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Category Archives: Poetas e Poemas

Essa Negra Fulô e outros poemas de Jorge de Lima

03 Quinta-feira Fev 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poetas e Poemas

≈ 3 comentários

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Jorge de Lima

 

Conheço mal a obra de Jorge de Lima. De muito novo acompanha-me Essa Negra Fulô dito na voz de João Villaret e gravado num recital no Teatro S. Luis em Lisboa, em 1957 se não erro, recital esse editado em dois discos de vinil.

 

Nota: Há pequenas trocas na ordem porque os versos são ditos por Villaret em relação à versão impressa do poema que possuo e que aqui transcrevo.

 

Poema de onde sai um mundo, é um mundo apenas aparentemente extinto.

Hoje são outras as práticas e outras as relações de domínio entre seres humanos, mas a sua verdade, tão pungentemente aqui descrita, permanece.

Essa Negra Fulô

Ora, se deu que chegou

(isso já faz muito tempo)

no bangüê dum meu avô

uma negra bonitinha,

chamada negra Fulô.

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá)

— Vai forrar a minha cama,

pentear os meus cabelos,

vem ajudar a tirar

a minha roupa, Fulô!

 

Essa negra Fulô!

 

Essa negrinha Fulô

ficou logo pra mucama,

pra vigiar a Sinhá

pra engomar pro Sinhô!

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá)

vem me ajudar, ó Fulô,

vem abanar o meu corpo

que eu estou suada, Fulô!

 

vem coçar minha coceira,

vem me catar cafuné,

vem balançar minha rede,

vem me contar uma história,

que eu estou com sono, Fulô!

 

Essa negra Fulô!

 

“Era um dia uma princesa

que vivia num castelo

que possuía um vestido

com os peixinhos do mar.

Entrou na perna dum pato

saiu na perna dum pinto

o Rei-Sinhô me mandou

que vos contasse mais cinco.”

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô? Ó Fulô?

Vai botar para dormir

esses meninos, Fulô!

“Minha mãe me penteou

minha madrasta me enterrou

pelos figos da figueira

que o Sabiá beliscou.”

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô? Ó Fulô?

(Era a fala da Sinhá

Chamando a negra Fulô.)

Cadê meu frasco de cheiro

Que teu Sinhô me mandou?

 

— Ah! Foi você que roubou!

Ah! Foi você que roubou!

 

O Sinhô foi ver a negra

levar couro do feitor.

A negra tirou a roupa.

 

O Sinhô disse: Fulô!

(A vista se escureceu

que nem a negra Fulô.)

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

Cadê meu lenço de rendas,

Cadê meu cinto, meu broche,

Cadê o meu terço de ouro

que teu Sinhô me mandou?

Ah! foi você que roubou.

Ah! foi você que roubou.

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

O Sinhô foi açoitar

sozinho a negra Fulô.

A negra tirou a saia

e tirou o cabeção,

de dentro dêle pulou

nuinha a negra Fulô.

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

Cadê, cadê teu Sinhô

que Nosso Senhor me mandou?

Ah! Foi você que roubou,

foi você, negra fulô?

Essa negra Fulô!

Poesia multifacetada, tantas vezes coloquial, culmina em A Invenção de Orfeu, longo poema publicado em 1952, pouco antes da morte do poeta, e do qual disse João Gaspar Simões:

Tudo entra no poema de Jorge de Lima concebido na febre que exalta, no sonho que dilata, no transe que confunde. E o passado junta-se ao presente. Memória e invenção, sonho e realidade, história e futuro, infância e ancestralidade confundem-se, como se, em verdade, o poeta formasse com o seu poema uma espécie de caos preparatório de onde surgirá um dia uma ordem ideal.

Nos anos 30 do século XX o poeta converteu-se ao catolicismo reflectindo-se na sua poesia essa dimensão religiosa.

Rasto dessa conversão são os 2 poemas escolhidos a seguir.

Primeiro este A mão enorme guiando a nau da existência num dos grandes poemas da lingua portuguesa, onde à cadência do verso se une a meditação teológica do destino.

A mão enorme

Dentro da noite, da tempestade,

a nau misteriosa lá vai.

o tempo passa, a maré cresce,

o vento uiva.

A nau misteriosa lá vai.

Acima dela

que mão é essa maior que o mar?

Mão de piloto?

Mão de quem é?

A nau mergulha,

o mar é escuro,

o tempo passa.

Acima da nau

a mão enorme

sangrando está.

A nau lá vai.

O mar transborda,

as terras somem,

caem estrelas.

A nau lá vai.

acima dela

a mão eterna

lá está.

E este singular Inverno, onde, numa ligação à terra e à natureza tão característica da poesia brasileira antiga, e é o eco de Glaura de Manuel Inácio da Silva Alvarenga que me ressoa nesta Zefa com quem o poeta fala, também aqui temos no final a marca da devoção religiosa:

Mas tudo isso, Zefa, / vamos dizer, / só com os poderes / de Jesus Cristo!


Inverno

Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojés,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!

Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno
Covas bem fundas
pra enterrar cana:
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nelas se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite
pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa…
E mais gostoso
que tudo isso:
noites de frio,
lá fora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
córgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne de sol
chia nas brasas,
farinha d’água,
café, cigarro,
cachaça, Zefa…
…rede gemendo…
Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!

Termino a escolha com Este Poema De Amor Não É Lamento

Este poema de amor não é lamento
Nem tristeza distante, nem saudade,
Nem queixume traído nem o lento
Perpassar da paixão ou pranto que há de

Transformar-se em dorido pensamento,
Em tortura querida ou em piedade
Ou simplesmente em mito, doce invento,
E exalta visão da adversidade.

É a memória ondulante da mais pura
E doce face (intérmina e tranqüila)
Da eterna bem-amada que eu procuro;

Mas tão real, tão presente criatura
Que é preciso não vê-la nem possuí-la
Mas procurá-la nesse vale obscuro.

 

Em nota final refiro que o espectáculo O Grande Circo Místico, de Edu Lobo e Chico Buarque de Hollanda, foi baseado na obra do poeta.

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E o Verão nunca mais chega! Até lá, Poesia de Sophia

19 Quarta-feira Jan 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Poema de geometria e de silêncio

Ângulos agudos e lisos

Entre duas linhas vive o branco

Ó Poesia – quanto te pedi!

Terra de ninguém é onde eu vivo

E não sei quem sou – eu que não morri

Quando o rei foi morto e o reino dividido.

*

Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas

Deixarei que o teu nome se perca repetido

Mas espera-me:

Pois por mais longos que sejam os caminhos

Eu regresso.

 

Mandei para o largo o barco atrás do vento

Sem saber se era eu o que partia.

Humilhei-me e exaltei-me contra o vento

Mas não houve terror nem sofrimento

Que à praia não trouxesse

Morto o vento.

Margens inertes abrem os seus braços,

Um grande barco no silêncio parte.

Altas gaivotas nos ângulos a pique,

Recém-nascida a luz, perfeita a morte.


Um grande barco parte abandonando

As colunas dum cais ausente e branco.

E o seu rosto busca-se emergindo

Do corpo sem cabeça da cidade


Um grande barco desligado parte

Esculpindo de frente o vento Norte

Perfeito o azul do mar, perfeita a morte

Formas claras e nítidas de espanto.

Dormem na praia os barcos pescadores

Imóveis mas abrindo

Os seus olhos de estátua


E a curva do seu bico

Rói a solidão.

 

*

 

Dai-me o Sol das águas azuis e das esferas

Quando o mundo está cheio de novas esculturas

E as ondas inclinando o colo marram

Como unicórnios brancos.

Noticia Bibliográfica:

Os poemas foram extraidos do livro “CORAL” de SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN com ilustrações do pintor José Escada.

A edição foi de Portugália Editora, sem data.

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quem não recorda / não vive – Tavira e 3 poemas de Yvette K. Centeno

16 Quinta-feira Dez 2010

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Yvette K. Centeno

A  MEMÓRIA  É  UM  NOVELO

Novelo

 

de pequenas

artérias

rebentadas

 

por ali

escorre

a memória

 

a pulsação

que dói

 

quem não recorda

não vive

 

não desenrola

o fio

que redime

 

Regresso ao café da minha infância.

O local é o mesmo, são outros os clientes. Por momentos pensei reencontrar o velho empregado, presença tutelar daquele lugar. Avental branco à cintura, braço levantado onde ao alto equilibrava a bandeja metálica, e súbito, a expectativa de uma semana a materializar-se. Pousava na mesa um enorme prato com bolos e um copo de leite morno. Eram o lanche sonhado dos domingos de chuva. A atmosfera densa do café no azulado do fumo de tabaco e vapor davam um sentido especial ao inverno.

Na pequenez dos meus seis anos, o café tinha a dimensão de uma catedral. Tecto alto, paredes imensas, povoado dos gigantes que eram os adultos e onde, por umas horas, tínhamos permissão de permanecer. Com alguma desilusão constato como essa catedral da minha memória é afinal um pequeno café onde escassas vinte pessoas se acotovelam. A decoração mudou.  Da madeira castanho escuro do balcão, mesas e cadeiras,  dos assentos em pele verde e da luz difusa, passou agora a uma atmosfera luminosa, madeiras claras e cadeiras de palhinha num ambiente de conforto descontraído, agradável ao adulto que agora sou.

Sentado na esplanada olho as palmeiras no jardim em frente, e lembrando como tinham quase 100 anos quando nasci vejo-as acrescentadas dos cinquenta anos que já vivi.

Voltei ao café da minha infância. As lembranças, os sonhos aqui vividos, a aprendizagem feita entre estas paredes, tudo isso guardo no canto especial das recordações queridas.

Lá fora anoitece e o céu veste-se de um profundo azul ultramarino. Os candeeiros da rua, agora acesos, salpicam o crepúsculo de pequenas luzes douradas numa feérica paisagem de sonho. Chuvisca e a calçada subitamente molhada brilha no fulgor da pedra polida pelos anos. Entre os vultos que passam na pressa do fim do dia, tento descortinar os rostos dos meninos que conheci. Em vão.

