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vicio da poesia

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Vindo das Mil e Uma Noites

09 Quarta-feira Jun 2010

Posted by viciodapoesia in Erótica, Raros/Curiosos

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Abu Navas, Jorge de Sena

Continuamos com o inextinguível filão da poesia de amor nas suas diversas facetas.

Vindo dos tempos das Mil e Uma Noites, chegamos pela mão da sábia tradução de Jorge de Sena, a um poema de ABU NOVAS (c.750 – c. 813).

Tendo nascido na Pérsia, ABU NOVAS  viveu longamente em Bagdad na corte do califa Harun Al-Rashid (reinou entre 786 – 809), sendo considerado ainda hoje um dos maiores poetas do seu tempo, se não o maior, e um dos grandes da poesia árabe classica, nas palavras de Jorge de Sena.

A sua poesia dentro do formalismo extremamente calculado da poesia árabe clássica, trouxe uma desenvoltura extraordinária, um tom de anacreontica graciosidade e leveza, que não recua ante o mais licencioso e é o espelho de uma cultura que herdou, como a Europa cristã não, o hedonismo e a desinibição do mundo-greco-latino. É de novo Jorge de Sena quem assim escreve na notável antologia de poesia universal POESIA DE 26 SÉCULOS – De Arquíloco a Nietzche, de onde retirei o poema, e que ficará como um marco na bibliografia portuguesa.

Feitas as apresentações, vamos ao poema.

“DEUS SABE QUE NINGUÉM TEM …”

Deus sabe que ninguém tem

instrumento igual ao meu:

venham medi-lo e hão-de ver

o tesouro que El’me deu.

Tomai-o – isso! – na mão:

é meu timbre de valor.

Quem o gosto lhe descobre

sucumbe ao terno ardor.

Tão alto como um pilar

(como um pilar não encolhe)

visto ao longe na distância

de qualquer lado que se olhe.

Venham pegar, e apertá-lo

com força na vossa mão.

E  levai-o à vossa tenda,

entre onde os montes estão.

Sêde vós a lá guardá-lo

com vossa mão cuidadosa

Vêde quanto ergue a cabeça

como bandeira orgulhosa!

Nem dareis pela entrada,

tão corajoso ele avança!

Jamais pende como a vela

quando o vento se descansa.

Que el’ seja asa da panela

entre as pernas escondida,

tão vazia desde o fundo

até à borda cingida.

Venham ver a maravilha

que logo se ergue tão pronta!

Tão rara e tão portentosa,

tão rica de bens sem conta!

E vejam como endurece

tão forte e tão magistral:

É coluna dura e longa

de uma força sem igual.

Se quereis pega segura,

ou colher que bem remexa,

outra melhor não tereis

para panelas sem queixa.

Pegai nesta – que ela esteja

na vossa panela ardente,

lá onde só um instrumento

haverá que vos contente!

Nem sonhais – amores – o gosto

que vos dará tal espada,

mesmo em panela de cobre

ou de prata chapeada.


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Tavira num poema de 1854

21 Quarta-feira Abr 2010

Posted by viciodapoesia in Raros/Curiosos

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Estácio da Veiga

 

Esquecido nas páginas de O BARDO, entre um poema de Soares de Passos e outro de Camilo Castello-Branco, encontrei este poema, recordação da minha Tavira natal e escrito no dia de S. João de 1854.

O dia de S. João.

Saudades da minha terra

Les beaux jours du printemps ont passé comme un jour,
Et ces beaux jours pour moi sont perdu sans retour.
Michaud – Regrets du Proscrit.

Quem dos céus da minha terra / Não viu o límpido azul,

Quem da sua verde serra / Não viu nunca as rasteirinhas

Áureas, argenteas florinhas / Sorrindo à brisa do sul;

 

Quem em noites d’alma lua / Lá junto à beira do rio,

Quando no rio flutua / Da lua o clarão saudoso,

Não viu quedo e silencioso / De mágoa o peito vazio;

 

Quem o crepúsculo vago / Não viu ali uma vez

A debuxar-se num lago, / Como em face de donzela

Se retrata a imagem bela / Da mais pura candidez;

 

Quem jamais ouviu do sino / Do mosteiro d’Atalaia

Aquele som peregrino, / Que na quebrada dos dias

Tocando ás Ave-Marias / No espaço em ondas se espraia;

 

E quem jamais o perfume / Daqueles campos sentiu,

Onde brotam em cardume / Singelas, frescas boninas,

Quais assim noutras campinas / Vista d’homem nunca viu;

 

Oh! Não sabe o que é um riso / Reflectido lá no céu

Na face de um paraíso / Que entre serra e mar se estreita;

Nem jamais viu tão perfeita / A natureza sem véu!

