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Monthly Archives: Março 2010

Cabral do Nascimento — Alguns poemas

29 Segunda-feira Mar 2010

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Cabral do Nascimento

Redondilha

Sobre os rios e ribeiros

Que por esses vales vão,

Pus um barco de papel.

Os desejos vogam nele,

Que as palavras essas não.

 

E quando as águas encontram

As suas irmãs do mar

E se misturam, aos beijos,

Vão para o fundo os desejos

As penas sobem ao ar.

 

Desejo, dor e saudade

São companheiros. Depois

Morre primeiro o primeiro,

Ainda ás vezes solteiro,

Ficam só os outros dois.

 

 

“… graças à arte requintada com que trabalha o verso, Cabral do Nascimento atinge em muitas das suas composições uma simplicidade, uma sageza, um desencanto, um doloroso fruir dos efémeros frutos da vida, características que lhe dão o direito a que o consideremos um dos mais altos poetas da sua geração.” João Gaspar Simões dixit.

 

Poeta raro, ausente do barulho da fama, a sua obra é de um inexcedível prazer de leitura.

Esta é  uma pequena escolha retirada de Cancioneiro, talvez o seu mais perfeito livro juntamente com Fábulas.

 

Tenhamos presente que o livro Cancioneiro foi publicado em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, e os poemas que seguem ganham um significado acrescido.

 

Futuro

O que há-de vir é belo

(Pensamos). Belo e ardente.

Fosse o futuro assim!

Pudesse agora tê-lo!

Agora, – e o Presente

Deixá-lo para o fim.

 

O dia de amanhã?

Ilusão. Frioleiras.

Pois bem: quem o tivera

Já gasto em cinza vã,

Em vez de, à sua espera,

Ficar a vida inteira!

 

Amanhã: dia de hoje

Que não chegou ainda.

Seja! Mas foge

A vida, antes que venha!

A sua face é linda.

Pena que se detenha.

 

Há-de vir, certamente,

Daqui a muitos anos.

Todavia no mundo

Só haverá presente.

Enganos. Desenganos.

Um silencio profundo.

 

Dia tão indeciso,

Tão cheio de mistério!

Virá pelo Outono,

Quando não for preciso,

Acordar-me do sono,

Talvez no cemitério.

 

Na singeleza da forma, que admirável reflexão sobre um amanhã tão sem esperança como o hoje, ou como o poeta o define: “Amanhã: dia de hoje / Que não chegou ainda.”

E todavia sonha: “O que há-de vir é belo / (Pensamos). Belo e ardente. / Fosse o futuro assim! / Pudesse agora tê-lo!”.

Prossegue a reflexão até concluir no desalento de um presente com o sonho bloqueado, que o futuro: “ Virá pelo Outono, / Quando não for preciso, / Acordar-me do sono, / Talvez no cemitério.”

 

Canção a meia voz

A minha vida é sempre ontem

E o meu desejo, amanhã.

Hoje é uma coisa parada.

Nada sei nem faço nada.

Certeza é palavra vã.

 

Não sou. Ou fui ou serei.

Se ao menos tivesse fé!

Corro atrás duma quimera.

Ou então fico-me à espera,

Porém à espera de quê?

 

Porque abri as minhas mãos

E deixei fugir o instante

Que havia nelas ainda?

Agora o nada não finda

E o tudo é sempre distante!

 

Virás tu ao meu encontro,

Ou sou eu que devo achar-te?

Quem pudera descansar!

Ver, ouvir e não pensar!

Ser aqui e em toda a parte!

 

Chego tarde ou muito cedo.

Ou paro aquém ou além.

Houvesse algo para mim

Sem ter principio nem fim,

Sem ser o mal nem o bem!

 

A dúvida de si, em que todos, mais ou menos, nos embrulhamos tantas vezes, ganha aqui a exemplaridade da sua enunciação “Corro atrás duma quimera. / Ou então fico-me à espera, Porém à espera de quê?”