Carlos Mendonça Lopes

Ivette K. Centeno recorda no poema TAVIRA  I este mesmo jardim frente ao café da minha infância, o lago em volta do coreto onde tantos dias e noites de verão brinquei:

TAVIRA  I

Não brincam no jardim

as infâncias perdidas

 

O lago já secou

nas grades do coreto

enforcaram-se os músicos

 

E a palmeira

sem tâmaras

marca só o lugar

do tempo que passou.

Deixo-o, leitor, com esta bela interrogação sobre  A vida / Diria melhor o tempo?

DEFINIÇÕES

A vida

 

Diria melhor o tempo?

Mas não

não era o tempo

era a vida

um somatório de tempos

e de espaços

 

a vida estava agora

de tal modo concentrada

que pouco lhe sobrava

ou mesmo nada

Noticia Bibliográfica: Os poemas foram retirados do livro Entre Silêncios, publicado em 1997 por Pedra Formosa, Edições.

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UMA LEITURA DA POESIA DE MANUEL DE FREITAS

02 Quinta-feira Dez 2010

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Manuel de Freitas

Os livros acabam por vir ter conosco, referiu sabiamente J.V. Pina Martins num seu precioso ensaio sobre o amor dos livros:

[os livros] companheiros dos homens que os amam, eles sabem também procurar aqueles que com eles conversam.

… são eles que nos encontram e neles podemos sempre ter a certeza de descobrir uma palavra de conselho, de advertência e de amor!

e agora aconteceu-me.

A treta literária que por aí circula, elogiada no jogo de espelhos de amigos e capelas, tem-me mantido afastado e feito perder o contacto com alguma poesia com que afinal vale a pena, não sei se viver, certamente conhecer.

Encontrei-me recentemente com a poesia de Manuel de Freitas (1972). Surpresa, prazer e memória cruzaram-se para uma leitura apaixonada dos livros que consegui obter. Que mundo fui encontrar. Em Portugal sentiu-se assim enquanto eu vivia uma vida umas vezes feliz, outras sobressaltada?  Foi na verdade mais espantado que perplexo que a li uma primeira vez.

É um mundo pequeno, o desta poesia. Há outros. O leitor que o sabe apreciará a verdade deste universo fechado sobre si no desencanto de estar vivo, onde a principio a morte parece esperar-se como uma libertação.

Uma poesia sobre o real, narrada na primeira pessoa, pode tentar-nos como autobiografia. Nada mais enganador.

Saberá o poeta e nós não, em que medida os dados de biografia espalhados pelos poemas em itinerários de espaço e tempo, conjugados com as dedicatórias, são realidade ou artificio literário para construir uma imagem. É irrelevante. Não confundamos o poeta com o cenário.

A realidade da vida nunca se confunde com a realidade literária. Nesta, a fragmentação que lhe é própria permite a cada leitura operar a síntese entre a experiência de vida do leitor e o que lhe é dado ler. E aí, esta poesia é rica. Escorre sinceridade nos relatos de emoção que são cada poema. Emoção de memórias vividas, contadas ou intuídas, não importa. Comovem-nos ao lê-las. Pode pedir-se mais a uma poesia?

Poesia de ironia ausente, levando-se a sério nas supostas verdade que nos conta, é sincera. E é esse o seu valor. Chega até nós, quase desde o início, em pequenos livrinhos amorosamente pensados.

Na unidade que a maior parte dos livros apresenta, exceptuem-se as compilações, onde um pequeno mundo se mostra e o poeta/homem nele se vê, muitas vezes com pena de si, e onde a excelência da factura poética está quase sempre presente, encerra-se um relato poético, frequentemente fascinante, desenvolvido entre um começo e um epílogo, a que acresce a completude no interior de cada poema.

Há, claro, contaminação entre livros que acaba por transmitir a impressão de uma unidade temática numa poesia publicada ao longo de 10 anos, apresentando uma visão do mundo a partir do adolescente em guerra com as emoções de não ser adulto, até ao adulto que encontrou o caminho por onde quer seguir.

Suspeito, por isso, que a poesia que virá será outra, profundamente diferente, a qual, a espaços, visitará este passado.

Ilude-se o poeta ao supor andar há 20 anos a falar da morte quando no poema publicado no seu último livro A NOVA POESIA PORTUGUESA – TEMA SEM VARIAÇÕES  o refere, e transcrevo:

TEMA SEM VARIAÇÕES

– para o Manuel de Freitas, mon semblable –

Sempre soubeste: a morte.

Sempre sentiste: a morte.

As tabernas fechadas, eram

apenas uma espécie de refrão.

 

Mas isso, terás de convir,

não desculpa o facto

de andares há vinte anos

a escrever o mesmo.

 

Faz como as tabernas: cala-te.

Aproximar-se-ia da verdade em grande parte dos poemas, se referisse antes que anda a falar da morte de estar vivo, num lancinante grito de pedido de ajuda:

tirem-me deste filme, digam-me como é viver.

Neste mundo de tabernas os personagens bebem tinto e olham a vida no fundo do copo. O narrador bebe cerveja e faz versos que publica. Nenhum dos seus personagens vai em poesia além do dinheiro que tem no bolso e da vida que com ele faz: “ o pobre tem aquilo que pode ter, e o resto é conversa”.

Leiamos os dois primeiros livros:

Trata-se de uma poesia sub-25, por assim dizer, composta entre os 17 e os 25 anos.

É mais pungente que irónico o título do primeiro livro publicado em Setembro de 2000, Todos contentes e eu também.

Poesia juvenil (17 – 20 anos) a braços com a descoberta das emoções e em luta com um certo mal de vivre repassado de leituras poéticas onde a depuração da palavra ainda não chegou:

– tudo nos fazia lembrar um livro, / demorada canção onde afinal / não pudemos caber.

No poema final o poeta recomenda-se

… Parte / ao amanhecer como quem se esqueceu  /  de regressar.

Inebriada com a ilusão de ser adulto, esta poesia Embebeda-se. E pela escrita inventa / um crepúsculo que torne menos cruéis / as manhãs desesperadamente brancas / que o obrigam a viver.

Este primeiro livro, respeitando a um arco temporal de criação poética de 3 anos (1989-1992) termina com a redenção pela água

A água chama-nos , arrebata-nos uma força  / a que só podemos chamar revelação. numa simbólica lavagem de um passado , qual  bolor da nossa passagem magoada / sobre a terra.

A seguir o poeta publicou Os Infernos Artificiais (2001).

Nos diálogos de solidão com taberneiros (as) reside grande parte da fulguração desta poesia juvenil composta, ao que parece, entre 1993 e 1997, e cuja temática se prolonga por livros mais tardios.

Exterior à gente que frequenta a taberna, tenta fundir-se nela com o ligeiro desacerto de beber cerveja onde se vive de vinho e desencanto ou de um tempo bem passado a ver a vida.

Nas tabernas, por paredes e mesas às vezes o azul espreita, rasgos de luz a querer iluminar, ou fazer fugir, aquele negrume, suposição de vida. São as cenas de taberna pintadas por Jan Steen, cervejeiro em Delft e pintor holandês de génio no século XVII, o que me salta aos olhos à leitura de tantos destes poemas.

Na maior parte dos poemas lemos uma humanidade encalhada na vida, envolta entre fumo e álcool, onde perpassa uma imensa, gritante, falta de foder como deve ser

Estas coisas perdem-se. Primeiro / a disponibilidade para a paixão, depois / a própria capacidade de alguém / se vir noutro alguém. … [Celine blues]

naquela alegria primordial que explica porque vale a pena viver. É gente que nunca está nua frente à natureza, que não conhece o mar.

Poesia fascinada do nojo de si, apenas em alguns poemas apanha a espessura do humano.

 

Em LEVADAS publicado em Março de 2004, faz o pleno.

Num grande, enorme livro de 16 poemas, a arte da síntese que a poesia é manifesta-se. E vemos e seguimos por lugares povoados de gente e memória:

 

Mariazinha. Esquecia-se de comer,

regressava devagar à tristeza

feliz da infância. …

 

numa geografia da alma que fala da diversidade do mundo falando do universo isolado que é a Ilha da Madeira.

Publicado em Março de 2007 e composto entre Janeiro e Abril de 2004, um outro livro, JUROS DE DEMORA, desperta em mim o desejo do comentário.

Colecção de poemas onde se cobra a demora em ser feliz,

não sei de que fujíamos,

pergunta-se o poeta, e onde a juvenil urgência de viver desiludiu,

nunca mais acreditei no sexo / sem amor,  no amor sem sexo.,

neste mundo onde a taberna é

refúgio de quem se especializou na abdicação.,

a percepção da harmonia existente na paciência dos pequenos gestos espreita na observação do jardineiro:

junta as folhas uma a uma, / com um pequeno ancinho, / e sorri, distante, aos que se / namoram – ,

e comovidamente regista em imagens musicais a visita da morte:

“A folha, outra folha. / Onde a tua mão repousava, /

e no poema seguinte:

Débeis folhas de loureiro, rente / ao fim da tarde, serviram-me de aviso.”.

 

Neste relato de estudantis deambulações por Coimbra, sexo e solidão incluídos, é pelo cinzento do real, num momento rasgado a vermelho

“ Ela vestia o mais ardente / vermelho que já vira.”,

que somos levados:

“Lá fora, no sereno largo do Romal, / os repuxos de água (por mais / luz que lhes dessem) eram / incapazes de corrigir as trevas.”

 

Entretanto o poeta viajou, outros livros sugiram. Olhou os outros e viu-se neles.

Avançando no tempo acontece nesta poesia a redenção pela musica e pelo amor, e uma certa linguagem poética chega a um beco.

Em fecho de viagem visito dois livros onde a musica reina.

