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Um friozinho faz cócegas na nuca – 3 poemas de Óssip Mandelstam

28 Sexta-feira Jan 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Este frio siberiano que nos visita no corpo e na alma, fez-me ir buscar um poema de Óssip Mandelstam (1891 – 1938).

 

Um friozinho faz cócegas na nuca,

é impossivel ver de imediato:

também a mim me corta o tempo como

a ti se desgasta e camba o salto.

 

A si mesma se vence a vida, o som

derrete pouco a pouco, falta sempre

qualquer coisa, até falta o tempo

para ter qualquer coisa que se lembre.

 

Dantes era melhor, é bem verdade;

esse velho sussurrar de outrora

em nada se pode comparar,

ó sangue, ao teu sussurrar de agora.

 

Pelos vistos não é gratuito

este leve mexer dos lábios,

e abanam, mexem-se os ramos

que condenaram a ser cortados.

1922

 

A tragédia pessoal do poeta, intuida nos documentos conhecidos, nunca conheceremos do detalhe do seu horror, mas dos tormentos das prisões siberianas foram entretanto conhecidos diversos testemunhos.

Embora tenha lido no inicio da minha juventude Um dia na vida de Ivan Denisovich de Aleksand Solzhenitsyn, foi a leitura há poucos anos de La musique d’une vie, romance de Andreï Makine sobre um pianista que nunca o será, mercê das peripécias decorrentes da arbitrariedade a que um regime absurdo e despótico submete as pessoas, onde encontrei uma aproximação a este frio de alma surgido na impossibilidade de se ser quem se deseja.

Nos livros de Mandelstam que conheço publicados em Portugal com tradução e apresentação dos nunca demais elogiados Nina Guerra e Filipe Guerra, encontram-se detalhes da biografia do poeta que permitem intuir a sua tragédia.

Perseguido, e finalmente preso por ter compostos 2 poemas, eventualmente mais, onde de forma ténue, como se poderá ler num dos poemas “criminosos(?)” que a seguir transcrevo, critica o ditador Estaline – montanheiro do Kremlin – , morreu em transito para a Sibéria, num campo de prisioneiros em Vladivostok.

Eis um dos poemas-crime:

 

Vivemos sem sentir o país sob os pés,

Nem a dez passos ouvimos o que se diz,

E quando chegamos enfim á meia fala

O montanheiro do Kremlin lá vem à baila.

Dedos gordurosos como vérmina gorda,

As palavras certas como pesos de arroba.

Riem-se-lhe os bigodes de barata,

Reluzem-lhe os canos da bota alta.

 

À volta a escumalha – guias de fino pescoço –

Nas vénias da semigente ele brinca com gozo.

Um assobia, o outro geme, aquele mia,

Só ele trata por tu, escolhe companhia.

Como ferraduras, lei ‘trás de lei ele oferta,

Em cheio na virilha, olho e sobrolho e testa.

Cada morte que faz – crime malino

E o peitaço tem amplo, ossetino.

Novembro de 1933

 

São conhecidos poemas do autor desde jovem e felizmente a vida não foi na totalidade a tragédia vivida final. Moço de 18 anos, sente o corpo e interroga-se sobre finalidade e destino,  naquela tão característica profundidade de pensamento que surge a cada passo nos escritores russo:

 

O corpo me é dado – e com que fim,

Meu corpo único, tão de mim?

 

Pela alegria chã de respirar,

Silenciosa, a quem devo louvar?

 

Sou jardineiro e sou flor – cativo

Na prisão do mundo sozinho não vivo.

 

E já nos vidros da eternidade

Cai meu calor, meu sopro respirado.

 

Nela se grava um desenho pra sempre,

Irreconhecivel de tão recente.

 

Escorra do momento a água turva –

O desenho amado não esbate à chuva.

1909

Noticia Bibliográfica:

Os poemas foram retirados de FOGO ERRANTE Antologia poética de Óssip Mandelstam, publicado por Relógio d’ Água em 2001 e de GUARDA MINHA FALA PARA SEMPRE publicado por Assírio & Alvim em 1996 com tradução dos mesmos.

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Recolhimento – poema de Baudelaire e tradução de Jorge de Sena

26 Quarta-feira Jan 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Receuillement

Sois sage, ô ma Douleur, et tiens-toi plus tranquille.
Tu réclamais le Soir ; il descend ; le voici :
Une atmosphère obscure enveloppe la ville,
Aux uns portant la paix, aux autres le souci.

Pendant que des mortels la multitude vile,
Sous le fouet du Plaisir, ce bourreau sans merci,
Va cueillir des remords dans la fête servile,
Ma Douleur, donne-moi la main ; viens par ici,

Loin d’eux. Vois se pencher les défuntes Années,
Sur les balcons du ciel, en robes surannées ;
Surgir du fond des eaux le Regret souriant ;

Le Soleil moribond s’endormir sous une arche,
Et, comme un long linceul traînant à l’Orient,
Entends, ma chère, entends la douce Nuit qui marche.

Charles Baudelaire, Les Fleurs du mal

 

Tradução de Jorge de Sena

RECOLHIMENTO

Tem juízo, ó minha Dor, e faz por sossegar.

O Anoitecer querias, ei-lo que vem vindo:

Uma atmosfera obscura as ruas vai cingindo,

Que a uns promete a paz, e aos outros o pesar.

 

Enquanto dos mortais a multidão vulgar,

Ao chicote do Cio, esse carrasco infindo,

Remorsos colhe o Vício perseguindo,

Dá-me a tua mão, ó Dor, e vamos devagar

 

Longe de tudo. Vê: os anos mortos de outrora

Do céu espreitam em vestes já sem uso agora;

Sobe das fundas águas a Saudade casta;

 

O moribundo Sol num vão de arco descansa

E qual vasto lençol que se do oriente arrasta,

Escuta, oh escuta, a Noite que tão doce avança.

 

in POESIA DE 26 SÉCULOS, Antologia, Tradução e Prefácio de Jorge de Sena

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A Poesia de Fernando Pessoa há 80 anos (1931) — Autopsicografia

21 Sexta-feira Jan 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

≈ 1 Comentário

Visito por estes dias a poesia que Fernando Pessoa escreveu há cerca de 80 anos, no inverno de 1931.

Por exemplo, na passada quarta-feira, 19-01 passaram 80 anos sobre uma desolada interrogação do eu: … / Sou, sem lar, nem conforto, nem esperança,/ Nem desejo de os ter./…

Vale a pena ler o poema todo:


Cai amplo o frio e eu durmo na tardança

De adormecer –

Sou, sem lar, nem conforto, nem esperança,

Nem desejo de os ter.


E um choro por meu ser me inunda

A imaginação.

Saudade vaga, anónima, profunda,

Náusea da indecisão.


Frio do inverno duro, não te tira

Agasalho ou amor.

Dentro em meus ossos teu tremor delira.

Cessa, seja eu quem for!


Foi um dia de grande produção. A obra ortónima regista três poemas.

Quase para o fim do mês, sem data, surgiu aquele, entretanto famoso

Gato que brincas na rua

Como se fosse na cama,

Invejo a sorte que é tua

Porque nem sorte se chama.


Bom servo das leis fatais

Que regem pedras e gentes,

Que tens instintos gerais

E sentes só o que sentes,


És feliz porque és assim,

Todo o nada que és é teu.

Eu vejo-me e estou sem mim,

Conheço-me e não sou eu.

e neste Eu vejo-me e estou sem mim cabe um mundo de desespero às vezes tão presente em cada um de nós.

Passam os dias e o registo de poesia que ficou é quase quotidiano. Em Fevereiro, a 11,

Parece às vezes que desperto

E me pergunto o que vivi;

Fui claro, fui real, é certo,

Mas como é que cheguei aqui?


A bebedeira às vezes dá

Uma assombrosa lucidez

Em que como outro a gente está.

Estive ébrio sem beber talvez.


E de aí, se pensar, o mundo

Não será feito só de gente

No fundo cheia deste fundo

De existir clara e ebriamente?


Entendo, como um carrossel,

Giro em meu torno sem me achar…

(Vou escrever isto num papel

Para ninguém me acreditar …)


e aqui surge uma insinuação do que será alguns meses passados a reflexão definitiva sobra a relação de verdade entre o eu e a poesia, o poema AUTOPSICOGRAFIA.

Mas entretanto os poemas surgem com pequeníssimas variações de tema. Em Março, a 13, é uma interrogação na forma de poema – Quando é que me serei? – que nos surge:


Quando é que o cativeiro

Acabará em mim,

E, próprio dianteiro,

Avançarei enfim?


Quando é que me desato

Dos laços que me dei?

Quando serei um facto?

Quando é que me serei?


Quando ao virar da esquina

De qualquer dia meu

Me acharei a alma digna

Da alma que Deus me deu?


Quando é que será quando?

Não sei. E até então

Viverei perguntando:

Perguntarei em vão.

Que a vida é cousa ao lado

Para quem pensa em ser.

Quando será meu fado

O fado que hei-de ter?


Apetece continuar a leitura. A produção de Março de 1931 é intensa, a obra ortónima regista 35 poemas neste mês.

Chegado Abril, no dia 1, dia das mentiras temos 2 poemas.

Aparece-nos primeiro:

Vou passando pelo bosque

Pelo bosque vou passando,

E ouço alguém que não existe

Cantar o que estou pensando.

…

poema falhado. Mas a seguir, surge a obra-prima que é AUTOPSICOGRAFIA:


AUTOPSICOGRAFIA


O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.


E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.


E assim nas calhas da roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

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Com Camilo em viagem

29 Quarta-feira Dez 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga

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Camilo Castelo-Branco

Em viagem, um qualquer volume da obra de Camilo em papel bíblia é companhia preciosa.

No pouco peso de um livro temos mil páginas do melhor de Portugal. Saboreamos a língua, contactamos os costumes, encontramos conhecidos e contrastamos o nosso apego à imobilidade com a visão do mundo que passa.

Desta feita carreguei-me com os volumes X e XI. Poupo a descrição do conteúdo dos volumes e salto para o que aqui me traz, o Cancioneiro Alegre, irrepetível colecção de poesias entre o despautério e a mais cintilante graça.

