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vicio da poesia

Monthly Archives: Setembro 2011

Bom é amar, – mas como fere tanto? – 4 sonetos de Juan Boscán

11 Domingo Set 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Juan Boscán

Bom é amar, – mas como fere tanto?

Grande gosto é qu’rer bem, – porque entristece?

Prazer é desejar, – como aborrece?

Amor é nosso bem, – porque dá pranto?

 

Amar anima, – mas como causa espanto?

Pelo amor o bem da lama cresce,

– mas com assim, por ele , ela padece?

Como tantos contrários cobre um manto?

 

Não é o amor o que dor nos reparte;

a companhia que a seu pesar mantém

também, mau grado seu, nos fere e mata.

 

Nele rende-se o mal de nossa parte;

só ele em nosso bando nos sustém,

e nossa paz constantemente trata.

Rima ABBA ABBA CDE CDE

Doce sonhar e doce angustiar-me,

quando estava sonhando que sonhava.

Doce gozar com o que me enganava,

se um pouco mais durasse o enganar-me.

 

Doce em mim não estar que figurar-me

podia quanto bem eu desejava.

Doce prazer, mesmo se magoava,

que alguma vez chegava a despertar-me.

 

Oh sono, quão mais leve e saboroso

me foras se viesses tão pesado

que assentasses em mim com mais repouso!

 

Dormindo, enfim, fui bem-aventurado,

e é justo na mentira ser ditoso

quem deveras foi sempre desgraçado.

Rima ABBA ABBA CDC DCD

 

 Pensando no passado, de medroso,

acho um grande amor dentro do peito;

eu bem sei que o passado é já desfeito,

mas dá imaginá-lo algum repouso.

 

Por de descanso estar tão desejoso,

repouso em qualquer parte onde me deito;

onde espero descanso, é o meu leito,

sendo embora o descanso mentiroso.

 

Mas este descansar sendo tão vão

há-de acabar-se dentro de um momento;

e em mim ficar sua recordação.

 

Cedo volto a esta inquietação;

a conta disto é tal que nem a tento;

mas o que perco e ganho está na mão.

Rima ABBA ABBA CDC CDC

 

 

Doce repouso deste entendimento;

doce prazer sobre o ser bom fundado;

doce saber que alto saber me é dado,

pois tenho de meu bem conhecimento.

 

Doce gozar de um doce sentimento,

vendo meu céu tão claro e serenado;

sobre o meu seio o mais doce cuidado,

com firme concluir que estou contento.

 

Doce gostar de um não sei quê sem nome,

que Amor dentro em minha alma colocou,

ao curar-me com inclito renome.

 

Doce pensar que no paraíso estou;

porém, enfim, me lembro que sou home(m),

digo o que penso do que se passou.

Rima ABBA ABBA CDC DCD

 

Lemos estes poemas e não cessa o nosso espanto pela elegância como a eternidade do sentimento amoroso neles é tratada.

Quanto encanto, quanta sabedoria se encerram em todos e cada um dos versos. Escolho quase ao acaso:

 

Amor é nosso bem, – porque dá pranto?

 

ou estes versos onde a doçura descreve os sentimentos

 

Doce sonhar e doce angustiar-me, / quando estava sonhando que sonhava.

…

Doce pensar que no paraíso estou;

 

e ainda

 

Doce gozar de um doce sentimento, / vendo meu céu tão claro e serenado;

 

Qual deles mais delicadamente descreve o palpitar do coração apaixonado nas nuances do doce enlevo amoroso?

Juan Boscán foi, com Garsilaso de la Vega, o renovador da poesia de Espanha vinda dos Cancioneiros do século XV, ao fazer triunfar em Espanha a poesia a manera de los italianos, como o próprio se lhe referiu no prólogo A los lectores, na 1ª edição da sua poesia em conjunto com de Garsilaso, em 1546.