 

Na minha terra um só dia, / Ai, dá tanta e tanta luz,

Que n’alma brota a poesia, / Quando da serra na encosta

Do sol a imagem se arrosta, / Ou quando no mar transluz.

 

Cada folha que ali brota, / Cada conchinha do mar

São de poesia uma nota; / E a natureza mais rude

Canta-a em seu alaúde / O poeta que sabe amar.

 

E eu canto assim tão magoado, / Dando de mágoa um sinal,

Porque este dia saudado / Nas aldeias e cidades

Veio avivar-me as saudades / Do meu ninho paternal.

 

Lembram-me as galas formosas / D’este dia tão gentil,

Cuja aurora toda rosas / Passava beijando as flores,

Qual fresca manhã de Abril.

 

Neste dia eu via o povo / Mágoas suas a espalhar;

Mas hoje só diz de novo / À triste lembrança minha

O quanto passou asinha / A quadra do meu folgar!

 

Que saudades que eu não tenho / Da vida que então vivi!

Hoje lembro-me do lenho / Em que eu ia rio avante

Junto à serra verdejante / Dessa terra em que nasci.

 

Hoje cresce-me a saudade / Das águas do meu Gilão;

Lembra-me aquela cidade / Com seus brincs populares,

E lembram-me os meus folgares, / Folgares que já não são.

 

Lembram-me aquelas lareiras / Onde de verde alecrim

Ardiam vastas fogueiras / Entre dois mastros erguidos,

De murta e flores vestidos, / Quais outros não vi assim.

 

Lembram-me as belas folias / Daquelas terras de além,

Que nestes e noutros dias / Ali o povo engendrava,

E tudo que então amava / Lembra-me agora também.

 

Que tempo! Que tempo aquele / Que tão rápido passou!

Hoje mais não tenho dele / Do que uma grata lembrança

Pois que apagada é a esperança / Que desde então me ficou!…

 

Oh! Quem inda fora um dia / Ver meus lindos laranjais,

Onde ás tardes triste eu ia / Por sobre verdes folhagens

Da ribeira junto ás margens / Deslaçar meus tristes ais!

 

Quem pudera, oh! Quem pudera / Ir lá ver o adeus do sol

Nas tardes de primavera, / E ouvir gorgeios suaves

Daquelas tão lindas aves, / E os cantos do rouxinol!

 

Oh! Minha formosa terra, / Quem dentre os encantos teus

Lá da tua verde serra / As flores vira medrando,

E à luz da lua alvejando, / Quais as vejo em sonhos meus!

 

Ai que saudade tão bela / É esta que a pátria dá!

Eu que sei tão bem sofrê-la, / Posso dizer sem vaidade

Que igual a esta saudade / Outra saudade não há!

 

Dá-me, oh dia prazenteiro, / Um raio do teu fulgor,

Que ser possa mensageiro / De saudosos pensamentos,

E que os leve em meus lamentos / Ao berço do meu amor!

Lisboa 1854 – Junho 24.

De seu nome completo, Sebastião Philippes Martins Estácio da Veiga (1828-1891), nascido em Tavira e hoje esquecido enquanto poeta, foi um notabilíssimo arqueólogo, cuja biografia vale a pena ler na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

Poema de um moço de 25 anos, espanta a tristeza nostálgica com que recorda os tempos de adolescência vividos na cidade.

Ler este poema levou-me nos braços das minhas próprias recordações, sobretudo as aventuras de descoberta daquela natureza esplendente de luz, e inebriante na gama do seu colorido feérico que vai dos azuis do mar e céu, ao longe, aos verdes e ocres da serra afastada, e sobretudo deslumbra, no branco do casario, estonteante até doer, em tardes de sol em fogo.

