantos gestos perdidos

Mas a alma, dispersa nos sentidos,

Sobe os degraus do ar…

Sophia de Mello Breyner Andresen

in POESIA, 1944

Os beijos – poema ultra-romântico

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William Holman Hunt 1827-1910 - The awakening Conscience 1853 TateEm maré de beijos poéticos, venho com um poema do ultra-romantismo assinado António José de Sousa Almada e escrito em Lisboa, em 1848.

O poema apenas nos mostra, uma vez mais, a constância da palpitação erótica através das épocas e o impulso para a sua formulação poética.

Ao contrario de Catulo e dos seus beijos mil, o nosso jovem (suponho) clama da falta deles:

Dos beijos que por aí vão
Perdidos,… que nem eu sei;
Nem sequer um beijo só
Dos que se perdem, achei!


E mais, não é por descuido,
Nem por faltar-me o desejo,

E o nosso jovem(?) dando-se ares de inocente escreve:


Que eu não sei dizer ainda
O gosto que tem um beijo.

Pedi-los… não querem dar-me,
Furtá-los… não sei a quem,
Por mais que busque e pergunte
Onde estão?… e quem os tem?!

Que sabem bem… desconfio
Pois mo têm vindo contar;

Bom, com a conversa daqui a pouco esquartejo todo o poema, pelo que fico-me por mais esta citação:


E dizem também que há beijos
Que dados mais de uma vez:
Entumecem nos sentidos
Torrentes de languidez.

Passam os séculos mas chegada a idade certa, a conversa é sempre a mesma.

Eis o poema, retirado do pó de mais de 150 anos.

Os Beijos

Dos beijos que por aí vão
Perdidos,… que nem eu sei;
Nem sequer um beijo só
Dos que se perdem, achei!

E mais, não é por descuido,
Nem por faltar-me o desejo,
Que eu não sei dizer ainda
O gosto que tem um beijo.

Pedi-los… não querem dar-me,
Furtá-los… não sei a quem,
Por mais que busque e pergunte
Onde estão?… e quem os tem?!

Que sabem bem… desconfio!
Pois mo têm vindo contar:
Há beijo, que tira a cor,
Há beijo… que faz corar!

O beijo que tira a cor,
É beijo dado com medo;
Que sobressalta, e descora
A quem lhe guarda o segredo.

O beijo que faz corar,
É quase sempre o primeiro;
Murmúrio d’alma da virgem,
Que assoma aos lábios fagueiro.

Os beijos que são pedidos,
Pousa-os na face a vontade:
É o amor a dilatar-se
No perfume da amizade!

Mas os beijos que são dados
À vista de muita gente,
Desmerecem no apreço
E arrefecem de repente.

E dizem também que há beijos
Que dados mais de uma vez:
Entumecem nos sentidos
Torrentes de languidez.

Eu cá por mim, — nada sei,
Mas acho que estes são
Mistérios que não se explicam,
Segredos do coração!

Não sei: — nem mesmo se o beijo,
Revela às vezes, pousando,
Mística voz lá do céu
Que a boca não diz, falando!

E se inexacto julgarem
Os beijos que descrevi;
Mostrem-me as Damas o erro
Dando-me um beijo a mi!…

Que os beijos que por aí vão,
Perdidos,… que nem eu sei.
Nem sequer um beijo só
Dos que se perdem, achei.

Lisboa, 1848

Nota final

O poema vem publicado no Tomo IV de Lísia Poética, colectânea de poesia romântica e ultra-romântica publicada no Rio de Janeiro em 1849 por José Ferreira Monteiro.

A pintura que abre o artigo, denominada O despertar da consciência, 1853, é obra do pintor Pré-Rafaelista William Holman Hunt (1827-1910).

Beijos mil – o poema V de Catulo

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Rodin - O beijo - terracota

Permanece no imaginário de quem o leu como forma superior de dizer do amor e da sua paixão o Carme V de Catulo (Gaius Valerius Catullus, 87 ou 84 a.C. – 57 ou 54 a.C.), ad Lesbiam.

