O Facebook do século XIX e um poema de Faustino Xavier de Novaes

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Sinto as cócegas do génio e deixo-me ir à mercê da inspiração impetuosa. Isto escrevia Camilo nos idos de 1856.

Hoje, sinto as cócegas e recomendo-me a fuga pois o perigo avizinha-se…

A um amigo que a espaços estacionava no Telhal, quando regressava, perguntava-lhe:

– Então estás melhor?

– Sabes pá, às vezes a vida falha por milímetros!

E tentando evitar a falha, uma vez que passadas estão as festas, voltemos ao trabalho sério, que os leitores aguardam.

O compromisso comigo era manter o blog ao longo de 2010. Cumprido o ciclo muito ficou por escrever. A existência de leitores para além de qualquer expectativa, e o encorajamento de um amigo em especial, leva-me a continuar, abrindo novo ciclo.

Como no ano passado, em prelúdio tivemos Pessoa. Para reinicio de conversa, os tempos estão de feição para a chegada dos satíricos, ausentes por opção ao longo de 2010.

Abro por isso, com o que poderia considerar o Facebook do século XIX, O Álbum.

O Álbum, livro branco com presença registada em Portugal ao longo dos tempos, ainda na minha juventude revestia a forma de Livro de Autógrafos onde amigos registavam testemunhos de apreço ao seu possuidor. Hoje, o mural do Facebook desempenha cabalmente a função, adaptando um hábito ancestral às modas que nos regem.

Na sociedade burguesa do século XIX os álbuns constituiram objectos de socialização. Depositados sobre uma mesa, na sala ou em divisão íntima do seu possuidor, ou ainda enviados a casa de alguém para aí inscrever o seu testemunho (por exemplo, como refere João Penha com enorme discrição, diga-se, o sucedido a João de Deus a propósito do álbum que a amada lhe enviou para aí inscrever uma poesia), foram o pretexto para uma notável sátira de Faustino Xavier de Novaes (1820 – 1869) N’um albunzinho, muito pequenino, d’um meu amiguinho muito baixinho. publicado no nº11 da 1ªParte de O BARDO em tipo pequeno, como convinha.

Arquivos de sensaborias, a maior parte das vezes , eram, como refere Duarte Sá Júnior em 1868:

… / Um terrível tormento. / ,

e acrescenta:

Há sobretudo três casos / Que podem acontecer, / Em que é muito de temer / Que os poetas fiquem rasos.

Primeiro – se é pertencente / O livro a moça solteira; / Falar d’amor é asneira. / Ou ao menos imprudente.

Falar-lhe na madrugada, / Ou na campina, ou no prado, / É motivar-lhe um enfado, / Por se ver ela olvidada.

Segundo – se é d’uma feia, / Ainda há mais que reflectir: / Ou escrever e mentir, / Ou tão mal que ela o não leia.

Mas o caso mais profundo / É n’um Álbum de casada, / Que já está iniciada / Nos mistérios d’este mundo.

Porque dizer-lhe que é bela, / E que se lhe está rendido, / Pode ofender o marido, / Se não a ofender a ela.

Dos álbuns renego bem; / São cousas que não se entendem!… / N’eles louvores ofendem, / E a falta d’eles também.

 

Percorrendo a bibliografia poética publicada ao longo da segunda metade do século XIX, são a cada passo os poemas intitulados – N’um Álbum. E é esta a sua origem. Embora tenham tido destinatário conhecido, nem sempre as recolhas identificaram a quem foram dirigidos.

Salpicados que estamos com a erudição possível a um leigo, eis o poema prometido:

N’um albunzinho, muito pequenino, d’um meu amiguinho muito baixinho.

N’este albumzinho, / Pequerruchinho, / Um vatezinho / Que ha-de escrever? / Uns versozinhos, / Mui sentidinhos? / Uns amorzinhos? / Não póde ser.

Um cantozinho, / Mimosozinho, / Ao liriozinho, / Não dá prazer; / Ao pradozinho, / Ao riozinho, / Ao jardimzinho, / Não póde ser.

Um louvorzinho / Ao donozinho / Do livrozinho, / Não vou tecer; / Da lisonjinha, / Sua almazinha, / Vaidosazinha, / Não póde ser.

Á damazinha, / Ao janotinha, / Satyrazinha / Vai offender; / E as costazinhas / Expostazinhas / Ás coçazinhas, / Não póde ser.

Á Patriazinha, / Desditozinha, / Lamuriazinha, / Fará correr / Nas facezinhas, / Portugueszinhas, / Lagrimazinhas; / Não póde ser.

Vontadezinha / Tem, firmezinha, / A lyrazinha / D’obedecer; / Mas … tristezinha! / E’ pobrezinha… / Pacienciazinha… / Não póde ser. [*]

Portozinho

14-10-1852

Fausztinozinho Xavierzinho de Novaezinhos

[*] Conservei a ortografia da primeira edição do poema publicada em O BARDO, do qual deixo a imagem em fac-simile.

Camilo Castelo-Branco, amigo próximo de Faustino Xavier de Novaes,  com quem colaborou n’O BARDO, recorda no Cancioneiro Alegre aspectos dessa amizade e remata a evocação com o seguinte: Pouco depois morreu intelectualmente. Sem frenesis nem grandes paroxismos da robusta razão que vasquejava, passou a um sereno e risonho idiotismo. Depois acabaram de o enterrar as mãos piedosas do conde de S. Mamede, e fez-se um grande silêncio sobre o nada deste meu honrado e desditoso amigo.

Ao poeta voltarei. Por agora apenas a noticia bibliográfica do que referi.

Noticia Bibliográfica:

O BARDO JORNAL DE POESIAS INEDITAS foi publicado em 2 partes.  Possui a 1ª Parte 24 números e a 2ªParte 12 números, tendo cada número 16 páginas. Os primeiros 12 números da 1ªParte foram objecto de 2ªedição em 1857. Teófilo Braga, na introdução à  reedição das Poesias de Soares de Passos refere circunstanciadamente as vicissitudes desta publicação. A ela me referirei em detalhe se a curiosidade dos leitores o justificar.

Artigo ALBUNS do Dicionário do Romantismo Literário Português publicado pela Caminho em 1997 e com coordenação de Helena Carvalhão Buescu. Remeto para a nota anterior a correcção à bibliografia contida neste artigo, no que à edição de O BARDO respeita.

João Penha – Por Montes e Vales (Rachel, pag.23-29), 1899

Citações de Camilo Castelo-Branco:

Frase de abertura de um Folhetim publicado no jornal Aurora do Lima em 30 de Setembro de 1856 com o pseudónimo de João Junior. O texto foi recolhido por Julio Dias da Costa no Vol. II dos Dispersos de Camilo (Crónicas) e identificada a atribuição de autoria pelo compilador. A edição foi da Imprensa da Universidade de Coimbra em 1925.

Noticia de Faustino Xavier de Novaes na pag.227 do 2º Volume da 2ª edição de Cancioneiro Alegre publicada e 1887, a qual inclui o opúsculo Os Críticos do Cancioneiro.

Com Camilo em viagem

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Em viagem, um qualquer volume da obra de Camilo em papel bíblia é companhia preciosa.

No pouco peso de um livro temos mil páginas do melhor de Portugal. Saboreamos a língua, contactamos os costumes, encontramos conhecidos e contrastamos o nosso apego à imobilidade com a visão do mundo que passa.

Desta feita carreguei-me com os volumes X e XI. Poupo a descrição do conteúdo dos volumes e salto para o que aqui me traz, o Cancioneiro Alegre, irrepetível colecção de poesias entre o despautério e a mais cintilante graça.

Nesta quadra de fartas comesainas, quando o prazer da mesa encontra as tradições pantagruélicas, um poema na tradição herói-cómica e de especial assunto, incluido no Cancioneirio e atribuido a um Anónimo, deu-me a medida da continuidade que nos garante o lugar no mundo.

Longe que estou dos instrumentos do saber, não consegui averiguar se, tal como suspeito, o poema é da autoria do próprio Camilo.

Compõe-se o poema de quinze décimas distribuídas por três partes. Tem uma introdução em quatro sextilhas e termina de novo numa sextilha. A extensão do poema, UM JANTAR DE BARÕES,  levou-me numa primeira fase, e para evitar indigestão, a pensar ater-me apenas à sua transcrição parcial. À medida que avançava na transcrição, pareceu-me inaceitável qualquer corte, tal a preciosa concatenação de episódios de que o poema dá conta.

Após uma invocação às musas pedindo inspiração para tão árduo cometimento: Musa da sopa e do cozido, inspira-me! /… / Transforma o estro meu em lombo assado; / Da minha inspiração faz um pudim., na primeira parte do poema temos a descrição do Barão: D’Alcatruzes é chamado, / Porque, sendo ainda moço, / Muitos baldes d’água fresca / Dizem que tirou dum poço. E mais adiante: É barão; não vale a pena / Discutir-lhe os nobres feitos; / É barão dos Alcatruzes, / Já tem pagos os direitos.

A segunda parte apresenta-nos os comensais em acto após anunciar o banquete: Da terrina a caudal sopa / Em silêncio é devorada. / Só então fingiram d’homens, / Porque não disseram nada. / Mas venceu a natureza!, e é ouvi-los pela voz do poeta.

Chega a terceira parte, e com ela o pós-pasto, com brindes e discursos como o inenarrável chorrilho saido da boca do barão de Pimpinelas, e onde o barão literato faz o pleno do despautério com “Repercutem, simbolizam / Acrimónias insolúveis, / Nos acrósticos volúveis / D’epopeias que eternizam /” e por aí fora. Refere-nos o poeta como Sucedeu o grito ao pasmo! / Nunca se viu coisa assim!.

O epílogo relata de forma sucinta o rescaldo de tão lauto festim: E a pândega findou. Mas alta noite, / Disseram-nos fiéis informações / Que grande movimento houve de tripas,…

Para além do retrato da boçalidade dos convivas, titulares de nobreza paga a contado, para quem a ignorância da língua é um estatuto, e que Camilo amplamente fustigou nos seus romances, temos no poema vasta matéria de sátira social para comportamentos bem perto de nós.

Para garantir que as continuidades existem, mesmo sem barões dos Alcatruzes ou Asnos de Puxar Nora, refiro o que já aboquei neste remanso de férias.

Longe do cosmopolitismo culinário da capital e ainda que a televisão tente fazer alguma mossa na tradição, já apareceu na mesa, e destaco: cordeiro de leite vindo expressamente de Trás-os-Montes (só não sei se deixou alguma pastora chorosa) assado com castanhas, de lamber beiços e dedos (pois segurar os ossos é de lei). Houve também cataplana de mariscos, de comer até rebentar, feijoada de lingueirão a pedir para não ficar na panela, uns cascabulhos (ostras) abertas ao calor e camarão da costa. O peixe para grelhar faltou pois o mar não tem estado de feição, mas prometem-me para amanhã caldeirada de eirozes.

