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vicio da poesia

Category Archives: Crónicas

O governo deliberou

18 Domingo Dez 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Com o propósito de melhorar a eficiência da administração pública o governo decidiu tomar apenas uma medida por ano.

Esperam-se grandes modificações na vida do cidadão e anuncia-se a medida para este ano:

Decreto

O governo deliberou autorizar, a partir das zero horas de amanhã, os portugueses a morrer de qualquer maneira.

Os portugueses poderão entre outros modos anteriormente não autorizados voltar a morrer de amor ou de fome, de cansaço,  sentados, ou à espera de ser felizes. A decisão será de âmbito judicial.

Para garantir a irreversibilidade desta decisão o governo proporá brevemente à assembleia uma revisão extraordinária da constituição por forma a incorporar esta decisão no âmbito dos direitos, liberdades e garantias já consignados aos portugueses. Não está garantida a unanimidade dos parlamentares.

Noticia de última hora

Causou grande alvoroço entre a população a medida anual do governo. Sem esperar pela sua entrada em vigor assistimos a multidões a dirigir-se para a porta dos tribunais de todo o país e, sentadas nas escadarias, as pessoas esperam. Esperam morrer enquanto aguardam as decisões solicitadas, ou finalmente, morrer felizes quando a decisão for tomada.

Nova noticia de última hora

O governo foi apanhado completamente desprevenido com o entusiasmo da reacção popular.

Existe alguma perturbação da ordem pública porque as pessoas são em tal número que o transito não flui, sendo impossível aos ministros deslocar-se de acordo com as agendas das visitas já acordadas.

Aguarda-se, antes de tomar medidas drásticas, que as pessoas comecem a morrer com as primeiras decisões a divulgar a partir de amanhã.

O Sr Ministro foi incumbido de contactar a hierarquia judicial para, com o maior tacto, e sem melindre dos próprios, instar a aceleração das decisões.

Sondagem de última hora

Acabam de ser divulgados os resultados da 1ª sondagem à medida anual do governo:

10% dos portugueses acham que o governo não devia autorizar os portugueses a morrer de qualquer maneira.

27% dos inquiridos pensam que os portugueses só deviam ser autorizados a morrer depois de terem pago todos os impostos.

43% concorda com a medida do governo e acha que quanto mais morrerem melhor

16% não sabe/não responde.

4% morreu durante a entrevista.

Foram efectuadas 3047 entrevistas telefónicas para telemóvel.

O erro da sondagem é de +/- 0,1% e é determinado pelo nº de portugueses que possui apenas 1 telemóvel.

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Viagem com Stockhausen no caminho

07 Segunda-feira Nov 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Estava lindo no cemitério, hoje. Caminhava para as quatro da tarde. O sol descia para ocidente e derramava sobra a copa das árvores uma luminosidade diáfana, colocando em esplendor dourado o amarelecidos das folhas no Outono. Misturava-se nesta folhagem, onde uma ligeira brisa punha cintilações, o voluptuoso verde dos ciprestes, criando uma harmonia de sufocante beleza contra um céu num azul de Tiepolo, onde, em fundo e ao longe, algumas nuvens como que pintadas em branco e cinzento fechavam o quadro. Do chão erguiam-se as cruzes, anjos e santos em pedra que encimam aqueles centenários jazigos, transmitindo na perenidade da rocha a atmosfera do repouso eterno.

É difícil a nossa relação de ocidentais com a morte. Há o tempo do luto, mas há depois, e enquanto vivemos, o tempo da memória. Seremos vivos enquanto permanecemos na memória dos outros.

Viva, faria hoje anos a minha primeira mulher, e em lembrança deste aniversário deixei junto às suas cinzas uma rosa amarela. Aproveitei o sossego e o esplendor da tarde para reencontrar uma harmonia às vezes esquiva no passar dos dias.

Passaram quarenta anos desde que no seu primeiro aniversario depois de nos conhecemos lhe ofereci rosas amarelas e um disco com a peça Momente de Stockausen, que finalmente tem primeira audicao em Portugal esta semana na Fundação Gulbenkian. Nas palavras do compositor trata-se praticamente de uma opera sobre a Mãe Terra rodeada pelos seus filhos. Momente, a composição musical, pensa-se como o entendimento de que a eternidade não começa no fim dos tempos mas é atingível em cada momento.