 

Depois de olhar para si e ter sonhado o futuro, o poeta olhou o mundo, e como o viu nos relata:

 

Programa

Ópio: o trabalho, a dor, o riso, e este

Livro que me empolga!

O teatro, o jornal, o amor e o resto…

Ópio de toda a hora.

 

Matar o tempo, reduzi-lo a pó,

Assim, anos e anos?

Ele a vida nos leva e nos consome,

Ele fica e nós vamos.

 

Renova-se: é Verão, Outono, Inverno

E Primavera! Vê-se

Quanto de nosso fim já somos perto…

Ele, volta ao começo.

 

A vida, só vivê-la

Sem rumo, como um corpo sobre as ondas…

Para gozá-la é breve,

Para sofrê-la é ainda mais longa.

 

 

Teatro

Era uma vez um menino

Em seu jardim a brincar.

(Brincar, brincar, não brincava,

Sempre, sempre a meditar!)

Os outros vinham de longe

E a correr, para o levar.

(Correr, correr, não corria,

Porém ficava a cismar).

Na tarde de oiro se ouviam

Seus gritos enchendo o ar.

(Ele gritar não gritava,

Mas calava-se a pensar).

O mundo andava de roda

E tudo em volta a girar!

(Ele, porém, ali estava

Só a ver, a contemplar).

E tudo quanto se via,

E tudo quanto passava,

Nos seus olhos se detinha,

Na sua alma ficava.

 

Tenho sido espectador

E toda a vida o serei.

Ah, estar de fora da dor,

Aquém do palco do riso,

Longe da arena do mundo!

É insensatez? É juízo?

É bom? É mau? Não no sei.

 

Mas quanto drama profundo,

Devagar, devagarinho,

Sem voz, sem gesto, sem cor,

Se infiltra tão de mansinho

Na alma do espectador!

 

 

 

 

Brinquedo

Tenho na minha mão esta esfera de lata,

Este globo terráqueo untado de verniz.

A terra e a água, em linha e cor, tudo relata,

Em letras rubras quantos nomes diz!

A proporção devida, a forma exacta,

Vê-se um palmo diante do nariz.

Linhas de lado a lado, e de alto a baixo (coisa abstracta),

Deus não as fez, o homem é que quis.

Como na estampa antiga dalgum príncipe autocrata,

Guardo o mundo na mão: não sei se sou feliz.

Ah! Quantas voltas hei-de dar assim ao mundo?

Tê-lo a girar… e sucederem rios,

Altas montanhas, mares sem ter fundo,

Continentes ardentes e outros frios.

Pensar que neste circulo rotundo

As caravanas passam, e os navios!

Sucesso grande, a dor mesquinha, o caso imundo…

A uns imaginei-os, e outros vi-os.

Tê-lo a girar…  Profundo

Abismo entre o seu ritmo e os meus sonhos vazios!

Gira cansada bola,

Tua ordenada rotação constrói.

De ti se evola

A alma do que é… E eu sinto o aroma do que foi!

Com teu Presente o meu Passado se consola;

Fizeste a chaga e a mim é que ela dói.

Deixa-me ser tão orgulhoso como quem dá uma esmola,

Timido como um herói.

Gira, cansada bola,

Tua ordenada rotação constrói…

 

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AMAR OU ODIAR – Poesias de Fausto Guedes Teixeira

27 Sábado Mar 2010

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Poetas e Poemas

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Fausto Guedes Teixeira, João Gaspar Simões

AMAR OU ODIAR

Amar ou odiar: ou tudo ou nada!

O meio termo é que não pode ser

A alma tem d’estar sobressaltada

P’ra o nosso barro se sentir viver.

 

Não é uma cruz a que não for pesada,

Metade dum prazer não é um prazer;

E quem quiser a alma sossegada

Fuja do mundo e deixe-se morrer.

