Aos leitores que guardaram da infância o gosto de se deixar levar pela fantasia, aqui deixo um conto uma vez escrito para contar ao ouvido de alguém que me é especialmente querido.

Feliz Natal

 

Leonardo da Vinci foi um génio polivalente. Além de pintor e cientista também escreveu fábulas. E uma das fábulas que escreveu é mais ou menos assim:

Numa sala confortável com uma bela lareira acesa, havia uma mesa, talvez uma secretária. Sobre a mesa estavam varias folhas de papel.

A certa altura chegou a tinta e derramou-se sobre uma das folhas de forma especial.

A folha indignada refilou com a tinta

– Sujaste-me toda, não vês?

Responde-lhe a tinta:

– Não te sujei, não. Não sejas vaidosa. Isso que aí tens são palavras, não são nódoas.

Pouco depois chegou um homem, juntou as folhas espalhadas sobre a mesa e quando ia deitá-las no fogo da lareira viu a folha com a tinta, pegou nela, leu as palavras e guardou a folha cuidadosamente numa gaveta.

Às outras folhas sem tinta deitou-as no fogo, e assim, a única que se salvou foi a folha que refilou por pensar que estava suja.

Mas a folha era apenas vaidosa, não sabia ler, por isso não sabia o que as palavras queriam dizer.

Por artes difíceis de explicar chegou-me às mãos a folha tão cuidadosamente guardada há muitos séculos.  Com o tempo a tinta foi desaparecendo e agora mal se lê, mas recorrendo a modernas técnicas de decifração e muito esforço consegui saber o que na folha está escrito e vou contar a quem me lê, a história que lá se encontra.

 

No tempo de  muito, muito antigamente (não reparem na linguagem pois este texto tem muitos anos) as pessoas acreditavam haver não só um Deus, mas muitos deuses.

Acreditavam que esses deuses tinham paixões, desgostos, filhos, casamentos tal como os homens e mulheres da terra. E  acreditavam ainda que os deuses também comiam, embora a forma como comiam fosse um segredo dos deuses.

Quando precisavam de ajuda, e conforme o assunto de que se tratava, as pessoas pediam favores a um ou outro deus de acordo com a sua especialidade. A lista dos deuses e das suas especialidades é quase interminável e cobre tudo o que podemos desejar ou precisar.

Em retribuição de favores ou para acalmar os deuses que pudessem ficar descontentes com o que as pessoas faziam, estas ofereciam-lhes comidas, as melhores que possuíam, e assim, bem comidos, tal como toda a gente, os deuses deviam ficar com boa disposição e mais disponíveis para aceder aos pedidos que lhes tinham feito ou iriam fazer.

Estas comidas eram deixadas nos altares onde se supunha, os deuses as iam buscar e depois comer, sem que ninguém soubesse exactamente como.

Em certa altura do ano, quando as ovelhas ainda tinham pouca idade e se chamavam cordeiros, ou seja quando são mais tenras, essas pessoas acreditavam ser a oferta de um cordeiro a mais apreciada pelos deuses, e assim escolhiam de entre as ovelhas mais novas dos seus rebanhos a mais gordinha porque seria a mais saborosa, e era essa a oferecida no altar aos deuses.

Havia uma menina, já não tão pequenina assim, pois já estava na idade de casar, que guardava ovelhas. Todos os anos gostava de as ver nascer e crescer, Gostava sobretudo de as ver mamar na teta da mãe, aprender a andar quando no principio mal se aguentavam nas pernas, assistir ás marradinhas de brincadeira que davam umas nas outras. Era com pena que as via partir quando tinham o tamanho adequado para serem comidas.

Naquele ano apareceu entre as ovelhas um cordeiro ligeiramente diferente dos outros. Quando olhava para ela até parecia sorrir. Gostava de vir roçar-se nas pernas dela, tal qual um gato mimado, e para onde ela ia, lá ia ele atrás.

À medida que crescia ia ficando mais bonito e gordinho e a menina a certa altura já nem conseguia separar-se dele, resolveu até dar-lhe um nome e passou a chamá-lo de César.

Se porventura deixava de o ver por algum tempo ia logo ansiosa procurá-lo e ver o que tinha acontecido.

Aproximava-se a época da oferta de um cordeiro aos deuses e o dono do rebanho veio um dia escolher o cordeiro que ofereceria em sacrifício.

Andou para trás e para diante, mexeu num, mexeu noutro e acabou por escolher o  César, o cordeiro que a menina preferia a todos os outros.

Quando a menina soube qual fora o escolhido para sacrificar, sentiu um desgosto tão grande, tão grande, que começou a chorar e não conseguia parar. Era um desgosto tão profundo e inexplicável como nunca tinha sentido por nada nem por ninguém.

Um dia enquanto guardava as ovelhas e sentada chorava, foi distraída pelo som de um canto triste que se ia aproximando. Olhou em redor para tentar ver de onde vinha a voz, e finalmente viu surgir um rapaz com uma lira tocando e cantando.