A peça, para soprano, coro e orquestra, possui textos cantados de origens diversas onde se encontram fragmentos de  William Blake, Bronislaw Malinowski e outros.

São os caminhos da arte cruzados com a memória que aqui percorro, e na música encontro, tantas vezes, a direcção por onde seguir.

Nota

Pintura de Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770) titulada Uma alegoria com Vénus e o Tempo, pintada em 1754-58, e pertença da National Gallery de Londres.

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Um dia trivial

01 Terça-feira Nov 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Estou sentado frente ao palácio da vila depois de almoçar. A esplanada está semi-ocupada e a chefe de mesa escolheu-me um lugar de privilégio encostado à vedação.

É a esplanada onde tentámos em vão almoçar num nosso passeio a Sintra, lembras-te? Pedi pizza do mar e agora, na pausa final da refeição, aproveito para relatar parte de um dia trivial.

Acordei pouco ante das oito e ainda em sonhos pensei “Hoje o meu amor quando telefonar a acordar-me já estarei pronto do banho”. É claro que este pensamento foi um ápice, voltei logo à realidade. Telefonemas do meu amor, de manhã, agora não há. Perguicei até ás oito  e fui tratar do banho.

Amanheceu sem nuvens e o sol resplandecia numa luz brilhante e límpida. O ar cristalino dava a sensação viva e picante do fresco da manhã. Como é bom despertar com este esplendor. Enquanto me arrumava pus a tocar um disco com árias de operas de Mozart na voz da Berganza. Cantava-me na cabeça desde o levantar a ária de Cherubino “Non so piu” das Bodas. A ária respeita a um rapaz adolescente quando começa a sentir os ardores da puberdade. O papel é para uma voz feminina grave e apesar de já a ter ouvido dezenas de vezes, ao som de “já nem sei o que sou nem o que faço/ todas as mulheres me fazem palpitar…” renova-se-me o encanto de uma ansiedade surpresa e feliz perante a descoberta das novas sensações do corpo e do despertar para a sexualidade. Está tudo na musica, na frescura do canto, na interpretação, no suspirar, enfim, ouvi-la continua a trazer-me uma sensação de renascer.

Ainda na casa de banho, enquanto a ouvia olhei no espelho os estragos do tempo e consegui vislumbrar o ar gaiato do adolescente que teima em permanecer em mim.

Saí para o pequeno-almoço. Troquei bons-dias com a porteira. Hirta como a vassoura a que se encostava, lá se encontrava no seu posto de varrer a entrada do prédio ao longo da manhã, inspeccionando quem sai.

No café, o pequeno-almoço foi uma sandes de fiambre e sumo de laranja (aboli o queijo com receio de ver o colesterol a subir) e depois da conversa com o dono sobre a falta de laranjas e a inevitável subida do preço do sumo, bebi o café, paguei e saí.

No carro tinha a tocar uma compilação de baladas rock, companhia para a viagem. A certa altura Roberta Flack cantou “Jessie come home / there’s a hole in the bed / where you slept/” e pareceu-me ouvir-te na cama, onde àquela hora dormias, a chamar por mim. Ilusões, gostosas de qualquer forma.

Começa a haver algum transito a esta hora da manhã neste meu caminho, mas ainda não há filas. Vantagens de vespera de feirado. Consegui chegar a horas ao primeiro encontro.

Atendeu-me um rapaz em boxer e t-shirt. Tinha trabalhado à noite, disse-me. Como vem sendo hábito os papeis não estavam em ordem. Precisei fazer um enorme esforço para me parecer tudo bem.

A segunda visita foi uma senhora que me reconheceu:

–          Ah, foi o senhor que visitou a casa de minha filha o mês passado.

Tentei não parecer  completamente esquecido da visita e da própria senhora, Afinal estas são situações muito importantes na vida de quem encontro. A casa é num daqueles lugares onde ninguém deseja morar se puder escolher outro sitio. Às primeiras palavras vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Ficou viuva, tinha remodelado a casa com o marido depois da partida dos filhos, entretanto ele morreu, e agora não conseguia ali permanecer. São situações em que nunca sei bem o que dizer e despedi-me.