JUKEBOX  1 & 2 (Outubro de 2009)

Sendo grande parte desta poesia um requiem por uma morte anunciada, em JUKEBOX  1 & 2 temos a morte anunciada como metáfora no livro 1.

No livro 2 há um progressivo renascer, ou mesmo ressuscitar, diria, pontuados pela musica, pela beleza da musica, e acontece uma progressiva entrega ao amor.

 

A abrir, refere o protagonista poeta/narrador

… pela primeira vez, / os meus braços já não queriam desistir.

Depois Bach

… foi a melhor, / talvez a única solução / para o horror de estarmos vivos /

Na revisita a Nick Cave, 13 anos depois, a renovada experiência traduz-se em

… coisas de que podemos enfim sorrir

Ano a ano a musica continua a alimentar este recomeço, e em 2002 a musica suspende

…o nojo de haver mundo

Em 2004, pela 1ªvez, suponho, é dia e

A luz da manhã veio dar razão ao último coral

de Bach, talvez.

Ainda 2004 e 2005, o cravo, a musica barroca, e o adulto despede-se do adolescente/anjo decapitado

Coitado, não tem culpa nem cabeça. / demolido rosto que quiseste tanto.

E constata, diria que deslumbrado, que

Às vezes, por breves instantes / a beleza habita sobre a terra, / tão urgente…

2006 e a lucidez de uma viagem breve ao passado

... um tempo que nos encontrava vestidos / de nenhuma cor, partilhando / charros a desoras. O amor?

2007 a coragem do amor aparece e

As pedras de gelo aceitaram desfazer-se no meu copo. … e se reacende, todavia, a vela frágil do amor.

Ou ainda e sobretudo, no poema seguinte:

E a noite, menos escura, se afastava / para sempre destes versos e de nós

Longe vai a irmandade com os destroços da cidade e o narrador deixa a Igreja de S.Domingos, local assombrado pelo fogo da inquisição, a gostar de Poulenc, da sua obra coral pelo menos. Não sei se chegou à Mamelles de Tirésias (a ironia continua longe desta poesia).

2008 no itinerário musical do canto/verso

Uma voz perdida volta a cantar Final Day

E a memória atravessa-se com o passado

Nós, vinte anos depois, nem disso fomos capazes

2009 a despedida de uma poesia de morte como metáfora da recusa de viver

Mas já não tenho poemas

E na verdade, 2009 e 2010 vêem aparecer, ao que julgo, apenas recompilações e reedições, no que será provavelmente um ciclo poético que se fechou.

Termino com BEAU  SÉJOUR publicado em 2003

Chopin , Op. 10 nº3

É sob o guarda-chuva do estudo de Chopin, conhecido pelo nickname de Tristesse, num andamento lento ma nom troppo que o livro se inicia.

Paira um sossego de morte, musica para mãos paradas refere a certa altura o poeta, pela primeira parte do livro. Heilige Tod (Morte Santa) lhe chama. Percorre esta poesia uma serenidade pungente, a espaços iluminada, numa espécie de deambular num regresso a casa depois do mundo experimentado.

BEAU  SÉJOUR é o Op. 10 nº3 de Chopin pontuado pela paz e serenidade do Op. 78 de Schubert [D894], suponho.

A menos de avós e tias, que a espaços afloram na sua grandeza de verdade, as pessoas são mobília no cenário dos poemas. Lemos percursos por lugares onde os poemas derramam o sentimento de ter sido vivido assim.

A existência revista nos nadas que a memória encontra e recupera.

A segunda parte do livro aparece sob a epígrafe do Adagio de abertura da sonata em trio para 2 flautas e contínuo de J.S. Bach BWV 1039. Do ponto de vista musical, Adagio é um tempo lento com carácter lírico, por vezes pungente, e no recorrente entrosamento desta poesia com vivências musicais não podemos, ao lê-la, passar ao lado desta característica.

O abrigo sob o Adagio da sonata BWV 1039 parece conduzir a leitura dos poemas exactamente para esta atmosfera.

É doce a imagem de O café do Hortelão II à luz de um quadro de George La Tour,

uma vez faltou a luz e ficámos / toda a noite em silencio de LaTour ,

naqueles clarões de vela iluminando alguns rostos serenos e permanecendo o escuro no resto da superfície pintada.

A poesia destes lugares, por mais que as palavras o pretendam desmentir, é, para o poeta, esta pintura serena.

Te Deum, Bach e a inclinação musical para a queda fecham o livro no caminho do amor em vermelho [será o vermelho de Coimbra contado em JUROS DE DEMORA?] e já não no azul do vestido que quase rasguei no Baile de Finalistas.

Este  Baile de Finalistas escapa ao crivo do poeta e é um poema falso no trocadilho dos títulos dos livros de Virgílio Ferreira.

Poesia em que as imagens passam a metáforas e se desdobram em símbolos, Pedro e Paulo movem o mundo e o poeta/narrador supõe que ironiza louvando na companhia dos Apóstolos, a Deus – TE DEUM –  quando tem apenas pena de si.

Resisto à tentação de ler o poema como metáfora da peça musical tocada pelo trio Pedro/Paulo/Narrador, que me parece leitura redutora e despida da emoção simbólica que o poema exala.

O excesso, agora, é uma maneira / de dizer  ausencia, o azul caído / em meados de Setembro.

CARPE DIEM (?)- interrogação minha.

 

Noticia Bibliográfica:

Os livros publicados quase sempre em pequenas tiragens são hoje difíceis de encontrar.

Está disponível na Assírio & Alvim uma antologia A ÚLTIMA PORTA, publicada em Março de 2010 em 750 exemplares, que não constitui um panorama da poesia do autor. É uma escolha pessoal do antologiador.

Publicado em Setembro de 2010 em 250 exemplares, A NOVA POESIA PORTUGUESA tem venda exclusiva na Livraria Poesia Incompleta, em Lisboa, que também o editou.

Dos titulos mais antigos encontrar-se-ão alguns junto de livreiros informados e disponíveis.

Os livros lidos ao longo do artigo, além dos já citados foram:

Todos contentes e eu também, publicado por Campo das Letras em Setembro de 2000 sem tiragem declarada.

Os Infernos Artificiais, publicado por frenesi em Maio de 2001 em 500 exemplares.

BEAU SÉJOUR, publicado por Assírio & Alvim em Outubro de 2003, em 1000 exemplares.

LEVADAS, publicado por Assírio & Alvim em Março de 2004, em 350 exemplares numerados e assinados pelo autor.

JUROS DE DEMORA, publicado por Assírio & Alvim em Março de 2007, em 400 exemplares.

JUKEBOX  1  &  2 , publicado por Teatro de Vila Real em Outubro de 2009, numa tiragem de 400 exemplares.

O restante da obra lida, mais onze títulos, contribuiu para consolidar as opiniões desenvolvidas.

 

Nota musical enciclopédica:

Para a eventualidade de algum leitor aqui ter chegado e a isso acrescentar a curiosidade musical, deixo um itinerário discográfico abreviado para as peças musicais de que os poemas falam no livro BEAU  SÉJOUR, sobretudo a sonata para piano de Schubert, mãe do poema OPUS 78, cuja autoria não está identificada e já vi atribuído à Op. 78 de Beethoven.

Para Standchen, que as avós ouviam na radio,e o poeta refere no poema OPUS 78, Schubert compôs 3 canções com o mesmo nome e Dietrich Fischer-Dieskau cantou 2, pois a 3ª é para voz feminina e coro.

Suponho que o poeta se refere à que integra o pseudo-ciclo Canto do Cisne – Schwannengesang –  habitualmente na 4ªposição. Dieskau gravou-a diversas vezes ao longo da vida. Pode encontra-se ainda com facilidade na caixa DG com os 3 ciclos de Schubert para canto e piano, tendo ao piano Gerald Moore. Poupo-me e poupo o leitor à listagem da mais de dezena de interpretações que conheço do ciclo.

Agora a Sonata de Schubert Op.78 D894

Pelo menos 5 poetas do piano:

– Radu Lupu – Decca 2894176402 7 – 1 cd

– Alfred Brendel – Philips 2894469232 7 – 5cd’s – The Art of Brendel, Schubert

– Wilhelm Kempf – DG – 2894637662 1 – 7cd’s – The Piano Sonatas

– Claudio Arrau – Philips 2894329872 8 – 1cd – The Final Sessions 1

– Sviatoslav Richter – Brilliant 502936532 7 – 100cd’s, A fabulosa caixa The Russian Legends com concertos ao vivo. Esta interpretação foi gravada em 03-05-1978.

O ISNB referido é o das cópias que possuo e podem já não existir no mercado com esta identificação, mas é o que tenho. Paciência.

 

Para Chopin, as interpretações dos Estudos, onde se encontra o Op.10 nº3, pululam, pelo que me dispenso de deixar sugestões. Pollini, Richter, valem sempre a pena. Michelangeli sobretudo, se o encontrar.

Para a sonata em trio BWV 1039 de J. S. Bach, com 2 flautas as gravações são menos frequentes. Recomendo, no entanto, a transcrição para 1 flauta e contínuo na interpretação de Marc Hantaï gravada para a Virgin.

Para o diálogo perfeito entre uma Pavana de Byrd e o mar de Santa Cruz [LICEU SÁ DA BANDEIRA 1988], não sei que interpretação sugerir, se no piano de Glenn Gold se no cravo de Leonhard.

A variação de Bizet eventualmente tocada pela preceptora [BOLETIM SALESIANO], se for uma das variações cromáticas de Bizet, poderá ser recordada pelos dedos de Glenn Gold. Ele interpreta-as no disco duplo incluído na colecção Great Pianist of the 20th Century, o qual também inclui Pavanas de William Byrd.

Como nota de curiosidade, para o caso de me ter enganado na identificação da canção de Schubert, aqui fica a referência para a outra Standchen (Serenata) D899. Trata-se da versão alemã de A.W. Schlegel de uma canção da peça de Shakespeare, Cymbeline: Hark! Hark! The lark at heaven’s gate sings, a qual também foi musicada por Joseph Haydn, E Dieskau gravou-a mais que uma vez.

