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Tag Archives: Fernando Pessoa

Fragmentos de Álvaro de Campos

10 Quarta-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poetas e Poemas

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Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Picasso

Bust of a Man - 1972-2

Ora até que enfim…, perfeitamente…
Cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça.

Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima…
…

*

Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!

Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem – um antes de ontem que é sempre…
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir…
Produtos românticos, nós todos…
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura…
Santos Deuses, assim até se faz a vida!
…

*
Não sei. Falta-me um sentido, um tacto
Para a vida, para o amor, para a glória…
…

Ainda que seja pouco adequado transcrever de um poema apenas um seu fragmento, cortando-lhe eventualmente o sentido que o conjunto revela, há versos que nos tocam por vezes como faíscas e queimam à flor da pele.

Alguns desses que no acaso do folhear, a leitura foi soltando, resolvi aqui transcrever, com as minhas desculpas aos puristas que considerem tal feito um atentado às obras. A totalidade de cada poema pode ser sempre encontrada a partir do primeiro verso, trancrito, em qualquer edição da obra de Alvaro de Campos.

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Diadapoesia comemorado com Alvaro de Campos e iluminado por Baselitz

22 Sexta-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Georg Baselitz

Baselitz_Georg-Rebel

Confesso que me passou completamente ao lado a existência de um Dia Mundial da Poesia. De resto, encontrava-me em estado de felicidade absoluta, fazendo da vida pura poesia. Mas como estes eventos esperam comemoração, entrego ao engenheiro Campos a responsabilidade da coisa.

Vai com um dia de atraso, pois o homem, ontem, talvez se encontrasse entre eflúvios alcoólicos.

Tenho escripto mais versos que verdade.
Tenho escripto principalmente
Porque outros teem escripto.
Se nunca tivesse havido poetas no mundo,
Seria eu capaz de ser o primeiro?
Nunca!
Seria um individuo perfeitamente consentivel,
Teria casa propria e moral.
Senhora Gertrudes!
Limpou mal este quarto:
Tire-me essas idéas de aqui!

O poema foi atribuído a Alvaro de Campos por Teresa Rita Lopes, e publicado pela primeira vez no volume II da sua obra, PESSOA POR CONHECER, Editorial Estampa, Lisboa, 1990.

As pinturas que acompanham o artigo a abrir e a fechar são do pintor alemão Georg Baselitz (1938).

Baselitz_Georg-Male_Nude

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Alberto Caeiro – Poema VIII de O Guardador de Rebanhos no Dia do Pai

19 Terça-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Cânone XXI, Convite à arte, Poetas e Poemas

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Alberto Caeiro, Fernando Pessoa, Louis Gallait

louis Gallait 1848

Somos filhos antes de sermos pais. Em cada idade sentimos o Dia do Pai de forma adaptada ao percurso por onde a vida nos levou.

Depois que somos pais, somos também filhos de maneira diferente. Mas por mais adultos e suficientes que sejamos, só a perda do Pai nos faz sentir como a partir daí estamos na vida por nossa conta. É essa referência que nos moldou ao crescer, que nos acompanha pela vida e nos faz desejar assinalar de forma especial a passagem do Dia do Pai, diferente do seu ou do nosso aniversário.

Uma vez pais, cada filho é sempre uma espécie do nosso Menino Jesus. Foi sentindo isso que escolhi assinalar este Dia do Pai com a transcrição do poema VIII de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro, o heterónimo de Fernando Pessoa, que termina precisamente com esta identificação:

Esta é a história do meu Menino Jesus. / Por que razão que se perceba /Não há de ser ela mais verdadeira / Que tudo quanto os filósofos pensam /E tudo quanto as religiões ensinam?