 

Vive-se tanto mais quanto se sente;

Todo o valor está no que sofremos…

Que nenhum homem seja indiferente!

 

Amemos muito, como odiamos já:

A verdade está sempre nos extremos,

Porque é no sentimento que ela está.

 

Recusando as nuances do compromisso neste soneto da paixão como absoluto da vida, o poeta afirma mesmo – O meio termo é que não pode ser .

Fulgor de quem a vive, cego a valores e conveniências, a paixão é devastadora nas suas consequências logo que a vida impõe o cinzento dos compromissos.

Esta é uma poesia incompatível com o nosso tempo. Tempo onde o frémito da paixão está ausente e apenas um fugidio bem estar afectivo é o valor a perseguir.

 

Poeta do amor, não deste ou daquele amor, desta ou daquela mulher, mas do sentimento amoroso em si, poeta de um amor que a si próprio se ama, como o descreve a certa altura João Gaspar Simões num pequeno estudo que lhe dedica na sua “Perspectiva Histórica da Poesia Portuguesa”.

E diz mais, “Fausto Guedes Teixeira é o poeta que depois de 1900 mantém as melhores tradições [da] lira sentimental, gemente a toda a hora entre nós…”.

A propósito da forma na poesia de Fausto Guedes Teixeira refere mais à frente “ Persuadido de que o sentimento vale mais que a arte, os seus versos, moles e frouxos nas composições longas de varios metros – … – ganham rigor na intensidade do soneto.”

Ainda segundo João Gaspar Simões, foi Fausto Guedes Teixeira “quem recriou esse modelo métrico onde o sentimento entra, em doses maciças, mas pautado ao mesmo tempo pelo rigor da forma que obriga a quem se abeira do soneto.”.

 

Vejamos esta mestria no manuseio do soneto em dois estereótipos de mulher:

 

ESBOÇO

Negro o cabelo, a fronte iluminada,

O nariz curvo, a boca pequenina,

Nos olhos escuríssimos cravada

Uma estrela no fundo da retina.

 

Nas faces uma rosa desmaiada

E outra rosa nos lábios purpurina,

Seus pequeninos pés os duma fada

E o seu corpo um corpinho de menina.

 

Todos os traços cheios de expressão,

Nas mãos um fogo estranho que lhas beija,

Porque eu lhe puz nas mãos o coração.

 

Eis o esboço rápido daquela

Que, sempre que na vida alguém a veja,

Nunca mais vê ninguém senão a ela!

 

Aqui desenha-se um universal, motivo de paixão, ao afirmar: Que, sempre que na vida alguém a veja, / Nunca mais vê ninguém senão a ela!.

 

A seguir, no próximo soneto, PARA TODO SEMPRE, dá-nos o poeta a explicação do que acontece “sempre que na vida a mulher sente / Que se enganou e aceita outra paixão,”

 

Quando se chega a ver nitidamente

O erro duma primeira ligação,

É muito natural que toda a gente

Se dê um dia a outro coração.

 

Mas sempre que na vida a mulher sente

Que se enganou e aceita outra paixão,

Então, ou a conserva eternamente

Ou ela pensa que não tem perdão.

 

E é por esse motivo que, ao segundo

Amor, ela se prende como cega,

Sem com mais nada se importar no mundo.

 

É que a mulher, feliz ou desgraçada,

Não se perde na hora em que se entrega,

Mas na hora em que for abandonada.

 

Depois deste coloquial soneto, onde o sempre, tal como no soneto anterior, garante o absoluto da ideia afirmada, não podia deixar de ilustrar como o sexo, sempre por detrás de tanta paixão, se mostra timidamente na poesia de Fausto Guedes Teixeira, “Tomando a forma duma labareda.”:

FOGO DO CÉU

O que mais amo nesta criatura

E que apaixonadamente me traz

Não é a sua grande formosura,

Mas a paixão de que a julguei capaz.