Segui para a terceira visita e havia encontro prévio numa bomba de gasolina. O destino era para mim desconhecido. Quando cheguei já lá estava. Era uma senhora. Segui-a de carro a caminho de lado nenhum. A certa altura apareceram duas moradias entre baldios e ruínas. Lá chegados constatou que não trazia chave, pois não morava lá. Estava decididamente bem disposto e aceitei lá voltar outro dia para concretizar a visita.

Pensei, do mal o menos, faço a ultima visita mais cedo e passeio na Vila Velha de Sintra.

Subi a calçada onde tinha a visita a fazer. Era cedo e continuei até ao cimo. A paisagem urbana é cheia de surpresas. Numa volta do caminho, subitamente, apareceu uma igreja. Possui um belo portal manuelino cheio de leveza e graça na elegância da coluna central que divide a porta de entrada em duas, e no rendilhado da pedra.

O sol, encoberto por nuvens altas, deixava ver uma luz suave e o ar tépido convidava ao descanso da subida sob as frondosas e altíssimas arvores do largo. Duas das araucárias centenárias eram mais altas que a torre sineira da igreja. Aproveitei para gozar o sossego só cortado por gritos ao longe de miúdos na brincadeira. A igreja pareceu estar sempre fechada. Gostaria de a ver por dentro. Apareceu à janela de uma das casas do largo uma rapariga a sacudir o pano de pó. Perguntei-lhe pela chave da igreja: está na posse de alguém da vizinhança? Afinal a igreja só é aberta para limpeza ou para algum casamento. Que desperdicio.

A rapariga, como vai sendo inevitável, era brasileira, simpática, e gostava de conversar. Ficámos a tagarelar um pouco sobre as condições do trabalho e Portugal. Fizeram-se horas e desci para fazer a visita.

Um casal jovem guiou-me, encantado com as minhas exclamações, pela casa e pelo jardim em socalcos serra acima. A vista a cada passo é deslumbrante sem obstáculos ou construções pela frente. A paisagem mostra ali a razão do encanto permanente de Sintra.

Aproximou-se a hora do almoço e desci à Vila Velha.

O almoço esteve bom. A gentileza do atendimento e a localização privilegiada fazem deste um lugar a que apetece voltar.

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Regresso a Kurt Schwitters

17 Segunda-feira Out 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas

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Kurt Schwitters

Tenho assitido ao sucesso do artigo sobre Kurt Schwitters (1887-1948) no blog com a dúvida sobre se tal sucesso se deve ao poema A Ana Flor, à Ursonata, ou à esplendorosa Kate Moss despida de noiva na foto que acompanha o artigo. Por via das dúvidas, regresso a Kurt Schwitters para deixar alguns exemplos da sua obra plástica, nomeadamente colagens e “assemblages” feitas depois de 1919, a partir de materiais recolhidos no lixo das ruas de Hannover e a que chamou Merzbilder.

Podemos traduzir Merzbilder por quadros ou imagens Merz.

Nas palavras do artista a palavra Merz transmite sobretudo a combinação, com propósitos artísticos, de todos os materiais concebíveis, e, tecnicamente, o principio de equivalente valor plástico na aplicação de cada material de per si. … Algodão proveniente de ambulatório, redes, cordas ou lã, são elementos com os mesmos direitos que a pintura.

De alguma forma o artista via nestas criações uma nova e frágil beleza saída dos escombros da cultura alemã naquele dealbar da República de Weimer surgida da derrota alemã na primeira guerra mundial.

Tendo integrado o movimento DADA alemão, foi posteriormente marginalizado e acusado de esteticismo e formalismo. Merz acabou sendo o movimento e a filosofia de apenas um homem, Kurt Schwitters.

Eis algumas das suas obras.

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Sonho e memória a propósito da moda hoje

11 Terça-feira Out 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Helmut Newton

Apenas o botão de desligar nos afasta do que a televisão considera importante trazer-nos a casa. Uma vez ligada, a nossa atenção acaba por ser levada para acontecimentos que desapareceriam sem que a nossa vida desse por isso. Talvez não seja o caso dessa Moda Lisboa que me entrou na sala e de cuja existência acabei por saber.