O eterno do desejo e a sua urgência ganha forma poética neste acontecer de beijos dados e desejados, sucedendo-se pela vida e para além dela.

Objecto de variadas traduções ao longo dos tempos, encontrou na recente tradução de José Pedro Moreira e André Simões um comovedor equilíbrio entre fidelidade textual e poesia.

Vivamos, Lésbia minha, e amemos.
A má-língua dos velhos mais sisudos
para nós não valha mais do que um tostão.
Podem os dias morrer e nascer:
quando a breve luz de vez morrer
noite perpétua devemos juntos dormir.
Dá-me beijos mil, e depois cem,
e depois mil outros, e depois mais cem,
e depois ainda mais mil, e depois cem.
Depois, quando muitos dermos,
baralhá-los-emos para não sabermos quantos,
ou não possa homem mau invejar-nos
ao saber que quantos beijos demos.

Antes desta versão, dera-nos Jorge de Sena a leitura com que por décadas vivemos o poema:

Vivamos, minha Lésbia, e nos amemos.
Sem que o que digam murmurantes velhos
Importe para nós mais que uma palha.
Podem morrer e renascer os sóis.
A nós, quando se apaga a breve luz,
Noite é perpétua que dormir havemos.
Oh dá-me beijos mil, depois um cento,
Depois mais outros mil, e um outro cento,
Depois ainda outros mil, e mais um cento.
Depois, quando os milhares forem já muitos,
Erraremos a conta, a não saibamos,
Para que a inveja não nos leve a mal,
Sabendo quanto foi de beijos dado.

Também Maria Helena da Rocha Pereira, com a probidade da sua oficina, o traduziu:

Vivamos, minha Lésbia, e amemos,
e os murmúrios ds velhos mais severos
dêmos-lhes a todos o valor de um cêntimo!
Os sóis podem extinguir-se e voltar:
mas nós, uma vez que se extingue a breve luz do dia,
temos de dormir uma só noite, para sempre.
Dá-me mil beijos, depois um cento,
e mais mil, depois outro cento,
depois outros mil, e mais cem.
Em seguida, quando juntarmos muitos milhares,
misturamo-los, para que não saibamos
ou nenhum malvado possa invejar-nos,
quando souber que tantos foram os beijos.

Termino com o original latino do poema.

V. ad Lesbiam

VIVAMUS mea Lesbia, atque amemus,

rumoresque senum seueriorum

omnes unius aestimemus assis!

soles occidere et redire possunt:

nobis cum semel occidit breuis lux,

nox est perpetua una dormienda.

da mi basia mille, deinde centum,

dein mille altera, dein secunda centum,

deinde usque altera mille, deinde centum.

dein, cum milia multa fecerimus,

conturbabimus illa, ne sciamus,

aut ne quis malus inuidere possit,

cum tantum sciat esse basiorum.

Klimt_Gustav-The_Kiss

O Edital, poema de Augusto Gil

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MASTER of the Duke of Bedford - Construindo a Torre de babel 1423

Pessoa amiga sugeria-me que hoje, a pretexto do dia do livro infantil, aqui trouxesse a poesia que mais me tocou na infância. Ela já está algures no blog: foi o poema popular Nau Catrineta.

Nesta pausa da Páscoa passeava em Tavira, minha cidade natal, e reencontrei um condiscípulo de escola primária, básica chama-se hoje, que nunca mais vira, e em verdade, não consigo trazer à memória qualquer recordação que o relacione. Foi um encontro gratificante e, simultaneamente, embaraçoso, pelo carácter admirativo de que se revestiu, e tenho pudor de contar.

Como já aqui rememorei, aprendi a ler, escrever e contar aos 3 anos, e chegado à escola oficial com seis anos, encontrei cerca de trinta rapazes com sete anos e mais, para quem este mundo de ler e escrever era uma novidade absoluta. Foi fácil ganhar um ascendente e uma aura de prodígio, que já esquecera, e agora reencontrei.