As traduções a partir do castelhano são, uma vez mais, de José Bento e foram publicadas na Antologia da Poesia Espanhola do Siglo de Oro – Renascimento, editada por Assirio  Alvim em 1993.

A apresentação da obra e as noticias bibliográficas dos autores antologiados são elucidativas e modelares na sua concisão.

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A EROS e outras odes de Miguel Torga (1907-1995)

04 Domingo Set 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Miguel Torga

A EROS (versão de 1946)

Eros é o Pai, o Adão!

A terra onde começa o paraíso!

O delírio pagão

Pedido pela seiva em seu juízo!

Eros é o sangue, o lume!

O principio da vida!

A impunidade que se ri do gume

Da lança da pureza, erguida!

E cobrem-no de folhas e vergonha!

E apaga-se com medo a sua chama!

Único Deus que sonha

Na nossa própria cama!

Pela primeira vez transcrevo no blog poesia de Miguel Torga (1907-1995). É um poeta mal amado hoje, se é que alguma vez foi um poeta amado.

A produção é irregular e muitos dos versos são duros, à maneira da dureza de um Filinto Elísio, e acusam o esforço de produzir poesia a partir de uma ideia de poema, ao invés de esperar a visita da inspiração.

No entanto, a sua obra contém alguns belos poemas que vale a pena procurar sobretudo nas páginas dos primeiros volumes do Diário ou no conjunto dos Poemas Ibéricos.

Transcrevo agora outra ode, desta vez ao fogo:

AO FOGO (versão de 1946)

Abre o teu riso mais ainda,

Fogo da vida, lume da alegria!

Queima a tristeza toda, finda

À penumbra vazia!

Arde com mais calor em cada hora,

Chama da inspiração!

Sobe da terra ao céu, devora

A lenha que secou de solidão!

Bebe, bebe de um trago

A líquida prudência que te apaga!

Com ágil mão de mago,

 Transforma água de poços numa vaga!

Fogueira aberta! Rosa

Nem mística, nem pálida, nem branca!

Deusa que apenas goza

A mortalha que arranca!

Na edição original as odes são constituidas por quartetos de versos que a formatação do wordpress não me permitiu respeitar, prejudicando, com isso a leitura dos poemas.

Estas odes foram publicadas pela primeira vez em ODES, em 1946, edição Coimbra Editora, na 1ªedição do livro. Posteriormente, quando da 3ªedição revista de ODES, o poeta procedeu a substanciais alterações: desapareceu a ODE À NATUREZA, e chegaram de novo uma ode A ORFEU e uma ode À TERRA.

A ode AO FOGO desapareceu, tal como a transcrevi acima e reapareceu um outro poema com o mesmo título, que a seguir transcrevo. Perdeu-se assim aquele belissimo … devora /  A lenha que secou de solidão!

 

AO FOGO (versão de 1956)

Chama da inspiração, que me devoras,

Alarga o teu abraço ao mundo inteiro!

Reduz o pesadelo destas horas

A um braseiro

De amor!

Funde no teu calor

A montanha de gelo e de tristeza

Que nos oprime o corpo e o coração.

E que a grande fogueira da beleza

Seja o sol duma nova redenção!

 

A ode A EROS teve alteração menos radical, pois apenas foi substituido o segundo quarteto e onde havia:

Eros é o sangue, o lume!

passámos a ter:

Eros é puro amor.

 

A EROS  (versão de 1956)

Eros é o Pai, o Adão!

A terra onde começa o paraíso!

O delírio pagão

Pedido pela seiva em seu juizo!

 

Eros é puro amor.

O desejo despido

O ímpeto de sangue e de calor

Que resgata o instinto adormecido.

 

E cobrem-no de folhas e vergonha!

E apaga-se com medo a sua chama!

Único Deus que sonha

Na nossa própria cama!

 

Estamos pois, de uma edição para outra, perante quatro belissimos poemas sobre as leis da matéria, na linguagem transparente e críptica cara ao poeta.

