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Gomes Leal (1848-1921) dá-nos em  A Sesta do Sr. Glória, com bonomia pontuada de acentos irónicos, marca de água da sua poesia não panfletária, um retrato de família burguesa de final do século XIX, saboreando o seu bem-estar e contentamento de viver.

Não é matéria frequente da poesia realista de final de oitocentos o tom, despido de considerações ideológicas ou de moralidade, tão só deixando ver, qual pintura de género, uma particular ”joie de vivre”.

O poema traz uma saborosa evocação de uma sociedade extinta, e, ao leitor de hoje, o conhecimento histórico da sociedade e costumes da época, permite, talvez, os juízos de valor que o poeta se inibe.

 

A Sesta do Senhor Glória

É no fim do jantar. — Deram três horas
No bom relógio antigo dos avós.
E o senhor Glória pega numa noz
Com um ar de quem trata com senhoras.

A casa de jantar toda pintada
E o estuque cheio d’aves, de paisagens,
De ninfas, prados, d’águas, de boscagens,
Tem uma forma antiga e recatada.

D’involta com seus goles de Madeira
Saboreia a senhora o seu café.
E ao lado, um filho rúbido, de pé,
Parece um pregador sobre a cadeira.

No colo da matrona dorme um gato
No melhor sono cómodo do mundo,
Enquanto, em baixo, um cão grave e profundo,
Contempla uns restos, que inda estão num prato.

O senhor Glória fala, chocarreiro,
Do seu cunhado Aleixo de Miranda.
Lá fora, um papagaio num poleiro,
Diz cousas aos burgueses, da varanda.

Com um ar meio cómico e boçal,
Um sisudo criado atrás, de pé,
De vez em quando fala menos mal:
— O senhor Glória aspira o seu café.

Muito tempo assim ficam nesse estado
De santa sonolência e beatitude,
Mais que assaz conhecido da virtude,
quando tem digerido e bem jantado

No entanto, o senhor Glória, olhos dormentes,
Contempla, na parede, os bons pastores,
Confidentes fiéis dos seus amores,
— Que outrora hão já sorrido aos seus parentes.

Duas pastoras falam com poesia,
Numa vereda de álamos umbrosos,
E isto acorda-lhe os tempos virtuosos…
Que era hora de jantar era ao meio dia!

Belos tempos — pensa ele — de virtude,
De glória, amor, coragem, fé ardente,
De longas procissões e de saúde,
De singeleza e paz — vida contente!

E o senhor Glória, aqui, num travesseiro,
Deita a cabeça, de pensar prostrado.
— O papagaio ri no seu poleiro.
— E a senhora sorri para o criado.

in  Claridades do Sul, segunda edição revista e aumentada, Empresa da História de Portugal, Lisboa, 1901.

Tal como no poema a certa altura se refere — No entanto, o senhor Glória, olhos dormentes, / Contempla, na parede, os bons pastores, / Confidentes fiéis dos seus amores,  — a vida por esta época para os senhores endinheirados não se limitava a esta placidez doméstica; e isso mostra a imagem a abrir o artigo. Trata-se do fragmento de um poster de Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901), Reine de Joie, de 1892.
Contemporâneo próximo deste Sr. Glória, neste poster observamos não um jantar de família, mas uma ceia, talvez tardia, numa noite de escapadela, deixando a senhora entregue às suas ocupações.

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