 

Com tanta duração como ternura

E tão fiel como o supus tenaz,

Dar-me-ia esse amor toda a ventura

Em que hoje creio e não achei p’ra trás.

 

Quando consigo por acaso vê-la

Vendo os seus braços, lembro o seu abraço.

Vendo-lhe a boca, sonho os beijos dela.

 

E, enquanto a vida só prazeres segreda,

Seu lindo corpo some-se no espaço

Tomando a forma duma labareda.

 

Noticia bibliográfica

Os sonetos transcritos, com ortografia modernizada, foram retirados de Sonêtos d’Amôr, de Fausto Guedes Teixeira, publicados em 1ª edição, em 1922,  por EDIÇÕES LUSITANIA .

Novas Perspectivas da Poesia Portuguesa (Século XX) de João Gaspar Simões foi publicado em 1ªedição em 1976 por Brasília Editora, nas Obras Completas do Autor.

 

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Cândido Guerreiro — 5 Sonetos

24 Quarta-feira Mar 2010

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Cândido Guerreiro

Entre o palpitar da carne encerrado no pudor da linguagem e um panteísmo lido na paisagem algarvia que o viu nascer, circula a poesia de Cândido Guerreiro.

É uma poesia agarrada à terra e aos seus prazeres com a magia da luz mediterrânica em fundo e onde um diálogo com a religião penetra, numa harmonia de homem / deus do universo.

Aqui fica uma pequena amostra da sua poesia com cinco dos seus sonetos.

I

Cheios de paz e cheios de doçura,

Dão-me os teus olhos tanta claridade

Que a minha tormentosa noite escura

Se rasga em Vias-lácteas de bondade!

 

E vou na trajectória da ventura,

E sigo a linha recta da verdade,

Por ti guiado, oh frágil criatura,

Tão forte em tua simples humildade!

 

Que o amor vos traga aonde o amor me trouxe,

Cegos que enveredastes pelo mal,

Pois nesta estrada chã, direita e doce,

 

A morte ajoelhará quando vier,

Ante a Vida, que a Vida é imortal,

Reflorindo num seio de mulher!

 

II

 

Porque nasci ao pé de quatro montes,

Por onde as águas passam a cantar

As canções dos moinhos e das pontes

Ensinarem-me as águas a falar…

 

Eu sei a vossa língua, água das fontes…

Podeis falar comigo, águas do mar…

E ouço à tarde, os longínquos horizontes,

Chorar uma saudade singular…

 

E porque entendo bem aquelas mágoas,

E compreendo os íntimos segredos

Da voz do mar ou do rochedo mudo,

 

Sinto-me irmão da luz, do ar, das águas,

Sinto-me irmão dos íngremes penedos,

Sinto que sou Deus, pois Deus é tudo…

 

III

 

BOCA

Irrompe feito Verbo, o pensamento

Pela boca, e na graça de um sorriso

Descobre o nosso olhar um paraíso

Num fulgurante e rápido momento.

 

Da boca sai o cântico e o lamento;

As lindas rosas da manhã diviso

Na tua boca, e em beijos corporizo

O meu desejo rútilo e sangrento…

 

Folha revolta, arrebatada palma

Do vento impetuoso da paixão,

A teus pés, caindo-te a minha alma,

 

Arde em mim, Bem-Amada, a ânsia louca

(Para sentir melhor teu coração)

De colar ao teu seio a minha boca…

 

 

IV  –  SULAMITES

 

A tua alta estatura é comparada

Com a palmeira em lânguido meneio,

E são dois cachos de uvas o teu seio,

Suspensos da palmeira, oh Bem-Amada…

 

Subirei à palmeira delicada

E colherei seus frutos sem receio…

E a tua boca é como um pomo cheio

Duma essência a mais doce e perfumada…

 

Tua garganta, inebriante vinho,

Hei-de a saborear devagarinho,

Que tu és para mim e eu para ti…

 

Erga-mo-nos e vem, de manhãzinha,

A ver se há já romãs, se há flor na vinha,

E vem dar-me os teus peitos mesmo ali…

 

V

 

Minha terra embalada pelas ondas,

Lindo país de moiras encantadas,

Onde o amor tece lendas e onde as fadas

Em castelos de lua dançam rondas…

 

Oh meu Algarve, quero que me escondas…

Que na treva da morte haja alvoradas!