 

Termino esta digressão pelas ODES de Miguel Torga com a ode A VÉNUS, que sofreu entre as duas edições que agora comparamos, uma pequena modificação nos versos 16 e 17.

Entremos então neste canto a Vénus, Deusa nua e perfeita / Que incendeias a carne e a ressuscitas,/ … / Quem se pode salvar sem te sentir / Quente e marmórea no seu leito?

 

 

A VÉNUS

Deusa nua e perfeita

Que incendeias a carne e a ressuscitas,

Que tornas viva, activa, insatisfeita,

No final da colheita,

A matriz corroída que visitas:

 

Vem outra vez ao triste acampamento

Destes pobres mortais!

Vem, nesse primaveril deslumbramento,

Trazida pela bruma e pelo vento

Da morada das fontes naturais!

 

Molhada pelo mar salgado e frio,

Sai da concha e passeia

A regar de frescura, amor e cio,

O deserto vazio

Desta areia!

 

Porque és tu o mito redentor!

És a flor

Que há-de chegar a fruto!

És a poesia, o sol, o fogo eterno

A aquecer cada inverno

Que fecha o céu da vida no seu luto.

 

Deusa!

Mulher e aparição num corpo só!

Seios, umbigo, coxas e cabelos

Que são fios abertos de novelos

Onde se aperta a seiva como um  nó.

 

Presença virginal e fecundada,

Quem se pode salvar sem te sentir

Quente e marmórea no seu leito?

Senhora, concubina e namorada,

Ver-te despida é já de si despir

O sarro morto que se tem no peito!

 

Da penumbra do tempo vem teu nome

Cinzelado na pedra da verdade;

Da raiz desse tempo vem a fome

Dum beijo submisso que nos dome

À sua maternal humanidade.

 

Lodo e ternura, lume e arte.

Um seio que dê sonho e alimente!

O desejo a buscar-te,

A condição a dar-te,

E toda a lama do prazer ausente!

 

Na própria chama acesa

Arde a lenha do mal.

Arde, e fica a certeza

Do haloque circunda a realeza

Que toca cada coisa natural.

 

Vem, grega sabedoria dos sentidos!

Sem pecado e sem vício, mostra erguidos

Os instintos, a forma e a paixão!

Filha de artistas e da natureza,

Só te pede a beleza

Quem a traz a bater no coração!

 

Os versos 16 e 17 na edição original de 1946 eram:

Porque és tu a terra do renovo!

És o ovo

 

E concluo com estes versos extraídos da ode À BELEZA:

Um milagre, uma luz, uma harmonia, / Uma linha sem traço… / Mas sem corpo, sem pátria e  / em familia, / Tudo repousa em paz no teu regaço!

Acompanha o artigo um desenho de Dubois feito quando da campanha Napoleónica no Egipto e representa o deus MIN, deus pré-dinástico que em tempos primitivos foi conhecido como “Chefe do Paraíso”.

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Elegia da Minha Infância de José Maria Valverde (1926-1996)

03 Sábado Set 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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José Maria Valverde

Sabe bem trazer em nós a sensação de que continuamos o menino que fomos. Significa  que julgamos ainda ter ao nosso alcance a possibilidade da despreocupada harmonia dum mundo que nos surge perfeito na distância a que o vemos. Por isso percebo o apelo de José Maria Valverde(1926-1996):

 Oh, Senhor, aquele menino que era eu, /suplica-te, morto,/que o deixes viver no meu presente um pouco!