Já agora a 3ª Standchen, D920, para voz feminina e coro pode encontrar-se no disco DG com lieder de Schubert cantado por Anne-Sofie Von Otter, tendo ao piano Bengt Forsberg e o coro feminino da Rádio da Suécia.

Enjoy poetry and music.

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Al andar se hace el camino – Alguns poemas de Antonio Machado

01 Quarta-feira Dez 2010

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Antonio Machado, Poesia Espanhola

A visitação desta poesia e dos autores da Geração de 98, do Modernismo ou da Geração de 27, estou a falar de autores de lingua espanhola evidentemente, cruza-se em mim com os relatos de crueldade da guerra civil e as agruras do pós-guerra vividos por quem me foi próximo.

Encontrar na poesia, tantas vezes, o alento que permitiu olhar em frente e querer viver foi, ao fim e ao cabo, a lição que deste convivio aprendi.

Hoje vem ao caso Antonio Machado (1875 – 1939) cuja poesia me acompanha desde os alvores do estado adulto e de que este proverbio foi minha companhia:

Al andar se hace el camino, / y al volver la vista atrás / se ve la senda que nunca / se ha de volver a pisar.

A biografia do poeta toca-me de forma especial.  Casado aos 34 anos com Leonor,  jovem de 16 anos e a mulher que amava, enviuvou três anos depois. Voltou a apaixonar-se, já passados os cinquenta, por uma casada Guiomar. Fez jus ao que a certa altura escreveu: “Nunca fui mulherengo e repugna-me toda a pornografia. Tive adoração pela minha mulher e não quero voltar a casar.” E não voltou a casar.

É o poeta que de si traça este Retrato a abrir Campos de Castilha (1907-1917):

 

Mi infancia son recuerdos de un patio de Sevilla,

y un huerto claro donde madura el limonero;

mi juventud, veinte años en tierra de Castilla;

mi historia, algunos casos que recordar no quiero.

 

Ni un sedutor Mañara, ni un Bradomín he sido

– ya conocéis mi torpe aliño indumentário –,

mas recibi la flecha que me asignó Cupido,

y amé cuanto ellas pueden tener de hospitalario.

 

Hay en mis venas gotas de sangre jacobina,

pero mi verso brota de manantial sereno;

y, más que un hombre al uso que sabe su doctrina

soy, en el buen sentido de la palabra, bueno.

…

Poesia em que o verso brota de manantial sereno , encontra na natureza e na paisagem de Espanha fonte de inspiração. Por outro lado, a ternura pelas mulheres amadas ressoa longamente na sua poesia, como naquela

Tarde tranquila, casi

con placidez de alma,

para ser joven, para haberlo sido

quando Dios quiso, para

tener algunas alegrias… lejos,

y poder dulcemente recordarlas.

Após a perda da mulher, Leonor, é a Juan Ramon Jiménez que em longa e importante carta confessa: Cuando perdi a mi mujer pensé pegarme un tiro.

Amigos de longa data, conheceram-se nos primeiros anos do século, foi ao livro deste, Arias tristes, publicado em 1903, que dedicou o poema que segue e onde se capta a atmosfera de alguma da poesia de Jiménez, e tão bem sintetizada neste quarteto: Era un acorde lamento / de juventud y de amor / para la luna y el viento, / el agua y el ruiseñor.

A Juan Ramón Jiménez

Era una noche del mes
de mayo, azul y serena.
Sobre el agudo ciprés
brillaba la luna llena,


iluminando la fuente
en donde el agua surtía
sollozando intermitente.
Sólo la fuente se oía.


Después, se escuchó el acento
de un oculto ruiseñor.
Quebró una racha de viento
la curva del surtidor.


Y una dulce melodía
vagó por todo el jardín:
entre los mirtos tañía
un músico su violín.


Era un acorde lamento
de juventud y de amor
para la luna y el viento,
el agua y el ruiseñor.


«El jardín tiene una fuente
y la fuente una quimera…»
Cantaba una voz doliente,
alma de la primavera.


Calló la voz y el violín
apagó su melodía.
Quedó la melancolía

vagando por el jardín.
Sólo la fuente se oía.

São de cariz ora elegíaco, ora filosófico, os poemas reunidos em Provérbios y cantares que integram o livro Campos de Castilla entre os quais estes:

I

Nunca perseguí la gloria

ni dejar en la memoria

de los hombres mi canción;

yo amo los mundos sutiles,

ingrávidos e gentiles

como pompas de jabón.

Me gusta verlos pintarse

de sol e grana, volar

bajo el cielo azul, temblar

súbitamente y quebrarse.

XXIX

Caminante, son tus huellas /        Caminhante, são teus rastos
el camino y nada más; /                o caminho e nada mais;
caminante, no hay camino, /       caminhante, não há caminho
se hace camino al andar. /           faz-se o caminho ao andar.
Al andar se hace el camino, /       Ao andar faz-se o caminho,
y al volver la vista atrás /              e ao olhar-se para trás
se ve la senda que nunca /           vê-se a senda que jamais
se ha de volver a pisar. /               se voltará a pisar.
Caminante no hay camino /          Caminhante, não há caminho,
sino estelas en la mar. /                somente sulcos no mar.

Vai longo o artigo e há que pôr-lhe fim. Se tivesse que escolher apenas um poema da obra de Antonio Machado, escolheria este:

Anoche cuando dormía  /                            De noite quando dormia
soñé ¡bendita ilusión!  /                sonhei, bendita ilusão!,
que una fontana fluía  /                               que uma nascente fluía
dentro de mi corazón.  /                              dentro do meu coração.
Dí: ¿por qué acequia escondida,  /            Por que ribeira escondida,
agua, vienes hasta mí,  /                              água, vens tu até mim,
manantial de nueva vida  /                          manancial de nova vida
en donde nunca bebí?  /                onde jamais eu bebí?

Anoche cuando dormía  /                            De noite quando dormia
soñé ¡bendita ilusión!  /                               sonhei, bendita ilusão!,
que una colmena tenía  /                             que uma colmeia vivia
dentro de mi corazón;  /                              dentro do meu coração;
y las doradas abejas  /                                  e as douradas abelhas
iban fabricando en él,  /                               iam fabricando nele,
con las amarguras viejas,  /                        com as amarguras velhas,
blanca cera y dulce miel.  /                         branca cera e doce mel.

Anoche cuando dormía  /                            De noite quando dormia
soñé ¡bendita ilusión!  /                sonhei, bendita ilusão!,
que un ardiente sol lucía  /                          que um ardente sol luzia
dentro de mi corazón.  /                              dentro do meu coração.
Era ardiente porque daba  /                        Era ardente porque dava
calores de rojo hogar,  /                              o calor de um rubro lar,
y era sol porque alumbraba  /                    e sol porque alumiava,
y porque hacía llorar.  /                 porque fazia chorar.

Anoche cuando dormía  /                            De noite quando dormia
soñé ¡bendita ilusión!  /                               sonhei, bendita ilusão!,
que era Dios lo que tenía  /                         que era Deus o que eu trazia
dentro de mi corazón. /                               dentro do meu coração.

Noticia bibliográfica:

Das Poesías Completas de Antonio Machado em espanhol existem hoje diversas e acessíveis edições, por exemplo o nº 33 da Coleccíon Austral da Editorial Espasa Calpe. Em português encontram-se alguns poemas traduzidos na monumental  e notável ANTOLOGIA DA POESIA ESPANHOLA CONTEMPORÂNEA, da responsabilidade – selecção e tradução – de José Bento, editada por Assírio & Alvim em 1985. As versões em português aqui transcritas foram retiradas dessa edição.

Noticia Pictográfica:

A foto é de Dorothea Lange (1895 – 1965). A cópia é contemporânea, obtida a partir do negativo original, propriedade da Biblioteca do Congresso dos EUA. A foto foi tirada nos anos 30 do século XX no âmbito do programa da FSA (Farm Security Administration).

 

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EM LISBOA COM RUY CINATTI e O TÉDIO RECOMPENSADO

09 Terça-feira Nov 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poetas e Poemas

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Ruy Cinatti

 

Ocupado a trabalhar para a reforma, esqueci-me de viver. Hoje, pequeno livro aberto leio:

FASTIO

Quem me faz descer desta mansarda já,

onde me icei?


Farto estou já de estar sozinho

a caçar as moscas,

como se minha fosse a voz irada

que assim me mantém

divinizado.


Com a pressa de não ter nada que fazer, olhei o dia.


NOVO DIA

A manhã sobe

na minha vidraça

Ó penumbra nítida!

Ó claridade!


A manhã rebenta

como explosão

Salto remoçado

da cama pró chão.


Ó realidade

crescida, sincrónica,

sempre afirmação

só para quem ama!


A manhã vibrou

numa gota fina

suspensa da folha

que à janela assoma.


Que manhã tão fria

me anuncia inverno.

Quanto arrepio

na minha cidade.


Medito na vida

ano após ano

um mês repetido

sempre um desengano.

 

Estava sol e hesitei: fico em casa? Não, vou à Baixa. Entre a vidraça espreita


CAPARICA ALÉM

Luz e mais luz é o que eu quero,

translúcido à luz que me atravessa

e desenha na parede branca

as linhas puras do desejo oculto.


Luz é o que avança e me prende

às formas inefáveis, ao meu espírito

fugaz, mas delírio célere

de lâminas, vertigem-vácuo.


E da janela que me atrasa eu vejo

montes além, o dominio da praia

onde os passos são ondas e retraem

paisagem povoada de almas.

 

Afinal vou à Baixa!

