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vicio da poesia

Monthly Archives: Maio 2014

Vinho e amor — um poema de Ibn Baqî em duas versões

16 Sexta-feira Maio 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Raros/Curiosos

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Ibn Baqî, Poesia do Al-Andaluz

Miniatura persa 01A

Vinho e amor, combinação sublime que a poesia canta nos mais variados registos, surge em quase todas as tradições poéticas que o prazer não temem. Hoje, um poema do cancioneiro herdado do Al-Andaluz, transcrito em duas versões. O poeta, esse foi Ibn Baqî  (?-1150).

De Ibn Baqî apenas sei que nasceu em Toledo. Segundo as fontes consultadas terá sido um poeta errante desde a juventude, partindo cedo para Saragoça, passando a Córdova e mais tarde Sevilha. Terá atravessado o estreito de Gibraltar até Marrocos, de onde, na sua continuada busca e insatisfação (diz-se que era muito orgulhoso de si) regressou à Andaluzia natal, onde morreu em 1150.

 

O poema, todo ele excitação e força, tem nas versões de Jorge Sousa Braga, primeiro, e David Mourão-Ferreira, depois, resultados equivalentes na dissemelhança das opções de tradução.

 

Cena de Amor

 

Enquanto a noite arrastava a sua cauda de sombra

dei-lhe a beber vinho escuro e espesso como o pó de almíscar

E estreitei-a contra mim como um guerreiro estreita a espada

e as suas tranças pendiam dos meus ombros como talins

 

Quando por fim se rendeu ao sono afastei-a de mim

Afastei-a do meu peito

para que não adormecesse sobre uma almofada palpitante

 

Versão de Jorge Sousa Braga

 

*

Quando a noite arrastava a sua cauda de sombra,

dei-lhe a beber um vinho escuro e espesso

como o almíscar em pó

que se sorve pelas narinas.

 

Apertei-a com força, como o valente aperta a espada,

e as suas tranças eram correias de couro

que de meus ombros afinal pendessem…

 

Até que finalmente a afastei de mim

(de mim, a quem estava abraçada…)

quando ao peso do sono se rendeu.

 

Sim, afastei-a do peito que a amava

— para que não dormisse, em sobressalto,

sobre uma tão incómoda almofada

que só por causa dela palpitava.

 

Versão de David Mourão-Ferreira

Notícia bibliográfica

 

Tradução de Jorge Sousa Braga in O Vinho e as Rosas, Antologia de poemas sobre a embriaguês, Assírio & Alvim, Lisboa, 1995.

 

Tradução de David Mourão-Ferreira in Vozes da Poesia Europeia – I, Colóquio Letras nº163, Lisboa Janeiro-Abril de 2003.

 

Traduções feitas a partir de fontes indirectas, e que serão em David Mourão-Ferreira a histórica versão castelhana de Emilio Garcia Gomez, não sendo a fonte indicada para a tradução de Jorge Sousa Braga,

 

Mahmud Sobh, El diván de la poesía árabe oriental y andalusí, Visor Libros, Madrid, 2012.

 

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A Cíntia — uma elegia de Propércio

13 Terça-feira Maio 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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David Mourão-Ferreira, Propércio

Charles André van Loo - retrato de rapariga 530

Contemporâneo que foi de Horácio, e pouco mais velho que Ovídio, Propércio viveu na segunda metade do século I antes de Cristo.

Nascido provavelmente em Assis, numa família de posses, vítima da guerra civil, cedo foi para Roma tentar carreira forense ou na política. Seduzido pelo ambiente literário e mundano da capital do mundo, ei-lo poeta com o livro I das elegias publicado em 28a.C.

A marca história da sua vida foi a opção por consagrar a existência, como poeta e cidadão ao serviço da puella [amada] em detrimento da res publica [coisa pública] como era prática e exigência social da época.

Apaixonado por uma mundana, Cíntia, a sua vida e poesia foram uma afirmação da liberdade de escolha do indivíduo perante o autoritarismo de uma moral pública invasora.  

Na elegia 15 do Livro II fala o poeta de uma grande noite de amor. Na variedade de linha de pensamento e estilo que caracteriza as suas elegias, o poeta aproveita para aconselhar a nudez na prática do amor.

…

aprende que em amor os olhos são quem manda

…

 

e também declarar a eterna paixão por Cíntia, a amada. Corroborando aquilo que foi uma sua escolha de vida, defende a opção pelo amor em detrimento da glória pela guerra, pois, como na  elegia 5 do livro III escreveu a abrir:

 

Pacis Amor deus est, pacem veneramur amantes:

 

O Amor é um deus de paz. / Só a paz veneramos /nós outros, os amantes.

 

(tradução de David Mourão-Ferreira)

 

Entrego-vos a um extenso fragmento da elegia 15 do Livro II, a qual possui um total de 52 versos,  numa bela versão de David Mourão-Ferreira (1927-1996).

A Cíntia

 

Oh, que feliz me sinto! Ó noite assinalável

com uma pedra branca! E tu, pequena cama,

p’lo prazer que me deste, eis-te santificada…

Que murmúrios, à luz duma velada lâmpada!

E que luta, depois com a luz apagada!

Tão breve ao meu ardor a túnica interpunha,

como, de seios nus, comigo enfim lutava!