Era Orfeu. Andava a vaguear pela terra sem saber para onde ir, cantando o desgosto que sentia por ter perdido a sua amada Euridice. Cantava ele:

Que farei sem Euridice/

Onde irei sem Euridice/

Que farei sem o meu bem/

Onde irei,

Que farei,

e sem destino caminhava apenas movido pela sua dor.

Chegou até bem perto da menina sem dar por isso e quando levantou a cabeça viu-a na sua frente a chorar. Perguntou-lhe porque chorava  e ela contou-lhe o que ia acontecer ao cordeiro de quem gostava acima de tudo. Disse-lhe então Orfeu:

– Olha para mim. Perdi a minha Euridice e não sei mais o que fazer nesta terra. Se gostas do cordeiro, acima de tudo não deixes que o matem, não te separes dele, foge com ele para longe.

Passaram os dias, e sem saber bem o que fazer a menina continuava a chorar até que um dia vê ao longe aproximarem-se os homens que vinham buscar o cordeiro para o sacrifício. Sem pensar em mais nada pegou nele debaixo do braço e largou a correr.

Correu, correu o mais que pôde, sem direcção certa nem saber para onde. Cansada, a arfar, avistou ao longe a floresta. Ganhou forças e correu para lá. Aí, entre as árvores, talvez fosse mais fácil esconder-se.

Ao longe começou a ouvir a voz dos homens que não tendo encontrado o cordeiro, nem a tendo visto a ela junto ao rebanho, os procuravam. Nem pensou em descansar e continuou a correr quanto as forças que ainda tinha o permitiam. As folhas roçavam-na, os troncos rasgavam-lhe a roupa, alguns fizeram mesmo arranhões, e ela sem descanso continuava a correr como podia.

O cordeiro mantinha-se quieto e aconchegado a ela, até parecia que se queria tornar mais leve para ela o transportar melhor.

Já quase morta de cansaço e sem encontrar abrigo onde se esconder, começava a desesperar, quando chegaram a uma clareira.

Na clareira havia uma casa que parecia fechada. Aproximou-se com receio de algum cão, mas não havia vivalma. Bateu na porta, ninguém respondeu. Pelas vozes dos homens que se já ouviam, deviam estar cada vez mais perto, por isso empurrou um pouco a porta e esta abriu-se. Hesitou só por um momento, mas parecendo-lhe os homens já muito perto entrou e fechou a porta.

Sem largar o cordeiro respirou fundo e finalmente olhou em redor para ver onde estava. Não era uma casa de pessoas, era um armazém grande. Havia pincéis e tintas sobre uma mesa, panos sujos, papéis, lápis, alguns quadros pintados e também telas em branco. Mas não estava ninguém. Era certamente o estúdio de um pintor mas o pintor não se encontrava ali.

Primeiro ficou parada no meio da casa com o cordeiro debaixo do braço, em silencio, mas quando ouviu já bem perto as vozes dos homens que a procuravam, não sabendo onde se esconder, encostou-se a uma parede e cheia de medo começou a chorar.

Ouviu então uma voz que lhe dizia:

–  Os homens vão vir e vão encontrar-vos. Não há lugar para te esconderes, não vês?  Deixa que apanhem o cordeiro, é só um animal.

Não, não! Antes morta!

– A única possibilidade será ficares tu e o cordeiro dentro de uma tela como se fossem uma pintura, respondeu então a voz. Mas nunca mais se vão libertar, ficam lá para sempre os dois. Estás disposta a renunciar à vida para não sacrificar o cordeiro de que tanto gostas?

– Estou sim. Mais que tudo na vida quero ficar com ele.

Mas será para todo o sempre, respondeu a voz.

– Não me importo, com ele sei que serei feliz – disse a menina.

Então vai para o fundo do estúdio onde está mais escuro e encosta-te bem a uma tela. Quando  os homens empurrarem a porta para entrar vão transformar-se, tu e o cordeiro, numa pintura.

– Mas eles vão reconhecer–me a mim e  ao cordeiro mesmo na pintura.

Não, não vão. O cordeiro será disfarçado de arminho que é um animal muito parecido e tu ficarás com o corpo só até à cintura e vestida como uma grande dama, ninguém vos reconhecerá.

A menina correu para o fundo, encostou-se quietinha a uma tela mesmo a tempo, pois nesse instante os homens começaram a empurrar a porta. Como a voz tinha prometido, de um momento para o outro, a menina e o cordeiro viram-se dentro da tela a que estavam encostados.

Os homens entraram,  procuraram, procuraram, sem nada encontrar até que desistiram e foram-se embora, ficando a menina e o cordeiro dentro da tela.

Passou muito tempo. O pintor vinha de vez enquanto pintar mas ele trabalhava em vários quadros ao mesmo tempo e cada quadro demora imenso a pintar, pelo que a menina e o cordeiro lá continuavam dentro da tela sem ninguém dar por isso. Até que um dia, o pintor quando procurava uma tela com um tamanho especial, pegou na tela onde estavam a menina e o cordeiro e escolheu-a para a pintar. Como estava numa zona escura do estúdio não os viu. Foi só quando trouxe a tela para a claridade que o pintor viu qualquer coisa na tela. Intrigado, montou-a no cavalete e olhando para a tela interrogou-se em voz alta:

–   Mas eu não pintei esta tela, como é que esta pintura aqui veio parar?

