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vicio da poesia

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Homenagem a Miguel Angelo (1475-1564) e um seu soneto em tradução de Jorge de Sena (1919-1978)

30 Sexta-feira Set 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Jorge de Sena, Miguel Angelo

“AL COR DI ZOLFO…”

Um coração de enxofre, a carne estopa,

e de bem seca lenha o atro seio,

alma sem qualquer norte, alma sem freio,

desejo pronto que ao prazer não poupa,

cegueiras da razão tão fraca e louca,

e quando o mundo é de ciladas cheio –

não é grã maravilha, se um anseio

a chama atiça a tão ardente roupa.

E as Artes belas que, do céu consigo

se alguém as traz, a Natureza enfreia,

se a força aplica em toda a parte e logo…

Se como tal nasci, se à Arte eu sigo,

entregue o coração ao que o incendeia,

culpa será de quem me deu ao fogo.

O soneto, dorida meditação sobre a paixão homossexual do artista: se como tal nasci…, fala-nos a todos, para lá de opções de género, do apelo irresistível da paixão carnal quando esta nos visita: cegueira da razão tão fraca e louca,

A tradução deste soneto de Miguel Ângelo é de Jorge de Sena e foi publicada na preciosa e tantas vezes citada antologia POESIA DE 26 SÉCULOS.

A certa altura, numa pagina dos seus diários, Jorge de Sena refere a excitação com a compra de um álbum de reproduções das obras de Miguel Angelo. Sinal dos tempos, hoje, tais reproduções proliferam em qualquer banca de revistas perante a indiferença de quem olha, e dificilmente apreendemos quão difícil era a aproximação à arte em décadas não muito distantes. O turismo de massas nos nossos dias preenche essa aproximação numa  contabilização de destinos visitados.

Estive pela primeira vez em Itália no final dos anos 70. Foram três semanas de deambulação pelas maravilhas da arte da península. Jovem nos vinte anos, a maior revelação, entre tantas, foi a obra escultórica de Miguel Ângelo. Ainda tive a possibilidade de contemplar sozinho o David, com mais 3 ou 4 pessoal na sala da Galleria della Academia em Florença. Os mármores com as esculturas apenas esboçadas, naquela tentativa de mostrar a vida na pedra, foram outra revelação indelével. A Pietá do Vaticano não fora ainda mutilada, nem se escondia por detrás do vidro. Era possível sentir o veludo da pedra e de perto ser tocado pela maciez do olhar do amor, naquela mãe com o filho nos braços, morto. Mas foi o Moisés a revelação absoluta. O olhar de fogo vindo da pedra, a imponência da massa escultórica e a atitude, transmitiram-me a forca do divino. Se Deus encarnasse,  seria assim. O absoluto de julgar, distribuindo bênçãos e castigos personifica-se naquele mármore com vida.

A pintura que ilustra o artigo, deliberada homenagem ao artista,  fi-la, anos vai, depois de ter visto o desenho de Miguel Ângelo que a inspirou, na Galeria Albertina, de Viena.

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Matisse e a alegria de viver

28 Sábado Maio 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Henri Rousseau, Matisse

Le bonheur de vivre, quadro a que Matisse chamou “a minha Arcádia”, foi pintado em 1905 e representou uma viragem na pintura do mestre.

Nesse verão de 1905, em Collioure, estancia de veraneio nos Pirinéus orientais, Matisse então com 36 anos, teve a oportunidade de se interrogar sobre o sentido e propósito do que pintava, e com este Bonheur de vivre respondeu à sua própria interrogação e desejo, consubstanciado na experssão “como fazer as minhas cores cantar”.

Em Le bonheur de vivre, aqui reproduzido, onde pares nus se espraiam numa paisagem de uma alacridade estonteante, a dança de roda pintada na zona central ecoa uma antiga dança dos pescadores de Collioure, e foi retomada como assunto único no famoso quadro do Hermitage, Dance (II), de 1909/10.

O colorido de Le bonheur de vivre, de alguma forma reminiscência do mercado local de frutas e legumes, traduz o que mais tarde na pintura do século XX veio a chamar-se a luz e cor do sul.

Le bonher de vivre, incompreendido pelos seus amigos mais próximos, incluindo Signac, com quem chegou à rotura, foi a única pintura submetida por Matisse ao Salon des Independents em Março de 1906. E o escândalo não podia ter sido maior: “Matisse teve o maior sucesso da sua carreira em termos de hilariedade esse ano, penso” escreveu mais tarde Berthe Weill no seu Pan! Dans l’oeil! de 1933.

Para terdes uma ideia do que era o Salon, acrescento a pintura de Henri Rousseau que o documenta.