Dos mimos não sei se fale. Broas de cobiçada receita que leva três dias a cozinhar, e os fritos! filhós com mel: de flor, simples, e dobradas; empanadilhas com recheio de batata doce e amendoa; fatias douradas (rabanadas), sonhos de desfazer na boca, bolinhóis tenros como manteiga. Já agora conto dos doces, bolos sobretudo, e de amendoa evidentemente (a torta, o morgado, o toucinho do céu, os engana-visitas, os olhos de sogra, etc) mas também o folhado de Tavira, o pastel de Londres e o casado, para matar saudades. E isto para não falar do aportuguesado bolo inglês, perdição de quem está à mesa.

Páro aqui. Chamam-me para umas ameijoas à Bulhão Pato e por isso vos deixo com UM JANTAR DE BARÕES.

Bom ano 2011


UM JANTAR DE BARÕES


Invocação

Musa da sopa e do cozido, inspira-me!

Pândega musa, que sorris ao vate

Em molho de açafrão, e de tomate,

Um cego adorador… achaste em mim:

Transforma o estro meu em lombo assado;

Da minha inspiração faz um pudim.


Tu, filha dos barões, musa do unto,

Nasceste na cozinha entre caçoilas;

Saudaram-te no berço alhos, cebolas,

Do cominho tiveste uma ovação;

Depois, trajando galas de toucinho,

Eu vi-te nas bochechas de um barão.


Namorado de ti, fiz-te meiguices

Por detraz de um peru, e tu de lá

Sorriste-me através da nédia pá

De vitela gentil, rica de arroz!

Ai! era!… e nem eu sei se foi mais linda

Aquela gorda pata… que te pôs!


Tu fizeste de mim um novo Cláudio,

Inspiraste-me a fé num rodovalho.

Traguei indigestões, arrotos d’alho,

Bernardas na barriga suportei.

Tomei chá de macela… e, em prémio disto,

O teu auxilio, ó musa, não terei?!


I

Dentro e fora iluminado

O palácio dum barão,

Fulgurante representa

Um enorme lampião.

Jorram límpidas vidraças

Sobre as populosas praças

Ondas trémulas de luzes.

Vai lá dentro grande gozo,

Nesse alcáçar radioso

Do barão dos Alcatruzes.


D’Alcatruzes é chamado,

Porque, sendo ainda moço,

Muitos baldes d’água fresca

Dizem que tirou dum poço.

Nenhum outro mais destreza

Revelou na árdua empresa

De puxar acima um balde.

Um que seja tão robusto

Há-de vir mui tarde e a custo

Do concelho de Ramalde.


É barão; não vale a pena

Discutir-lhe os nobres feitos;

É barão dos Alcatruzes,

Já tem pagos os direitos.

Inda é mais; pois, além disto,

É comendador de Cristo

Com bastante indiscrição.

Mal diria Cristo, outrora,

Que seria posto agora

No peito dum vendilhão!


E mais ele, que os tocava

Com terrivel azorrague!

Mas os Judas vendem Cristo,

Ponto é haver quem pague.

E o barão dos Alcatruzes

Neste século das luzes

Também fez de fariseu.

E, também, se necessário,

Representa de Calvário

Onde a cruz se suspendeu.


II

Num salão vasto, opulento

Um banquete se vai dar;

Nos cristais reflecte o ouro

A fulgir, a cintilar.

Os rubis e a cor da opala

Transfiguram esta sala

Em olímpicas mansões.

Mas a alma cai por terra

Quando vê que ali se encerra

Dúzia e meis de barões.


Da terrina a caudal sopa

Em silêncio é devorada.

Só então fingiram d’homens,

Porque não disseram nada.

Mas venceu a natureza!

Um barão por sobre a mesa

Estendendo o prato diz:

“Ó compadre!isto é qu’ébô!

Venha sopa, e acabô!

Cá de mim torno à matriz!”


O barão de Cogumelos,

Junto estando à baronesa

Que se diz dos Sacatrapos,

Quis fazer-lhe uma fineza.

Arrastou pra junto dela

Um peru, e a cabidela

No prato lhe despejou.

E lhe diz: “Cá isto é nosso;

Coisa que não tenha osso

É pró estâmago, e arrimou!”


Outro diz à gorda esposa

Que bem perto de si tem:

“Bai-le bobendo po’riba,

Ó mulher, come-le bem!”

Este pede ao seu vizinho

“Que lh’atice bem no binho

Qu’é da bela Companhia.”

Diz aquele ao seu fronteiro

“Que lhe chegue um frango inteiro,

E biba a santa alegria!”


III

As saúdes já começam;

É um gosto agora vê-los:

Estas caras representam

Tomates de cotovelos

E, através do escarlate

Do legítimo tomate,

Transuda um óleo que brilha.

Cada qual tem as orelhas

Encarniçadas vermelhas

Como as asas de uma bilha.


Pega no copo e exclama

O barão de Pimpinelas:

“Vito sério! um home fala

Sem preâmbulos nem aquelas!

À saúde e alegria

Desta bela companhia

E com toda a estifação!

Pra que todos cá binhamos

Estifeitos como bamos

De casa do sor barão!”


E os hurras retumbaram

Pela sala do festim!

Baltasar nos seus banquetes

Nunca ouviu gritar assim!

Sobre a mesa deram murros,

Saudaram com grandes urros

O barão dos Alcatruzes;

Mas alguns com mágua sua,

Já cuidavam ver a Lua,

Não podendo ver as luzes.


Mas, entre eles, um existe,

Literato em seu conceito,

A palavra pede, e reina

Um silêncio de respeito.

Ele diz: “Risonhas galas

Que refrangem nestas salas

Repercutem, simbolizam

Acrimónias insolúveis,

Nos acrósticos volúveis

D’epopeias que eternizam.


Pandemónios exauríveis

De indeléveis congruências,

Requintados se escurecem

Nos empórios das ciências

E libérrimos se escudam

Nas facanhas que transsudam

Em fantasiosas luzes.

E, portanto, a mais aludo,

Quando, férvido, saúdo

O barão dos Alcatruzes!”


Sucedeu o grito ao pasmo!

Nunca se viu coisa assim!

O orador foi abraçado

Com furor, com frenesim!

“Isto é qu’é!” dizia um,

Convertido em rubro atum,

Beterraba até não mais.

“Viva Cic’ro!” outro dizia,

Despejando a malvazia

Com grasnidos infernais.


IV

E a pândega findou. Mas alta noite,

Disseram-nos fiéis informações

Que grande movimento houve de tripas,

E grande salto deram as torneiras

Das pipas convertidas em barões

Ou, antes, dos barões tornados pipas.

Aditamento

Pouco depois de ter escrito este artigo, constatei que o poema Um Jantar de Barões era efectivamente de Camilo Castelo Branco como no corpo do texto suspeitei, e foi previamente publicado em FOLHAS CAÍDAS APANHADAS NA LAMA.

Entretanto, o tempo passou e não mais recordei actualizar a informação no post, o que agora faço.

Este FOLHAS CAÍDAS APANHADAS NA LAMA foi por sua vez referido no blog a propósito do folheto A Vespa do Parnaso, num artigo/paródia a pretexto da Nova poesia Portuguesa em … 1854.

 

Não se pode acreditar em coisas impossíveis

Aos leitores que guardaram da infância o gosto de se deixar levar pela fantasia, aqui deixo um conto uma vez escrito para contar ao ouvido de alguém que me é especialmente querido.

Feliz Natal

 

Leonardo da Vinci foi um génio polivalente. Além de pintor e cientista também escreveu fábulas. E uma das fábulas que escreveu é mais ou menos assim:

Numa sala confortável com uma bela lareira acesa, havia uma mesa, talvez uma secretária. Sobre a mesa estavam varias folhas de papel.

A certa altura chegou a tinta e derramou-se sobre uma das folhas de forma especial.

A folha indignada refilou com a tinta

– Sujaste-me toda, não vês?

Responde-lhe a tinta:

– Não te sujei, não. Não sejas vaidosa. Isso que aí tens são palavras, não são nódoas.

Pouco depois chegou um homem, juntou as folhas espalhadas sobre a mesa e quando ia deitá-las no fogo da lareira viu a folha com a tinta, pegou nela, leu as palavras e guardou a folha cuidadosamente numa gaveta.

Às outras folhas sem tinta deitou-as no fogo, e assim, a única que se salvou foi a folha que refilou por pensar que estava suja.

Mas a folha era apenas vaidosa, não sabia ler, por isso não sabia o que as palavras queriam dizer.

Por artes difíceis de explicar chegou-me às mãos a folha tão cuidadosamente guardada há muitos séculos.  Com o tempo a tinta foi desaparecendo e agora mal se lê, mas recorrendo a modernas técnicas de decifração e muito esforço consegui saber o que na folha está escrito e vou contar a quem me lê, a história que lá se encontra.

 

No tempo de  muito, muito antigamente (não reparem na linguagem pois este texto tem muitos anos) as pessoas acreditavam haver não só um Deus, mas muitos deuses.

Acreditavam que esses deuses tinham paixões, desgostos, filhos, casamentos tal como os homens e mulheres da terra. E  acreditavam ainda que os deuses também comiam, embora a forma como comiam fosse um segredo dos deuses.

Quando precisavam de ajuda, e conforme o assunto de que se tratava, as pessoas pediam favores a um ou outro deus de acordo com a sua especialidade. A lista dos deuses e das suas especialidades é quase interminável e cobre tudo o que podemos desejar ou precisar.

Em retribuição de favores ou para acalmar os deuses que pudessem ficar descontentes com o que as pessoas faziam, estas ofereciam-lhes comidas, as melhores que possuíam, e assim, bem comidos, tal como toda a gente, os deuses deviam ficar com boa disposição e mais disponíveis para aceder aos pedidos que lhes tinham feito ou iriam fazer.

Estas comidas eram deixadas nos altares onde se supunha, os deuses as iam buscar e depois comer, sem que ninguém soubesse exactamente como.

Em certa altura do ano, quando as ovelhas ainda tinham pouca idade e se chamavam cordeiros, ou seja quando são mais tenras, essas pessoas acreditavam ser a oferta de um cordeiro a mais apreciada pelos deuses, e assim escolhiam de entre as ovelhas mais novas dos seus rebanhos a mais gordinha porque seria a mais saborosa, e era essa a oferecida no altar aos deuses.

Havia uma menina, já não tão pequenina assim, pois já estava na idade de casar, que guardava ovelhas. Todos os anos gostava de as ver nascer e crescer, Gostava sobretudo de as ver mamar na teta da mãe, aprender a andar quando no principio mal se aguentavam nas pernas, assistir ás marradinhas de brincadeira que davam umas nas outras. Era com pena que as via partir quando tinham o tamanho adequado para serem comidas.

Naquele ano apareceu entre as ovelhas um cordeiro ligeiramente diferente dos outros. Quando olhava para ela até parecia sorrir. Gostava de vir roçar-se nas pernas dela, tal qual um gato mimado, e para onde ela ia, lá ia ele atrás.

À medida que crescia ia ficando mais bonito e gordinho e a menina a certa altura já nem conseguia separar-se dele, resolveu até dar-lhe um nome e passou a chamá-lo de César.