 Vi e ouvi o que quiseram mostrar na TV. Olhei as fotos de Edward S. Curtis e sem mais comentários escolhi algumas que aqui deixei ontem. Quão proxima a maneira de vestir destes fotografados está da moda hoje. Por exemplo, e pondo de lado piercings, as tranças da menina na última foto escolhida.

Estas férias, passeando à noite entre a multidão veraneante, as filas formavam-se junto aos fazedores de tranças destas. Observando quem deambulava, constatei o meu absoluto desconhecimento sobre aquele mundo que desfrutava a beira-mar e onde sobressaía uma generalizada degradação do gosto na forma de vestir.

Ainda recordo na minha primeira adolescência o cuidado que se punha no vestir para sair à noite a passear nas férias de verão. Pois este verão esplendiam ancas, mamas e gorduras sob malhas apertadas, de onde espreitavam alças de soutiens, numa moda decorada de vidros e lantejoulas, de todo surpreendente.

O deleite com que estas multidões se acotovelavam nas tendas e lojas de quinquilharia chinesa ou cigana plantadas à beira-mar, sem distinção de idade e condição, deixou-me as maiores interrogações. Súbito do escuro da escadaria de acesso à praia surgem quatro mulheres, altas, nos seus 40 anos, saltos altos, nuas, completamente nuas, como que saídas de uma foto de Helmut Newton (1920-2004). No pasmo da surpresa, a multidão calou-se e afastou-se para as deixar passar.

Passada a visão, sonho meu, direi quanto sou decididamente adversário do nivelamento por baixo sem ter no entanto a vaidade ou arrogância de pretender impor aos outros a minha opinião. Contam-me que uma das minhas tias-avós, já não sei exactamente por que via de parentesco, no período de dificuldades vivido entre as duas guerras, deixou de sair à rua por só ter um chapéu e não poder, por isso, variar a toalete com a qualidade que gostaria. Deste extremo à situação actual vai um abismo, ainda que a vaidade no vestir continue a mesma. Desapareceu apenas o gosto pela qualidade. Agora, a qualidade chinesa dá a tudo um perfume bastante diferente. Não é nem pior nem melhor, é apenas sinal dos tempos.

Certo dia, dando voz a estas perplexidades junto a uma amiga da minha idade, perguntei-lhe:

– Nas mulheres o que é que mudou nos últimos anos? e respondeu-me:

– O paradigma. As mulheres deixaram de querer parecer chic, para querer parecer sexy.

Será? pergunto eu.

Sou um esteta. Assumo-o sem preconceitos. Gosto da beleza e gosto de desfrutar da beleza em todas as suas manifestações e circunstâncias. Sei num saber de experiência feito que aprender a desfrutar o belo é consequência do conhecimento e cultura. Acontece que nem um nem outra fazem os homens melhores. São apenas aquisições que proporcionam prazeres e oportunidades inacessíveis a quem os não possui. Mas no carácter não mexem. Aí são os valores em que cada um cresceu que fixam de forma quase definitiva o adulto que seremos, embora a vida às vezes se encarregue de acertar alguns pormenores.

Nota: As duas fotos são de Helmut Newton e datam de 1981.Tituladas “Elas vêm aí”, mostram as mesmas modelos vestidas e nuas, numa assunção da condição de mulher que inclui o seu corpo. Vestidas ou nuas, a elegância permanece, e o prazer de ver renova-se a cada olhar.

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A D. Joaninha da farmácia

10 Segunda-feira Out 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Embora escreva todos os dias, nem sempre a conjuntura (dos astros, será?), se mostra favorável a um resultado convincente. E assim esta D. Joaninha permaneceu em tosco mais de quatro anos até que um destes domingos de manhã se esclareceu.
Deixo à imaginação do leitor o detalhe da vida da D. Joaninha, quem era aquele homem, pai da D. Maria, e a D. Maria até que ponto percebia ou não o que se passava com as conversas de que nos fala.

Eventualmente talvez outro domingo traga a iluminação de tão candente assunto.

Aí tendes, pois, uma pequena amostra da história da D. Joaninha da farmácia.