Foi um tempo vivido na saída da infância, em que quase nada teria mudado no pouco mais de um século decorrido desde a adolescência do poeta evocada no poema.

Haveria de novo o comboio, construído já na segunda metade do século XIX e inaugurado no alvor do séc. XX, e aquela assustadora ponte ferroviária, desafiadora e inacessível para os olhos de uma criança.


Esta ponte foi cenário de peripécias de alto risco, em que um grupo de jovens adolescentes, ou nem isso, se media nos feitos de coragem de a atravessar sob os carris, devassando a estrutura metálica e fruindo a vista em redor quando chegados ao meio da ponte sobre o rio, ufanos da proeza.

Do S. João, pretexto do poema, são primeiro os cheiros que me vêm à memória, alecrim e murta, como bem refere o poeta. Das fogueiras de alecrim vividas ainda na minha adolescência e provavelmente pouco diferentes das que o poeta recorda, falarei talvez noutra ocasião.

Do poeta, a Câmara Municipal de Tavira em conjunto com Edições Colibri, propôs-se há anos publicar 3 volumes de poesias inéditas. Conheço apenas o primeiro volume com poemas dos 20 anos, ingénuos e de parco interesse poético, sendo a edição pouco cuidada, e em que felizmente a introdução dá um pouco a conhecer a vida e obra do homem. Chama-se adequadamente “POESIAS (ou banalidades poéticas). Não sei se os restantes volumes previstos viram edição em livro.

Tendo nos tempos de estudante publicado de forma dispersa, por publicações periódicas alguns poemas, apenas reuniu em livro “Romanceiro do Algarve“, publicado em 1870, na linha do Romanceiro editado por Garrett. É uma recolha de romances populares retocados pelo poeta para a edição, tendo o manuscrito com as versões originais sido encontrado há poucos anos no arquivo do Museu Arqueológico de Lisboa, cujo espólio inicial foi reunido por Estácio da Veiga.

 

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A Venus Nova – Poema de Francisco Palha (1826-1890)

17 Sábado Abr 2010

Posted by viciodapoesia in Raros/Curiosos

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Francisco Palha, O Bardo


Não Raquel, não desvario,

Venus, o estilo é antigo,

Os seus dotes repartiu

Bem largamente contigo.


Deu-te esse corpo divino!

Esses seios palpitantes!

Fosse eu inda pequenino

E tu minh’alma! Que instantes!


Por ser branca e por ser loira

Tem o loiro em menos preço;

Por isso te deu da moira

O negro cabelo espesso.


Chega aos olhos… De repente

Vê que não tem na paleta

Cor nenhuma refulgente

Para imitar um planeta.


Corre logo à fonte limpa;

E procedeu com acerto

Que em ócios não se repimpa

Quem se encontra em duro aperto.


“Ó doce noite”, ela exclama,

“tu tens estrelas a esmo,

Duas quero em rubra chama,

Quase sóis; dois sóis. É o mesmo.”


A Noite, que é velha e fina,

E foi sempre a Vénus dada,

Responde: – Minha menina,

Só para a outra fornada.


–“Pois ao forno! E já! Que eu pago!”

A Noite, ouvindo-a, lampeira,

A estrada de Santiago

Deitou logo na caldeira.


Fogo ao lado, e fogo ao centro!

Quando a fervura era vivia

O sete estrelo pr’a dentro!

E folhas de sensitiva!


Ao cabo de poucas horas

Em duas orbitas fundas

Despejou duas auroras

Com qu’est’alma em luz inundas.


Venus pilou de contente;

Mas depois… (que são mulheres!)

Disse à outra em tom plangente:

“Adeus!… O que tu quiseres!…


Fizeste-a fresca! Eu reinava.

Era no Olimpo a mais bela.

Passei de rainha a escrava.

A Venus agora … é ela!”


Francisco Palha (1826-1890), poeta da geração de “O Bardo”, notabilizou-se em vida como homem de teatro. Empresário e director do Teatro D. Maria II, devolveu a este teatro o esplendor que tinha conseguido a seguir à sua fundação por Almeida Garrett. As peripécias da vida teatral num teatro oficial, levaram-no a sair e a construir o Teatro da Trindade que dirigiu até à morte.

Este A Venus Nova, tem o sabor ligeiro de tanta da poesia do “O Bardo”.