Saber ler é um poder considerável do qual hoje não há, felizmente, vestígios. A generalização da aprendizagem disso se encarregou. Não foi sempre assim, e no Portugal até 1974 o analfabetismo era uma terrível realidade.

É dessa realidade que fala o poema O Edital de Augusto Gil (1873-1929) que acabei por escolher para de algum modo sinalizar este dia do livro infantil.

O Edital

Manuel era um petiz de palmo e meio
(ou pouco mais teria na verdade),
de rosto moreninho e olhar cheio
de inteligente e enérgica bondade.

Orgulhava-se dele o professor…
No porte e no saber era o primeiro.
Lia nos livros que nem um doutor,
fazia contas que nem um banqueiro…

Ora uma vez ia o Manuel passando
junto ao adro da igreja. Aproximou-se
e viu à porta principal um bando
de homens a olhar o quer que fosse.

Empurravam-se todos em tropel,
ansiosos por saberem, cada qual,
o que vinha a dizer certo papel
pregado com obreias no portal…

“Mais contribuições!” – supunha um.
“É pràs sortes, talvez” … outro volvia.
Quantas suposições! Porém, nenhum
sabia ao certo o que o papel dizia.

Nenhum (e eram vinte os assistentes)
sabia ler aqueles riscos pretos.
Vinte homens e talvez inteligentes,
mas todos – que tristeza analfabetos!…

Furou Manuel por entre aquela gente
ansiosa, comprimida, amalgamada,
como uma formiguinha diligente
por um maciço de erva emaranhada.

Furou, e conseguiu chegar adiante.
Ergueu-se nos pezitos para ver;
mas o edital estava tão distante,
lá tanto em cima, que o não pôde ler.

Um dos do bando agarrou-o então
e levantou-o com as mãos possantes
e calejadas de cavarem pão…
Houve um silêncio entre os circunstantes.

E numa clara voz melodiosa
a alegre e insinuante criancinha
pôs-se a dizer àquela gente ansiosa
correntemente o que o edital continha.

Regressava o abade do passal
a caminho da sua moradia.
Como era já idoso e via mal,
acercou-se para ver o que haveria…

E deparou com esse quadro lindo
duma criança a ler a homens feitos,
dum pequenino cérebro espargindo
luz naqueles cérebros imperfeitos…

Transpareceu no rosto ao bom abade
um doce e espiritual contentamento,
e a sua boca, fonte de verdade,
disse estas frases com um brando acento:

Olhai, amigos, quanto pode o ensino…
Alguns de vós são pais, outros avós,
pois só por saber ler, este menino
— É já maior do que nenhum de vós!

O poema integra o livro VERSOS, publicado em 1898. Transcrevi a versão da 5ª edição,

Ilustra o artigo uma iluminura da construção da Torre de Babel, de Mestre do Duque de Bedford, c. 1423.

E era toda a terra de uma mesma língua, e de uma mesma falaGénesis 11:1

No 1º de Abril, uma noticia sensacional!

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A cidade ideal - possivelmente de Fra Carnevale (1425–1484)

Tive noticia que um investidor, entusiasmado com o sucesso deste blog, decidiu abrir um gigantesco centro livreiro onde se propõe reunir, editar, e por à venda, toda a poesia alguma vez criada pela humanidade.

A ideia de marketing é a de que, cada vez mais, as pessoas querem poesia nas suas vidas. O slogan de lançamento será:

Viva a vida com poesia

A cidade escolhida para a instalação de tão fabuloso centro comercial foi Lisboa, por um lado conhecida por abrigar os maiores centros comerciais de qualquer tipo na Europa, e por outro, pelo facto de todos os dias os leitores de poesia surgirem na cidade nascidos das pedras da calçada.

Para que o resto do mundo não fique fora desta iniciativa, será construído um portal para venda mundial on-line de todas estas publicações.

Está em estudo o projecto de arquitectura para o centro, e ele será decalcado de uma das cidades ideais de pintor anónimo (talvez Fra Carnevale 1425-1484) de que vos mostro a abrir e a fechar, reproduções.

A localização está a ser discutida com a Câmara Municipal e, parece certo, será anunciada na abertura da campanha eleitoral que se avizinha.