Ir à baixa é uma ocupação de coisa nenhuma. Encontramos o Fernando, lembramo-nos do Esteves ao passar na Tabacaria, tropeçamos no pedinte de olhos tristes por profissão. Se formos pelas bandas do Martim Moniz e Mouraria, lá estará o corvo Vicente, sim porque embora o Cardoso Pires não diga onde mora o corvo, sempre achei que devia ser para aquelas bandas. Enfim, enquanto as pernas andam olhamos em redor e distraímos o espírito.


TRÂNSITO

A navegação parava

a meio do rio,

como a sinalização

nos Restauradores, no Rossio.


Paragem demorada,

signo vermelho na mão

mais do que em qualquer cidade

da Europa lembrada.


No rio, era mansa a tarde

em que aflitos os navios

esperam a vez de virar

rebocados pelo piloto.


Na cidade, o peão

apalermado, ciente

de que a qualquer momento

pode atravessar sem perigo.


Ora lembrando o contraste

desta cidade e do rio,

havia um homem pausado

no olhar, na intenção.


Dizia, de si para si:

Lisboa é uma aventura

qualificada de repente

morte lenta ou suicídio.


Mas tão bela que é valente

até na estúpida falta

de conceito ou de estrutura

mental ou de relação.


Havia a atracção do rio

e do mar, depois seguindo

brumas de bastidor

do continente perdido.


O que há agora, eu sei:

desastre após desastre,

a navegação parada

a meio do rio.

 

E eu, homem pausado no olhar, na intenção , vejo:

ALEGRIA

Novidade é uma rapariga solta

que passa,

me afaga,

redime

quando nela fito

os meus olhos pidescos

e rio.

 

FACTO

Tenho aprendido muito convosco, ó amigos homens,

a gostar de aventuras e, sobretudo,

mulheres, ao alto, ao lado, ao fundo

e, adormecido, sonhar fora do mundo.

7/12/76

 

Mas estou acordado e vejo o rio, o rio que dá cabo de mim:


QUASE UMA ODE AO TEJO

…

O rio dá cabo de mim.

Quando volto a casa, subo a escada,

abro a janela, olho o rio,

sorrio, bebo uisque ou limonada,

tanto se me dá – é sempre um rio.

Tejo – aventura desaguada – ,

livre de mim, enfim, segue o destino

seguido pela mal amada

que bate à tua porta, insiste e nada

persiste do que fora infindo.

…

Quem pudesse continuar esquecido de mim em ti


O TÉDIO RECOMPENSADO

I

Entre mulheres, eu sinto-me cansado.

Veio profundo

corre por mim

que aflora antigas ocorrências,

que me demovem

a fastidiosas empresas.


Sorrio agora

quando muito.

Há supercílios oculares que iludem

a passagem do tempo.


II

Mulher, mulheres, mulher,

fruto proibido

pela carne que ma nega.


Fruto desejado,

tomá-lo-ei nas mãos. Afluirei

aromas de mulher,

com ócios masculinos, reflectindo,

delicado.


III

Saciado,

procuro os teus lábios

semiabertos. Flor

quase a abrir-se…

Meto os teus dedos

nos meus. Suspiro fundo.

E renuncio ao mundo

esquecido de mim em ti.

 

 

LISBOA À NOITE… EM MIM

Já a noturna sombra se adianta.

O dia evade-se

entre cansaços e meditação.

Contemplo pernas e braços.

Desmaio na minha face.


Doce a escultura da chuva

no vidro baço, na lisa

flutuação das imagens.

O vento lima as arestas

da minha imaginação.


Clamorosos no som passam os táxis

na pista do esquecimento.

Sussurram depois no fundo

da pergunta que não cessa, que não cessa

– obcessiva pergunta cega-rega.


Com o seu ar de polícias reformados

têm as suas preocupações

os motoristas

do transito alado

A noite julga-se imensa

O momento é de noivado.


É de noivado longínquo

e de choro a noite imensa.

Não magoes as palavras

com a tua sem-razão.


Recorda-te apenas só

numa verdade falida.

O muro excrementado, a morte iniludível,

são a tua mansarda, a tua fé na vida.


Não magoes as palavras,

nem lhes queiras mal por isso .

Afivela-te aos sapatos.

Afirma-te num sorriso.


Os teus amigos esperam-te.


Pergunta-lhes onde fica,

se lembram o paraíso.


FIM DE VIAGEM!


Noticia Bibliográfica:

A cidade destes poemas incluídos em tempo da cidade, publicação póstuma de 1996 na colecção forma da Presença, é a Lisboa de RUY CINATTI (1915 – 1986) segundo Peter Stilwell, o editor da obra póstuma de Cinatti, a Lisboa da casa-mansarda ao Bairro Alto com vista soberba sobre a Outra Margem, a Ponte Pênsil e Caparica Além, e datarão do final dos anos 60 tal como O Tédio Recompensado livro e poema do mesmo título publicado em 1968 por Guimarães Editores

FACTO é o primeiro de 56 POEMAS publicado NA REGRA DO JOGO em 1981, antologia escolhida entre os poemas policopiados dos anos anteriores e distribuidos em folhas volantes.

A pequena efabulação encenada com os poemas é da minha responsabilidade. Comentários aos poemas são desnecessários.


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Visita a Gonçalves Crespo

28 Quinta-feira Out 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poetas e Poemas

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Gonçalves Crespo

Se alguém levado pela curiosidade de um nome de rua quiser conhecer a poesia de Gonçalves Crespo, encontrará as maiores dificuldades.

Ao que julgo saber, a última edição em Portugal das  suas OBRAS COMPLETAS foi feita em 1913, há quase cem anos, portanto. E no entanto, no seu tempo, muitas das suas poesias foram conhecidas de cor nos salões de Portugal. Como por exemplo aquela   A SESTA em que uma crioula repousa na rede enquanto o negro que a embala a come com os olhos.

Lido o poema em voz alta, a suave dolência do quadro e o embalar da cena saltam do andamento dos versos numa simbiose perfeita.

Ora experimente:

A  SESTA

Na rede, que um negro moroso balança,

Qual berço de espumas,

Formosa crioula repousa e dormita,

Enquanto a mucamba nos ares agita

Um leque de plumas

 

Na rede perpassam as trémulas sombra

Dos altos bambus;

E dorme a crioula de manso embalada,

Pendidos os braços da rede nevada

Mimosos e nus.

 

A rede, que os ares em torno perfuma

De vivos aromas,

De súbito pára, que o negro indolente

Espreita lascivo da bela dormente

As túmidas pomas.

 

Na rede suspensa dos ramos erguidos

Suspira e sorri

A lânguida moça cercada de flores;

Aos guinchos dá saltos na esteira de cores

Felpudo saguí.

 

Na rede, por vezes, agita-se a bela,

Talvez murmurando

Em sonhos as trovas cadentes, saudosas,

Que triste colono por noites formosas

Descanta chorando.

 

A rede nos ares de novo flutua,

E a bela a sonhar!

Ao longo nos bosques escuros, cerrados,

De negros cativos os cantos magoados

Soluçam no ar.

 

Na rede olorosa, silêncio! Deixai-a

Dormir em descanso!…

Escravo balança-lhe a rede serena;

Mestiça, tem leque de plumas acena

De manso, de manso…

 

O vento que passa tranquilo, de leve,

Nas folhas do ingá;

As aves que abafem seu canto sentido;

As rodas do engenho não façam ruído,

Que dorme a Sinhá!

Este ambiente de sanzala, recordação da infância no Brasil, não é temática exclusiva da sua poesia, mas é destas memórias que saem alguns dos seus mais belos poemas, como nesteoutro poema, AS VELHAS NEGRAS, onde, num registo diferente, realçando a paz da noite envolvente da sanzala,

Na floresta rumorosa / Esparge a lua formosa / A clara luz tropical.

nos fala do lazer magoado dos negros cativos:

Que noite de paz! que noite! / Não se ouve o estalar do acoite, / Nem as pragas do feitor! / E as pobres negras, coitadas, / Pendem as frontes cansadas N’um letárgico torpor!

Na elegância que a caracteriza, fazendo fluir o verso com natural suavidade, somos levados para aquele mundo de contrastes violentos entre senhores e escravos, apenas com uma palavra aqui outra acolá, pintando um quadro onde as velha negras meditam a vida:

Conheceram muito dono: / Embalaram tanto sono / De tanta sinhá gentil! / Foram mucambas amadas, / E agora inuteis, curvadas, / N’uma velhice imbecil!

Eis o poema:

 

AS VELHAS NEGRAS

 

As velhas negras, coitadas,

Ao longe estavam sentadas

Do batuque folgazão.

Pulam creoulas faceiras

Em derredor das fogueiras

E das pipas de alcatrão.

 

Na floresta rumorosa

Esparge a lua formosa

A clara luz tropical.

Tremeluzem pirilampos

No verde escuro dos campos

E nos côncavos do val.

 

Que noite de paz! que noite!

Não se ouve o estalar do acoite,

Nem as pragas do feitor!

E as pobres negras, coitadas,

Pendem as frontes cansadas

N’um letárgico torpor!

 

E cismam: outrora, e d’antes

Havia também descantes,

E o tempo era tam feliz!

Ai! que profunda saudade

Da vida, da mocidade

Nas matas do seu país!

 

E ante o seu olhar vazio

De esperanças, frio, frio

Como um véu de viuvez,

Ressurge e chora o passado

– Pobre ninho abandonado

Que a neve alagou, desfez…

 

E pensam nos seus amores

Efémeros como as flores

Que o sol queima no sertão…

Os filhos quando crescidos,

Foram levados, vendidos,

E ninguém sabe onde estão.

 

Conheceram muito dono:

Embalaram tanto sono

De tanta sinhá gentil!

Foram mucambas amadas,

E agora inuteis, curvadas,

N’uma velhice imbecil!

 

No entanto o luar de prata

Envolve a colina e a mata

E os cafezais em redor!

E os negros mostrando os dentes,

Saltam lépidos, contentes,

No batuque estrugidor.

 

No espaçoso e amplo terreiro

A filha do fazendeiro,

A sinhá sentimental,

Ouve um primo recém-vindo,

Que lhe narra o poema infindo

Das noites de Portugal.

