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vicio da poesia

Category Archives: Convite à arte

Amor e mais poemas de Gueorgui Gospodinov

16 Terça-feira Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Grant Wood, Gueorgui Gospodinov

Wood, Grant-American Gothic 1930Amor

Todas as noites
sonhar com a mulher
deitada ao teu lado.

Nem sempre aforística, como nesta definição de Amor, a poesia de Gueorgui Gospodinov (1968), poeta búlgaro, surge-nos com o peso preciso de cada palavra, dando ao verso e aos poemas a extraordinária capacidade de nos fazer voar a imaginação.

Acrescento mais alguns poemas retirados da recolha poética O Coelho do Amor, onde a lemos em tradução portuguesa de Zlatka Timenova-Valtcheva e Petar Petrov.

Wood, Grant-Haying 1939

O Coelho do amor

Volto já, disse
e deixou a porta aberta.
A noite era especial para nós,
no fogão cozia coelho,
com cebola, rodelas de cenoura
e dentes de alho.
Nem casaco levou,
nem pôs batom, não perguntei
para onde ia.
Assim é ela.
Nunca teve noção
do tempo, chegava tarde para os encontros
e naquela noite
disse simplesmente
Volto já,
e nem a porta fechou.

Seis anos após aquela noite
encontro-a numa outra rua,
pareceu-me assustada,
como alguém que se lembra
de ter deixado o ferro de engomar ligado
ou algo assim…

O fogão? Desligaste-o?
Ainda não, disse eu,

esses coelhos são muito rijos.

Wood, Grant-The Good Influence 1936

Um sonho em Dianopolis

Não o procurei foi uma coincidência
do olhar e da janela
numa tarde quando
a entrevi nua
só depois soube o seu nome
uma das muitas Dianas
no polis sonolento

agora estou a esconder-me nos campos
os meus cornos ficam rígidos
os meus pés transformam-se em cascos
crescem os meus caninos
e começam a perseguir-me ladrando
para dentro
galgos em mim
veado e cão veado e cão veado
e cão eu sou

(Nota minha: Diana, deusa itálica que se comprazia apenas na caça)

Depois da pungente ironia destes poemas sobre paixão e abandono alguns cruzamentos com a perplexidade de Deus.

Deus
talvez seja feliz
porque não tem o seu
Deus

Wood, Grant-Appraisal 1931

Ensino supremo

Deus tem o seu saber.
No fim dos nossos discursos
coloca cruzinhas em vez de pontos,
coloca cruzinhas em vez de assinatura.
Deus, digo-te ao ouvido,
tem a sua sabedoria.

Wood, Grant-New Road 1939

As notícias

Ela fecha o jornal e diz:
leste, em Ayova
caiu granizo — pedaços
como bolas de golfe,
perderam muitas bolas
e agora elas voltam.
Ele devolve-lhes as bolas,
percebes? Aquele Brincalhão!
Mas ela não ri
e diz horrorizada:

Ele tem sempre boa pontaria.

Wood, Grant-Young Corn 1931

Regresso à concisão poética do inicio, para terminar esta curta viagem:

A minha mãe está a chorar
As suas lagrimas caem no céu
e fermentam a Via Láctea

Wood, Grant-Daughters of Revolution 1932Acompanham os poemas pinturas do norte-americano Grant Wood (1891-1942).

Noticia bibliográfica

O Coelho do Amor, recolha poética com poemas de Gueorgui Gospodinov, provenientes dos livros Lapidarium (1992), A cerejeira e o povo (1996), prémio para o melhor livro do ano, Cartas a Gaustin (2003), e Os domingos no mundo, foi publicada por Roma Editora, Lisboa 2010.

 

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Curtos poemas IV — Sem título de Sophia de Mello Breyner Andresen

15 Segunda-feira Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Sophia de Mello Breyner Andresen, William Baziotes

Baziotes, William-Watercolor 1 - 19581Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Publicado em Poesia, 1ª edição 1944.

Acompanham o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (1914-2004) pinturas de William Baziotes (1912-1963), pintor norte-americano cuja obra com raízes no surrealismo, caminha para a abstracção através de uma iconografia não explícita.

Baziotes, William-Watercolor 3 1958

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Curtos poemas III — Sem título de Sophia de Mello Breyner Andresen

15 Segunda-feira Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Sophia de Mello Breyner Andresen, William Baziotes

Baziotes, William-Congo 1954Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes

Publicado em Poesia, 1ª edição 1944.

Acompanham o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (1914-2004) pinturas de William Baziotes (1912-1963), pintor norte-americano cuja obra com raízes no surrealismo, caminha para a abstracção através de uma iconografia não explícita.