Se porventura deixava de o ver por algum tempo ia logo ansiosa procurá-lo e ver o que tinha acontecido.

Aproximava-se a época da oferta de um cordeiro aos deuses e o dono do rebanho veio um dia escolher o cordeiro que ofereceria em sacrifício.

Andou para trás e para diante, mexeu num, mexeu noutro e acabou por escolher o  César, o cordeiro que a menina preferia a todos os outros.

Quando a menina soube qual fora o escolhido para sacrificar, sentiu um desgosto tão grande, tão grande, que começou a chorar e não conseguia parar. Era um desgosto tão profundo e inexplicável como nunca tinha sentido por nada nem por ninguém.

Um dia enquanto guardava as ovelhas e sentada chorava, foi distraída pelo som de um canto triste que se ia aproximando. Olhou em redor para tentar ver de onde vinha a voz, e finalmente viu surgir um rapaz com uma lira tocando e cantando.

Era Orfeu. Andava a vaguear pela terra sem saber para onde ir, cantando o desgosto que sentia por ter perdido a sua amada Euridice. Cantava ele:

Que farei sem Euridice/

Onde irei sem Euridice/

Que farei sem o meu bem/

Onde irei,

Que farei,

e sem destino caminhava apenas movido pela sua dor.

Chegou até bem perto da menina sem dar por isso e quando levantou a cabeça viu-a na sua frente a chorar. Perguntou-lhe porque chorava  e ela contou-lhe o que ia acontecer ao cordeiro de quem gostava acima de tudo. Disse-lhe então Orfeu:

– Olha para mim. Perdi a minha Euridice e não sei mais o que fazer nesta terra. Se gostas do cordeiro, acima de tudo não deixes que o matem, não te separes dele, foge com ele para longe.

Passaram os dias, e sem saber bem o que fazer a menina continuava a chorar até que um dia vê ao longe aproximarem-se os homens que vinham buscar o cordeiro para o sacrifício. Sem pensar em mais nada pegou nele debaixo do braço e largou a correr.

Correu, correu o mais que pôde, sem direcção certa nem saber para onde. Cansada, a arfar, avistou ao longe a floresta. Ganhou forças e correu para lá. Aí, entre as árvores, talvez fosse mais fácil esconder-se.

Ao longe começou a ouvir a voz dos homens que não tendo encontrado o cordeiro, nem a tendo visto a ela junto ao rebanho, os procuravam. Nem pensou em descansar e continuou a correr quanto as forças que ainda tinha o permitiam. As folhas roçavam-na, os troncos rasgavam-lhe a roupa, alguns fizeram mesmo arranhões, e ela sem descanso continuava a correr como podia.

O cordeiro mantinha-se quieto e aconchegado a ela, até parecia que se queria tornar mais leve para ela o transportar melhor.

Já quase morta de cansaço e sem encontrar abrigo onde se esconder, começava a desesperar, quando chegaram a uma clareira.

Na clareira havia uma casa que parecia fechada. Aproximou-se com receio de algum cão, mas não havia vivalma. Bateu na porta, ninguém respondeu. Pelas vozes dos homens que se já ouviam, deviam estar cada vez mais perto, por isso empurrou um pouco a porta e esta abriu-se. Hesitou só por um momento, mas parecendo-lhe os homens já muito perto entrou e fechou a porta.

Sem largar o cordeiro respirou fundo e finalmente olhou em redor para ver onde estava. Não era uma casa de pessoas, era um armazém grande. Havia pincéis e tintas sobre uma mesa, panos sujos, papéis, lápis, alguns quadros pintados e também telas em branco. Mas não estava ninguém. Era certamente o estúdio de um pintor mas o pintor não se encontrava ali.

Primeiro ficou parada no meio da casa com o cordeiro debaixo do braço, em silencio, mas quando ouviu já bem perto as vozes dos homens que a procuravam, não sabendo onde se esconder, encostou-se a uma parede e cheia de medo começou a chorar.

Ouviu então uma voz que lhe dizia:

–  Os homens vão vir e vão encontrar-vos. Não há lugar para te esconderes, não vês?  Deixa que apanhem o cordeiro, é só um animal.

Não, não! Antes morta!

– A única possibilidade será ficares tu e o cordeiro dentro de uma tela como se fossem uma pintura, respondeu então a voz. Mas nunca mais se vão libertar, ficam lá para sempre os dois. Estás disposta a renunciar à vida para não sacrificar o cordeiro de que tanto gostas?

– Estou sim. Mais que tudo na vida quero ficar com ele.

Mas será para todo o sempre, respondeu a voz.

– Não me importo, com ele sei que serei feliz – disse a menina.

Então vai para o fundo do estúdio onde está mais escuro e encosta-te bem a uma tela. Quando  os homens empurrarem a porta para entrar vão transformar-se, tu e o cordeiro, numa pintura.

– Mas eles vão reconhecer–me a mim e  ao cordeiro mesmo na pintura.

Não, não vão. O cordeiro será disfarçado de arminho que é um animal muito parecido e tu ficarás com o corpo só até à cintura e vestida como uma grande dama, ninguém vos reconhecerá.

A menina correu para o fundo, encostou-se quietinha a uma tela mesmo a tempo, pois nesse instante os homens começaram a empurrar a porta. Como a voz tinha prometido, de um momento para o outro, a menina e o cordeiro viram-se dentro da tela a que estavam encostados.

Os homens entraram,  procuraram, procuraram, sem nada encontrar até que desistiram e foram-se embora, ficando a menina e o cordeiro dentro da tela.

Passou muito tempo. O pintor vinha de vez enquanto pintar mas ele trabalhava em vários quadros ao mesmo tempo e cada quadro demora imenso a pintar, pelo que a menina e o cordeiro lá continuavam dentro da tela sem ninguém dar por isso. Até que um dia, o pintor quando procurava uma tela com um tamanho especial, pegou na tela onde estavam a menina e o cordeiro e escolheu-a para a pintar. Como estava numa zona escura do estúdio não os viu. Foi só quando trouxe a tela para a claridade que o pintor viu qualquer coisa na tela. Intrigado, montou-a no cavalete e olhando para a tela interrogou-se em voz alta:

–   Mas eu não pintei esta tela, como é que esta pintura aqui veio parar?

Vou ter que a pintar de branco por cima para depois lá pintar o que queria.

A menina ao ouvir isto pensou que morreriam debaixo da tinta branca, ela e o cordeiro sem respirar, e disse muito aflita:

–   Sr. Pintor não nos pinte, somos de carne e osso e estamos aqui escondidos há muito tempo.

–   Isso á lá possível, disse o pintor em voz alta. Parece-me que estou a ficar maluco.

–   Não, é verdade. Foi uma voz que nos mandou esconder aqui para eu poder salvar o cordeiro de ser oferecido aos deuses.

Para grande surpresa da menina e do pintor, o cordeiro que estava disfarçado de arminho disse em voz alta:

–  A voz que ouviste foi a minha. Sou um príncipe encantado e só poderia perder o encanto quando alguém gostasse de mim tanto, tanto, que preferisse morrer a separar-se de mim. E tu gostas de mim assim. Nem hesitaste em viver para sempre num quadro só para não me deixar morrer. Agora, se o Sr. Pintor nos fizer o favor de passar um pincel com óleo de linhaça na tela nós vamos poder sair.

O pintor ainda sem acreditar muito no que estava a acontecer foi buscar o óleo de linhaça e com um pincel pincelou a tela.

Quando o pintor acabou de passar o óleo, saíram da tela a menina, agora vestida de camponesa, e o cordeiro que deixou de ser arminho e mal pôs o pé no chão  se transformou num príncipe formoso. Virou-se então para a menina, ajoelhou-se diante dela e perguntou-lhe:

–   Queres casar comigo e vivermos juntos no meu palácio?

A menina ainda não conseguia dizer palavra, e de tão emocionada  com tudo o que acontecera apenas abanava a cabeça para cima e para baixo a querer dizer que sim.

O príncipe pegou então numa caixa de madeira onde tinham vindo as telas embaladas e que estava ali pelo chão, levando-a para a rua. Bateu-lhe três vezes com os nós dos dedos da mão direita e voltou para dentro.

Despediram-se  ambos do pintor e este veio com eles até à porta. Ao abri-la ouviu-se ao mesmo tempo um ahhhhhhh! de espanto tanto da menina como do pintor. Na rua, à porta do estúdio, a caixa de madeira tinha-se transformado numa carruagem dourada com dois cavalos para onde o príncipe fez subir a princesa e juntos partiram fazendo adeus ao pintor.

Depois de passado um bom bocado e já a carruagem tinha desaparecido no horizonte voltou o pintor para dentro e sentou-se com as mão na cabeça sem saber se devia acreditar no que tinha acontecido.

Para não se esquecer do que vira, ou imaginara, lançou-se ao trabalho sem parar, pintando o que estava na tela quando a foi buscar ao fundo do armazém.

Já sei que estás a pensar como a Alice quando estava do outro lado do espelho e disse para a rainha:

– Não se pode acreditar em coisas impossíveis.

E respondeu-lhe a rainha:

– Suponho que tens falta de treino.

 

Os especialistas pensam que o quadro foi pintado por Leonardo Da Vinci e talvez por isso, digo eu, ele escreveu a fábula sobre a folha de papel.

A pintura passou por muitas mãos e está agora no museu Czartoryski em Cracóvia, na Polónia, onde é conhecido como “A dama do arminho”.

É agora altura de mostrar o quadro que o pintor pintou.

Apêndice

Os estudiosos acreditam que na tela está pintada uma senhora de seu nome Cecilia Gallerani.

Ao primeiro olhar vemos uma dama com um arminho ao colo surpreendida por algo vindo do lado da luz que a ilumina e a faz esboçar um sorriso.

O movimento que ela faz de girar a cabeça é acompanhado pelo arminho que também olha, precisando a dama de o segurar com a mão para ele não saltar.

Este gesto de segurar o arminho é simultaneamente uma caricia. Por outro lado, a tensão visível no pescoço do arminho mostra como ele está em posição de defender a sua dama enquanto permanece junto ao seu coração.

O quadro foi encomendado a Leonardo da Vinci pelo duque de Milão, Ludovico o Mouro e a dama era sua amante. Uma vez que o duque usava como símbolo o arminho, os gestos da dama são também dirigidos simbolicamente ao duque, mostrando os sentimentos que ela tinha por ele.

Mas o que faz a gloria desta pintura não é a sua história mas a proeza inédita da sua técnica. Até ter sido pintado em 1488-1490 nunca ninguém pintara uma pessoa nesta posição, com o corpo a três quartos virando a cabeça a 90º para olhar a luz que vem das costas e assim ficar com o rosto completamente iluminado quase de frente para nós.

Independentemente da rigidez a que esta posição obriga  a modelo mantém uma elegância despreocupada comum aos retratos de Leonardo nomeadamente Mona Lisa.

Natal sem poesia

Conheci-o há talvez quatro, cinco anos. Ao subir a avenida voltei a vê-lo. Anoitecera há muito e as pessoas rareavam. Fechado o comércio, preparava os cartões para a noite gelada que se aproximava.