Esfreguem as mãos, leitores, a poesia vai invadir-vos a vida.

A cidade ideal - Città_ideale_di_berlino_2

100.000 visitas ao blog – Obrigado!

Hoje foram ultrapassadas 100.000 (cem mil) visitas ao blog.

Um enorme OBRIGADO a todos os que, com o seu interesse, contribuíram para este surpreendente número em pouco mais de 3 anos de vida, num blog maioritariamente dedicado à poesia.

Destas 100.000 visitas, quase 80.000 aconteceram o ano passado e já este ano.

O blog cresce em audiência de forma exponencial, e este 2013 vai com uma média de 245 visitas diárias. Com todos vós faremos a poesia mais presente à nossa volta. OBRIGADO LEITORES!

Autor do blogA foto é de Elizabeth Lamego Grant, fotógrafa por paixão, a quem daqui agradeço o fotografado sorriso, e com ele apresentar-me aos leitores do blog em prazenteira face.

As Pietá de Michelangelo e o poema Stabat Mater

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Michelangelo-Pietá do Vaticano detalhe da Virgem

Em Sexta-feira da Paixão trago-vos as Pietá de Michelangelo (1475-1564)

São esculturas em que a dor viva quase faz sangrar a pedra, seja na perfeição plástica de Maria (em cima) e do Cristo (a seguir) da escultura da Basílica do Vaticano (hoje mutilada no nariz de Maria e que ainda tive a felicidade de contemplar intacta e sem vidro de protecção),

Michelangelo-Pietá do Vaticano detalhe do Cristo

Michelangelo-Pietá do Vaticano

seja na rugosidade áspera do sofrimento nas Pietá de Florença,

Michelangelo-Pietá Galeria dell'Academia

Michelangelo-Pietá Museo dell'Opera del Duomo, Florence

ou no inacabado da Pietá de Milão.

Michelangelo-Pietà Rondanini inacabada

Dá conta deste sofrimento o poema medieval Stabat Mater que aqui arquivo no original em latim e na tradução oficial da Igreja Católica.

Stabat Mater

1 Stabat Mater dolorosa iuxta crucem lacrimosa dum pendebat Filius

  De pé, a mãe dolorosa junto da cruz, lacrimosa, via o filho que pendia

2 Cuius animam gementem contristatam et dolentem pertransivit gladius

  Na sua alma agoniada enterrou-se a dura espada de uma antiga profecia

3 O quam tristis et afflicta fuit illa benedicta Mater Unigeniti

  Oh! Quão triste e quão aflita entre todas, Mãe bendita, que só tinha aquele Filho

4 Quae moerebat et dolebat et tremebat cum videbat nati poenas inclyti

  Quae moerebat et dolebat Pia Mater dum videbat nati poenas inclyti

  Quanta angústia não sentia, Mãe piedosa quando via as penas do Filho seu!

5 Quis est homo qui non fleret Matri Christi si videret in tanto supplicio?

  Quem não chora vendo isso: contemplando a Mãe de Cristo num suplício tão enorme?

6 Quis non posset contristari Matrem Christi contemplari dolentum cum filio?

  Quem haverá que resista se a Mãe assim se contrista padecendo com seu Filho?

7 Pro peccatis suae gentis vidit Iesum in tormentis et flagellis subditum

  Por culpa de sua gente Vira Jesus inocente Ao flagelo submetido

8 Vidit suum dulcem natum moriendo desolatum dum emisit spiritum

  Vê agora o seu amado pelo Pai abandonado, entregando seu espírito

9 Eia Mater, fons amoris, me sentire vim doloris fac ut tecum lugeam

  Faze, ó Mãe, fonte de amor que eu sinta o espinho da dor para contigo chorar

10 Fac ut ardeat cor meum in amando Christum Deum ut sibi complaceam

  Faze arder meu coração do Cristo Deus na paixão para que o possa agradar

11 Sancta Mater, istud agas crucifixi fige plagas cordi meo valide

  Ó Santa Mãe dá-me isto, trazer as chagas de Cristo gravadas no coração.