O poeta diz num verso lapidar como cada filho vive em nós e nos integra:

…

Ele dorme dentro da minha alma

…

A irreverência, por vezes chocante para católicos, que numa leitura superficial do poema a espaços surge, como por exemplo neste fragmento:

…

Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito-Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fêz que ninguém soubesse que êle tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modêlo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

ganha a dimensão da liberdade de pensar e faz sentir a complexidade dos sentimentos que nos atravessam perante a força avassaladora da fé, na sua negação do irracional. Irracional que está sempre presente no amor com que banhamos os nossos filhos desde o dia em que nascem até que deles nos despedimos, talvez com o desejo secreto que o poeta desvela:

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

Deixo-o, leitor, com o poema.

Para quem o conhece, fica o prazer do reencontro. Para quem o lê pela primeira vez, no final será, eventualmente, outra pessoa.

VIII

Num meio-dia de fim de primavera

Tive um sonho como uma fotografia.            

Vi Jesus Cristo descer à terra.

           

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

           

Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacôrdo

Com flores e árvores e pedras.

No céu tinha que estar sempre sério

E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer

Com uma côroa tôda à roda de espinhos

E os pés espetados por um prego com cabeça,

E até com um trapo à roda da cintura

Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe

Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas –

Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dêle;

E o outro pai era uma pomba estúpida,

A única pomba feia do mundo

Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala

Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que êle, que só nascera da mãe,

E nunca tivera pai para amar com respeito,

Pregasse a bondade e a justiça!

           

Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito-Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fêz que ninguém soubesse que êle tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modêlo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas pôças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedras aos burros,

Rouba a fruta dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

E, porque sabe que elas não gostam

E que tôda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.

           

A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me tôdas as coisas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.

           

Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente,

Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.

A Virgem-Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.

E o Espírito-Santo coça-se com o bico

E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada

Das coisas que criou –

«Se é êle que as criou, do que duvido» -.

«Êle diz, por exemplo, que os sêres cantam a sua glória,

Mas os sêres não cantam nada.

Se cantassem seriam cantores.

Os seres existem e mais nada,

E por isso se chamam sêres».

E depois, cansado de dizer mal de Deus,

O Menino Jesus adormece nos meus braços

E eu levo-o ao cólo para casa.

           

…………………………………………………………

           

Êle mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Êle é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Êle é o humano que é natural,

Êle é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com tôda a certeza

Que êle é o Menino Jesus verdadeiro.

           

E a criança tão humana que é divina

É esta minha quotidiana vida de poeta,

E é porque êle anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,

E que o meu mínimo olhar

Me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que fôr,

Parece falar comigo.

           

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segrêdo comum

Que é o de saber por tôda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.

           

A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que êle me faz, brincando, nas orelhas.

           

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos e dois

Com um acôrdo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.

           

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas

No degrau da porta de casa,

Graves como convém a um deus e a um poeta,

E como se cada pedra

Fôsse todo um universo

E fôsse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.

           

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível.

Ri dos reis e dos que não são reis,

E tem pena de ouvir falar das guerras,

E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos mares.

Porque êle sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer

E que anda com a luz do sol

A variar os montes e os vales

E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

           

Depois êle adormece e eu deito-o.

Levo-o ao colo para dentro de casa

E deito-o, despindo-o lentamente

E como seguindo um ritual muito limpo

E todo materno até êle estar nu.

           

Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos.

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sòzinho

Sorrindo para o meu sono.

           

……………………………………………..

       

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

           

……………………………………………………

           

Esta é a história do meu Menino Jesus.

Por que razão que se perceba

Não há de ser ela mais verdadeira

Que tudo quanto os filósofos pensam

E tudo quanto as religiões ensinam?

A transcrição ortográfica segue o texto fixado por Teresa Sobral Cunha na sua edição dos Poemas Completos de Alberto Careiro, Editorial Presença, Lisboa, 1994.

A pintura que abre o artigo é do belga Louis Gallait pintada presumivelmente em 1848.