Levantou-se e desceu com alguma dificuldade da cama alta. Franzina, cabelo grisalho claro, pegou no robe e vestiu-o. Aproximou-se da janela.

– Ah! Finalmente um dia bonito, disse, dirigindo-se a ninguém em particular mas olhando para as camas em frente:

– As senhoras entraram durante a noite com certeza, perguntou:

– Sim, a senhora dormia, e esta senhora aqui ao lado entrou mais tarde, respondeu uma das doentes acamadas.

Era uma manhã fria e límpida de um domingo de Janeiro. Lá fora começavam a chegar os visitantes. Famílias, crianças, pessoas sozinhas, juntavam-se à entrada aguardando a hora do inicio das visitas.

Olhando pela janela e perscrutando a pequena multidão que se aglomerava junto à entrada do pavilhão do hospital, num misto de ansiedade e alegria, disse para si a meia voz:

– Não vejo ainda a minha sobrinha. Mas certamente virá!

Virando-se para a cama em frente e observando atentamente a doente ali deitada:

– As feições da senhora não me são estranhas mas não tenho nenhuma ideia de a conhecer.

– Sou de Vila Real.

-Ah! Eu sou de S.Brás, então devo estar a fazer confusão.

Afastou-se da janela e junto à cama pegou numa maleta e dirigiu-se para a casa de banho.

Teria à volta de noventa anos. Muito direita, seca de carnes, tentava manter o porte ao caminhar, arrastando ligeiramente os pés.

– Precisa de ajuda para se arranjar? Perguntou a empregada que entretanto entrou.

– Não obrigado. Consigo desenvencilhar-me sozinha.

– Nem parece ter a idade que tem. Todos estes dias esteve sempre bem disposta e simpática, comentou a empregada dirigindo-se para uma das camas ocupadas.

Virando-se na cama e falando para o lado, com alguma surpresa e estupefação na voz, a D. Maria comentou:

– Quando ela disse que a minha cara não lhe era estranha e era de S. Brás andei para trás mais de sessenta anos. E não contendo a impaciência começou a contar:

– Éramos nós pequenas e saiamos ao domingo, a minha irmã e eu, depois do almoço, a  passear de carro com o pai. A avó, com quem vivíamos, nunca ía. Agoniava ao andar de automóvel, dizia. Invariavelmente, durante muito tempo, fomos a S. Brás. Brincávamos no jardim público. O pai deixava-nos a brincar, atravessava a rua, entrava na farmácia e ficava lá a tarde inteira. Às vezes uma de nós corria, e entrava na farmácia. Só raramente é que lá estava, atrás do balcão, o pai da D. Joaninha, o farmacêutico, com uns bigodões de fazer fugir. Normalmente estava nos fundos, no laboratório cheio de frascos esquisitos de onde nem nos podiamos aproximar. Sentados lado a lado, num canto a seguir à montra, o pai e a D. Joaninha, esta senhora, conversavam. Ao ver uma de nós dizia:

– Olá  menina que crescida está. Quer um rebuçado de mentol? É bom para a garganta.

Levantava a tampa de enorme frasco de vidro pousado sobre a mesa entre os dois, tirava uma mão cheia de rebuçados enrolados em prata e dava-nos:

– Tome lá menina. É para si e para a mana.

Quando entardecia o pai saía da farmácia, a D. Joaninha vinha até à porta, o pai despedia-se com um aceno da D. Joaninha e voltávamos para casa.

Até ir para o liceu estes foram os passeios de domingo. Depois, nós já crescidas, eu e a mana, éramos gémeas, passávamos os domingos de outra maneira e não mais soubemos desta senhora.

Há já muitos anos alguém em conversa, falando do filho que se tinha mudado para S. Brás e lá vivia, por acaso comentou que a D. Joaninha continuava na farmácia tão bonita quanto em rapariga e nunca tinha casado.

Voltou da casa de banho. Toalete feita, cabelo penteado, um rasto de perfume. Com um ar prazenteiro disse para as senhoras em frente:

– Hoje espero ter alta. Vim fazer um exame à vesícula e já cá estou há oito dias.