Vou ter que a pintar de branco por cima para depois lá pintar o que queria.

A menina ao ouvir isto pensou que morreriam debaixo da tinta branca, ela e o cordeiro sem respirar, e disse muito aflita:

–   Sr. Pintor não nos pinte, somos de carne e osso e estamos aqui escondidos há muito tempo.

–   Isso á lá possível, disse o pintor em voz alta. Parece-me que estou a ficar maluco.

–   Não, é verdade. Foi uma voz que nos mandou esconder aqui para eu poder salvar o cordeiro de ser oferecido aos deuses.

Para grande surpresa da menina e do pintor, o cordeiro que estava disfarçado de arminho disse em voz alta:

–  A voz que ouviste foi a minha. Sou um príncipe encantado e só poderia perder o encanto quando alguém gostasse de mim tanto, tanto, que preferisse morrer a separar-se de mim. E tu gostas de mim assim. Nem hesitaste em viver para sempre num quadro só para não me deixar morrer. Agora, se o Sr. Pintor nos fizer o favor de passar um pincel com óleo de linhaça na tela nós vamos poder sair.

O pintor ainda sem acreditar muito no que estava a acontecer foi buscar o óleo de linhaça e com um pincel pincelou a tela.

Quando o pintor acabou de passar o óleo, saíram da tela a menina, agora vestida de camponesa, e o cordeiro que deixou de ser arminho e mal pôs o pé no chão  se transformou num príncipe formoso. Virou-se então para a menina, ajoelhou-se diante dela e perguntou-lhe:

–   Queres casar comigo e vivermos juntos no meu palácio?

A menina ainda não conseguia dizer palavra, e de tão emocionada  com tudo o que acontecera apenas abanava a cabeça para cima e para baixo a querer dizer que sim.

O príncipe pegou então numa caixa de madeira onde tinham vindo as telas embaladas e que estava ali pelo chão, levando-a para a rua. Bateu-lhe três vezes com os nós dos dedos da mão direita e voltou para dentro.

Despediram-se  ambos do pintor e este veio com eles até à porta. Ao abri-la ouviu-se ao mesmo tempo um ahhhhhhh! de espanto tanto da menina como do pintor. Na rua, à porta do estúdio, a caixa de madeira tinha-se transformado numa carruagem dourada com dois cavalos para onde o príncipe fez subir a princesa e juntos partiram fazendo adeus ao pintor.

Depois de passado um bom bocado e já a carruagem tinha desaparecido no horizonte voltou o pintor para dentro e sentou-se com as mão na cabeça sem saber se devia acreditar no que tinha acontecido.

Para não se esquecer do que vira, ou imaginara, lançou-se ao trabalho sem parar, pintando o que estava na tela quando a foi buscar ao fundo do armazém.

Já sei que estás a pensar como a Alice quando estava do outro lado do espelho e disse para a rainha:

– Não se pode acreditar em coisas impossíveis.

E respondeu-lhe a rainha:

– Suponho que tens falta de treino.

 

Os especialistas pensam que o quadro foi pintado por Leonardo Da Vinci e talvez por isso, digo eu, ele escreveu a fábula sobre a folha de papel.

A pintura passou por muitas mãos e está agora no museu Czartoryski em Cracóvia, na Polónia, onde é conhecido como “A dama do arminho”.

É agora altura de mostrar o quadro que o pintor pintou.

Apêndice

Os estudiosos acreditam que na tela está pintada uma senhora de seu nome Cecilia Gallerani.

Ao primeiro olhar vemos uma dama com um arminho ao colo surpreendida por algo vindo do lado da luz que a ilumina e a faz esboçar um sorriso.

O movimento que ela faz de girar a cabeça é acompanhado pelo arminho que também olha, precisando a dama de o segurar com a mão para ele não saltar.

Este gesto de segurar o arminho é simultaneamente uma caricia. Por outro lado, a tensão visível no pescoço do arminho mostra como ele está em posição de defender a sua dama enquanto permanece junto ao seu coração.

O quadro foi encomendado a Leonardo da Vinci pelo duque de Milão, Ludovico o Mouro e a dama era sua amante. Uma vez que o duque usava como símbolo o arminho, os gestos da dama são também dirigidos simbolicamente ao duque, mostrando os sentimentos que ela tinha por ele.

Mas o que faz a gloria desta pintura não é a sua história mas a proeza inédita da sua técnica. Até ter sido pintado em 1488-1490 nunca ninguém pintara uma pessoa nesta posição, com o corpo a três quartos virando a cabeça a 90º para olhar a luz que vem das costas e assim ficar com o rosto completamente iluminado quase de frente para nós.

Independentemente da rigidez a que esta posição obriga  a modelo mantém uma elegância despreocupada comum aos retratos de Leonardo nomeadamente Mona Lisa.

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