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Mais Álvaro de Campos – Ai, Margarida, …

06 Quarta-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Álvaro de Campos, Edward Burra, Fernando Pessoa

Edward Burra 1905-1976 Tate

Mesmo nas mais aparentes bagatelas poéticas encontramos sobre que reflectir ao ler a poesia de Fernando Pessoa.

Nesta brincadeira sobre a leviandade e o amor, o diálogo entre o casal revela o contraste frequente entre homem e mulher, na oposição entre a fantasia masculina e o pragmatismo feminino.

A forma poética, prenhe de trivialidades, forçou o autor a declarar no final da conversa/poema tratar-se do resultado de uma bebedeira.

Ai, Margarida,
Se eu te désse a minha vida,
Que farias tu com ella?
– Tirava os brincos do prego,
casava c’um homem cego
E ia morar para a Estrella.

Mas, Margarida,
Se eu te désse a minha vida,
Que diria tua mãe?
– (Ella conhece-me a fundo.)
Que ha muito parvo no mundo,
E que eras parvo tambem.

E, Margarida,
Se eu te désse a minha vida
No sentido de morrer?
– Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fôsse senão poesia?
– Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem effeito.
Nesta casa não se fia.

Comunicado pelo Engenheiro Naval

Sr. Alvaro de Campos em estado

de inconsciencia

alcoolica.

Transcrição ortográfica conforme a edição crítica de Teresa Rita Lopes do Livro de Versos de Álvaro de Campos, Editorial Estampa, 1993.

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Apostilla por Alvaro de Campos ou a reflexão de Fernando Pessoa sobre carpe diem

05 Terça-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Modigliani

Modigliani_Amedeo-The_Young_Apprentice

Deixei há pouco tempo no blog um artigo em torno da Ode a Leucónoe de Horácio. Nele, a defesa do aproveitar a vida que passa sem preocupação pelo amanhã é o assunto. Carpe diem, é a ideia expressa em latim, e desde Horácio surge a espaços na poesia. Encontrámo-la no poema A vida, de Páladas, que aqui também deixei, e hoje retomo-a com o eco que a expressão encontrou em Álvaro de Campos, no poema Apostilla. Aqui, é a peculiar forma da reflexão Pessoana que se desenvolve através do seu heterónimo, interrogando-se sobre o que aproveitar o tempo significa.

Apostilla

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, para que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha…
O trabalho honesto e superior…
O trabalho á Virgilio, á Milton…
Mas é tam diffícil ser honesto ou ser superior!
É tam pouco provavel ser Milton ou ser Virgilio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos – nem mais nem menos –
Para com elles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)…
Pôr as sensações em castello de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, egual contra egual,
E a vontade em carambola diffícil…
Imagens de jogos ou de paciencias ou de passatempos –
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida…

Verbalismo…
Sim, verbalismo…
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciencia desconheça…
Não ter um acto indefinido nem facticio…
Não ter um movimento desconforme com propositos…
Boas maneiras da alma…
Elegancia de persistir…

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cerebro está prompto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajavas tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti
Qual foi o rhythmo do nosso socego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto á vida?)

Aproveitar o tempo!…
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!
Deixem-me ser uma folha de arvore, titillada por brisas,
A poeira de uma estrada, involuntaria e sòsinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O peão do garoto, que vae a parar,
E oscilla, no mesmo movimento que o da terra,
E estremece, no mesmo movimento que o da alma,
E cahe, como cahem os deuses, no chão do Destino.

11/4/1928 – data do testemunho dactilografado.
Poema publicado em O Noticias Ilustrado, 27/2/1928.

Transcrição ortográfica conforme a edição crítica de Teresa Rita Lopes do Livro de Versos de Álvaro de Campos, Editorial Estampa, Lisboa, 1993.