Sobretudo no Outono, mas também na Primavera, quando o entardecer derrama sobre a cidade uma luz de poesia, saio para fotografar. Deambulo, disparo a maquina fotográfica, e algumas vezes cruzo-me com realidades comoventes.

Certo dia neste deambular, aproximei-me de um jardim da cidade abandonado aos pombos e aos homens sós à espera do fim. De longe avistei o que me pareceu um sem-abrigo sentado, a ler o jornal enquanto o sol o dourava numa aura de irrealidade. Aproximei-me, perguntei-lhe se o podia fotografar. Sem levantar os olhos do jornal, encolheu os ombros num gesto de tanto faz.


Fotografei-o primeiro de longe, e porque qualquer coisa o motivou, pousou o jornal no banco e colocou-se em pose para a fotografia.

Fiz alguns disparos e quis dar-lhe dinheiro. Estendi-lhe uma nota de 10€ que recusou com veemência. Ligeiramente desconcertado perguntei-lhe porque não aceitava o dinheiro.

– É muito, respondeu. Tentei então entregar-lhe uma nota de 5€ e de novo a recusa.

– Mas porquê, homem, porque não quer o dinheiro? perguntei-lhe.

– Notas não. Moedas, 1 euro, senão roubam-me.

Deixei-lhe as moedas que tinha com a promessa de voltar com uma fotografia para lhe dar.

Olhou-me como quem diz: estás a fazer conversa para tolos, e virou-me as costas.

De entre as fotografias que lhe tirei, fiz uma ampliação 10×15 e poucos dias depois procurei-o no jardim. Não estava. De cada vez que voltei a sair levei comigo a foto, e passado algum tempo finalmente encontrei-o no mesmo lugar.

Aproximei-me.

-Lembra-se de mim? Manteve um ar indiferente, e continuei.

– Fiz-lhe há dias umas fotografias e trago-lhe hoje uma. Quer vê-la? E estendi-lha.

 

Pegou-lhe e subitamente os olhos encheram-se de lágrimas.

– Então homem, que é isso? Chora porquê? Perguntei no meu desconcerto.

Chegou-se um pouco para o lado no banco e fez sinal para me sentar ao seu lado.

– Obrigado, disse-me. Foi a coisa melhor que alguma vez me aconteceu.

Olhou a fotografia de novo e guardou-a no interior do casaco junto ao coração.

Comovido e desconcertado, fiquei um bocado à conversa.

A história que me contou não será muito diferente de outras que enchem a cidade.

Primeiro desemprego. Era empregado de mesa. O café fechou para dar lugar a um banco. Já bebia. Vendo-se sem emprego passou a beber mais. Seguiram-se as dificuldades de voltar a encontrar trabalho. A mulher pô-lo fora de casa. Ficou na rua sem ter para onde ir, e na rua foi ficando.

– E tem família em Lisboa? perguntei.

– Lá para Alcantara, mas não os vejo.

Surgiram-me os inevitáveis conselhos de quem no conforto do seu quotidiano não tem a menor ideia do que sente quem foi empurrado para a rua e aí se deixou ficar.

Despedi-me. Quis deixar-lhe algum dinheiro mas recusou com veemência.

Nos anos que entretanto passaram, vejo-o a espaços. Se pressente que me aproximo, afasta-se.

Certo dia consegui aproximar-me e perguntei-lhe:

– Lembra-se de mim? Abanou a cabeça num gesto de confirmação.

– E a fotografia, ainda a tem? Sorriu, levou a mão ao peito e bateu várias vezes abanando a cabeça.

Deixei-o com algumas moedas.

Ontem, quando o voltei a ver, lembrei-me que certa vez coloquei a fotografia que lhe fiz numa galeria on-line, e alguém que a viu comentou:

Parece o Pai Natal!

quem não recorda / não vive – Tavira e 3 poemas de Yvette K. Centeno

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A  MEMÓRIA  É  UM  NOVELO

Novelo

 

de pequenas

artérias

rebentadas

 

por ali

escorre

a memória

 

a pulsação

que dói

 

quem não recorda

não vive

 

não desenrola

o fio

que redime

 

Regresso ao café da minha infância.

O local é o mesmo, são outros os clientes. Por momentos pensei reencontrar o velho empregado, presença tutelar daquele lugar. Avental branco à cintura, braço levantado onde ao alto equilibrava a bandeja metálica, e súbito, a expectativa de uma semana a materializar-se. Pousava na mesa um enorme prato com bolos e um copo de leite morno. Eram o lanche sonhado dos domingos de chuva. A atmosfera densa do café no azulado do fumo de tabaco e vapor davam um sentido especial ao inverno.

Na pequenez dos meus seis anos, o café tinha a dimensão de uma catedral. Tecto alto, paredes imensas, povoado dos gigantes que eram os adultos e onde, por umas horas, tínhamos permissão de permanecer. Com alguma desilusão constato como essa catedral da minha memória é afinal um pequeno café onde escassas vinte pessoas se acotovelam. A decoração mudou.  Da madeira castanho escuro do balcão, mesas e cadeiras,  dos assentos em pele verde e da luz difusa, passou agora a uma atmosfera luminosa, madeiras claras e cadeiras de palhinha num ambiente de conforto descontraído, agradável ao adulto que agora sou.

Sentado na esplanada olho as palmeiras no jardim em frente, e lembrando como tinham quase 100 anos quando nasci vejo-as acrescentadas dos cinquenta anos que já vivi.

Voltei ao café da minha infância. As lembranças, os sonhos aqui vividos, a aprendizagem feita entre estas paredes, tudo isso guardo no canto especial das recordações queridas.

Lá fora anoitece e o céu veste-se de um profundo azul ultramarino. Os candeeiros da rua, agora acesos, salpicam o crepúsculo de pequenas luzes douradas numa feérica paisagem de sonho. Chuvisca e a calçada subitamente molhada brilha no fulgor da pedra polida pelos anos. Entre os vultos que passam na pressa do fim do dia, tento descortinar os rostos dos meninos que conheci. Em vão.

Carlos Mendonça Lopes

Ivette K. Centeno recorda no poema TAVIRA  I este mesmo jardim frente ao café da minha infância, o lago em volta do coreto onde tantos dias e noites de verão brinquei:

TAVIRA  I

Não brincam no jardim

as infâncias perdidas

 

O lago já secou

nas grades do coreto

enforcaram-se os músicos

 

E a palmeira

sem tâmaras

marca só o lugar

do tempo que passou.

Deixo-o, leitor, com esta bela interrogação sobre  A vida / Diria melhor o tempo?

DEFINIÇÕES

A vida

 

Diria melhor o tempo?

Mas não

não era o tempo

era a vida

um somatório de tempos

e de espaços

 

a vida estava agora

de tal modo concentrada

que pouco lhe sobrava

ou mesmo nada

Noticia Bibliográfica: Os poemas foram retirados do livro Entre Silêncios, publicado em 1997 por Pedra Formosa, Edições.

APENAS O SUBLIME NOS JUSTIFICA – Crónica com prosa sotádica no final.

 

Ouvia ao fim da tarde em agradável concerto as  VESPRO DELLA BEATA VERGINE de Monteverdi, numa interpretação despida de qualquer religiosidade, quando a memória saltou para Veneza e para os Ticiano da Igreja de Santa Maria dei Frari.

A Assunção no brilho daquela espécie de fogo interior e a sensualidade da jovem personificando a Virgem, dominam a Basílica. À esquerda, o Retábulo Pesaro oferece-se no esplendor de azuis e vermelhos e na carnalidade profana dos seus figurantes.

E de Ticiano em Ticiano, com a memória em passeio, cheguei a Nápoles.

Era um dia de calor tórrido no verão de Nápoles.

O desejo de tudo ver levou-me a subir ao Capodimonte em plena hora do almoço.

Chegado lá a pé e mais morto que vivo apesar dos 20 anos, fiz a visita do museu. Percorro as salas, e numa volta do olhar surgem aqueles três personagens que me olham com a vivacidade da presença das suas pessoas. Falo do retrato de Paulo III pintado por Ticiano rodeado dos seus dois netos. O magnetismo do olhar do velho é avassalador. O dinamismo na composição jogando com a posição relativa dos retratados dão uma vida perene ao quadro. Mas é o domínio do vermelho que irresistivelmente me atrai.

O retrato foi pintado para emular a pintura que Rafael fez do Papa Leão X e o resultado não podia ser mais díspar. Com a mesma paleta cromática, à majestade e serenidade de Rafael, contrapõe Ticiano a ganância, a subserviência e o desejo de poder que o jogo de olhares e as atitudes transmitem. Não admira, pelo resultado, que o quadro de Ticiano tenha permanecido longo tempo guardado na Vila Farnesina.

Possui este edifício um conjunto notável de frescos dos quais apenas um pertence a Rafael, não obstante a decoração do interior do palácio lhe ter sido encomendada. Terá desenhado alguns dos restantes frescos que outros acabaram, pois parece, andava excessivamente entretido com a sua musa inspiradora, passada à história como La Fornarina, e desistiu de os pintar. Isto porque o cliente não disponibilizou as condições para a sua amada viver com ele enquanto trabalhava.

É no retrato de La Fornarina que finalmente transborda todo o erotismo latente nas langorosas madonas de Rafael.

Gente seguramente incapaz para o amor acusa-a da responsabilidade da morte precoce de Rafael aos 37 anos referindo-a como “a mulher que conduz o homem pela febre dos sentidos, em que ele se esquece de si, perde-se, perde a capacidade de criar”. Se haverá no mundo melhor coisa que ser conduzido pela febre dos sentidos?

Picasso na sua vastíssima obra erótica aproveitou para recriar o espectáculo deste amor. Trata-se de uma série de gravuras a ponta de aço feitas em 1968, denominada “Rafael e a Fornarina. O esplendor do desejo numa representação explícita do acto sexual aparece ali numa ofuscante beleza plástica. É difícil perante estas gravuras traçar a fronteira entre o belo e o obsceno.

Como estamos longe do suave erotismo das gravuras que ele fez para a chamada Suite Vollard  nos anos 30. Decididamente a idade torna os homens desbragados.

Mas voltando ao quadro de Paulo III,  equivalente a este no revelar de personalidades, só conheço, de Ticiano, o retrato de Pietro Aretino no Palazzo Pitti, em Florença.

Personalidade notável do século XVI italiano, de Aretino guarda hoje a humanidade memória da poesia erótica que escreveu. Como poucos, encontrou no relato poético dos actos sexuais humanos a forma superior da poesia que permite guadar na lembrança, para lá do escandalo em mentes resguardadas no pudor, o que à humanidade sempre mais importou.

 

Em português dispomos da tradução notável de 26 sonetos luxuriosos por José Paulo Paes (1926 – 1998) poeta e tradutor brasileiro. A edição portuguesa desta tradução (2006), graficamente desmerecedora da poesia que contém, encontra-se ainda à venda, talvez.