Baziotes, William-Primeval_wall_A_teacher_affects_eternity_he_can_never_tell_wherehis_influence_stops._from_the_series_Great_Ideas_of_Western_Man 1959

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Curtos poemas II — Sem título de Sophia de Mello Breyner Andresen

15 Segunda-feira Jul 2013

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Sophia de Mello Breyner Andresen, William Baziotes

Baziotes, William-Sea_Phantoms 1952No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.

Publicado em Poesia, 1ª edição 1944.

Acompanham o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (1914-2004) pinturas de William Baziotes (1912-1963), pintor norte-americano cuja obra com raízes no surrealismo, caminha para a abstracção através de uma iconografia não explícita.

Baziotes, William-The_Room 1945

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Curtos poemas I — Sem título de Sophia de Mello Breyner Andresen

15 Segunda-feira Jul 2013

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Sophia de Mello Breyner Andresen, William Baziotes

Baziotes, William-The_Flesh_Eaters 1952

Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.

Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.

in Poesia, 1ª ed 1944

Acompanham o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (1914-2004) pinturas de William Baziotes (1912-1963), pintor norte-americano cuja obra com raízes no surrealismo, caminha para a abstracção através de uma iconografia não explícita.

Baziotes, William-Untitled-1957-II

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Mont Sainte-Victoire – pintura de Cézanne e poema de Al Berto

13 Sábado Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Al Berto, Cézanne

Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1885-1895Mesmo vivendo na cidade, basta um jardim frente às janelas para, ao rodar das estações e dos anos, irmos ganhando um conhecimento quase intimo das cambiantes de luz e cor na paisagem à medida que árvores e vegetação se despem e vestem de folhagem e flores no seguro e previsível avanço dos dias.

Vivendo no campo, essa aprendizagem será, porventura mais variada, mas a nossa atenção e gosto acaba por se afeiçoar a determinado pormenor do horizonte onde a natureza se sucede de forma mais tocante ou espectacular.

Se hoje em dia a tentação imediata é fixar por fotografia esses lugares em momentos especiais, quando se pinta, o trabalho é mais lento e conduz a um mais subtil e intimo registo do que se vê.

Dá conta desta experiência a obra de Cézanne (1839-1906) na sua recorrente pintura do Mont Sainte-Victoire (Monte de Santa Vitoria), horizonte que ele teve durante anos como cenário, quando saía para pintar nos arredores de Aix-en-Provence, onde vivia.

É sabido como Cézanne na sua pintura procurou, e conseguiu, dar a noção da perspectiva no motivo pintado usando apenas a cor. Na pintura da paisagem interessava-lhe captar as formas e o equilíbrio pictórico entre as grandes massas que definiam a vista observada, em detrimento de fixar as cambiantes que a luz nessa paisagem introduzia, como era propósito de Monet e dos impressionistas.

É assim que no vasto conjunto de pinturas com o Mont Sainte-Victoire em fundo podemos seguir um verdadeiro curso de pintura na tentativa e busca de conseguir registar a profundidade da paisagem com a justaposição das cores que encaminham o olhar do perto ao longe, e regresso. E com este passeio do olhar comovermo-nos com aquele não-sei-quê que a arte acrescenta à vida.

Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1886-87

Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1885 1887Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1902 06 watercolor

Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1902Em A Secreta Vida das Imagens Al Berto (1948-1997) recria, em bela poesia, esta ligação de Cézanne ao lugar, vivida longos anos até à morte.
Sainte-Victoire depois da morte de Cézanne

no mais remoto isolamento da memória
guardei preciosamente a sombra dos basaltos
luminosos xistos frestas de granito janelas
perto de sainte-victoire mais cinzenta que nunca
pintava sem cessar pintava
desde o alvorecer até que a noite descia
obrigando a mão e o pensamento a desfalecer

trabalhei sempre a obsessiva luz
mas a velhiçe aprisionou-me na vertigem
muito longe na idade
continuei a pintar sur motif
parecia-me fazer lentos progressos
quase compreendi os sobrepostos planos
de um mesmo objecto sob a claridade d’aix

foi em 1906
montado num burro carregado com material
ia por onde o cortante mistral passara
deixando a descoberto o implacável sol
modulava terras pinhais nuvens casas corpos
mas a morte não consentiu que eu executasse
as vislumbradas geométricas paisagens e
comigo se perdeu o segredo dessa pirâmide
que é sainte-victoire vibrando
na cegante luminosidade do meio-dia.

Depois do pequeno grupo de pinturas inicial, termino com algumas outras do final da vida do pintor, de entre as dezenas de pinturas conhecidas com o Mont Sainte-Victoire como assunto.

Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1902 04

Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1902 06

Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1902-06

Cezanne - La Montagne Sainte-Victoire  1900

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Personagens de Enrico Baj

19 Quarta-feira Jun 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Enrico Baj

Baj chez Baj  1Enrico Baj (1924-2003), artista plástico italiano com uma extensa e fascinante obra da pintura à colagem, onde a obra gráfica avulta, encanta-me há longos anos.
É no comentário gráfico à representação da figura humana que escolho algumas imagens para aqui mostrar.