Nesta quadra de fartas comesainas, quando o prazer da mesa encontra as tradições pantagruélicas, um poema na tradição herói-cómica e de especial assunto, incluido no Cancioneirio e atribuido a um Anónimo, deu-me a medida da continuidade que nos garante o lugar no mundo.

Longe que estou dos instrumentos do saber, não consegui averiguar se, tal como suspeito, o poema é da autoria do próprio Camilo.

Compõe-se o poema de quinze décimas distribuídas por três partes. Tem uma introdução em quatro sextilhas e termina de novo numa sextilha. A extensão do poema, UM JANTAR DE BARÕES,  levou-me numa primeira fase, e para evitar indigestão, a pensar ater-me apenas à sua transcrição parcial. À medida que avançava na transcrição, pareceu-me inaceitável qualquer corte, tal a preciosa concatenação de episódios de que o poema dá conta.

Após uma invocação às musas pedindo inspiração para tão árduo cometimento: Musa da sopa e do cozido, inspira-me! /… / Transforma o estro meu em lombo assado; / Da minha inspiração faz um pudim., na primeira parte do poema temos a descrição do Barão: D’Alcatruzes é chamado, / Porque, sendo ainda moço, / Muitos baldes d’água fresca / Dizem que tirou dum poço. E mais adiante: É barão; não vale a pena / Discutir-lhe os nobres feitos; / É barão dos Alcatruzes, / Já tem pagos os direitos.

A segunda parte apresenta-nos os comensais em acto após anunciar o banquete: Da terrina a caudal sopa / Em silêncio é devorada. / Só então fingiram d’homens, / Porque não disseram nada. / Mas venceu a natureza!, e é ouvi-los pela voz do poeta.

Chega a terceira parte, e com ela o pós-pasto, com brindes e discursos como o inenarrável chorrilho saido da boca do barão de Pimpinelas, e onde o barão literato faz o pleno do despautério com “Repercutem, simbolizam / Acrimónias insolúveis, / Nos acrósticos volúveis / D’epopeias que eternizam / …” e por aí fora. Refere-nos o poeta como Sucedeu o grito ao pasmo! / Nunca se viu coisa assim!.

O epílogo relata de forma sucinta o rescaldo de tão lauto festim: E a pândega findou. Mas alta noite, / Disseram-nos fiéis informações / Que grande movimento houve de tripas,…

Para além do retrato da boçalidade dos convivas, titulares de nobreza paga a contado, para quem a ignorância da língua é um estatuto, e que Camilo amplamente fustigou nos seus romances, temos no poema vasta matéria de sátira social para comportamentos bem perto de nós.

Para garantir que as continuidades existem, mesmo sem barões dos Alcatruzes ou Asnos de Puxar Nora, refiro o que já aboquei neste remanso de férias.

Longe do cosmopolitismo culinário da capital e ainda que a televisão tente fazer alguma mossa na tradição, já apareceu na mesa, e destaco: cordeiro de leite vindo expressamente de Trás-os-Montes (só não sei se deixou alguma pastora chorosa) assado com castanhas, de lamber beiços e dedos (pois segurar os ossos é de lei). Houve também cataplana de mariscos, de comer até rebentar, feijoada de lingueirão a pedir para não ficar na panela, uns cascabulhos (ostras) abertas ao calor e camarão da costa. O peixe para grelhar faltou pois o mar não tem estado de feição, mas prometem-me para amanhã caldeirada de eirozes.

Dos mimos não sei se fale. Broas de cobiçada receita que leva três dias a cozinhar, e os fritos! filhós com mel: de flor, simples, e dobradas; empanadilhas com recheio de batata doce e amendoa; fatias douradas (rabanadas), sonhos de desfazer na boca, bolinhóis tenros como manteiga. Já agora conto dos doces, bolos sobretudo, e de amendoa evidentemente (a torta, o morgado, o toucinho do céu, os engana-visitas, os olhos de sogra, etc) mas também o folhado de Tavira, o pastel de Londres e o casado, para matar saudades. E isto para não falar do aportuguesado bolo inglês, perdição de quem está à mesa.

Páro aqui. Chamam-me para umas ameijoas à Bulhão Pato e por isso vos deixo com UM JANTAR DE BARÕES.

Bom ano 2011


UM JANTAR DE BARÕES


Invocação

Musa da sopa e do cozido, inspira-me!

Pândega musa, que sorris ao vate

Em molho de açafrão, e de tomate,

Um cego adorador… achaste em mim:

Transforma o estro meu em lombo assado;

Da minha inspiração faz um pudim.


Tu, filha dos barões, musa do unto,

Nasceste na cozinha entre caçoilas;

Saudaram-te no berço alhos, cebolas,

Do cominho tiveste uma ovação;

Depois, trajando galas de toucinho,

Eu vi-te nas bochechas de um barão.


Namorado de ti, fiz-te meiguices

Por detraz de um peru, e tu de lá

Sorriste-me através da nédia pá

De vitela gentil, rica de arroz!

Ai! era!… e nem eu sei se foi mais linda

Aquela gorda pata… que te pôs!


Tu fizeste de mim um novo Cláudio,

Inspiraste-me a fé num rodovalho.

Traguei indigestões, arrotos d’alho,

Bernardas na barriga suportei.

Tomei chá de macela… e, em prémio disto,

O teu auxilio, ó musa, não terei?!


I

Dentro e fora iluminado

O palácio dum barão,

Fulgurante representa

Um enorme lampião.

Jorram límpidas vidraças

Sobre as populosas praças

Ondas trémulas de luzes.

Vai lá dentro grande gozo,

Nesse alcáçar radioso

Do barão dos Alcatruzes.


D’Alcatruzes é chamado,

Porque, sendo ainda moço,

Muitos baldes d’água fresca

Dizem que tirou dum poço.

Nenhum outro mais destreza

Revelou na árdua empresa

De puxar acima um balde.

Um que seja tão robusto

Há-de vir mui tarde e a custo

Do concelho de Ramalde.


É barão; não vale a pena

Discutir-lhe os nobres feitos;

É barão dos Alcatruzes,

Já tem pagos os direitos.

Inda é mais; pois, além disto,

É comendador de Cristo

Com bastante indiscrição.

Mal diria Cristo, outrora,

Que seria posto agora

No peito dum vendilhão!


E mais ele, que os tocava

Com terrivel azorrague!

Mas os Judas vendem Cristo,

Ponto é haver quem pague.

E o barão dos Alcatruzes

Neste século das luzes

Também fez de fariseu.

E, também, se necessário,

Representa de Calvário

Onde a cruz se suspendeu.


II

Num salão vasto, opulento

Um banquete se vai dar;

Nos cristais reflecte o ouro

A fulgir, a cintilar.

Os rubis e a cor da opala

Transfiguram esta sala

Em olímpicas mansões.

Mas a alma cai por terra

Quando vê que ali se encerra

Dúzia e meis de barões.


Da terrina a caudal sopa

Em silêncio é devorada.

Só então fingiram d’homens,

Porque não disseram nada.

Mas venceu a natureza!

Um barão por sobre a mesa

Estendendo o prato diz:

“Ó compadre!isto é qu’ébô!

Venha sopa, e acabô!

Cá de mim torno à matriz!”


O barão de Cogumelos,

Junto estando à baronesa

Que se diz dos Sacatrapos,

Quis fazer-lhe uma fineza.

Arrastou pra junto dela

Um peru, e a cabidela

No prato lhe despejou.

E lhe diz: “Cá isto é nosso;

Coisa que não tenha osso

É pró estâmago, e arrimou!”


Outro diz à gorda esposa

Que bem perto de si tem:

“Bai-le bobendo po’riba,

Ó mulher, come-le bem!”

Este pede ao seu vizinho

“Que lh’atice bem no binho

Qu’é da bela Companhia.”

Diz aquele ao seu fronteiro

“Que lhe chegue um frango inteiro,

E biba a santa alegria!”


III

As saúdes já começam;

É um gosto agora vê-los:

Estas caras representam

Tomates de cotovelos

E, através do escarlate

Do legítimo tomate,

Transuda um óleo que brilha.

Cada qual tem as orelhas

Encarniçadas vermelhas

Como as asas de uma bilha.


Pega no copo e exclama

O barão de Pimpinelas:

“Vito sério! um home fala

Sem preâmbulos nem aquelas!

À saúde e alegria

Desta bela companhia

E com toda a estifação!

Pra que todos cá binhamos

Estifeitos como bamos

De casa do sor barão!”


E os hurras retumbaram

Pela sala do festim!

Baltasar nos seus banquetes

Nunca ouviu gritar assim!

Sobre a mesa deram murros,

Saudaram com grandes urros

O barão dos Alcatruzes;

Mas alguns com mágua sua,

Já cuidavam ver a Lua,

Não podendo ver as luzes.


Mas, entre eles, um existe,

Literato em seu conceito,

A palavra pede, e reina

Um silêncio de respeito.

Ele diz: “Risonhas galas

Que refrangem nestas salas

Repercutem, simbolizam

Acrimónias insolúveis,

Nos acrósticos volúveis

D’epopeias que eternizam.


Pandemónios exauríveis

De indeléveis congruências,

Requintados se escurecem

Nos empórios das ciências

E libérrimos se escudam

Nas facanhas que transsudam

Em fantasiosas luzes.

E, portanto, a mais aludo,

Quando, férvido, saúdo

O barão dos Alcatruzes!”


Sucedeu o grito ao pasmo!

Nunca se viu coisa assim!

O orador foi abraçado

Com furor, com frenesim!

“Isto é qu’é!” dizia um,

Convertido em rubro atum,

Beterraba até não mais.

“Viva Cic’ro!” outro dizia,

Despejando a malvazia

Com grasnidos infernais.


IV

E a pândega findou. Mas alta noite,

Disseram-nos fiéis informações

Que grande movimento houve de tripas,

E grande salto deram as torneiras

Das pipas convertidas em barões

Ou, antes, dos barões tornados pipas.

Aditamento

Pouco depois de ter escrito este artigo, constatei que o poema Um Jantar de Barões era efectivamente de Camilo Castelo Branco como no corpo do texto suspeitei, e foi previamente publicado em FOLHAS CAÍDAS APANHADAS NA LAMA.

Entretanto, o tempo passou e não mais recordei actualizar a informação no post, o que agora faço.

Este FOLHAS CAÍDAS APANHADAS NA LAMA foi por sua vez referido no blog a propósito do folheto A Vespa do Parnaso, num artigo/paródia a pretexto da Nova poesia Portuguesa em … 1854.