 

Transcrevo para dar a medida a quem os não conheça, o soneto que nesta edição possui o nº6

 

Miri ciascun di voi ch’amando suole     / Atenta bem,ó tu que amando estás

Esser turbato da sì dolce impresa,    / E a quem turva tão doce empreendimento,

Costui ch’a simil termine non cesa      / Neste que leva a cabo tal intento

Portarla via fottendo ovunque vuole.   / Ledamente fodendo onde lhe apraz.

 

E senza andar cercando per le scuole           / Sem de qualquer escola andar atrás

Di chiavar, verbi gratia, alla distesa,             / Por trepar verbi gratia a todo tento,

Far ben quel fatto impari alla sua spesa      / Fará feito sem-par e a seu contento

Qui che fotter potrà senza parole.                / O que possa foder sem ser loquaz.

 

Vedi com’ei l’ha sopra delle braccia             / Vede como nos braços a levanta

Sospesa con le gambe alte a suoi fianchi,    / Ele, que as pernas dela tem dos lados

E par che per dolcezza si disfaccia.                / E como de prazer já se quebranta.

 

Né già si turban perché sieno stanchi,         / Não se perturbam por estar cansados,

Anzi par che tal gioco ad ambo piaccia,       / Mas o jogo lhes dá ardência tanta

Sì che bramin fottendo venir manchi.          / Que fodendo queriam-se finados.

 

E per diritti e franchi                                      / E retos, sem cuidados,

Anzano stretti a tal piacer intenti,                / Ofegam juntos, de prazer frementes,

E fin che durerà saran contenti.            / E enquanto ele durar, estão contentes.

 

É entre memórias e poesia que ao vôo de pássaro a memória corre.

Sento-me e à secretária revivo aquela tarde quando ela inesperadamente me visitou.

Fizéramos amor de pé e agora repousávamos, num repouso acariciado, na cadeira da secretária. Ela sentada no meu colo, as mãos passeavam a pele crispada, a língua lambia o pescoço e a boca beijava cada centímetro acessível enquanto o pénis enfiado na vagina mantinha a erecção da continuidade. O desejo ardia e a vontade de continuar mostrava uma tesão insaciada.

Antes, quando de pé, enquanto lhe acariciava o ponto G(ostoso) e chupava um mamilo, ela não se segurou, em tal torrente e durante tanto tempo, que ambos ficámos surpreendidos. Soltara-se algo no interior e eis que o gozo chegava em borbotões num êxtase imparável de convulsões intensas.

Começáramos, ela sentada na cadeira e eu de joelhos no chão explorando com a língua e a mão as voltas e texturas dos grandes lábios e do clitóris, seguindo a língua e os dedos percursos diferenciados e independentes.

Aflorado um primeiro êxtase beijámo-nos longamente, as línguas sugando até ao fundo da alma e depois trocámos de posição. Ela de joelhos sorvia-me o pénis enquanto eu sentado chegava a alturas de paraíso. Parámos antes da ejaculação e agora era ela que de costas, um joelho sobre o assento da cadeira, queixo e ombros apoiados no espaldar, oferecia a deslumbrante curva das nádegas ao olhar e a vagina húmida e fremente à penetração. Que gozo, que prazer penetrá-la assim, acariciando a linha de violoncelo que vai da cintura ao inicio da perna enquanto num movimento de vaivém o desejo aumenta a alturas insondáveis.

Acariciados o peito e os mamilos veio uma vontade forte de os beijar. Abraçámo-nos e escorregando para o chão deitei-me de costas e ela de joelhos sobre mim controlava a penetração movendo-se ora lenta, ora violentamente num vaivém irregular que nos levou a ambos ao céu.

Repousámos encostados um ao outro, abraçados. A certa altura virou-me as costas num abraço aninhador na concha do meu corpo. A erecção cresceu outra vez e o desejo de a penetrar subiu irresistível. Acariciando a vagina primeiro, as secreções de uma textura de mel mostravam-me como o desejo nela voltava a crescer e aí entrei. Com um contacto profundo e prolongado mantivemos um suave movimento balanceado. Crescia o desejo de forma galopante e mudando ligeiramente de posição, ficando agora ela de costas e eu por cima, atingi rapidamente o orgasmo num irreprimível prazer de enlouquecer. Foi ao continuar as caricias nunca suficientes que nos levantámos e de pé não resistimos de novo à penetração. Curta, porque a posição é incómoda, acariciámo-nos mutuamente numa manipulação de sexos deliciosa. Foi aí que a torrente aconteceu.

Cansados e felizes, fizemos amor pela última vez naquela tarde sentados na cadeira e, recuperadas as forças, saímos para jantar.

 

UMA LEITURA DA POESIA DE MANUEL DE FREITAS

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Os livros acabam por vir ter conosco, referiu sabiamente J.V. Pina Martins num seu precioso ensaio sobre o amor dos livros:

[os livros] companheiros dos homens que os amam, eles sabem também procurar aqueles que com eles conversam.

… são eles que nos encontram e neles podemos sempre ter a certeza de descobrir uma palavra de conselho, de advertência e de amor!

e agora aconteceu-me.

A treta literária que por aí circula, elogiada no jogo de espelhos de amigos e capelas, tem-me mantido afastado e feito perder o contacto com alguma poesia com que afinal vale a pena, não sei se viver, certamente conhecer.

Encontrei-me recentemente com a poesia de Manuel de Freitas (1972). Surpresa, prazer e memória cruzaram-se para uma leitura apaixonada dos livros que consegui obter. Que mundo fui encontrar. Em Portugal sentiu-se assim enquanto eu vivia uma vida umas vezes feliz, outras sobressaltada?  Foi na verdade mais espantado que perplexo que a li uma primeira vez.

É um mundo pequeno, o desta poesia. Há outros. O leitor que o sabe apreciará a verdade deste universo fechado sobre si no desencanto de estar vivo, onde a principio a morte parece esperar-se como uma libertação.

Uma poesia sobre o real, narrada na primeira pessoa, pode tentar-nos como autobiografia. Nada mais enganador.

Saberá o poeta e nós não, em que medida os dados de biografia espalhados pelos poemas em itinerários de espaço e tempo, conjugados com as dedicatórias, são realidade ou artificio literário para construir uma imagem. É irrelevante. Não confundamos o poeta com o cenário.

A realidade da vida nunca se confunde com a realidade literária. Nesta, a fragmentação que lhe é própria permite a cada leitura operar a síntese entre a experiência de vida do leitor e o que lhe é dado ler. E aí, esta poesia é rica. Escorre sinceridade nos relatos de emoção que são cada poema. Emoção de memórias vividas, contadas ou intuídas, não importa. Comovem-nos ao lê-las. Pode pedir-se mais a uma poesia?

Poesia de ironia ausente, levando-se a sério nas supostas verdade que nos conta, é sincera. E é esse o seu valor. Chega até nós, quase desde o início, em pequenos livrinhos amorosamente pensados.

Na unidade que a maior parte dos livros apresenta, exceptuem-se as compilações, onde um pequeno mundo se mostra e o poeta/homem nele se vê, muitas vezes com pena de si, e onde a excelência da factura poética está quase sempre presente, encerra-se um relato poético, frequentemente fascinante, desenvolvido entre um começo e um epílogo, a que acresce a completude no interior de cada poema.

Há, claro, contaminação entre livros que acaba por transmitir a impressão de uma unidade temática numa poesia publicada ao longo de 10 anos, apresentando uma visão do mundo a partir do adolescente em guerra com as emoções de não ser adulto, até ao adulto que encontrou o caminho por onde quer seguir.

Suspeito, por isso, que a poesia que virá será outra, profundamente diferente, a qual, a espaços, visitará este passado.

Ilude-se o poeta ao supor andar há 20 anos a falar da morte quando no poema publicado no seu último livro A NOVA POESIA PORTUGUESA – TEMA SEM VARIAÇÕES  o refere, e transcrevo:

TEMA SEM VARIAÇÕES

para o Manuel de Freitas, mon semblable –

Sempre soubeste: a morte.

Sempre sentiste: a morte.

As tabernas fechadas, eram

apenas uma espécie de refrão.

 

Mas isso, terás de convir,

não desculpa o facto

de andares há vinte anos

a escrever o mesmo.

 

Faz como as tabernas: cala-te.

Aproximar-se-ia da verdade em grande parte dos poemas, se referisse antes que anda a falar da morte de estar vivo, num lancinante grito de pedido de ajuda:

tirem-me deste filme, digam-me como é viver.

Neste mundo de tabernas os personagens bebem tinto e olham a vida no fundo do copo. O narrador bebe cerveja e faz versos que publica. Nenhum dos seus personagens vai em poesia além do dinheiro que tem no bolso e da vida que com ele faz:o pobre tem aquilo que pode ter, e o resto é conversa.

Leiamos os dois primeiros livros:

Trata-se de uma poesia sub-25, por assim dizer, composta entre os 17 e os 25 anos.

É mais pungente que irónico o título do primeiro livro publicado em Setembro de 2000, Todos contentes e eu também.

Poesia juvenil (17 – 20 anos) a braços com a descoberta das emoções e em luta com um certo mal de vivre repassado de leituras poéticas onde a depuração da palavra ainda não chegou:

tudo nos fazia lembrar um livro, / demorada canção onde afinal / não pudemos caber.

No poema final o poeta recomenda-se

… Parte / ao amanhecer como quem se esqueceu  /  de regressar.

Inebriada com a ilusão de ser adulto, esta poesia Embebeda-se. E pela escrita inventa / um crepúsculo que torne menos cruéis / as manhãs desesperadamente brancas / que o obrigam a viver.

Este primeiro livro, respeitando a um arco temporal de criação poética de 3 anos (1989-1992) termina com a redenção pela água

A água chama-nos , arrebata-nos uma força  / a que só podemos chamar revelação. numa simbólica lavagem de um passado , qual  bolor da nossa passagem magoada / sobre a terra.

A seguir o poeta publicou Os Infernos Artificiais (2001).

Nos diálogos de solidão com taberneiros (as) reside grande parte da fulguração desta poesia juvenil composta, ao que parece, entre 1993 e 1997, e cuja temática se prolonga por livros mais tardios.

Exterior à gente que frequenta a taberna, tenta fundir-se nela com o ligeiro desacerto de beber cerveja onde se vive de vinho e desencanto ou de um tempo bem passado a ver a vida.

Nas tabernas, por paredes e mesas às vezes o azul espreita, rasgos de luz a querer iluminar, ou fazer fugir, aquele negrume, suposição de vida. São as cenas de taberna pintadas por Jan Steen, cervejeiro em Delft e pintor holandês de génio no século XVII, o que me salta aos olhos à leitura de tantos destes poemas.

Na maior parte dos poemas lemos uma humanidade encalhada na vida, envolta entre fumo e álcool, onde perpassa uma imensa, gritante, falta de foder como deve ser

Estas coisas perdem-se. Primeiro / a disponibilidade para a paixão, depois / a própria capacidade de alguém / se vir noutro alguém. … [Celine blues]

naquela alegria primordial que explica porque vale a pena viver. É gente que nunca está nua frente à natureza, que não conhece o mar.