– As senhoras que aqui estão entraram esta noite com o mesmo problema respondeu-lhe a empregada, e continuou:

– suponho que o médico já assinou a alta da senhora, foi o que me pareceu ouvir a senhora enfermeira dizer há pouco.

Tocou o telemóvel.

– Estou! Ah és tu Luisinha.

-….

– Sim, devo ter alta hoje.

– …

– Sim, e não te esquecas, traz-me a saia azul e a blusa vermelha.

E desligou.

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O prosaico quotidiano

06 Quinta-feira Out 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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De algum tempo a esta parte almoço habitualmente perto do atelier à sexta-feira, no mesmo restaurante, grão cozido com bacalhau. O bacalhau é de qualidade variável, o grão é sempre saborosissimo. É um restaurante antigo, data do inicio da ocupação do bairro, o final dos anos quarente e o inicio dos anos cinquenta do século XX. A clientela é maioritariamente de moradores e com o envelhecimento da população residente, são mais mulheres que homens de idade, os frequentadores. Os homens morrem primeiro, como se sabe. Dá-se até o caso de, como os empregados lá estão desde miúdos, acompanharam o envelhecimento dos clientes e guardam, com a maior parte, um certo carinho, dando ao local um peculiar ar de familia. Quando acontece algum cliente ficar doente e acamado, lá vão a casa, com o almoço, ora um ora outro dos empregados. A mesma atenção acontece quando se mudaram para algum lar de terceira idade. Aí vão buscar a cliente ou o cliente para trazer a almoçar indo depois dar um pequeno passeio. Casos há em que até partilham a gestão da conta bancária onde a pensão é depositada.

A conversa que aqui trago ocorreu numa dessas sexta-feiras.Tinha acabado de almoçar e com o café peguei no jornal. A senhora que entretanto se sentara na mesa ao lado perguntou-me:

– Acha que ainda vale a pena ler jornais? Dizem cada um a sua coisa. Os meus filhos, um é economista e o outro empresário repetem-me:

– Deixa lá mãe, não te preocupes. Mas preocupo-me. Tenho acções e não percebo nada do que se passa. Como é que podemos ter uma opinião, não lhe parece? No natal passado foi um quebra-cabeças com as prendas. São 10 netos e seis bisnetos, nem sei o que lhes dar. Resolvi escolher moedas estrangeiras que sobram das viagens e dar umas quantas a cada um. Não sei quanto valem, os pais que as troquem, disse-lhes. Um dos bisnetos tem agora 8 anos e quando viu as moedas perguntou-me:

– oh bivó tu és negociante de moedas? Veja lá o que são os miúdos hoje.

Vim de taxi da Lapa até aqui. Moro ali na Praça de Londres mas fiquei num dos meus filhos. Eles não querem que esteja sozinha mas hoje em dia não se pode meter ninguém em casa, é uma preocupação e eu o dinheiro que dou por mais bem empregado é até o das refeições. Não há preocupações de compras, nem de cozinha nem nada. Ah mas o taxista não se calou toda a viagem, até paguei o dobro do costume. Mas o homem tinha muita razão. Contou-me quase a vida toda. Tinha-se separado da mulher agora aos 64 anos. Ela é que o deixara. Fora viver com um brasileiro e a mulher deste. Uma dessas novas religiões que aí há. Agora parece que vivem os 3 juntos. A mulher quer o divorcio mas ele é católico e não quer dar-lho. Além de que tinha ainda que lhe dar metade do valor da casa. Uma tragédia. Não tinha o dinheiro, não tinha idade para pedir empréstimo e se vendesse a casa, com o que sobrava não conseguia comprar outra. Enfim problemas. Ainda me contou que encontrou um dia a mulher com o brasileiro e este a rir-se lhe disse:

– Ainda havemos de gozar com o seu dinheiro. Imagine. O homem pensou em matá-la e tudo, mas um amigo conhecia um guarda na prisão do Linhó e para o dissuadir levou-o lá dizendo-lhe:

– Vê bem, tu máta-la, és condenado e passas aí dentro o resto dos dias. É isso que queres?

Bem, o homem parece que se acalmou. E também matar é pecado.