 

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Não se pode acreditar em coisas impossíveis

24 Sexta-feira Dez 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas

≈ 1 Comentário

Aos leitores que guardaram da infância o gosto de se deixar levar pela fantasia, aqui deixo um conto uma vez escrito para contar ao ouvido de alguém que me é especialmente querido.

Feliz Natal

 

Leonardo da Vinci foi um génio polivalente. Além de pintor e cientista também escreveu fábulas. E uma das fábulas que escreveu é mais ou menos assim:

Numa sala confortável com uma bela lareira acesa, havia uma mesa, talvez uma secretária. Sobre a mesa estavam varias folhas de papel.

A certa altura chegou a tinta e derramou-se sobre uma das folhas de forma especial.

A folha indignada refilou com a tinta

– Sujaste-me toda, não vês?

Responde-lhe a tinta:

– Não te sujei, não. Não sejas vaidosa. Isso que aí tens são palavras, não são nódoas.

Pouco depois chegou um homem, juntou as folhas espalhadas sobre a mesa e quando ia deitá-las no fogo da lareira viu a folha com a tinta, pegou nela, leu as palavras e guardou a folha cuidadosamente numa gaveta.

Às outras folhas sem tinta deitou-as no fogo, e assim, a única que se salvou foi a folha que refilou por pensar que estava suja.

Mas a folha era apenas vaidosa, não sabia ler, por isso não sabia o que as palavras queriam dizer.

Por artes difíceis de explicar chegou-me às mãos a folha tão cuidadosamente guardada há muitos séculos.  Com o tempo a tinta foi desaparecendo e agora mal se lê, mas recorrendo a modernas técnicas de decifração e muito esforço consegui saber o que na folha está escrito e vou contar a quem me lê, a história que lá se encontra.

 

No tempo de  muito, muito antigamente (não reparem na linguagem pois este texto tem muitos anos) as pessoas acreditavam haver não só um Deus, mas muitos deuses.

Acreditavam que esses deuses tinham paixões, desgostos, filhos, casamentos tal como os homens e mulheres da terra. E  acreditavam ainda que os deuses também comiam, embora a forma como comiam fosse um segredo dos deuses.

Quando precisavam de ajuda, e conforme o assunto de que se tratava, as pessoas pediam favores a um ou outro deus de acordo com a sua especialidade. A lista dos deuses e das suas especialidades é quase interminável e cobre tudo o que podemos desejar ou precisar.

Em retribuição de favores ou para acalmar os deuses que pudessem ficar descontentes com o que as pessoas faziam, estas ofereciam-lhes comidas, as melhores que possuíam, e assim, bem comidos, tal como toda a gente, os deuses deviam ficar com boa disposição e mais disponíveis para aceder aos pedidos que lhes tinham feito ou iriam fazer.

Estas comidas eram deixadas nos altares onde se supunha, os deuses as iam buscar e depois comer, sem que ninguém soubesse exactamente como.

Em certa altura do ano, quando as ovelhas ainda tinham pouca idade e se chamavam cordeiros, ou seja quando são mais tenras, essas pessoas acreditavam ser a oferta de um cordeiro a mais apreciada pelos deuses, e assim escolhiam de entre as ovelhas mais novas dos seus rebanhos a mais gordinha porque seria a mais saborosa, e era essa a oferecida no altar aos deuses.

Havia uma menina, já não tão pequenina assim, pois já estava na idade de casar, que guardava ovelhas. Todos os anos gostava de as ver nascer e crescer, Gostava sobretudo de as ver mamar na teta da mãe, aprender a andar quando no principio mal se aguentavam nas pernas, assistir ás marradinhas de brincadeira que davam umas nas outras. Era com pena que as via partir quando tinham o tamanho adequado para serem comidas.

Naquele ano apareceu entre as ovelhas um cordeiro ligeiramente diferente dos outros. Quando olhava para ela até parecia sorrir. Gostava de vir roçar-se nas pernas dela, tal qual um gato mimado, e para onde ela ia, lá ia ele atrás.

À medida que crescia ia ficando mais bonito e gordinho e a menina a certa altura já nem conseguia separar-se dele, resolveu até dar-lhe um nome e passou a chamá-lo de César.

Se porventura deixava de o ver por algum tempo ia logo ansiosa procurá-lo e ver o que tinha acontecido.

Aproximava-se a época da oferta de um cordeiro aos deuses e o dono do rebanho veio um dia escolher o cordeiro que ofereceria em sacrifício.

Andou para trás e para diante, mexeu num, mexeu noutro e acabou por escolher o  César, o cordeiro que a menina preferia a todos os outros.

Quando a menina soube qual fora o escolhido para sacrificar, sentiu um desgosto tão grande, tão grande, que começou a chorar e não conseguia parar. Era um desgosto tão profundo e inexplicável como nunca tinha sentido por nada nem por ninguém.

Um dia enquanto guardava as ovelhas e sentada chorava, foi distraída pelo som de um canto triste que se ia aproximando. Olhou em redor para tentar ver de onde vinha a voz, e finalmente viu surgir um rapaz com uma lira tocando e cantando.

Era Orfeu. Andava a vaguear pela terra sem saber para onde ir, cantando o desgosto que sentia por ter perdido a sua amada Euridice. Cantava ele:

Que farei sem Euridice/

Onde irei sem Euridice/

Que farei sem o meu bem/

Onde irei,

Que farei,

e sem destino caminhava apenas movido pela sua dor.

Chegou até bem perto da menina sem dar por isso e quando levantou a cabeça viu-a na sua frente a chorar. Perguntou-lhe porque chorava  e ela contou-lhe o que ia acontecer ao cordeiro de quem gostava acima de tudo. Disse-lhe então Orfeu:

– Olha para mim. Perdi a minha Euridice e não sei mais o que fazer nesta terra. Se gostas do cordeiro, acima de tudo não deixes que o matem, não te separes dele, foge com ele para longe.

Passaram os dias, e sem saber bem o que fazer a menina continuava a chorar até que um dia vê ao longe aproximarem-se os homens que vinham buscar o cordeiro para o sacrifício. Sem pensar em mais nada pegou nele debaixo do braço e largou a correr.

Correu, correu o mais que pôde, sem direcção certa nem saber para onde. Cansada, a arfar, avistou ao longe a floresta. Ganhou forças e correu para lá. Aí, entre as árvores, talvez fosse mais fácil esconder-se.

Ao longe começou a ouvir a voz dos homens que não tendo encontrado o cordeiro, nem a tendo visto a ela junto ao rebanho, os procuravam. Nem pensou em descansar e continuou a correr quanto as forças que ainda tinha o permitiam. As folhas roçavam-na, os troncos rasgavam-lhe a roupa, alguns fizeram mesmo arranhões, e ela sem descanso continuava a correr como podia.

O cordeiro mantinha-se quieto e aconchegado a ela, até parecia que se queria tornar mais leve para ela o transportar melhor.

Já quase morta de cansaço e sem encontrar abrigo onde se esconder, começava a desesperar, quando chegaram a uma clareira.

Na clareira havia uma casa que parecia fechada. Aproximou-se com receio de algum cão, mas não havia vivalma. Bateu na porta, ninguém respondeu. Pelas vozes dos homens que se já ouviam, deviam estar cada vez mais perto, por isso empurrou um pouco a porta e esta abriu-se. Hesitou só por um momento, mas parecendo-lhe os homens já muito perto entrou e fechou a porta.

Sem largar o cordeiro respirou fundo e finalmente olhou em redor para ver onde estava. Não era uma casa de pessoas, era um armazém grande. Havia pincéis e tintas sobre uma mesa, panos sujos, papéis, lápis, alguns quadros pintados e também telas em branco. Mas não estava ninguém. Era certamente o estúdio de um pintor mas o pintor não se encontrava ali.

Primeiro ficou parada no meio da casa com o cordeiro debaixo do braço, em silencio, mas quando ouviu já bem perto as vozes dos homens que a procuravam, não sabendo onde se esconder, encostou-se a uma parede e cheia de medo começou a chorar.

Ouviu então uma voz que lhe dizia:

–  Os homens vão vir e vão encontrar-vos. Não há lugar para te esconderes, não vês?  Deixa que apanhem o cordeiro, é só um animal.

– Não, não! Antes morta!

– A única possibilidade será ficares tu e o cordeiro dentro de uma tela como se fossem uma pintura, respondeu então a voz. Mas nunca mais se vão libertar, ficam lá para sempre os dois. Estás disposta a renunciar à vida para não sacrificar o cordeiro de que tanto gostas?

– Estou sim. Mais que tudo na vida quero ficar com ele.

– Mas será para todo o sempre, respondeu a voz.

– Não me importo, com ele sei que serei feliz – disse a menina.

– Então vai para o fundo do estúdio onde está mais escuro e encosta-te bem a uma tela. Quando  os homens empurrarem a porta para entrar vão transformar-se, tu e o cordeiro, numa pintura.

– Mas eles vão reconhecer–me a mim e  ao cordeiro mesmo na pintura.

– Não, não vão. O cordeiro será disfarçado de arminho que é um animal muito parecido e tu ficarás com o corpo só até à cintura e vestida como uma grande dama, ninguém vos reconhecerá.

A menina correu para o fundo, encostou-se quietinha a uma tela mesmo a tempo, pois nesse instante os homens começaram a empurrar a porta. Como a voz tinha prometido, de um momento para o outro, a menina e o cordeiro viram-se dentro da tela a que estavam encostados.

Os homens entraram,  procuraram, procuraram, sem nada encontrar até que desistiram e foram-se embora, ficando a menina e o cordeiro dentro da tela.

Passou muito tempo. O pintor vinha de vez enquanto pintar mas ele trabalhava em vários quadros ao mesmo tempo e cada quadro demora imenso a pintar, pelo que a menina e o cordeiro lá continuavam dentro da tela sem ninguém dar por isso. Até que um dia, o pintor quando procurava uma tela com um tamanho especial, pegou na tela onde estavam a menina e o cordeiro e escolheu-a para a pintar. Como estava numa zona escura do estúdio não os viu. Foi só quando trouxe a tela para a claridade que o pintor viu qualquer coisa na tela. Intrigado, montou-a no cavalete e olhando para a tela interrogou-se em voz alta:

–   Mas eu não pintei esta tela, como é que esta pintura aqui veio parar?