Poesia fascinada do nojo de si, apenas em alguns poemas apanha a espessura do humano.

 

Em LEVADAS publicado em Março de 2004, faz o pleno.

Num grande, enorme livro de 16 poemas, a arte da síntese que a poesia é manifesta-se. E vemos e seguimos por lugares povoados de gente e memória:

 

Mariazinha. Esquecia-se de comer,

regressava devagar à tristeza

feliz da infância. …

 

numa geografia da alma que fala da diversidade do mundo falando do universo isolado que é a Ilha da Madeira.

Publicado em Março de 2007 e composto entre Janeiro e Abril de 2004, um outro livro, JUROS DE DEMORA, desperta em mim o desejo do comentário.

Colecção de poemas onde se cobra a demora em ser feliz,

não sei de que fujíamos,

pergunta-se o poeta, e onde a juvenil urgência de viver desiludiu,

nunca mais acreditei no sexo / sem amor,  no amor sem sexo.,

neste mundo onde a taberna é

refúgio de quem se especializou na abdicação.,

a percepção da harmonia existente na paciência dos pequenos gestos espreita na observação do jardineiro:

junta as folhas uma a uma, / com um pequeno ancinho, / e sorri, distante, aos que se / namoram – ,

e comovidamente regista em imagens musicais a visita da morte:

A folha, outra folha. / Onde a tua mão repousava, /

e no poema seguinte:

Débeis folhas de loureiro, rente / ao fim da tarde, serviram-me de aviso.”.

 

Neste relato de estudantis deambulações por Coimbra, sexo e solidão incluídos, é pelo cinzento do real, num momento rasgado a vermelho

Ela vestia o mais ardente / vermelho que já vira.”,

que somos levados:

Lá fora, no sereno largo do Romal, / os repuxos de água (por mais / luz que lhes dessem) eram / incapazes de corrigir as trevas.

 

Entretanto o poeta viajou, outros livros sugiram. Olhou os outros e viu-se neles.

Avançando no tempo acontece nesta poesia a redenção pela musica e pelo amor, e uma certa linguagem poética chega a um beco.

Em fecho de viagem visito dois livros onde a musica reina.

JUKEBOX  1 & 2 (Outubro de 2009)

Sendo grande parte desta poesia um requiem por uma morte anunciada, em JUKEBOX  1 & 2 temos a morte anunciada como metáfora no livro 1.

No livro 2 há um progressivo renascer, ou mesmo ressuscitar, diria, pontuados pela musica, pela beleza da musica, e acontece uma progressiva entrega ao amor.

 

A abrir, refere o protagonista poeta/narrador

… pela primeira vez, / os meus braços já não queriam desistir.

Depois Bach

… foi a melhor, / talvez a única solução / para o horror de estarmos vivos /

Na revisita a Nick Cave, 13 anos depois, a renovada experiência traduz-se em

… coisas de que podemos enfim sorrir

Ano a ano a musica continua a alimentar este recomeço, e em 2002 a musica suspende

…o nojo de haver mundo

Em 2004, pela 1ªvez, suponho, é dia e

A luz da manhã veio dar razão ao último coral

de Bach, talvez.

Ainda 2004 e 2005, o cravo, a musica barroca, e o adulto despede-se do adolescente/anjo decapitado

Coitado, não tem culpa nem cabeça. / demolido rosto que quiseste tanto.

E constata, diria que deslumbrado, que

Às vezes, por breves instantes / a beleza habita sobre a terra, / tão urgente…

2006 e a lucidez de uma viagem breve ao passado

... um tempo que nos encontrava vestidos / de nenhuma cor, partilhando / charros a desoras. O amor?

2007 a coragem do amor aparece e

As pedras de gelo aceitaram desfazer-se no meu copo. … e se reacende, todavia, a vela frágil do amor.

Ou ainda e sobretudo, no poema seguinte:

E a noite, menos escura, se afastava / para sempre destes versos e de nós

Longe vai a irmandade com os destroços da cidade e o narrador deixa a Igreja de S.Domingos, local assombrado pelo fogo da inquisição, a gostar de Poulenc, da sua obra coral pelo menos. Não sei se chegou à Mamelles de Tirésias (a ironia continua longe desta poesia).

2008 no itinerário musical do canto/verso

Uma voz perdida volta a cantar Final Day

E a memória atravessa-se com o passado

Nós, vinte anos depois, nem disso fomos capazes

2009 a despedida de uma poesia de morte como metáfora da recusa de viver

Mas já não tenho poemas

E na verdade, 2009 e 2010 vêem aparecer, ao que julgo, apenas recompilações e reedições, no que será provavelmente um ciclo poético que se fechou.

Termino com BEAU  SÉJOUR publicado em 2003

Chopin , Op. 10 nº3

É sob o guarda-chuva do estudo de Chopin, conhecido pelo nickname de Tristesse, num andamento lento ma nom troppo que o livro se inicia.

Paira um sossego de morte, musica para mãos paradas refere a certa altura o poeta, pela primeira parte do livro. Heilige Tod (Morte Santa) lhe chama. Percorre esta poesia uma serenidade pungente, a espaços iluminada, numa espécie de deambular num regresso a casa depois do mundo experimentado.

BEAU  SÉJOUR é o Op. 10 nº3 de Chopin pontuado pela paz e serenidade do Op. 78 de Schubert [D894], suponho.

A menos de avós e tias, que a espaços afloram na sua grandeza de verdade, as pessoas são mobília no cenário dos poemas. Lemos percursos por lugares onde os poemas derramam o sentimento de ter sido vivido assim.

A existência revista nos nadas que a memória encontra e recupera.

A segunda parte do livro aparece sob a epígrafe do Adagio de abertura da sonata em trio para 2 flautas e contínuo de J.S. Bach BWV 1039. Do ponto de vista musical, Adagio é um tempo lento com carácter lírico, por vezes pungente, e no recorrente entrosamento desta poesia com vivências musicais não podemos, ao lê-la, passar ao lado desta característica.

O abrigo sob o Adagio da sonata BWV 1039 parece conduzir a leitura dos poemas exactamente para esta atmosfera.

É doce a imagem de O café do Hortelão II à luz de um quadro de George La Tour,

uma vez faltou a luz e ficámos / toda a noite em silencio de LaTour ,

naqueles clarões de vela iluminando alguns rostos serenos e permanecendo o escuro no resto da superfície pintada.

A poesia destes lugares, por mais que as palavras o pretendam desmentir, é, para o poeta, esta pintura serena.

Te Deum, Bach e a inclinação musical para a queda fecham o livro no caminho do amor em vermelho [será o vermelho de Coimbra contado em JUROS DE DEMORA?] e já não no azul do vestido que quase rasguei no Baile de Finalistas.

Este  Baile de Finalistas escapa ao crivo do poeta e é um poema falso no trocadilho dos títulos dos livros de Virgílio Ferreira.

Poesia em que as imagens passam a metáforas e se desdobram em símbolos, Pedro e Paulo movem o mundo e o poeta/narrador supõe que ironiza louvando na companhia dos Apóstolos, a Deus – TE DEUM –  quando tem apenas pena de si.

Resisto à tentação de ler o poema como metáfora da peça musical tocada pelo trio Pedro/Paulo/Narrador, que me parece leitura redutora e despida da emoção simbólica que o poema exala.

O excesso, agora, é uma maneira / de dizer  ausencia, o azul caído / em meados de Setembro.

CARPE DIEM (?)- interrogação minha.

 

Noticia Bibliográfica:

Os livros publicados quase sempre em pequenas tiragens são hoje difíceis de encontrar.

Está disponível na Assírio & Alvim uma antologia A ÚLTIMA PORTA, publicada em Março de 2010 em 750 exemplares, que não constitui um panorama da poesia do autor. É uma escolha pessoal do antologiador.

Publicado em Setembro de 2010 em 250 exemplares, A NOVA POESIA PORTUGUESA tem venda exclusiva na Livraria Poesia Incompleta, em Lisboa, que também o editou.

Dos titulos mais antigos encontrar-se-ão alguns junto de livreiros informados e disponíveis.

Os livros lidos ao longo do artigo, além dos já citados foram:

Todos contentes e eu também, publicado por Campo das Letras em Setembro de 2000 sem tiragem declarada.

Os Infernos Artificiais, publicado por frenesi em Maio de 2001 em 500 exemplares.

BEAU SÉJOUR, publicado por Assírio & Alvim em Outubro de 2003, em 1000 exemplares.

LEVADAS, publicado por Assírio & Alvim em Março de 2004, em 350 exemplares numerados e assinados pelo autor.

JUROS DE DEMORA, publicado por Assírio & Alvim em Março de 2007, em 400 exemplares.

JUKEBOX  1  &  2 , publicado por Teatro de Vila Real em Outubro de 2009, numa tiragem de 400 exemplares.

O restante da obra lida, mais onze títulos, contribuiu para consolidar as opiniões desenvolvidas.

 

Nota musical enciclopédica:

Para a eventualidade de algum leitor aqui ter chegado e a isso acrescentar a curiosidade musical, deixo um itinerário discográfico abreviado para as peças musicais de que os poemas falam no livro BEAU  SÉJOUR, sobretudo a sonata para piano de Schubert, mãe do poema OPUS 78, cuja autoria não está identificada e já vi atribuído à Op. 78 de Beethoven.

Para Standchen, que as avós ouviam na radio,e o poeta refere no poema OPUS 78, Schubert compôs 3 canções com o mesmo nome e Dietrich Fischer-Dieskau cantou 2, pois a 3ª é para voz feminina e coro.

Suponho que o poeta se refere à que integra o pseudo-ciclo Canto do Cisne – Schwannengesang –  habitualmente na 4ªposição. Dieskau gravou-a diversas vezes ao longo da vida. Pode encontra-se ainda com facilidade na caixa DG com os 3 ciclos de Schubert para canto e piano, tendo ao piano Gerald Moore. Poupo-me e poupo o leitor à listagem da mais de dezena de interpretações que conheço do ciclo.

Agora a Sonata de Schubert Op.78 D894

Pelo menos 5 poetas do piano:

Radu Lupu – Decca 2894176402 7 – 1 cd

Alfred Brendel – Philips 2894469232 7 – 5cd’s – The Art of Brendel, Schubert

Wilhelm Kempf – DG – 2894637662 1 – 7cd’s – The Piano Sonatas

Claudio Arrau – Philips 2894329872 8 – 1cd – The Final Sessions 1

Sviatoslav Richter – Brilliant 502936532 7 – 100cd’s, A fabulosa caixa The Russian Legends com concertos ao vivo. Esta interpretação foi gravada em 03-05-1978.

O ISNB referido é o das cópias que possuo e podem já não existir no mercado com esta identificação, mas é o que tenho. Paciência.

 

Para Chopin, as interpretações dos Estudos, onde se encontra o Op.10 nº3, pululam, pelo que me dispenso de deixar sugestões. Pollini, Richter, valem sempre a pena. Michelangeli sobretudo, se o encontrar.

Para a sonata em trio BWV 1039 de J. S. Bach, com 2 flautas as gravações são menos frequentes. Recomendo, no entanto, a transcrição para 1 flauta e contínuo na interpretação de Marc Hantaï gravada para a Virgin.