Hei de sonhar com moiras encantadas,

Se eu dormir embalado pelas ondas…

 

Quando o sol emergir de trás da serra,

Sempre será o sol da minha terra

A fecundar-me o chão da sepultura…

 

Ao pé dos meus, na minha aldeia querida,

A morte será quase uma ventura,

A morte será quase como a vida…

Noticia bibliográfica:

A obra poética de Cândido Guerreiro reparte-se por alguns livros de interesse desigual para o leitor de hoje.

Concordo com João Gaspar Simões quando diz que Cândido Guerreiro é sonetista por excelência, bem como com a forma como classifica os seus sonetos em três géneros, a saber: filosófico, pictural e erótico, e ainda quando constata que a sua produção de sonetos a partir de 1908 é dominada pela temática pictural e erótica (Perspectiva Histórica da Poesia Portuguesa, 1976, pag. 98-100).

Os sonetos aqui transcritos, em ortografia actualizada, foram retirados da 2ªedição de SONETOS publicada em 1916, em edição da Renascença Portuguesa do Porto.

Esta 2ªedição vem substancialmente ampliada em relação à 1ªedição de 1904, pois dos seus 122 sonetos apenas 50 pertenceram à 1ªedição.

 

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Dom Francisco Manuel de Melo — 3 Sonetos

20 Sábado Mar 2010

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Camões, Francisco Manuel de Melo

Personagem de fábula e de lenda, escritor maior do nosso século XVII, foi Dom Francisco Manuel de Melo (1608-1666.10.13)  também poeta.

A sua poesia praticamente esquecida hoje, vitima de julgamentos datados, bem precisa de uma edição crítica que ao estudá-la, editando também a que permanece em manuscrito, chame a atenção para as várias pérolas que contém.

I

Responde a um amigo, que mandava perguntar a vida que fazia em sua prisão

Casinha desprezível, mal forrada;

Furna, lá dentro mais que inferno escura;

Fresta pequena, grade bem segura;

Porta só para entrar, logo fechada;

 

Cama que é potro; mesa destroncada;

Pulga que por picar faz matadura;

Cão só para agourar; rato que fura;

Candeia nem com os dedos atiçada;

 

Grilhão que vos assusta eternamente;

Negro, boçal; e mais boçal ratinho

Que mais vos leva que vos traz da praça!

 

Sem amor, sem amigo, sem parente,

Quem mais se dói de vós, diz: Coitadinho!

Tal vida levo. Santa prol me faça!

II

A  uma senhora que, estando de mui bom parecer, contraiu o parentesco de sogra

 

Quando deixareis vós de ser fermosa,

Minha senhora Dona Mariana?

Nunca jamais, se a vista não me engana,

Ou se a fé, mais que a vista, escrupulosa.

 

Filha vos conheci, e já vi rosa

Das que se preza Abril, Maio se ufana,

Que, em vendo essa beleza soberana,

Do prado se acolhia vergonhosa.

 

Conheci-vos esposa, em igual preço

Envejada das flores. Mas, que importa

Se mãe fostes, com raios semelhantes?

 

E até sogra, que agora vos conheço,

(contra o que dizem: nem de barro á porta…)

Aposto que inda sois como éreis dantes.

E ainda outro soneto:

III

 

Serei eu alguma hora tão ditoso,

Que os cabelos que amor laços fazia,

Por prémio de o esperar, veja algum dia

Soltos ao brando vento buliçoso?