Vou ter que a pintar de branco por cima para depois lá pintar o que queria.

A menina ao ouvir isto pensou que morreriam debaixo da tinta branca, ela e o cordeiro sem respirar, e disse muito aflita:

–   Sr. Pintor não nos pinte, somos de carne e osso e estamos aqui escondidos há muito tempo.

–   Isso á lá possível, disse o pintor em voz alta. Parece-me que estou a ficar maluco.

–   Não, é verdade. Foi uma voz que nos mandou esconder aqui para eu poder salvar o cordeiro de ser oferecido aos deuses.

Para grande surpresa da menina e do pintor, o cordeiro que estava disfarçado de arminho disse em voz alta:

–  A voz que ouviste foi a minha. Sou um príncipe encantado e só poderia perder o encanto quando alguém gostasse de mim tanto, tanto, que preferisse morrer a separar-se de mim. E tu gostas de mim assim. Nem hesitaste em viver para sempre num quadro só para não me deixar morrer. Agora, se o Sr. Pintor nos fizer o favor de passar um pincel com óleo de linhaça na tela nós vamos poder sair.

O pintor ainda sem acreditar muito no que estava a acontecer foi buscar o óleo de linhaça e com um pincel pincelou a tela.

Quando o pintor acabou de passar o óleo, saíram da tela a menina, agora vestida de camponesa, e o cordeiro que deixou de ser arminho e mal pôs o pé no chão  se transformou num príncipe formoso. Virou-se então para a menina, ajoelhou-se diante dela e perguntou-lhe:

–   Queres casar comigo e vivermos juntos no meu palácio?

A menina ainda não conseguia dizer palavra, e de tão emocionada  com tudo o que acontecera apenas abanava a cabeça para cima e para baixo a querer dizer que sim.

O príncipe pegou então numa caixa de madeira onde tinham vindo as telas embaladas e que estava ali pelo chão, levando-a para a rua. Bateu-lhe três vezes com os nós dos dedos da mão direita e voltou para dentro.

Despediram-se  ambos do pintor e este veio com eles até à porta. Ao abri-la ouviu-se ao mesmo tempo um ahhhhhhh! de espanto tanto da menina como do pintor. Na rua, à porta do estúdio, a caixa de madeira tinha-se transformado numa carruagem dourada com dois cavalos para onde o príncipe fez subir a princesa e juntos partiram fazendo adeus ao pintor.

Depois de passado um bom bocado e já a carruagem tinha desaparecido no horizonte voltou o pintor para dentro e sentou-se com as mão na cabeça sem saber se devia acreditar no que tinha acontecido.

Para não se esquecer do que vira, ou imaginara, lançou-se ao trabalho sem parar, pintando o que estava na tela quando a foi buscar ao fundo do armazém.

Já sei que estás a pensar como a Alice quando estava do outro lado do espelho e disse para a rainha:

– Não se pode acreditar em coisas impossíveis.

E respondeu-lhe a rainha:

– Suponho que tens falta de treino.

 

Os especialistas pensam que o quadro foi pintado por Leonardo Da Vinci e talvez por isso, digo eu, ele escreveu a fábula sobre a folha de papel.

A pintura passou por muitas mãos e está agora no museu Czartoryski em Cracóvia, na Polónia, onde é conhecido como “A dama do arminho”.

É agora altura de mostrar o quadro que o pintor pintou.

Apêndice

Os estudiosos acreditam que na tela está pintada uma senhora de seu nome Cecilia Gallerani.

Ao primeiro olhar vemos uma dama com um arminho ao colo surpreendida por algo vindo do lado da luz que a ilumina e a faz esboçar um sorriso.

O movimento que ela faz de girar a cabeça é acompanhado pelo arminho que também olha, precisando a dama de o segurar com a mão para ele não saltar.

Este gesto de segurar o arminho é simultaneamente uma caricia. Por outro lado, a tensão visível no pescoço do arminho mostra como ele está em posição de defender a sua dama enquanto permanece junto ao seu coração.

O quadro foi encomendado a Leonardo da Vinci pelo duque de Milão, Ludovico o Mouro e a dama era sua amante. Uma vez que o duque usava como símbolo o arminho, os gestos da dama são também dirigidos simbolicamente ao duque, mostrando os sentimentos que ela tinha por ele.

Mas o que faz a gloria desta pintura não é a sua história mas a proeza inédita da sua técnica. Até ter sido pintado em 1488-1490 nunca ninguém pintara uma pessoa nesta posição, com o corpo a três quartos virando a cabeça a 90º para olhar a luz que vem das costas e assim ficar com o rosto completamente iluminado quase de frente para nós.

Independentemente da rigidez a que esta posição obriga  a modelo mantém uma elegância despreocupada comum aos retratos de Leonardo nomeadamente Mona Lisa.

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Natal sem poesia

18 Sábado Dez 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas

≈ 1 Comentário

Conheci-o há talvez quatro, cinco anos. Ao subir a avenida voltei a vê-lo. Anoitecera há muito e as pessoas rareavam. Fechado o comércio, preparava os cartões para a noite gelada que se aproximava.

Sobretudo no Outono, mas também na Primavera, quando o entardecer derrama sobre a cidade uma luz de poesia, saio para fotografar. Deambulo, disparo a maquina fotográfica, e algumas vezes cruzo-me com realidades comoventes.

Certo dia neste deambular, aproximei-me de um jardim da cidade abandonado aos pombos e aos homens sós à espera do fim. De longe avistei o que me pareceu um sem-abrigo sentado, a ler o jornal enquanto o sol o dourava numa aura de irrealidade. Aproximei-me, perguntei-lhe se o podia fotografar. Sem levantar os olhos do jornal, encolheu os ombros num gesto de tanto faz.


Fotografei-o primeiro de longe, e porque qualquer coisa o motivou, pousou o jornal no banco e colocou-se em pose para a fotografia.

Fiz alguns disparos e quis dar-lhe dinheiro. Estendi-lhe uma nota de 10€ que recusou com veemência. Ligeiramente desconcertado perguntei-lhe porque não aceitava o dinheiro.

– É muito, respondeu. Tentei então entregar-lhe uma nota de 5€ e de novo a recusa.

– Mas porquê, homem, porque não quer o dinheiro? perguntei-lhe.

– Notas não. Moedas, 1 euro, senão roubam-me.

Deixei-lhe as moedas que tinha com a promessa de voltar com uma fotografia para lhe dar.

Olhou-me como quem diz: estás a fazer conversa para tolos, e virou-me as costas.

De entre as fotografias que lhe tirei, fiz uma ampliação 10×15 e poucos dias depois procurei-o no jardim. Não estava. De cada vez que voltei a sair levei comigo a foto, e passado algum tempo finalmente encontrei-o no mesmo lugar.

Aproximei-me.

-Lembra-se de mim? Manteve um ar indiferente, e continuei.

– Fiz-lhe há dias umas fotografias e trago-lhe hoje uma. Quer vê-la? E estendi-lha.

 

Pegou-lhe e subitamente os olhos encheram-se de lágrimas.

– Então homem, que é isso? Chora porquê? Perguntei no meu desconcerto.

Chegou-se um pouco para o lado no banco e fez sinal para me sentar ao seu lado.

– Obrigado, disse-me. Foi a coisa melhor que alguma vez me aconteceu.

Olhou a fotografia de novo e guardou-a no interior do casaco junto ao coração.

Comovido e desconcertado, fiquei um bocado à conversa.

A história que me contou não será muito diferente de outras que enchem a cidade.

Primeiro desemprego. Era empregado de mesa. O café fechou para dar lugar a um banco. Já bebia. Vendo-se sem emprego passou a beber mais. Seguiram-se as dificuldades de voltar a encontrar trabalho. A mulher pô-lo fora de casa. Ficou na rua sem ter para onde ir, e na rua foi ficando.

– E tem família em Lisboa? perguntei.

– Lá para Alcantara, mas não os vejo.

Surgiram-me os inevitáveis conselhos de quem no conforto do seu quotidiano não tem a menor ideia do que sente quem foi empurrado para a rua e aí se deixou ficar.

Despedi-me. Quis deixar-lhe algum dinheiro mas recusou com veemência.

Nos anos que entretanto passaram, vejo-o a espaços. Se pressente que me aproximo, afasta-se.

Certo dia consegui aproximar-me e perguntei-lhe:

– Lembra-se de mim? Abanou a cabeça num gesto de confirmação.

– E a fotografia, ainda a tem? Sorriu, levou a mão ao peito e bateu várias vezes abanando a cabeça.

Deixei-o com algumas moedas.

Ontem, quando o voltei a ver, lembrei-me que certa vez coloquei a fotografia que lhe fiz numa galeria on-line, e alguém que a viu comentou:

Parece o Pai Natal!

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APENAS O SUBLIME NOS JUSTIFICA – Crónica com prosa sotádica no final.

13 Segunda-feira Dez 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Ouvia ao fim da tarde em agradável concerto as  VESPRO DELLA BEATA VERGINE de Monteverdi, numa interpretação despida de qualquer religiosidade, quando a memória saltou para Veneza e para os Ticiano da Igreja de Santa Maria dei Frari.

A Assunção no brilho daquela espécie de fogo interior e a sensualidade da jovem personificando a Virgem, dominam a Basílica. À esquerda, o Retábulo Pesaro oferece-se no esplendor de azuis e vermelhos e na carnalidade profana dos seus figurantes.

E de Ticiano em Ticiano, com a memória em passeio, cheguei a Nápoles.

Era um dia de calor tórrido no verão de Nápoles.

O desejo de tudo ver levou-me a subir ao Capodimonte em plena hora do almoço.

Chegado lá a pé e mais morto que vivo apesar dos 20 anos, fiz a visita do museu. Percorro as salas, e numa volta do olhar surgem aqueles três personagens que me olham com a vivacidade da presença das suas pessoas. Falo do retrato de Paulo III pintado por Ticiano rodeado dos seus dois netos. O magnetismo do olhar do velho é avassalador. O dinamismo na composição jogando com a posição relativa dos retratados dão uma vida perene ao quadro. Mas é o domínio do vermelho que irresistivelmente me atrai.