Se me via a dormir, logo os lábios depunha

em meus olhos, dizendo: “Indolente, assim jazes?…”

E os braços de nós dois renovavam abraços;

e meus beijos sem fim detinham-se em teus lábios.

 

É Vénus profanar amarmo-nos na treva:

aprende que em amor os olhos são quem manda.

Ao tê-la visto nua abandonar o leito

é que Páris, então, por Helena se inflama…

E Endimião vai nu ante a irmã de Febo

e nus, ele e a deusa, assim vão para a cama…

Se te obstinas tu a deitar-te vestida,

toda te rasgarei: sentirás minhas mãos…

E mais longe eu hei-de ir, se o furor me domina:

há-de ver-te marcada a tua própria mãe!

Deixa esse pudor a quem já teve filhos,

tu que não tens sequer descaídas as mamas…

Mas nós, enquanto o Fado assim o determina,

sigamos com amor os olhos saciando!

E venha então a noite; e que nunca termine…

E que o dia jamais tenha dia seguinte!

 

…

 

É errado supor que o amor tenha fim:

o verdadeiro amor, esse, nunca termina.

Desentranhe-se a terra em frutos inesperados,

agitem-se no Sol os mais negros cavalos,

à nascente retorne o volume dos rios,

fiquem secos no mar os húmidos abismos:

nem mesmo assim darei a outra o meu amor,

pois vivo lhe pertenço, e lhe pertenço morto.

 

Possa eu, a seu lado, iguais noites passar,

terei a ilusão de que sou imortal:

a ilusão de haver longamente vivido,

mesmo que só me reste um só ano de vida!

Se toda a gente assim desejasse estar vivo,

não ‘staríamos nós de outros erros cativos:

e nem armas cruéis nem navios de guerra

manteriam em Roma os cuidados que a cercam.

 

Elegias, Livro II, 15, vv. 1-26 e 29-46

 

Notícia bibliográfica

 

Tradução de David Mourão-Ferreira in Vozes da Poesia Europeia – I, Colóquio Letras nº163, Janeiro-Abril de 2003.

 

Aproveito para indicar ao leitor curioso a magnífica edição dos quatro livros de Elegías de Propércio com o texto latino e tradução em espanhol (pois desconheço qualquer integral em portugês) preparada por Francisco Moya e António Ruiz de Elvira, em edição Cátedra, Madrid, 2001.

 

Para interessados na História da Literatura de Roma Antiga, a edição da FCG da obra do mesmo nome, com direcção de Mario Citroni, é companhia indispensável. Edição em Lisboa, 2006.

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O Livro da Vida por António Feijó

04 Domingo Maio 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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António Feijó

India sec XIX maternidadeA

Vai do nascer ao morrer em cada um de nós, na presença ou na memória, a mãe, razão e mistério de quem somos no acaso da vida.

 

Há um recato que me exigo ao assinalar no blog o Dia da Mãe. E se às mulheres é possível a simultaneidade de serem filhas e mães e com isso viver os sentimentos cruzados que daí derivam, aos homens apenas resta o sentimento filial, e nele incluir o espanto da graça de existir.

 

Por este Dia da Mãe que hoje se comemora em Portugal transcrevo de António Feijó (1859-1917) o poema O Livro da Vida, lição de que à vida, mais vale vivê-la que procurar-lhe nos livros o sentido. Mas é bom seguir na vida acompanhado pelos livros: na experiência dos outros encontramos muito do que em nós por vezes é incompreensível, e a poesia torna evidente.

 

O Livro da Vida

 

Absorto, o Sábio antigo, estranho a tudo, lia…

— Lia o “Livro da Vida, — herança inesperada,

Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria

Ao primeiro clarão da primeira alvorada.

 

Perto dele caminha, em ruidoso tumulto,

Todo o humano tropel num clamor ululando,

Sem que ele de sobre o Livro erga o seu magro vulto,

Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

 

Passa o estio, a cantar; acumulam-se invernos;

E ele sempre, — inclinada a dorida cabeça, —

A ler e a meditar postulados eternos,

Sem um fanal que o seu espírito esclareça!

 

Cada página abrange um estádio da Vida,

Cujo eterno segredo e alcance transcendente

Ele tenta arrancar da folha percorrida,

Como da mina obscura a pedra refulgente.

 

Mas o tempo caminha; os anos vão correndo;

Passam as gerações; tudo é pó, tudo é vão…

E ele sem descansar, sempre o seu Livro lendo!

E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.

 

Nesse eterno cismar, nada vê, nada escuta:

Nem o tempo a dobrar os seus anos mais belos,

Nem o humano sofrer, que outras almas enluta,

Nem a neve do inverno a pratear-lhe os cabelos!

 

Só depois de voltada a folha derradeira,

Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado,

É que o Sábio entreviu, como numa clareira,

A luz que iluminou todo o caminho andado…

 

Juventude, manhãs de Abril, bocas floridas,

Amor, vozes do lar, éstos do sentimento,

— Tudo viu num relance em imagens perdidas,

Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.

 

Mas então, lamentando o seu estéril zelo,

Quando viu, a essa luz que um instante brilhou,

Como o Livro era bom, como era bom relê-lo,

Sobre ele, para sempre, os olhos cerrou…

 

in Sol de Inverno, ultimos versos, (1915), Aillaud & Bertrand, Paris-Lisboa, 1922

 

A imagem de abertura mostra uma escultura proveniente da Índia, talvez do século XIX.

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