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vicio da poesia

Category Archives: Poetas e Poemas

Curtos poemas IV — Sem título de Sophia de Mello Breyner Andresen

15 Segunda-feira Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Sophia de Mello Breyner Andresen, William Baziotes

Baziotes, William-Watercolor 1 - 19581Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Publicado em Poesia, 1ª edição 1944.

Acompanham o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (1914-2004) pinturas de William Baziotes (1912-1963), pintor norte-americano cuja obra com raízes no surrealismo, caminha para a abstracção através de uma iconografia não explícita.

Baziotes, William-Watercolor 3 1958

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Curtos poemas III — Sem título de Sophia de Mello Breyner Andresen

15 Segunda-feira Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Sophia de Mello Breyner Andresen, William Baziotes

Baziotes, William-Congo 1954Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes

Publicado em Poesia, 1ª edição 1944.

Acompanham o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (1914-2004) pinturas de William Baziotes (1912-1963), pintor norte-americano cuja obra com raízes no surrealismo, caminha para a abstracção através de uma iconografia não explícita.

Baziotes, William-Primeval_wall_A_teacher_affects_eternity_he_can_never_tell_wherehis_influence_stops._from_the_series_Great_Ideas_of_Western_Man 1959

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Curtos poemas II — Sem título de Sophia de Mello Breyner Andresen

15 Segunda-feira Jul 2013

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Sophia de Mello Breyner Andresen, William Baziotes

Baziotes, William-Sea_Phantoms 1952No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.

Publicado em Poesia, 1ª edição 1944.

Acompanham o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (1914-2004) pinturas de William Baziotes (1912-1963), pintor norte-americano cuja obra com raízes no surrealismo, caminha para a abstracção através de uma iconografia não explícita.

Baziotes, William-The_Room 1945

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Curtos poemas I — Sem título de Sophia de Mello Breyner Andresen

15 Segunda-feira Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Sophia de Mello Breyner Andresen, William Baziotes

Baziotes, William-The_Flesh_Eaters 1952

Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.

Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.

in Poesia, 1ª ed 1944

Acompanham o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (1914-2004) pinturas de William Baziotes (1912-1963), pintor norte-americano cuja obra com raízes no surrealismo, caminha para a abstracção através de uma iconografia não explícita.

Baziotes, William-Untitled-1957-II

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Mont Sainte-Victoire – pintura de Cézanne e poema de Al Berto

13 Sábado Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Al Berto, Cézanne

Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1885-1895Mesmo vivendo na cidade, basta um jardim frente às janelas para, ao rodar das estações e dos anos, irmos ganhando um conhecimento quase intimo das cambiantes de luz e cor na paisagem à medida que árvores e vegetação se despem e vestem de folhagem e flores no seguro e previsível avanço dos dias.

Vivendo no campo, essa aprendizagem será, porventura mais variada, mas a nossa atenção e gosto acaba por se afeiçoar a determinado pormenor do horizonte onde a natureza se sucede de forma mais tocante ou espectacular.

Se hoje em dia a tentação imediata é fixar por fotografia esses lugares em momentos especiais, quando se pinta, o trabalho é mais lento e conduz a um mais subtil e intimo registo do que se vê.

Dá conta desta experiência a obra de Cézanne (1839-1906) na sua recorrente pintura do Mont Sainte-Victoire (Monte de Santa Vitoria), horizonte que ele teve durante anos como cenário, quando saía para pintar nos arredores de Aix-en-Provence, onde vivia.

É sabido como Cézanne na sua pintura procurou, e conseguiu, dar a noção da perspectiva no motivo pintado usando apenas a cor. Na pintura da paisagem interessava-lhe captar as formas e o equilíbrio pictórico entre as grandes massas que definiam a vista observada, em detrimento de fixar as cambiantes que a luz nessa paisagem introduzia, como era propósito de Monet e dos impressionistas.

É assim que no vasto conjunto de pinturas com o Mont Sainte-Victoire em fundo podemos seguir um verdadeiro curso de pintura na tentativa e busca de conseguir registar a profundidade da paisagem com a justaposição das cores que encaminham o olhar do perto ao longe, e regresso. E com este passeio do olhar comovermo-nos com aquele não-sei-quê que a arte acrescenta à vida.

Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1886-87

Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1885 1887Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1902 06 watercolor

Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1902Em A Secreta Vida das Imagens Al Berto (1948-1997) recria, em bela poesia, esta ligação de Cézanne ao lugar, vivida longos anos até à morte.
Sainte-Victoire depois da morte de Cézanne

no mais remoto isolamento da memória
guardei preciosamente a sombra dos basaltos
luminosos xistos frestas de granito janelas
perto de sainte-victoire mais cinzenta que nunca
pintava sem cessar pintava
desde o alvorecer até que a noite descia
obrigando a mão e o pensamento a desfalecer

trabalhei sempre a obsessiva luz
mas a velhiçe aprisionou-me na vertigem
muito longe na idade
continuei a pintar sur motif
parecia-me fazer lentos progressos
quase compreendi os sobrepostos planos
de um mesmo objecto sob a claridade d’aix

foi em 1906
montado num burro carregado com material
ia por onde o cortante mistral passara
deixando a descoberto o implacável sol
modulava terras pinhais nuvens casas corpos
mas a morte não consentiu que eu executasse
as vislumbradas geométricas paisagens e
comigo se perdeu o segredo dessa pirâmide
que é sainte-victoire vibrando
na cegante luminosidade do meio-dia.

Depois do pequeno grupo de pinturas inicial, termino com algumas outras do final da vida do pintor, de entre as dezenas de pinturas conhecidas com o Mont Sainte-Victoire como assunto.

Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1902 04

Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1902 06

Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1902-06

Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1900

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Momentos de Paixão — alguns poemas de Rainer Maria Rilke

13 Quinta-feira Jun 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Erótica, Poetas e Poemas

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Picasso, Rainer Maria Rilke

Man and Nude Woman - 1967-3A voluptuosidade física é uma experiência dos sentidos, tal como o puro olhar ou a pura sensação com que um fruto se derrete na língua — é uma grande e infindável experiência que nos é proporcionada, um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de toda a sabedoria.
Das cartas a um jovem poeta, 16 de Julho de 1903.

Abro com esta citação de Rainer Maria Rilke (1875-1926), fresca e verdadeira nos seus 110 anos, que nos diz tão só:

A voluptuosidade física é uma experiência dos sentidos, … um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de toda a sabedoria.

Demora a humanidade a interiorizar esta verdade, enrolada em tabus e interditos, e apenas os artistas, na sua superior e antecipada compreensão do mundo, a vão transmitindo.

Untitled-56

Venho hoje com alguns belos poemas de Rilke onde o esplendor desta sabedoria se mostra e a volúpia lida com o absoluto da paixão.

Como eu te chamei! Apelos que ninguém ouvia
e que se dulcificaram em mim.
Agora, degrau a degrau penetro em ti
e o meu sémen sobe, de infantil alegria.
Ó montanha primeva do prazer!
Já sobe à tua íntima crista arfante,
já se aproxima. Entrega-te e sente
como te afundas se ele em cima acenar.

Untitled-27a

Não conheces torres, tu que feneces.
Mas vais descobrir uma agora
no fabuloso espaço que aflora
em ti. Fecha, como numa prece,
o rosto. Foste tu a levantá-la
sem dares por olhares e acenos de mão.
De súbito, é a plena perfeição,
e eu, homem feliz, posso habitá-la.
Ah, lá dentro é como um abraço!
Leva-me à cúpula com os teus afagos:
a ver se em tuas noites mansas lanço
com o ímpeto que põe ventres em fogo
mais sentimentos do que eu próprio alcanço.

Untitled-1a

Oh, não me eleves!
Quem sabe se me ergo.
Levanta apenas ao de leve o rosto
Para que, chovendo eu,
Quase te pareçam ser lágrimas tuas.

Se te assolar a minha tempestade,
coloca-te, direita, frente ao meu vento;
fecha as pálpebras ao meu sopro,
fica cega
desse simples ver-me.

Untitled-42a

Penso desnecessário clarificar no prosaico do vocabulário coloquial a intensa volúpia que escorre desta linguagem poética falando do esplendor do acto amoroso em variada fruição,

Termino com este precioso registo do sortilégio erótico que a escrita pode ter:

Ao escrever-te, saltou seiva
da máscula flor
que à minha humanidade
parece fértil e enigmática.

Sentirás tu, ao leres-me,
distante terna, a doçura
que no feminil cálice
espontânea corre?

Acompanham o artigo imagens da obra erótica da última fase de Picasso. Termino esta espécie de música com Mulher tocando bandolim, pintura de Picasso de 1909, dos primórdios do cubismo e grosso modo contemporânea destes poemas.

Picasso - Mulher tocando bandolim 1909Noticia bibliográfica

O fragmento da carta e os poemas foram transcritos do livro Momentos de Paixão, bela edição de Relógio D’Água Editores, com desenhos de Rodin, poesia e prosa de Rilke, em traduções de João Barrento, José Miranda Justo e Isabel Castro e Silva, Lisboa, 2004.

 

 

 

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Visita da Mulher Amada – poema de Herberto Helder a partir de poema arábico-andaluz

04 Terça-feira Jun 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Herberto Helder, Picasso

The Lovers - 1923-13Vieste um pouco antes de soarem os sinos cristãos, quando o crescente lunar se abria no céu,

como a branca sobrancelha de um velho ou a curva delicada de um pé.