Agora, disse-me então, que se calhar vai para o Brasil. Um rapaz de um café perto de onde mora falou-lhe dos preços das casas e do custo de vida na terra dele, uma vilória no interior do Brasil e o homem anda a fazer contas à vida para ver se emigra para lá. São só tragédias por todo o lado.

Tinha que ir trabalhar, levantei-me e despedi-me:

– Então muito boa tarde, gostei muito.

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Os livros à Cecílio de Sousa

27 Terça-feira Set 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Livrarias

Para quem gosta de livros é uma alegria encontra-los quando os procura, mas não é fácil em Portugal a vida de um amante de livros. O descaso de quem vende, a inanidade da maior parte da edição nova, a ignara displicência de quem atende, tudo contribui para nos afastar das livrarias em geral. Felizmente há excepções e algumas, de tão surpreendentes, até duvidamos que existam.

Habituado a vasculhar alfarrabistas e a comprar na net o que me ia despertando a curiosidade, demorei a conhecer a livraria Poesia Incompleta, em Lisboa. É o ser um caso único, uma livraria que apenas vende poesia, e um livreiro que sabe do que vende, que me leva a esta nota.

Ao perguntar por um ou outro livro de poesia a algum alfarrabista mais informado, por diversas vezes aconteceu aconselharem-me a livraria Poesia Incompleta como lugar possível para o encontrar. Não sendo habitualmente títulos urgentes, pois os livros por ler abundam sobre a mesa, o tempo foi passando até que no ano passado, por esta altura, inicio da minha rota outonal pelas livrarias da baixa, decidi meter pés a caminho. Entretinha-me na altura com a poesia de Tomás Pinto Brandão e sabendo da confusão de autoria em alguns dos poemas, tinha uma vontade enorme de encontrar qualquer livro com poesia de Gregório de Matos para além do pequeno livro há anos editado pela & etc e esgotada que está a edicão da INCM dos anos 80. Sem grande esperança lá fui.

Entrei, perguntei a medo por poesia de Gregório de Matos, à espera do habitual olhar de estranheza, quando fui surpreendido por um sim, tenho. E afinal tinha, não só mais que uma antologia de origem brasileira, como a edição brasileira de parte da tese do Prof. Francisco Topa, professor na Universidade do Porto e estudioso da obra do poeta, e que eu sabia existir por referências na net.

Contente e entusiasmado, lá voltei, não tantas vezes como gostaria, mas cada visita resulta em sacos cheios de livros que levo algum tempo a degustar.

Encontrada a rua, é a ultima que desce à direita, a caminho do Tejo, antes de chegar ao Príncipe Real, vindo do metro do Largo do Rato, à entrada surge-nos uma sala pequena onde a simpatia do Mário nos recebe. Os livros oferecem-se à curiosidade do olhar em estantes e espalhados por bancadas. E há sempre uma qualquer inesperada surpresa que nos chama a atenção. Uma novidade que saiu e da qual nem rasto nas livrarias mainstream, um título estrangeiro que tivemos curiosidade na net, mas por não conhecer o conteúdo não comprámos, uma edição julgada esgotada, mas que afinal o Mário desencantou nos fundos esquecidos de um qualquer armazém de distribuição, enfim um mundo de surpresas à nossa espera. E na secção ” não tem pois não?” encontramos os livros mais inesperados, e tantas vezes preciosos achados de poesia, basta perguntar ao Mário, pois a secção está na sua cabeça. O livreiro sabe do que vende e quando não tem talvez consiga arranjar.

Seria o mundo perfeito da poesia se dispusesse da componente alfarrabista expandida, por forma a tornar disponíveis tantas centenas de títulos que a penúria da edição portuguesa entretanto tornou raros.

É na poesia noutras línguas que a livraria se mostra preciosa. São centenas os títulos e autores de outra forma inacessíveis em Portugal, com destaque para a poesia em castelhano que tanta falta faz ser lida por estas terras. Não é sem razão, qualquer que seja o prestígio do Nobel, que o castelhano é a língua com maior número de poetas premiados por ele.

Começado o Outono, e antes que a minha hibernação invernal recomece, rebolando-me em casa com as leituras do que entretanto encontrei, lá voltarei em breve para vasculhar muito do que nem sei que existe.