O retrato foi pintado para emular a pintura que Rafael fez do Papa Leão X e o resultado não podia ser mais díspar. Com a mesma paleta cromática, à majestade e serenidade de Rafael, contrapõe Ticiano a ganância, a subserviência e o desejo de poder que o jogo de olhares e as atitudes transmitem. Não admira, pelo resultado, que o quadro de Ticiano tenha permanecido longo tempo guardado na Vila Farnesina.

Possui este edifício um conjunto notável de frescos dos quais apenas um pertence a Rafael, não obstante a decoração do interior do palácio lhe ter sido encomendada. Terá desenhado alguns dos restantes frescos que outros acabaram, pois parece, andava excessivamente entretido com a sua musa inspiradora, passada à história como La Fornarina, e desistiu de os pintar. Isto porque o cliente não disponibilizou as condições para a sua amada viver com ele enquanto trabalhava.

É no retrato de La Fornarina que finalmente transborda todo o erotismo latente nas langorosas madonas de Rafael.

Gente seguramente incapaz para o amor acusa-a da responsabilidade da morte precoce de Rafael aos 37 anos referindo-a como “a mulher que conduz o homem pela febre dos sentidos, em que ele se esquece de si, perde-se, perde a capacidade de criar”. Se haverá no mundo melhor coisa que ser conduzido pela febre dos sentidos?

Picasso na sua vastíssima obra erótica aproveitou para recriar o espectáculo deste amor. Trata-se de uma série de gravuras a ponta de aço feitas em 1968, denominada “Rafael e a Fornarina. O esplendor do desejo numa representação explícita do acto sexual aparece ali numa ofuscante beleza plástica. É difícil perante estas gravuras traçar a fronteira entre o belo e o obsceno.

Como estamos longe do suave erotismo das gravuras que ele fez para a chamada Suite Vollard  nos anos 30. Decididamente a idade torna os homens desbragados.

Mas voltando ao quadro de Paulo III,  equivalente a este no revelar de personalidades, só conheço, de Ticiano, o retrato de Pietro Aretino no Palazzo Pitti, em Florença.

Personalidade notável do século XVI italiano, de Aretino guarda hoje a humanidade memória da poesia erótica que escreveu. Como poucos, encontrou no relato poético dos actos sexuais humanos a forma superior da poesia que permite guadar na lembrança, para lá do escandalo em mentes resguardadas no pudor, o que à humanidade sempre mais importou.

 

Em português dispomos da tradução notável de 26 sonetos luxuriosos por José Paulo Paes (1926 – 1998) poeta e tradutor brasileiro. A edição portuguesa desta tradução (2006), graficamente desmerecedora da poesia que contém, encontra-se ainda à venda, talvez.

 

Transcrevo para dar a medida a quem os não conheça, o soneto que nesta edição possui o nº6

 

Miri ciascun di voi ch’amando suole     / Atenta bem,ó tu que amando estás

Esser turbato da sì dolce impresa,    / E a quem turva tão doce empreendimento,

Costui ch’a simil termine non cesa      / Neste que leva a cabo tal intento

Portarla via fottendo ovunque vuole.   / Ledamente fodendo onde lhe apraz.

 

E senza andar cercando per le scuole           / Sem de qualquer escola andar atrás

Di chiavar, verbi gratia, alla distesa,             / Por trepar verbi gratia a todo tento,

Far ben quel fatto impari alla sua spesa      / Fará feito sem-par e a seu contento

Qui che fotter potrà senza parole.                / O que possa foder sem ser loquaz.

 

Vedi com’ei l’ha sopra delle braccia             / Vede como nos braços a levanta

Sospesa con le gambe alte a suoi fianchi,    / Ele, que as pernas dela tem dos lados

E par che per dolcezza si disfaccia.                / E como de prazer já se quebranta.

 

Né già si turban perché sieno stanchi,         / Não se perturbam por estar cansados,

Anzi par che tal gioco ad ambo piaccia,       / Mas o jogo lhes dá ardência tanta

Sì che bramin fottendo venir manchi.          / Que fodendo queriam-se finados.

 

E per diritti e franchi                                      / E retos, sem cuidados,

Anzano stretti a tal piacer intenti,                / Ofegam juntos, de prazer frementes,

E fin che durerà saran contenti.            / E enquanto ele durar, estão contentes.

 

É entre memórias e poesia que ao vôo de pássaro a memória corre.

Sento-me e à secretária revivo aquela tarde quando ela inesperadamente me visitou.

Fizéramos amor de pé e agora repousávamos, num repouso acariciado, na cadeira da secretária. Ela sentada no meu colo, as mãos passeavam a pele crispada, a língua lambia o pescoço e a boca beijava cada centímetro acessível enquanto o pénis enfiado na vagina mantinha a erecção da continuidade. O desejo ardia e a vontade de continuar mostrava uma tesão insaciada.

Antes, quando de pé, enquanto lhe acariciava o ponto G(ostoso) e chupava um mamilo, ela não se segurou, em tal torrente e durante tanto tempo, que ambos ficámos surpreendidos. Soltara-se algo no interior e eis que o gozo chegava em borbotões num êxtase imparável de convulsões intensas.

Começáramos, ela sentada na cadeira e eu de joelhos no chão explorando com a língua e a mão as voltas e texturas dos grandes lábios e do clitóris, seguindo a língua e os dedos percursos diferenciados e independentes.

Aflorado um primeiro êxtase beijámo-nos longamente, as línguas sugando até ao fundo da alma e depois trocámos de posição. Ela de joelhos sorvia-me o pénis enquanto eu sentado chegava a alturas de paraíso. Parámos antes da ejaculação e agora era ela que de costas, um joelho sobre o assento da cadeira, queixo e ombros apoiados no espaldar, oferecia a deslumbrante curva das nádegas ao olhar e a vagina húmida e fremente à penetração. Que gozo, que prazer penetrá-la assim, acariciando a linha de violoncelo que vai da cintura ao inicio da perna enquanto num movimento de vaivém o desejo aumenta a alturas insondáveis.

Acariciados o peito e os mamilos veio uma vontade forte de os beijar. Abraçámo-nos e escorregando para o chão deitei-me de costas e ela de joelhos sobre mim controlava a penetração movendo-se ora lenta, ora violentamente num vaivém irregular que nos levou a ambos ao céu.

Repousámos encostados um ao outro, abraçados. A certa altura virou-me as costas num abraço aninhador na concha do meu corpo. A erecção cresceu outra vez e o desejo de a penetrar subiu irresistível. Acariciando a vagina primeiro, as secreções de uma textura de mel mostravam-me como o desejo nela voltava a crescer e aí entrei. Com um contacto profundo e prolongado mantivemos um suave movimento balanceado. Crescia o desejo de forma galopante e mudando ligeiramente de posição, ficando agora ela de costas e eu por cima, atingi rapidamente o orgasmo num irreprimível prazer de enlouquecer. Foi ao continuar as caricias nunca suficientes que nos levantámos e de pé não resistimos de novo à penetração. Curta, porque a posição é incómoda, acariciámo-nos mutuamente numa manipulação de sexos deliciosa. Foi aí que a torrente aconteceu.

Cansados e felizes, fizemos amor pela última vez naquela tarde sentados na cadeira e, recuperadas as forças, saímos para jantar.

 

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EM LISBOA COM RUY CINATTI e O TÉDIO RECOMPENSADO

09 Terça-feira Nov 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poetas e Poemas

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Ruy Cinatti

 

Ocupado a trabalhar para a reforma, esqueci-me de viver. Hoje, pequeno livro aberto leio:

FASTIO

Quem me faz descer desta mansarda já,

onde me icei?


Farto estou já de estar sozinho

a caçar as moscas,

como se minha fosse a voz irada

que assim me mantém

divinizado.


Com a pressa de não ter nada que fazer, olhei o dia.


NOVO DIA

A manhã sobe

na minha vidraça

Ó penumbra nítida!

Ó claridade!


A manhã rebenta

como explosão

Salto remoçado

da cama pró chão.


Ó realidade

crescida, sincrónica,

sempre afirmação

só para quem ama!


A manhã vibrou

numa gota fina

suspensa da folha

que à janela assoma.


Que manhã tão fria

me anuncia inverno.

Quanto arrepio

na minha cidade.


Medito na vida

ano após ano

um mês repetido

sempre um desengano.

 

Estava sol e hesitei: fico em casa? Não, vou à Baixa. Entre a vidraça espreita


CAPARICA ALÉM

Luz e mais luz é o que eu quero,

translúcido à luz que me atravessa

e desenha na parede branca

as linhas puras do desejo oculto.


Luz é o que avança e me prende

às formas inefáveis, ao meu espírito

fugaz, mas delírio célere

de lâminas, vertigem-vácuo.


E da janela que me atrasa eu vejo

montes além, o dominio da praia

onde os passos são ondas e retraem

paisagem povoada de almas.

 

Afinal vou à Baixa!

Ir à baixa é uma ocupação de coisa nenhuma. Encontramos o Fernando, lembramo-nos do Esteves ao passar na Tabacaria, tropeçamos no pedinte de olhos tristes por profissão. Se formos pelas bandas do Martim Moniz e Mouraria, lá estará o corvo Vicente, sim porque embora o Cardoso Pires não diga onde mora o corvo, sempre achei que devia ser para aquelas bandas. Enfim, enquanto as pernas andam olhamos em redor e distraímos o espírito.


TRÂNSITO

A navegação parava

a meio do rio,

como a sinalização

nos Restauradores, no Rossio.


Paragem demorada,

signo vermelho na mão

mais do que em qualquer cidade

da Europa lembrada.


No rio, era mansa a tarde

em que aflitos os navios

esperam a vez de virar

rebocados pelo piloto.


Na cidade, o peão

apalermado, ciente

de que a qualquer momento

pode atravessar sem perigo.


Ora lembrando o contraste

desta cidade e do rio,

havia um homem pausado

no olhar, na intenção.


Dizia, de si para si:

Lisboa é uma aventura

qualificada de repente

morte lenta ou suicídio.


Mas tão bela que é valente

até na estúpida falta

de conceito ou de estrutura

mental ou de relação.


Havia a atracção do rio

e do mar, depois seguindo

brumas de bastidor

do continente perdido.


O que há agora, eu sei:

desastre após desastre,

a navegação parada

a meio do rio.

