• Autor
  • O Blog

vicio da poesia

Tag Archives: Paul Gauguin

Como a morte se infiltra — poema de João Cabral de Melo Neto

10 Terça-feira Out 2017

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Arshile Gorky, João Cabral de Melo Neto, Paul Gauguin

Cabe-nos a todos, cedo ou tarde, cuidar de familiares. Para o processo de envelhecimento que nos espera, podemos aprender nos outros comportamentos e estados de espírito, que conduzam a atitudes essenciais para a fruição da vida, o melhor possível, enquanto ela durar.

No poema de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), Como a morte se infiltra, que à frente transcrevo, é um desencantado e pungente relato de desistência que acompanhamos. Embora seja frequente, não tem que ser assim.

Quando a lucidez permanece mas a autonomia desapareceu, o espectáculo dos lares de terceira idade, quais salas de espera de Deus, para usar uma expressão terrível que encontrei algures, mostra tudo o que não deve ser viver o tempo, já sem tempo para novos sonhos, mas mais que suficiente para fruir um quotidiano benigno.

O entusiasmo é sempre possível, e a alegria de estar vivo é algo que cuidadosamente se rega, e todos os dias se faz renascer. Sei do que falo. Tenho ao meu lado um exemplo vivo: à beira dos noventa anos estreou hoje com o maior entusiasmo, uma Scooter eléctrica que lhe permitirá reganhar uma mobilidade há muito perdida. E a sensação de que a aventura pode sempre recomeçar é um motor irresistível, tal como a experiência do novo é sempre um desafio que vale a pena.
Depois disto dito, aqui fica o exemplo a não seguir:

 

 

 

Como a morte se infiltra

 

Certo dia, não se levanta,
porque quer demorar na cama.

No outro dia ele diz porquê:
é porque lhe dói algum pé.

No outro dia o que dói é a perna,
e nem pode apoiar-se se nela.

Dia de dia lhe cresce um não,
um enrodilhar-se de cão.

Dia dia ele aprende o jeito
em que menos lhe pesa o leito.

Um dia faz fechar as janelas:
dói-lhe o dia lá fora delas.

Há um dia em que não se levanta:
deixa-o para a outra semana,

outra semana sempre adiada,
que eu não vê por que apressá-la.

Um dia passou vinte e quatro horas
incurioso do que é de fora.

Outro dia já não distinguiu
noite e dia, tudo é vazio.

Um dia, pensou: respirar,
eis um esforço que se evitar.

Quem deixou-o, a respiração?
Muda de cama. Eis seu caixão.

 

 

Poema publicado em Agrestes (1981-1985), e transcrito de A educação pela pedra e depois, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1997.

Acompanham o artigo imagens de duas pinturas: a abrir, de Arshile Gorky (1904-1948) O pintor e sua mãe; a seguir de Paul Gauguin (1848-1903), No jardim do hospital de Arles.

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Pocket
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

A mulher imaginada em sonetos de Gomes Leal

21 Sexta-feira Fev 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Gomes Leal, Mary Cassatt, Paul Gauguin

Mary Cassatt

Bon-vivant que foi, e ao que consta bem sucedido com as mulheres até à maturidade, Gomes Leal (1848-1921) nunca casou, e teve um final de vida trágico que faz do homem um personagem de romance soberbo. Enquanto poeta, a sua poesia, quando não ligada a assuntos de actualidade, mantém a atracção do inesperado numa oficina sem falhas: era um versificador inspirado tanto no soneto como em longos poemas narrativos.

Abundam na poesia de Gomes Leal as imagens de mulher sonhada ou desejada. Escolho hoje três sonetos onde na variedade de cenários o sonho da mulher surge. Une-os o desejo do poeta de fruir uma virgindade casta e sonhando o prazer do pecado, como à época era entendido. Enquadra esta poesia a mentalidade burguesa de final do século XIX, quando foi sucesso sem limites, e dela nos dá uma leitura esclarecedora.