12 Tui nati vulnerati tam dignati pro me pati poenas mecum divide

  Do teu filho que por mim entrega-se a morte assim, divide as penas comigo.

13 Fac me vere tecum flere crucifixo condolere donec ego vixero

    Fac me tecum pie flere crucifixo condolere donec ego vixero

  Oh! Dá-me enquanto viver com Cristo compadecer chorando sempre contigo.

14 Iuxta crucem tecum stare te libenter sociare in planctu desidero

     Iuxta crucem tecum stare et me tibi sociare in planctu desidero

  Junto à cruz eu quero estar quero o meu pranto juntar Às lágrimas que derramas

15 Virgo virginum praeclara mihi iam non sis amara fac me tecum plangere

  Virgem, que às virgens aclara, não sejas comigo avara dá-me contigo chorar.

16 Fac ut portem Christi mortem passionis eius sortem et plagas recolere

      Fac ut portem Christi mortem passionis fac consortem et plagas recolere

  Traga em mim do Cristo a morte, da Paixão seja consorte, suas chagas celebrando.

17 Fac me plagis vulnerari cruce hac inebriari ob amorem filii

     Fac me plagis vulnerari fac me cruce inebriari et cruore filii

  Por elas seja eu rasgado, pela cruz inebriado, pelo sangue de teu Filho!

18 Inflammatus et accensus, per te, Virgo, sim defensus in die iudicii

    Flammis ne urar succensus, per te, Virgo, sim defensus in die iudicii

    Flammis orci ne succendar, per te, Virgo, fac, defendar in die iudicii

  No Julgamento consegue que às chamas não seja entregue quem por ti é defendido

19 Fac me cruce custodiri morte Christi praemuniri confoveri gratia      Christe cum sit hinc (iam) exire da per matrem me venire ad palmam vicoriae

  Quando do mundo eu partir daí-me ó Cristo conseguir, por vossa Mãe a vitória

20 Quando corpus morietur fac ut animae donetur paradisi gloria. Amen

  Quando meu corpo morrer possa a alma merecer do Reino Celeste a glória. Amém.

O poema foi objecto e inspiração musical de algumas obras-primas no século XVIII, sobretudo, e a minha preferência vai, inteira, pela espiritualidade que se desprende da música, para a composição de Joseph Haydn.

Aqui fica a sugestão de audição.

Uma manhã, no golfo de Corinto… e mais poemas de António Patrício

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Traveller 01

É a um itinerário de amor e de prazer que nos convidam estes poemas de António Patrício (1878-1930), irmãos daquele soneto / obra-prima — Saudade do teu corpo — que em tempos aqui transcrevi.

São memória da felicidade do corpo que a mente revisita num folhear de lembranças, e a mestria o verso sublima.

Uma manhã, no golfo de Corinto…

Uma manhã, no golfo de Corinto,
comemos grandes cachos-moscatel.
O mar, de leite e azul, tinha veios de absinto;
e o teu corpo, ao sol, como um sabor a mel.

Enlaçámo-nos nus entre loureiros-rosas,
róseos e brancos, alternando, até à praia.
— Não tornam mais a vir as horas dolorosas:
sumiram-se ao cair subtil da tua saia.

E boca contra boca, a sorver bagos de âmbar,
bem brunidos de sol, e sempre a arder em sede,
assim ficámos nós até que veio a tarde
deitar-nos devagar sua mística rede.

Mostraste-me a sorrir, no golfo, uma medusa:
“Queria viver assim, disseste, a vida toda.”
Tínhamos vinho com resina numa infusa,
e bebemo-lo os dois para acabar a boda.

Fomos nadar depois: a água era tão densa,
que nos trazia mornamente, ao colo,
num puro flutuar, beatitude imensa,
entre reflexos, a arrolar, de rolo em rolo…

A noite veio enfim: estendidos na areia,
pusemo-nos então a entristecer calados.
Como dois mármores: um tritão e uma sereia
que o golfo adormecia em soluços velhos.