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Alvaro de Campos – O Binómio de Newton

04 Segunda-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas, Prosas

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Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Newton

Venus de Milo - Louvre

A uns causa estranheza, a outros, onde me incluo, a comparação feita no poema de Alvaro de Campos entre a Vénus de Milo (escultura grega da colecção do museu do Louvre), arquétipo da beleza feminina pelos séculos, e o binómio de Newton, (solução matemática para um problema de cálculo descoberta pelo físico e matemático inglês, Sir Isaac Newton (1643-1727)), parece justíssima e um golpe de génio poético, a sua formulação.

O binomio de Newton é tão bello como a Venus de Milo.
O que ha é pouca gente para dar por isso.

(Alvaro de Campos)

óóóó—óóóóóó óóó—óóóóóóó óóóóóóóó

(O vento lá fóra)

Acompanho o poema com os seus protagonistas: a abrir, uma foto da Vénus de Milo, da colecção do museu do Louvre, e a seguir, a explicitação matemática do binómio de Newton.

A formulação do binómio de Newton escreve-se  da seguinte forma:
onde os coeficientes  são chamados coeficientes binomiais e definem-se como: onde  e  são inteiros,  e  é o fatorial de x.
O coeficiente binomial  traduz, em análise combinatória, o número combinações de n elementos agrupados k a k.

Quando atacado de insónias, leitor(a), é bom remédio manualmente desenvolver o cálculo arbitrando o x e y da vida, e escolher n e k à medida da insónia. (Deixo à vossa imaginação a matemática da coisa). Rapidamente chega o sono repousante.

Bons sonhos!

Nota bibliográfica

Transcrevi a versão ortográfica de Teresa Rita Lopes na sua edição crítica do Livro de Versos de Álvaro de Campos, o heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935), Editorial Estampa, Lisboa, 1993.

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No lugar dos palácios desertos com Álvaro de Campos

15 Sexta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Jean-Leon Gerome

Jean-Leon Gerome Turkish BathAinda a propósito do Dia dos Namorados, e agora que percorro o Algarve, onde os ecos da ocupação islâmica, dos seus poetas e das moiras encanadas, vitimas ou carrascos de amores funestos, permanece, ocorre-me um poema de Álvaro de Campos(?), inventado poeta por Fernando Pessoa, nascido em Tavira, sonhando estes ou outros amores:

 

No lógar dos palacios desertos e em ruínas
Á beira do mar,
Leiamos, sorrindo, os segredos das sinas
De quem sabe amar.

Qualquer que elle seja, o destino d’aquelles
Que o amor levou
Para a sombra, ou na luz se fez a sombra d’elles,
Qualquer fôsse o vôo.

Por certo elles fôram mais reaes e felizes

Noticia bibliográfica

O poema, sem atribuição de autoria no espólio, foi atribuído a Álvaro de Campos pela edição da Ática, e retirado do corpus do heterónimo por Teresa Rita Lopes.

Na transcrição segui a ortografia da edição crítica a cargo de Cleonice Berardinelli, publicada por INCM, Lisboa 1990. Esta edição da obra de Álvaro de Campos coloca o poema em Apêndice entre os “poemas éditos, anteriormente atribuídos a Álvaro de Campos”.

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Todas as cartas de amor são ridiculas — Álvaro de Campos

15 Sexta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Konrad Witz

WITZ, Konrad - O rei Salomão e a Rainha do SabáA propósito do comercialmente festivo Dia de S. Valentim, que agora por cá também se comemora, ocorreu-me arquivar no blog o conhecido poema de Fernando Pessoa, assinado Álvaro de Campos cujo inicio reza assim:

Todas as cartas de amor são / Ridiculas.

Há na biografia de Pessoa vasta pastagem sobre a ambivalência da paixão deste por Ofélia Queiroz, a quem escreveu conhecidas cartas de amor, encarregando o heterónimo Álvaro de Campos do contraponto de dúvida sobre essa paixão.

Como habitualmente em Fernando Pessoa, nada é simples, e neste poema sublima-se no propósito de dizer uma coisa e o seu contrario, entregando ao leitor a dúvida, e a escolha da solução.

