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A relação entre olhos, olhar, e poesia, é uma constante na tradição poética portuguesa pelo menos desde Bernardim Ribeiro, e até aos nossos dias, com, por exemplo, a poesia de Sophia de Melo Breyer Andersen.
Ainda que na poesia de Sophia “a cor dos olhos e a argúcia do olhar” marque presença densa, com a, por vezes, implícita assumpção de que os olhos são espelho da alma, é a uma mais ligeira percepção que hoje me dedico: a arreigada crença de que a cor dos olhos dita disposições de carácter.

Recordo eu, de quando era miúdo, uma canção ainda popular à época, Olhos Castanhos, suponho que inicialmente sucesso no Brasil, cantada por Francisco José, que punha os olhos em alvo às miúdas com olhos dessa cor,

Olhos bons com coração
Os teus, castanhos leais.

e enfurecia a mais ver as belas possuidoras de olhos verdes e azuis, pois a canção rezava assim:

Olhos azuis são ciúme
E nada valem pra mim

Olhos verdes são traição
São cruéis como punhais

Os olhos negros, encanto ocasional para Almeida Garrett, como veremos mais à frente (e escrevo ocasional pois ao que consta o homem ter-se-á encantado com olhos em todas as cores do arco-iris), eram verdadeiramente vilipendiados na canção:

Olhos negros são queixume
D’uma tristeza sem fim.

(Quem quer a vida acompanhada de uns olhos queixosos?)

Acontece que os termos em que a canção encomiava os olhos castanhos casavam à maravilha com o que diziam umas quadras que no princípio do romance As Pupilas do Sr. Reitor, Daniel, miúdo de doze para treze anos, cantava em toada popular a Margarida, rapariga da sua idade. E como o livro era leitura adequada à juventude, tudo isto contribuía para o desenvolvimento das mais variadas fantasias entre cor dos olhos e disposições inatas de modos de ser, levando a arrufos e alegrias de incipientes namoros.
São no entanto, estas fantasias e por vezes equívocos, extensíveis a épocas mais recuadas, e nem sei se ainda hoje fazem caminho. Talvez haja poetas a quem os olhos azuis ou verdes encheram de encanto e louvaram em poesia; o que de momento desconheço. Mas veremos o que diz de uns Olhos Negros Almeida Garrett (1799-1854):


Só negros, negros os quero;
Que, em lhes chegando a paixão,
Se um dia disserem sim…
Nunca mais dizem que não.

Ao contrário, o nosso Daniel do romance de Júlio Dinis não cuidava de fidelidades mas tão só de sedução:

Morena, morena,
Dos olhos castanhos,
Quem te deu, morena,
Encantos tamanhos?

São os meus pecados
Uns olhos assim.
Morena, morena,
Tem pena de mim.

E assim andamos à volta do olhar tentando espreitar a alma.
Termino com o poema de Almeida Garrett:

Olhos Negros

Por teus olhos negros, negros
Trago eu negro o coração,
De tanto pedir-lhe amores…
E eles a dizer que não

E mais não quero outros olhos,
Negros, negros como são
Que os azuis dão muita esp’rança
Mas fiar-me eu neles, não.

Só negros, negros os quero;
Que, em lhes chegando a paixão,
Se um dia disserem sim…
Nunca mais dizem que não.
I84…

in Flores sem Fruto

Em nota final, e para quem não o recorde, aqui ficam os olhos castanhos cantados a Margarida por Daniel no romance As Pupilas do Sr. Reitor de Júlio Dinis:

Morena, morena,
Dos olhos castanhos,
Quem te deu, morena,
Encantos tamanhos?

Encantos tamanhos
Não vi nunca assim.
Morena, morena,
Tem pena de mim.

Morena, morena,
Dos olhos rasgados,
Teus olhos, morena,
São os meus pecados.

São os meus pecados
Uns olhos assim.
Morena, morena,
Tem pena de mim.

Morena, morena
dos olhos galantes,
Teus olhos, morena.
São dous diamantes.

São dous diamantes
olhando-me assim.
Morena, morena,
Tem pena de mim.

Morena, morena.
Dos o!hos morenos,
o olhar desses olhos
Concede-me ao menos.

Concede-me ao menos
não sejas assim.
Morena, morena.
Tem pena de mim.

 

Apêndice musical

Completo esta ligeira digressão com as letras de duas canções: Olhos Castanhos e Olhos Negros (Ochi cherniye).
Primeiro a canção famosa em Portugal na voz de Francisco José entre outros; finalmente os olhos negros de uma famosa canção russa: Ochi cherniye.

Olhos Castanhos

Teus olhos castanhos de encantos tamanhos
São pecados meus
São estrelas fulgentes, brilhantes, luzentes
Caídas dos céus
Teus olhos risonhos, são mundos, são sonhos
São a minha cruz
Teus olhos castanhos de encantos tamanhos
São raios de luz.

Olhos azuis são ciúme
E nada valem pra mim
Olhos negros são queixume
D’uma tristeza sem fim.

Olhos verdes são traição
São cruéis como punhais
Olhos bons com coração
Os teus, castanhos leais.

Teus olhos castanhos …

Letra de Alves Coelho

Agora Ochi cherniye. E aqui, estes olhos negros são também belos, só que da sua constância nada sabemos.

Ochi cherniye

Olhos negros, olhos apaixonados
Olhos ardentes e belos
Como eu os amo, como eu os temo
Sabe, eu vos vi em má hora

Oh, não é à toa que vocês são mais escuros que as trevas!
Vejo um lamento em vós, pela minha alma
Vejo em vós uma chama vitoriosa:
Queimando nela, um pobre coração.

Mas eu não estou triste, não estou desolado,
O meu destino me conforta:
Tudo o que de melhor na vida Deus nos deu,
Num sacrifício eu entreguei aos olhos ardentes!

Tradução encontrada na net assinada por Érika Batista.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura do húngaro Janos Balazs (1905-1977) – Mulher cigana.

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