 

E eu, homem pausado no olhar, na intenção , vejo:

ALEGRIA

Novidade é uma rapariga solta

que passa,

me afaga,

redime

quando nela fito

os meus olhos pidescos

e rio.

 

FACTO

Tenho aprendido muito convosco, ó amigos homens,

a gostar de aventuras e, sobretudo,

mulheres, ao alto, ao lado, ao fundo

e, adormecido, sonhar fora do mundo.

7/12/76

 

Mas estou acordado e vejo o rio, o rio que dá cabo de mim:


QUASE UMA ODE AO TEJO

…

O rio dá cabo de mim.

Quando volto a casa, subo a escada,

abro a janela, olho o rio,

sorrio, bebo uisque ou limonada,

tanto se me dá – é sempre um rio.

Tejo – aventura desaguada – ,

livre de mim, enfim, segue o destino

seguido pela mal amada

que bate à tua porta, insiste e nada

persiste do que fora infindo.

…

Quem pudesse continuar esquecido de mim em ti


O TÉDIO RECOMPENSADO

I

Entre mulheres, eu sinto-me cansado.

Veio profundo

corre por mim

que aflora antigas ocorrências,

que me demovem

a fastidiosas empresas.


Sorrio agora

quando muito.

Há supercílios oculares que iludem

a passagem do tempo.


II

Mulher, mulheres, mulher,

fruto proibido

pela carne que ma nega.


Fruto desejado,

tomá-lo-ei nas mãos. Afluirei

aromas de mulher,

com ócios masculinos, reflectindo,

delicado.


III

Saciado,

procuro os teus lábios

semiabertos. Flor

quase a abrir-se…

Meto os teus dedos

nos meus. Suspiro fundo.

E renuncio ao mundo

esquecido de mim em ti.

 

 

LISBOA À NOITE… EM MIM

Já a noturna sombra se adianta.

O dia evade-se

entre cansaços e meditação.

Contemplo pernas e braços.

Desmaio na minha face.


Doce a escultura da chuva

no vidro baço, na lisa

flutuação das imagens.

O vento lima as arestas

da minha imaginação.


Clamorosos no som passam os táxis

na pista do esquecimento.

Sussurram depois no fundo

da pergunta que não cessa, que não cessa

– obcessiva pergunta cega-rega.


Com o seu ar de polícias reformados

têm as suas preocupações

os motoristas

do transito alado

A noite julga-se imensa

O momento é de noivado.


É de noivado longínquo

e de choro a noite imensa.

Não magoes as palavras

com a tua sem-razão.


Recorda-te apenas só

numa verdade falida.

O muro excrementado, a morte iniludível,

são a tua mansarda, a tua fé na vida.


Não magoes as palavras,

nem lhes queiras mal por isso .

Afivela-te aos sapatos.

Afirma-te num sorriso.


Os teus amigos esperam-te.


Pergunta-lhes onde fica,

se lembram o paraíso.


FIM DE VIAGEM!


Noticia Bibliográfica:

A cidade destes poemas incluídos em tempo da cidade, publicação póstuma de 1996 na colecção forma da Presença, é a Lisboa de RUY CINATTI (1915 – 1986) segundo Peter Stilwell, o editor da obra póstuma de Cinatti, a Lisboa da casa-mansarda ao Bairro Alto com vista soberba sobre a Outra Margem, a Ponte Pênsil e Caparica Além, e datarão do final dos anos 60 tal como O Tédio Recompensado livro e poema do mesmo título publicado em 1968 por Guimarães Editores

FACTO é o primeiro de 56 POEMAS publicado NA REGRA DO JOGO em 1981, antologia escolhida entre os poemas policopiados dos anos anteriores e distribuidos em folhas volantes.

A pequena efabulação encenada com os poemas é da minha responsabilidade. Comentários aos poemas são desnecessários.


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Visita a Gonçalves Crespo

28 Quinta-feira Out 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poetas e Poemas

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Gonçalves Crespo

Se alguém levado pela curiosidade de um nome de rua quiser conhecer a poesia de Gonçalves Crespo, encontrará as maiores dificuldades.

Ao que julgo saber, a última edição em Portugal das  suas OBRAS COMPLETAS foi feita em 1913, há quase cem anos, portanto. E no entanto, no seu tempo, muitas das suas poesias foram conhecidas de cor nos salões de Portugal. Como por exemplo aquela   A SESTA em que uma crioula repousa na rede enquanto o negro que a embala a come com os olhos.

Lido o poema em voz alta, a suave dolência do quadro e o embalar da cena saltam do andamento dos versos numa simbiose perfeita.

Ora experimente:

A  SESTA

Na rede, que um negro moroso balança,

Qual berço de espumas,

Formosa crioula repousa e dormita,

Enquanto a mucamba nos ares agita

Um leque de plumas

 

Na rede perpassam as trémulas sombra

Dos altos bambus;

E dorme a crioula de manso embalada,

Pendidos os braços da rede nevada

Mimosos e nus.

 

A rede, que os ares em torno perfuma

De vivos aromas,

De súbito pára, que o negro indolente

Espreita lascivo da bela dormente

As túmidas pomas.

 

Na rede suspensa dos ramos erguidos

Suspira e sorri

A lânguida moça cercada de flores;

Aos guinchos dá saltos na esteira de cores

Felpudo saguí.

 

Na rede, por vezes, agita-se a bela,

Talvez murmurando

Em sonhos as trovas cadentes, saudosas,

Que triste colono por noites formosas

Descanta chorando.

 

A rede nos ares de novo flutua,

E a bela a sonhar!

Ao longo nos bosques escuros, cerrados,

De negros cativos os cantos magoados

Soluçam no ar.

 

Na rede olorosa, silêncio! Deixai-a

Dormir em descanso!…

Escravo balança-lhe a rede serena;

Mestiça, tem leque de plumas acena

De manso, de manso…

 

O vento que passa tranquilo, de leve,

Nas folhas do ingá;

As aves que abafem seu canto sentido;

As rodas do engenho não façam ruído,

Que dorme a Sinhá!

Este ambiente de sanzala, recordação da infância no Brasil, não é temática exclusiva da sua poesia, mas é destas memórias que saem alguns dos seus mais belos poemas, como nesteoutro poema, AS VELHAS NEGRAS, onde, num registo diferente, realçando a paz da noite envolvente da sanzala,

Na floresta rumorosa / Esparge a lua formosa / A clara luz tropical.

nos fala do lazer magoado dos negros cativos:

Que noite de paz! que noite! / Não se ouve o estalar do acoite, / Nem as pragas do feitor! / E as pobres negras, coitadas, / Pendem as frontes cansadas N’um letárgico torpor!

Na elegância que a caracteriza, fazendo fluir o verso com natural suavidade, somos levados para aquele mundo de contrastes violentos entre senhores e escravos, apenas com uma palavra aqui outra acolá, pintando um quadro onde as velha negras meditam a vida:

Conheceram muito dono: / Embalaram tanto sono / De tanta sinhá gentil! / Foram mucambas amadas, / E agora inuteis, curvadas, / N’uma velhice imbecil!

Eis o poema:

 

AS VELHAS NEGRAS

 

As velhas negras, coitadas,

Ao longe estavam sentadas

Do batuque folgazão.

Pulam creoulas faceiras

Em derredor das fogueiras

E das pipas de alcatrão.

 

Na floresta rumorosa

Esparge a lua formosa

A clara luz tropical.

Tremeluzem pirilampos

No verde escuro dos campos

E nos côncavos do val.

 

Que noite de paz! que noite!

Não se ouve o estalar do acoite,

Nem as pragas do feitor!

E as pobres negras, coitadas,

Pendem as frontes cansadas

N’um letárgico torpor!

 

E cismam: outrora, e d’antes

Havia também descantes,

E o tempo era tam feliz!

Ai! que profunda saudade

Da vida, da mocidade

Nas matas do seu país!

 

E ante o seu olhar vazio

De esperanças, frio, frio

Como um véu de viuvez,

Ressurge e chora o passado

– Pobre ninho abandonado

Que a neve alagou, desfez…

 

E pensam nos seus amores

Efémeros como as flores

Que o sol queima no sertão…

Os filhos quando crescidos,

Foram levados, vendidos,

E ninguém sabe onde estão.

 

Conheceram muito dono:

Embalaram tanto sono

De tanta sinhá gentil!

Foram mucambas amadas,

E agora inuteis, curvadas,

N’uma velhice imbecil!

 

No entanto o luar de prata

Envolve a colina e a mata

E os cafezais em redor!

E os negros mostrando os dentes,

Saltam lépidos, contentes,

No batuque estrugidor.

 

No espaçoso e amplo terreiro

A filha do fazendeiro,

A sinhá sentimental,

Ouve um primo recém-vindo,

Que lhe narra o poema infindo

Das noites de Portugal.

 

E ela avista, entre sorrisos,

De uns longínquos paraísos

A tentadora visão…

No entanto as velhas, coitadas,

Cismam ao longe sentadas

Do batuque folgazão…

 

É de Teixeira de Queiroz, companheiro de uma vida, desde estudante em Coimbra até à véspera da morte, que me socorro para transmitir um retrato do poeta, senhor de um riso de bondade e de uma ironia travessa e inofensiva:

No seu quarto de estudo[em Coimbra]… entrava todo o mundo e todo o mundo era bem acolhido. A força de simpatia que este excelente rapaz resumia era um tesouro. Os neófitos da literatura procuravam-no animosamente sem o conhecerem, e em poucos minutos de conversação, quase se transformavam em íntimos amigos do poeta. Este traço vivo do seu carácter, conservou-o toda a vida, mesmo quando já era um nome laureado. Muitas vezes, no seu gabinete da Travessa de Santa Catarina, em Lisboa, encontrei indivíduos totalmente desconhecidos, que o Crespo me apresentava como notáveis poetas, romancistas e dramaturgos e que, afinal de contas, eram somente apreciáveis cavalheiros do Rio Grande do Sul, de Macau, ou do Alentejo, os quais ele conhecera pela primeira vez nesse dia, o que não obstava a tratarem-se reciprocamente como companheiros de colégio.