Corrosiva, e de pendor surrealizante na maior parte das vezes, a série sobre generais com que abro tem tudo menos a marcial pose com que tais personagens usualmente se passeiam.

Baj Enrico General 1 1970

Baj chez Baj  9

Baj Enrico General 2 1969

Baj chez Baj  8

69

Baj chez Baj  6

Personnage decore 1963Acrescento algumas paródias a famosíssimas pinturas de Picasso e Seurat.

Baj chez Baj  2

Baj chez Baj  4

Baj chez Baj  3OLYMPUS DIGITAL CAMERATermino com anónimas figuras de mulher

Puttana

PersonagemBaj chez Baj  7Fecho com fantasiosos seres de saborosa inspiração.

70

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Momentos de Paixão — alguns poemas de Rainer Maria Rilke

13 Quinta-feira Jun 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Erótica, Poetas e Poemas

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Picasso, Rainer Maria Rilke

Man and Nude Woman - 1967-3A voluptuosidade física é uma experiência dos sentidos, tal como o puro olhar ou a pura sensação com que um fruto se derrete na língua — é uma grande e infindável experiência que nos é proporcionada, um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de toda a sabedoria.
Das cartas a um jovem poeta, 16 de Julho de 1903.

Abro com esta citação de Rainer Maria Rilke (1875-1926), fresca e verdadeira nos seus 110 anos, que nos diz tão só:

A voluptuosidade física é uma experiência dos sentidos, … um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de toda a sabedoria.

Demora a humanidade a interiorizar esta verdade, enrolada em tabus e interditos, e apenas os artistas, na sua superior e antecipada compreensão do mundo, a vão transmitindo.

Untitled-56

Venho hoje com alguns belos poemas de Rilke onde o esplendor desta sabedoria se mostra e a volúpia lida com o absoluto da paixão.

Como eu te chamei! Apelos que ninguém ouvia
e que se dulcificaram em mim.
Agora, degrau a degrau penetro em ti
e o meu sémen sobe, de infantil alegria.
Ó montanha primeva do prazer!
Já sobe à tua íntima crista arfante,
já se aproxima. Entrega-te e sente
como te afundas se ele em cima acenar.

Untitled-27a

Não conheces torres, tu que feneces.
Mas vais descobrir uma agora
no fabuloso espaço que aflora
em ti. Fecha, como numa prece,
o rosto. Foste tu a levantá-la
sem dares por olhares e acenos de mão.
De súbito, é a plena perfeição,
e eu, homem feliz, posso habitá-la.
Ah, lá dentro é como um abraço!
Leva-me à cúpula com os teus afagos:
a ver se em tuas noites mansas lanço
com o ímpeto que põe ventres em fogo
mais sentimentos do que eu próprio alcanço.

Untitled-1a

Oh, não me eleves!
Quem sabe se me ergo.
Levanta apenas ao de leve o rosto
Para que, chovendo eu,
Quase te pareçam ser lágrimas tuas.

Se te assolar a minha tempestade,
coloca-te, direita, frente ao meu vento;
fecha as pálpebras ao meu sopro,
fica cega
desse simples ver-me.

Untitled-42a

Penso desnecessário clarificar no prosaico do vocabulário coloquial a intensa volúpia que escorre desta linguagem poética falando do esplendor do acto amoroso em variada fruição,

Termino com este precioso registo do sortilégio erótico que a escrita pode ter:

Ao escrever-te, saltou seiva
da máscula flor
que à minha humanidade
parece fértil e enigmática.

Sentirás tu, ao leres-me,
distante terna, a doçura
que no feminil cálice
espontânea corre?

Acompanham o artigo imagens da obra erótica da última fase de Picasso. Termino esta espécie de música com Mulher tocando bandolim, pintura de Picasso de 1909, dos primórdios do cubismo e grosso modo contemporânea destes poemas.

Picasso - Mulher tocando bandolim 1909Noticia bibliográfica

O fragmento da carta e os poemas foram transcritos do livro Momentos de Paixão, bela edição de Relógio D’Água Editores, com desenhos de Rodin, poesia e prosa de Rilke, em traduções de João Barrento, José Miranda Justo e Isabel Castro e Silva, Lisboa, 2004.

 

 

 

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Do amor e consequência com Juan de Mena

05 Quarta-feira Jun 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Juan de Mena, Picasso

Reclining Nude with a Man Playing the Guitar - 1970-10Em mais um convite à cultura do século XV, arquivo no blog dois poemas de Juan de Mena (1411-1456), poeta espanhol grosso modo contemporâneo do francês François Villon (1431-1464) de artigo recente.