Poesia sem preocupações metafisicas ou outras agonias em moda à época, é bem o reflexo de um espirito todo ele virado para o entertenimento e bonomia no viver, e que atravessa a sua poesia.

O poema vem publicado em MUSA VELHA, editado em 1883.

Deste mesmo MUSA VELHA recolho um exemplo de rima despretenciosa para dar a imagem da juventude e da velhice, usando uma forma singela, adequada à inscrição NUM ÁLBUM, instituição tão caracteristica da sociedade burguesa do século XIX.

NUM ÁLBUM

Por essa existência fora

Nosso caminho é diferente.

Eu vou por onde se chora;

Tu por onde canta a gente.

Tu chegas; tu vens agora;

Tu sobes qual sobe a aurora;

Eu, tal qual o sol poente,

Desço… desço!… Vou-me embora.

E em jeito de epitáfio escreve o poeta AS MINHAS MEMÓRIAS dedicado À Exma Sra D.A.F. Pinto

Nasci. Vivi. Foi meu cruel destino

Ser inutil, vulgar, enquanto moço.

De dor em dor, cansado peregrino,

Chego à triste velhice sem conforto.

Nunca pude saber o que era tino,

Como a bolsa não soube o que é caroço.


Quando voltares hei-de ser um morto.


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Uma brincadeira de João Penha

13 Terça-feira Abr 2010

Posted by viciodapoesia in Raros/Curiosos

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João Penha

Depois da longa ausência regresso com uma brincadeira de João Penha .

 

Tradução

Risonho , disse eu a Inês,

Que num sofá se quebranta:

“Dormi mecum!” – “É francês?”

– “É frase da Biblia santa.”

 

– “Vê-me nervosa e confusa:

Eu nada sei, meu amigo:

Não hesite, vá! Traduza”

– Quer? – “Quero… “– Dorme comigo.

 

– “Oh! Que indecência, que horror!

Dizer-me essa cousa, a mim!

O que lhe vale, senhor,

É ter-ma dito em latim.”

 

Poeta hoje quase esquecido, foi imperador e rei de uma boémia que deixou nome e de que Guerra Junqueiro foi pactário. A sua poesia canta  duas coisas – o vinho e as mulheres.

Foi original. No seu tempo reinava o pieguismo, era-se tísico por amor da bela mas ele nunca carpiu o desgosto de viver.

E prático, forte, soberbo, deu-se a proclamar em verso a única terapeutica apropriada – a caneca do espumante e a fatia de salpicão ou a talhada de presunto.

Estas considerações retirei-as da introdução ao livro Canto do Cisne, assinadas por Albino Forjaz de Sampaio e publicado em 1923.

 

Intensamente interessado na vida literária do seu tempo, publicou em Coimbra, entre 1868 e 1873 A Folha, jornal literário de grande influência na época, conjuntamente com Gonçalves Crespo, Guerra Junqueiro, Cândido de Figueiredo, Francisco Gomes de Amorim, Simões Dias e outros.

Foi o volume de versos, Rimas, publicado em 1882, e onde se contêm os sonetos de “Vinho e Fel” que deu ao poeta a aura de que gozou até ao fim da vida.

Ler hoje a poesia e prosa de João Penha é um prazer inesperado, pelos temas, pela fluência do verso na sua rigorosa metrificação, e sobretudo, pelo entusiasmo de viver que deles transborda.

 

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CRYPTINAS seguido de ULTIMO SUSPIRO de JOÃO DE DEUS com uma nota bibliográfica

06 Quarta-feira Jan 2010

Posted by viciodapoesia in Raros/Curiosos

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João de Deus

Foi publicado no final do séc. XIX um folheto anónimo – CRYPTINAS – com 11 poesias jocosas do género deste

Guardanapo

O jornal que muitas vezes

Diz coisas que metem dó,

E constitue as delicias

Dos amantes de noticias,

Leem-no muitos fregueses,

Mas é com um olho só.

atribuídas a  João de Deus . O assunto dos poemas entre brejeiro e irónico, onde apenas neste GUARDANAPO existe uma insinuação escatológica, chocou as boas consciências. Valem hoje os poemas pela fluência da rima, onde alguns mantêm a graça, como EQUIVOCO  ou CARECA.