 

Verei os olhos donde o sol fermoso

As portas da manhã mais cedo abria,

Mas em chegando a vê-los se partia,

Ou cego, ou lisonjeiro, ou temeroso?

 

Verei a limpa testa a quem a aurora

Graça sempre pediu? E os brancos dentes,

Por quem trocara as pérolas que chora?

 

Mas, que espero de ver dias contentes,

Se para se pagar de gosto uma hora,

Não bastam mil idades diferentes?

 

Se o corpo dos sonetos de Dom Francisco Manuel de Melo pode ser desigual, com o sublime ao lado do trivial, como,  julgo,  resulta evidente da escolha que aquí faço, as éclogas, de onde desapareceu o quadro pastoril, surgem como tese moral dialogada, dando a ver um curioso quadro mental da época.

Mas é sobretudo pelas cartas em verso que Dom Francisco Manuel de Melo merece ser lido, nomeadamente a carta conhecida como Canto da Babilónia:

 

Sôbolas águas correntes / de aqueles rios cantados / que a Babilónia levados / com lágrimas dos ausentes / chegam ricos e cansados.

 

Uma tarde me assentei / cheio de dor e fadiga / e hoje do que lá passei / me manda o tempo que diga / quanto em lágrimas direi.

 

Parafraseando Camões e a sua Sôbolos rios, Dom Francisco Manuel de Melo desenvolve em redondilha, ao longo de 500 versos, uma profunda e comovente reflexão sobre o sentido da vida tendo como ponto de partida os Salmos da Biblia e indo buscar à riqueza da sua experiência existencial, a matéria da sua formulação poética.

 

Mas tu, mas eu, que faremos, / Se nós mesmos fabricamos / O cavalo que adoramos / E dentro da alma metemos / O fogo em que nos queimamos?

Nota biográfica: As datas de nascimento e morte de Dom Francisco Manuel de Melo foram retiradas de

PRESTAGE, EDGAR, D. Francisco Manuel de Mello – Esboço biographico, Coimbra, Imprensa de Universidade, 1914.

Esta é uma obra fundamental no estudo da vida do autor e ainda hoje referência inultrapassada. Em diversos locais na net, nomeadamente  no site infopédia.pt, encontram-se referidas de forma errada, as datas de nascimento e morte do autor.

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Um poema de Dom Manuel de Portugal

18 Quinta-feira Mar 2010

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Poesia Antiga

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Camões, Dom Manuel Portugal

A perfeição, a graça, o suave geito,

A primavera cheia de frescura

Que sempre em vós florece, a quem Ventura

E a Razão entregaram este peito;

 

Aquelle cristalino e puro aspeito

Que em si comprende toda a fermosura;

O resplendor dos olhos, e a brandura

De que Amor a ninguem quis ter respeito

 

Se isto, que em vós se vê, ver desejaes

Como digno de ser visto somente,

Por mais que vós de amor vos isentaes

 

Traduzido o vereis tam fielmente

No meio d’este peito onde estaes

Que, vendo-vos, sintaes o que elle sente.

 

Contemporâneo de Camões, a quem sobreviveu mais de 20 anos, é curta a obra que de Dom Manuel de Portugal (c. 1516 – 1606) se conhece.

Neste retrato de mulher, a delicadeza e o quase pudor da descrição comove pela perfeição, pela graça e pelo suave geito, tal como o poeta define a mulher a quem o dedica.

É um segredo da poesia portuguesa de meados de quinhentos, esta suavidade de linguagem em que as palavras transmitem todo o resplendor do que os olhos vêem associando delicadeza de imagens e profundidade de sentimento.

Na transcrição do poema conservei a ortografia adoptada por Carolina Michaelis de Vasconcellos na sua escolha das “Cem Melhores Poesias (Líricas) da Lingua Portuguesa”, onde o conheci.