Escreve isto José Maria Valverde no seu poema Elegia da Minha Infância, e, noutro passo, dá-nos a sua visão da plenitude de ser quando escreve:

Só vivo por completo quando volto a menino.

 acrescentando depois:

 Que continue em mim, Deus meu – como tu nos dizias -,/ e viverei completamente,/ e sentirei plenamente a vida,/ e serás o meu assombro virginal cada manhã…/

Elegia da Minha Infância


Eis a minha fotografia de criança
a cravar em mim meus olhos, mais profundos que nunca,
com uma coisa vaga
pousada entre as mãos, distraídas e leves.
É o banco de pedra
– os pés não chegando ao chão ainda –
do parque de meus sonhos infantis
onde o sol era amigo
e a areia tomava
um tacto de mãe velha e conhecida.


… Guardo a imagem turva
de um menino que, de repente, se distrai
no meio dos jogos
e ao poente fica pensativo
a escutar o rumor distante das ruas…


O mundo ia nascendo pouco a pouco
para mim unicamente.
A terra era uma alegre maçã de merenda,
um balão de cores inesperado.
Os pássaros cantavam porque eu estava a ouvi-los,
as árvores nasciam quando eu abria os olhos…


E os medos, depois…
Tudo podia ser no escuro do quarto.
Ao fundo do corredor
pulsava todo o negro deste mundo,
todas as vagas forças inimigas,
todas as negações…


Alma da minha infância!
Só vivo por completo quando volto a menino.
Que outra revelação maior do que essa
do mundo e da vida em minhas mãos?
(… quando todas as coisas eram como palavras…)
Que sonho como aquele
de pressentir do limiar da alma
os dias a esperar-me?


Oh, Senhor, aquele menino que era eu,
suplica-te, morto,
que o deixes viver no meu presente um pouco!
Que continue em mim, Deus meu – como tu nos dizias -,
e viverei completamente,
e sentirei plenamente a vida,
e serás o meu assombro virginal cada manhã…


A tradução a partir do castelhano é de José Bento, e foi incluida na já aqui diversas vezes citada Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea publicada por Assírio & Alvim.

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Lembrar a poesia de Manuel da Fonseca no ano do centenário

02 Sexta-feira Set 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Baptista-bastos, Manuel da Fonseca

É talvez chegado o tempo para a poesia de Manuel da Fonseca (1911-1993), afastadas que estão as circunstâncias do combate ideológico e politico de que ela foi bandeira.

As teses académicas, a fortuna e o desprezo, fizeram o seu caminho. É tempo de a ler despidos os preconceitos ideológicos, e seguir, nesta poesia descritiva, a encantatória melodia das palavras.

Escolho o poema MALTÊS, que abriu o livro Planície publicado na colecção neo-realista Novo Cancioneiro, julgo que em 1941.

Nesta história de vida de um Maltês, (será que ainda há quem sabe quem eram?) passa, no pudor de uma forma contida, a dimensão da tragédia de um homem, indomável, em luta para existir, quando nada tem de seu.

Segui-mo-lo na busca pelo caminho – esses outros caminhos que só eu sei – (al andar se hace el camino, escreveu por estas alturas António Machado), no confronto com o poder e na rendição ao mais forte:

 – E enquanto eles redobravam / sobre o meu corpo tombado, / adormecido  / eu descansava  / de tão longa caminhada!…

No percurso surge o amor entrevisto num olhar, e  poucas vezes teremos tido em português a paixão pelo olhar, tão cara à poesia portuguesa desde o século XVI, como nestes versos:

– Que nunca mulher alguma / se rendeu mais a um homem / que a moça do rosto claro /ao cruzar os olhos pretos / com o meu olhar de rei!

MALTÊS

I

Em Cerromaior nasci.

 

Depois, quando as forças deram

para andar, desci ao largo.

Depois, tomei os caminhos

que havia e mais outros que

depois desses eu sabia.

 

E tanto já me afastei

dos caminhos que fizeram,

que de vós todos perdido

vou descobrindo esses outros

caminhos que só eu sei.

II

Veio a guarda com a lei

no cano das carabinas.

 

Cercaram-me num montado;

puseram joelho em terra;

gritaram que me rendesse

à lei dos caminho feitos.