À época, ouviu-se um coro de indignação e repúdio, pois aqueles poemas manchavam a reputação do poeta. E de então para cá o silêncio sobre tal folheto tem sido regra.

 

A edição deve ter sido muito pequena e o folheto é hoje praticamente inencontrável. Nem a Biblioteca Nacional de Portugal possui qualquer exemplar.

 

Nos anos 80 do séc. XX a editora & etc publicou uma reedição do folheto rapidamente esgotada. Hoje tambem esta edição é rarídade bibliográfica e procurada como peça de colecção.

 

 

A raridade do folheto leva-me a deixar aquí uma cópia em pdf.

 

link para o folheto: CRYPTINAS – JOÃO DE DEUS

 

Com ela espero de alguma forma contribuir para uma visão menos edulcorada, e porventura mais verdadeira, desta glória nacional com honras de panteão.

 

Noticia bibliográfica

 

É sabido quanto da vida de João de Deus foi vida de estúrdia e de boémia, por mais que as santas almas ponham os olhos em alvo e teçam loas à obra do poeta assimilando-a àquela famosa CARTA em verso:

Maria! Ver-te à porta a fazer meia,

Olhando para mim de vez em quando,

É o que nesta vida me recreia.

…


Ainda que justas, e o poema mereça, a obra do poeta não é apenas isso.

 

Quem ler hoje a obra poética de João de Deus vê como, ao lado de criações sublimes, existem verdadeiras banalidades, há que ser sincero. Uma antologia com as diferentes facetas da obra é hoje necessária, por inexistente.

A desatenção com que João de Deus sempre viu as suas criações, tantas vezes espontâneas, distribuindo-as por amigos e não cuidando da sua conservação na forma em que as concebeu, torna a tarefa de edição especialmente melindrosa e susceptível de um coro de críticas.

De resto, foi o que aconteceu quando Teófilo Braga meteu mãos à tarefa de reunir as poesias de João de Deua publicadas e dispersas, no que viria a ser o livro Campo de Flores, e pretendeu ser essa uma “EDIÇÃO AUTHENTICA E DEFINITIVA”.

Esta 1ª edição de Campo de Flores publicada em 1893, afinal não foi definitiva. A 2ª edição três anos depois, pouco após a morte do poeta em 1896, surge modificada com a adição de mais de uma centena de poemas e a reintrodução de pelo menos mais dois poemas deixados de fora da 1ªedição por autoria duvidosa.

Esta 2ª edição que se reclamava de “NE  VARIETUR” afinal foi modificada e também ela se viu acrescentada pela 3ªedição, ao que julgo saber, de mais alguns poemas.

E de todas elas CRYPTINAS ficou sempre de fora.

 

A obra poética de João de Deus sofreu em vida do autor tratos de polé, e por ausência de uma edição crítica, desconhecemos hoje se o corpus de Campo de Flores reúne todos os poemas de João de Deus, e mais, se dos poemas que lá estão, são todos efectivamente do poeta ou há algum que não lhe pertença, e ainda se na sua forma, correspondem à vontade do autor.

João de Deus por sua iniciativa nunca publicou qualquer livro. Sobre a iniciativa de publicação em jornais e revistas não possuo informação. A recolha das poesias de João de Deus foi inicialmente feita por um amigo (José António Garcia Blanco) para uma edição em livro que se viria a traduzir na publicação de Flores do Campo em 1868, tinha o poeta à data 38 anos e passava pelas maiores dificuldades.

Este Flores do Campo foi recebido com enorme aplauso do público e da crítica, e  teve 2ªedição em 1876, publicada pela Livraria Universal do Porto. Esta nova edição vinha corrigida e muito aumentada em relação à primeira. No mesmo ano, o mesmo editor publicou o volume Folhas Soltas. Este editor foi alvo de verdadeiras injúrias por parte de Teófilo Braga no prefácio da 1ªedição de Campo de Flores.

 

Tinham passado 25 anos desde a publicação em livro da primeira recolha de poemas de João de Deus. A crescente notoriedade do poeta e o apreço público envolvendo a Cartilha Maternal e o seu empenhamento cívico, levaram a que Teófilo Braga se propusesse reunir e editar as poesias do poeta, uma vez que este não se empenhava em fazê-lo. Os contornos desta colaboração ainda hoje não são perfeitamente claros.