 

Abro com A Jovem Miss:

 

A Jovem Miss

 

Ela é tão loura, lírica, franzina,

Tão mimosa, quieta, virginal,

Como uma bela virgem dum missal,

Toda dourada, e preciosa, e fina.

 

Não há graça mais casta e feminina

Do que a dela! — Seu riso angelical

Cria em nós todo um mundo de moral,

Melhor que tudo o que Platão ensina!

 

Por isso, e, pela sua castidade,

Deve ser gozo intenso, na verdade,

Sentir fundir-se em nós seus olhos régios…

 

E o gozo de a beijar, trémula, amante,

Deve ser quasi estranho! — e semelhante

Ao de fazer terríveis sacrilégios.

 

Sonhada a virgem angelical a quem apetece beijar, trémula, amante, passemos ao gosto do exótico em dois devaneios em forma de soneto. Em ambos, a seriedade e convicção com que o assunto se desenvolve é rematada de forma inesperada com o banal da realidade e das suas necessidades.

Mulher com flores nas mãos 1899

Phantasias

 

Tenho, às vezes, desejos delirantes

De a todos te roubar, meu lírio amado!…

E levar-te, em voo arrebatado,

Aos países fantásticos, distantes.

 

À Índia, China, ou ao Iran, e os meus instantes

Passá-los a teus pés, grave e encruzado,

Num tapete chinês aveludado,

Com flores ideais e extravagantes.

 

Nossa vida seria, — ó pomba minha! —

Mais leve do que a asa da andorinha,

E, nas horas calmosas, eu e tu…

 

Olhando o mar sereno, o mar unido,

Comeríamos os dois arroz cozido…

— Embalados num junco de bambu!

 

Se neste soneto passamos da fantasia etérea ao arroz cozido, vejamos onde nos leva A Selvagem:

Te Nave Nave Fenua 1892

A Selvagem

 

Às vezes, como os grandes fantasistas,

Sinto o desejo intenso das viagens…

E ir sozinho habitar entre os selvagens,

Como num ermo os ásperos trapistas.

 

As grandes, vastas, límpidas paisagens,

Que sabem ver os imortais artistas…

Teriam novos tons, novas imagens,

Longe do mundo avaro e as suas vistas!

 

Com uma virgem — flor dessas montanhas —

Entre os mil sons das árvores estranhas,

Dos coqueiros, bambús … fôra feliz!…

 

Dormiria em seus braços nus, lustrosos,

E ouviria, entre uns beijos voluptuosos,

— Tilintar-lhe as argolas do nariz.

Quando te casarás 1892

Os sonetos foram transcritos do livro Claridades do Sul, 2ª edição (revista e aumentada), Lisboa, 1901.

Modernizei a ortografia sempre que a eufonia do verso não saiu prejudicada. Conservei a pontuação da edição.

 

Iconografia

À bela jovem, e talvez virgem, pintada por Mary Cassatt no início do artigo, acrescentei as taitianas pintadas por Paul Gauguin, razão da troca de um futuro de banqueiro em França pela vida de paraíso nos confins do Pacífico, materializando talvez fantasias equivalentes aos devaneios poéticos que acabámos de ler.

Contos primitivos 1902

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Pocket
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Gomes Leal — três poemas de História de Jesus

30 Quarta-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Gomes Leal, Paul Gauguin

gauguin cristo amareloTermino por agora a visita à poesia de assunto religioso católico com três poemas de História de Jesus, de Gomes Leal (1848-1921) nos quais se relata a crucificação e morte de Jesus.

A história da vida de Jesus é nesta obra contada com a desenvoltura versificatória apanágio do poeta, e a poesia salta, episódio a episódio, transformando-a numa narrativa de encantamento em que as matérias de fé passam a segundo plano.

Abro com o rouxinol na cruz que canta na agonia de Cristo lembrando o Amor, o Céu. quando tudo chora em seu redor. Falar da crucificação de Jesus com a magia deste O Rouxinol do Calvário é provavelmente caso único e suponho que o episódio é apócrifo em relação à narrativa bíblica.