(in Prólogo de Teixeira de Queiroz à 3ª edição de MINIATURAS em 1884, publicada após a morte do poeta. Este é o retrato fascinante de uma personalidade, escrito num português cuja elegância o excerto evidencia)

e continuo a citar:

“O segredo do seu proverbial poder de atracção compunha-se de elementos bem diversos. Alguns vinham do seu talento de poeta, outros da sua ciência de conversar, outros finalmente da sua distinção pessoal. Combinava-os a todos instintivamente… A voz insinuante, o olhar vivo de míope, tendo doçuras e lampejos, iluminava-lhe a palavra persuasiva; os dentes brancos, iguais como os dum pente de marfim, sobressaiam na cor escura do seu rosto, dando a esta fisionomia singular uma expressão que rarissimamente se encontra. Crespo não tinha nada da vulgaridade dos homens formosos, nem mesmo do ridículo dos homens bem parecidos; porém todas as pessoas que se aproximavam dele confessavam que era um rosto atraente e de uma mobilidade cativante.”

Crioulo, nascido no Rio de Janeiro de pai português, aos 10 (14?) anos veio para Portugal, que adoptou como Pátria e onde foi deputado (legislaturas de 1879 e 1882). Licenciado em Direito em Coimbra em 1875, onde estudou e foi condiscípulo de João Penha e Guerra Junqueiro, entre outras personalidade de menor memória, casou com Maria Amália Vaz de Carvalho, influente personalidade da época, e ao Brasil nunca mais voltou.

Como refere Maria Amália Vaz de Carvalho, foi o livro MINIATURAS que a levou ao casamento, ou nas suas palavras “Pareceu-me que era um poeta como aquele, que eu positivamente tinha esperado havia muito, e que ele chegara;”.

É em Maria Amália Vaz de Carvalho que encontro uma caracterização penetrante da poesia de Gonçalves Crespo, referindo-se a essa poesia como parnasiana a qual junta: “a suavidade, a melodia, a correcção do metro, ao sentimento profundo, à compreensão clara,… da alma contemporânea”.

Possa a escolha poética que fiz traduzir a verdade destas considerações.

Vamos então a mais poesia.

Depois das recordações tropicais aproximemo-nos desta poesia de salão com as várias sínteses do amor vivido em sociedade, e contado com a suavidade apanágio do autor:

 

UM NUMERO DO INTERMEZZO

 

Ria, tomando chá em torno à mesa,

Da sociedade a flor;

E no campo de estéticas opostas

Discutia-se o amor.

 

“O amor deve ser etéreo e puro,!

O conselheiro diz.

Sorrindo, a conselheira um ai! abafa

Com gestos de infeliz.

 

Diz i cónego: “ O amor destrói, mas quando

Sensual, já se vê!”

A donzela pergunta ingenuamente:

“Reverendo, porquê?”

 

A condessa murmura em voz dolente:

“O amor é uma paixão”

E lânguida uma chávena oferece

Ao pálido barão.

 

Era vago um lugar em torno à mesa;

Era o teu, minha flor!

Tu, só tu, poderias, se o quisesses,

Dizer o que era amor!

 

Num contrate surpreendente com este suave amor de salão, aí vai o desejo solitário da paixão de uma negra por um branco no poema A NEGRA:

Nas esteiras, à noite, o teu corpo estiras / E com ânsias sem fim, / Levas aos seios nus, beijas e aspiras / Um cândido jasmim…

É uma força primordial que rompe neste retrato de mulher em desejo onde o poeta vê não apenas a fêmea: Teu corpo é forte, elástico, nervoso, mas também o ser humano apaixonado: Mas andas triste, inquieta e distraída / .. E no escuro das matas, escondida, / Soltas magoados ais…

 

A  NEGRA

Teus olhos, ó robusta creatura,

Ó filha tropical!

Relembram os pavores de uma escura

Floresta tropical!

 

És negra sim, mas que formosos dentes,

Que pérolas sem par

Eu vejo e admiro em rubidos crescentes

Se te escuto falar!

 

Teu corpo é forte, elástico, nervoso,

Que doce a ondulação

Do teu andar, que lembra o andar gracioso

Das onças do sertão!

 

As lânguidas sinhás, gentis, mimosas,

Desprezam tua cor,

Mas invejam-te as formas gloriosas

E o olhar provocador.

 

Mas andas triste, inquieta e distraída;

Foges dos cafezais

E no escuro das matas, escondida,

Soltas magoados ais…

 

Nas esteiras, à noite, o teu corpo estiras

E com ânsias sem fim,

Levas aos seios nus, beijas e aspiras

Um candido jasmim…

 

Amas a lua que embranqueou os matos,

Ó negra jurity!

A flor da laranjeira, e os níveos catos

E tens horror de ti!…

 

Amas tudo o que lembre o branco, o rosto

Que viste por teu mal,

Um dia que saías, ao sol posto,

De um verde taquaral…

Vai longo o artigo. Haveria mais alguns poemas a merecer inclusão como Alguém e outros. Termino com este soneto à lacrimosa estátua da amargura, provavelmente a mãe, de quem se despediu uma vez, para não voltar a ver.

Poema de despedida, na praia de todos os adeus o esplendor da natureza indiferente mostra Dos céus a curva tranquila e pura.

 

MATER DOLOROSA

Quando se fez ao largo a nave escura

Na praia essa mulher ficou chorando,

No doloroso aspecto figurando

A lacrimosa estátua da amargura.

 

Dos céus a curva era tranquila e pura:

Das gementes alciones o bando

Via-se ao longe, em círculos voando

Dos mares sobre a cérula (*) planura.

 

Nas ondas se atufara o sol radiosos,

E a lua sucedera, astro mavioso,

De alvor banhando os alcantis das fragas…

 

E aquela pobre mãe, não dando conta

Que o sol morrera, e que o luar desponta,

A vista embebe na amplidão das vagas…

(*) azul

 

Noticia e minudências bibliográficas:

São dois os livros publicados em vida por Gonçalves Crespo: Miniaturas, ainda solteiro e no tempo de Coimbra, em 1870, e Nocturnos, já casado com Maria Amália Vaz de Carvalho.

A edição das OBRAS COMPLETAS, preparada pela viúva, saiu em Lisboa, em 1897, com alguns poemas inéditos e textos em prosa. A edição foi de TAVARES CARDOSO & IRMÃO – EDITORES.

À margem comento que, como vem sendo costume, asneira que surja na net em site que deveria ter responsabilidade, propaga-se como cogumelos depois da chuva. É consultar o Google e ver por todo o lado a data de edição das OBRAS COMPLETAS ser 1887. Acontece que o volume que possuo tem lá escrito 1897. Onde foi esta gente buscar a data de 1887?

Mas voltemos à obra do poeta.

Existem noticias de colaboração dispersa por jornais através de artigos de comentário, nomeadamente. A ajuizar pela prosa incluída em OBRAS COMPLETAS, onde a graça se associa à elegância do estilo e à penetração da observação, valeria certamente a pena a sua leitura.

Os juízos sobra a obra do poeta que circulam pelas diferentes histórias da literatura e dicionários que consultei lêem-se uns aos outros sem visitar a obra do poeta. Entretidos com a conversa de Parnasianismo, segmentam e tresleem sem ter lido.

Porque citam sem ler, nos artigos sobre o poeta, que a edição das OBRAS COMPLETAS saída em 1897 é prefaciada por Teixeira de Queiroz e Maria Amália Vaz de Carvalho, tanto Urbano Tavares Rodrigues no DICIONÁRIO DE LITERATURA dirigido por Jacinto do Prado Coelho, Figueirinhas 1983, como A. S. Fernandes Viegas no DICIONÁRIO DO ROMANTISMO LITERÁRIO PORTUGUÊS coordenado por Helena Carvalhão Buescu, Caminho 1997, como Etelvina Santos no DICIONÁRIO DE LITERATURA PORTUGUESA dirigido por Álvaro Manuel Machado, Editorial Presença 1996, aproveito para precisar que as “OBRAS COMPLETAS” são “precedidas de uma advertência prévia” [sic] por JOSÉ DE SOUSA MONTEIRO, segue-se-lhe o Prólogo de Teixeira de Queiroz que acompanhou a 3ªedição de MINIATURAS em 1884 e no final de MINIATURAS encontra-se  um ESTUDO CRÍTICO  de Maria Amália Vaz de Carvalho, escrito depois da morte do poeta, por volta de 1887 e que a mesma editou previamente no seu livro “Alguns Homens do Meu Tempo” em1889.

Todos os artigos  destes dicionários referem 1871 como data da 1ªedição de Miniaturas. Não tive oportunidade de consultar um exemplar dessa edição, pelo que não posso confirmar esta data, sendo que M.A. Vaz de Carvalho no citado ESTUDO CRÍTICO  refere 1870 como data desta 1ªedição, tal como Mendes dos Remédios na sua História da Literatura Portuguesa. Este último acrescenta que a melhor edição de MINIATURAS é a 6ª de 1923, sem adiantar qualquer motivo. É edição que não conheço e não vi mencionada por mais ninguém.

Todos os artigos que referi citam Gonçalves Crespo e António Feijó como os únicos representantes em Portugal do Parnasianismo, movimento poético que floresceu em França no 3º quartel do século XIX. Talvez seja verdade, e estes poetas sejam seus lídimos representantes no Portugal de oitocentos. Quem sou eu para duvidar. Lida a obra tanto de um como de outro, obras que prezo especialmente, encontro lá mais que seguimento de escola  E fora apenas esse o caso, a obra tanto de um como do outro bem merecia uma edição crítica e uma nova leitura informada e despreconceituada que a trouxesse para junto de novos leitores, eventualmente agradecidos. Neste blog, o artigo sobre António Feijó teve picos de leitura à data da sua publicação.

Filha ou não de qualquer escola francesa, é uma poesia a que vale a pena voltar uma vez por outra.

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Num bairro poético — A Musa em Férias e Guerra Junqueiro

14 Quinta-feira Out 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poetas e Poemas

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Guerra Junqueiro

A profissão levou-me a um bairro poético. Moradias isoladas repousavam entre o silencio de pinheiros centenários dando aos seus moradores a tranquilidade de ruas com nomes de livros de poesia.

São livros que hoje ninguém lê – Campo de Flores – Folhas Soltas – Luar de Janeiro – A Musa em Férias e mais alguns.

Na diversidade dos seus autores são livros onde se espraia um olhar nostálgico pela natureza saída da criação divina, e onde a presença do homem tantas vezes entra em conflito com essa harmonia primordial.