A memória do escândalo não desapareceu, e cinquenta anos depois, em 1957,  Janet Flanner no livro Man and Monuments, descrevia como os parisienses que ainda recordavam o acontecimento referiam que desde a porta de entrada do Salon se ouvia uma barulheira e quem chegava era guiado por ela até encontrar uma multidão galhofeira apertada frente à apaixonada visão de felicidade do pintor. Parece que entre a multidão havia de tudo menos apoio, desde gargalhadas à algazarra de escárnio e conversas zangadas.

Foi tal o escândalo que engraçados afixaram cartazes no café Lapin Agile em Montmartre, vizinho do novo atelier do pintor, com os dizeres ”Pintores mantenham-se afastados de Matisse”, e também, “Matisse causa mais dano num ano que uma epidemia”, ou ainda “Matisse põe-vos loucos”.

A imprensa popular saboreou o acontecimento, e entre os experts da época os comentários eram variações sobre a opinião de que Matisse tinha sobreposto teorias ao seu indubitável talento, e isto porque, com esta pintura dissera adeus ao que por algum tempo se chamou neo-impressionismo. Os detalhes desta violenta guerra estética são saborosos de seguir, incluindo o papel de André Gide na arruaça.

Uma das consequências do escandalo foi que a segunda exposição individual de Matisse, inaugurada em Paris na véspera da abertura do Salon, se saldou por um fiasco.

Por outro lado tanto o entusiasmo de Leo Stein (irmão de Gertrude Stein) com este Le bonheur de vivre e com a pintura de Matisse a partir daí, bem como a história do encontro que este Le bonher de vivre desencadeou entre Matisse e o magnate russo Shchukin, terá que ficar para outra visita ao pintor, sendo que, para quem não saiba, Shchukin foi o coleccionador que reuniu os Monet, Renoir, Van Gogh, Cezanne, Gaugin, Matisse,…, que hoje pertencem à colecção do Hermitage.

Os pormenores sobre o escândalo na sequência da apresentação de Le bonheur de vivre no Salon des Independents, recolhi-os no livro de Hilary Spurling – The unknown Matisse publicado pela Penguin Books em 1998.

Excepcionalmente, fazendo click sobre Le bonheur de vivre, obtém-se uma imagem substancialmente ampliada

Ficha técnica das pinturas

Matisse – Le bonheur de vivre: Óleo sobre tela com 175 x 241 cm

Matisse – Dance (II): Óleo sobre tela com 260 x 391 cm

Henri Rousseau – A liberdade convida os artistas a tomar parte no 22º Salon des Independents: Óleo sobre tela com 175 x 118cm

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Paisagens: música de John Cage e pintura de Paul Klee

21 Sábado Maio 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Convite à música

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John Cage, Paul Klee

Convido os visitantes do blog a ouvir a musica de John Gage (1912-1992) enquanto olham a pintura de Paul Klee (1879-1940).

Da música para piano preparado de John Cage (1912-1992) escolhi In a landscape na interpretação de Stephen Drury. A peça foi composta em 1948. Outros, que não eu, falarão com propriedade técnica desta música. Eu, enquanto ouvinte, embalo-me na paz da sua atmosfera e ouço-a, em repetição, horas sem fim.

John Cage (1912-1992) – In a landscape para piano preparado

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/Jonh+Gage+In+a+Landscape.mp3

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Picasso Suite 347

10 Domingo Abr 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Avant-Garde, Picasso, Suite 347

Enquanto não regressa em força a poesia, deixo à admiração dos visitantes algumas gravuras da Suite 347 de Picasso, produzida em 1968.

O nome decorre do total de gravuras produzido entre 16 de Março e 5 de Outubro de 1968. Constituem um tributo do artista aos luxuriantes prazeres de Eros quando tinha apenas 87 anos.

No seu conjunto traduzem uma soberba afirmação da sexualidade como uma revivificante força na vida e na arte.

Durante oito meses, os impressores Aldo e Pierre Crommelynck, instalaram-se na Villa de Picasso em Mougins, na Riviera francesa, com um prensa litográfica que permitiu a impressão das litografias à medida que iam sendo criadas directamente na chapa pelo mestre. O conjunto constitui uma assombrosa variedade das aptidões do artista no dominio da técnica da litografia.

Exibidas simultâneamente na Galeria Louise Leiris em Paris e no Art Institute of Chicago, nesse inverno, circularam posteriormente por algumas capitais do mundo. e os 50 exemplares assinados da tiragem desapareceram nos cofres dos coleccionadores.

Afortunadamente, a Random House/Maecenas Press de Nova Iorque procedeu à edição integral do conjunto em dois  volumes, em 1971.

Uma pequeníssima parte das gravuras foi objecto de publicação num  número especial da revista Avant Garde de Nova Iorque em 1969, com um belissimo arranjo gráfico.

E agora algumas gravuras, não muitas, pois o espaço do blog não o permite.

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