Não fujo a uma resposta, e antes de vos deixar o poema deixem-me dizer: Felizes os que recebem ridículas cartas de amor. Para esses, todos os dias são Dia dos Namorados, e aqui os felicito.

Vamos ao poema:

Todas as cartas de amor são
Ridiculas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridiculas.

Tambem escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridiculas.

As cartas de amor, se ha amor,
Têm de ser
Ridiculas.

Mas, afinal,
Só as creaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridiculas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridiculas.

A verdade é que hoje
As minhas memorias
D’essas cartas de amor
É que são
Ridiculas.

(Todas as palavras esdruxulas,
Como os sentimentos esdruxulos,
São naturalmente
Ridiculas.)

21/10/1935

Conservei na transcrição a ortografia e acentuação da edição de Teresa Rita Lopes na Edição Critica da poesia de Álvaro de Campos, Editorial Estampa, Lisboa 1993.

Nota sobre a imagem de abertura

Trata-se da imagem de uma pintura de Konrad Witz a reprodução que abre o artigo. Nela representam-se, supostamente, o rei Salomão e a rainha do Sabá.

Não consta da lenda que envolve estes personagens qualquer paixão ou relação amorosa.

A pintura dá-nos conta do momento em que a rainha viajante entrega um opulento presente ao seu real hospedeiro. Revelam as suas expressões um respeito atento e cortês entre iguais e foi a ideia dessa relação de igualdade o motivo porque a escolhi ao assinalar este dia de namorados no blog.

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O presépio da minha infância

24 Segunda-feira Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Cânone XXI, Convite à arte, Crónicas

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Fernando Pessoa, Natal

UNKNOWN MASTER, German 1420É a poesia de Fernando Pessoa um poço inesgotável, onde a cada mergulho a alma se nos prende e se desvenda. Nesta vasta obra há pouco sobre o Natal, mas basta o arqui-conhecido poema Natal. Na província neva/…, para ficar dito em definitivo o que em desolada solidão sente quem na vida caminha Coração oposto ao mundo.

NATAL  

Natal. Na província neva.
Nos lares aconchegados
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Era pela feira de Outubro que naquele virar dos anos cinquenta a chegada próxima do Natal nos conduzia, crianças de vida modesta numa sociedade de bens escassos.