 

E ela avista, entre sorrisos,

De uns longínquos paraísos

A tentadora visão…

No entanto as velhas, coitadas,

Cismam ao longe sentadas

Do batuque folgazão…

 

É de Teixeira de Queiroz, companheiro de uma vida, desde estudante em Coimbra até à véspera da morte, que me socorro para transmitir um retrato do poeta, senhor de um riso de bondade e de uma ironia travessa e inofensiva:

No seu quarto de estudo[em Coimbra]… entrava todo o mundo e todo o mundo era bem acolhido. A força de simpatia que este excelente rapaz resumia era um tesouro. Os neófitos da literatura procuravam-no animosamente sem o conhecerem, e em poucos minutos de conversação, quase se transformavam em íntimos amigos do poeta. Este traço vivo do seu carácter, conservou-o toda a vida, mesmo quando já era um nome laureado. Muitas vezes, no seu gabinete da Travessa de Santa Catarina, em Lisboa, encontrei indivíduos totalmente desconhecidos, que o Crespo me apresentava como notáveis poetas, romancistas e dramaturgos e que, afinal de contas, eram somente apreciáveis cavalheiros do Rio Grande do Sul, de Macau, ou do Alentejo, os quais ele conhecera pela primeira vez nesse dia, o que não obstava a tratarem-se reciprocamente como companheiros de colégio.

(in Prólogo de Teixeira de Queiroz à 3ª edição de MINIATURAS em 1884, publicada após a morte do poeta. Este é o retrato fascinante de uma personalidade, escrito num português cuja elegância o excerto evidencia)

e continuo a citar:

“O segredo do seu proverbial poder de atracção compunha-se de elementos bem diversos. Alguns vinham do seu talento de poeta, outros da sua ciência de conversar, outros finalmente da sua distinção pessoal. Combinava-os a todos instintivamente… A voz insinuante, o olhar vivo de míope, tendo doçuras e lampejos, iluminava-lhe a palavra persuasiva; os dentes brancos, iguais como os dum pente de marfim, sobressaiam na cor escura do seu rosto, dando a esta fisionomia singular uma expressão que rarissimamente se encontra. Crespo não tinha nada da vulgaridade dos homens formosos, nem mesmo do ridículo dos homens bem parecidos; porém todas as pessoas que se aproximavam dele confessavam que era um rosto atraente e de uma mobilidade cativante.”

Crioulo, nascido no Rio de Janeiro de pai português, aos 10 (14?) anos veio para Portugal, que adoptou como Pátria e onde foi deputado (legislaturas de 1879 e 1882). Licenciado em Direito em Coimbra em 1875, onde estudou e foi condiscípulo de João Penha e Guerra Junqueiro, entre outras personalidade de menor memória, casou com Maria Amália Vaz de Carvalho, influente personalidade da época, e ao Brasil nunca mais voltou.

Como refere Maria Amália Vaz de Carvalho, foi o livro MINIATURAS que a levou ao casamento, ou nas suas palavras “Pareceu-me que era um poeta como aquele, que eu positivamente tinha esperado havia muito, e que ele chegara;”.

É em Maria Amália Vaz de Carvalho que encontro uma caracterização penetrante da poesia de Gonçalves Crespo, referindo-se a essa poesia como parnasiana a qual junta: “a suavidade, a melodia, a correcção do metro, ao sentimento profundo, à compreensão clara,… da alma contemporânea”.

Possa a escolha poética que fiz traduzir a verdade destas considerações.

Vamos então a mais poesia.

Depois das recordações tropicais aproximemo-nos desta poesia de salão com as várias sínteses do amor vivido em sociedade, e contado com a suavidade apanágio do autor:

 

UM NUMERO DO INTERMEZZO

 

Ria, tomando chá em torno à mesa,

Da sociedade a flor;

E no campo de estéticas opostas

Discutia-se o amor.

 

“O amor deve ser etéreo e puro,!

O conselheiro diz.

Sorrindo, a conselheira um ai! abafa

Com gestos de infeliz.

 

Diz i cónego: “ O amor destrói, mas quando

Sensual, já se vê!”

A donzela pergunta ingenuamente:

“Reverendo, porquê?”

 

A condessa murmura em voz dolente:

“O amor é uma paixão”

E lânguida uma chávena oferece

Ao pálido barão.

 

Era vago um lugar em torno à mesa;

Era o teu, minha flor!

Tu, só tu, poderias, se o quisesses,

Dizer o que era amor!

 

Num contrate surpreendente com este suave amor de salão, aí vai o desejo solitário da paixão de uma negra por um branco no poema A NEGRA:

Nas esteiras, à noite, o teu corpo estiras / E com ânsias sem fim, / Levas aos seios nus, beijas e aspiras / Um cândido jasmim…

É uma força primordial que rompe neste retrato de mulher em desejo onde o poeta vê não apenas a fêmea: Teu corpo é forte, elástico, nervoso, mas também o ser humano apaixonado: Mas andas triste, inquieta e distraída / .. E no escuro das matas, escondida, / Soltas magoados ais…

 

A  NEGRA

Teus olhos, ó robusta creatura,

Ó filha tropical!

Relembram os pavores de uma escura

Floresta tropical!

 

És negra sim, mas que formosos dentes,

Que pérolas sem par

Eu vejo e admiro em rubidos crescentes

Se te escuto falar!

 

Teu corpo é forte, elástico, nervoso,

Que doce a ondulação

Do teu andar, que lembra o andar gracioso

Das onças do sertão!

 

As lânguidas sinhás, gentis, mimosas,

Desprezam tua cor,

Mas invejam-te as formas gloriosas

E o olhar provocador.

 

Mas andas triste, inquieta e distraída;

Foges dos cafezais

E no escuro das matas, escondida,

Soltas magoados ais…

 

Nas esteiras, à noite, o teu corpo estiras

E com ânsias sem fim,

Levas aos seios nus, beijas e aspiras

Um candido jasmim…

 

Amas a lua que embranqueou os matos,

Ó negra jurity!

A flor da laranjeira, e os níveos catos

E tens horror de ti!…

 

Amas tudo o que lembre o branco, o rosto

Que viste por teu mal,

Um dia que saías, ao sol posto,

De um verde taquaral…

Vai longo o artigo. Haveria mais alguns poemas a merecer inclusão como Alguém e outros. Termino com este soneto à lacrimosa estátua da amargura, provavelmente a mãe, de quem se despediu uma vez, para não voltar a ver.

Poema de despedida, na praia de todos os adeus o esplendor da natureza indiferente mostra Dos céus a curva tranquila e pura.

 

MATER DOLOROSA

Quando se fez ao largo a nave escura

Na praia essa mulher ficou chorando,

No doloroso aspecto figurando

A lacrimosa estátua da amargura.

 

Dos céus a curva era tranquila e pura:

Das gementes alciones o bando

Via-se ao longe, em círculos voando

Dos mares sobre a cérula (*) planura.

 

Nas ondas se atufara o sol radiosos,

E a lua sucedera, astro mavioso,

De alvor banhando os alcantis das fragas…

 

E aquela pobre mãe, não dando conta

Que o sol morrera, e que o luar desponta,

A vista embebe na amplidão das vagas…

(*) azul

 

Noticia e minudências bibliográficas:

São dois os livros publicados em vida por Gonçalves Crespo: Miniaturas, ainda solteiro e no tempo de Coimbra, em 1870, e Nocturnos, já casado com Maria Amália Vaz de Carvalho.

A edição das OBRAS COMPLETAS, preparada pela viúva, saiu em Lisboa, em 1897, com alguns poemas inéditos e textos em prosa. A edição foi de TAVARES CARDOSO & IRMÃO – EDITORES.

À margem comento que, como vem sendo costume, asneira que surja na net em site que deveria ter responsabilidade, propaga-se como cogumelos depois da chuva. É consultar o Google e ver por todo o lado a data de edição das OBRAS COMPLETAS ser 1887. Acontece que o volume que possuo tem lá escrito 1897. Onde foi esta gente buscar a data de 1887?

Mas voltemos à obra do poeta.

Existem noticias de colaboração dispersa por jornais através de artigos de comentário, nomeadamente. A ajuizar pela prosa incluída em OBRAS COMPLETAS, onde a graça se associa à elegância do estilo e à penetração da observação, valeria certamente a pena a sua leitura.

Os juízos sobra a obra do poeta que circulam pelas diferentes histórias da literatura e dicionários que consultei lêem-se uns aos outros sem visitar a obra do poeta. Entretidos com a conversa de Parnasianismo, segmentam e tresleem sem ter lido.

Porque citam sem ler, nos artigos sobre o poeta, que a edição das OBRAS COMPLETAS saída em 1897 é prefaciada por Teixeira de Queiroz e Maria Amália Vaz de Carvalho, tanto Urbano Tavares Rodrigues no DICIONÁRIO DE LITERATURA dirigido por Jacinto do Prado Coelho, Figueirinhas 1983, como A. S. Fernandes Viegas no DICIONÁRIO DO ROMANTISMO LITERÁRIO PORTUGUÊS coordenado por Helena Carvalhão Buescu, Caminho 1997, como Etelvina Santos no DICIONÁRIO DE LITERATURA PORTUGUESA dirigido por Álvaro Manuel Machado, Editorial Presença 1996, aproveito para precisar que as “OBRAS COMPLETAS” são “precedidas de uma advertência prévia” [sic] por JOSÉ DE SOUSA MONTEIRO, segue-se-lhe o Prólogo de Teixeira de Queiroz que acompanhou a 3ªedição de MINIATURAS em 1884 e no final de MINIATURAS encontra-se  um ESTUDO CRÍTICO  de Maria Amália Vaz de Carvalho, escrito depois da morte do poeta, por volta de 1887 e que a mesma editou previamente no seu livro “Alguns Homens do Meu Tempo” em1889.