 

Desta colaboração resultou a 1ªedição de Campo de Flores. A polémica que se seguiu à publicação desta 1ªedição, ainda em vida do autor, respeitando a omissões de poemas e modificações em relação a versões conhecidas de algumas poesias, trouxe à luz os poemas acrescentados nas edições seguintes.

As escolhas editoriais de Teófilo Braga quanto a títulos, pequenos arranjos de formas verbais e outras, continuaram a suscitar dúvidas a quem conheceu de perto o poeta, com ele privou e de alguma forma seguiu as vicissitudes da sua vida e da sua obra.

 

É por tudo isto que uma edição crítica da obra poética se torna necessário. Uma edição que nos dê, na medida do possível, os poemas como o poeta os criou.

Seria uma edição crítica que, ao percorrer com olhos de hoje documentos e testemunhos, permitiria ver quais das variantes existentes para cada poema, em manuscrito quando existir, e nas suas edições conhecidas na imprensa ou em livro, se encontra mais próxima da vontade do autor.

Uma edição critica que, ancorada em sólidos critérios de crítica literária, separe o que é do poeta do que eventualmente foi acrescentado ou modificado por copistas ou editores menos escrupulosos, isto sem preconceitos ou ideias feitas sobre uma imagem que se queira transmitir.

 

A associação de João de Deus ás crianças e à Cartilha Maternal, por onde também aprendi a ler, torna qualquer mexida na sua obra especialmente vulnerável a mal entendidos. Talvez por isso ninguém tenha querido correr o risco de tentar a edição crítica necessária. Os poderes públicos financiam uma pleiade de instituições associadas ao nome e á obra do poeta, algumas das quais depositárias de espólio. É a estas instituições que cabe a iniciativa de promover uma edição com estas características.

 

Agora sobre o folheto CRYPTINAS  e o que sobre ele circula.

Percorrendo histórias e dicionários de literatura portuguesa não encontrei referência a tal folheto, ou seja, tendo em conta apenas essas fontes o folheto nunca teria existido.

Foi num opúsculo publicado por Trindade Coelho e Alfredo Cunha em resposta à 1ª edição de Campo de Flores, o qual acrescenta 56 poesias dispersas ao corpus de Campo de Flores, que encontrei referência explícita ao folheto CRYPTINAS, com a descrição do seu conteúdo. Essa descrição coincide integralmente com o folheto que aqui divulgo.

Acontece que na apreciada e nunca demais elogiada, Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica editada por Natália Correia, se encontram dois poemas “Omissão” e “Ao Quaresma (Manuel)” com indicação de que provêm de  CRYPTINAS. Ora, esses poemas  não constam do folheto aqui divulgado.

Significará isto que existiu outro folheto CRYPTINAS com conteúdo diferente? Se assim foi, não encontrei até hoje traço da sua existência.

A ausência de referências bibliográficas na  Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica impede o conhecimento da origem editorial destes dois poemas. A haver lapso, os poemas “Omissão” e “Ao Quaresma (Manuel)” serão também de João de Deus? Dúvidas que a edição crítica da obra poética de João de Deus viria resolver.

Termino com o poema ULTIMO SUSPIRO publicado pela primeira vez no opúsculo de Trindade Coelho e Alfredo Cunha acima referido, espelho de uma certa bonomia na amargura, marca de água do poeta.

 

ULTIMO SUSPIRO

Fui a semana passada

Visitar o hospital

E vi n’uma enfermaria

O pobre de Portugal;

Perguntei-lhe o que sentia,

– uma fraqueza geral,

E nesta edade avançada

É um achaque mortal:

Vem Oliveira Martins,

Vara-me d’uma estocada!

Vem Augusto ‘zé da Cunha,

Ferra-me uma punhalada!

Isto não é caramunha

Que tudo foi com bons fins,

Porque um e outro supunha,

Tanto Augusto ‘zé da Cunha

Como Oliveira Martins,

Que sendo a morte fatal,

Abreviando-me a vida

Me abreviavam o mal. –

E já com a voz sumida

E no arranque final:

– Tratem-me do funeral

Que a lebre está corrida…

30-12-893

 

 

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