Releio alguns poemas de A Musa em Férias onde esse contraste ressalta.

É um Guerra Junqueiro (1850 – 1923), nos antípodas do combatente politico pela dignidade humana cantada em longo e sonoros alexandrinos, quem, embalado em quadras singelas numa toada musical da palavra, cruza a ironia cáustica do feroz crítico social com um encanto deslumbrado da natureza.

IDÍLIO

Ah, que inefável pureza! / Que candura imaculada!…

Dir-se-ia que a Natureza / Nasceu esta madrugada!…

 

A primavera opulenta, / Estremecendo d’amores,

Palpita, anseia, rebenta / Em cataclismos de flores.

 

Os velhos sátiros nus / Correm atrás das bacantes…

A cor, o perfume e a luz / Dão saturnais deslumbrantes.

 

O olhar d’oiro das boninas / Contempla o azul; ao vê-las,

Dir-se-ia que nas campinas / Cairam chuvas de estrelas.

 

Uns feitos para a batalha, / Com a guerra por destino,

Puseram cotas de malha / De aço e bronze e d’oiro fino.

 

Outros, artistas mimosos, / Vestem librés refulgentes

Dos veludos mais preciosos / Das rendas mais transparentes.

 

Não sei que orgia incorpórea / Embebeda o pensamento…

A natureza é a glória; / O azul, um deslumbramento.

 

Tudo ri e brilha e canta / Neste divino esplendor:

O orvalho, o néctar da planta, / O aroma, a lingua da flor.

 

Enroscam-se aos troncos nus / As verdes cobras da hera.

Radiosos vinhos de luz / Cintilam pela atmosfera.

 

Entre os loureiros das matas, / Que crescem para os heróis,

Dá o luar serenatas / Com bandas de rouxinóis.

 

É a terra um paraíso. / E o céu profundo lampeja

Com o inefável sorriso / Da noiva – ao sair da igreja.

 

E o homem – verme do asfalto, / Que traz deus na consciencia,

O homem que está no alto / Da montanha da existência,

 

Que faz entre as harmonias / Deste esplendoroso assombro?

– Vai ouvir as cotovias, / Levando a espingarda ao ombro.

 

Funcionando como um corte vital, esta visita às fontes é uma recusa deliberada das práticas poéticas anteriores, talvez reflexos dum cansaço temporário da luta – Eu venho cheio de mágoa, / Venho triste, ó meus amores, / Como uma fonte sem água, / Como uma jarra sem flores. – onde uma componente biográfica certamente explica a mutação. Os poemas não são datados, pelo que os conflitos e a luta interior que conduziram o poeta a aderir ao Partido Progressista no ano da publicação deste livro não são neles escrutináveis. Fica-nos este louvor panteísta que continua:

CONVALESCENÇA

Ó verde bosque tranquilo, / O Natureza ridente,

Venho pedir-te um asilo, / Um quarto para um doente.

 

Chego morto de cansaço, / Triste como um lord inglês;

Pôs-me o Terreiro do Paço / No estado em que tu me vez.

 

O meu espirito anda / Como nem tu imaginas…

Lisboa, é verdade, manda / Recados para as boninas.

 

Eu venho cheio de mágoa, / Venho triste, ó meus amores,

Como uma fonte sem água, / Como uma jarra sem flores.

 

Esta frescura remoça / As anemias do asfalto.

Olha um melro a fazer troça, / Brejeiro, ao meu chapéu alto!

 

A floresta não precisa / As etiquetas das valsas:

As ninfas não têm camisa, / E os faunos não usam calças.

 

Silenos gordos e calvos, / A rir com um riso estranho

Espreitam os corpos alvos / Das loiras ninfas no banho.

 

Um deles, que traz muletas, / E a quem já falta um chavelho,

Segreda coisas facetas / Que têm pimentão vermelho.

 

Os faunos adolescentes, / Ouvindo pilhérias tais,

Abraçam-se, que indecentes!, / Aos troncos dos salgueirais!…

 

E um loiro silenozinho, / Guloso de bons segredos,

Dilata o róseo focinho, / A rir e a morder nos dedos…

 

Rosas, lírios, mocidade, / Abri-vos, cantai agora!

Dê salvas de hilaridade / O rubro canhão da aurora!,

 

Que além vem graciosa e nua / Vénus! Que esplendido seio!

São dois requeijões de Lua / Com dois morangos no meio!…

 

***

 

Deixemos por um instante / As coisas graves e sérias;

Declaro-me um estudante / Com quinze dias de férias.

 

Ando dispéptico, exangue, / Para as veias esfalfadas

Quero a transfusão do sangue / Ridente das madrugadas.

 

Despindo a guerreira farda, / A farda dos generais,

Licenceio a velha guarde / Das minhas odes marciais.

 

Doidas estrofes leoninas, / Amazonas impetuosas,

Carregai-me essas clavinas / De aurora e botões de rosas.

 

Carnificinas, deixá-las. / Hoje as hostes inimigas,

Em vez de as matar com balas / Picá-las-ei com ortigas.

 

Vamos! Riam, contem casos / Alegres, bons, maganões;

E dos elmos façam vasos / Para pôr manjericões.

 

Deixem os ultramontanos / Nas suas negras roupetas;

Depois de caçar tiranos / Vamos caçar borboletas.

 

Toca a fazer um idílio / À sombra dum castanheiro

Desçam dos corcéis; Virgílio / Que os vá deitar ao lameiro.

 

Pendurem as velhas lanças / Nos troncos dos salgueirais,

E riam como as crianças, / Ou como os melros joviais.

 

Entre os aromas dos buxos / Eu quero que os meus soldados,

Em vez de morder cartuchos, / Mordam pêssegos doirados.

 

Encravem-me em dois minutos / Esses canhões assassinos

De bombardear os redutos / Com bombas de alexandrinos.

 

E enfim largando as espadas, / Com toda a fúria guerreira

Levem-me entre gargalhadas, / D’assalto – uma cerejeira!

Embora querendo-se isolado e gozando Deste esplendoroso assombro, a cidade não o deixa e, implacável de ironia, lá vai esta resposta:

SEGUNDA CARTA

(A UM AMIGO QUE CONTINUA A PEDIR-ME VERSOS)

Não peças mais versos, não! / Não faças com que eu me zangue;

A teta da inspiração / Ordenho-a— e já bota sangue.

Deixa-me estar sossegado; / Eu a luta abandonei-a;

Tive baixa de soldado / E vim viver para a aldeia.

Levo a existência pacata / Dos grandes bonacheirões;

E arrumei a um canto a lata / Com que eu fabrico os trovões.

Pedes-me estrófes purpúreas! / Que coisa me pedes tu!

Guardei na gaveta as fúrias, / E os raios no meu baú.

Falo aos burgueses das tendas, / Cumprimento a vizinhança,

E arranjo às vezes merendas / Nos bosques, com Sancho Pança.

Meninas sérias, esguias, / Dizem-me já com amor:

– Doutor, como vai? Bons dias! / Tem feito versos, Doutor? –

Entrando eu não sei onde / Disse um banqueiro opulento:

– “Li nos jornais, senhor conde, / Que este rapaz tem talento”. –

E um discreto conselheiro / Murmurou do seu lugar:

“Quem é?” – É o Guerra Junqueiro. –  / “Ah! Sim… já ouvi falar.” –

A minha vida é a mesma / Que teve, dormindo ao sol,

Diógenes – essa lesma / Na pipa – esse caracol.

Deito-me às ave-marias / Co’a consciencia regalada,

E tiro todos os dias / O meu chapéu à alvorada.

E enfim nas ervas do prado, / Nas tenras ervas felizes

Rolo o corpo ensanguentado, / Coberto de cicatrizes.

E, farto de ver abrolhos, / E de ter desassossegos,

Deixo pastar os meus olhos / No azul – como dois borregos.

É possivel que isto mude; / Sim é possivel talvez:

O génio é irmão da saúde, / Eu tenho saúde há um mês.

Andar num trabalho eterno / Quebra o corpo mais viril;

Sai do descanso do inverno / Todo o murmúrio d’ Abril

Até Hércules descansa: / Além anda neste instante

A rir como uma criança / Na encosta, esse bom gigante.

Olha: deitou-se ao comprido / Nas frescas ervas mimosas.

Junto dele anda Cupido / Contando histórias às rosas.

E enquanto o gigante dorme / Entre as roseiras vermelhas,

E vêm ao seu corpo enorme / Poisar sem medo as abelhas,

Na clave grosseira e bruta / Que a tronco enorme equivale,

Cupido co’a mão astuta, / Sorrindo escreveu – Onfale.

E, apesar da inscrição terna, / Co’a mesma clave no entanto,

Matará a hidra de Lerna / E o javali de Erimanto.

Precisa depois do Outono / Repouso a terra mais forte.

Eu creio que este meu sono / Não é ainda o da morte.

Dormir faz bem às canseiras / Dos grandes trabalhadores;

Quem é que viu amendoeiras / Sempre cobertas de flores?

Além vai o Deus romântico, / Já murchos os seus lauréis,

À grande pia do Atlântico / Dar de beber aos corcéis.

Pobres corcéis! Vão de rastros, / Retalhados pelo açoite,

Comer a aveia dos astros / Nas manjedoiras da noite.

Mas amanhã romperão / De novo do sorvedoiro,

Iluminando a amplidão / No azul – com as crinas de oiro!

Haveria mais, haveria sobretudo outra poesia para saborear. Fica para outra oportunidade.

Noticia Bibliográfica:

Obra de um moço de 29 anos, A Musa em Férias foi publicado em 1ªedição em 1879, ano que viu também a publicação de O Melro, obra-prima da poesia portuguesa e poemeto simultâneamente anti-clerical, de enorme dimensão humana e com nítida inspiração panteísta, a qual, de forma menos eloquente, perpassa nas poesias aqui deixadas. A Musa em Férias é um livro onde falta a unidade temática comum às restantes obras do poeta, o que o título evidencia. Em 1893 a obra conheceu uma 3ª edição corrigida e aumentada de 5 novos poemas.

Na transcrição utilizámos a edição da Lello & Irmão com actualização ortográfica.

Poeta do Panteão Nacional, a sua obra aguarda ainda a edição crítica que expurgue das edições em circulação, as gralhas tipográficas que muitas vezes maculam a irrepreensível metrificação de Junqueiro.

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