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DE TARDE – a minha escolha de Cesário Verde

10 Quarta-feira Mar 2010

Posted by viciodapoesia in Cânone XXI

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Cesário Verde

N’aquelle “pic-nic” de burguezas,

Houve uma coisa simplemente bella,

E que, sem ter historia nem grandezas,

Em todo o caso dava uma aguarella.


Foi quando tu, descendo do burrico,

Foste colher, sem imposturas tolas,

A um granzoal azul de grão de bico

Um ramalhete rubro de papoulas.


Pouco depois, em cima d’uns penhascos,

Nós acampámos, inda o sol se via;

E houve talhadas de melão, damascos,

E pão de ló molhado em malvasia.


Mas, todo purpuro, a sahir da renda

Dos teus dois seios como duas rolas,

Era o supremo encanto da merenda

O ramalhete rubro das papoulas!

Conservei a ortografia da 1ªedição

Retratos de mulher atravessam toda a curta obra de Cesário Verde, sempre belíssimos pela penetração psicológica de que dão conta, surpreendida esta num gesto, num estar, num vestir, em suma, nos pequenos nadas da vida que fazem grande a sua poesia.

Mas não é o retrato de mulher que me liga ao poema.

Estes quatro quartetos trazem-me de cada vez que os leio, ou recordo, a imagem perfeita da força da vida, vivida na sua essência através das coisas simples do mundo, exactamente sem historia nem grandezas, mas preenchida de momentos de plenitude absoluta como este “pic-nic” ao pôr-do-sol, a comer fruta.

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Piadoxos + 1 poema depois do Dia da Mulher

10 Quarta-feira Mar 2010

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Erótica

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André Brun, Judith Teixeira

Contemporanea, publicada nos anos 20 do século XX, foi uma revista com um compromisso entre continuidade e inovação no contexto dos valores do tempo. Aí publicou Almada Negreiros em separata do seu nº7,  em Janeiro de 1923, o poema fundador do Modernismo Português, “A Scena do Odio”.

No seu conjunto, os 9 números publicados sem grandes hiatos entre Maio de 1922 e Março de 1923, contêm um repositório da imagem da mulher naqueles anos vinte, entre o mais conservador convencionalismo e alguns registos de escandalosa carnalidade.

Entre um e outro extremo, retiro do nº7 de Contemporanea estas máximas, de alguma forma espelho mental de uma época, assinadas por André Brun:

A superioridade do velho Deus sobre os homens – ou, pelo menos, a sua absoluta serenidade – provem de que tem sabido conservar-se solteiro. Os simples deuses cairam porque eram, como nós, uns femieiros.

As coisas deste mundo estão mal organizadas. Para que a vida fosse realmente interessante os homens deviam nascer aos trinta anos e as mulheres morrer aos vinte e cinco.

Há olhos velhacos de mulher, que levam o tempo a prometer o que sabem muito bem que o resto do corpo não está em condições de cumprir.

Diferente na perspectiva e coexistindo na mesma revista, aqui vai  um poema da poetisa maldita Judith Teixeira publicado desta vez no número de Natal de 1922:

O Meu Chinez

Nos olhos de sêda

traçados em viez

tem um ar tão sensual

o meu Chinez…


Vive sobre uma almofada

De setim bordada,

Pintado a côres.

Ás vezes

numa ansia inquieta

que eu não mitigo,

e que me domina

num sonho de poeta

ou de heroina,

fujo levando

o meu Chinez comigo!


E lá vamos!

Nem eu sei

para que alcovas orientais,

em paizes distantes,

realisar

as horas sensuaes,

as horas delirantes

com que eu sonhei…

…………………………….

Eu e o meu Chinez

temos fugido tanta, tanta vez!


Nota: conservei a ortografia da edição original na revista Contemporanea

À época, a afirmação poética do desejo sensual por parte de uma mulher fez escândalo e tem garantido à autora o silencio editorial até hoje. Podem procurar-se com lupa, e não se encontram, edições das obras dela.

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