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Dois textos de Miguel Martins

22 Quinta-feira Set 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Miguel Martins

Para além da ausência e dos percalços da paixão, tinha sido um dia quase perfeito. De manhã o trabalho levou-me até ao mar. À tarde, um par de horas à conversa com um amigo sobre poesia, sobretudo, e a oferta do livro que é o pretexto desta prosa.

Jantei no Sergio, incluindo o tiramisu da minha perdição, e resolvi ir ao cinema. O novo filme de Woody Allen, Meia-noite em Paris, terna e lúcida reflexão sobre a nostalgia e o sentido que a cultura dá à vida, foi a cereja.

Chegado a casa, pego no livro oferecido e a leitura é quase compulsiva. Os fios com que o acaso nos tece a meada da existência têm destas coincidências: entre os textos do livro, surge uma reflexão sobre as mulheres, que aqui reproduzo, e encaixa no que hoje me preocupa:

10 – DAS MULHERES

As mulheres (digo: algumas mulheres) (digo: algumas mulheres, poucas) (digo: algumas mulheres, poucas, e nenhum homem) acalmam-me, tiram-me das minhas circunstâncias. Corpo com o corpo – sexo, pele, boca, mãos –, com a voz, apenas com a presença. Às mulheres tudo me parece possivel. Talvez por isso as trate com maior exigência. Quando o não fazem, é porque não querem ou porque os homens são umas bestas. Os homens, prosaicamente, não fazem o que nao podem, brutos coitados. Às mulheres pode-se e deve-se (e devem-se) exigir o poema permanente. E criar as condições para que não se tenham de preocupar com mais nada para além disso. Só isso permite aos machos (alguns, poucos) fugazes fogachos de poesia. Só isso evitará o quase inevitável: que neste mundo haja mais pedreiras do que prados, mais escaravelhos sobrevivendo à fuligem do que cachorros panando-se na areia. Tirésias, que voltou a ser homem depois de ter sido mulher, ensinou-nos que as mulheres sentem dez vezes mais prazer do que os homens. É por isso, estou certo, que se preocupam menos com o que não interessa. E foi também por isso que com elas aprendi o pouco que sei acerca de prioridades: I.ª o prazer, 2.ª o prazer,3.ª o prazer, 4.ª o prazer, e por aí fora. Se assim for, não nos preocupemos com o Céu – tê-lo-emos alcançado aqui em baixo e Deus e os anjos virão ter connosco.

 

O livro – LÉRIAS – de Miguel Martins, recentemente editado pela AVERNO, reúne um conjunto de textos previamente publicados pelo autor num blog.

Poeta de quem conheço mal a poesia, revela nestes textos, alguns com acentuado pendor poético, um olhar sereno e um tanto irónico (a começar pelo título) sobre as voltas da vida e a hierarquia do que na verdade vale a pena guardar como presente por estar vivo.

Lido o livro, onde algumas afinidades encontro, transcrevo o ultimo texto nele publicado:

27 – FINE

Os sentimentos são paisagens áridas, imprecisas, tremeluzentes, desconfortáveis.

Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado, dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura.

Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem.

Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles restasse apenas uma mancha de gordura no chão.

Em qualquer caso, emudeceriam. Ou não seriam escutados, o que vem a dar ao mesmo.

Nunca contemplei esta hipótese por mais de cinco minutos – certamente, nem tanto.

Não consigo. Não sei. Julgo que, no fundo, é o que menos quero. E que essa é a raiz da minha resistência. Crónica e aguda.

Os sentimentossão onde sei viver, onde me sinto menos morto.

Os sentimentos sou eu.

Os melhores.

Os piores.

O beijo.

A bala.

(Ou vice-vresa).

Todos os nomes da intranquilidade.

 

Aqui chegados remeto-vos para Pandémica e Celeste de Jaime Gil de Biedma , dando uma vez mais conta das continuidades que fazem a poesia transversal ao tempo e à geografia, quando com sinceridade fala do homem e da sua circunstância:

Pandémica e Celeste – um poema de Jaime Gil de Biedma (1929-1990)

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Aventura polaca – Carta a um amigo

27 Sábado Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Artigo em reformulação.

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