Para o diálogo perfeito entre uma Pavana de Byrd e o mar de Santa Cruz [LICEU SÁ DA BANDEIRA 1988], não sei que interpretação sugerir, se no piano de Glenn Gold se no cravo de Leonhard.

A variação de Bizet eventualmente tocada pela preceptora [BOLETIM SALESIANO], se for uma das variações cromáticas de Bizet, poderá ser recordada pelos dedos de Glenn Gold. Ele interpreta-as no disco duplo incluído na colecção Great Pianist of the 20th Century, o qual também inclui Pavanas de William Byrd.

Como nota de curiosidade, para o caso de me ter enganado na identificação da canção de Schubert, aqui fica a referência para a outra Standchen (Serenata) D899. Trata-se da versão alemã de A.W. Schlegel de uma canção da peça de Shakespeare, Cymbeline: Hark! Hark! The lark at heaven’s gate sings, a qual também foi musicada por Joseph Haydn, E Dieskau gravou-a mais que uma vez.

Já agora a 3ª Standchen, D920, para voz feminina e coro pode encontrar-se no disco DG com lieder de Schubert cantado por Anne-Sofie Von Otter, tendo ao piano Bengt Forsberg e o coro feminino da Rádio da Suécia.

Enjoy poetry and music.

Al andar se hace el camino – Alguns poemas de Antonio Machado

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,

A visitação desta poesia e dos autores da Geração de 98, do Modernismo ou da Geração de 27, estou a falar de autores de lingua espanhola evidentemente, cruza-se em mim com os relatos de crueldade da guerra civil e as agruras do pós-guerra vividos por quem me foi próximo.

Encontrar na poesia, tantas vezes, o alento que permitiu olhar em frente e querer viver foi, ao fim e ao cabo, a lição que deste convivio aprendi.

Hoje vem ao caso Antonio Machado (1875 – 1939) cuja poesia me acompanha desde os alvores do estado adulto e de que este proverbio foi minha companhia:

Al andar se hace el camino, / y al volver la vista atrás / se ve la senda que nunca / se ha de volver a pisar.

A biografia do poeta toca-me de forma especial.  Casado aos 34 anos com Leonor,  jovem de 16 anos e a mulher que amava, enviuvou três anos depois. Voltou a apaixonar-se, já passados os cinquenta, por uma casada Guiomar. Fez jus ao que a certa altura escreveu: “Nunca fui mulherengo e repugna-me toda a pornografia. Tive adoração pela minha mulher e não quero voltar a casar.” E não voltou a casar.

É o poeta que de si traça este Retrato a abrir Campos de Castilha (1907-1917):

 

Mi infancia son recuerdos de un patio de Sevilla,

y un huerto claro donde madura el limonero;

mi juventud, veinte años en tierra de Castilla;

mi historia, algunos casos que recordar no quiero.

 

Ni un sedutor Mañara, ni un Bradomín he sido

– ya conocéis mi torpe aliño indumentário –,

mas recibi la flecha que me asignó Cupido,

y amé cuanto ellas pueden tener de hospitalario.

 

Hay en mis venas gotas de sangre jacobina,

pero mi verso brota de manantial sereno;

y, más que un hombre al uso que sabe su doctrina

soy, en el buen sentido de la palabra, bueno.

Poesia em que o verso brota de manantial sereno , encontra na natureza e na paisagem de Espanha fonte de inspiração. Por outro lado, a ternura pelas mulheres amadas ressoa longamente na sua poesia, como naquela

Tarde tranquila, casi

con placidez de alma,

para ser joven, para haberlo sido

quando Dios quiso, para

tener algunas alegrias… lejos,

y poder dulcemente recordarlas.

Após a perda da mulher, Leonor, é a Juan Ramon Jiménez que em longa e importante carta confessa: Cuando perdi a mi mujer pensé pegarme un tiro.

Amigos de longa data, conheceram-se nos primeiros anos do século, foi ao livro deste, Arias tristes, publicado em 1903, que dedicou o poema que segue e onde se capta a atmosfera de alguma da poesia de Jiménez, e tão bem sintetizada neste quarteto: Era un acorde lamento / de juventud y de amor / para la luna y el viento, / el agua y el ruiseñor.

A Juan Ramón Jiménez

Era una noche del mes
de mayo, azul y serena.
Sobre el agudo ciprés
brillaba la luna llena,


iluminando la fuente
en donde el agua surtía
sollozando intermitente.
Sólo la fuente se oía.


Después, se escuchó el acento
de un oculto ruiseñor.
Quebró una racha de viento
la curva del surtidor.


Y una dulce melodía
vagó por todo el jardín:
entre los mirtos tañía
un músico su violín.


Era un acorde lamento
de juventud y de amor
para la luna y el viento,
el agua y el ruiseñor.


«El jardín tiene una fuente
y la fuente una quimera…»
Cantaba una voz doliente,
alma de la primavera.


Calló la voz y el violín
apagó su melodía.
Quedó la melancolía

vagando por el jardín.
Sólo la fuente se oía.

São de cariz ora elegíaco, ora filosófico, os poemas reunidos em Provérbios y cantares que integram o livro Campos de Castilla entre os quais estes:

I

Nunca perseguí la gloria

ni dejar en la memoria

de los hombres mi canción;

yo amo los mundos sutiles,

ingrávidos e gentiles

como pompas de jabón.

Me gusta verlos pintarse

de sol e grana, volar

bajo el cielo azul, temblar

súbitamente y quebrarse.

XXIX

Caminante, son tus huellas /        Caminhante, são teus rastos
el camino y nada más; /                o caminho e nada mais;
caminante, no hay camino, /       caminhante, não há caminho
se hace camino al andar. /           faz-se o caminho ao andar.
Al andar se hace el camino, /       Ao andar faz-se o caminho,
y al volver la vista atrás /              e ao olhar-se para trás
se ve la senda que nunca /           vê-se a senda que jamais
se ha de volver a pisar. /               se voltará a pisar.
Caminante no hay camino /          Caminhante, não há caminho,
sino estelas en la mar. /                somente sulcos no mar.

Vai longo o artigo e há que pôr-lhe fim. Se tivesse que escolher apenas um poema da obra de Antonio Machado, escolheria este:

Anoche cuando dormía  /                            De noite quando dormia
soñé ¡bendita ilusión!  /                sonhei, bendita ilusão!,
que una fontana fluía  /                               que uma nascente fluía
dentro de mi corazón.  /                              dentro do meu coração.
Dí: ¿por qué acequia escondida,  /            Por que ribeira escondida,
agua, vienes hasta mí,  /                              água, vens tu até mim,
manantial de nueva vida  /                          manancial de nova vida
en donde nunca bebí?  /                onde jamais eu bebí?

Anoche cuando dormía  /                            De noite quando dormia
soñé ¡bendita ilusión!  /                               sonhei, bendita ilusão!,
que una colmena tenía  /                             que uma colmeia vivia
dentro de mi corazón;  /                              dentro do meu coração;
y las doradas abejas  /                                  e as douradas abelhas
iban fabricando en él,  /                               iam fabricando nele,
con las amarguras viejas,  /                        com as amarguras velhas,
blanca cera y dulce miel.  /                         branca cera e doce mel.

Anoche cuando dormía  /                            De noite quando dormia
soñé ¡bendita ilusión!  /                sonhei, bendita ilusão!,
que un ardiente sol lucía  /                          que um ardente sol luzia
dentro de mi corazón.  /                              dentro do meu coração.
Era ardiente porque daba  /                        Era ardente porque dava
calores de rojo hogar,  /                              o calor de um rubro lar,
y era sol porque alumbraba  /                    e sol porque alumiava,
y porque hacía llorar.  /                 porque fazia chorar.

Anoche cuando dormía  /                            De noite quando dormia
soñé ¡bendita ilusión!  /                               sonhei, bendita ilusão!,
que era Dios lo que tenía  /                         que era Deus o que eu trazia
dentro de mi corazón. /                               dentro do meu coração.

Noticia bibliográfica:

Das Poesías Completas de Antonio Machado em espanhol existem hoje diversas e acessíveis edições, por exemplo o nº 33 da Coleccíon Austral da Editorial Espasa Calpe. Em português encontram-se alguns poemas traduzidos na monumental  e notável ANTOLOGIA DA POESIA ESPANHOLA CONTEMPORÂNEA, da responsabilidade – selecção e tradução – de José Bento, editada por Assírio & Alvim em 1985. As versões em português aqui transcritas foram retiradas dessa edição.

Noticia Pictográfica:

A foto é de Dorothea Lange (1895 – 1965). A cópia é contemporânea, obtida a partir do negativo original, propriedade da Biblioteca do Congresso dos EUA. A foto foi tirada nos anos 30 do século XX no âmbito do programa da FSA (Farm Security Administration).

 

DUARTE DIAS – Poeta Português do Séc. XVI

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Os poetas daquele século XVI cuja poesia tanto me emociona, foram sobretudo homens temperados nas lutas do seu tempo, em quem a memória e a experiência de ver matar e morrer, e cujo

…  destino, / Atormentado de perpétua guerra, / Me leva por mil mares peregrino.

fez conhecedores dos desconcertos do mundo e da precaridade da vida, permitindo-lhes discernir e dar valor a  Ua rara beleza, ua figura / Que me faz ver na terra o paraiso. ou seja, o que é essencial na vida e faça valer a pena vivê-la:

Hoje venho com um poeta cuja poesia dormia no pó de bibliotecas até há quase vinte anos. De então para cá pouco mais leitores terá encontrado.

Falo de Duarte Dias, poeta português do século XVI nascido no Porto, cuja obra VÁRIAS OBRAS DE DUARTE DIAZ EM lingoa Portuguesa e Castelhana foi publicada pela 1ªvez em Madrid, por Luis Sanches, em 1592.

Dá conta António Cirurgião, na moderna edição critica que fez da obra, editada em 1991, da existência de apenas 2 exemplares de VÁRIAS OBRAS DE DUARTE DIAZ EM lingoa Portuguesa e Castelhana: um na Biblioteca Nacional de Madrid e outro na Hispanic Society of America.

É provavelmente relevante referir que à data da 1ª edição do livro, 1592, estavam ainda por publicar as obras de Sá de Miranda (1595), de António Ferreira (1598), de Diogo Bernardes (1596,1597,1616) e as Rimas de Camões (1595,1598,1616) para referir apenas obras ainda publicadas no século XVI.

A raridade da obra e o anátema que ainda hoje paira sobre a obra dos poetas que se encontraram ao serviço dos Filipes (veja-se D. Francisco Manuel de Melo cujas OBRAS MÉTRICAS apenas connheceram 2ªedição em 2006 e são um caso sério para se obter) talvez explique o silêncio de histórias de literatura sobre o poeta.

 

Escolhi para aqui deixar, 6 sonetos entre os 60 que o livro contém, num total de 115 poesias.

Tentado a destacar um ou outro verso de cada soneto, desisti. A coerência dos poemas seria perdida.