Mas eu olhei-os de longe,

 o rosto apenas virado,

que só vi em meu redor

dez pobres ajoelhados

perante mim, seu senhor.

III

Gente chegou às janelas,

saíram homens à rua:

 – as mães chamaram os filhos,

bateram portas fechadas!

 

E eu, o desconhecido,

o vagabundo rasgado,

entrei o largo da vila

entre dez guardas armados;

– mais temido e mais amado

que o deus a que todos rezam.

– Que nunca mulher alguma

se rendeu mais a um homem

que a moça do rosto claro

ao cruzar os olhos pretos

com o meu olhar de rei!

IV

…E vendo que eu lhes fugia

assim de altiva maneira

à sua lei decorada,

lá,

longe do sol e da vida,

no fundo duma cadeia,

cheios de raiva me bateram.

 

Inanimado,

tombei por fim a um canto.

 

E enquanto eles redobravam

sobre o meu corpo tombado,

adormecido

eu descansava

de tão longa caminhada!…

Quando da morte do escritor, Baptista-Bastos evocou o amigo no jornal Público. Refere a dado passo um episódio que, pela exemplaridade, nos dá uma medida do homem por detrás do poeta, e que aqui transcrevo:

Em outra ocasião, meados dos anos 50, as aflições de dinheiro levaram-no a tentar um emprego que lhe garantisse o arredondar da conta no final do mês. Falou com Aquilino Ribeiro, editorialista de “O Século” e da intimidade de João Pereira da Rosa. “Um lugarzito até como telefonista, na redacção do matutino”, foi a modesta solicitação. O encontro entre o todo-poderoso patrão de “O Século” e Manuel da Fonseca foi aprazado. E Manuel compareceu.

O gabinete de Pereira da Rosa era enorme, grave e intimidante, a condizer com o temperamento e o carácter do director do jornal. Pereira da Rosa recebeu-o com manifesta melancolia: “Sabe, senhor… como disse que se chamava? Manuel Fernandes? Luis da Fonseca? Sabe? A imprensa portuguesa está a atravessar uma crise medonha, terrível…” Manuel da Fonseca sentia-se muito pouco à vontade, mas escutava, atento e paciente, o estendal de misérias preocupantes. Dizia Pereira da Rosa: “Quando vou a Paris, e vou a Paris com frequência, coloco-me junto das saídas do metro, e que vejo? Vejo os franceses a comprar dois ou três jornais, duas ou três revistas, que lêem e atiram, depois, para o caixote do lixo. Em Madrid, em Barcelona, em Roma, a mesma coisa. Aqui é uma desgraça. Uma grande e dolorosa desgraça. As pessoas  compram um jornal, por exemplo, à porta dos cafés, pagam metade do preço aos ardinas e, depois devolvem o exemplar, que vai para devoluções, claro, empobrecendo, cada vez mais, as empresas. Uma desgraça sem solução aparente, senhor Luís Fonseca ou Manuel, desculpe-me, não tenho boa memória para nomes…”

Lentamente, muito lentamente, Manuel da Fonseca ergeu-se da cadeira onde, discreto, estivera sentado. Meteu a mão no bolso, extraiu de lá a última nota de vinte escudos que possuía, estendeu-a a João Pereira da Rosa e disse: “Desculpe a modéstia da oferta, senhor Roseira da Prosa, mas é a esmola que lhe posso dar para acudir aos seus infortúnios.”

As histórias, os episódios, os acontecimentos que protagonizou ou de que foi testemunha activa são numerosos. Manuel da Fonseca encarnou uma época, representou um estilo e criou uma personagem tão lendária e tão fabulosa quanto aqueles que amava e que transfigurou, sem desfigurar, em páginas e páginas admiráveis.

Em ano do centenário aqui fica, parcialmente, este texto notável, arquivado entre as páginas de um jornal diário e esquecido na voragem da edição seguinte.

O texto saiu no Público de 12 de Março de 1993.

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