É outro o assunto desta poesia e é outra também a delicadeza da versificação.

Regresso ao deleite do amor e à sua explicitação poética, alargando a evidência de quanto o assunto é importante para a humanidade e capaz de inspirar as mais delicadas manifestações do espírito.

Depois de ontem, pela voz de Herberto Hélder (1930), sabermos poeticamente como a visita da amada transforma a noite em arco-íris, hoje Juan de Mena conta-nos, numa canção, do sofrimento de deixar os braços da amada:
…
oh, que morte que perdi / em viver, quando parti / dos braços de minha dama.

Canção

Onde estou eu nesta cama,
a maior dor que senti
é pensar quando parti
dos braços de minha dama.
Junto ao mal com que contendo
por estarmos longe nós,
tantas vezes me arrependo
quantas me lembro de vós:
tanto que espalham a fama
que por isso adoeci
os que sabem que parti
dos braços de minha dama.
Embora eu sofra e me cale,
esta queixa não menos perto
a acho, para meu mal,
quanto de vós eu deserto.
Se meu fim é que me chama,
oh, que morte que perdi
em viver, quando parti
dos braços de minha dama.

Conhecido que está o efeito da separação quando se ama, vejamos o efeito de um amor não respondido nestes perdidos tempos de há quase 600 anos:

Primeiro o coup-de-foudre:

Vossos olhos me fitaram / com tão discreto fitar, / feriram e não deixaram / em mim nada por matar.

L'aubade - 1965-4
Depois, a ausência de resposta satisfatória:

Eles, inda não contentes / com minha mente vencida, / dão-me tão cruéis tormentos / que atormentam minha vida:

depois que me dominaram / com tão discreto fitar, / feriram e não deixaram / em mim nada por matar.

Conclui-se a canção com o despeito de amor não correspondido, como provavelmente na humanidade de hoje também acontece:

Para crer no que tu vejas, / na minha pena dorida, / dê-te Deus tão triste vida /
que ames e nunca sejas / amada nem bem querida.

E com esta vida tal / penso bem que tu crerás / no tormento sem igual / que, sem eu merecer, me dás.
Já que morte me desejas, / sem por mim ser merecida, / dê-te Deus tão triste vida
que ames e sempre sejas / desamada e mal querida.

Deixo-vos com a canção sem mais intromissões.

Canção

Vossos olhos me fitaram
com tão discreto fitar,
feriram e não deixaram
em mim nada por matar.
Eles, inda não contentes
com minha mente vencida,
dão-me tão cruéis tormentos
que atormentam minha vida:
depois que me dominaram
com tão discreto fitar,
feriram e não deixaram
em mim nada por matar.
Para crer no que tu vejas,
na minha pena dorida,
dê-te Deus tão triste vida
que ames e nunca sejas
amada nem bem querida.
E com esta vida tal
penso bem que tu crerás
no tormento sem igual
que, sem eu merecer, me dás.
Já que morte me desejas,
sem por mim ser merecida,
dê-te Deus tão triste vida
que ames e sempre sejas
desamada e mal querida.

Traduções de José Bento in Antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Século XIX, ed. Assírio & Alvim, Lisboa 2001.

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Visita da Mulher Amada – poema de Herberto Helder a partir de poema arábico-andaluz

04 Terça-feira Jun 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Herberto Helder, Picasso

The Lovers - 1923-13Vieste um pouco antes de soarem os sinos cristãos, quando o crescente lunar se abria no céu,

como a branca sobrancelha de um velho ou a curva delicada de um pé.

E, apesar da noite, o arco-íris brilhou no horizonte, o arco de muitas cores, cauda enorme de pavão.

(Ben Hazm)

Espécie de condensada versão de O Amor em Visita, famoso poema de Herberto Helder (1930), neste poema de Ben Hazm mudado para português encontramos tudo o que a imaginação precisa para reconhecer o esplendor do acto: E, apesar da noite, o arco-íris brilhou no horizonte

O original do poema vem atribuído, sem mais informação, a Ben Hazm, poeta arábico-andaluz que não consegui identificar.
Como a ortografia dos nomes árabes não está normalizada em português, poderá tratar-se, ou não, de Ibn Hazm Al-Andalusí, filósofo-poeta, autor de O Colar da Pomba, ainda que nesta obra não tenha conseguido encontrar um original que pudesse ter conduzido a esta versão.
Ficam pois os leitores com o belo poema em português, e com a curiosidade não satisfeita de qual o original que lhe deu origem.

O poema de Herberto Helder vem publicado em O Bebedor Nocturno poemas mudados para português, qual êxtase poético para quem à noite procure embebedar-se com poesia. O livro foi publicado por Assírio & Alvim, Lisboa 2010.

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