Passamos agora da Grécia para o outro lado do mar, e é na velha Turquia que a memória do prazer passeia.

Poema de EYÚB

Tenho saudades de Eyúb…
Da cidadezinha-cemitério
a subir as ruas da colina,
dos ciprestes com ninhos de cegonha,
das stelas sem fez, dos turbantes em ruína.
Pé ante pé, como se fosse um crime,
tu entravas, de pálpebras cerradas,
no pátio sombreado da mesquita!
Na fonte ritual, de mármores rosados,
com inscrições de sonho, a malaquite e lazúli,
faziam-se, em silêncio, as abluções:
caíam com preguiça as folhagens dos plátanos,
no mosaico do chão estremeciam pombas.
Ao pé do túmulo dos derviches santos
erguia-se, a sorrir, o nosso perfumista.
E no teu sac-a-main, em vidros fasciados,
o génio dos jardins que ninguém visitou
e um velho nos vendeu em tardes de Setembro
dormia entre cartões e o teu bâton de rouge.
Corríamos Eyúb em todos os sentidos:
ruas de mausoléus arrendadas de acácias,
— fumávamos ao sol, nos mármores partidos —;
havia um ar de além narcotizando tudo:
os vivos que passavam como mortos,
o Corno de Oiro, ao longe, esfumado e de vidro.
Nenhum de nós falava.
E, porosa à tristeza, a tua argila eslava
impregnava-se, bebia a vida em torno,
para ma dar depois em luxúria e em sonho.
No cimo da colina,
Era a velada imensa dos ciprestes.
Voltávamos, então, a fitar Estambul,
reconhecendo cada domo, os minaretes.

E cada minarete, à voz do muezzin,
era um caule a florir, em orações, no ar.
Arrefecia um pouco: e nós os dois, descendo,
colados e com ritmo, entre calhaus rolando,
saíamos enfim do cemitério imenso.
Os mortos, em Eyúb, adormeciam todos…
À colina violácea as cegonhas voltavam.
E o ópio da terra muçulmana
doria tudo numa paz sem nome.

Ao pé do embarcadoiro,
olhando a água, a goles muito lentos,
bebíamos café que um cafégi trazia.
E na penumbra glauca as medusas bailavam:
Vénus, ao fundo, era no golfo um cális de oiro…
E ainda os nossos olhos a fitavam,
quando, em barco de sombra, o vapor atracava,
E, sem ruído, a gente turca se escoava.

Oh! a volta, oh! a volta,
na água espessa de noite, em dezenas de escalas,
até tocar por fim na ponte, em Estambul.
Nós íamos os dois como que entorpecidos,
sem um só movimento, enluvando os sentidos,
como a dizer adeus às coisas que passavam.

E passava o Phanar cor de sangue coalhado
(o sangue de Bizâncio a crepitar na tarde),
misérrimos jardins com um minarete pobre
(aonde vai rezar um muezzin em farrapos),
e que é como um pombal, como o pombal deserto
de que o génio de Allah fosse a invisível pomba.

Ah! Deitai-vos, deitai-vos…
Dormi nos contrafortes das mesquitas,
minaretes de Eyúb e de Constantinopla:
da Sulimanié e de Santa Sofia,
todos vós, todos vós; adormecei: deitai-vos…
Devagarinho: há névoa já: ninguém nos vê…
Como os mortos de Eyúb, adormecei. Silêncio.
Se houver estrelas é mais tarde. Adormecei.

Termina este curto deambular por memórias de paixão com a nostálgica recordação do anuncio do fim.

Em Prinkipo

O Outono de cristal enredomava a ilha.

Era uma elísea luz que os ciprestes fiavam

em rocas verde-bronze: os pinhais plumulavam.

Ouvimos não sei quê; e era – maravilha! –

era uma migração de cegonhas que vinha

em triângulos, gris, sobre a calma marinha,

num ritmo musical, musicalmente absorto,

como seguindo no ar o fantasma de um morto.

Suspendeu-nos os dois o lindo acorde de asas

que vinha do Mar Negro, entre jardins e casas.