Aí começava a preparação do presépio com a compra de figurinhas de barro, umas novas para acrescentar variedade à composição, outras para substituir algumas entretanto quebradas. Era o dinheiro amealhado em longos meses, às vezes todo o ano, que permitia essas compras. Depois seguiam-se os trabalhos de preparação e montagem do cenário para o presépio. Tratava-se de uma vasta estrutura com quase dois metros de frente e mais de um metro de fundo construída com réguas de madeira às quais se pregavam raízes de canas. Estas raízes de canas, tuberculos rijos e com formas caprichosas, permitiam uma arquitecuta espacial variada. Pregadas em anfiteatro, desciam das alturas ao fundo, e confluíam na gruta, em baixo e quase ao centro, na frente, onde nasceria o deus menino.
O propósito era criar um vasto cenário deixando imaginar montanhas e vales, por onde andaria e viveria gente, que à chegada do Natal saberiam da boa nova e desciam até à gruta para ver e adorar o deus nascido. Eram esta gente e animais, casas e alfaias, as figurinhas de barro compradas na feira. Ao cenário acrescentava-se musgo e searas (grãos de trigo postos a germinar semanas antes em tacinhas de vidro).
E como se fazia a base do cenário? Pregadas as raízes às tábuas na disposição que iria permitir o relevo, a esta estrutura colava-se papal Kraft, integralmente coberto de um dos lados com cola de farinha, a qual, uma vez seca fixava o papel às raízes e acrescentava-lhe a rigidez e resistência suficiente para nele pousar sem rasgar as figuras de barro.
A cola de farinha era feita com farinha e água, cozida ao fogo. Depois de bem seca a cola, toda a estrutura era pintada com uma solução de dioxénio, a qual por ser de um castanho transparente, permitia nuances de cor sobre o papel creme e já manchado pelo repasse da cola. Uma vez seco o dioxénio e ficando a contento o cenário de montanha que queríamos, tratava-se de polvilhar a estrutura com purpurina dourada e prateada de forma que surgissem reflexos na estrutura, quando iluminada.
Com todo este trabalho tinha passado Outubro e Novembro. Além de carrear todo o material, escolher e ensaiar o cenário a construir, havia também a construção em cartolina do castelo do presépio, e de casas para espalhar pela paisagem. O castelo era a obra-prima de cada ano a fazer, pela vastidão e variedade de torres e ameias, fazendo lembrar um castelo das iluminuras dos irmãos Limbourg, que em tempos deixei algures no blog.
Concluídas as tarefas, e de posse de todos os elementos: figuras, musgo, searas, luzes, tratava-se de as dispor no cenário e inaugurar o presépio, nem sempre no primeiro de Dezembro mas seguramente nos primeiros dias do mês. Quando era montado na montra da loja de meu pai, colocava-se um pano no exterior enquanto a montagem durava, e anos houve em que a miudagem apercebendo-se, ali se juntava e esperava a retirada do pano para primeiro ver o presépio e as suas novidades. Depois, ao longo dos dias, na saída da escola, lá passavam e ficavam a olhar, uns, sem mais, outros discutindo este ou aquele detalhe que gostavam ou não.

Era o tempo de pôr o sapato à chaminé na véspera de Natal à noite, e acreditar que por ali o Pai Natal desceria com um ou dois presentes e pouco mais de meia dúzia de pequenos chocolates, enchendo o sapatinho com os secretos sonhos que só ele conhecia. Hoje, as chaminés vedadas por exaustores não permitem, nem à mais tenra infância, a ilusão da descida do Pai Natal, dando forma a desejos acalentados longamente.

Este acreditar que a magia do bem é possível, acompanha pela vida quem a sentiu, e torna a esperança na felicidade, indestrutível.
Oxalá o mesmo se passe consigo, leitor.

Feliz Natal!

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O dia deu em chuvoso – Fernando Pessoa pela voz de Álvaro de Campos

14 Sexta-feira Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Álvaro de Campos, Caillebotte, Fernando Pessoa

Cailleboute Rua de Paris 1877São parte do quotidiano de todos nós as reflexões sobre o estado do tempo, assunto neutro de comunicação social, sem outra consequência que a troca de algumas palavras em encontros de circunstância. A poucos é pretexto poético que valha a leitura. Não assim a este TRAPO:

Dêem-me o céu azul e o sol visível. / Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.

poema de Álvaro de Campos, entre os poucos que Fernando Pessoa publicou em vida.

Trapo

    O dia deu em chuvoso.
    A manhã, contudo, esteve bastante azul.
    O dia deu em chuvoso.
    Desde manhã eu estava um pouco triste.
    Antecipação!  Tristeza?  Coisa nenhuma?
    Não sei: já ao acordar estava triste.
    O dia deu em chuvoso.

    Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.
    Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
    Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
    Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
    Dêem-me o céu azul e o sol visível.
    Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.
    Hoje quero só sossego.
    Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
    Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
    Não exageremos!
    Tenho efectivamente sono, sem explicação.
    O dia deu em chuvoso.

    Carinhos?  Afectos?  São memórias…
    É preciso ser-se criança para os ter…
    Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
    O dia deu em chuvoso.

    Boca bonita da filha do caseiro,
    Polpa de fruta de um coração por comer…
    Quando foi isso?  Não sei…
    No azul da manhã…

    O dia deu em chuvoso.

    10-09-1930

    Poema publicado na Revista Presença, Nº31-32, Março-Junho, 1931

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