Todos os artigos  destes dicionários referem 1871 como data da 1ªedição de Miniaturas. Não tive oportunidade de consultar um exemplar dessa edição, pelo que não posso confirmar esta data, sendo que M.A. Vaz de Carvalho no citado ESTUDO CRÍTICO  refere 1870 como data desta 1ªedição, tal como Mendes dos Remédios na sua História da Literatura Portuguesa. Este último acrescenta que a melhor edição de MINIATURAS é a 6ª de 1923, sem adiantar qualquer motivo. É edição que não conheço e não vi mencionada por mais ninguém.

Todos os artigos que referi citam Gonçalves Crespo e António Feijó como os únicos representantes em Portugal do Parnasianismo, movimento poético que floresceu em França no 3º quartel do século XIX. Talvez seja verdade, e estes poetas sejam seus lídimos representantes no Portugal de oitocentos. Quem sou eu para duvidar. Lida a obra tanto de um como de outro, obras que prezo especialmente, encontro lá mais que seguimento de escola  E fora apenas esse o caso, a obra tanto de um como do outro bem merecia uma edição crítica e uma nova leitura informada e despreconceituada que a trouxesse para junto de novos leitores, eventualmente agradecidos. Neste blog, o artigo sobre António Feijó teve picos de leitura à data da sua publicação.

Filha ou não de qualquer escola francesa, é uma poesia a que vale a pena voltar uma vez por outra.

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Num bairro poético — A Musa em Férias e Guerra Junqueiro

14 Quinta-feira Out 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poetas e Poemas

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Guerra Junqueiro

A profissão levou-me a um bairro poético. Moradias isoladas repousavam entre o silencio de pinheiros centenários dando aos seus moradores a tranquilidade de ruas com nomes de livros de poesia.

São livros que hoje ninguém lê – Campo de Flores – Folhas Soltas – Luar de Janeiro – A Musa em Férias e mais alguns.

Na diversidade dos seus autores são livros onde se espraia um olhar nostálgico pela natureza saída da criação divina, e onde a presença do homem tantas vezes entra em conflito com essa harmonia primordial.

Releio alguns poemas de A Musa em Férias onde esse contraste ressalta.

É um Guerra Junqueiro (1850 – 1923), nos antípodas do combatente politico pela dignidade humana cantada em longo e sonoros alexandrinos, quem, embalado em quadras singelas numa toada musical da palavra, cruza a ironia cáustica do feroz crítico social com um encanto deslumbrado da natureza.

IDÍLIO

Ah, que inefável pureza! / Que candura imaculada!…

Dir-se-ia que a Natureza / Nasceu esta madrugada!…

 

A primavera opulenta, / Estremecendo d’amores,

Palpita, anseia, rebenta / Em cataclismos de flores.

 

Os velhos sátiros nus / Correm atrás das bacantes…

A cor, o perfume e a luz / Dão saturnais deslumbrantes.

 

O olhar d’oiro das boninas / Contempla o azul; ao vê-las,

Dir-se-ia que nas campinas / Cairam chuvas de estrelas.

 

Uns feitos para a batalha, / Com a guerra por destino,

Puseram cotas de malha / De aço e bronze e d’oiro fino.

 

Outros, artistas mimosos, / Vestem librés refulgentes

Dos veludos mais preciosos / Das rendas mais transparentes.

 

Não sei que orgia incorpórea / Embebeda o pensamento…

A natureza é a glória; / O azul, um deslumbramento.

 

Tudo ri e brilha e canta / Neste divino esplendor:

O orvalho, o néctar da planta, / O aroma, a lingua da flor.

 

Enroscam-se aos troncos nus / As verdes cobras da hera.

Radiosos vinhos de luz / Cintilam pela atmosfera.

 

Entre os loureiros das matas, / Que crescem para os heróis,

Dá o luar serenatas / Com bandas de rouxinóis.

 

É a terra um paraíso. / E o céu profundo lampeja

Com o inefável sorriso / Da noiva – ao sair da igreja.

 

E o homem – verme do asfalto, / Que traz deus na consciencia,

O homem que está no alto / Da montanha da existência,

 

Que faz entre as harmonias / Deste esplendoroso assombro?

– Vai ouvir as cotovias, / Levando a espingarda ao ombro.

 

Funcionando como um corte vital, esta visita às fontes é uma recusa deliberada das práticas poéticas anteriores, talvez reflexos dum cansaço temporário da luta – Eu venho cheio de mágoa, / Venho triste, ó meus amores, / Como uma fonte sem água, / Como uma jarra sem flores. – onde uma componente biográfica certamente explica a mutação. Os poemas não são datados, pelo que os conflitos e a luta interior que conduziram o poeta a aderir ao Partido Progressista no ano da publicação deste livro não são neles escrutináveis. Fica-nos este louvor panteísta que continua:

CONVALESCENÇA

Ó verde bosque tranquilo, / O Natureza ridente,

Venho pedir-te um asilo, / Um quarto para um doente.

 

Chego morto de cansaço, / Triste como um lord inglês;

Pôs-me o Terreiro do Paço / No estado em que tu me vez.

 

O meu espirito anda / Como nem tu imaginas…

Lisboa, é verdade, manda / Recados para as boninas.

 

Eu venho cheio de mágoa, / Venho triste, ó meus amores,

Como uma fonte sem água, / Como uma jarra sem flores.

 

Esta frescura remoça / As anemias do asfalto.

Olha um melro a fazer troça, / Brejeiro, ao meu chapéu alto!

 

A floresta não precisa / As etiquetas das valsas:

As ninfas não têm camisa, / E os faunos não usam calças.

 

Silenos gordos e calvos, / A rir com um riso estranho

Espreitam os corpos alvos / Das loiras ninfas no banho.

 

Um deles, que traz muletas, / E a quem já falta um chavelho,

Segreda coisas facetas / Que têm pimentão vermelho.

 

Os faunos adolescentes, / Ouvindo pilhérias tais,

Abraçam-se, que indecentes!, / Aos troncos dos salgueirais!…

 

E um loiro silenozinho, / Guloso de bons segredos,

Dilata o róseo focinho, / A rir e a morder nos dedos…

 

Rosas, lírios, mocidade, / Abri-vos, cantai agora!

Dê salvas de hilaridade / O rubro canhão da aurora!,

 

Que além vem graciosa e nua / Vénus! Que esplendido seio!

São dois requeijões de Lua / Com dois morangos no meio!…

 

***

 

Deixemos por um instante / As coisas graves e sérias;

Declaro-me um estudante / Com quinze dias de férias.

 

Ando dispéptico, exangue, / Para as veias esfalfadas

Quero a transfusão do sangue / Ridente das madrugadas.

 

Despindo a guerreira farda, / A farda dos generais,

Licenceio a velha guarde / Das minhas odes marciais.

 

Doidas estrofes leoninas, / Amazonas impetuosas,

Carregai-me essas clavinas / De aurora e botões de rosas.

 

Carnificinas, deixá-las. / Hoje as hostes inimigas,

Em vez de as matar com balas / Picá-las-ei com ortigas.

 

Vamos! Riam, contem casos / Alegres, bons, maganões;

E dos elmos façam vasos / Para pôr manjericões.

 

Deixem os ultramontanos / Nas suas negras roupetas;

Depois de caçar tiranos / Vamos caçar borboletas.

 

Toca a fazer um idílio / À sombra dum castanheiro

Desçam dos corcéis; Virgílio / Que os vá deitar ao lameiro.

 

Pendurem as velhas lanças / Nos troncos dos salgueirais,

E riam como as crianças, / Ou como os melros joviais.

 

Entre os aromas dos buxos / Eu quero que os meus soldados,

Em vez de morder cartuchos, / Mordam pêssegos doirados.

 

Encravem-me em dois minutos / Esses canhões assassinos

De bombardear os redutos / Com bombas de alexandrinos.

 

E enfim largando as espadas, / Com toda a fúria guerreira

Levem-me entre gargalhadas, / D’assalto – uma cerejeira!

Embora querendo-se isolado e gozando Deste esplendoroso assombro, a cidade não o deixa e, implacável de ironia, lá vai esta resposta:

SEGUNDA CARTA

(A UM AMIGO QUE CONTINUA A PEDIR-ME VERSOS)

Não peças mais versos, não! / Não faças com que eu me zangue;

A teta da inspiração / Ordenho-a— e já bota sangue.

Deixa-me estar sossegado; / Eu a luta abandonei-a;

Tive baixa de soldado / E vim viver para a aldeia.

Levo a existência pacata / Dos grandes bonacheirões;

E arrumei a um canto a lata / Com que eu fabrico os trovões.

Pedes-me estrófes purpúreas! / Que coisa me pedes tu!

Guardei na gaveta as fúrias, / E os raios no meu baú.

Falo aos burgueses das tendas, / Cumprimento a vizinhança,

E arranjo às vezes merendas / Nos bosques, com Sancho Pança.

Meninas sérias, esguias, / Dizem-me já com amor:

– Doutor, como vai? Bons dias! / Tem feito versos, Doutor? –

Entrando eu não sei onde / Disse um banqueiro opulento:

– “Li nos jornais, senhor conde, / Que este rapaz tem talento”. –

E um discreto conselheiro / Murmurou do seu lugar:

“Quem é?” – É o Guerra Junqueiro. –  / “Ah! Sim… já ouvi falar.” –

A minha vida é a mesma / Que teve, dormindo ao sol,

Diógenes – essa lesma / Na pipa – esse caracol.

Deito-me às ave-marias / Co’a consciencia regalada,

E tiro todos os dias / O meu chapéu à alvorada.

E enfim nas ervas do prado, / Nas tenras ervas felizes

Rolo o corpo ensanguentado, / Coberto de cicatrizes.

E, farto de ver abrolhos, / E de ter desassossegos,

Deixo pastar os meus olhos / No azul – como dois borregos.

É possivel que isto mude; / Sim é possivel talvez:

O génio é irmão da saúde, / Eu tenho saúde há um mês.