E como a migração, rósea e gris despedida,

também em ti dissesse o adágio da partida,

tu colaste-te a mim: deste-me o teu terror:

era a Morte a passar por sobre o nosso amor.

Muito tempo passou. – Onde estás tu agora? –

Queria saber se em ti a magia dessa hora,

aquela migração de cegonhas que vinha,

rósea e gris, a vibrar, na atmosfera marinha,

voa e revoa ainda, irreal maravilha,

no Outono de cristal que enredomava a ilha.

Os poemas foram transcritos de Poesia Completa, Assírio & Alvim, Lisboa s/d (1980).

Miguel Torga – quatro poemas de Cântico do Homem

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Michelangelo-Creation_of_Adam_detail-1508-1512-III

A curtos espaços releio a poesia de Miguel Torga (1907-1995). Vogo por entre os poemas num deambular de interrogações sobre o sentido deste viver de homem só em frente ao mundo.

Bato à porta da minha solidão,
E ninguém abre!
Na grande noite que me rodeou,
Quem vinha ao meu encontro, desviou
A direcção fraterna da ternura…

Trevas — é o que ficou
Na concha de que fiz a sepultura.

São poesia que insiste em fugir-nos no pouco amável do seu verso, e onde as exigências do existir nos confrontam.

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou, e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Hoje paro em mais dois poemas do livro Cântico do Homem pela primeira vez publicado em 1950.

Sonho perdido

Como foi que o meu sonho se perdeu
No liso descampado desta vida?
Distraída
Atenção
Que tão ingloriamente empobreceu
Quem não tinha outro vinho e outro pão!

Na fundura dos bolsos não encontro
Nem sequer a lembrança desenhada
Do seu calor!
Perdi o sonho… E resta-me o pudor
Deste triste poema ressequido…
Perdi o sonho… E nunca se encontrou
Nenhum sonho perdido.

Último Reduto

Meu coração é bom naturalmente.
Gosta do mar, da terra e das crianças.
Bate uma vida inteira sem mudanças,
Se ninguém o magoar.
No seu calor, é quente
Qualquer amor que o venha visitar.

Fonte dum rio que dá volta ao corpo
Da humanidade,
Nunca, em nenhuma idade,
Empobreceu a força do caudal!
Generosa, fecunda e permanente,
A vermelha corrente
Regou sempre a secura do areal.

E querem duvidar desta certeza!
Querem que uma represa
De amargura
Seja a vil sepultura
Dum braço que sempre se alargou!
Querem que a noite da desilusão
Se dobre sobre cada pulsação
Da onda que a ternura levantou!

Cantiga da Condessa de Die (sec. XII-XIII)

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Iluminura 10x500

É famosa a cantiga da Condessa de Die (sec. XII-XIII) onde a supremacia da vontade da mulher no seio do casal se afirma sem ambiguidades:

Não há nenhum mór prazer
Que vos ter com’a marido.
Se de vós for prometido
Fazerdes quant’eu quiser.

Ao longo do poema, sem falsos pudores, a Condessa fala-nos do amor, físico, evidentemente, em termos que poucas mais vezes uma mulher ousou em poesia:

Ai quero ao meu cavaleiro
Apertar às tetas brancas!
O corpo dou-lh’eu inteiro,
Cavalgará minhas ancas!

Este poema é parte do glorioso corpus da poesia Provençal, berço da poesia europeia pós-latina, e raiz do entendimento do poeta como cantor do amor na devoção da amada, que foi o seu entendimento social até ao século XIX. Nele apenas os sexos entre evocador e evocado se trocam.

A versão de Jorge de Sena que transcrevo procura em português moderno conservar o sabor peculiar desta forma de dizer amor em poesia.

CANTIGA

Grã coita tenho sofrido
Por homem que desdenhei.
Que sempre seja sabido
Quanto o amo e amarei.
É-me agora fementido
Por amor que eu recusava.
E doida eu’stava em vestido
Ou se nua me deitava.