E, apesar da noite, o arco-íris brilhou no horizonte, o arco de muitas cores, cauda enorme de pavão.

(Ben Hazm)

Espécie de condensada versão de O Amor em Visita, famoso poema de Herberto Helder (1930), neste poema de Ben Hazm mudado para português encontramos tudo o que a imaginação precisa para reconhecer o esplendor do acto: E, apesar da noite, o arco-íris brilhou no horizonte

O original do poema vem atribuído, sem mais informação, a Ben Hazm, poeta arábico-andaluz que não consegui identificar.
Como a ortografia dos nomes árabes não está normalizada em português, poderá tratar-se, ou não, de Ibn Hazm Al-Andalusí, filósofo-poeta, autor de O Colar da Pomba, ainda que nesta obra não tenha conseguido encontrar um original que pudesse ter conduzido a esta versão.
Ficam pois os leitores com o belo poema em português, e com a curiosidade não satisfeita de qual o original que lhe deu origem.

O poema de Herberto Helder vem publicado em O Bebedor Nocturno poemas mudados para português, qual êxtase poético para quem à noite procure embebedar-se com poesia. O livro foi publicado por Assírio & Alvim, Lisboa 2010.

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O sexo e a idade II — Picasso e soneto de Fernando Assis Pacheco

03 Segunda-feira Jun 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Fernando Assis Pacheco, Picasso

Dois bebedores catalães 1934-16Há dias, quando tomávamos cerveja, eu e o meu filho, ele explicava-me as exigências rituais do brinde berlinense sob pena de o não as observar conduzir a sete anos de mau sexo.
Isso, nem pensar! Os que sobram já são poucos, exclamei.

Na verdade, a vida é finita, e por mais ajuda de Viagra, o fim chegará. Aí resta a memória, e felizes os homens que possam lembrar para si algo parecido com o que este soneto/homenagem de Fernando Assis Pacheco (1937-1995) deixa transparecer.

Pus-vos a mão um dia sem saber
que tão robusta e certa artilharia
iria pelos anos fora ser
sinal também de lêveda alegria

amigos meus colhões quanto prazer
veio até mim em vossa companhia
a hora que tiver já de morrer
morra feliz por tanta cortesia

adeus irmãos é tempo de ceder
à dura lei que manda arrefecer
o fogo leviano em que eu ardia

camaradas leais do bem foder
o brio a fleuma cumpre agradecer
sem vós teria sido uma agonia

Lisboa
29-XI-94, 23-XII-94

Soneto publicado no livro Respiração Assistida, edição Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.

1966-2Este desenho de Picasso, de 1966, é certeiro na elucidação do papel dos testículos na vida sexual de um homem (veja-se a figuração que conduz ao entumescimento ou não), como o soneto, de outra forma, refere.

Acrescento agora, em continuação do artigo anterior, algumas gravuras de Picasso (1881-1973), desta vez não de 1970, mas produzidas pouco antes, em 1968, tinha o pintor 87 anos, e conhecidas como Raphael e a Fornarina. Nesta série, ao par amoroso, pintor e amante, em actividade sexual, surge-nos uma figura tutelar observando os amorosos. Interpretações psicanalíticas falam do pai do artista, figura presente no seu imaginário e que aqui se liberta. Outras interpretações associam antes esta figuração à impotência sexual de Picasso que no anterior artigo referi. A leitura terá outra complexidade psicológica se se conhecer a biografia de Raphael, a tempestuosa relação com a que ficou conhecida por Fornarina, e a forma como as mulheres amadas por Picasso participaram da sua pintura, aspectos pontualmente abordados no blog e a que no futuro certamente voltarei. Por agora este pequeno grupo de gravuras permite ilustrar o poder do erótico na mente humana para além da idade biológica.

picasso11

picasso10

picass014

picass017

Rafael e a Fornarina 1968-15

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O sexo e a idade I — Picasso e Tentação de Miguel Torga

02 Domingo Jun 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas, Poetas e Poemas

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Miguel Torga, Picasso

Untitled-32

Tal como os filhos olham para os pais como entidades assexuadas, sendo para eles quase impossível imaginá-los nos transportes do amor, ainda que seja exactamente por tal ter acontecido que eles nasceram, todos nós quando jovens adultos, temos dificuldade em imaginar tumultos eróticos quando a vida avança para aqueles patamares onde as chamadas terceira e quarta idades aparecem. Eles existem com a acutilancia inerente à biologia de cada um: Que me queres, nesta idade sonolenta / Dos sentidos? diz o poeta.