A excelente edição crítica que segui comenta de forma inteligente e erudita todos os poemas. Convido o leitor interessado a lê-la.

 

Agora os sonetos:

Logrando estou, senhora, um brando riso

Daquela doce boca e vista pura

Ua rara beleza, ua figura

Que me faz ver na terra o paraiso.


Logrando estou o delicado aviso,

A luz que torna dia a noite escura

O claro sol, a nova fermosura

Que abrasa o pensamento e perde o siso.


Logrando estou a graça peregrina,

A trança dos cabelos de ouro fino

Que em diferentes laços me arremata:


E quem logra tisouro tão divino

Claramente delira e desatina,

Se dele [se] apartar por ouro ou prata.

p.122

 


Em tanto que o cabelo de ouro fino

Rodea alegremente a linda testa;

Em tanto que descobre e manifesta

Rosas e neve o rosto cristalino;


Em tanto que respira um ar benino

O brando parecer em grata festa;

Em quanto nessa luz alegre assesta

Cem mil setas o inclito menino;


Colhei, senhora minha, o doce fruto,

Antes que tolde e cubra o tempo avaro

De aborrecida neve o fresco cume:


Ah! não tardeis: olhai que corre muto,

Olhai que tudo leva, olhai que em claro

Tudo nos arrebata e nos consome.

p.139

 


Não são estes os rios, doce amigo,

Que com as minhas lágrimas creciam?

Não são estes os vales que sabiam

Quanto de amor eu suspirei comigo?


Não são estes os montes que consigo

O meu triste segredo recolhiam?

Não são estes os árvores [*] que ouviam

Os queixumes que só a Tirse digo?


Oh ricos preços, oh fermosa terra,

Que negra sorte, que contrário sino,

Dos teus amados termos me desterra?


Em fim parto de ti, que o meu destino,

Atormentado de perpétua guerra,

Me leva por mil mares peregrino.

 

[*] – árvore era substantivo masculino.

p.99

 


Doce esperança, pretensão perdida,

Cego desejo, errado pensamento,

Sospiros que contino leva o vento,

Dai-me já paz na minha triste vida.


E se não pode em pena tão crecida

Valer, ou socorrer esquecimento,

Tome correndo o ultimo tormento

Os despojos de ua alma entrestecida.


Recreça a dura e tenebrosa sorte,

Que a mais estranha dor me será leve

A respeito do mal que tanto sinto.


Lágrimas, confusão, estrago ou morte,

Todo se me figura, tudo pinto,

Que passará como desgosto breve.

p.102

 


Parte-se o gosto meu, parte-se a vida

De quem jamais o pensamento parte,

Mas não creais de mim que seja parte

De me apartar de vós esta partida.


Parte-se o coração, mas esculpida

Vossa figura vai na melhor parte,

E parte-se a minha alma, mas não parte,

Que nesses olhos fica recolhida.


Oh quanto melhor fora se passara

Em sospiros e lágrimas ardentes

E na vossa presença descansara,


Que provar o furor dos acidentes

Que minha dura sorte me prepara,

E já do meu receo estão presentes!

p.80

 

Nota erudita:

De notar o emprego da mesma palavra em diferentes formas gramaticais (poliptoto) e o uso de diferentes palavras formadas a partir do mesmo radical (cognatos de partir) num processo poético tão caro a alguma vanguarda na poesia portuguesa dos anos 60 do sec. XX.

 


Calava o mar, calava o fero vento,

Calava o alto Céu, calava a terra,

Calava a mansa noite, que desterra

A pena do cansado pensamento;


Calava o passarinho sonolento,

E, chea de animais, calava a serra.

Calava o vale, sem lhe fazer guerra

Do ar o buliçoso movimento.


Calava o manso rio, convertido

Em doce esquecimento, e, se corria,

Apenas de si mesmo era sentido.


Tudo um brando silêncio adormecia:

Só o triste Tireno, perseguido

Em varios pensamentos, se afligia.

p.121

 


E com este brando silêncio me despeço, deixando o poeta lá onde repousa, provavelmente já não afligido, nos seus próprios pensamentos.


Notícia Bibliográfica:

VÁRIAS OBRAS EM LÍNGUA PORTUGUESA E CASTELHANA foi uma edição da Fundação Caloute Gulbenkian – Centre Culturel Portuguais/Paris, publicada em 1991, e de que ainda o ano passado, 18 anos após a edição, comprei na própria Fundação 2 exemplares.

EM LISBOA COM RUY CINATTI e O TÉDIO RECOMPENSADO

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Ocupado a trabalhar para a reforma, esqueci-me de viver. Hoje, pequeno livro aberto leio:

FASTIO

Quem me faz descer desta mansarda já,

onde me icei?


Farto estou já de estar sozinho

a caçar as moscas,

como se minha fosse a voz irada

que assim me mantém

divinizado.


Com a pressa de não ter nada que fazer, olhei o dia.


NOVO DIA

A manhã sobe

na minha vidraça

Ó penumbra nítida!

Ó claridade!


A manhã rebenta

como explosão

Salto remoçado

da cama pró chão.


Ó realidade

crescida, sincrónica,

sempre afirmação

só para quem ama!


A manhã vibrou

numa gota fina

suspensa da folha

que à janela assoma.


Que manhã tão fria

me anuncia inverno.

Quanto arrepio

na minha cidade.


Medito na vida

ano após ano

um mês repetido

sempre um desengano.

 

Estava sol e hesitei: fico em casa? Não, vou à Baixa. Entre a vidraça espreita


CAPARICA ALÉM

Luz e mais luz é o que eu quero,

translúcido à luz que me atravessa

e desenha na parede branca

as linhas puras do desejo oculto.


Luz é o que avança e me prende

às formas inefáveis, ao meu espírito

fugaz, mas delírio célere

de lâminas, vertigem-vácuo.


E da janela que me atrasa eu vejo

montes além, o dominio da praia

onde os passos são ondas e retraem

paisagem povoada de almas.

 

Afinal vou à Baixa!

Ir à baixa é uma ocupação de coisa nenhuma. Encontramos o Fernando, lembramo-nos do Esteves ao passar na Tabacaria, tropeçamos no pedinte de olhos tristes por profissão. Se formos pelas bandas do Martim Moniz e Mouraria, lá estará o corvo Vicente, sim porque embora o Cardoso Pires não diga onde mora o corvo, sempre achei que devia ser para aquelas bandas. Enfim, enquanto as pernas andam olhamos em redor e distraímos o espírito.


TRÂNSITO

A navegação parava

a meio do rio,

como a sinalização

nos Restauradores, no Rossio.


Paragem demorada,

signo vermelho na mão

mais do que em qualquer cidade

da Europa lembrada.


No rio, era mansa a tarde

em que aflitos os navios

esperam a vez de virar

rebocados pelo piloto.


Na cidade, o peão

apalermado, ciente

de que a qualquer momento

pode atravessar sem perigo.


Ora lembrando o contraste

desta cidade e do rio,

havia um homem pausado

no olhar, na intenção.


Dizia, de si para si:

Lisboa é uma aventura

qualificada de repente

morte lenta ou suicídio.


Mas tão bela que é valente

até na estúpida falta

de conceito ou de estrutura

mental ou de relação.


Havia a atracção do rio

e do mar, depois seguindo

brumas de bastidor

do continente perdido.


O que há agora, eu sei:

desastre após desastre,

a navegação parada

a meio do rio.

 

E eu, homem pausado no olhar, na intenção , vejo:

ALEGRIA

Novidade é uma rapariga solta

que passa,

me afaga,

redime

quando nela fito

os meus olhos pidescos

e rio.

 

FACTO

Tenho aprendido muito convosco, ó amigos homens,

a gostar de aventuras e, sobretudo,

mulheres, ao alto, ao lado, ao fundo

e, adormecido, sonhar fora do mundo.

7/12/76

 

Mas estou acordado e vejo o rio, o rio que dá cabo de mim:


QUASE UMA ODE AO TEJO

O rio dá cabo de mim.

Quando volto a casa, subo a escada,

abro a janela, olho o rio,

sorrio, bebo uisque ou limonada,

tanto se me dá – é sempre um rio.

Tejo – aventura desaguada – ,

livre de mim, enfim, segue o destino

seguido pela mal amada

que bate à tua porta, insiste e nada

persiste do que fora infindo.

Quem pudesse continuar esquecido de mim em ti


O TÉDIO RECOMPENSADO

I

Entre mulheres, eu sinto-me cansado.

Veio profundo

corre por mim

que aflora antigas ocorrências,

que me demovem

a fastidiosas empresas.


Sorrio agora

quando muito.

Há supercílios oculares que iludem

a passagem do tempo.


II

Mulher, mulheres, mulher,

fruto proibido

pela carne que ma nega.


Fruto desejado,

tomá-lo-ei nas mãos. Afluirei

aromas de mulher,

com ócios masculinos, reflectindo,

delicado.


III

Saciado,

procuro os teus lábios

semiabertos. Flor

quase a abrir-se…

Meto os teus dedos

nos meus. Suspiro fundo.

E renuncio ao mundo

esquecido de mim em ti.

 

 

LISBOA À NOITE… EM MIM

Já a noturna sombra se adianta.

O dia evade-se

entre cansaços e meditação.

Contemplo pernas e braços.

Desmaio na minha face.


Doce a escultura da chuva

no vidro baço, na lisa

flutuação das imagens.

O vento lima as arestas

da minha imaginação.


Clamorosos no som passam os táxis

na pista do esquecimento.

Sussurram depois no fundo

da pergunta que não cessa, que não cessa

– obcessiva pergunta cega-rega.


Com o seu ar de polícias reformados

têm as suas preocupações

os motoristas

do transito alado

A noite julga-se imensa

O momento é de noivado.


É de noivado longínquo

e de choro a noite imensa.

Não magoes as palavras

com a tua sem-razão.


Recorda-te apenas só

numa verdade falida.

O muro excrementado, a morte iniludível,

são a tua mansarda, a tua fé na vida.


Não magoes as palavras,

nem lhes queiras mal por isso .

Afivela-te aos sapatos.

Afirma-te num sorriso.


Os teus amigos esperam-te.


Pergunta-lhes onde fica,

se lembram o paraíso.


FIM DE VIAGEM!


Noticia Bibliográfica:

A cidade destes poemas incluídos em tempo da cidade, publicação póstuma de 1996 na colecção forma da Presença, é a Lisboa de RUY CINATTI (1915 – 1986) segundo Peter Stilwell, o editor da obra póstuma de Cinatti, a Lisboa da casa-mansarda ao Bairro Alto com vista soberba sobre a Outra Margem, a Ponte Pênsil e Caparica Além, e datarão do final dos anos 60 tal como O Tédio Recompensado livro e poema do mesmo título publicado em 1968 por Guimarães Editores

FACTO é o primeiro de 56 POEMAS publicado NA REGRA DO JOGO em 1981, antologia escolhida entre os poemas policopiados dos anos anteriores e distribuidos em folhas volantes.

A pequena efabulação encenada com os poemas é da minha responsabilidade. Comentários aos poemas são desnecessários.