Segue-se-lhe a descrição das trevas em que a terra mergulhou enquanto Cristo agonizava. E nele o verso transmite o terror que a fé reclama: Fenderam-se os rochedos, com ruídos. /Um singular terror gelou os ossos.

Termino com a estocada final do soldado romano no Cristo já morto. Neste poema a doçura da mensagem de Jesus é posta em contraste com o gratuito da violência dos seus carrascos:

…

caiu enfim chagado, justiceiro, / ainda, ainda perdoando ao mundo …

…

um soldado romano vendo-o exposto, / e já morto na Cruz, lívido o rosto, / com um golpe de lança o trespassou.

 

Entrego-vos aos poemas

 

O Rouxinol do Calvário

Na noite que passou

o Cristo, no Calvário,

um rouxinol cantou

sobre a Cruz, solitário.

 

Os trigueiros soldados,

e os lirios de Salém,

perguntavam pasmados :

— Que voz canta tão bem ?

 

Como sentindo os males

das suas próprias penas,

vergavam-se nos cálix,

chorando, as açucenas.

 

Choravam os caminhos,

os dados, os cilícios,

a grinalda de espinhos,

e a esponja dos suplícios.

 

Choravam os sem luz,

e os rijos peitos bravos.

Começavam na cruz

a vacilar os cravos.

 

Pelo tranquilo espaço,

paravam as estrelas,

e o vagaroso passo

as mudas sentinelas.

 

Os peitos desumanos

ressentiam mudanças.

Deixavam os romanos

escorregar as lanças.

 

Assim cantou… cantou…

lembrando o Amor, o Céu.

Quando Jesus morreu,

do lenho, enfim, voou ! …

 

 

Trevas

Rasgou se o véu do Templo de alto a baixo,

Cortou o vento o ar como um açoite.

Rugiram os leões, e o eterno facho

do dia se eclipsou. — E fez-se a Noite.

 

Fenderam-se os rochedos, com ruídos.

Um singular terror gelou os ossos

dos legionários trágicos, vencidos

da confusão, do espanto, e dos destroços.

 

O morto surge e mais o seu sudário,

trazendo o assombro do final segredo.

O povo da Judeia do santuário

foi-se esconder na treva — e teve medo.

 

As violetas murcharam sobre a haste.

E uma voz singular, lúgubre, estranha,

soluçou pela trágica montanha :

— «Meu Pai! Meu Pai ! porque me abandonaste?»

 

 

O Último Golpe de Lança

Quando ele enfim morrendo, ele, o cordeiro,

rola mansa no ar calado e imundo,

pendeu, bem como um lírio moribundo,

sobre a haste do trágico madeiro…

 

quando, lançando o espirito profundo,

ao reino belo, grande, verdadeiro.

caiu enfim chagado, justiceiro,

ainda, ainda perdoando ao mundo …

 

um soldado romano vendo-o exposto,

e já morto na Cruz, lívido o rosto,

com um golpe de lança o trespassou.

 

Saiu daquela chaga sangue e água:

— Sangue que inda quis dar a tanta mágoa.

— Água de pranto ainda que chorou.

 

Abre o artigo o Cristo amarelo pintado por Paul Gauguin (1848-1903) em 1889, pouco depois da composição desta História de Jesus (1883). Noutra oportunidade virá à conversa a forma como os escritores simbolistas franceses olharam a pintura bretã de Gauguin e a entenderam como a materialização dos seus ideais de arte. Aqui surge tão só como uma ideia de Cristo que a arte desmaterializa.

Como curiosidade e em nota de rodapé registe-se que Gomes Leal era apenas um dia mais velho que Gauguin. Um nasceu a 6 de Junho de 1848, o outro a 7 de Junho de 1848.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Pocket
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Stéphane Mallarmé — Brisa marinha

27 Sexta-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

≈ 1 Comentário

Etiquetas

Paul Gauguin, Stéphane Mallarmé

Às vezes, na sobrecarga dos dias invade-nos um desejo imenso de evasão, uma vontade de partir, em que apenas o mar é consolação.
É do que nos fala este poema de Stéphane Mallarmé (1842-1898), Brisa marinha, para o qual vos deixo duas versões em português, ambas satisfatórias mas sem a música desolada que se ouve no original, o qual acrescento para os leitores fluentes em francês.