Ai quero ao meu cavaleiro
Apertar às tetas brancas!
O corpo dou-lh’eu inteiro,
Cavalgará minhas ancas!
Cá lh’estou mais que rendida
Flora o foi de Brancaflor,
É todo seu meu amor,
Minh’alma, os olhos, e a vida.

Aí meu amigo velido!
S’em meu poder vos tomar
E convosco me deitar
E d’amor eu vos beijar,
Não há nenhum mór prazer
Que vos ter com’a marido.
Se de vós for prometido
Fazerdes quant’eu quiser.

Acrescento o original da canção em langue d’oc

Estat ai en greu cossirier

per un cavallier qu’ai agut,

e vuoil sia totz temps saubut

cum ieu l’ai amat a sobrier.

Ara vei qu’ieu sui trahida

car ieu non li donei m’amor

don ai estat en gran error

en lieig e quand sui vestida.

Ben volria mon cavallier

tener un ser en mos bratz nut,

qu’el s’en tengra per ereubut

sol qu’a lui fezes cosseillier.

Car plus m’en sui abellida

no fetz Floris de Blanchaflor,

lui eu l’austrei mon cor e m’amor

mon sen, mos huoillis e ma vida.

Bel amics avinens e bos,

cora.us tenrai en mon poder?

E que jagues ab vos un ser

e qu.us des un bais amoros?

Sapchatz, gran talen n’auria

qu.us tengues en luoc del marit

ab so que m’aguessetz plevit

de far tot so qu’eu volria.

Por fim uma versão da canção em francês moderno para aqueles que dominam a língua poderem apreciar melhor o trabalho de virtuose da palavra levado a cabo por Jorge de Sena.

J’ai été en cruelle douleur

pour un chevalier que j’ai eu,

je veux qu’il soit pour toujours su

que je l’aimais par-dessus tout.

Mais je vois que je suis trahie

car je ne lui donnai pas tout l’amour,

j’ai fait une terrible erreur

au lit ou encore vêtue.

Je voudrais tant mon chevalier

tenir un soir entre mes bras nu

et qu’il se trouve comblé,

que je lui serve de coussin.

Je suis plus amoureuse de lui

que jamais Floris de Blanchefleur,

je lui donne mon coeur, mon amour,

mon sens, mes yeux et ma vie.

Bel ami élégant et bon,

quand vous tiendrai-je en mon pouvoir ?

Quand coucherai-je avec vous un soir,

vous donnant un baiser amoureux ?

Sachez que j’ai grand désir

de vous à la place du mari,

pourvu que vous m’ayez promis

de faire tout ce que je voudrais.

A versão para francês moderno é de Jacques Roubaud.

A identidade da Condessa de Die (sec. XII-XIII) permanece misteriosa sendo umas vezes considerada esposa de Guilherme I de Valentinois, de nome próprio Beatrice, outras tida como filha de Guigne V, delfim de Viennois. A sua obra conhecida compõe-se quatro cansos e uma tenso com Raimbaut d’Orange, e datam do virar dos sec. XII e XIII. E é o máximo que com segurança hoje se pode afirmar.

Noticia bibliográfica

A tradução de Jorge de Sena consta da sua antologia Poesia de 26 séculos, Fora do texto, Coimbra, 1993.

A transcrição do poema original, da moderna tradução francesa e da noticia biográfica, foram feitas a partir do livro Le Moyen Âge flamboyant, Poesie et peinture, 2006, deslumbrante edição de Diane de Selliers onde poesia medieval e iluminuras raras se confrontam.

O livro propõe-se, e consegue, revelar uma idade média insuspeitada, impressionante de vivacidade e expressão, duma humanidade transbordante de ternura, de espírito, de humor, em estreita comunhão com a natureza.

Em português apenas podemos ter uma pálida ideia deste universo poético com as parcas, mas belas, traduções de Augusto de Campos e mais recentemente da obra de Guilherme IX de Aquitânia por Arnaldo Saraiva, sendo que as traduções de Segismundo Spina, no seu clássico A Lírica Trovadoresca, porque em prosa, apenas tenuemente aproximam esta poesia.

Condessa de Die