Recordo hoje frequentemente o que nos meus vinte anos me dizia um senhor com quem amiúde conversava: a idade avança mas só o corpo envelhece, a cabeça fica sempre a mesma — e com isto referia-se ao desejo sexual.

Ocorre-me toda esta conversa a propósito do poema Tentação de Miguel Torga (1907-1995) onde, com o pudor que o caracteriza, disso dá conta:

Tentação

Vénus lançada à praia pelo mar inquieto,
Inquietas os meus olhos, sátiros cansados.
Vem de ti uma luz que o sol não tem,
E sozinha povoas o areal.
Que me queres, nesta idade sonolenta
Dos sentidos?
Lembrar-me e convidar-me a renegar
Os desejos despidos?
Como se algum poeta se esquecesse
E arrependesse
Dos antigos pecados cometidos!

O poema foi escrito na Praia do Pedrógão a 22 de Agosto de 1981, tinha o poeta 74 anos, portanto, e foi publicado no volume XIII do Diário.

Se na poesia este envelhecimento surge, nas artes plásticas também o encontramos.

Picasso (1881-1973) para o final da vida, e já perto dos 90 anos, produziu varias series de gravuras eróticas.

Untitled-19

No grupo que escolhi hoje, obras de 1970, a mulher surge como pretexto de veneração e aproximação táctil, e não já envolvida no acto sexual explicito como em series anteriores acontecera.

Untitled-30

São obras de arte onde de alguma maneira o artista exorcizou a conhecida impotência sexual que o atingiu à época, fazendo-o não partícipe, mas desejoso, dos prazeres do sexo.

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Meu país desgraçado, e mais poemas de Sebastião da Gama

24 Sexta-feira Maio 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Júlio Pomar, Sebastião da Gama

Julio Pomar 01AEm tempos popular, a poesia de Sebastião da Gama (1924-1952) dorme hoje o sono do esquecimento.

Para a lembrar escolhi um poema que conserva enorme acutilância sobre a nossa realidade, hoje, ainda que não seja representativo da maior parte do que o poeta escreveu.

Meu país desgraçado!…
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!…
Porque fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!

Julio Pomar 02A

Andemos um pouco mais nesta poesia onde o jovem, condenado pela doença, sonha com as alegrias do corpo.

Julio Pomar 03A

HORA VERMELHA

Por que vieste, pensamento?
Já me bastava o Mar violento,
Já me bastava o Sol que ardia…
P’los meus sentidos escorria
não sei lá bem que seiva forte
que a carne toda me deixava
qual uma flor ou uma lava
num riso aberto contra a Morte.

Já me bastava tudo isto.
Mas tu vieste, pensamento,
e vieste duro, turbulento.
Vieste com formas e com sangue:
erectos seios de mulher,
as carnes róseas como frutos.

Boca rasgada num pedido
a que se quer e se não quer
dizer que não.
Os braços longos estendidos.
A mão em concha sobre o sexo
que nem a Vénus de Camões.

Aí!, pensamento,
deixa-me a calma da Poesia!
Aqui na praia só com ela,
virgem castíssima, sincera!…
Sua mão branca saberia
chamar cordeiro ao Mar violento,
Pôr meigo, meigo, o Sol que ardia.
Mas tu vieste, pensamento.
Tua nudez, que me obsidia,
logo, subtil, encheu de alento
velhos desejos recalcados,
beijos mordidos
antes de os ver a luz do Dia.

Vai-te depressa, pensamento!
Deixa-me a calma da Poesia.
Fique em minh’alma o só perfume
da cerca alegre de um convento.

Os meus sentidos embalados
numa suave melodia.
(Ah!, não nos quero desgrenhados
como quem volta de uma orgia).

E então meus lábios mais serenos
do que se orassem sobre um berço,
sorrindo à Vida,
sorrindo à Morte.
Ah!, não nos quero assim grosseiros,
ébrios, torcidos,
como depois de um vinho forte.

Fica para outra ocasião a poesia onde o questionamento de Deus e o viver a vida com a Sua presença se faz.

Julio Pomar 05A
Termino com uma tocante manifestação do desejo de Mulher.

PUREZA

Vem toda nua
ou, se o não consentir o teu pudor,
vestida de vermelho.

Teus tules brancos,
o azul, que desmaia,
de tuas sedas finas,
guarda-os p’ra outros dias.

P’ra quando, Amor!, teu ventre, já redondo,
merecer a pureza do azul…

Julio Pomar graca lobo em vermelho com um perfil desenhado a lápis 1973A

Os poema foram transcritos de Cabo da Boa Esperança, segundo livro do poeta, publicado em 1947.

As imagens que acompanham o artigo reproduzem pinturas de Júlio Pomar (1926).

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