Andar num trabalho eterno / Quebra o corpo mais viril;

Sai do descanso do inverno / Todo o murmúrio d’ Abril

Até Hércules descansa: / Além anda neste instante

A rir como uma criança / Na encosta, esse bom gigante.

Olha: deitou-se ao comprido / Nas frescas ervas mimosas.

Junto dele anda Cupido / Contando histórias às rosas.

E enquanto o gigante dorme / Entre as roseiras vermelhas,

E vêm ao seu corpo enorme / Poisar sem medo as abelhas,

Na clave grosseira e bruta / Que a tronco enorme equivale,

Cupido co’a mão astuta, / Sorrindo escreveu – Onfale.

E, apesar da inscrição terna, / Co’a mesma clave no entanto,

Matará a hidra de Lerna / E o javali de Erimanto.

Precisa depois do Outono / Repouso a terra mais forte.

Eu creio que este meu sono / Não é ainda o da morte.

Dormir faz bem às canseiras / Dos grandes trabalhadores;

Quem é que viu amendoeiras / Sempre cobertas de flores?

Além vai o Deus romântico, / Já murchos os seus lauréis,

À grande pia do Atlântico / Dar de beber aos corcéis.

Pobres corcéis! Vão de rastros, / Retalhados pelo açoite,

Comer a aveia dos astros / Nas manjedoiras da noite.

Mas amanhã romperão / De novo do sorvedoiro,

Iluminando a amplidão / No azul – com as crinas de oiro!

Haveria mais, haveria sobretudo outra poesia para saborear. Fica para outra oportunidade.

Noticia Bibliográfica:

Obra de um moço de 29 anos, A Musa em Férias foi publicado em 1ªedição em 1879, ano que viu também a publicação de O Melro, obra-prima da poesia portuguesa e poemeto simultâneamente anti-clerical, de enorme dimensão humana e com nítida inspiração panteísta, a qual, de forma menos eloquente, perpassa nas poesias aqui deixadas. A Musa em Férias é um livro onde falta a unidade temática comum às restantes obras do poeta, o que o título evidencia. Em 1893 a obra conheceu uma 3ª edição corrigida e aumentada de 5 novos poemas.

Na transcrição utilizámos a edição da Lello & Irmão com actualização ortográfica.

Poeta do Panteão Nacional, a sua obra aguarda ainda a edição crítica que expurgue das edições em circulação, as gralhas tipográficas que muitas vezes maculam a irrepreensível metrificação de Junqueiro.

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Amar! e Ser Poeta — Florbela Espanca

08 Terça-feira Jun 2010

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Florbela Espanca, Poesia

 

Foi  levado pelo sucesso que teve a poesia de Fausto Guedes Teixeira no blog que decidi trazer a poesia de Florbela Espanca.

Confesso que não me comove por aí além a sua poesia.

É no livro “Charneca em Flor”, publicado postumamente, que alguns sonetos me impressionam. Aí escolhi os poemas que aqui deixo.

Na obra de Fausto Guedes Teixeira bebeu a poetisa a influência para a expressão exacerbada do sentimento e do eu, ainda que a própria lute inicialmente com o fantasma de António Nobre.

Há, evidentemente, mais e diferente na obra de Florbela Espanca. Na solaridade e no grito entusiasmado de viver que atravessa Charneca em Flor, ouve-se uma voz própria, inovadora e única, à época, na poesia portuguesa. Talvez por isso, este tenha sido o livro que a poetisa não editou e apenas saiu, com enorme sucesso, diga-se, após o seu suicídio em 1930, aos 36 anos.

Comecemos com o que é ser poeta para Flor Bela (é assim que consta o nome da poetisa na Certidão de Baptismo)

 

SER  POETA

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

 

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

 

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…

É condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

 

Vemos aqui, provavelmente, a que foi a primeira versão, do mais conhecido soneto da poetisa e que ocupa, por direito próprio, um lugar nas obras-primas da poesia portuguesa, AMAR!

Entre Ser poeta e Amar! quero crer que terá ocorrido o fim de uma paixão, pois se no primeiro soneto temos:

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

 

passamos para Amar! e temos:

 

Eu quero amar, amar perdidamente!

 

mudando da reticencia que deixa o destinatário incógnito para a exclamação  sem destinatário, e estendendo a vontade de amar, de amar-te a  toda a gente, o mundo:

 

 

Amar só por amar: Aqui … além … / Mais este e Aquele, o outro e toda a gente … / Amar! Amar! E não amar ninguém!

 

Eis o soneto

 

 

AMAR!

Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: Aqui … além …

Mais este e Aquele, o outro e toda a gente …

Amar! Amar! E não amar ninguém!

 

Recordar? Esquecer? Indiferente!…

Prender ou desprender? É mal? É bem?

Quem disser que se pode amar alguém

Durante a vida inteira é porque mente!

 

Há uma primavera em cada vida:

É preciso cantá-la assim florida,

Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

 

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada

Que seja a minha noite uma alvorada,

Que me saiba perder … pra me encontrar …

 

Este amar, amar perdidamente não é de forma nenhuma platónico, se não, vejamos neste Passeio ao campo o convite

 

Meu Amor! Meu Amante! Meu amigo! / Colhe a hora que passa, hora divina,

 

e se dúvidas houvesse

 

Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!

 

Chega de conversa, aqui vai o poema:

 

PASSEIO AO CAMPO

Meu Amor! Meu Amante! Meu amigo!

Colhe a hora que passa, hora divina,

Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!

Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

 

Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina …

Pele doirada de alabastro antigo …

Frágeis mãos de madona florentina …

– Vamos correr e rir por entre o trigo! –

 

Há rendas de gramíneas pelos montes …

Papoilas rubras nos trigais maduros …

Água azulada a cintilar nas fontes …

 

E à volta, Amor … tornemos, nas alfombras

Dos caminhos selvagens e escuros,

Num astro só as nossas duas sombras …

 

Para terminar esta pequena volta pela poesia de Flor Bela,  incluo um poema com carícias junto ao mar.

 

TARDE NO MAR

A tarde é de oiro rútilo: esbraseia.

O horizonte: um cacto purpurino.

E a vaga esbelta que palpita e ondeia,

Com uma frágil graça de menino,

 

Poisa o manto de arminho na areia

E lá vai, e lá segue ao seu destino!

E o sol, nas casa brancas que incendeia,

Desenha mãos sangrentas de assassino!

 

Que linda tarde aberta palpitantes,

Vai deitando do céu molhos de rosas

Que Apolo se entretém a desfolhar …

 

E, sobre mim, em gestos palpitantes,

As tuas mãos morenas, milagrosas,

São as asas do sol, agonizantes …

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Garvaia e um poema talvez esquecido de Alexandre O’Neill

31 Segunda-feira Maio 2010

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Alexandre O'Neill, Poesia

Na poesia de Alexandre O’Neill, tantas vezes surpreendente e quase sempre genial, encontramos o retrato mordaz que nos define, frequentemente salpicado de uma ternura conivente.

Os exemplos da sua escrita que me apetecia escolher são imensos. No entanto, fiel ao propósito do blog de seguir caminhos menos frequentados, escolhi um poema que não encontrei recolhido nas obras recentemente publicadas com poemas dispersos do Autor, daí o talvez do título.

O poema, Requeixa de Taveirós, inclui-se numa obra colectiva e comemorativa, dedicada à canção medieval Garvaia.

Como refere o editor da obra, Garvaia é nome de manto real e deu nome a um poema. A esta cantiga de amor ou de escárneo se atribuiram diversas autorias e sobre ela se teceram as mais diversas interpretações. Foi-lhe concedida e retirada a honra de ser considerada a primeira poesia portuguesa e há até quem pense estar ela incompleta.

Actualmente atribuida a Pai Soares de Taveirós, eis a canção:

Cantiga da Garvaia

No mundo nom me sei parelha

mentre me for como me vai,

ca ja moiro por vós e ai!

mia senhor branca e vermelha,

queredes que vos retraia

quando vos eu vi em saia.

Mao dia me levantei

que vos entom nom vi fea!


E, mia senhor, des aquelha

me foi a mi mui mal di’ai!

E vós, filha de dom Paai

Moniz, e bem vos semelha

d’aver eu por vós guarvaia,

pois eu, mia senhor, d’alfaia

nunca de vós ouve nem ei

valia d’ua correa.

É tomando como glosa este poema que O’Neill escreveu Requeixa de Taveirós tornando explicito, o que o poema nos conta e transtorna a humanidade desde sempre ou, como escreve o poeta, entreve e entretem / mortos e vivos, com o propósito de possuir vossa carne / e arrastar-vos, empós, / ao tumulto dos sentidos .

Requeixa de Taveirós

Como eu, mais nenhum outro

foi tão crédulo e tão louco

de me confiar em vós,

senhora branca e vermelha.


Franzis-me essa sobrancelha

com altivez e altavoz.

Nem por isso possuís

razão por vós.


Nem de razão é o assunto,

mas de coração, talvez.

Aqui não entra bestunto,

por esta vez.


Dizeis-me, o que eu já sabia,

que é melhor sofrer poesia,

pensando em vós,

que alimentar veleidade

de possuir vossa carne

e arrastar-vos, empós,

ao tumulto dos sentidos

que entreve e entretem

mortos e vivos.


E quem assim desassisa

a Deus pede que o assista.

Rogai por nós!



Noticia bibliográfica

No âmbito das jornadas de História Medieval realizadas em Junho de 1985, A Altamira e a Quetzal-Funchal promoveram a edição luxuosa em 150 exemplares + 50 exemplares fora do mercado, da Cantiga da Garvaia extraída do Cancioneiro da Ajuda e acompanhada por 2 serigrafias de Vespeira e poemas de Alexandre O’Neill, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Natália Correia, Nuno Júdice, Pedro Tamen, Vasco Graça Moura.

O poema foi retirado do exemplar 19/150.

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