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Depois da noite misteriosa, filosófica, e solitária, de Fernando Pessoa no poema de artigo anterior, [O primeiro de DOIS EXCERTOS DE ODES / de Pessoa/Álvaro de Campos], passemos a uma mais prosaica, acompanhada e prazenteira noite, a tal ponto que chegada a alvorada, o que apetece é continuar.

Falo do poema Break of dayNascer do dia — de John Donne (1572-1631). Nele, o prosaico revela-se na terceira estrofe, no comentário a como a urgência dos negócios se impõe à continuação dos prazeres do amor que a noite viveu, sublinhando com uma ironia que é peculiar à poesia de John Donne, quanto os prazeres do amor apenas estão permitidos sem baias  a quem anda longe de negócios.

 


Quem tem negócios e ama erra tanto
Quanto um homem casado que queira namorar.

 

 

É também, toda ela ironia, mas também prazenteira, a segunda estrofe do poema, [… / Eu quero gostosamente continuar / …], contrariando a ideia corrente da necessidade de viver o amor às escondidas para evitar falatórios [A luz não tem língua, é toda só olhos./ …]. Por outro lado, o poema na primeira estrofe parodia o que foi assunto recorrente na poesia amorosa antiga: a alba, o amanhecer, como o fim do tempo de felicidade junto da amada:

 

Está bem, é dia — e que importância tem?
Ou, por isso, irás sair do meu lado?
Deveremos levantar-nos só porque está luz?

 

Talvez o mais famoso relato desta despedida contrariada seja a que encontramos em Romeo e Julieta de Shakespeare, na cena em que pela primeira vez dormiram (?) juntos.

 

Basta de conversa, vamos ao poema:

Nascer do dia

 

Está bem, é dia — e que importância tem?
Ou, por isso, irás sair do meu lado?
Deveremos levantar-nos só porque está luz?
Deitámo-nos nós porque era noite?
O Amor, que apesar do escuro nos trouxe aqui,
Deverá, a despeito da luz, manter-nos juntos.

A luz não tem língua, é toda só olhos.
Se pudesse falar tão bem quanto espia,
O pior que diria é que, estando bem,
Eu quero gostosamente continuar
E que amo tanto o meu coração e honra
Que, de quem os guarda, não me apartaria.

São os negócios que daqui te afastam?
Oh, essa é a pior doença do amor:
O pobre, o louco, o falso, podem o amor
Acolher, mas nunca o homem atarefado.
Quem tem negócios e ama erra tanto
Quanto um homem casado que queira namorar.

 

 

 

Break of Day

 

‘Tis true, ‘tis day, what though it be?
O wilt thou therefore rise from me?
Why should we rise because ‘tis light?
Did we lie down because ‘twas night?
Love, which in spite of darkness brought us hither,
Should in despite of light keep us together.

Light hath no tongue, but is all eye;
If it could speak as well as spy,
This were the worst that it could say,
That being well I fain would stay,
And that I loved my heart and honour so,
That I would not from him, that had them, go.

Must business thee from hence remove?
Oh, that’s the worst disease of love,
The poor, the foul, the false, love can
Admit, but not the busied man.
He which hath business, and makes love, doth do
Such wrong, as when a married man doth woo.

 

 

 

Nota bibliográfica

 

Longe da biblioteca, socorro-me uma vez ou outra de poemas que a certa altura transcrevi para o bloco-notas sem cuidar de registar a origem, edição ou tradução, qual seja o caso do poema de hoje.
Uma vez encontrada a fonte do poema (edição e tradutor) registá-la-ei nesta nota, como é de justiça.

 

Abre o artigo a imagem de um detalhe de um fresco do  Palazzo del Podestà em San Gimignano por MEMMO DI FILIPPUCCIO 1300-10.

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