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De mãos dadas com a religiosidade popular corre pelo país uma brejeirice de mal disfarçada conotação sexual, sobretudo associada aos chamados Santos Populares, que se manifesta na poesia e nas canções populares. Dou um exemplo para São Gonçalo de Amarante, casamenteiro das velhas, na invocação de uma devota desejosa de casar:

 

São Gonçalo de Amarante
Valei-me que bem podeis
Já tenho teias de aranha
No sítio que vós sabeis.

 

 

Eco e memória pagã de divindades itifálicas, São Gonçalo de Amarante é um santo casamenteiro de mulheres sem idade quando passada a primeira juventude. Vale a pena precisar que para a Igreja católica São Gonçalo não é santo mas beato.
A imagem do beato que ainda hoje se conserva na sacristia da sua igreja em Amarante, Portugal, é dotada de poderoso instrumento sexual tornado visível em erecção ao ser puxado um fio. E esse atributo de virilidade a lembrar Príapo, o itifálico deus romano, encontrou lugar na doçaria popular de Amarante — os quilhões de São Gonçalo — doce em forma de pénis e testículos que pode ser comprado nos tamanhos adequados à cliente.

 

 

O poema que a seguir transcrevo, S. Gonçalo d’Amarante, de Luís Augusto Palmeirim (1825-1893), é uma invocação ao santo, para que reoriente o seu poder de intersecção para as moças casadoiras, proporcionar-lhes vários namorados, e abandone as velhas a que se dedica a arranjar marido, em troca de muito melhores recompensas.
O poema foi por tal forma popular que hoje a primeira quadra passa por ser quadra popular de autor desconhecido.

 

S. Gonçalo d’Amarante

S. Gonçalo d’Amarante,
Casamenteiro das velhas,
Porque não casais as moças?
Que mal vos fizeram elas!

Sejam as velhas beatas
Vos rezem com santidade
São de mais, há-as de sobra
Na vossa santa irmandade.

Rezar-vos-ei, ó meu santo,
Três padres-nossos cantados.
Se por cada um me deres
Três esbeltos namorados.

Irei descalça ouvir missa
No dia do vosso nome
Se eu alcançar boa paga
Deste amor que me consome.

Nem todas as velhas juntas
Levarão tantos bentinhos
Como encobertos nesta alma
Levarei ternos carinhos.

S. Gonçalo d’Amarante
Brincalhão e galhofeiro,
Fazei-vos antes das moças
Devoto casamenteiro.

Que eu vos prometo por todas,
(Casando a nosso contento)
Muita crença na virtude,
Muita fé no casamento.

Promessas que fazem moças,
Têm tal condão e verdade,
Que o santo deixou as velhas,
Pelas moças… por bondade…

E a datar desta promessa,
Feita ao bom de S. Gonçalo,
Não há uma só donzela
Que possa deixar de amá-lo.

Que a todas o bom do santo
Deu alma pra seis amores,
A qual deles o mais falso,
Em seus dons e seus favores!

S. Gonçalo d’Amarante
Um dos meus três namorados
Irá rezar-vos por mim
Os padres-nossos cantados.

E só se dirá, mentindo,
Dum santo tão galhofeiro,
Que inda é, como era dantes,
Das velhas casamenteiro!

 

 

in Poesias, 1ª edição, Imprensa Nacional, 1851.
Modernizei a ortografia.

 

Nota iconográfica

Sirvo-me, para ilustrar este artigo, não do artefacto da imagem do santo, mas de uma das pinturas de Keith Haring (1958-1990), onde o instrumento amplamente figura.

 

Nota final

O culto ao beato português São Gonçalo espalhou-se da Índia ao Brasil onde hoje é de popular devoção um pouco por todo o país.
Os quilhões de São Gonçalo acima referidos foram doces de venda proibida durante o Salazarismo.

 

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