A pintura de Paul Gauguin (1848-1903) a acompanhar explica-se pela biografia do pintor, aquele que definitivamente partiu, deixando tudo, em busca do paraíso.

Brisa marinha (Brise marine)

A carne é triste e eu, aí! já li todos os livros.
Fugir! Fugir p’ra longe. Oiço as aves aos gritos
Ébrias na espuma ignota e sob o céu, em bando!
Nada, nem vãos jardins nos olhos se espelhando
Retém meu coração que se embebe de mar,
Oh noite! nem a luz da candeia a alumiar
O deserto papel que a brancura defende;
Nem mesmo jovem mãe que seu filho amamente.
Hei-de partir! Vapor em marítimas crises,
Iça o ferro e faz rumo a exóticos países.

Um tédio triste, em cruel e inútil esperar,
Crê no supremo adeus dos lenços a acenar.
Que os mastros, porventura, atraindo presságios,
São os mesmos que um vento inclina nos naufrágios.
Soltos no mar, no mar, sem ilhas nem esteiros.
Mas ouve, coração, cantar os marinheiros.

Tradução de Herculano de Carvalho

Brisa marinha (Brise marine)

Triste carne, aí de mim! Já li os livros todos.
Fugir! Longe fugir! As aves sinto a modos
De ser ébrias de espuma entre o mistério e os céus!
Nada, nem os jardins espelhados nos meus
Olhos, o coração retém quase afogado,
Ó noites! nem da lâmpada a ausente claridade
No branco do papel que o vazio rejeita
E nem a jovem mãe que ao peito o filho aleita.
Hei-de partir! Veleiro a mastrear, tu, larga
As amarras, demanda outra exótica plaga!

Um Tédio, desolado por esperanças cruéis,
Crê ainda nos lenços molhados dos adeus!
E talvez que esses mastros atraindo os presságios
Sejam dos que o tufão verga sobre os naufrágios
Perdidos, já sem mastros, em estéreis ilhéus …
Mas os marujos cantam, ouve, coração meu!

Tradução de José Augusto Seabra

Brise marine

La chair est triste, hélas ! et j’ai lu tous les livres.
Fuir ! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
D’être parmi l’écume inconnue et les cieux !
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe
Ô nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l’ancre pour une exotique nature !

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l’adieu suprême des mouchoirs !
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages,
Sont-ils de ceux qu’un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots …
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots !

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Pocket
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Visitas ao Blog

  • 2.356.764 hits

Introduza o seu endereço de email para seguir este blog. Receberá notificação de novos artigos por email.

Junte-se a 894 outros subscritores

Página inicial

  • Ir para a Página Inicial

Posts + populares

  • De Camões, 2 sonetos de amor
  • Vozes dos Animais - poema de Pedro Diniz
  • Cleantes de Assos — Hino a Zeus

Artigos Recentes

  • Sonetos atribuíveis ao Infante D. Luís
  • Oh doce noite! Oh cama venturosa!— Anónimo espanhol do siglo de oro
  • Um poema de Salvador Espriu

Arquivos

Categorias

Create a free website or blog at WordPress.com.

Privacy & Cookies: This site uses cookies. By continuing to use this website, you agree to their use.
To find out more, including how to control cookies, see here: Cookie Policy
  • Subscrever Subscrito
    • vicio da poesia
    • Junte-se a 894 outros subscritores
    • Already have a WordPress.com account? Log in now.
    • vicio da poesia
    • Subscrever Subscrito
    • Registar
    • Iniciar sessão
    • Denunciar este conteúdo
    • Ver Site no Leitor
    • Manage subscriptions
    • Minimizar esta barra
 

A carregar comentários...
 

    %d